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montesclaros.com - Ano 23 - domingo, 4 de junho de 2023


Maria Luiza Silveira Teles    [email protected]
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Por Maria Luiza Silveira Teles - 29/11/2019 13:57:42
A ALEGRIA DAS PEQUENAS COISAS

Sou acordada toda manh por uma orquestra especial: o canto dos mais diversos pssaros que visitam meu jardim e meu quintal. Ao fim da tarde, sento em minha varanda para receb-los. um presente que me oferecido gratuitamente pela natureza. E, quando deso para o centro da cidade, vou observando as rvores em flor, os transeuntes caminhando, os novos prdios, a bela arquitetura que se desenha por nossa cidade. um prazer incomparvel! Parece que nasci apaixonada pela beleza das pequenas coisas. A primeira casa em que moramos, na Rua Santa Rita Duro, nos Funcionrios, em Belo Horizonte, casa essa que havia sido de meu av materno, foi o meu pequeno mundo em meus primeiros trs anos de vida. Logo que fiquei de p, comecei a explorar aquele mundo encantador e fascinante. As portas tinham maanetas esmaltadas com delicadas pinturas e me demorava a contempl-las. Tudo ali me marcou to profundamente que, ainda hoje, sou capaz de descrever cada canto daquela casa. Lembro-me at da laranjeira e do p de conde que havia no quintal. Da varanda e da escada que dava para o jardim. Tudo ali me deslumbrava! Como tambm me encantavam as pessoas que l entravam, principalmente os parentes de papai que vinham daqui do Norte de Minas e l se hospedavam. Eu me apaixonava por todos eles: minha av, minha madrinha, minhas primas j adultas. Acho que foi naquela casa que aprendi a ser feliz, sem nada exigir da vida seno aquilo que ela me oferece gratuitamente. Percebo as pessoas to atormentadas pelas coisas do dia-a-dia, sem se darem conta da beleza que nos cerca e nos oferece a oportunidade de sermos felizes e pacficas. O planeta to lindo e, em especial, o nosso pas. Mas, tem gente cujo sonho viajar pelo mundo, sem nunca ter conhecido a beleza da Amaznia, as praias do Nordeste, o mundo encantador e europeizado do Sul. Por que desejar o que est to longe e exigir tanto de ns para alcanar quando tudo de bom e bonito est ao alcance de nossos olhos? No podemos evitar as tristezas da vida como a doena e as perdas. Elas fazem sofrer, mas, como tudo, tambm so passageiras. Acho que ser feliz uma escolha que fazemos. Vivo as dores e alegrias com grande intensidade. Porm, elas no me fazem deixar de ser feliz e de viver em paz. Deixo a vela queimar at o fim e pronto. Procuro no olhar demais para o passado, nem cultivar as dores. Escolhi ser feliz, independente dos acontecimentos. Acho que nasci com a vocao para a felicidade, mas claro que a idade ajuda muito. No pretendo ensinar nada a ningum, h muito deixei a sala de aula. Acho que cada um tem o seu caminho e encontra a sua frmula para viver sem grandes deslizes ou sofrimento, O que percebo, entretanto, que, depois do smartphone e das redes sociais, as pessoas vivem mais pensando na vida dos outros e deixam de saborear a delcia da convivncia, dos olhos nos olhos, do abrao e dessa interao que nos ajuda a crescer em humanidade, como tambm, mais do que nunca, esto perdendo o precioso hbito de ler livros. A vida, porm, me ensinou algo muito importante: s tenho controle sobre minha prpria vida e sobre minhas reaes. Aprendi que, quanto mais gratido por aquilo que parece banal, mais coisas boas e pessoas boas vm at ns. Respirar plenamente, acordar de manh, movimentar-se, enxergar, ouvir, ter o corao batendo no ritmo, um crebro capaz de observar e raciocinar, ter um emprego, famlia que nos ama e se importa conosco no so coisas banais, so privilgios que no so dados a todos. Por isso, comeo meu dia agradecendo por tudo, inclusive por ter condies de tomar um farto caf da manh. um conselho que dou queles que desejam viver bem e em paz: agradeam por aquilo que so e por aquilo que tm. E tornem-se mais observadores do que lhes vive e acontece no entorno. Andava triste por ter uma avalanche de pensamentos e no estar conseguindo escrever absolutamente nada. Sendo que ainda tem um fator agravante da situao: a idade nos torna perigosamente rigorosos, o que nos leva a achar que tudo que produzimos pura besteira. Entretanto, percebi que no valia pena aborrecer-me com isso. Desde que comecei a escrever, sempre vivi alguns vcuos criativos e fiquei muito feliz ao tomar conhecimento de que isso costuma acontecer com os mais criativos escritores. Como eu, uma pobre escrevinhadora, no os teria? Alm disso, os grandes escritores tambm rasgavam muitas obras e as abandonava, pensando o mesmo que eu. Ento, vejam: pequenos contratempos no merecem de ns nem mais um cabelo branco! O que importa mesmo cultivar sempre a alegria e o otimismo porque, afinal de contas, tudo passageiro demais. Vamos aproveitar a beno dessa vida e dessa maravilhosa viagem pelo planeta Terra.

Maria Luiza Silveira Teles (membro da Academia-montesclarense de Letras)


83821
Por Maria Luiza Silveira Teles - 12/2/2019 14:59:57
DE TRAGDIAS E SINOS QUE DOBRAM

Era uma vida pacata. No entorno, a paz. A paz da natureza belssima, do murmrio das guas, do gado pastando, das galinhas ciscando, dos gritos dos soins... Aquele verde que acalma e traz o deslumbramento da obra perfeita do Criador. Por perto, a grandeza da arte, a hospitalidade e a bondade de um povo simples e trabalhador. Aquela vida de vizinhos amigos, comadres que trocam receitas, utenslios e temperos e se encontram ao redor do fogo de lenha ou nos banquinhos em frente das casas.
De repente, porm, o monstro adormecido abre sua bocarra medonha e vai engolindo o que encontra pela frente. Na gula desmedida no perdoa gente, nem moradias, nem guas, nem bichos... A tudo destri e no seu rastro a morte, o lamento, o choro e o ranger de dentes...
Ningum para abater aquele monstro? J no bastava a beleza das serras destruda? Filho do satans da ganncia e da ambio desmedidas de homens que criaram o monstro, homens sem piedade, sem misericrdia, cegos pelos prprios demnios que vivem dentro deles mesmos, apenas projetando-os fora de si. Homens vazios de Amor.
Aquela dor incomensurvel sacudiu um pas inteiro. Galvanizou as pessoas que, num choro convulsivo, levantaram-se a pedir justia. Mas, ser que existe realmente justia humana no planeta Terra?
As tragdias se sucederam e as lgrimas no conseguiram secar... Os peitos arfavam diante da dor e do medo. Dormir passou a ser algo difcil. A impresso que todos tinham que a noite e a tempestade de suas vidas eram interminveis.
Mas, existe algo que o ser humano comum carrega dentro de si e que o faz sobreviver s guerras, s catstrofes, s desgraas de qualquer ordem: a Esperana e a F. Assim, re- constroem o que foi destrudo. H feridas, porm, que nunca cicatrizam, h traumas que nunca se curam... Entretanto, nada desculpa para o Crime. A paz s pode voltar s nossas vidas quando os crimes so punidos.
Estamos tristes e mais pobres. Pelas centenas de vidas que se foram, pela natureza corrompida em sua pujana, pelos sonhos estraalhados daqueles meninos, por uma voz importante que se calou... E, agora? a pergunta que todos se fazem. E essa sede e essa fome?
O homem deve ter direito Vida, vida plena. A natureza deve viver na sua exuberncia, sem ameaas ou ataques. Os sonhos devem se tornar realidade. Uma voz lcida deve poder gritar. No temos controle sobre os fatos inexorveis da vida. Porm, temos controle, sim, sobre certo grau de segurana e paz. No zelar por isso crime, injustia que clama aos cus.
Quando o Homem vai aprender? Por que a gente sofre pela dor do Outro? Por que nos comovemos diante da tristeza de outrem, do sofrimento dos bichinhos e da Natureza? Porque somos uma s famlia: a famlia humana. Porque Natureza e ns somos uma coisa s. Todos somos Um. Aquilo que atinge a um atinge a todos. Bobagem pensar o contrrio. Pobres daqueles que vivem como se isso no fosse uma verdade gritante!
Lembremo-nos das palavras de John Donne: Nenhum homem uma ilha, completa em si mesma; todo homem um pedao do continente, uma parte da terra firme. A morte de qualquer homem diminui a mim, porque na humanidade me encontro envolvido; por isso, nunca mandes perguntar por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.
E eu digo mais: quando natureza, homens e bichos morrem, eu tambm morro com eles.

Maria Luiza Silveira Teles (membro da Academia Montes-clarense de Letras)




83613
Por Maria Luiza Silveira Teles - 15/10/2018 17:53:22
O MESTRE GEORGINO JNIOR

Meus olhos cegos de poeira e dor,
Tudo previsto pelos livros santos,
Que s no falam que o sonho acabou.


A beno, Mestre! Mestre no conhecimento, na inteligncia, na lhaneza, na generosidade, na arte, na poesia. Mestre de todos os montes-clarenses.
Ns te reverenciamos por tudo que representaste em nossa vida e na vida cultural de Montes Claros, cidade que tanto amaste.
No h como expressar a nossa dor e a saudade! Tua cidade amanheceu triste e nublada, mas, com certeza, por trs das nuvens, paira a luz que de ti emana. Porque a verdade que no foi agora que te tornaste estrela, sempre o foste.
Bem mais velha, pude acompanhar toda tua jornada. Eras ainda criana, quando comecei a escrever no recm-fundado Dirio de Montes Claros. Logo, porm, j lia tuas belas crnicas no outro jornal, onde, mais tarde, seramos colegas.
Nossas famlias sempre foram amigas. Teu pai foi colega do meu na Academia Militar e, ao chegarmos a Montes Claros, uma das nossas primeiras obrigaes foi visitar tua casa, onde no pude distinguir-te no meio da grande meninada. Afinal de contas, eu tinha dezesseis anos e tu no mais do que uns oito.
Mas, logo, logo, comeaste a brilhar nas artes, na poesia, no jornalismo. Como no conhecer e respeitar o filho do Comandante, que j se destacava extraordinariamente na Cultura?
Graas a Deus, a minha admirao no ficou apenas de longe. Tive a graa de conhecer-te de perto e tornar-me tua amiga. Sei bem que a admirao era mtua, E, muitas afinidades nos aproximavam.
Sei o quanto gostavas da solido e de tua toca. No entanto, tu te obrigaste a sair dela quando foi para colocar-me na Presidncia da Academia Montes-clarense de Letras, gesto que jamais vou esquecer.
Pelo Facebook, nos falvamos todos os dias. Sem tua verve, porm, o face e toda a cidade se tornaram de uma pobreza enorme. E teu fino humor?
Ah, Jnior, como vamos viver sem tua presena? Bem sei que tudo que fizeste uma herana eterna. Entretanto, onde fica teu humor matinal? Talvez a, no plano em que te encontras, provavelmente junto a muitos de teus colegas e entes queridos... Mas, e ns?
Ah, preciso contar-te o que talvez no viste: teu velrio, apesar da dor, foi uma linda festa. Com lgrimas nos olhos, todos cantvamos as belssimas msicas que fizeste junto com teu irmo, Tino Gomes, o aniversariante do dia.
Muitos se perguntavam: Como Jnior fez isso? Partir no dia do aniversrio de seu grande amigo e parceiro? Mas, eu compreendo. A tua partida foi talvez o maior presente que poderias dar a ele. Ela dizia: Meu irmo, a morte no existe. No vs como continuo to vivo dentro de ti? Vim na frente para esperar-te quando estiveres pronto para continuar a Jornada.
No h como as geraes futuras te esquecerem. Todas as vezes que algum cantar o hino no-oficial de Montes Claros, havero de se lembrar de ti.
Hoje comemoramos o dia do Professor, esse artfice de almas. Parabns, Mestre! Tu no foste apenas professor de teus alunos da UFMG. Foste professor de toda uma cidade. Somente um imenso amor pode ser a recompensa por tanto. E, estou certa, tens o amor de toda a nossa querida comunidade, essa cidade que no foi nosso bero, mas que to bem nos acolheu.
Obrigada, meu amigo, obrigada por tudo! Perdoa-me se minhas palavras no esto altura de ti. que foste um monstro sagrado e eu sou apenas uma pobre escrevinhadora.

* Maria Luiza Silveira Teles (membro da Academia Montes-clarense de Letras)



83286
Por Maria Luiza Silveira Teles - 6/5/2018 01:28:11
NADAMOS NO MESMO RIO

A verdade que, nos silncios de ns mesmos, nos bastidores de nossas almas, vamos urdindo as tranas de nossas sagas com os sonhos roando as estrelas e os ps, tantas vezes, pisando em cardos e solos bastante incertos.
No h nada de previsvel em nossas vidas. Elas simplesmente vo fluindo como os rios em remansos, rochas, abismos e ventanias. Hoje tudo est colorido. O sol brilha radiante. Amanh, nas trilhas tortas de nossas andanas, as tempestades e as noites negras nos pegam pelo caminho.
No h como mudar isso. Podemos mudar a ns mesmos, as nossas atitudes, os nossos pensamentos diante dos acontecimentos que, tantas vezes, nos atropelam. No h, porm, como mudar o curso da vida. Ela como : efmera e em eterna mutao.
Todo ser humano que pensa com profundidade, se dedica reflexo, tomado pela angstia. Alis, a angstia caracterstica das grandes inteligncias, dos gnios, dos artistas. a angstia que nos leva a criar. A vida aqui pouco para quem pensa. Por isso existe a Arte e a necessidade da transcendncia. Necessitamos explodir de alguma forma e o fazemos num poema, numa pintura, numa escultura, numa msica, seja l como for. A angstia persegue o filsofo e o poeta principalmente.
Somente os bobos so alegres sempre porque vivem na superficialidade. Mas, mesmo esses tm os seus dramas, vivem suas noites de agonia porque a dor no poupa ningum. A dor nos iguala a todos.
A resplandecncia do mundo que nos encanta, ao mesmo tempo, leva aqueles que tm a cognio intrpida a se depararem com as perguntas sem respostas, as dvidas, as incongruncias.
O desconhecido nos fascina e nos atemoriza. difcil para o ser humano abandonar a sua zona de conforto e segurana. Durante toda a minha vida tenho percebido traos de melancolia e de angstia em todos os grandes homens que conheci no meu dia-a-dia, assim como na Histria da Humanidade e nos grandes pensadores. Freud e Jung, dois grandes gnios, costumavam desmaiar ao comprar uma passagem de viagem. Nietzsche e Schopenhauer sofriam muito com suas crises de angstia. O grande problema que ns, pobres mortais, no somos mais que uma msera partcula no Universo e, no entanto, imaginamos dominar o campo do Conhecimento quando o que sabemos de tudo apenas uma ligeira fresta da Verdade. Conhecemos a ponta do iceberg.
Acredito sim que a F nos sustenta, no a f cega e pueril de dolos e rituais, mas a F que se alicera na Lgica e na Espiritualidade verdadeira e profunda. Entretanto, quando se pensa demais, todos ns temos momentos em que titubeamos na prpria f. Por isso a grande maioria prefere fugir de pensamentos profundos e abrangentes. Tm muito medo de perder os alicerces que os mantm e os ajudam a sofrer menos.
A nica verdade que, pensadores ou no, nadamos no mesmo rio. Somos levados pela mesma correnteza. De nada vale pensar que alguns so diferentes de outros. Estamos no mesmo barco. Misturamo-nos ao prprio rio e nos assustamos com a possibilidade de nos perdermos no Oceano. Esse o grande preo que temos a pagar por sermos animais racionais e os nicos que tm conscincia de sua prpria morte.
E pior do que isso ter que viver no meio de criaturas que nem pensam, mas simplesmente se deixam levar pelo pensamento de outros.

Maria Luiza Silveira Teles (membro da Academia Montes-clarense de Letras)


83163
Por Maria Luiza Silveira Teles - 8/3/2018 17:39:16
Minha homenagem de hoje

Maria Luiza Silveira Teles


Hoje, Dia Internacional da Mulher, minha lembrana se foca principalmente em uma, que passou por minha vida e abriu caminhos para a Mulher em Montes Claros: minha me. Nunca quis aparecer, nunca foi mulher de sociedade, de buscar brilhos, mas deixou sua marca naqueles que com ela conviveram e em seus muitos alunos de ioga. Sempre ressaltava: Consegui formar um s: Renilson Dures.
Zez Silveira, como era conhecida, advinda do sul de Minas, filha de famlias portuguesa e alem, aqui veio parar, no fim da dcada de 50, acompanhando meu pai, Geraldo Tito Silveira. E, logo, abalou a provinciana cidade de Montes Claros com seus costumes bastante avanados para a poca.
Criada na capital e acostumada a frequentar o Minas Tnis Clube, onde nadava, fazia ginstica e jogava voleibol, chegou Praa de Esportes e, em horrio masculino, mergulhou na piscina, sem tomar conhecimento, e foi, depois, jogar vlei com os homens, enquanto seus filhos se divertiam pela Praa. Foi um enorme ti-ti-ti na cidade... Mulher jogando vlei e com homens? Nadando em horrio masculino? Um escndalo! Como podia ser uma mulher direita algum que se atrevia a tanto? Depois, ainda mais, dirigindo jipe, caminhonete, resolvendo negcios, conversando com homens, entrando no Batalho?
Ela, porm, jamais se preocupou com aparncias ou com que outros comentavam. Vivia sua vida e jamais se preocupava com a vida dos outros a no ser quando algum que conhecia estava em sofrimento ou precisava dela por algum motivo. Costumava dizer: S tenho satisfaes a dar a Deus e ao pai de vocs.
Era uma mulher forte, corajosa, de porte elegante, parecendo para muitos como orgulhosa. Entretanto, na intimidade, era de uma simplicidade incrvel, embora tivesse nascido em famlia rica e aristocrata, escandalizava at os seus, de ares muito refinados, com sua simplicidade.
Depois dos sessenta anos, j av de vrios netos, formou-se em duas faculdades e aprendeu snscrito, para meu grande espanto. Disse-lhe que tiraria o chapu para ela se conseguisse aprender essa lngua morta e ela me surpreendeu. Quando foi prestar exames junto UFMG e a PUC, eu lhe disse: Desista, mame, isso no importa, a senhora no vai conseguir!, pois a danada, com sua teimosia to peculiar, conseguiu brilhar.
Trabalhou at alm um pouco dos oitenta anos como Mestra de ioga (ela me mataria se me visse escrever ioga com i, pois, em snscrito, a palavra escrita com y...).
Sempre falava com carinho de suas velhinhas. Eu perguntava sempre: Quem so elas, mame? e ela me respondia sempre: Quer conhec-las? Visite-as comigo. Mas, eu no me animava. Certo dia, porm, ela demorou-se em Belo Horizonte por causa de uma cirurgia que complicou. A, eu que j morava com ela, atendia telefone, a todo o momento, com mulheres de vozes bem prprias da idade avanada a perguntar por ela. Acabei cansando-me e perguntei a uma delas: Quem a senhora, qual seu nome, por que tantas mulheres idosas ligam atrs dela?. E ela me respondeu: porque ela traz a cesta bsica para a gente todo ms e esse ms ela ainda no veio. A, eu entendi tudo. Ela cumpria fielmente os preceitos de nosso Mestre Jesus: Que sua mo esquerda no saiba o que faz a direita. Quando ela voltou, passei a ir com ela nas visitas s suas velhinhas e tive o enorme prazer de conhecer criaturas fabulosas como dona Negrinha, com seus quase cem anos. Trocvamos versos...
Hoje, oito de Maro de 2018, quero homenagear mame, essa criatura maravilhosa, que soube criar com dedicao seus seis filhos e ainda tinha tempo para o marido, suas aulas, seus estudos, seus esportes, seus Congressos, seus passeios, suas leituras, seus amigos e suas velhinhas.
Alm dela, quero homenagear essas annimas criaturas, hoje em outra dimenso, assim como ela, mulheres esquecidas por suas famlias e pela sociedade, mas que mostravam em suas rugas o quanto haviam lutado, e, com seus sorrisos, sabiam valorizar e amar quem nunca se esquecia delas.

Maria Luiza Silveira Teles (membro da academia Montes-clarense de Letras)




82950
Por Maria Luiza Silveira Teles - 10/12/2017 15:58:48
ENCONTRO FATAL

Hoje, mais uma vez, assisti ao extraordinrio filme Lendas da Paixo, com Brad Pitt e Anthony Hopkins. E, como sempre, me emocionei e chorei.
Resolvi, ento, perguntar-me porque choramos em cenas em que algum dos personagens morre, assim como choramos quando perdemos algum ente querido.
Diante do filme choramos por empatia, isto , olhamos a cena como realidade, mesmo conscientes de que fico, e nos transportamos para as situaes reais diante da probabilidade de perder algum querido ou nos lembramos de quando isso j aconteceu.
Bem, at a, nada de novo. Entretanto, examinando o meu interior, com extrema sinceridade e realidade, descobri que, diante da morte, choramos mais por ns mesmos. Choramos diante de nossa prpria morte iminente. Choramos porque sabemos que iremos embora, sem saber quando nem como, e muitos sonhos morrero conosco. Como dizia o grande poeta John Donne: No pergunte por quem os sinos dobram. Eles dobram por voc.
Mesmo acreditando na eternidade de nossa essncia, sabemos que no teremos tempo para realizar tudo que sonhamos algum dia. Um livro ficar sem ser escrito ou inacabado. No leremos tantas das obras que guardamos para a velhice. No terminaremos aquele quadro, aquela sinfonia ou aquele poema. No faremos aquela visita que pretendamos ou aquele encontro de velhos amigos. Nem tampouco escreveremos aquela mensagem para algum que amamos.
Bobamente, as tarefas ficaro inacabadas, o lugar na mesa vazio, as roupas inutilmente dependuradas no armrio e os chapus no cabideiro.
Percebo, com tristeza, que o cenrio de minha vida, como numa pea teatral, vai aos poucos se modificando at que caia o pano final.
Meus velhos amigos, um a um, esto indo embora. Meus pais se foram, meu filho, companheiros, ex-namorados, professores, colegas de trabalho, ex-alunos, pessoas proeminentes no tempo de minha juventude e maturidade.
Um dia, um meu irmo e eu fomos ao cemitrio visitar o tmulo de nossos pais. L nos perdemos e eu, j cansada de tanto andar, sentei-me em um tmulo, enquanto meu irmo ia Secretaria do Cemitrio para saber onde ficava a dita sepultura. Esperando por ele e tentando esconder-me do sol, virei-me e dei de cara com a inscrio do tmulo: era de um ex-aluno que eu nem sabia que tinha morrido. Choquei-me e, refeita, fiz uma prece por ele.
Geralmente, nos velrios, as pessoas se abraam com efuso, conversam bastante e contam anedotas e piadas. Tudo por qu? Para esquecerem que, breve, sero elas que estaro ali no caixo.
Choramos por ns mesmos. Porque sabemos que no podemos voltar atrs e consertar os nossos erros. No teremos condies mais de pedir perdo queles que ferimos e que j se foram. Mesmo com o corpo fsico j envelhecido, sem a energia, nem a elegncia e a beleza da juventude, nossa alma ainda tem a mesma necessidade de amar e ser amado e de sonhar. Entretanto, em qualquer esquina da vida, inesperadamente e inexoravelmente, esbarraremos nela num encontro talvez previamente marcado. Ela que marcar o fim de uma bela viagem.
Nessa viagem fizemos relacionamentos cujo amor e cuja ligao sero eternos, mas no temos a certeza de que com eles voltaremos a nos encontrar . como quando fazemos uma excurso com aquele bando de gente. Dentre esses alguns se tornaro nossos amigos. L, durante a viagem, faremos tudo juntos. Iremos juntos para a praia, jogaremos juntos partidas de baralho, iremos juntos ao cinema, ao barzinho, e teremos papos gostosos e interminveis. Um dia, a viagem acaba e nos despedimos emocionados, jurando que nossa amizade ser para sempre e que voltaremos a nos encontrar. A lembrana fica. Entretanto, muitas vezes as circunstncias de nossas vidas nos separam e nunca nos reencontramos.
Com diz e canta Oswaldo Montenegro em sua bela cano A Lista: Faa uma lista de grandes amigos / Quem voc mais via h dez anos atrs / Quantos voc ainda v todo dia / Quantos voc j no encontra mais. Pois ...
Como no filme, da mesma forma que o Ariston (Brad Pitt), cansei-me de enterrar meus mortos. Mas, no posso nem quero sumir como ele pelo mundo. Quero ficar aqui nessa terra que no foi meu bero, mas que me acolheu, e ser, decerto, meu tmulo.

Maria Luiza Silveira Teles (presidente da AML)


82910
Por Maria Luiza Silveira Teles - 27/11/2017 13:20:06
O INCRVEL ARISTNIO CANELA

Os gnios so raros. A histria cultural de Montes Claros tem registrado uma srie de homens fenomenais no campo das Letras. Entretanto, conheci poucos que classificaria como gnios.
Os gnios so criaturas fora do comum, cujo crebro trabalha de uma forma extraordinria como que num plano diferente daquele em que transita a mdia dos seres humanos. Por isso, inclusive, difcil para eles se adaptarem a um mundo to estranho quilo que ele pode captar da realidade e imaginar. Sua leitura e interpretao nos escapam, pois estamos longe de alcan-los.
Muitos pensam que o mrito de um escritor est no nmero de obras que produz. Isso, entretanto, no verdadeiro. Ele pode escrever uma nica obra e, no entanto, ser genial e seu nome ficar para a posteridade. A Histria est a para comprovar isso. Margaret Mitchell, escritora americana, escreveu uma nica obra que a imortalizou: E o Vento levou....
Cyro dos Anjos outro exemplo de escritor que produziu relativamete pouco, mas que excepcional. Nunca a literatura brasileira haver de esquecer O Amanuense Belmiro.
Estou tendo, na atualidade, a chance de conviver com um gnio, ainda pouco conhecido no meio cultural de Montes Claros. Isso porque ele no tenta aparecer. Como todo gnio, produz no silncio, na solido, no anonimato e sem necessidade de fazer propaganda de si, pois, fatalmente, sua genialidade h de se mostrar em sua obra.
Seu crebro febril e ele, uma criatura multifacetada, produz no campo da literatura, da msica, do teatro. Poeta, compositor, contista, novelista, romancista e, ainda por cima, um excelente ortopedista.
Sobre o espetculo produzido, dirigido e atuado por ele em O Feitio do Tempo, espetculo esse apresentado pela Academia Montes-clarense de Letras para mostrar a qualidade de seus membros, disse a doutora em Literatura, Ivana Rebello: E por tal essncia fui tomada (...) numa noite de um dos mais belos espetculos que a cidade de Montes Claros conheceu. Msica bem executada, teatralidade, cenrio, luz e voz... E eu, amante confessa da arte, olhava para Lara, de apenas 9 anos, que assistiu a tudo inebriada. Falo do espetculo O feitio do Tempo, concebido e dirigido por Aristnio Canela.

Tenho, desde muito nova, vivido num meio cultural bastante elevado e li os clssicos assim como os grandes escritores da atualidade. Varei noites de minha vida, desde a infncia, lendo. Ultimamente, j no leio tanto por causa da baixa viso, mas, mesmo assim, me esforo e lano mo de tudo que posso para no abandonar meu hobbie favorito. E sei bem, no apenas pela minha formao em Psicologia, mas por minha experincia com a literatura e como consultora editorial que fui durante muitos anos, distinguir quando me deparo com um gnio. E estou certa em afirmar que Aristnio Canela um gnio.
Dono de uma sensibilidade e sensualidade incomuns, Aristnio derrama em sua obra, seja musical, seja literria, todo o seu talento, realismo fantstico, romantismo e sensualidade. E tem a prosa caracterstica de sua mineiridade, ou melhor ainda, mineiridade sertaneja.
Com apenas doze anos, escreveu uma obra inesquecvel, que publicaria anos depois: O Guerreiro.
Imaginem uma criana de doze anos escrevendo: Era uma vez um caminho. Desses pequenos, quase sem caminheiros. Valente, permanecia tenaz, bamboleante rasgando gerais. No seu solilquio, apenas florinhas do campo lhes eram fiis companheiras..
Ele mesmo se descreve na obra citada:
Alma impetuosa, trigueira,
(...) Sou msica,
Encanto da alegria.
(...) Do poema, sou angstia.
(...) Passageiro de chuvoso vero.
(...) Sou brisa terna.
(...) Chama viva,
Imortal.
Reverso do amor pago,
Sou.
E sou voc de cabelos brancos.

Como pode uma criana j se descrever de maneira to incrvel? Acho que posso dizer que o conheo bem, hoje j na terceira idade, e posso afirmar que ele como se descreve nesse poema da infncia. Capaz de gestos extremos de ternura e exploses de raiva.
Sua mente fervilhante. No descansa. Ele escreve trs obras, ao mesmo tempo em que compe novas msicas e imagina outras peas teatrais. E, no campo da Medicina, opera com maestria como me relatou um seu colega de profisso.
Sua cultura em todos os campos tambm algo fora do normal. No entendo como um mdico capaz de falar, com profundidade, sobre os filsofos e suas teorias, os grandes mestres da Psicologia, os autores expoentes da Literaturta Brasileira e Mundial e sobre Msica. Mas, tambm, ele tem a gentica de outro gnio que foi seu professor: Cndido Canela.
Assim como eu, ainda jovem, j tinha o hbito de visitar Cndido para sorver de seu talento e cultura, hoje Aristnio me visita em tardes memorveis de conversa. E, nessas tardes, to alegres, em que posso gozar de sua genialidade, eu me sinto bem pequena! Hoje ele, como seu tio,o meu mestre. Posso perceber que Aristnio foi uma bela herana que o meu amigo Cndido me deixou para que minha velhice no fosse to triste.
Anotem esse nome porque, com certeza, ele, por seu talento, marcar a histria cultural de nossa terra.

Maria Luiza Silveira Teles (presidente da Academia Motes-clarense de Letras)






82844
Por Maria Luiza Silveira Teles - 31/10/2017 16:35:49
CHUVA NO SERTO


A to esperada chuva finalmente chegou. O cheiro de terra sobe e os sentidos se ampliam e se aguam. O calor escaldante que nos atormentava aliviado. As esperanas se renovam e o corao do sertanejo pula de alegria.
As plantas parecem cantar ao sabor do vento, agradecidas pela vida que explode, numa linda dana que enche nossos olhos.
preciso morar no serto e am-lo para se compreender o que a chuva significa para ns. Chuva vida, vida que se renova, vida que transborda. Ela nos traz a to desejada fonte indispensvel para que a vida possa existir. Ela a esperana de alimento farto.
To pouco temos cuidado da me-natureza, ou melhor, ns a temos agredido tanto, usufrudo dela como se todos os recursos que nos oferece fossem eternos e, como resultado, eles vo fenecendo e ns tambm...
Como soam maravilhosos aos nossos ouvidos os troves! Os mesmos troves que nos assustavam na infncia. Claro que no queremos temporais destrutivos, mas almejamos chuva abundante, chuva que caia forte e por bastante tempo, tempo suficiente para que os rios, regatos, lenis freticos, nascentes e barragens todos se encham e renasam.
A chuva no alimenta somente os nossos corpos, mas tambm as nossas almas. como uma msica que extasia nossos espritos e aviva a poesia que mora em ns. Chuva bendita! Minhalma em epifania!
A terra ressequida, sedenta, com suas feridas abertas e expostas, clamava por ela. Que sabem disso aqueles que moram nos grandes centros? Para eles a chuva um estorvo. Algo que atrapalha o trnsito, os passeios, o dia-a-dia. Para ns esperana de vida!
Sempre os passarinhos vm cantar em meu jardim e em meu quintal de manhzinha e tarde. Depois da chuva, passaram a festejar por todo o dia numa bela e diversificada cantoria. Provavelmente em busca do novo alimento que as plantas lhes oferecem e buscando seus amores a fim de renovar e perpetuar suas vidas. J percebo alguns ninhos em minhas rvores.
No ar o perfume mais aguado das flores. Promessa de mais e mais flores e frutos. As mangas e as pitangas j caem abundantes no cho molhado. E eu piso com gosto no barro para colh-las com prazer e alegria!
Novo ciclo se inicia. A generosidade da me-natureza responde prontamente. Todo o serto est em festa! E meu corao tambm.
Aleluia, aleluia! Ser que um delrio meu ou ouo foguetes, atabaques e bandolins?
verdade que o sol voltou, mas isso no nos tira a esperana, ou melhor, a certeza de que o tempo de chuva chegou ao serto.

Maria Luiza Silveira Teles (presidente da AML)






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Por Maria Luiza Silveira Teles - 19/10/2017 16:59:37

A PARTIDA DE UM PASTOR DE ALMAS


No o veremos mais em sua bicicleta e batina rota. Depois de toda uma vida dedicada ao outro, ele foi chamado de volta nossa ptria verdadeira.
Como um homem capaz de deixar toda uma cidade de luto e rf? Essa a reflexo mais importante que ele nos deixa. Numa era to materialista e voltada para o exterior, tivemos o privilgio de ter entre ns um verdadeiro discpulo de Cristo. Um homem de uma humildade incrvel, que jamais parou para pensar em si, mas viveu unicamente para servir.
Quando eu estava na Santa Casa com meu pai para morrer, ele apareceu do nada e perguntou: Onde est Geraldo? Eu e minhas primas estvamos na ante-sala, esperando o enfermeiro dar banho em papai. Eu respondi: aqui mesmo, mas ele est sendo banhado. Ele disse: No importa. Eu vim dar-lhe a uno dos enfermos e vou faz-lo aqui mesmo com vocs. Vamos todos nos dar as mos. E, juntos, o seguimos na prece de entrega do esprito de papai ao Senhor. Mas, quem o chamou? Nunca vou saber por que quando perguntei a ele a resposta foi:" No me lembro".
Meu pai o admirava muito. Sempre dizia: Aquele um padre de verdade. Ele me faz lembrar Dindinho Padre.
Dindinho Padre era o Padre Augusto Prudncio da Silva, primo de minha av e quem arrebatou meu pai, quando criana, e o levou de cavalo por toda a enorme parquia. Papai conta a sua histria no livro O Padre Velho. Para ns da famlia ele e ser sempre o Dindinho Padre.
No sei se por essa semelhana ou se realmente pelo que ele foi e pela beleza de sua vida, aprendi a amar muito o Padre Henrique, embora no seja catlica, nem tenha convivido com ele.
Hoje, o vazio tomou conta de mim. Perdi uma referncia. Sei que o abalo da hora, pois tenho certeza de que O Pai Maior reservou para ele um maravilhoso lugar na outra dimenso
Estamos vivendo uma poca em que a sociedade consumista e voltada apenas para o capital acabou por se tornar esquizofrnica, sendo os seus membros polarizados e apenas reativos, sem tempo nem vontade para se tornarem reflexivos.
Nesse momento de luto, devemos parar um pouco e lembrar que a vida um sopro que se apaga num instante. Depois de viver muitos anos e chegar velhice, compreendemos como tudo passa rpido.
Iremos todos para outro plano de mos vazias, assim como chegamos. S levaremos conosco a nossa essncia. Estaremos diante do Pai apenas com os tesouros que acumulamos nessa vida, isto , com nossas aprendizagens no campo da virtude.
J viram algum sentir falta de uma criatura ftil e cruel? No. Por esse ningum derrama lgrimas. Mas, hoje, choramos pela ausncia do Padre Henrique. Por qu? Porque ele agiu como um verdadeiro pai. Deu comida a quem tinha fome. gua a quem tinha sede. Agasalho a quem tinha frio. Ele acolheu com seu carinho e seu carisma todos aqueles que o buscaram em momentos de aflio, necessitados de conforto.
E fez muito mais: sabendo que o ser humano no necessita apenas do po, mas tambm do alimento espiritual e intelectual, ele criou verdadeiras escolas no somente para o ensino de disciplinas curriculares, mas verdadeiras escolas de amor.
Pessoas como ele, que espalham vibraes de amor e paz, ficam para sempre na memria dos membros da sociedade que ajudaram a transformar.
Padre Henrique Muniz exemplificou amor, humildade, abnegao e entrega absoluta. Estamos devolvendo-o ao Criador, mas seu exemplo ficar conosco como um farol a guiar-nos pelas noites sombrias e pelos rduos caminhos da Vida. Ele parte para a eternidade e fica na Histria de Montes Claros e no corao de todos ns.

Maria Luiza Silveira Teles (presidente da Academia Montes-clarense de Letras)


82628
Por Maria Luiza Silveira Teles - 27/8/2017 15:17:02
DRAMAS EXISTENCIAIS


Viver uma fascinante aventura. A vida cheia de beleza, mas tambm uma tragdia: isso est claro para quem quer que tenha suficiente inteligncia e sensibilidade para perceb-lo.
Alis, tive a oportunidade de ouvir um grande e renomado psiquiatra dizer: A vida s sempre alegre para os tolos.
Existem pessoas que tm grande inteligncia, mas no tm grande sensibilidade, assim como a recproca. Quando, porm, o homem dono, ao mesmo tempo, de grande inteligncia e sensibilidade, pode ter momentos alegres, mas jamais deixar de ter no fundo de sua alma um trao de melancolia.
Isto, porm, no significa, absolutamente, que, independente de acontecimentos externos, o homem possa ser feliz e tenha paz, porque esses sentimentos esto dentro do ser e dependem apenas da riqueza interior.
Felicidade e paz no significam ausncia de sofrimento. O sofrimento contingncia da vida. Ser feliz e ter paz, entretanto, so uma escolha e uma deciso, frutos de muito trabalho consigo mesmo e um verdadeiro autoconhecimento.
Os dramas existenciais sempre estaro presentes na vida do ser humano. O que no tira a beleza e o encantamento de viver.
O que importa aquilo que o sofrimento nos ensina. Como nos comportamos diante das tempestades que nos atingem, os males que nos afligem, as perdas que nos ferem, as doenas que nos limitam? Aceitamos, com resignao, aquilo que no podemos mudar, crescemos em espiritualidade, fortalecemos a nossa f, ou, pelo contrrio, nos revoltamos, desesperamos, amarguramos e nos tornamos cticos?
A vida nos ensina que o sofrimento faca de dois gumes: alguns, quanto mais sofrem, como um diamante sendo burilado, crescem em humanidade. Tornam-se mais bondosos, compassivos, tolerantes, solidrios. Outros desenvolvem uma revolta surda, silenciosa, que vai minando o seu ser, gangrenando-o.
No h como evitar o sofrimento. Por mais que sejamos privilegiados em fortuna, em sade, em inteligncia, em beleza, em afeto, em qualquer curva da estrada, ele nos espera. Sofrimento , pois, como dissemos, contingncia humana. Alguns sofrem mais, outros menos.
Assim como grandes estudiosos, penso que a f e o ideal apresentam um novo sentido definitivo para a vida, colocando-a como um projeto eterno e infinito.
A f, para quem a tem, destri a mentira do carter, que obriga o homem a se envergonhar de suas fraquezas no plano social. Com a f, o ser humano passa a abrir o seu corao para a vida e perceber o seu sentido maior.

Maria Luiza Silveira Teles presidente da Academia Montes-clarense de Letras




82598
Por Maria Luiza Silveira Teles - 15/8/2017 15:57:54
A CONVIVNCIA HUMANA

Maria Luiza Silveira Teles


Conviver no nada fcil. E, no entanto, a nica maneira de nos realizarmos como seres humanos, de nos encontrarmos e sermos felizes.
Talvez seja essa a cincia e a arte mais difcil, mas a principal da vida, pois, se no convivermos, atrofiaremos a humanidade em ns.
Por que, ento, to difcil? Porque requer desprendimento, corao aberto, humildade, altrusmo, saber ouvir e falar na hora certa e o saber sentir. preciso, sobretudo, saber amar e somente somos capazes de amar quando j percorremos o longo e difcil caminho do autoconhecimento e nos amamos e aceitamos como somos, conscientes de nossas qualidades e defeitos.
Para aprender a viver bem com o outro necessrio se faz que nos eduquemos e nos aprimoremos em todos os sentidos.
Se aprendermos a conviver, entender e respeitar nosso semelhante, tudo passar a ser mais fcil e o caminho nos trar felicidade e paz.
Esse tempo de aprendizagem, transformao e crescimento a nossa travessia. Lembrando Fernando Pessoa, H um tempo em que preciso abandonar as roupas usadas, que j tm a forma de nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. o tempo da travessia: e, se no ousarmos faz-lo, teremos ficado, para sempre, margem de ns mesmos.
Vivemos tempos estranhos. Quanto mais o homem evolui em cincia e tecnologia mais se materializa, se torna violento, se anestesia e sente solido.
As relaes se tornam descartveis, o sexo se banaliza completamente. Na sua busca desenfreada de prazer, o homem se v cada vez mais vazio e solitrio. Jogado em um mundo agressivo, no qual predomina a luta pela sobrevivncia do corpo e a manuteno do status, ele acumula todo um lixo psicolgico que pode contribuir para o seu mal-estar e complicar a convivncia.
Tantas vezes duas pessoas vivem juntas e no tm absolutamente nada a dizer uma outra: parece que um abismo as separa. Por qu? Os sentimentos no expressos, as mgoas recalcadas, pequenos ressentimentos que foram se avolumando, a direo diferente que cada uma delas toma, tudo isso vai separando-as pouco a pouco.
Enquanto as naes guerreiam, conflitos e batalhas maiores se do dentro de ns, quando a Bondade de nosso ser divino luta contra a selvageria de nosso ser profano e primitivo.
S exterminando os monstros que vivem dentro de ns poderemos deixar florescer a beleza do projeto divino que somos.
Mas, que monstros so esses? O monstro do egosmo, da vaidade, do orgulho, do desamor, da mgoa, da inveja, da raiva. Se esses no morrerem, jamais o projeto divino poder se cumprir.
Esses monstros havero sempre de atropelar toda e qualquer tentativa de construir um relacionamento sadio. Somente combatendo-os, pois, estaremos prontos para uma convivncia que nos far crescer como seres humanos
A existncia de uma terrvel polaridade existente hoje na sociedade brasileira se deve ao fato de as pessoas se deixarem dominar por esses sentimentos negativos e no saberem conviver, pois, com a pluralidade das idias.

* Maria Luiza Silveira Teles (presidente da Academia Montes-clarense de Letras)


82551
Por Maria Luiza Silveira Teles - 23/7/2017 15:21:24
RAQUEL MENDONA, A GUERREIRA DA CULTURA

Eu a conheci menina. Era minha aluna de ingls no Colgio Tiradentes. Via nela o projeto de uma estrela, pois sua inteligncia e dedicao apontavam para isso.
J na Faculdade, fazendo parte do corpo de jurados para escolha do discurso de formatura, senti uma alegria e um orgulho especiais, quando pude ouvi-la discursar. Embora ainda tmida, introvertida, no tive dvidas de que ela seria a oradora oficial, assim como no duvidei de seu futuro brilhante.

Entretanto, aqueles que permanecem no interior, mesmo os mais excepcionais talentos, no tm grandes oportunidades de se projetarem ao nvel de seu potencial. No entanto, devemos agradecer por tantos terem permanecido entre ns, pois, seno, como nossa terra poderia progredir no terreno cultural?!

Graas a Deus, Raquel no partiu de sua terra natal. Embora mulher de vastos horizontes, trazendo em si o sonho do intangvel e da transcendncia, Raquel rendeu-se ao amor intenso por Montes Claros. E pela cultura de sua terra ela tem dedicado sua vida, seu suor e seu talento! A qualquer hora do dia e em qualquer tempo, podemos encontr-la na Secretaria de Cultura lutando, leoninamente, pelo patrimnio histrico, artstico e cultural de nossa cidade, incentivando e buscando oportunidades para os artistas de qualquer rea. Trabalha tanto pela cidade e pelos outros que acaba por se deixar de lado!...

Quando lancei o meu livro As Sete Pontes, obra que caiu no vestibular de 1986, no me esqueo nunca da extraordinria e belssima apresentao que fez de uma histria to simples. Percebi, de imediato, que Raquel era uma mulher forte, poetisa feita de epifanias, asas e sonhos!

Essa mulher tem defendido, ainda, e de maneira bravia, os direitos femininos. Tem lanado seu grito contra a cotidiana violncia contra as mulheres que acontece, tantas vezes, no silncio e na obscuridade. Esse grito seu aparece nas centenas de crnicas que ela vem publicando no Jornal de Notcias, muitas das quais com grande repercusso, consideradas extraordinrias por uns, "polmicas", "radicais" por outros. Sabemos, porm, que pesadas so as pancadas que muitas mulheres sofrem no dia a dia, em ambiente domstico, com muitas delas sendo levadas invalidez ou morte! So essas mulheres que ela defende bravamente!...

Trabalhando arduamente na Secretaria, em revistas e Jornais - pois sempre foi jornalista - e mesmo em salas de aula, Raquel tem demonstrado sua vocao para a indignao diante da barbrie que espezinha o ser humano. No consigo compreender como, durante tantas gestes, ela nunca chegou ao cargo de Secretria Municipal da Cultura, apenas Adjunta. Seria puro mrito! Enfim, v compreender os critrios do mundo poltico!...

H nela, alm de profundo compromisso com a causa cultural, aquela bendita paixo que se arrepia diante da grandeza das pequenas coisas e que impulsiona o mundo para frente. Nas pelejas agridoces do cotidiano, nos desafios entre o velho e o novo, rebentam nela os lampejos da renovao. A mulher que nasceu para brilhar prefere manter-se nos bastidores, nas coxias, mas sempre responsvel por grandes feitos. Dou graas por ter o privilgio de ser amiga-irm dessa extraordinria mulher. Mulher que pegou nas mos as rdeas de seu destino!

No Jornal de Notcias, criou e editou a pgina cultural "Arte & Fatos", por quase dez anos, hoje virtual, criada e editada por sua filha, a artista plstica e Designer Ana Brbara Mendona. Quando ainda estava no Jornal do Norte e ali criara a pgina "Cultura e Cia", teve contato com Carlos Drummond de Andrade, porque ousara reescrever o seu popular poema "Jos", entre outros, a ele os enviou, atravs do Jornal Estado de Minas, onde o grande poeta brasileiro publicava crnica semanal. Drummond lhe respondeu e agradeceu com grande generosidade nas palavras!... A partir da se comunicaram por alguns anos em preciosas missivas, que tive a feliz oportunidade de ler, sabendo que poucas - e outros tantos escritos, como poemas seus e outros inditos... - escaparam de chuvas inesperadas na dcada de 80, conforme me relatou h bom tempo. E ela no se esquece do que ele lhe respondeu, quando foi convidado para a sua posse na Academia Montes-clarense de Letras (ela tinha apenas 23 anos e foi indicada pelo meu inesquecvel e saudoso - notvel sonetista - tio Olintho Alves da Silveira... A sua apresentao foi feita pela acadmica e grande escritora Madeleine Velloso Rebello). Drummond felicitou-a e entendeu a sua entrada na Academia como uma auto- afirmao da mulher brasileira, embora fosse avesso a Academias de Letras. prpria ABL, deixara isso claro em crnica publicada pelo Estado de Minas e no estava sozinho nisso. Sabemos dos grandes que rejeitaram tambm a ABL. Provavelmente, talentos humildes como ele e que dispensam honrarias.

Gostaria, aqui, de lembrar alguns versos que mostram o talento excepcional dessa mulher mpar falando de um de nossos maiores artistas, o saudoso Ray Colares:

Raio de luz fulgurante
Mais que tudo, desafiante
Nas trevas da infinita imaginao
Tomada de cores, caminhos e conflitos
Onde a dor de existir e desistir, talvez
Fosse detalhe sem maior importncia.

De genialidade desconcertante e torrencial
Varava chuvas, sombras, madrugadas
Banhado de luz, palavras e mais palavras
Nas prosas e poesias sem fim em praas e bares tantos
E tontos de tanta, tamanha inquietude, inspirao profunda!

A dor aguda de viver to livremente
No doa indefinidamente
E havia momentos de ser feliz como criana...

Raquel mostra aqui no apenas o reconhecimento da sensibilidade daquele que povoou o mundo com suas cores, formas e palavras, mas a sua prpria capacidade de perceber, em versos, a grandeza do imaginrio que reflete a beleza e a crueldade do mundo.

Acredito que Montes Claros , hoje, uma cidade muito voltada para a praticidade do desenvolvimento de riquezas materiais e esquecida de sua riqueza imaterial que, muitas vezes, se esconde em sala de um antigo casaro.

A Montes Claros do passado era uma comunidade voltada para o altrusmo. As pessoas todas se conheciam e reconheciam e admiravam os grandes talentos da terra que tanto nos engrandeciam. Hoje, esses talentos se perdem numa metrpole fria e descaracterizada, que ainda no encontrou sua identidade.

Por isso a minha deciso de registrar para a Histria esses grandes talentos que, mesmo correndo o tempo todo de cmeras e holofotes, tecem a grandeza de nosso futuro.

Assim vive Raquel, a guerreira da Cultura, guardando os tesouros do passado e tecendo a grandeza do futuro!...


* Maria Luiza Silveira Teles
* Presidente da Academia Montes-clarense de Letras






81936
Por Maria Luiza Silveira Teles - 7/11/2016 11:45:57

MAGNUS MEDEIROS, O PROFESSOR

Numa noite mgica do ms de Maro, nos idos de 1961, fui a uma festa de aniversrio numa linda casa da Rua Carlos Pereira. L, conheci um belo prncipe, com quem acabei por danar grande parte da noite. Alm de bonito, era educado, fino, culto, simptico, alegre, uma pessoa interessante e encantadora de quem me tornei amiga para o resto da vida. Ele era, ento, cantor e contabilista.
Logo, no princpio de Maio, era o meu aniversrio de dezoito anos e eu o convidei para a minha festa. Ele chegou com sua presena marcante, alm de sua voz maviosa da qual desfrutamos por toda a noite. Seu presente para mim era um perfume que se chamava Toque de Amor. Pois bem, essa bendita criatura, mal sabia eu, acabaria por dar um toque de amor, de cor, de msica, de vida a toda minha jornada.
A verdade, porm, que esta pessoa d esse toque na vida de todos os que tm o privilgio de conviver com ela. Falo do meu grande amigo Magnus Denner Medeiros.
Para quem no sabe Magnus, alm de colunista social, que j escreveu para todos os jornais de Montes Claros, alm de dono de uma bela voz e grande seresteiro, tambm formado em Geografia pela antiga Fafil e foi professor durante toda sua vida. Foi professor, durante trinta anos, do Colgio Tiradentes, Escola Tcnica, Colgio Dulce Sarmento, Colgio Imaculada e lecionou Geografia Humana na Fafil.
Ele trouxe para o magistrio o seu toque de humanismo e de bondade. Assim, ele no foi apenas professor, aquele que ensina, mas educador, aquele que se preocupa com o desenvolvimento integral de seu discpulo como ser humano. Por isso, lembrado por todos seus ex-alunos com carinho, saudade e gratido.
Ele no ensinou apenas sobre a Economia dos Pases, sua demografia, sua geografia, mas sobre os caminhos da Vida. Escutou, aconselhou, orientou, acolheu.
Educador de cabea aberta, sem preconceitos, pde interferir na vida de tantos jovens desorientados, tirando-os de caminhos tortos.
Como ele mesmo j me confessou, um homem da noite, sem ter se contaminado pelos descaminhos da noite. Transita entre os egos inflados sem jamais ter perdido a humildade. Por isso, sempre conservou diante de seus discpulos uma postura tica impecvel.
Magnus ser sempre lembrado por muitos, alm de mltiplos papis exercidos na sociedade, como aquele tipo de educador que marca a vida de seus alunos. Outro trao dele jamais esquecido por seus alunos e colegas era a sua capacidade de disposies corretas e bem elaboradas do uso do quadro-negro e sua didtica perfeita.
Agora, Magnus completa trinta e sete anos de jornalismo. Jornalista que no somente d as notcias do mundo social, mas discute assuntos contemporneos e reflete sobre temas importantes da vida humana. Como jornalista no abandona sua postura de educador.
Tenho orgulho de ser sua amiga, Magnus, e como educadora no posso me desiludir inteiramente da Educao, pois sei que educadores como voc sempre havero de brotar em quaisquer rinces deste nosso pas.

Um provrbio hindu diz que O corao em paz v uma festa em todas as aldeias. Magnus no apenas promove festas, ele v festa em toda Montes Claros, que ele tanto ama, e no corao das pessoas que com ele convivem.
Naquele distante ano de 1961 ganhei um dos maiores presentes que algum pode almejar: a amizade desse grande ser humano, que o professor Magnus.

Maria Luiza Silveira Teles (presidente da Academia Montes-clarense de Letras)


81913
Por Maria Luiza Silveira Teles - 23/10/2016 12:05:24
ESTRANHA NO NINHO


Minhalma est encolhida dentro do peito. Doda. Solitria. Saudosa. Seu sacrrio vive sendo violado. Mas, como to bem disse Miguel Falabella, As tempestades da alma, to comuns na meia-idade, na verdade, so vislumbres do futuro e a bonana, que se segue a elas, sopra o vento das saudades sazonais, que chegam inexorveis, instalam-se sem aviso prvio, tomam conta de tudo e no tm data marcada para a partida.
Sabemos que o amor move o mundo, mas, como h muito venho dizendo em meus livros, o ser humano cada vez mais se patologiza. Vai perdendo as caractersticas de humano e se robotizando.
Os relacionamentos viraram jogos de interesse. Como se pode observar em qualquer patologia, no fundo, o ser humano sofre, mas se acostuma com esse sofrimento, se anestesia, e tem muito mais medo de amar, de se entregar, de arriscar. Prefere criar uma couraa que o proteja de qualquer sentimento.
Homens e mulheres acham muito melhor ir para a cama hoje com um, amanh com outro, ficar sem nenhum compromisso, simplesmente (e eles nem sabem disso...) porque em qualquer relacionamento o indivduo tem, necessariamente, que crescer e crescer di.
O crescimento exige um autoconhecimento, mudanas (uma lei do universo...), andar por caminhos desconhecidos, abrir a alma para o outro e deixar desabrochar a luz que vive em todos ns. Este no um processo fcil. doloroso e requer fora de vontade e disciplina. Ento, as pessoas se perguntam: para qu? E preferem continuar com seus comportamentos rotineiros na iluso do prazer, da caa ao poder e ao dinheiro.
Mas, muito mais rpido que possamos imaginar s o Tempo nos ensina isto chega o momento de maior solido, de estar frente a frente com a nossa verdade: a morte.
Sabemos que, como diz Rubem Alves, diante da morte s existem duas possibilidades: ou a vida continua em outra dimenso ou acabamos, viramos o p do qual viemos. De qualquer forma, um dia, que chega numa velocidade incrvel, tudo que terreno acaba.
Acredito que, nos tempos em que estamos vivendo, embora os templos vivam repletos, a segunda hiptese a que mais conquista o ser humano, pois se diferente fora teramos um mundo muito melhor, sem ningum usar o outro, desrespeitar seu semelhante, passar por cima de seus sentimentos.
No sei como algum que vive sem tica alguma pode exigir tica do governo ou dos sacerdotes de sua religio.
Por isso minhalma est triste, encolhida no peito. Porque para mim no d para viver num mundo assim. Eu acredito em Deus e em suas leis. Obedeo-as, no por temor, mas porque me afino com elas. Eu sou apenas Amor. Amo meu semelhante e a natureza, com sua fauna e sua flora. Vejo em todo o universo os sinais do Criador. Acredito no respeito, na liberdade, na justia. Sou romntica e sensvel. A, pois, me percebo como uma estranha fora do ninho, um ser fora de moda, anacrnico.
Mas, tenho algo que me permite ainda continuar crendo e ter esperana: fao parte de vrias organizaes espiritualistas, onde nos tratamos, realmente, como irmos e vamos espalhando, aqui e ali, silenciosamente, as sementes do Bem, da Paz, da Luz, do Amor. Se no fosse a convivncia com esses irmos, eu j teria soobrado.
Ser sensvel, hoje, inclusive chorar, virou doena. Se o indivduo assim, tocam antidepressivos nele. Sou especialista em Psicologia na rea de Sade e fiz a minha monografia e estgio em neuropsicopatologia. Fui a primeira pessoa no pas a escrever sobre depresso para o pblico leigo e assisto, horrorizada, mdicos me receitarem Haldol, quando tenho uma embolia pulmonar ou um AVC. Decerto porque algum sensvel como eu, poeta, deve ser considerada louca por eles e por tantos.
Nunca, porm, haverei de me esquecer das palavras de um dos maiores cientistas de nossa poca, reconhecido internacionalmente psiclogo e antroplogo, reitor da Universidade da Paz, meu irmo e amigo, hoje vivendo na Frana: Bendita loucura que a leva a um processo inicitico, tornando-a luz!.
Meu corao chora no propriamente por mim, mas por todos os irmos que vivem na iluso, esperando que a felicidade venha de fora, procurando-a num amanh que nunca chega, sem entender que a viagem deve ser feita para dentro, que ela l est irmanada com a paz e a luz.
Sou filha do Universo! No deste mundo cheio de desamor. Vim das estrelas e para l haverei de retornar em breve. Este o meu consolo, o meu conforto quando a minhalma chora. Tudo passageiro, inclusive a minha estada neste plano.
Namast!

Maria Luiza Silveira Teles
Presidente da Academia Montes-clarense de Letras




81885
Por Maria Luiza Silveira Teles - 10/10/2016 09:02:44
LIVRO DOS 50 ANOS DA ACADEMIA MONTES-CLARENSE DE LETRAS


Quem seramos se no tivssemos memria? ela que nos d identidade. a nossa histria de vida, com todos seus acontecimentos, que faz de ns aquilo que somos. Assim tambm acontece com uma cultura, uma sociedade, uma civilizao. A histria nada mais que o registro de tudo que a memria pde colher.
O confrade Wanderlino Arruda, com seu esprito de pesquisador e sua experincia como escritor e jornalista, buscou nas atas de todos os cinquenta anos da Academia Montes-clarense de Letras a sua histria, para que as futuras geraes tenham conhecimento da luta, da persistncia e da garra dos intelectuais de nossa terra que vm, ao longo desse tempo, tentando manter viva em Montes Claros a chama de Atena.
Com maestria, Wanderlino conseguiu alinhavar to bem os registros feitos por outros, que a leitura deste livro tornou-se fascinante, instigadora e muito importante para todos os montes-clarenses ligados ou no s Letras. A histria da AML principalmente o desfiar de sonhos, projetos, utopias e realizaes. No importa se muitos no se tornaram realidade diante dos embates contra a muralha dos contratempos, das incompreenses e principalmente diante das dificuldades financeiras. A Academia, como instituio, maior que erros e falhas. O que importa que ela persiste em sua luta para manter o brilho da Beleza, do Lirismo, da Imaginao e da Cultura.
Como diz Krishnamurti, o autoconhecimento o comeo da sabedoria. No h outra maneira de aprender a no ser nos conhecendo e nos transformando. E como os conhecer seno buscando a reflexo atravs de nossa histria? Somente conhecendo nosso passado poderemos no apenas entender o que somos, mas de que razes brotamos e o que poderemos realizar no futuro. Busco na genialidade do poeta Jorge Drexler o significado da AML dentro da sociedade montes-clarense:

No somos mais
que uma gota de luz,
uma estrela fugaz,
uma chispa to somente
na idade do cu.
No somos
o que queramos ser,
somente um breve luzir
em um silncio antigo
com a idade do cu.

O que importa em toda a histria da Academia Montes-clarense de Letras a beleza do horizonte e no a dureza do percalo. Seja como for, ela tem estimulado a tantos que antes engavetavam seus escritos, a trazerem a lume obras to importantes para nossa cidade e regio.
Gostaria que os membros da prpria Academia assim como os cidados da nossa amada Montes Claros, no decorrer da leitura desta obra, refletissem sobre as palavras de Mrio Benedetti: No desistas por favor, to cedo, ainda que o frio queime, ainda que o medo morda, ainda que o sol se esconda e se cale o vento. Ainda existe paz em tua alma, ainda h vida em teus sonhos.
Esta a histria da Academia: vida nos sonhos dos intelectuais de hoje e daqueles do passado. A estes intelectuais que ousaram sonhar e levaram adiante os seus sonhos o nosso muito obrigada.
Hoje, diramos a todos eles: Ave, companheiros! Ns sonhadores do presente vos saudamos.
Ficam aqui, tambm, os nossos profundos agradecimentos ao ex-presidente Wanderlino Arruda, este incansvel companheiro que ousou, em to pouco tempo, levantar nossa histria. Se alguma falha for encontrada, no ser fruto da escrita ou da sua memria, mas do registro muitas vezes apressado e sucinto nas Atas e correspondncias.

Maria Luiza Silveira Teles
Presidente da Academia Montes-clarense de Letras


81611
Por Maria Luiza Silveira Teles - 31/5/2016 13:27:06
Aos meus caros leitores, que tanto tm me incentivado com suas mensagens alentadoras, devo desculpar-me por uma ausncia forada em vista de uma terrvel tendinite no brao direito, que, por ordens mdicas, dever guardar um repouso de um ms, sem computador ou smartphone. Assim, devo suspender minhas crnicas por este perodo. Muita grata por tudo.


81577
Por Maria Luiza Silveira Teles - 17/5/2016 17:12:09
ESTA SOU EU...


Eu sou riso, sou pranto, sou sensvel, romntica. Sou Clarice Lispector, Florbela Espanca, Rosamund Pilcher, Vargas Llosa, Saramago, Gabriel Garcia Marquez, Pablo Neruda, Guimares Rosa, Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Ivan Lins, Guilherme Arantes, Tadeu Franco, Chico Buarque. Sou, tambm, Schubert, Chopin, Vivaldi.
Sou mais noite que dia. Adoro o sol l fora e eu c dentro; amo a chuva e seu tamborilar na janela.
Sou mais quiabo com angu do que comida sofisticada.
Sou sincera, franca, simples. Amo chapus!
Sou mais Salvador que Rio de Janeiro. Sou serto e sou metrpole. Amo flores, passarinhos e o silncio.
Gosto de estar s, mas gosto, tambm, de estar com os amigos. Gosto de surpresas, mas amo planejamentos... Gosto de ler e escrever. Gosto da Martha Medeiros, amava e ainda amo Arthur da Tvola.
Adoro casas antigas bem conservadas. Sou mais outono que primavera... Amo viver e no temo a morte.
Sou assim um pouco menina e mulher madura... Sou o Universo e tento ser um pouco de Deus. Amo gente, bichos e plantas. Sou sensual e assexuada, s vezes. Sou muito mulher e um pouquinho homem. Sou fruta suculenta e mais doce do que sal.
Adoro minha companhia e por isso no sinto solido.
Sofro e choro como qualquer ser humano, mas isto no me impede de amar a vida. Sou uma eterna aprendiz no Caminho. Sou um pouco ingnua e idiota. Prefiro sempre pensar que o outro bom.
Cultivo o meu jardim, mas, ao mesmo tempo, gosto de ver as plantas crescerem selvagemente em sua pujana. Assim, o jardim parece mais uma floresta. E chama os passarinhos e as borboletas.
Sou inteligente, mas, s vezes, to burra! Gosto de estar sempre aprendendo, principalmente com as pessoas.
Com a idade j avanada, claudico muitas vezes na memria. Engraado, no de nmeros, mas principalmente de nomes. At mesmo nomes de coisas. Que importa, porm? Estou viva! Adoro respirar, caminhar, deslumbrar-me com a beleza, a natureza e as pessoas.
Tenho procurado amar sempre e ser honesta comigo mesma e com os outros. Porm, tenho minhas falhas como qualquer ser humano.
Tento escrever. Entretanto, s vezes, vivo um vazio criativo e nada me vem cabea.
Amo poesia! Delicio-me com ela! Coisa incomum, no verdade? Acho que sou um pouco equilibrada e louca. Voo em torno de meu eixo. Tenho sonhos, ideais e projetos. Acho que, muitas vezes, sou utpica. No tenho pudores, mas sou tambm recatada. Amo a liberdade, mas respeito os limites.
Ah, sou cinfila. Adoro histrias bonitas e que me ensinam sobre a vida e a alma humana. E, cada vez mais, cresce em mim a certeza de que tudo se repete. Tanto em nossa vida pessoal como na Histria.
Minha casa pequena e simples, mas nela sou feliz.
Ah, sou observadora. Mais de gente do que de coisas. No me preocupo com o cotidiano dos outros e nem me importo com seu juzo. Entretanto, estou sempre de mo estendida e corao aberto.
No sou especial. Sou gente como toda gente. Posso ser esquecida quando chegar a morte. Mas, sou grata pela vida! E, at certo ponto, acho que cumpri o meu papel.
Bem, esta sou eu. Provavelmente, nada de surpresas para aqueles que me conhecem...

Maria Luiza Silveira Teles (presidente da Academia Montes-clarense de Letras)


81566
Por Maria Luiza Silveira Teles - 10/5/2016 17:16:20
AS BONECAS TILDAS

Vocs conhecem as bonecas tildas? Elas no tm boca e tm asas. Sabem por qu? Porque elas falam com o corao e quem fala com o corao so os anjos. Bonita alegoria, no?!
Elas so perfeitas para um teste psicolgico no apenas com crianas, mas tambm com adultos.
Ns somos to barulhentos! Nosso mundo cheio de rudos. Tagarelamos demais. E, no entanto, o silncio fala tudo. Fala atravs de um sorriso, de olhos brilhantes e amorosos, gestos de afago, mo estendida, abraos, generosidade, lgrimas sinceras.
Vivemos em uma sociedade em que os alaridos histricos do mundo exterior, muitas vezes, abafam os espaos internos. Esses barulhos ensurdecedores costumam emudecer os silncios da natureza, dos olhares, das estrelas, da respirao, dos gestos de ternura. E, o pior, nos ensurdecem s falas de nossa essncia, levando-nos a perder o contato conosco, com a natureza.
Somente no silncio vamos conseguir a relao com o nosso ser mais profundo; este silncio que abre as possibilidades da paz interior. na calmaria e no remanso do silncio que vamos encontrar aquela fonte inesgotvel onde esto e se revelam as energias e potencialidades mltiplas.
preciso que nos treinemos para ouvir os doces sopros do silncio, para as escutas mais leves e sutis, pela abertura do corao e da mente em estados de calmaria e serenidade.
O silncio nos remete ao vazio e este vazio o objetivo de toda meditao. Quando tudo se cala dentro de ns, Deus se manifesta. Como diz um amigo, o Professor e Doutor Miguel Almir de Arajo, com sua espessura macia, o silncio nos mergulha nos oceanos de nossos desvos mais enigmticos e vastos.
O silncio vivifica e fertiliza. Somente no estado de intenso silncio, somos capazes de ouvir os mistrios do sagrado e comunicarmo-nos com a beleza do cosmos. Tudo de mais profundo s se revela no silncio. no silncio que se revelam os valores mais nobres da vida: a fraternidade, a solidariedade, a justia, a humildade, a beleza, a alegria, o amor verdadeiro...
O nosso grande poeta, Tiago de Mello, proclama: a couraa das palavras protege nossos silncios e esconde aquilo que somos. A melhor maneira de compreender seja l o que for no falando e nem ouvindo as palavras, mas auscultando o silncio.
Lembro aqui, mais uma vez, palavras de nosso amigo, Miguel Almir Arajo: as janelas do silncio abrem as portas da escuta, levam casa da sabedoria. Os silvos do silncio sibilam canes sagradas nos ermos de meu templo. Existe uma profunda sabedoria no silncio.
Arturo Paoli, escritor italiano, escreveu um livro extraordinrio sobre a importncia do silncio: O SILNCIO plenitude da palavra. O ttulo j diz tudo e remete-nos sua riqueza.
Vejamos alguns de seus pensamentos preciosos.
Logo no incio, ele diz: O mundo em que vivemos um mundo contaminado pelos rudos; se o silncio um elemento necessrio espiritualidade, devemos concluir que esta humanidade no feita para viver espiritualmente.
verdade que todo o nosso dia-a-dia invadido pelos rudos da televiso, dos carros, das palavras desnecessrias, das pretensas msicas dos rdios e assim por diante.
Entretanto, podemos criar o nosso espao de silncio. Se no podemos ter um lugar especial, junto natureza, acordemos cedo e aquietemos a nossa mente por alguns minutos, esperando que o nosso eu interior nos sussurre o nosso avesso e Deus se comunique, iluminando o nosso dia e a nossa vida. Este um hbito bastante saudvel.
Paoli continua: A pessoa se constri no silncio. (...) Ele uma disposio interior para ouvir a palavra de Deus: o smbolo da disponibilidade total. (...) A relao que desfaz todos os ns, que cria uma lembrana gratificante, silenciosa. (...) O silncio ar fresco depois da caminhada no deserto rido, a harmonia reencontrada, na qual a pessoa se livra daquele mercado ruidoso no qual estamos mergulhados durante o dia.
O livro to lindo, recheado de verdades to profundas que, se nos deixarmos levar por isto, acabaremos por reescrev-lo aqui.
Outro livro que nos fala do silncio, como dos questionamentos da vida moderna, ajudando-nos bastante em nosso processo de crescimento Cartas entre amigos, do Padre Fbio de Melo e o Professor Miguel Challita.
O nosso amado e santo Joo Paulo II dizia: S no silncio o ser humano consegue escutar no ntimo da conscincia a voz de Deus, que verdadeiramente lhe faz livre.
Pois , esta a sabedoria a que as bonecas tildas nos remetem. Falar com o corao. Ah, que mundo melhor teramos se todos falassem com o corao! Se no escondessem atravs da palavra os seus verdadeiros sentimentos, emoes, pensamentos e intenes...

Maria Luiza Silveira Teles (presidente da Academia Montes-clarense de Letras)


81543
Por Maria Luiza Silveira Teles - 3/5/2016 20:45:59
A VIDA COMO AS CEREJEIRAS

Quando estamos lendo um bom livro, com uma histria envolvente e que nos provoca emoes indescritveis, no queremos que ele chegue ao fim. Quando vemos um belo filme, tambm sentimos o mesmo. Uma linda noite de amor, daquela que sentimos que somos apenas os dois no mundo e que o mundo l de fora nem existe... Ah, como gostaramos que o tempo parasse e que ela jamais terminasse! No verdade?
No meu tempo de jovem, lembro-me bem de uma msica linda que danvamos juntinhos, de rosto colado! Sua letra dizia assim: relgio no marque as horas, porque vou enlouquecer, ela se vai para sempre quando amanhecer outra vez. Relgio detm teu caminho porque a minha vida se extingue. Segura o tempo em tuas mos, faa desta noite perptua para que nunca amanhea. Como gostaramos de deter o tempo! Mas, isto algo impossvel!
Os japoneses apreciam tanto as flores das cerejeiras no apenas porque elas so belssimas, mas porque so efmeras como a prpria vida e sempre voltam na outra primavera. Isto o melhor: apreciar a vida enquanto ela existe e saber que ela s termina aqui, mas que muitas e muitas primaveras havero de faz-la florescer em outras paragens.
As crianas e os jovens vivem como se cada momento fosse eterno. Porm, quando chegamos a certa altura da vida, a conscincia de que o fim se aproxima torna-se aguda em ns. Por isso, vivemos a buscar o passado como se apenas ele fosse belo e gostoso. Mas, no. A vida, em qualquer tempo, sempre bela! Todo ciclo termina e novo ciclo se inicia. A est sua maior beleza.
O bom, o bom mesmo seria que, em qualquer ocasio, nos lembrssemos de que esta a oportunidade que temos de conviver com os que amamos, de realizar nossos sonhos, de fazer o Bem, de construir algo, de adquirir conhecimento, de aprender a amar, de deixar nossos rastros no Caminho.
To efmera a vida e tantas vezes a desperdiamos com lamrias, com atos impensados de consequncias tristes, com mergulhos em prazeres que nos deixam vazios.
Seria bom que no nos esquecssemos de que todas as nossas dores e alegrias e toda a beleza e iniquidade da vida e do ser humano tm como palco um ponto infinitesimal de poeira csmica no Universo. E, ainda, que um universo to vasto e belo o da nossa interioridade que temos por obrigao desenvolver e expandir, pois os talentos e dons foi a Vida que nos deu de presente. Devemos ter abertura para a poesia do existir para que, com a morte, possamos repetir as palavras do poeta Tagore: Terra minha, cheguei tua praia como estranho; vivi em tua casa como hspede e agora me despeo como amigo. Limpos e puros para entrarmos na casa do Pai e sermos recebidos pelos anjos.
Maria Luiza Silveira Teles (presidente da Academia Montes-clarense de Letras)



81506
Por Maria Luiza Silveira Teles - 24/4/2016 14:00:45
O AMOR

O amor a prpria essncia do universo. a fora coesiva, que liga os tomos e faz girar os astros em suas devidas rbitas. O amor vida, unio, f, esperana, mudana, movimento, recomeo, ressurreio. a fora maior que governa a vida. E, se ele a essncia da vida, , tambm, a nossa prpria natureza.
Entretanto, voc pode se perguntar: Mas, se assim, por que tantos homens s demonstram desamor? verdade. O desamor, no entanto, no seno uma desvirtuao, uma falha, uma doena da alma.
Quando notamos a ausncia de amor na personalidade de uma pessoa, podemos estar certos de que alguma coisa, algum fato, algum trauma, provocou essa triste doena a que chamamos desamor.
Embora seja de nossa natureza amar, por muitos motivos podemos no amar corretamente. Sentimento de posse, carncia, egosmo no so amor, ou melhor, so formas tortas, doentias, patolgicas de se amar.
A definio dada por So Paulo , sem dvida, a mais perfeita e clara:
Ainda que eu fale a lngua dos homens e dos anjos, se no tiver amor serei como o bronze que soa ou como o cmbalo que retine. (...) O amor paciente, benigno, tudo sofre, tudo cr, tudo espera, tudo suporta. O amor no arde em cimes, no se ufana, no se ensoberbece (...). No procura os seus interesses, no se exaspera, no se ressente do mal, no se alegra com a injustia, mas regozija-se com a verdade. O amor, pois, antes de tudo, deseja o bem do amado.
Quando amamos apenas algumas pessoas, no expandimos ainda a nossa espiritualidade, pois o verdadeiro amor com-partilha com todos. O verdadeiro amor inclui a humanidade e toda a criao. No podemos, entretanto, amar de verdade a algum se no amamos a ns mesmos. Por isso, na aprendizagem do amor, o autoconhecimento e a autoestima so fundamentais.
Em primeiro lugar, devemos nos apreciar, nos aceitar, nos admirar, conhecer nossas qualidades e defeitos, gostar de nossa prpria companhia, sermos benignos e compassivos conosco mesmos. S ento seremos capazes de amar verdadeiramente. Por isso toda a nossa vida um exerccio e uma aprendizagem de amor.
NS SOMOS AMOR
Voc pode, novamente, se perguntar: Mas, se o amor de nossa natureza, por que devemos aprender? Voc deve se lembrar de que todas as nossas capacidades, que nos caracterizam como humanos nascem conosco em potencialidade. E o que est em potencial dever se desenvolver e como se desenvolver seno atravs da aprendizagem e do exerccio? como a semente que dever romper a dureza da terra para desabrochar e se realizar como planta que . A maior e mais dura camada que devemos romper para desabrochar e realizar a mossa natureza amorosa a dura casca do egosmo, do orgulho, da soberba, da autossuficincia.
Ns s nos realizamos no encontro, no com-partilhar, no consentir. Por isso, ningum pode verdadeiramente amar, se entregar de verdade, se realizar, sem com-viver.
O amor na sua plenitude o prprio Deus. E ns humanos, conforme palavras do prprio Cristo, somos aprendizes de deuses.
Leon Denis, um filsofo e escritor francs, dizia: Amar o segredo da felicidade. Com uma s palavra o amor resolve todos os problemas, todas as obscuridades. O amor salvar o mundo; seu calor far derreter os gelos da dvida, do egosmo, do dio; enternecer os coraes mais duros. Mais refratrios. E, ainda: Abri o vosso ser interno, abri as janelas da alma aos eflvios da vida e, de sbito, essa priso encher-se- de claridade, de melodias, um mundo todo de luz penetrar em vs.
ABRA AS JANELAS DA ALMA

O amor capaz de curar, de libertar, de aumentar a nossa imunidade orgnica. E no falamos apenas de uma cura fsica, mas de cura espiritual, que implica a libertao da mgoa, da culpa, da raiva, do egosmo, do orgulho, da vaidade, do desespero, da falta de f, do ressentimento, da revolta.
Quando amamos de verdade o nosso semelhante, ns nos purificamos e nos tornamos to puros como recm-sados do sopro do Criador.

No conheo a autoria do texto que se segue, mas, sem dvida, ele verdadeiro.
A inteligncia sem amor te faz prepotente.
A humildade sem amor te faz hipcrita.
A pobreza sem amor te faz orgulhoso.
A justia sem amor te faz implacvel.
A autoridade sem amor te faz tirano.
O trabalho sem amor te faz escravo.
A docilidade sem amor te faz servil.
O xito sem amor te faz arrogante.
A poltica sem amor te faz egosta.
A riqueza sem amor te faz avaro.
A orao sem amor te faz falso.
A lei sem amor te faz perverso.
A beleza sem amor te faz ftil.
A f sem amor te faz fantico.
A cruz sem amor se converte em tortura.
A vida sem amor no tem sentido.

Maria Luiza Silveira Teles (presidente da Academia Montes-clarense de Letras)


81498
Por Maria Luiza Silveira Teles - 19/4/2016 17:28:47
ESPIRITUALIDADE E VIDA

Voc j parou para pensar se est satisfeito com sua vida? Era isso mesmo que voc queria? Correr atrs do sucesso desesperadamente, viver com estresse e morrer de infarto ou lcera rompida?... O dinheiro e o sucesso no so maus em si, mas quando sua busca passa a nos ocupar inteiramente, nos cansar e no nos dar mais tempo para nada, eles passam a ser um estopim.
A vida como uma lufada de vento que logo passa.
E sempre tempo de darmos outro rumo s nossas vidas! Vamos aprender a nos dar uma folga e respirar fundo, alongar-nos e parar para ler um bom livro, escutar uma boa msica, conversar com os amigos, ver as plantas com carinho, aspirarmos ao seu perfume, ouvirmos o canto dos pssaros e, se possvel, banharmo-nos em uma cachoeira, dar um mergulho no mar, ouvir o canto de um riacho ou de um carro de boi.
Tudo isso nos faz um bem enorme e nos aproxima de ns mesmos e do Criador. Ele nos toca na borboleta que pousa em nosso ombro, nos fala no silvo do vento...
Isto no para frias no! para todos os dias. Tornemos a nossa vida simples, deixemos de nos importar com os comentrios dos outros, tiremos as mscaras, abandonemos o personagem "importante", que confundimos com o que somos, e aprendamos a viver de acordo com a natureza. Nesta nova vida, com certeza, vamos encontrar a paz e a felicidade. Sejamos como o rio que corre tranquilo sem se importar com mais nada seno seguir o seu curso.
Voc pode ter uma vida cheia de alegria quando procura desenvolver a espiritualidade.
Agora, veja bem: no se pode confundir espiritualidade com religio, embora toda religio reconhea a existncia do esprito e busque infundir no corao dos homens a preocupao com a espiritualidade. Existem pessoas que se dizem religiosas e no tm nenhuma espiritualidade. No entanto, um homem sem religio definida, sem ser praticante de qualquer tipo de ritual, pode ser de profunda espiritualidade.
O ser humano se cansou de uma viso do mundo cartesiana, mecanicista e determinista, que nunca lhe trouxe felicidade alguma. Assim, em fins do sculo XX, esta viso do mundo passou a mudar. O materialismo foi dando lugar a uma nsia profunda de transcendentalidade. E, depois que a Fsica Quntica provou que tudo que existe energia e que a energia eterna (ela se transforma, mas jamais deixa de existir), passamos a compreender que somos, realmente, algo alm da matria.
a energia eterna que vive em ns e pode, inclusive, ser registrada pelas mais modernas mquinas inventadas pela tecnologia, esta energia que d vida ao nosso corpo. Quando ela nos abandona, deixamos de existir nesse plano, nessa dimenso. Esta energia, porm, a que chamamos de esprito ou alma, vive por toda a eternidade. A crena viva no esprito passou a ser a postura revolucionria das novas geraes, com uma nova viso de mundo e novos paradigmas.
O lado direito do crebro, centro da intuio, da sensibilidade, da criatividade, da imaginao, passou a se desenvolver, com maior mpeto, nos jovens. E, com o resgate de uma sabedoria milenar, fruto de uma simbiose entre o Cristianismo, filosofias orientais, o humanismo e a psicologia transpessoal, assistimos a uma nova era: a Era do Esprito.
No podemos nos esquecer, no entanto, que Scrates, Plato e tantos outros, antes de Cristo, j acreditavam na existncia do esprito.
O leitor haver de notar que as nossas palavras esto bastante marcadas pela filosofia crist, porque acreditamos que Cristo foi o nico ser perfeito que pisou no planeta Terra, a encarnao verdadeira do Amor, em seu sentido mais amplo e profundo.
Assim, estou falando sobre espiritualidade sob a tica crist, mas sem esquecer, jamais, que grandes espiritualistas e msticos, como o Dalai Lama, podem estar fora do Cristianismo. Enfim, que fique bem claro que a espiritualidade significa a preocupao com a busca da perfeio do esprito, a luta por se tornar melhor e mais feliz. Espiritualidade Vida.
Entendemos que somente indivduos mansos, pacficos, humildes, podem construir um mundo melhor, assim como alcanar o equilbrio e a harmonia interior.
Espiritualidade , acima de tudo, vida em plenitude. E vida em plenitude o amor incondicional, o esprito de justia, o acolhimento, o perdo, a alegria e a realizao. Primeiro temos que perdoar a ns mesmos e, depois, a todos que, algum dia, por um motivo qualquer, tenham nos magoado. Somente livre de qualquer mgoa, livre e leve, a pessoa poder viver sadiamente a sua espiritualidade. Espiritualidade vida plena.

Maria Luiza Silveira Teles (presidente da Academia Montes-clarense de Letras)


81480
Por Maria Luiza Silveira Teles - 14/4/2016 16:10:32
CONVIVNCIA


Conviver no nada fcil. E, no entanto, a nica maneira de nos realizarmos como seres humanos, de nos encontrarmos e sermos felizes.
Talvez seja essa a cincia e a arte mais difcil, mas a principal da vida, pois se no convivermos atrofiaremos.
Por que, ento, to difcil? Porque requer desprendimento, corao aberto, humildade, altrusmo, saber ouvir e falar na hora certa e o saber sentir. preciso, sobretudo, saber amar e somente somos capazes de amar quando j percorremos o longo e difcil caminho do autoconhecimento e nos amamos e nos aceitamos como somos, conscientes de nossas qualidades e defeitos.
Para aprender a viver bem com o outro necessrio se faz, pois, que nos eduquemos e nos aprimoremos em todos os sentidos.
Se aprendermos a conviver, entender e respeitar nosso semelhante, tudo passar a ser mais fcil e o caminho nos trar felicidade e paz.
Esse tempo de aprendizagem, transformao e crescimento a nossa travessia. Lembrando Fernando Pessoa, H um tempo em que preciso abandonar as roupas usadas, que j tm a forma de nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. o tempo da travessia: e, se no ousarmos faz-lo, teremos ficado, para sempre, margem de ns mesmos.
Vivemos tempos estranhos. Quanto mais o homem evolui em cincia e tecnologia mais se materializa, mais se torna violento, mais se anestesia.
As relaes se tornam descartveis, o sexo se banaliza completamente. Na sua busca desenfreada de prazer, o homem se v cada vez mais vazio e solitrio.
Tantas vezes duas pessoas vivem juntas e no tm absolutamente nada a dizer uma outra: parece que um abismo as separa. Por qu? Os sentimentos no expressos, as mgoas recalcadas, pequenos ressentimentos que foram se avolumando, a direo diferente que cada uma delas toma, tudo isso vai separando-as pouco a pouco.
Enquanto as naes guerreiam, conflitos e batalhas maiores se do dentro de ns, quando a Bondade de nosso ser divino luta contra a selvageria de nosso ser profano e primitivo.
S lutando contra os monstros que vivem dentro de ns e derrotando-os, poderemos deixar florescer a beleza do projeto divino que somos.
Mas, que monstros so esses? O monstro do egosmo, da vaidade, do orgulho, do desamor, da mgoa, da inveja, da raiva. Se esses no morrerem, jamais o projeto divino poder se cumprir.
Jesus afirmou: Vs sois deuses. O que ele quis dizer com isto? Que em todos ns existem caractersticas do Pai e que essas s podero se desenvolver na dependncia de vrios fatores, dentre os quais o maior a lei que ele nos deu: Amai o teu prximo como a ti mesmo.

Maria Luiza Silveira Teles (presidente da Academia Montes-clarense de Letras)


81442
Por Maria Luiza Silveira Teles - 5/4/2016 11:02:16
A TAA DA BELEZA

Minha alma se alimenta principalmente de Beleza e Amor. Sem esses elementos eu secaria como uma planta qualquer. Assim, para manter-me viva, busco sempre a beleza, no somente na Natureza, mas tambm nas artes.
Uma bela msica, um poema, um bom romance, um belo quadro, uma escultura, preciso todos os dias desses bens preciosos que enriquecem e alargam meu mundo interior.
Graas a Deus, tenho tido a oportunidade de alimentar minha alma com belezas incrveis! No me canso de fartar-me! No consigo admitir que algum passe pela vida sem ler Gethe, Olavo Bilac, Fernando Pessoa (com seus heternimos), Quintana, Manoel Bandeira, Cora Coralina, Manoel de Barros, Rumi, Neruda e tantos e tantos poetas incrveis! Sem ler Somesert Maughan, Clarice Lispector, Herman Hesse, Tolstoi, Dostoievsky, Guimares Rosa, Garcia Marquez, Isabel Allende, Cyro dos Anjos, rico Verssimo, Josu Montello, Lia Luft, Khalil Gibran, Richard Bach, Saint Exupry, Hemingway, Saramago... Sem contemplar os quadros de Frida Kahlo, Renoir, Lorenzo Bernini, Leonardo da Vinci, Van Gogh, Picasso, etc. Sem conhecer as esculturas de Rodin e tantos outros. Sem mergulhar na filosofia de Scrates, Plato, Aristteles, Dostojevski, Schopenhauer, Nietzsche, Sartre, Osho, Tagore,...
Tenho viajado por todos os museus do mundo, visitado as mais incrveis cidades, que guardam tesouros espetaculares, conhecido todas as belssimas igrejas, os castelos, os grandes rios, os mares e todo seu mundo interior, grutas espetaculares, lagos, entrado nos mais diversos cantos deste planeta de meu Deus; assistido aos mais lindos concertos, a espetculos de dana que nos tiram o flego, ao Cirque de Soleil, enfim, tenho bebido de todas as culturas e preenchido todos os vos de minha alma. Como? Pela internet, esta extraordinria ferramenta que nos permite viajar sem sair de casa, trazendo ao nosso lar todo o mundo conhecido. Este instrumento que, se tem seu lado ruim, pode tambm nos levar a todo o conhecimento, a todo o cadinho cultural da humanidade, enfim, a gozar de todos os privilgios que estavam, antes, ao alcance apenas dos endinheirados.
No estamos muito longe deste incrvel mundo de beleza. Montes Claros um verdadeiro celeiro de grandes talentos, em todas as reas, e seria to bom que essa beleza pudesse ser compartilhada por nossa gente de todo o pas ou qui do mundo. Por que no o ? Falta de incentivo do governo ou patrocnio dos empresrios? No sei dizer. S sei que no justo que tanto talento se feche num pequeno mundo!...
Acho que ns, os artistas, os sensveis, no podemos ser pessoas normais, pois no nos enquadramos na mediocridade desse mundo que s pensa em poder e dinheiro! Ns queremos as estrelas! Ns queremos gritar ao mundo o nosso anseio pela liberdade de criar, de falar, de cantar... Somos pessoas diferentes que enfeitamos a vida com a riqueza de nossa imaginao e de nossos sonhos.
Como aquele que s se preocupa com as veleidades do cotidiano pode compreender esse universo to particular e nico de cada alma?
Falando dos talentos de nossa terra, no tenho como citar nomes, pois so tantos e eu poderia cometer injustias de esquecimento!
A populao montes-clarense precisa prestigiar mais os nossos artistas! Se eles no conseguem levar a um pblico mais amplo a sua arte, pelo menos os que residem aqui e anseiam por um pouco de beleza possam se alimentar dela.
O grande Artur da Tvola dizia que quem tem riqueza interior no padece de solido. Est a uma boa receita. Quer ser mais feliz? No quer sentir solido nesse mundo to feito de aparncias e falsidades? Abrace a arte. Leia bons livros, escute boas msicas e bons cantores, v ao teatro, aos concertos, assista bons filmes, v a vernissages e ver como sua vida se tornar mais plena. No se contente com a aridez do cotidiano!
Vamos aproveitar que temos a felicidade de viver nesse celeiro de arte e gozar desse privilgio! Vamos beber desta taa de beleza!
Outro privilgio de que podemos gozar aqui conversar com pessoas que tm anseios como ns, que vivem no Olimpo como ns. Alm de nos enriquecermos mais, no nos sentimos to ss e diferentes.

Maria Luiza Silveira Teles (presidente da Academia Montes-clarense de Letras)


81413
Por Maria Luiza Silveira Teles - 24/3/2016 18:12:19
O OUTONO


Onde a chuva fina e passageira de Outono que sempre renova as esperanas? Esperana de vida. ..
O Outono me encanta! Parece-me um tempo de esperas... Um misterioso tempo grvido de sonhos de renovao, pois nada se transforma e se renova sem antes se despir das velhas roupagens.
Alm de sua beleza, ele me faz lembrar aquela msica de minha juventude: Folhas mortas. Quem, com mais de sessenta anos, morando em Montes Claros, no se lembra dessa msica, que embalou tantas danas, de rostos colados, ao som do Les chries?
Ah, o Outono, de Vivaldi, que retrata com o talento, que me falta, toda a beleza dessa estao!... uma estao que, sem dvida, convida poesia.
Tudo parece morto e triste aos olhos de quem no conhece de verdade, isto , com o corao e no apenas com a mente, os mistrios da Natureza... Ledo engano! O Outono tem suas nuances de Vida e Alegria! Basta que saibamos ver e sentir!
A Natureza com seus ciclos sempre um convite Vida. Vida de encantos e desencantos, dores e alegrias, caminhos e descaminhos, plancies, abismos e desertos... Vida cheia de arte, flores, espinhos... Mas, que sempre vale a pena!
A aurora est chegando mais tarde, assim como o crepsculo mais cedo. De minha cama, posso observar o sol que, cheio de beleza e cores, anuncia o novo dia. A nova oportunidade. Um novo comeo. Ah, que tristeza resiste ao sagrado desse momento? Todas as lgrimas se secam e o corao cheio de gratido pelo dom extraordinrio desse espetculo gratuito que Deus nos oferece a cada dia, o corao pula dentro do peito convidando ao recomeo.

No necessrio se ocupar de filosofias para reconhecer que a Vida sempre parece nos sorrir.
Bendito Outono com sua mensagem de esperana! Bendito Outono, fase de gestao de novas vidas! Ouo-lhe a msica e os silncios e me rendo diante do Mistrio do Sagrado. Ser o Outono uma presena proftica?...
Neste ano, o outono ainda no trouxe as ltimas chuvas a Montes Claros. Ardemos sob um sol inclemente! Mas, a esperana resiste. Esperana sempre de um novo tempo. As nuvens comeam a se formar e as madrugadas j trazem um sopro de alvio. o sopro de uma nova vida que se renova. Assim, como sempre a morte traz a esperana da Ressurreio.

Maria Luiza Silveira Teles (presidente da Academia Montes-clarense de Letras)


81361
Por Maria Luiza Silveira Teles - 10/3/2016 01:16:34
AS FACES DA VIDA


Algum pode negar a beleza da vida? Acho que ningum. Mesmo aqueles que sofrem duras privaes e, muitas vezes, se entregam ao desespero, podem parar um instante e contemplar o esplendor de uma aurora e de um crepsculo; podem colher flores, amar e receber amor do seu prximo.
Mas, quem pode negar, tambm, que ela tecida de sonhos mortos, de dores, saudades, perdas e tristezas profundas?
O mais bonito na natureza humana, entretanto, que talvez seja a maior prova de que somos feitos imagem e semelhana do Criador, o poder de superao que existe em todos ns. Tanto a dor como a alegria podem se transformar em poesia, artes plsticas, msica, doao e entrega ao prximo, o que vai enfeitar a vida de todos os demais e mostrar a face da Beleza, que a face do prprio Deus.
Se soubermos confiar na Misericrdia Divina cada golpe nos far crescer e nos tornar mais fortes.
Perder um filho perder um pouco de si mesmo. Perder os pais tambm perder pedaos de si. Eles, porm, sero eternos, no apenas na nossa saudade, mas naquilo deles que ficou em ns.
Quanto mais envelheo, mais me acho parecida com meus pais. E me surpreendo, a todo o momento, dizendo: "Papai dizia isso ou mame dizia aquilo"... S a esta altura da vida, vamos compreender a sabedoria de nossos pais, que, tantas vezes, contestamos, na soberba de nossa juventude...
Frederick Perls, grande psiclogo gestaltista, dizia que toda vela deve se consumir at o fim. Ele se referia s emoes, que no devem ser reprimidas, mas vividas at se consumirem. S assim poderemos prosseguir na belssima jornada da vida, com equilbrio, mais amor por ns mesmos e pelo nosso prximo. Por exemplo, dor que no vivida plenamente, mas reprimida, pode se transformar em dores no corpo fsico.
, pois, uma tolice de nossa parte pedir a algum que chora que pare de chorar; a algum que sofre que se distraia e esquea a sua dor. Vamos deixar a vela se consumir para que sejamos mais sadios, teis e amorosos.
Tenho por costume deixar a vela se consumir. Eu sempre renaso das cinzas: mais iluminada e mais cheia de amor.
A vida uma beno: no nos esqueamos jamais disso! E tudo passa: essa a nica certeza que temos...

Maria Luiza Silveira Teles (presidente da Academia Montes-clarense de Letras)


81341
Por Maria Luiza Silveira Teles - 5/3/2016 09:42:31
AMOR IMPOSSVEL

Hoje encontrei a foto da Rua Gorki, onde voc me disse que passearamos um dia. Bateu-me uma enorme nostalgia, pois nunca mais vou ver voc e nem passear ao seu lado na Rua Gorki, nem em lugar algum.

Existem amores que nunca nos abandonam na saudade. Ficam como prottipos do amor verdadeiro, talvez porque nunca se realizam. Nossos coraes e nossos corpos arderam em fogo, mas nunca sua mo tocou a minha. Sonhamos com um futuro que jamais existir. Fizemos mil planos que jamais havero de se concretizar.

Hoje, se ouo uma bela msica, choro pensando em voc. Se vejo um belo quadro, lembro-me do quanto voc o apreciaria! Tudo de bom traz no bornal a sua lembrana... Ah, quanto eu o amaria! Mas, assim, no quis a vida! Ou no quisemos ns? Conhec-lo foi uma das melhores coisas que me aconteceu. Sua alma to lmpida... Seu corao de anjo... Sua face to nobre!

Depois de voc, como posso amar algum outro homem? Nenhum nunca conseguir ser to belo e maravilhoso! Nenhum ser to amigo, nem to romntico, nem to espiritualizado!

Se leio um belo texto penso logo em l-lo para voc... Se os caminhos so belos, lembro como voc os amaria! Se a chuva tamborila leve na vidraa, voc chega junto com ela. Se o sol, voc brilha com ele. Em tudo est o seu esprito! Ah, as praias que nunca verei, os caminhos pelos quais nunca caminharei, as msicas que nunca escutarei, os livros extraordinrios que nunca lerei... Os poemas que nunca farei... Tudo voc!

Todos os amores que tive na vida eram plidas imitaes do amor que, um dia, arrebataria minhalma. Mas, voc nem nunca saber desse amor. Nunca tomar conhecimento de minhas lgrimas, de minha saudade, de minha solido! Voc: o homem que eu busquei, talvez por muitas vidas, escapou-me como gua a escorrer pelos dedos.

Voc dizia que era um anjo que me trouxe terra para, depois, encarnar e podermos nos encontrar e amar, vestidos de humanos. Mas, no era verdade! Era apenas um sonho e eu acordei e fiquei condenada a chorar para sempre com a lembrana eterna de um amor que nunca se realizou.

Maria Luiza Silveira Teles
(presidente da Academia Montes-clarense de Letras)


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Por Maria Luiza Silveira Teles - 7/2/2016 16:16:22
AINDA SE MORRE DE AMOR...


Ela era apenas uma menina quando ele a conheceu, uma menina que desabrochava para a vida de mulher. Bastou um nico olhar para apaixonar-se. Este amor iria durar toda uma vida, mas um amor calado, sem esperanas, sufocado no peito.
Em seu corao, ele a chamava de princesa. E como poderia uma princesa olhar para um simples empregado de seus pais?
Ela era doce, gentil, educada. Parecia-lhe uma flor. Tratava-o sempre muito bem, como a qualquer um... Nem de longe poderia desconfiar daquele amor, pois ele era sempre respeitoso e, quando lhe falava, abaixava os olhos, talvez para que no pudesse ler neles aquele sentimento avassalador.
Para que sua dor fosse maior, mas, ao mesmo tempo, para sua felicidade e orgulho, o pai da garota encarregou-o de olhar por ela, sempre distncia, para que ela no desconfiasse. Isto porque ela tinha sade frgil e, muitas vezes, desmaiava na igreja, no cinema, com ele sempre ali a amparando. Quando ela voltava dos desmaios era sempre o olhar dele, aquele olhar temeroso e cheio de carinho, com o qual ela se deparava primeiro.
Alm do problema da sade, ela comeava a chamar a ateno dos rapazes e o pai o encarregara de no deixar nenhum se aproximar dela.
Morou algum tempo em casa dela e aprendeu com os pais e com ela prpria uma tica que nortearia toda sua vida. Sempre justo, honesto, verdadeiro, gentil. Estes seriam os mesmos valores que, um dia, ele passaria para seus filhos.
Tinha um enorme e grosso caderno, ao qual ningum nunca teve acesso, no qual ele ia escrevendo seus versos para a princesa.
Um dia, porm, - sempre chega este dia a vida os separou. Ele continuou vivendo uma vida pela metade, pois ela lhe faltava. E ela se lembraria, muitas vezes, dele como um irmo que ficara pelo caminho...
Ele se casou com outra e constituiu uma bela famlia, mas sempre com a lembrana doda daquele amor que seria eterno. Separou-se da mulher, pois sempre difcil viver com uma e ter outra no corao... Seu caderno continuava registrando suas dores, sua saudade, o abismo de sua alma e os desertos difceis por onde teve que andar...
Ele precisava encontr-la! Mas, pensava, era uma loucura! Ela teria sua vida, deveria estar casada e com filhos. Alm disso, com a inteligncia que j naqueles tempos demonstrava, deveria ser algum muito importante.
Ningum pode prever as voltas que este mundo d. Pois no que, j na terceira idade, sentindo que a vida o abandonava, ele conseguiu encontr-la?! Ela continuava com aquele jeito simples e doce de menina! Descobriu que, realmente, ela era muito importante, mas quem o diria com aquela humildade?! Abraou-o feliz e aquela chama virou uma labareda que tomou conta de seu ser. A viagem para encontr-la foi muito dura e difcil para ele, mas valeu poder estar com ela! No a perderia mais!
Ms aps ms, ele sempre lhe telefonava. Agora, j no tinha mais vergonha de lhe falar daquele amor que o consumira por uma vida! Afinal, ela estava s e ele tambm e as distncias sociais que, antes, os separaram eram insignificantes nos dias de hoje...
Pediu-lhe cartas e ela lhe escreveu. Pediu uma foto e ela enviou-a. Pediu que fosse visit-lo e ela concordou. Marcou a viagem e ele preparou tudo, com enorme zelo, para receb-la como uma princesa, o que ela verdadeiramente era e fora sempre para ele.
O destino, porm, foi impiedoso e, nos dias do embarque, problemas familiares a impediram de viajar... Como ele sofreu! As foras o abandonavam... Ela seria a nica luz que poderia devolver-lhe a vida! Mas ela no foi...
Continuaram, porm, a falar-se pelo telefone. Foram quatro anos, sem foras, com a molstia o devastando, apesar da pouca idade. E no morria a esperana, como ele prprio dizia, de entregar-lhe aquele beijo guardado h tanto tempo!
Ele precisava de uma cirurgia urgente no corao e ela animou-o muito para faz-la, mas ele no quis. Disse-lhe que preferia morrer em sua cama a faz-lo numa sala de cirurgia. Ela retrucava: mas no para morrer, para viver mais!. Ele, porm, no acreditava que sobreviveria...
O telefone no tocou mais e o corao dela oprimiu-se. Uma angstia no a abandonava. Teve vontade de ligar, mas teve medo, medo daquilo que seu corao j tinha lhe avisado...
Depois de trs meses, tomou coragem e ligou. A filha atendeu. O corao dela disparou. Disse que queria falar com o pai e um longo silncio se seguiu... Quando a moa conseguiu falar, disse-lhe: no tivemos como avisar senhora...- avisar-me de que? pergunta besta quando j sabia a resposta... Parece que ele tinha o telefone da senhora na cabea, pois no o encontramos em nenhuma agenda.... E a frase-punhal veio certeira: Ele faleceu h trs meses.
Como podia ser? Levara com ele aquele imenso amor? Aquele beijo nunca dado? E, agora, mais do que nunca, ela se sentia s. Vida cruel! E agora? Repetia bobamente... Algum se importa? No, ningum! Cada um tem sua histria e que importa ao mundo a morte de algum que morreu de amor?...


Maria Luiza Silveira Teles


81214
Por Maria Luiza Silveira Teles - 31/1/2016 18:14:44
PAZ E FELICIDADE


Para mim no h nenhum choque entre a idia de Deus e a prpria Cincia. Entretanto, a Cincia tem a sua postura acadmica de preocupar-se unicamente com o que tangvel e concreto. A, porm, ela se contradiz, pois poderamos dar vrios exemplos de objetos cientficos que no so concretos: at onde a eletricidade tangvel em sua forma pura? E as ondas do som e da luz?...
Praticamente todos os grandes pensadores, mais cedo ou mais tarde, chegaram a Deus. E muitos , quando o fizeram, passaram a ser desconsiderados pela Cincia, como o caso de Jung, cuja segunda parte de sua obra, a Psicologia Profunda, menosprezada pela Psicologia oficial (se que existe uma...).
Ningum pode, em termos puramente racionais, discutir a existncia ou inexistncia de Deus, embora a Fsica Quntica cada vez mais nos aproxima de uma concluso positiva. So palavras de uma fsica notria, cujo nome me escapa: Como poderia haver tantas coincidncias, todo o Universo obedecer a leis perfeitas e coerentes, se no houvesse uma Inteligncia Suprema a controlar tudo?.
O que nos importa aqui, porm, no entrar neste tipo de discusso, nem convencer ningum do que quer que seja. No podemos, entretanto, deixar de pontuar nossa posio: pensamos que a felicidade a paz esto na sintonia absoluta com Deus. Isto no significa, no entanto, que a pessoa tem, necessariamente, que ser religiosa. Uma pessoa bondosa, de pensamentos positivos, que ama o ser humano, respeita e ama a Natureza, est em sintonia com Deus, mesmo que no imagine tal coisa.
Pode-se fazer mil terapias e at ser uma pessoa religiosa, mas isto, no passaporte para a felicidade. As boas coisas que a vida nos traz so percebidas como boas porque as comparamos com as que consideramos ms.
uma atitude sbia aceitar como parte de nossa aprendizagem as dores que precisamos suportar. Nenhum caminho desprovido de pedras; nem sempre o cu est sem nuvens. A felicidade depender da habilidade de cada um em saber aproveitar cada uma das pedras encontradas para com elas construir o alicerce que ser a base de sua capacidade de crescer em fora e autoestima.
Aceitar o que a vida nos traz sabedoria. No entanto, a sensao de plenitude, de realizao absoluta, de paz permanente, para mim, s poder ser encontrada em Deus.
Se impossvel definir Deus, podemos, entretanto, sentir-Lhe a Presena. necessrio, porm, que estejamos abertos para isso. Quem s vive mergulhado nos problemas materiais, no torvelinho do dia-a-dia, sem parar para contemplar o Universo, em sua beleza e mistrios, no consegue acreditar em Deus ou O imagina como uma realidade distante e dificilmente deixa que Deus de fato o toque.
Ele est presente em ns. Quando fazemos esse mergulho na quietude, ns O encontramos. Ns e o Universo somos unos. E todos so unos com o Criador.
A f inabalvel, a confiana firme no amor divino, em Sua presena e misericrdia criam em ns uma harmonia interior, que fato exterior algum pode abalar.
Segundo Elisabeth Leseur, a alma que se eleva, eleva o mundo. Portanto, quando amamos, crescemos, nos transformamos para melhor, estamos a melhorar o mundo e a conquistar a paz.
Uma coisa certa: quem no encontra sua realizao em algo sempre amargo e pessimista, antiptico, prepotente, presunoso ou, ento, ao inverso, possui sentimentos de inferioridade e uma aura de derrotismo. Mas, pode essa pessoa ter paz ou alcanar a felicidade?
As pessoas autenticamente religiosas, que enchem seus coraes de amor, f e esperana, conseguem harmonia e paz e enfrentam com mais equilbrio as situaes difceis da vida.
Se tua alma est nostlgica, integra-te na harmonia do universo e a alegria povoar teu mundo interior. Ao teu lado a Natureza canta hinos de louvor criao. Aqui e ali, a vida uma perene cano de amor. Tudo fala de renovao, evoluo, alegria e paz. A dor s poder destruir-te se lhe deres guarida. Se estiveres protegido pela f, pela esperana e pelo amor, ela no ser seno um pequeno espinho que incomoda, mas no chega a penetrar na carne.
Se tiveres olhos para contemplar a beleza, poders esquecer-te do que feio. Se tiveres ouvidos prontos a ouvir os hinos de amor que cantam teus irmos, num testemunho veemente da misericrdia Divina, decerto passaro despercebidas as palavras de rancor, cime, inveja ou ofensa.
Se puderes assistir, de corao aberto, a continuao do milagre da vida, s estaes que vo e voltam, ao sol que se esconde e, depois, ainda brilha, s plantas que secam e, amanh, ainda do frutos; se puderes observar a criana, o jovem, o velho, o casal enamorado; sentir o eterno fluxo e refluxo da vida, poders encontrar a Deus e ver que h motivos para se viver e ser feliz.



Maria Luiza Silveira Teles
(presidente da Academia Montes-clarense de Letras)





81171
Por Maria Luiza Silveira Teles - 24/1/2016 16:58:14
A PARTIDA

A vida feita de chegadas e partidas. No h como evitar isto. Geralmente, a chegada saudada com alegria e a partida com lgrimas.
Entretanto, h uma partida definitiva: aquela em que somos levados outra dimenso, abandonando o corpo material, os afetos e tudo aquilo que achvamos que nos pertencia.
Nunca consegui entender porque as pessoas conversam tanto nos velrios. Na verdade, somente a famlia do morto chora em silncio, mergulhada na dor da perda e da ausncia.
As pessoas tagarelam e contam piadas. Botam a conversa em dia. um encontro de confraternizao.
Ser esse comportamento uma maneira de exorcizar a morte? De no pensar que, um dia, l estaro os amigos a nos velar e levar tumba fria?
Sei l! Ou ser a vida moderna, na sua ferocidade, na sua velocidade para tudo, inclusive para os compromissos, que, de repente, faz da morte um intervalo para o encontro daqueles a quem queremos to bem e com quem no podemos conviver na medida do nosso querer?
Seja como for, aqui e em outros cantos do planeta, o velrio quase uma festa, com "comes e bebes". Seria uma festa comemorando a Vida e no a morte? Por que o qu a morte seno o fim de um ciclo? Talvez todos, em seu ntimo, e talvez inconscientemente, brindem vida daquele que se foi. Do dever cumprido, da lembrana do que foi e do que deixou.
Porque ningum passa pela vida em brancas nuvens, impunemente. A vida tem um preo e todos ns pagamos por ela. Ou com alegria e belas obras, ou com tristeza, mas trabalho e dor.
No estou absolvendo a todos os seres humanos. Mas, a mim no cabe julgar ningum. Cada um tem sua prpria conscincia, que o inferno, o cu ou o purgatrio, no encontro com a Morte. Esse um momento de extrema solido ao qual ningum pode fugir. Ns e nossa conscincia. Um encontro difcil e doloroso. Sei disso porque, embora c ainda esteja pela Graa Divina, j passei por este momento, quando todos esperavam que eu morresse.
Finalizando tais elucubraes, acredito que isso: nos velrios comemoramos a Vida, o Amor, a esperana do reencontro, as belezas e as dores da Viagem. S pode ser!
Falando neste assunto do nosso dia-a-dia, quero homenagear, hoje, o nosso amigo e colega Raphael Reys, escritor e historiador, espiritualista convicto, que fez a sua Grande Viagem e foi enterrado ainda h pouco.
Raphael era um grande amante de Montes Claros e registrou em sua escritura momentos importantes e inesquecveis de nossa histria. Tanto conversamos sobre o fenmeno da morte que, para ambos, no era seno uma passagem para outra dimenso. Tanto filosofamos em inmeros velrios!
Hoje foi a sua vez. No pude ir ao seu velrio. Melhor assim! Prefiro lembrar de meu amigo como ele sempre foi: um amante da Vida. E a sua vida que celebramos agora,
Que Deus o tenha e que d sua famlia o conforto necessrio neste momento difcil da separao.

Maria Luiza Silveira Teles (presidente da Academia Montes-clarense de Letras)


81077
Por Maria Luiza Silveira Teles - 11/1/2016 08:45:44
CONFISSO

Um cronista deve estar a par do que acontece no mundo, em seu pas e em sua cidade. Afinal de contas, o cotidiano a sua temtica principal.
Entretanto, ando cansada de noticirios! Cansada de coisas ruins, de violncia, de hipocrisia, de corrupo, de jogos de interesses, de disputa de egos, de desamor, de guerras, das fogueiras de vaidade, de tanta futilidade.
Ando faminta de Beleza, Poesia, Amor! Ando querendo ps no cho, frutos na rvore, cheiro de mato. Quero recuperar a pureza da infncia, suas loucas fantasias, seus sonhos, risadas e brincadeiras.
Quero de volta as utopias da juventude, as paixes amorosas, a coragem de mergulhar no novo e desconhecido, a vontade de transformar o mundo.
No suporto mais a misria de tantos, os preconceitos, a injustia, o radicalismo, seja do qu for.
Resolvi, neste fim-de-semana, descansar completamente. Isto significou isolar-me um pouco, pensar e esquecer tudo isto. Resolvi deixar de lado qualquer obrigao, a internet, redes sociais, etc.
Vi, ento, filmes extraordinrios que me levaram reflexo e beleza por que minha alma tanto ansiava. Pude embarcar em belas histrias. Assisti a pelcula My way, o mito alm da msica, que conta a histria do artista francs, Claude Franois, autor da msica que leva o mesmo nome e que sempre amei e com a qual me deliciei, tantas vezes, na voz de Frank Sinatra. Nunca soube que seu autor era o francs Claude. A histria de sua vida bastante parecida com a de tantos, que lutam pelo sucesso e se deixam perder por ele.
Revi, tambm, o filme O Despertar, com Robert de Niro e Robert Williams em um desempenho fantstico. E, hoje, resolvi dar risada com a Escolinha do Professor Raimundo, uma releitura da antiga que era com o inesquecvel Chico Anysio.
Depois, assisti o The Voice Kids, uma srie de talentos infantis e juvenis. Lavei a alma... Abandonei por dois dias toda a realidade deste mundo cruel que anda me enojando.
Mas, a, acabei por descobrir que me perdi pelo caminho. Gostaria de ter me dedicado, inteiramente, e com maior profundidade, ao estudo fascinante da mente humana e desenvolvido, alm da Literatura, os meus anseios pela msica, pelo canto e pela dana.
Estudei piano, na infncia, por trs anos, mas acabei por largar pela exigncia da obrigao. No me esqueo de minha professora, Dona Onda, em Barbacena, e, nem tampouco, de Dulce Sarmento, minha mestra de Canto na Escola Normal.
Quis aprender bal, mas meus pais no deixaram porque, naquela poca, no era um meio decente para moa de famlia.
Assim, alguns sonhos foram morrendo pelo caminho. Sei que podem dizer que no tarde para realiz-los. Tenho um amigo, o professor Juvenal Dures, que, depois dos oitenta anos, dedicou-se a aprender msica e italiano. uma lio de vida! Eu, entretanto, no tenho este nimo, nem esta fora de vontade.
Bem, depois deste descanso e destas reflexes todas, sinto-me renovada porque sei que ainda h motivos para se acreditar na beleza da vida e na bondade de poucos, mas que merecem meu respeito.

Maria Luiza Silveira Teles (Presidente eleita da Academia Montes-clarense de Letras e membro do Instituto Histrico e Geogrfico de Montes Claros)


81058
Por Maria Luiza Silveira Teles - 5/1/2016 14:11:44
A vida como ela

A gente vai vivendo momentos de alegria e momentos de profunda tristeza. Tudo ensinamento e com todas as experincias vamos crescendo.
s vezes, a dor to terrvel que pensamos no suportar. Mas, dentro de ns, existe uma fora que normalmente desconhecemos e nos acode nestes instantes
S Deus sabe a dor de perder pai, me, filho, amigos No momento, muitas vezes, ficamos como que anestesiados. Isto a Misericrdia de Deus agindo. Talvez, se ficssemos inteiramente lcidos, provavelmente enlouqueceramos como alguns..
Mas, os dias vo passando e a vida nos empurra porque ela um impulso muito forte. A dor vai, pouco a pouco, diminuindo Costumo dizer que o unguento que o Pai Maior vai colocando na ferida. E, de repente, percebemos que a saudade muita, mas ela j no di.
E comeamos a dizer que as obrigaes do dia-a-dia nos levam para diante. O tempo passa e, subitamente, percebemos que a alegria voltou. Este o processo natural. Deus nos deu provaes para que aprendamos, provavelmente, a ser humildes, complacentes, compassivos; a nos tornarmos o prprio Amor.
Entretanto, Ele nos quer felizes, vivendo a vida em plenitude. Continuar cultivando a tristeza e parar no Tempo doena. Precisamos estar atentos a isso.
Depois de qualquer perda, seja de que tipo for, costumamos ter um perodo de luto. Mas, quando o luto dura muito j questo patolgica.
Se perdemos por um lado, sempre ganhamos por outro. Tornamo-nos mais amantes da vida e crescemos espiritualmente.
As perdas, na verdade, no so perdas, mas ganhos em espiritualidade e vida. Se a gente, ao invs de mergulhar na dor, procurar ver os sinais que Deus nos manda, logo tudo passar. Porque a caracterstica principal de tudo que vive a impermanncia. Tudo passa e tudo tem fim.
Olhemos o sol, a noite estrelada, o carinho da famlia e dos amigos, o canto dos pssaros, a msica das cascatas, a beleza das flores, o renascimento de tudo que morre, como no caso de muitas plantas, e veremos que Deus sempre est conosco e nos cobre com seu manto de Amor.
Algum pode negar a beleza da vida? Acho que ningum. Mesmo aqueles que sofrem duras privaes e, muitas vezes, se entregam ao desespero, podem parar um instante e contemplar o esplendor de um crepsculo; podem colher flores e amar e receber amor do seu prximo.
Talvez alguns digam: Como contemplar a beleza de algo se a vida se mostra to feia com a doena, a misria, a injustia, a fome? verdade. No fcil. No quero dizer que simples ver a beleza de estmago vazio. Mas, ter f e esperana ainda o melhor caminho em qualquer situao. Isto no comodismo! Claro que devemos lutar para a melhoria da condio de todos. Quem pode negar, tambm, que a vida tecida de sonhos mortos, de dores, saudades, perdas e tristezas profundas? Revoltar-se e desesperar-se, entretanto, s provoca doenas no corpo e na mente.
O mais bonito na natureza humana e que talvez seja a maior prova de que somos feitos imagem e semelhana do Criador o poder de superao que existe em todos ns. Tanto a dor como a alegria podem se transformar em poesia, artes plsticas, msica, doao e entrega ao prximo, o que vai enfeitar a vida dos demais e mostrar a face da Beleza, que a face do prprio Deus.
Se soubermos confiar na Misericrdia Divina cada golpe nos far crescer e nos tornar mais fortes.
Perder um filho perder um pouco de si mesmo. Perder os pais tambm perder pedaos de si. Eles, porm, sero eternos, no apenas na nossa saudade, mas naquilo deles que ficou em ns.
Quanto mais envelheo, mais me acho parecida com meus pais. E me surpreendo, a todo instante, dizendo: "Papai dizia isso ou mame dizia aquilo"... S esta altura da vida, vamos compreender a sabedoria de nossos pais, que, tantas vezes, contestamos, na soberba de nossa juventude...
Frederick Perls, grande psiclogo gestaltista, dizia que toda vela deve se consumir at o fim. Ele se referia s emoes, que no devem ser reprimidas, mas vividas at se consumirem. S assim poderemos prosseguir na belssima jornada da vida, com equilbrio, mais amor por ns mesmos e pelo nosso prximo. A dor que no vivida plenamente, mas reprimida, pode se transformar em dores no corpo fsico.
, pois, uma tolice de nossa parte pedir a algum que chora para parar de chorar; a algum que sofre que se distraia e esquea a sua dor. Vamos deixar a vela se consumir para que sejamos mais sadios, teis e amorosos.
Hoje estou profundamente triste. E no venham me animar! Vou deixar a vela se consumir. Eu sempre renaso das cinzas: mais iluminada e mais cheia de amor.
A vida uma beno: no nos esqueamos jamais disso! E tudo passa: esta a nica certeza que temos.

Maria Luiza Silveira Teles
(presidente eleita da Academia Montesclarense de Letras e membro do Instituto Histrico e Geogrfico de Montes Claros


81037
Por Maria Luiza Silveira Teles - 29/12/2015 14:50:50
A NOVA CRONISTA

Mara Narciso uma cronista que me encanta e espanta. Espanta por qu? Porque ela uma mdica e, pelo que sei, uma boa mdica. Um bom mdico, geralmente, se dedica quase que exclusivamente a estudar sua especialidade. Isto requer muito tempo, muitos livros e muitas idas a Congressos. Ento, no lhe sobra muito tempo para dedicar-se a outros tipos de estudos. No verdade? Tenho conhecido poucos mdicos com boa cultura geral, conhecedores de literatura, bons autores, boa poesia, boa msica, clssicos, peras, etc. Tal no o caso de nossa cronista. Percebemos, claramente, que ela uma devoradora de boa literatura e possuidora de vasta cultura geral.
Ela me encanta exatamente por isto. Como uma pessoa que l bastante, as palavras fluem em sua escrita com uma facilidade incrvel. E suas crnicas so recheadas de imagens simblicas e percebe-se, ainda, que uma criatura bastante reflexiva, que sabe, com profunda filosofia, penetrar nos assuntos mais corriqueiros, analisando-os e criticando-os. de um talento indiscutvel! Ainda mostra certa mordacidade ao tratar da banalidade e da futilidade de muitos dos valores vigentes em nossa sociedade contempornea.
fecunda, bastante fecunda! Um poder de criatividade e fertilidade incrveis! Sou obrigada a confessar que, muitas vezes, causa-me inveja. No inveja destruidora, mas aquela que fruto de uma profunda admirao. Por qu? Porque muitas vezes desespero-me com a pgina em branco e a mente vazia. Isto, porm, no parece acontecer com nossa amiga Mara.
Suas crnicas so sempre atuais. Ela se preocupa com a realidade circundante. Est sempre inserida nela, sem deixar-se contaminar pelo mal que dela exala, como o lrio que nasce na lama, emergindo com toda pureza e encantando por sua beleza.
Sempre admirei sua escrita, mas confesso que pensava que ela fosse uma pessoa estranha e fechada. Ao conhec-la, porm, deparei-me com outra realidade: ela encantadora e dona de uma profunda riqueza interior. Apenas tmida. Este tipo de pessoa que me encanta e com quem gosto de me relacionar. E, ainda, tem mais uma qualidade importantssima para todos ns: uma boa conhecedora de nossa histria.
Montes Claros, ao longo do tempo, pode se orgulhar de ter produzido timos cronistas. Se formos falar do passado teremos uma lista infindvel. Mas, no presente, alm de Mara, temos muitos outros que enriquecem o nosso dia-a-dia: Itamaury Teles, Jorge Silveira, Wanderlino Arruda, Raquel Mendona, Felicidade Patrocnio, Georgino Jmior, Drio Cotrim, Alberto Sena, Petrnio Braz, Ucho Ribeiro, Avay Miranda, Jos Ponciano Neto, Waldir Sena Batista, Virgnia de Paula, Paulo Narciso, Paulo Braga, Marcelo Eduardo Freitas, Maria Ribeiro Pires, Manoel Hygino, Luiz de Paula, Jos Prates, Ivana Rebello, Joo Carlos Sobreira, Carmem Netto e outros tantos, cujos nomes me fogem no momento.
Todos os cronistas citados no se enquadram apenas na crnica e so todos portadores de uma excelente bagagem cultural. Mas, voltando Mara Narciso, para mim ela uma nova revelao se compararmos as idades da maioria das pessoas citadas atrs. natural, quando se intelectual, que, ao longo da vida, desenvolvamos mais conhecimentos, sabedoria e desenvoltura com o uso da palavra. Entretanto, Mara ainda no viveu tanto, mas j espanta por seus conhecimentos, fluidez, leveza e profundidade em sua crnica. mais uma intelectual de que Montes Claros pode se orgulhar.
Maria Luiza Silveira Teles (Presidente eleita da Academia Montes-clarense de Letras e membro do Instituto Histrico e Geogrfico de Montes Claros)


81001
Por Maria Luiza Silveira Teles - 15/12/2015 17:15:40
FESTAS DE FIM DE ANO

Vivemos tempos de festas, tempos de reencontro com amigos, que moram fora, e de encontro com a famlia. Embora, nada seja to agradvel quanto antes, quando nossos pais eram vivos, no podemos negar que mesmo as lembranas so boas companheiras e por elas devemos agradecer.
So tempos de contemplao do Divino e de reflexes.
Quando um ano termina e outro comea, nossos coraes se enchem de esperanas. Esperana de um mundo novo e de uma vida nova.
Entretanto, a verdade que nada pode se modificar se no modificarmos a ns mesmos. Alis, a nica mudana que podemos realizar a mudana de nosso interior.
preciso crescer e, para isso, temos que enfrentar nosso lado obscuro e trabalhar seriamente na sua transformao. Somente assim estaremos vibrando numa sintonia mais alta. Quando agimos dessa forma o Universo responde com acontecimentos positivos.
De nada vale nos queixarmos dessa sociedade materialista, violenta, ftil, vazia, amoral, injusta, corrupta, consumista, se ns no nos tornamos pessoas mais espiritualizadas, pacficas, justas, bondosas e incorruptveis.
Estudando a Histria, podemos perceber que todas as civilizaes que perderam a viga-mestra de seu sustentculo, os valores considerados eternos, os mesmos discutidos por Scrates, Plato, Confcio, Cristo e tantos outros, caminharam inexoravelmente para o seu fim.
Acredito que o mesmo acontece com a nossa civilizao. Ela est seriamente doente e o trmino de qualquer doena grave costuma ser a morte.
Portanto, tempo de agradecer e pedir a coragem de nos vermos como somos realmente e comearmos a nossa mudana interior.
Acostumei-me sempre a dizer que existe em nosso planeta o Movimento Silencioso do Bem. O mal barulhento e enraizou-se em nossa sociedade promovendo a deteriorao da mesma. Mas, silenciosamente, ainda h aqueles que promovem o Bem atravs de aes amorosas.
Estes so a esperana da construo de um mundo novo, de uma sociedade realmente fraterna. No falo em religies, mas no Bem. Porque, infelizmente, existe um nmero enorme de pessoas que, em nome de suas religies, promovem a discriminao e a violncia.
O prprio Papa atual, que governa uma das maiores religies do planeta, vem falando repetidamente das doenas graves de que sofre a maioria de seus representantes, inclusive aqueles de uma hierarquia superior.
De nada vale a pessoa bater no peito, frequentar os templos, ouvir as pregaes, estudar a Bblia, o Alcoro, o Tor, o Vedas, o Bhagavad Gita ou outro qualquer se no se transforma.
Acho que j do conhecimento de todos a famosa frase com a qual o Dalai Lama respondeu pergunta de Leonardo Boff num encontro dos dois. A pergunta foi: Sua Santidade sabe dizer-me qual a melhor religio?. Ele esperava que o Dalai dissesse: O Budismo, mas ele respondeu: Aquela que te faz melhor. disso que estou falando.
Acho que esta a hora de nos ajoelharmos, humildemente, diante da Divindade e pedirmos: Oh, Senhor, me faz uma pessoa melhor para que eu possa ajudar a transformar o mundo e termos, no prximo ano, um ano pleno de novas realizaes do Bem.
Acho que devemos nos lembrar que at pra fazermos alguma crtica aos outros, ao governo ou qualquer entidade ou instituio, devemos, em primeiro lugar, termos um comportamento exemplar e estarmos trabalhando seriamente em nossa melhoria interior.

Maria Luiza Silveira Teles
( Presidente eleita da Academia Montes-clarense de Letras e membro do Instituto Histrico e Geogrfico de Montes Claros)


80961
Por Maria Luiza Silveira Teles - 5/12/2015 12:17:13
LEMBRANAS DE CNDIDO

As ideias pululam na mente. Principalmente, noite. Acontece que sou danada de preguiosa! Levantar no meio da madrugada nem pensar... Acho que s mantendo um caderno ou caderneta perto do travesseiro.
Entretanto, uma lembrana tem insistido em me trazer uma enorme saudade. Fico vendo o meu querido amigo, Cndido Canela, sentado em sua varanda ou em seu pequeno escritrio... A lembrana to forte que, algumas vezes, penso estar delirando.
Desde criana, ouvia papai falar em Cndido, seu grande amigo, e o maior poeta dos sertes de Minas Gerais, no dizer de papai. Tinha, pois, desde ento, muita admirao por aquela grande figura, mas era algum muito distante de mim como todos os grandes autores que eu lia!...
J em Montes Claros, era, ento, professora do Colgio Tiradentes, quando fui convidada por Ubirajara Toledo para ser entrevistada em um programa chamado Tribunal da Opinio Pblica, na ZYD7. Isto porque eu estava criando um escarcu na cidade com minhas aulas para alunos e pais sobre sexualidade. Pois bem, no que Cndido ouviu minha entrevista e descobriu, com grande alegria, conforme suas palavras, que eu era filha de um velho amigo seu? Escreveu, ento, para meus pais uma carta que ainda guardo com muito carinho. Papai e mame mostraram-me a carta extremamente orgulhosos da filha. E eu quis conhecer o seu autor.
Assim, fui visit-lo, pela primeira vez, acompanhada de meus pais. Identifiquei-me tanto com Cndido que acabamos por nos tornar bons amigos e passei a ser figurinha batida em sua casa.
Dona Laurinda, sempre acompanhando nossas conversas e preparando o caf com biscoitos, era a companheira adorvel. Do qu falvamos? Geralmente de livros, autores e fatos. Infelizmente, porm, no guardo, de maneira especial, nenhuma conversa em particular, apenas que ele insistia em dizer que eu era da esquerda festiva. O que realmente me marcou em Cndido foi sua simplicidade e humildade. Como todos os grandes homens de verdade, assim a vida tem me ensinado. Encantava-me o carinho e a simplicidade com que me recebia e, mais ainda, sua sinceridade em falar de sua neurose, que o fazia fugir de reunies. Ele adorava visitas, mas jamais as retribua. Tambm para qu? Tinha visitas praticamente todos os dias. Papai e tio Olyntho mesmo eram visitas praticamente dirias
No era um homem de grandes chamas de otimismo. Mas era um homem reto, digno, de carter impoluto. Apesar de sua alegria em nos receber, eu podia notar que, pensativo demais e filsofo, ele no deixava de apresentar uma certa melancolia. No sei dizer se isto era uma caracterstica de sua personalidade ou prpria da idade, pois, na velhice, acabamos por nos tornar saudosistas...
Quando Cndido faleceu, eu no estava na cidade. E um grande vazio passou a tomar conta de mim. Criei o hbito de parar em frente sua casa e recordar, com lgrimas nos olhos, sua figura e nossas prosas. Um dia, porm, no encontrei mais sua linda e simples casinha. Nada de Cndido, nada do quintal, do papagaio que cantava o Hino Nacional, dos passarinhos e nem de seu jardim. Somente escombros
Jamais compreendi como o poder pblico no fez da casa de nosso grande poeta um museu como tantos que existem espalhados por pequenas cidades deste imenso pas, cultuando a memria de seus grandes escritores. Alis, Montes Claros se caracteriza por ser uma cidade sem memria.
E me ponho a pensar: onde um intelectual da estirpe de um Cndido nos dias de hoje? No estou fazendo pouco dos verdadeiros, mas o nico que conheci de sua dimenso, no somente na intelectualidade, mas na humildade, foi Haroldo Lvio que, h um ano, nos deixou.
Montes Claros, cidade que produziu um Cndido Canela, um Cyro dos Anjos, Darcy Ribeiro, Nelson Vianna, Hermes de Paula e tantos outros grandes, hoje se tornou a cidade dos escritores, isto , uma cidade onde basta ter dinheiro e publicar qualquer coisa para o indivduo ser chamado de escritor, Ningum pensa mais em qualidade, mas em quantidade. Graas a Deus que ainda temos alguns de quem podemos realmente nos orgulhar! So prolas que a peneira do Tempo haver de garimpar. Citar nomes seria indelicado, pois outros poderiam se melindrar. Mas, sem dvida, ainda temos gente de muito valor no campo das Letras! Mas, um Cndido? Onde?
Fui, morando aqui, por dez anos, consultora editorial da Vozes, uma das maiores editoras do pas e do mundo, e consegui publicar apenas um livro, na rea religiosa, de Terezinha Corra, que reside em Montes Claros, mas carioca.
O livro de Terezinha, depois de meu estudo e aprovao, teve que passar pelo crivo de um editor da rea e por um Conselho Editorial, obtendo total aprovao. Pena que ela no escreveu mais! E eu larguei a consultoria, pois dava muito trabalho e parca renda.
Sei, tambm, que livros regionais de muito valor para a Histria de Montes Claros e outras circundantes no interessam para grandes editoras que preferem assuntos universais.
Bem, finalizando, uma coisa que sempre m trazia de volta a memria de Cndido era tia Yvonne, tambm sua amiga, recitando o Nega Fulo. Quem mais haver de recitar esta poesia de Cndido com a nfase de Yvonne de Oliveira Silveira?
Ah, a poeira do tempo, que a tudo leva e a tudo transforma!...

Maria Luiza Silveira Teles (membro da Academia Montesclarense de Letras e do Instituto Histrico e Geogrfico de Montes Claros)


80861
Por Maria Luiza Silveira Teles - 16/11/2015 11:55:12
PIEDADE! PIEDADE!

Por que pedir piedade para mim, minha famlia, minha cidade, meu pas, quando toda a humanidade sangra, quando corre o risco de desaparecer do planeta como consequncia triste do dio, do
fanatismo, da intolerncia, do preconceito e da ganncia humana?
Estas so as patologias da mente e da alma, que corroem os indivduos, tornando-os infelizes e levando-os a querer destruir a felicidade dos outros. A humanidade est doente, o planeta
tambm.
Algum disse que o Rio Doce est na UTI, mas a verdade que todos estamos na UTI.
O desaparecimento da humanidade e dos valores que ela construiu no decorrer de tantos sculos, a Arte, a Literatura, a Filosofia, tudo est na iminncia de ser extinto se no houver uma mudana
de rumos.
A lama que corre desde Mariana, que destruiu Bento Rodrigues e toda a vida no Vale do Rio Doce, seus afluentes e entorno, chegando, breve, ao oceano, acabando com toda a biodiversidade, esta mesma lama corre, tambm, em nossas artrias, em nossas
veias, em nossos capilares. a lama de nossa sordidez, de nossa maldade, de nossa pequenez, da mediocridade, da maledicncia, da estupidez, de todos os nossos pecados!
Existe, porm, uma luz no fim do tnel! Existe um caminho certo: aquele que o doce e meigo Nazareno nos ensinou h mais de dois mil anos atrs, assim como todos os outros grandes mestres. Esta luz o Caminho do Amor!
Enquanto no entendermos que ns humanos e toda expresso de vida sobre o planeta somos algo nico, entrelaado, a seiva da Vida ir, pouco a pouco, se esgotando, se esvaindo...
O lema francs da Liberdade, Igualdade e Fraternidade no pode ser apenas uma utopia ou uma bela expresso de retrica da qual alguns partidos polticos se arvoram em donos. Ela deve se tornar
uma realidade em todo o globo. Fora disto no h nenhuma outra esperana!
Dizem que no h como falar em Deus neste momento histrico, quando Deus usado como desculpa para a barbrie, para o dio, para a Guerra Santa, repetindo as velhas Cruzadas.
Mas, Deus a nica sada. No o Deus antropomrfico, mas a Fonte de toda a Vida, o que move todas as partculas do tomo e as une para o milagre da Criao. O Deus que Amor, no sentido
mais exato do termo agregao, pois sem esta fora motriz que leva unio dos tomos no h vida. Deus que Energia, energia que se manifesta em Luz, Som, Movimento, Equilbrio, Harmonia, DNA. Deus que Vida. Isto est alm de qualquer religio. Era nisto que John Lennon pensava quando criou a letra de Imagine. Um mundo sem fronteiras, sem religio, pois j seria um mundo pacificado pelo Amor, portanto um mundo onde
existiria a plena e verdadeira manifestao de Deus.No precisamos de fronteiras, de hinos, de bandeiras, de rituais, de dogmas, de discriminao de qualquer ordem. Precisamos unicamente de exercitar o Amor! Isto viver a prpria essncia de Deus.
Um dia, quando o filsofo Nietsche disse que Deus estava morto, ele quis afirmar que Deus no era mais necessrio se a Cincia j podia explicar o fenmeno da Vida. Hoje, porm, quando a Astronomia e a Fsica Quntica conseguem nos dar uma idia
mais prxima do que Deus, podemos afirmar que, como nunca, Deus est vivo e precisamos dEle, pois a nica fora motriz criadora dos universos. Ele o Amor!
Ontem, pude assistir a uma entrevista de um escritor francs, cujo nome me foge neste momento, que dizia no acreditar em Deus, mas que tendia a faz-lo quando, estudando Astronomia, percebia
a perfeita ordem do Universo.
No foi toa que um pianista inspirado, no meio do horror, que se instalou na Cidade-Luz, representante dos mais caros valores do mundo ocidental, levou o seu piano para praa pblica e tocou, com extrema sensibilidade, a msica Imagine.
Ali estava o grito de esperana, de sada para o mundo caduco, louco e agonizante: a alvorada de um novo mundo onde o estandarte do Amor haver de tremular para todo o sempre.
Aquele era o sinal de Deus para o Renascimento de uma nova Humanidade.

Maria Luiza Silveira Teles (membro da Academia Montesclarense de Letras e do Instituto Histrico e Geogrfico de Montes Claros)


80784
Por Maria Luiza Silveira Teles - 3/11/2015 08:21:39
LEMBRANAS DE UMA PROFESSORINHA DO INTERIOR

O Colgio Tiradentes completou, no ano passado, o seu jubileu de ouro e comemorou em alto estilo estes seus cinquenta anos com festividades que duraram uma semana.
Aquela semana me remeteu a um passado muito feliz, quando o ento comandante do dcimo Batalho, Coronel Georgino Jorge de Souza, fundou-o em Montes Claros, sendo sua sede no prdio da Rua Camilo Prates, onde funcionou, num passado mais remoto, a cadeia pblica e o frum.
Depois que o Coronel Georgino deixou a direo por sua prpria vontade, entrou para a diretoria o Padre Agostinho Joo Beckhauser. que foi um excelente diretor. Rigoroso, porm amado por todos, Ali eu lecionava ingls.
O corpo docente era formado, quase em sua totalidade, por jovens, como eu, na flor de seus vinte anos, todos fazendo faculdade: Eustquio Machado, Regina Peres, Lzaro Francisco Sena, Takaki, Padre Janjo, Padre Alencar, Lcia Teixeira de Souza, Ldia Teixeira de Souza, Joo Walter Godoy Maia, Antnio Moreira Neto, Castro, Dalva Rocha, Padre Murta, Wilhem Krupp (esses dois j mais velhos...), e, talvez, outros tantos que me fogem memria no momento.
Na secretaria, o saudoso sargento Agnaldo e seu ajudante, o cabo Toninho. Era para l que nos dirigamos, ao chegar, para um ligeiro bate-papo a fim de sabermos as novidades, pegar as cadernetas e assinar o ponto.
Apesar de bem jovem, j era professora h algum tempo e introduzi metodologia nova, trabalhando em grupos e ensinando msicas para meus alunos. Isto deixava o Padre Agostinho cabreiro, estranhando
aquela maneira diferente de dar aula e, a princpio, ficou algum tempo a vigiar-me. Quando reparou, porm, que eu tinha manejo de classe, conseguia manter a disciplina e a garotada estava aprendendo, por fim, sossegou e saiu da porta de minha sala de aula.
Foi um tempo maravilhoso e lembro-me dele, dos colegas e dos alunos com imensa saudade. Era gostoso trabalhar ali.
Eu morava bem perto, na Rua Dom Joo Pimenta, quase esquina com o colgio. Era praticamente atravessar a rua e l estava.
Jamais me esqueo de alunos brilhantes que tive ali. Recordo-me, inclusive, de seus nomes: Geraldo Corra Machado Filho, Ernesto Machado, Armnio Graa, Joo Ricardo Colares (este faleceu, na
ocasio, em um triste acidente de fim de semana, abatendo todo o colgio...), Joo Duarte (hoje, fsico nuclear na Alemanha), Marta Vernica Vasconcelos, Raquel Veloso Mendona, Ftima Turano, Ftima Rabelo, Ftima Pinto e tantos outros.
A morte do aluno to querido e admirado, Joo Ricardo, com apenas onze anos, foi a nota mais triste da minha juventude. Demorei a recuperar-me do golpe. Como fazia faculdade nesta poca, era uma correria danada, pois, alm do Tiradentes, dava aula no Instituto Norte Mineiro de Educao, Colgio Imaculada e no Yzigi de ento, do qual era tambm diretora. Dava aulas de Ingls ainda para mdicos e engenheiros da Rede Ferroviria Federal. Foram quatro anos de muita luta e muito estudo, mas, se pudesse voltar atrs, faria tudo de novo.
Hoje, quando vejo os professores reclamarem tanto da profisso, sem dvida mal remunerada e no-respeitada, apiedo-me deles, pois a mim o magistrio me deu muitas alegrias e sempre o exerci com satisfao e realizao.
No sei se pela idade ou pelos tempos que eram bem diferentes de hoje, a vida me parecia bem mais leve. Como professores, no tnhamos problemas de disciplina, pois os alunos eram respeitosos e a figura do mestre era quase que venerada. O aluno estava na escola para aprender.
Bem, todo este passado voltou lembrando-me da belssima semana do jubileu do Colgio Tiradentes em Montes Claros, uma instituio que, ainda hoje, talvez por sua rgida disciplina e seu ensino de excelente qualidade, consegue formar alunos bem preparados e profissionais de sucesso.

Maria Luiza Silveira Teles (membro da Academia Montesclarense de Letras e do Instituto Histrico e Geogrfico de Montes Claros)


80740
Por Maria Luiza Silveira Teles - 24/10/2015 12:07:43
A HORA DA TRISTEZA

Deveria haver um esconderijo para a Tristeza e a Saudade, no acham? Tem dia que a nica vontade que temos colocar a cabea no travesseiro e nos esquecermos de tudo, no verdade? s vezes, camos, tropeamos e o desejo de ficar ali no cho porque o cansao demais...
No costumo ficar olhando para trs e nem me lamentando. Mas, putz..., quantas vezes, sem a gente pedir, a Tristeza e a Saudade nos batem porta?!
Se a gente pudesse saltar estes dias... No escrever... principalmente crnica porque a tristeza fica bem no poema, mas no na crnica. Tristeza e saudade do poemas fenomenais. Mas, em crnica?! Crnica para a gente falar de beleza, de alegria, de Deus e Sua Criao, dar um pitaco no que os outros andam fazendo (principalmente os polticos...), comentar o dia-a-dia... Mas a danada da Tristeza insiste em entrar no peito e na crnica... o que fazer, ento?
Dizer da dor que nos oprime o peito, de lgrimas inoportunas a correr pela face, do passado que insiste em voltar, dos erros que teimam em nos atormentar, da injustia da qual nos consideramos vtimas? Abrir assim o corao e lavar roupa suja em pblico no fica nada bem! Vamos e convenhamos...
Mas, o que fao? Como afastar-me de mim mesma na hora de escrever? Bem, no final das contas, acho at que o leitor pode gostar. Porque ele v e sente na pele que o escritor humano, gente com carne, sangue, suor, lgrimas, falhas, pecados. Ele v o nosso avesso. Quem no tem avesso? Quem sempre bom, sempre alegre, sempre perfeito? Sempre saudvel? No conheo gente assim. Todos ns somos cheios de contradies! E no me peam coerncia, porque todos somos incoerentes... Tudo depende do sol, ou da lua, sei l!
Onde o riso, onde o canto, onde o azul e o calor? Dentro de mim, hoje, s existem a tristeza e a saudade. Saudade de mim mesma em tempos que j se foram. Saudade de seres amados, capazes de nos escutar e de nos apertar a mo num gesto solidrio.
J repararam que a tristeza perturba? Ningum gosta de ficar perto de gente que est triste, como se tristeza fosse doena contagiosa. A verdade que ningum gosta de lembrar que pode, a qualquer momento, ser vtima do sofrimento.
Como no ficar triste quando perdemos tantos entes queridos e importantes em menos de um ms? Nesta semana foi o grande professor, a grande pessoa humana, o expert das letras e da gramtica, Antnio Augusto Souto, marido de minha amiga, Eunice, e pai de minha mdica, Layce.
Eu o conheci quando eu tinha apenas dezessete anos, no extinto Instituto Norte Mineiro de Educao, onde era professora de Ingls. Ele era o aluno mais velho da classe e o mais inteligente, estudioso e brilhante. Muito srio e compenetrado, sempre atento. Previa para ele um futuro promissor.
Chegando de viagem, tive a triste notcia!
Montes Claros, a terra que amo, est mais pobre... Embora as geraes mais novas no saibam aquilatar uma perda como esta! Como no ficar triste? Como no deixar esta tristeza impregnar aquilo que escrevo?
Nada a fazer! O tempo cura tudo. J aprendi. Mas, s vezes, temos que dar vazo tristeza... Seno ela vira doena do corpo...
Esta , pois, a hora da tristeza.

Maria Luiza Silveira Teles
(membro da Academia Montesclarense de Letras e do Instituto Histrico e Geogrfico de Montes Claros)


80588
Por Maria Luiza Silveira Teles - 25/9/2015 17:31:25
TRISTE ADEUS...


Ela atravessou comigo todos os caminhos. Bebemos juntas todos os clices de dor. Tivemos uma juventude de risos e flores. Tudo que conto sobre minha vida, ela sempre est presente. Foi a amiga mais companheira. Mais que amiga, uma irm.
Todo caminho tem um fim. Toda noite seguida de aurora. Toda partida tem uma chegada. E toda chegada implica uma despedida. Todos os momentos de alegria e de dor terminam um dia.
Tudo na vida como as mandalas que os budistas desenham na areia. E, depois de feitas, to lindas, eles as desmancham para se lembrarem que tudo um dia termina...
Agora, ela partiu. E eu fiquei assim: mais pobre, mais s, mais triste. Mas, aliviada e feliz porque seu sofrimento acabou.
Lila, minha irm, me de leite de meus dois filhos, companheira de tantos natais e tantos carnavais, f como eu das msicas de Roberto Carlos, Miltinho, Altemar Dutra e de tantos boleros que embalaram nossas vidas!... Tudo lembranas, felicidade que o vento e o tempo levaram de mim... Cinzas, apenas cinzas...
A boate da Praa de Esportes, o Clube Montes Claros, a piscina do Max-Mim, os rveillons, no Automvel Clube, as fogueiras de So Pedro, no Penturea, as nossas horas-danantes, os nossos namorados, depois noivos e maridos, os passeios com nossos filhos-crianas, tudo hoje s vive nas lembranas e na saudade...
Ns, em Ouro Branco, em eternas conversas, que atravessavam as madrugadas e preparando festas de aniversrio das crianas... em Congonhas, So Joo Del Rei, tantos passeios...
Alis, fico a lembrar-me da msica Lembranas, de Benil Santos e Raul Sampaio, que, tantas vezes, ouvimos nosso querido amigo, Magnus Medeiros, cantar: Lembro um sorriso, lembro a saudade... Para o meu mal, lembro, afinal, um triste adeus. Onde est teu sorriso?... Eu devia sorrir, eu devia, para meu padecer ocultar, mas, diante de tanta lembrana, me ponho a chorar.
O sorriso era o que mais a caracterizava. Seus belos dentes e seu lindo cabelo. At diante da dor, ela sempre sorria. E esta a mais doce lembrana que eu quero guardar. Queria tanto poder descrever toda a sua riqueza interior e a beleza de nossas vidas, mas as palavras me faltam e a saudade me sufoca!...
Um dia, com certeza, haveremos de nos re-encontrar e vamos rir de tudo at desta minha saudade e deste lamento besta!...
E voc haver de repetir: Ah, Lu, que tolice! Pensou, acaso, que eu te deixaria?. E onde quer que esteja, eu sei, que nossa amizade ser eterna como o Amor dAquele que nos criou e nos colocou juntas no mesmo caminho!...
At mais, minha irm!

Maria Luiza Silveira Teles
(membro da Academia Montesclarense de Letras e do Instituto Histrico e Geogrfico de Montes Claros)



80537
Por Maria Luiza Silveira Teles - 16/9/2015 08:06:40
ESTAMOS FAMINTOS DE SOLIDARIEDADE

Sempre pensei e ensinei em minhas aulas que para se lidar com o ser humano preciso gostar de gente. Gente como a gente, que sonha, que cai, levanta, erra, aprende, chora, ri, adoece, sofre e morre.
Acho, ento, que para lidar com algum fragilizado necessitamos, alm do saber, de sermos carinhosos, tendo cuidado, respeito, acolhimento e amor para com o outro.
No consigo admitir que se trate um doente, um deficiente, um idoso, um indivduo traumatizado, qualquer um que tenha sofrido uma perda, de maneira inadequada, isto , sem delicadeza, sem carinho, sem respeito.
Todos ns necessitamos sempre de delicadezas. Ainda mais algum que sofre.
Entretanto, tenho percebido que mdicos e tcnicos de enfermagem, com honrosas excees, no conhecem a Psicologia das Relaes Humanas. Provavelmente, nem tiveram esta disciplina em seus cursos! Ou se tiveram ela foi muito mal-ensinada ou no-assimilada.
Fui, no domingo, visitar uma amiga mui querida, que vive seus ltimos dias na Terra, sofrendo de cncer generalizado. S quem passa por isto sabe do atroz sofrimento que significa. Entretanto, a grande maioria das pessoas nem tem coragem de enfrentar ou assistir a tal situao. Por qu? Porque temem que, em um malfadado dia, sejam elas que estejam num leito como aquele. E digo isto, no como cronista ou escritora, mas como especialista em Psicologia. Muitos temem a doena e a prpria morte.
Minha amiga, com cncer em todos os rgos internos, no esqueleto, no crebro, com escaras pelo corpo, sem posio na cama, sentindo dores horrveis, gemia e pedia socorro. Eu me vi em lgrimas, sentindo-me inteiramente impotente, s podendo acarinh-la e pedindo a Deus alvio para ela.
H horas havamos chamado os tcnicos para trocarem sua fralda.
Quando entraram, cheios de prepotncia, arrogncia e completo despreparo, gritaram com a paciente. Eu interpelei-os de imediato: O que isto? No vem o sofrimento dela?. A moa me respondeu com grosseria: O problema dela psiquitrico. Fiquei pasma! Pasma com tamanha ignorncia e falta de sensibilidade! E quando voltei a me dirigir a ela, dizendo que era jornalista e que ia relatar o fato em jornal, ela olhou-me, com desprezo, e disse: Pode escrever! Que me importa?.
Isto, infelizmente, entretanto, causado pelos cursos rpidos e sem qualificao que pretendem formar tais profissionais, que deveriam, inclusive, passar por testes psicolgicos, pois nem todos tm condies para tal trabalho, como esta referida criatura o demonstrou.
Mas, pior ainda, so os mdicos que, sem condies e sem preparo psicolgico, consideram chatos os pacientes que reclamam de algo. Paciente tem que ficar calado. At que eles mesmos sejam os pacientes. Quando estes tcnicos ouvem os comentrios dos mdicos, j se acham capazes de diagnosticar e colocar rtulos naqueles que sofrem.
J relatei, em uma antiga crnica, o caso de um mdico, em Belo Horizonte, que, depois de passar por uma cirurgia e sofrer dores terrveis, mudou completamente a maneira de tratar seus pacientes. Passou a ser mais solidrio, carinhoso e receitar analgsicos mais fortes para as dores.
Acho que a vida humana merece respeito. No podemos nos considerar civilizados se nem sabemos conviver dignamente com o nosso semelhante.
uma tristeza que a falta de solidariedade impere em nossa sociedade materialista, consumista e gananciosa. Mas, o dia do ajuste chega para todos ns. Ningum pode fugir da dor, da doena e da morte. Sabem de alguma frmula? Talvez o saibam os arrogantes e poos de vaidade. Se souberem, por favor, me comuniquem!

Maria Luiza Silveira Teles
(membro da Academia Amontes-clarense de Letras e do Instituto Histrico e Geogrfico de Montes Claros)


80481
Por Maria Luiza Silveira Teles - 1/9/2015 11:22:50
O PASSEIO DE KARLA CELENE E EDICLAR PELA HISTRIA DE BREJO DAS ALMAS

Karla Celene Campos lanar, em Brejo das Almas, no prximo sbado, a sua obra-prima. Acho que, sem medo de errar, com toda a experincia de uma vida de leitura e outros tantos anos como consultora editorial de uma das maiores editoras do mundo, posso afirmar que, no momento, Karla se consagra como a maior escritora do norte de Minas.
Seu livro, Cadernos de Ediclar Memrias de Brejo das Almas um romance memorialista em que ela mistura experincias de sua prpria vida, da vida da famlia Silveira e outras pioneiras de Francisco S, com a histria da cidade e os versos do poeta popular e repentista Ediclar, o Boca, que registrava, cotidianamente, tudo que acontecia naquela pequena cidade, perdida no serto de Minas.
Embora parea que o romance seja uma histria local, na verdade, ele universalista. a histria de qualquer lugarejo em qualquer lugar do planeta.
Dizer que Karla a encarnao da sensibilidade, da poesia, do encanto, da alegria, da exploso da vida j redundncia e lugar-comum. Ela uma artista completa que lida, com maestria, em vrios campos da arte. Seu nome deveria ser Vida, pois ningum encarna melhor do que ela todo o deslumbramento da Obra Divina! E, como, mestra em Literatura, ela bebe e sofre influncia dos melhores autores.
O Tempo o grande mistrio com que se depara a escritora. Ele, como a Esfinge, a contempla, a encanta e a desafia. Como ela diz: O tempo machuca, mas tambm cura. Atordoa, mas ensina. Fere, fragiliza, mas fortalece. Rouba, toma, tira, leva, mas consola. Traz o fim, mas tambm ensaia passos em direo a recomeos..
O Tempo, ah, o Tempo!... Ele a torce, a revira, a inspira, a leva a voos galxios e interplanetrios. O Mistrio nos leva a filosofar, mas acaba por nos devorar...
A autora tem uma escrita potica, pois bem sabe de ventos e vivncias, de exploses cromticas, de sonhos e vises. Sua vida um arco-ris e uma montanha-russa. E neles embarcamos com momentos de lgrimas e risos e as mais diversas emoes. No conseguimos ler sua obra sem rir e chorar...
Na dana louca da vida e dos ventos de Brejo das Almas, Karla nos leva a um passeio cheio de emoes em que, com ela, ensaiamos os passos.
No Brejo, o vento uiva faminto e enlouquece de saudade e solido... Com a fecundidade da rom, os dias esto sempre fecundando outros dias..
A Histria nos faz mergulhar na areia movedia da saudade e encharca a alma nesse pntano invasor.
Clio, a musa da histria, e o tempo se ajuntam apressados num eterno caminhar e Karla e Ediclar a tudo registram com preciso. E ns vamos a passear pelos ventos e pela Histria, como ela diz, nos ermos dos pntanos e nos silncios do alm.
Karla-menina j danava na escola de Samba, fundada por Ediclar. E, com a mesma alegria e elegncia, dana hoje na memria, escrevendo uma belssima histria de cunho universal. Uma histria que requereu anos de pesquisa e reflexo. E ela sabe que as lembranas so como a fumaa que se lana de dentro da xcara e se dissolve no ar. preciso que algum as registre para que no se percam e permaneam como razes que nos levam robustez e pujana da vida.
Ela e Ediclar nos levam a meditar: Quem sabe na eternidade est a razo de viver?. Os dentes impiedosos do tempo cravam mordidas dolorosas em todos ns, levando-nos a beleza da juventude, os entes queridos, os momentos de alegria e de dor e at as coisas que se desfazem como p.
Entretanto, Karla deixa bem claro que sempre vale a pena viver e que indispensvel que algum se encarregue de no se deixarem perder as lembranas de um povo na poeira do tempo.
Assim, juntamente com a poesia popular de Ediclar, cheia de beleza, nostalgia e filosofia, Karla deixa para a posteridade a histria de Brejo das
Almas que, como dizia o poeta, nunca sai de dentro de ns, mesmo que l j no estejamos mais...
Tendo l as minhas razes paternas, a vida de luta de meus ancestrais, a obra me sensibilizou de maneira particular. Tenho muito a agradecer esta autora to especial e talentosa, orgulho de Montes Claros e Francisco S.


80455
Por Maria Luiza Silveira Teles - 25/8/2015 14:59:35
QUANDO A CHUVA CHEGAR...

Montes Claros, em pleno Inverno oficial, arde de modo terrvel, sob um sol inclemente. E eu, como todo bom sertanejo, fico a sonhar com a chuva.
Ah, quando a chuva chegar!... Quando a chuva chegar, meu jardim e meu quintal havero de mostrar todo o seu esplendor. As rvores estaro cheias de flores e frutos, Alm de receber, na alvorada e no poente, as visitas encantadoras, que me presenteiam com uma bela sinfonia, haverei de colher as mangas, as pitangas, as goiabas, as amoras, os mames... E as flores, em abundncia, vo me trazer mais borboletas e beija-flores.
Ah, quando a chuva chegar!... A vida haver de renascer e meu corao, povoado de alegria e gratido, tambm viver um novo tempo!
Vou voar at plagas longnquas levada por minha imaginao!... E as almas dos entes queridos havero de sentar-se comigo varanda... E recordaremos, ouvindo o tamborilar da chuva no telhado, tempos passados, em que ela no era to rara como foram os deliciosos dias de um frio ligeiro deste Inverno!
Ah, quando a chuva chegar, provavelmente, os montes-clarenses havero de sorrir na esperana de novos tempos de fatura!... E os casares antigos havero de nos espiar os amores... E estas dezenas de prdios nus, levantados custa da derrubada infeliz de nossas romnticas e belas casas, havero de roer a inveja de um quintal e um jardim!... E no tero pssaros a cantar e nem recebero a visita eufrica e multifacetada das borboletas e beija-flores!...
Quando a chuva chegar, as praas ficaro mais bonitas e os namorados e os velhos, nos intervalos dos chuviscos, havero de sentar-se em seus bancos. E os beijos e a conversa havero de fluir num tte tte gostoso. Pena que a Praa de Matriz no tem mais rosas!
Quando voltar a chuva, os coraes havero de abrandar-se e teremos mais amabilidades e gentilezas... Quem sabe at menos crimes e tragdias?!...
Os poetas mergulharo em suas cismas e delas belos poemas iro surgir. As poucas rvores da cidade estaro verdes e cheias de flores, tornando-a menos inspita!... At os cemitrios, onde as almas dos mortos confabulam, estaro mais belos e floridos!
Ah, quando a chuva chegar, haveremos de lembrar dos velhos tempos em que ela jamais nos atrapalhava para sairmos para os clubes ou para as festas! E nem tampouco para, em bandos, cantarmos pelas ruas da cidade!
Como me lembro do tempo em que saamos dos carnavais do Clube Montes Claros, nas madrugadas, felizes, debaixo da chuva, que amenizava nosso cansao e lavava nossos suores! A verdade que ela, depois de um baile de carnaval, nos lavava a alma, pois que os amores recm-nascidos e os toques de doura e de desejo nos davam uma leve sensao de pecado, num tempo em que tudo era proibido...
Ah, quando a chuva chegar, decerto a inspirao haver de voltar e acabar, quem sabe de vez, com este vcuo criativo, que tanto me incomoda!...
Maria Luiza Silveira Teles
(membro da Academia Montes-clarense de Letras e do Instituto Histrico de Montes Claros)


80421
Por Maria Luiza Silveira Teles - 16/8/2015 19:06:59
MANIFESTAO POLTICA

Desde os dezoito anos, escrevo para a Imprensa Montes-clarense. Hoje, estou com setenta e dois. Fui, tambm, professora de vrias geraes. Acredito, pois, que muito tempo, contribuindo para a formao de opinio da populao de nossa terra.
Neste grave momento poltico pelo qual o pas passa, acredito que no posso ficar em cima do muro. Sou obrigada a deixar bem clara a minha posio.
No perteno a nenhum partido. Mas sou uma criatura poltica como qualquer ser humano. Isto faz parte de nossa natureza.
No passado, fui simpatizante do PT, ao qual cheguei quase a filiar-me, para desgosto de meu pai. Achava que, finalmente, tnhamos um partido tico. Inclusive, fui convidada, por duas vezes, a ser candidata a vereadora. Entretanto, quando recusei foi porque percebi dentro de meu grupo uma terrvel traio. Assim, afastei-me do partido, sem chegar a filiar-me. Mas, ainda acreditava nele, tanto que, na primeira vez, votei no senhor Luiz Incio Lula da Silva. Inclusive, fiz na Cmara, a pedido de meu amigo, Lipa Xavier, um discurso em prol do candidato.
Com o tempo, porm, desiludi-me completamente. Percebi que havia, por detrs do governo, atitudes no-ticas. Era, simplesmente, um projeto de poder, a qualquer preo, e uma chance de enriquecimento de determinados afiliados.
J fui de esquerda. Em meu curso de graduao e ps-graduao, tive a oportunidade de estudar Marx, Engels, Gramsci. Era professora de Sociologia, na antiga Fafil, portanto, natural que, entusiasmada com aquelas doutrinas, no tivesse outra posio.
Entretanto, o tempo passa e a gente amadurece. No sou, absolutamente, velha. Velho aquilo que no serve mais para nada. Estou em plena atividade, com a cabea tima e aprofundada nos estudos daquilo que me interessa. Tenho, ainda, o mesmo entusiasmo da juventude, mas, agora, com equilbrio. Sou defensora da Justia, da Verdade, da Retido de carter, da Fraternidade, da Liberdade de ser e se expressar, No entanto, sei reconhecer aqueles que, por paixo, continuam firmemente agarrados em suas crenas ultrapassadas. Penso que perderam o bonde da Histria e o seu velho e desgastado discurso no pode nos levar seno anarquia.
Estou muito triste com o panorama poltico e econmico de nosso pas e j no vejo no Socialismo a verdadeira soluo. E nem no Capitalismo explorador. Acredito que deveramos encontrar um caminho intermedirio que promovesse o desenvolvimento sem injustia social.
Corrupo, mentiras e falcatruas so o sinnimo do governo do PT.
Ningum pode me chamar de burguesa. Sou uma simples professora aposentada. Burgueses so aqueles tipo Chico Buarque, que vive em Paris, tomando champanhe e comendo caviar. Odeio ditaduras, sejam de esquerda, sejam de direita. Todas so cruis e, jamais, posso aceitar a crueldade. No estou, pois, fazendo apologia de interveno militar. O povo brasileiro est se tornando consciente e sabe que a Democracia o melhor regime e haver de encontrar no voto a mudana que o Pas requer.
A manifestao pacfica de hoje demonstra bem o desejo do povo brasileiro: Justia, Verdade, Estabilidade, Paz, punio para os corruptos e oportunidades de se trabalhar e viver com dignidade.
Este PT nunca mais! A no ser que se faa nele uma limpeza geral.


(Da Academia Montes-clarense de Letras e do Instituto Histrico e Geogrfico de Montes Claros)


80386
Por Maria Luiza Silveira Teles - 9/8/2015 13:09:15

PASSEIO FANTSTICO


Era madrugada. Como que envolta por uma capa, que me fazia invisvel, passei a caminhar pelas ruas vazias da cidade, a tudo contemplando e recordando de como as coisas eram no passado. Passei pelo Mangueira, pela Montanhesa, Mangueirinha, Clube Montes Claros, Intermezzo e todos aqueles lugares que marcaram minha juventude. No pude conter as lgrimas.
Ao me aproximar da Cristal, entretanto, comecei a ouvir um vozerio estranho. Continuei descendo e, quando cheguei Praa da Matriz, fiquei estarrecida diante do que se descortinava minha frente: um aglomerado de pessoas que j haviam transposto o alm-tmulo.
Todas estavam bastante alegres como se ali acontecesse uma festa. Alis, pude perceber Ducho tocando o seu bandolim e Nivaldo Maciel cantando com sua belssima voz. Junto deles estavam Joo Chaves, Raimundo Chaves, Joo Leopoldo, Adlia Miranda, Josefina de Paula, Dilma Silveira e tantos outros, que acompanhavam, em coro, o canto de saudade. Parecia que se agrupavam por afinidades, pois percebia diversos grupinhos, numa conversa descontrada e animada a lembrar suas vidas, os fatos ocorridos e marcantes, assim como a discutir os fatos presentes.
Passei pelo grupo de Pedro Santos, Mrio Ribeiro, Dr. Mauricim, Simeo Ribeiro, Dr. Plnio Ribeiro, Dr. Jardim, Dr.Alpheu de Quadros, Dr. Joo Alves, Hermes de Paula, Deputado Esteves Rodrigues discutindo a poltica atual. Parei para ouvir e percebi que eles no estavam nada satisfeitos. Comentavam que, hoje em ida, os polticos no pensam no bem-comum e que o nico objetivo auferir vantagens pessoais. Dr. Plnio, chamando o Cel. Antnio dos Anjos e Filomeno Ribeiro, pontuou: Vocs no pensam, amigos, desta forma?. Cel. Antnio dos Anjos, com a feio tristonha e sisuda, ponderou: Bem, ns amvamos a nossa terra e trabalhvamos por ela. Hoje, no entanto, este tipo de mentalidade egostica e mercenria parece ter se tornado o tnus da poltica brasileira. Ningum faz nada por amor. Todos so movidos por interesses. Assim, nossa terra vai crescendo, ou melhor dizendo, vai inchando aleatria e desproporcionalmente e se descaracterizando. As pessoas no mais se relacionam por afinidades, no se visitam, no conversam sobre os interesses da cidade como ns costumvamos fazer. O nico lugar em que percebo amigos se ajuntarem para conversar sobre poltica, mulheres e futebol no chamado Caf Galo. Passo, s vezes, por l, e ouo at ponderaes de pessoas muito inteligentes que poderiam ser melhor aproveitadas para o bem da cidade. Alis, vejam ali o recm-chegado Haroldo Lvio, grande intelectual no grupinho de Geraldo Brejeiro, que era conhecido por Cel.Tito, Olyntho Silveira, Cndido Canela, Reivaldo Canela, Corby, Z Capeta ou Jos Macedo, Pe. Aderbal Murta, ngelo Soares Neto, Ruth Tupinamb, Joaquim Cesrio Macedo, Raimundo Neto, Major Oscar Vale Moreira, Luiz Carlos Novais, o Per, Amlia Prates Souto, Nelson Viana, Yvonne de Oliveira Silveira, Newton Prates, Niquinho Rapadura e outros. Com certeza, devem estar falando sobre literatura e lamentando tanta bobagem que tem sido publicada, nos dias de hoje, em nossa terra. J perceberam como todos, agora, se consideram escritores? E a qualidade? melhor esquecermos isto. Vamos deixar pra l!.
No grupo dos intelectuais, achegou-se Niquinho de Acar, mostrando um novo soneto que acabara de fazer. Ouvi Ruth, minha grande amiga, perguntando: Niquinho, como voc vai fazer para publicar este soneto se estamos num mundo no-material?. Niquinho respondeu: Ora, Ruth, eu vou a um Centro Esprita e dito para qualquer mdium, que tambm seja poeta. Ruth ponderou: E isto possvel?. Niquinho disse: Ora, experimenta! Voc ainda pode ajudar bastante na Histria de Montes Claros!. Como assim?. Niquinho falou: Procure Wanderlino Arruda e lhe dite o que quiser.. Ruth alegou: Interessante, l no meu prdio, vivia Laury Rego Cunha, uma mulher extraordinria, educada, elegante, que, algumas vezes, me falava sobre isto, mas eu, embora a respeitando muito, nunca acreditei. Niquinho acrescentou: Pois no que a propalada morte nos ensina muito?! Veja bem: quem de ns est morto? Todos estamos aqui bem vivos. Ruth ficou a pensar.
E eu continuei meu passeio, encantada de poder auferir do privilgio de ver aquela gente e poder ouvi-la. Percebi noutro canto o bispo Dom Jos, Dom Joo Pimenta, Dom Aristides, Dom Geraldo Magela de Castro. Todos muito bem e alegres, mas fazendo crticas Igreja. Bem, isto no era do meu interesse e deixei-os ali. Percebi que vinham chegando Pe. Tadeu, Pe. Janjo, Paulo Emlio Pimenta, Pe. Agostinho, Pe. Dudu, Pe. Marcus e outros. Tive grande satisfao de poder rev-los e abracei a cada um. Todos sentiram uma onda de amor, que no sabiam explicar... Bem, eu fui me afastando e me aproximando de outros grupos.
Vi, j na Rua Cel. Celestino, hoje chamada de Corredor Cultural, Raimundo Colares, Konstantin, Godofredo Guedes e me aproximei. Claro, eles s poderiam estar conversando sobre Artes. Quanto a isto pareciam satisfeitos com o que vinha sendo feito na terrinha.
Ah, bem perto, os trs irmos portugueses, to importantes para Montes Claros e que deixaram aqui uma bela descendncia: Arthur, Antnio e Jos Ramos. Com eles o impoluto e empreendedor Nathrcio Frana e o velho Zacalex. Provavelmente, conversavam sobre o Comrcio e a Economia. No quis nem ouvir, pois sei que a situao anda preta...
Ora, l estavam, num outro grupo, Dr. Geraldo Machado, Dr. Jos Souto, Aderbal Andrade, Dlson Godinho, Crisantino Borm, Doutor Santos, Nelson Villas-Boas, todos fazendo crticas duras aos mdicos de hoje, com algumas ressalvas.
Ainda vi um grupo de educadores como Dr. Joo Luiz de Almeida, Heloisa Sarmento, Dalva Dias, Antnio Jorge, Dulce Sarmento, Bernadete Costa, Dona Tade, Snia Quadros e outros tantos. Tambm faziam duras crticas Educao.
No que os casares estavam cheios de espritos? Aquilo era uma verdadeira festa, embora no visse comida e nem bebida. Mas, a conversa ia animada pela madrugada afora.
Encontrei, tambm, um grupo de feministas como minha prpria me, Zez Silveira, a fazer demonstrao de yoga para Dona Fernanda Ramos, Suzana Quadros, Dona Tiburtina, dona Josefina Mendona e mais algumas.
Com a chegada do lusco-fusco da alvorada, tudo aquilo parecia ir se desvanecendo...
Ia voltando para casa feliz e em paz, subindo a Dr. Veloso. Encontrei, ento, o que penso ser um anjo, pois tinha uma luz que iluminava toda a rua. Perguntei-lhe: Quem voc?. Respondeu-me: Sou o Anjo da Morte.. Fiquei espantadssima, pois o imaginava feio e com uma foice. Apenas pensei e ele, parecendo captar meu pensamento sorriu e disse: Isto o imaginrio popular. Mas, voc no mata as pessoas?, perguntei. Ele disse: Meu trabalho ajud-las na passagem, apenas ajuda-las. Preciso ir, pois tenho muito trabalho por aqui. V em paz com Jesus!.
Bem, eu j sabia que a morte no seno uma passagem para outra vida. Provavelmente, aqueles espritos tiveram permisso para voltar velha e querida cidade e se encontrarem para aquelas confabulaes e, quem sabe, corrilhos e planos para Montes Claros...
Pela manhzinha, acordei sem saber se aquilo fora apenas um belo sonho...
Mas, que fora um passeio fantstico no tenho dvida alguma!

Maria Luiza Silveira Teles
(membro da Academia Montes-clarense de Letras)
(membro do Instituto Histrico e Geogrfico de Montes Claros)


80275
Por Maria Luiza Silveira Teles - 16/7/2015 11:08:07
O MESTRE WANDERLINO ARRUDA

Ando desconfiada que o mestre Wanderlino esteja escrevendo suas memrias. E com toda razo! Ele nos deve isto! uma memria to rica, que se confunde com a prpria Histria de Montes Claros; tem, pois, de ser contada para jamais ser esquecida.
Sou amiga do professor Wanderlino Arruda h cinqenta anos. Nossa convivncia tem sido bastante enriquecedora.
Lembro-me, com saudade, dos velhos tempos em que saamos juntos da antiga Fafil, em turma, e ele sempre a brincar com a minha tia Yvonne de quem o tio Olyntho tinha muitos cimes.
Nunca perdeu o seu jeito moleque de menino que se deslumbra com a vida e se diverte com tudo. Brincalho como ele s, possui uma eletricidade que o move a mil por hora.
J com oitenta anos, continua cheio de energia e empreendedor como ele s. Faz mil coisas ao mesmo tempo. No desperdia um nico instante. Sempre criando e agindo, principalmente pelo bem de Montes Claros.
Algum imagina que ele no descanse, no tenha lazer e no se divirta? Ora, mestre Wanderlino est em eterno lazer, porque o trabalho, a convivncia com o outro, ensinar, aprender, dar de si, liderar, criar, agitar a vida cultural da cidade, tudo isto para ele j lazer e divertimento, pois tudo faz com prazer. Para ele no h o peso do dever e sim a alegria de viver.
Tantas vezes em minha vida precisei dele para um conselho, um desabafo, uma ajuda nos trabalhos intelectuais e ele sempre a me receber com o mesmo carinho e a mesma prestimosidade. E isso no s comigo que sou amiga, com qualquer um. Mas, eu lhe devo muito e disto nunca poderei esquecer. Ele tem me feito crescer em todos os sentidos! E no acreditem no que ele fala e escreve a meu respeito. Ele mope com relao a mim, pois me olha com o sentimento de um irmo.
Agora, no sou eu apenas que falo; isto uma unanimidade: ele uma das maiores autoridades culturais no apenas do norte de Minas, mas, qui de alhures. dono de uma memria privilegiada e passeia com desenvoltura por todos os recantos do Saber: Histria, Geografia, Latim, Grego, Lingstica, Literatura, Bblia, Esperanto, Espiritismo, Filosofia, Semntica, Direito, etc. E, como maom, rotariano e elista, traz ainda um grande acervo da cultura milenar de outras culturas.
Sua biblioteca uma das mais ricas que conheo. Basta uma vistoria por ela para saber o quanto essa criatura tem lido e estudado nesta vida.
Meu pai, que foi uma verdadeira enciclopdia, admirava-o muito e sempre repetia: Ah, se eu tivesse a memria de Wanderlino. Existe at uma conversa que ele toma um medicamento especial para a memria. Tanto que basta se chegar a uma farmcia local e pedir o remdio de Wanderlino.
Acho que bobagem falar de seu extenso e rico currculo, pois todo o mundo intelectual de Montes Claros bem o conhece. O homem fez tudo quanto curso e ocupou quase todos os cargos de importncia no municpio. Foi professor universitrio, alto funcionrio do Banco do Brasil, vereador, secretrio do municpio, Governador do Rotary, criador do Instituto Histrico e Geogrfico de Montes Claros, da Academia Manica de Letras, eterno jornalista, tendo escrito para todos os jornais que existem e j existiram em nossa terra, escritor, cronista e poeta. Poema seu j apareceu at em filme francs! Possui vrios sites na internet e no para de aprender informtica. Adora novidades e tecnologia.
Ainda por cima, como se no bastasse tanto, pai de sete filhos, av de uma dezena de netos e at bisav. Esposo eternamente enamorado de uns belos olhos verdes!
Mas, para mim, tem um significado especial: meu amigo e meu professor de estudos bblicos.
Sua escrita deliciosa e tem uma enorme facilidade para contar casos e causos. Escreveu uma dezena de livros e eu me deliciei especialmente com Jornal de Domingo, Emoes e O dia em que Chiquinho sumiu.
Conforme dizia o nosso inesquecvel Haroldo Lvio: Wanderlino Arruda um cidado feliz com a famlia, com os amigos e toda a humanidade que bate palmas sua passagem, por reconhecer em sua pessoa um dos valores mais elevados de nossa comunidade montes-clarense.
De todos os seus poemas, alguns tm minha preferncia. Cito alguns como Teus olhos:
A poesia dos teus olhos
a poesia mais linda...
e mais colorida.
Tem mtrica, tem rima,
tem a sonoridade da msica
mais suave da vida.
Teus olhos encantam e vibram
como incio de sonho.
Teus olhos dizem doura,
um mel mais do que doce,...
e mais perfumado.
A poesia que brilha em teus olhos
tem luzes intensas,
alegria espargindo sorrisos,...
coloridamente felizes.
Teus olhos encantam,
teus olhos seduzem,
teus olhos fascinam.
So ddivas do Amor!

A sua orao, em forma de poesia, que eu mais aprecio o seu Pai Nosso:

A ti, Senhor, que s
pleno de luz e de amor,
e ests nos cus e em toda parte,
onde teu nome sempre bendito e santificado.
de constante e eterna bondade.
A ti, Senhor, apresentamos nosso pedido:
d-nos o teu reino
de alegria, de compreenso;
a tua vontade e no a nossa seja feita,
aqui, onde estamos, a onde ests e estaremos um dia;
o po da sade, da disposio ao trabalho,
do entender e ser entendido,
do amar e ser amado,
d-nos hoje, d-nos sempre, Senhor.
Ainda caminhantes no erro,
d-nos o teu perdo e o ensinamento
de como devemos perdoar.
criana que existe ainda em cada um
d, Senhor, a tua proteo.
Liberta-nos do mal,
ampara-nos no caminho do bem,
pois teu, Senhor, somente teu,
o poder, o reino e a glria
para sempre,
para todo o sempre.

E que o mestre Wanderlino fique conosco para todo o sempre! E que venham suas memrias para nossa alegria!



80248
Por Maria Luiza Silveira Teles - 9/7/2015 16:32:29
VIDA SEM REDE?

Na calada da noite, os sons do tic-tac do relgio, do motor da geladeira, do apito longnquo do trem, do canto do galo na madrugada, tudo isso sempre me deu uma enorme sensao de segurana, pois me remetia infncia e adolescncia, ao meu quarto de solteira e ao aconchego do lar paterno.
Mas, a vida seguiu adiante e, hoje, j no h o som da geladeira, apitos de trem, tic-tac de relgios, nem a casa de meus pais. Somente o galo insiste em cantar de madrugada, lembrando-me que o curso da Natureza segue inexorvel.
Meus pais j no esto mais aqui. Seus braos fortes e ternos j no podem me abraar e me confortar nos momentos de dor.
Muitos daqueles que foram meus companheiros tambm atravessaram, antes de mim, o portal da eternidade.
E, agora, madura e conhecedora da vida, diante da grandeza do Universo,do poderio dos fenmenos da Natureza, percebo que no somos seno formigas ou gros de areia, soltos no Cosmos, sem nenhuma segurana.
Estamos bem agora e, de sbito, um mal-estar nos tira a vida; samos de casa e, ao atravessar a rua, um motorista descuidado, bbado ou drogado, nos apressa a morte ou nos coloca numa cadeira de rodas...
Qualquer fenmeno furioso da me-natureza nos tira o cho, nos leva a casa...
Dinheiro, poder, sade, nada garante a vida, a segurana, a estabilidade. Tudo iluso... Vanitas vanitatis... A verdade brutal que nada nos oferece garantia de qualquer coisa.
Ou acreditamos em Deus que, por mais que pensemos, estudemos e filosofemos, jamais chegaremos a compreender, ou no acreditamos em nada e a vida coisa besta, sem sentido algum.
Embora o limitado no possa abarcar o ilimitado, eu ainda prefiro a primeira opo.
Quando nasci, mergulhei na vida, em choro louco, sem nenhuma compreenso de nada. E, ao morrer, com alguma sabedoria, haverei tranquila e sorridente, de jogar-me no seio de um Deus, que para mim o Absoluto, a infinitude, a eternidade, a Energia Amorosa que a tudo cria e move, e que me absorver e abraar.
Nascer, viver e morrer saltar sem rede de segurana. Mas, vale a pena! Que di, di!... Mas, o Senhor a nossa verdadeira rede.


80121
Por Maria Luiza Silveira Teles - 19/6/2015 12:24:01
A ENCCLICA VERDE

Em sua Encclica, divulgada na manh de ontem, o Papa Francisco toca em uma ferida atual da Humanidade. As preocupaes do Papa, que , provavelmente, um dos papas mais brilhantes, amorosos e compassivos da minha poca, so com a ecologia integral. O centro de suas pontuaes a ecologia humana, o clima, a preservao e preveno, a proteo criao e questes como a fome no mundo, a pobreza, globalizao e escassez.
Suas reflexes buscam inspirao nas meditaes de So Francisco de Assis, o santo dos pobres e patrono dos animais e meio ambiente. So Francisco de Assis chamado por ele de "exemplo por excelncia de cuidado e de uma ecologia integral e que mostrou uma ateno especial aos pobres e abandonados".
Ele diz, com muita propriedade, que a Terra nossa casa e que devemos preserv-la. Ela tem sido maltratada e saqueada. Lembra que: Esta nossa casa est sendo arruinada e isso prejudica a todos, especialmente os mais pobres. Portanto, o meu apelo responsabilidade, com base na tarefa que Deus deu ao ser humano na criao cultivar e preservar o jardim em que Ele o colocou..
A pobreza e a degradao ambiental so dois lados da mesma moeda. Esta a certeza que permeia a encclica "verde" do papa Francisco. O papa incorpora os dados mais consistentes com referncia s mudanas climticas, questo da gua, eroso da biodiversidade, deteriorizao da qualidade da vida humana e degradao da vida social, denuncia a alta taxa de iniquidade planetria, afetando todos os mbitos da vida, sendo que as principais vtimas so os pobres.
Sua encclica me fez lembrar palavras de Carl Sagan sobre nosso planeta, um ponto apenas na imensido do universo, um pixel revelado, que parece estar apoiado em um raio do sol.
Neste minsculo ponto, nossa casa, esto todos os seres que amamos, que conhecemos e viveram todos aqueles de que temos notcias. A se desenrola toda a histria da espcie humana. Tanta luta e crueldades tm sido cometidas, muitas vezes, por uma frao deste minsculo ponto.
No h nenhum outro lugar conhecido do universo para onde possamos migrar e de onde possamos esperar socorro.
Para Sagan isto nos deve ensinar a cuidar da nica casa que temos e nos d a responsabilidade de viver mais gentilmente, amorosamente, para preservarmos este plido ponto azul, nosso nico lar.
Para mim, sem dvida, o grande astrnomo e o nosso Francisco falam uma mesma lngua e mostram a mesma preocupao. Ambos esto a clamar uma ao rpida para salvar o planeta.
Li em algum meio de comunicao um dado importante da Encclica: Fundamental seu discurso com os dados mais seguros das cincias da vida e da Terra. L os dados afetivamente (com a inteligncia sensvel ou cordial), pois discerne que, por trs deles, se escondem dramas humanos e muito sofrimento tambm por parte da me Terra.. Ainda: o que diz o grande cantor e poeta indgena argentino, Atahualpa Yupanqui: o ser humano Terra que caminha, que sente, que pensa e que ama..
Devemos reconhecer o quanto temos degradado o ambiente e destrudo biomas inteiros. Por nossa ao, o alimento rareia, o calor aumenta, a gua potvel se torna difcil de encontrar, o ar que respiramos saturado de dixido de carbono e outros gases malficos, e uma srie de consequncias se d em nossas vidas.
No somos seres separados da Natureza. Fazemos parte dela e formamos uma famlia: a famlia humana. Enquanto no aprendermos esta verdade e respeitarmos o todo em que estamos inseridos, no haver futuro para nossos filhos e netos.
O ser humano, ao nascer, tem direito a um lar, a uma famlia, educao, sade e moradia. Enquanto os pases mais ricos estiverem poluindo o meio ambiente e retendo toda a riqueza, a misria continuar assolando o nosso planeta.
Todos merecem nosso respeito e amor. Sempre achei que deve haver um caminho intermedirio entre o capitalismo e o socialismo para que uma civilizao fraterna se instale.
Parabns ao Papa Francisco que, de uma maneira sria e amorosa, levanta questes fundamentais para o futuro da humanidade.
Maria Luiza Silveira Teles
Membro da Academia Montes-clarense de Letras
Membro do Instituto Histrico e Geogrfico de Montes Claros


80084
Por Maria Luiza Silveira Teles - 12/6/2015 15:00:24
A SIMPLICIDADE DA VIDA

Engraado, mas as pessoas vivem correndo atrs da felicidade como o cachorro corre atrs de seu prprio rabo.
Isto porque, na verdade, a felicidade no est em nosso exterior, mas dentro de ns.
Deixei um apartamento para viver em minha prpria casa. Todos pensam que um apartamento mais seguro, nos dias de hoje. Entretanto, pergunto: qual a verdadeira segurana que a vida nos proporciona? Ela to frgil! Podemos perd-la a qualquer instante. Acho que no devemos nos preocupar tanto com esta questo. O importante viver plenamente cada dia como se fosse o ltimo e ser feliz.
Eu me julgo uma pessoa feliz. Encontro em minha casa e dentro de mim tudo de que preciso para isso. Tenho o privilgio de jardim e quintal, coisa rara hoje em dia.
Acordo com o canto dos passarinhos. Vejo cada flor que nasce em meu jardim e posso colher fruta em meu quintal.
Logo que me mudei para c, um ninho de passarinhos me acolheu lindamente na rvore de meu jardim. Sinto o perfume da murta e da dama-da-noite. Aspiro o ar com delcia!
tarde, sento em minha varanda e fico contemplando a beleza da natureza. uma paz completa!
Tenho livros, msica e amigos, O que mais poderia desejar? Escrevo minhas crnicas, meus poemas e meus livros. Tenho um encontro marcado com Deus todos os dias. Fao de minha vida uma prece constante. E, assim, os dias correm, tudo morre e renasce e eu sigo tranqila, grata e feliz.
Voltei h pouco de uma viagem em que pude encontrar irmos, sobrinhos, tio e primos, que se espalharam por todo canto desse pas e do planeta. A todos abracei com imensa alegria. Foi uma verdadeira festa! Passeei por belssimos lugares e vivi com intensidade cada dia dessa curta e deliciosa viagem. Por acaso diferente a vida? Curta, curta demais, mas deliciosa. Dores, perdas, aflies, quem no as tem? E poderia ser to maravilhosa se no conhecssemos o seu avesso?...
Para qu e por que tanto estresse? E a pressa em que as pessoas vivem?... Pressa para chegar onde?
Um dia, em Belo Horizonte, fui assaltada por trs bandidos, com a arma em meu estmago. Tratei-os com lhaneza e amorosamente, como irmos. Sabem o que fizeram? Entreolharam-se, guardaram a arma e levaram-me apenas o dinheiro. No tive medo. Acho que o medo e o pensamento negativo atraem apenas o que ruim. preciso que nos libertemos de qualquer emoo negativa. So elas que nos criam o inferno.
O paraso est dentro de ns, sem dvida. E eu o encontrei. Simples assim como a prpria vida.


80045
Por Maria Luiza Silveira Teles - 3/6/2015 17:13:55
AMOR VERDADEIRO

Quem fala aqui a alma de uma mulher. Uma alma que deve ter caminhado todos os caminhos por sculos afora. Uma alma que, depois de perscrutar todo o universo humano, o microcosmo e o macrocosmo, tem muitas dvidas, mas algumas certezas: Deus existe, Ele Amor, Somos Um com Deus. Portanto, somos Amor.
Como cheguei a essas certezas? Principalmente pelo caminho do corao, pela intuio, amando sempre e percebendo que, dentro de mim, existe uma energia poderosa que me faz capaz no s de maravilhar-me com a beleza do Universo, mas de compreender cada criatura que sofre, que chora, que sangra, que dana, que se alegra, que explode... De abraar e acolher com carinho infinito cada um que busca a Verdade e se sente muitas vezes s em sua busca, com as lgrimas embebendo-lhe a alma, cada ser que diante da Criao e do seu poder de Criatura no sente orgulho, mas a enorme responsabilidade de participar do Amor Divino.
Algum, um dia em uma palestra, perguntou-me como consigo conciliar minha formao acadmica com tamanha f. Porm, nunca vi contradio entre Cincia e F, pois o que a Cincia seno uma das facetas do amor misericordioso de Deus? A nsia do conhecimento que domina a alma humana nada mais do que a manifestao divina, levando-nos a busc-Lo criteriosamente.
No entanto, depois de descobrir mil leis e mergulhar no tomo e no espao, o Homem faz a viagem de volta a si mesmo para, ento, ter a certeza de que, dentro de si, esto todas as verdades, porque a est Deus. A est o Amor, esta fora poderosa que nos constri melhores e projeta no semelhante e na Natureza energias restauradoras e renovadoras. Por isso, apesar do sofrimento por esta longa estrada que me trouxe at aqui, ainda estou inteira e o meu sentimento ainda puro, pois nunca foi conspurcado pela maldade do mundo.
Talvez se perguntem: "Mas como? Nossas almas esto cheias de dobras!" Confesso-lhes, porm, que nunca permiti que respingos de lama me atingissem porque sempre respeitei demais ao Deus que vive em mim e ao Deus que vive no outro.
De corao aberto, com a certeza de quem vive e cr, posso dizer: eu amo! Amo o meu semelhante porque, acima de tudo, amo a Deus e a mim mesma. Tambm somos deuses, como disse o Cristo e, assim como Ele jamais pode deixar de estar conosco, tambm o Amor, que uma centelha do Criador, nos acompanha sempre.
To pobre qualquer lngua para falar da grandeza de tal sentimento, mas como somos o espelho de ns mesmos podem sentir esta fogueira que me abrasa o ser, esta luz que estar sempre em nossos caminhos. O Amor a voz de Deus e a sua essncia , pois, a nossa essncia. E ningum pode perder a sua essncia... Em esprito todos somos ilimitados pelo tempo e espao: em esprito somos apenas Amor. E todo amor verdadeiro deve basear-se no esprito.
No podemos negar a nossa transcendentalidade e esta autotranscendncia da existncia humana s se realiza no outro em quem encontramos o Amor. O homem um ser de encontros. S no encontro ele pode se realizar em toda plenitude. E o que o encontro seno o entrelaamento de duas realidades que se enriquecem mutuamente? Uma mudana de mentalidade e corao que exige coragem: isto o necessrio para que nos aproximemos de Deus e sejamos capazes de nos abrir para o Amor. Se o ser humano no olha para dentro continuar olhando para fora, onde s vai encontrar a iluso do que efmero, temporrio e irreal.
Acredito que chegou o tempo de despertar, do encontro do Criador dentro de ns, quando desabrochar o nosso ser inteiramente amoroso. Ser totalmente amoroso significa estar inteiramente presente, ser plenamente consciente, receptivo, honesto, transparente. Diz Neale Donald Walch que a vida eterna, o amor imortal e a morte apenas um horizonte. Ainda mais: S quando houver uma mudana no corao humano haver uma mudana na condio humana.
Conscincia, responsabilidade e honestidade so os instrumentos para se viver bondosamente, amorosamente.


79933
Por Maria Luiza Silveira Teles - 16/5/2015 09:43:01
O Crescimento de Montes Claros


Nenhuma cidade necessita ser fria, indiferente, cinza, puro concreto. As cidades precisam ter poesia e individualidade. E o que acontece com Montes Claros? sem esse toque que ela se torna, dia-a-dia. Cresce, mas cresce sem beleza e poesia.
No que no existam por aqui belos movimentos artsticos. Temos poetas, artistas plsticos, cantores, msicos, artesos, teatrlogos e podemos, sempre, assistir a belos shows, vernissages, concertos, amostras de cinema, fotografias e poesia.
Entretanto, quero referir-me parte arquitetnica e urbanstica. Falta-lhe cor, cuidado com a limpeza, pouca vegetao urbana. Enfim, embora uma grande metrpole, nossa terra no tem beleza.
A arte precisa alcanar as ruas. Necessitamos de movimentos que a levem para o espao pblico. Afinal de contas, a cidade nossa casa e quem no quer sua casa bonita, perfeitamente higienizada e decorada?
Onde esto os grafiteiros para levar sua arte para as ruas? preciso que se distinga, entretanto, o vandalismo do verdadeiro movimento da arte grafiteira, que colore e embeleza a cidade.
Onde esto os artesos para enfeitar nossa urbe com os yearn bombing? E as construtoras que, alm de colocarem abaixo casas to lindas, que bem caracterizavam os anos 40, 50, 60, no sabem seno colocar mais cinza ou um nico padro de construo na cidade?
Fao aqui um clamor aos arquitetos-artistas para que renovem suas tcnicas, permitam desabrochar sua criatividade e deixem-na voar para que cada nova construo, mesmo em movimento vertical, seja uma inovao, uma obra de arte que v embelezar a nossa cidade.
Onde esto os ambientalistas para no permitir que a fria capitalista degrade o nosso meio-ambiente?
Fico triste ao ver, por exemplo, o nosso belo Parque Municipal, originariamente um recanto potico, lugar de reflexo e lazer, completamente abandonado.
O mato cresce, os bandidos e drogados l se refugiam, os brinquedos originais, onde minha filha-criana brincava, hoje esto totalmente quebrados.
Quando teremos um prefeito que no apenas administre, faa poltica, angarie votos futuros, mas tambm pense na higiene e na beleza da cidade?
A cidade no pode crescer assim, desordenamente, sem um planejamento srio de urbanizao e acessibilidade.
preciso fazer novas praas e preservar as que j existem. No basta colocar ali uma fonte luminosa, mas cuidar da limpeza e da beleza dos canteiros. Como era bom contemplar as rosas da Praa Dr. Chaves! Onde elas foram parar?
Na administrao do prefeito Dr. Athos Avelino, a Cmara aprovou uma praa com o nome de meu pai e onde existiria um busto seu. Entretanto, outras administraes vieram e eu jamais vi a tal praa...
E os lugares bonitos e saudveis para o lazer e a prtica de esportes do povo?
Assisto a cidade crescer e, talvez, em pouco tempo, eu j no esteja mais aqui, e no vejo poesia nenhuma nela...
E o povo? Onde est o povo? Onde esto os artistas? Com certeza, escondidos em buracos, onde tambm esto os verdadeiros educadores...
uma lstima...

Maria Luiza Silveira Teles
Membro da Academia Montesclarense de Letras e do
Instituto Histrico e Geogrfico de Montes Claros


79793
Por Maria Luiza Silveira Teles - 21/4/2015 17:29:56
MINHA TIA YVONNE



Ainda estou sob o impacto do acontecimento. No consegui digeri-lo. No importa a idade que a pessoa amada tenha ao partir; a partida sempre dolorosa. A saudade eterna e no tem ningum que possa substituir aquela criatura em nosso corao e em nossa vida.
No consigo imaginar as reunies da Academia sem a minha tia dirigindo-as. Nem consigo pensar em qualquer evento cultural sem a sua doce e elegante presena
Lembro-me de Fernando Pessoa que, em um de seus poemas, dizia:
(...) como se a tristeza
Fosse rvore e, uma a uma,
Cassem suas folhas,
Entre o vestgio e a bruma.

Pois , entre o vestgio e a bruma caem, uma a uma, as folhas da rvore de minha existncia. Como no lamentar?
Claro que sei que esta a ordem natural das coisas e tudo que nasce um dia h de morrer. O p volta ao p, mas aquela chama que habitava aquele corpo material, essa chama eterna. E a tristeza h de passar. Vai passar, tu sabes que vai passar. Talvez no amanh, mas dentro de uma semana, um ms ou dois, quem sabe?... Assim diz o poeta Caio de Abreu.
Um dia essa tristeza vai passar, mas jamais a saudade...
Pois bem, o quanto minha tia era importante para mim todos sabem. Mas, mais importante do que ela foi e significa para mim, est o que ela significa para Montes Claros e Francisco S.
Eu era apenas uma menina, com cerca de cinco para seis anos, quando fomos, pela primeira vez, passar frias em Brejo das Almas e l eu e meus irmos adorvamos brincar no quintal da casa de tia Yvonne e
Tio Olyntho. E, enquanto brincvamos, lembro-me muito bem, tia Yvonne dava aula em sua sala. Quantos ela no ter alfabetizado por aqueles recantos?
E aqui, em Montes Claros? Educadora de vrias geraes, agitadora cultural, escritora, poetisa, me, no biolgica, mas pelo amor, av e bisav. Mulher determinada, guerreira, companheira extraordinria de um nico amor.
As duas cidades ainda esto de luto, mas ela permanece e continuar viva na Histria de ambas e no apenas na memria de cada um de ns.
Ela foi, talvez, uma das mais brilhantes estrelas a brilhar no cu destas cidades. Um dos maiores expoentes culturais.
Eu, que gozava de sua intimidade e de seu afeto, sei que ela desejava muito ser conhecida e reconhecida por sua terra natal. Pois foi e . Seu sonho se realizou e que, agora, no alm, ela possa estar em paz, sabendo que no guardou os seus talentos, mas os desenvolveu e distribuiu, generosamente, para todos que dela se aproximassem.
Maria Luiza Silveira Teles


79761
Por Maria Luiza Silveira Teles - 16/4/2015 02:48:12
BENDICES EM TEMPOS DE DESAMOR

Estamos vivendo momentos difceis no apenas no Brasil, mas em todo o mundo. Tempos de dificuldades e conflitos de toda ordem. Tempos de inverso de valores, individualismo, materialismo e ausncia dos princpios eternos que o Criador cravou em nossa conscincia. Tempos de violncia, desrespeito vida humana e me-natureza. Busca desenfreada do dinheiro, do poder, do sucesso, no importando os meios se ilcitos ou no pelos quais sejam alcanados.
Para ns, cristos, estamos ainda vivendo o tempo Pascal, tempo de renovao, de reconciliao, de renascimento, de reforma interior, de novas esperanas e liberdade. Entretanto, ainda ontem, centenas de cristos, crianas, homens e mulheres, foram degolados numa cidade do Iraque por um grupo terrorista de muulmanos radicais.
s vezes nos parece que algo est terminando. Alis, preciso sempre que o velho morra para que o novo possa nascer. Os mais simples esto a dizer: O mundo est acabando. Bem sabemos que tudo e todos nascem e morrem. Morrem as civilizaes, morrem as estrelas, morremos ns. Prefiro crer que um velho mundo est morrendo para que um novo possa nascer. Mas, um novo mundo de um Novo Homem; um homem mais justo, mais amoroso, mais solidrio, mais fraterno.
A vida e o tempo me ensinaram, todavia, que minhas esperanas podem ser frustradas. Talvez venha o Caos absoluto. No sei...
Sei apenas que, depois dos setenta anos, estamos sempre a enterrar os nossos entes queridos e muitos dos nossos sonhos. Parece que, agora, ns, os mais velhos, vivemos em velrios a nos despedir dos amigos, familiares e pessoas importantes para toda a nossa gerao, no apenas a nvel local, mas a nvel de pas e de mundo.
No temos como nos isolar ou ter uma vida exclusivamente pessoal estando imersos nesta aldeia global em que nos colocaram os velozes meios de comunicao. Assim, os acontecimentos nos atingem a todos e no apenas a alguns. Os sentimentos, tambm, so de todos os que ainda tm a capacidade de se sensibilizar.
E, antes que chegue a minha vez de sair do palco desta vida, preciso, num mundo de tantas maldies, fazer a minha lista de bendies.
Bendizer a todos e a tudo que me ajudou, na jornada terrestre, a ser o que sou. S que precisaria, talvez, de escrever um livro, a fim de no cometer injustias.
Comearia, claro, por bendizer a Deus Nosso Senhor e meus pais que me concederam a vida. Aos irmos, escola de sociabilidade e amor. Aos amigos, anjos encarnados e lio permanente de vida. Aos mestres, escritores, poetas, mdicos, artistas, msicos, jornalistas, servidores de toda ordem, crianas, mestras da verdade e da pureza, minha filha, lio permanente de convivncia, minha neta, anjo de minha vida, aos alunos, aprendizagem e carinho constantes.
Ento, bendito seja Deus, Senhor dos Universos!
Benditos sejam meus pais, porto de minha vida!
Benditos os que tm me curado!
Benditos os que saciam minha sede e fome de saber e beleza!
Benditos os amigos, que me acolhem e ensinam!
Benditos sejam o oxignio, a gua, as flores, as rvores, os lagos, o mar, as estrelas, as noites, os dias, o sol, a chuva, os animais, a dor e alegria!
Bendito seja este universo que carrego, dentro de mim, de amor, experincias, idias, sonhos, sentimentos!
Benditos sejam os que se doam!
Benditos os que bendizem!
Benditos os que semeiam boas sementes!
Benditos os que espalham alegria!
Benditos os que tm compaixo!
Benditos os que s sabem amar!
Bendita seja a Vida, Escola Maior!
Bendito seja o perdo, mel dos coraes!
Bendita seja a cidade de Montes Claros, que me acolheu!
Bendita seja Francisco S, a cidade que me fez sua filha!
Bendita seja Belo Horizonte, cidade em que nasci!
Bendito seja, hoje e por toda a eternidade, o Amor que a tudo cria e que sempre ser a Vitria!
Amm!


79576
Por Maria Luiza Silveira Teles - 12/3/2015 19:24:07
SIMPLESMENTE TERESA...



Na vspera do Dia Internacional da Mulher, uma grande mulher foi chamada por Deus. Seu nome era Teresa. Teresa de qu? No importa. Vocs no a conheciam, isto , quem tem internet e computador, provavelmente, jamais ouviu falar dela.
Era uma criatura annima, menos para os que a queriam bem. Uma criatura extraordinria! Amada por minha famlia e por todos de seu bairro, que a conheciam por Dona Xin.
Criou sozinha quatro filhos e fez deles homens honrados e decentes. Ganhando apenas um salrio mnimo sustentou-os e sua casa. Sempre disponvel para todos que dela precisassem. sua mesa havia uma fartura como se tivesse o poder de multiplicar o po, no s para os seus, mas para todos os necessitados que a ela recorriam.
Sempre no dia 12 de Outubro, dia de Nossa Senhora Aparecida, de quem ela era devota, e, tambm, dia das Crianas, fazia paneladas de comida e as distribua para todas a crianada do bairro, dando a cada uma alguma pequena lembrana Era uma verdadeira festa no imenso terreno de sua casa. Antes, porm, do lauto almoo, havia o tero e a ladainha, louvando Nossa Senhora, cuja imagem ela tinha num pequeno altar ao lado da entrada da casa.
Humilde, generosa, amorosa, seguia fielmente o exemplo do Mestre Jesus. Lutou toda a vida contra a doena de Chagas, que afetou seu corao. Contra todas as previses mdicas, ela viveu quase sessenta e cinco anos.
A doena jamais a impediu de trabalhar duramente. Mantinha, no fundo de seu quintal, uma plantao de milho e feijo da qual ela mesma cuidava. Pegava na enxada, sem medo, mesmo tendo os mdicos proibido-a de qualquer trabalho que demandasse esforo, pois seu corao estava cada vez mais fraco. Quantas vezes eu a peguei trabalhando e a repreendi. Ela respondia: Se eu parar de trabalhar, eu morro, Dona Luiza.
Por fim, o assassinato de um filho, por um neto seu envolvido com drogas, foi dor demais para seu fraco corao e ela se deixou tomar pela tristeza, complicando a situao de sade, vivendo mais internada do que no prprio lar.
Desde ento, nunca mais houve na sua casa a famosa festa de Nossa Senhora Aparecida. Da ltima vez que fui passar com ela esta data, rezamos apenas o tero e a ladainha.
Era analfabeta, mas, quando abria a boca, parecia inspirada, pois falava da Bblia, de Jesus e dos valores que deveriam nortear nossas vidas, com um incrvel conhecimento e sabedoria. Para nos consolar e confortar nos momentos difceis era nica, com tamanha tranqilidade, como se ela mesma no conhecesse o sofrimento.
Trabalhou para meus pais durante anos e, ao aposentar por invalidez, meu pai lhe deu um terreno com um pequeno barraco, que ela foi aumentando com o decorrer dos anos e o tamanho da famlia. Aos poucos, como uma antiga famlia chinesa, os filhos e os netos foram se agregando em torno dela, que era uma verdadeira matriarca da famlia, distribuindo as tarefas por filhos e noras e passando a ser a conselheira de todos.
Curava seus filhos, netos e vizinhos com seus chs e suas oraes. Uma mulher realmente especial!
Venerava meus pais, principalmente papai. Estranhando aquele sentimento de to profundo amor e respeito, resolvi perguntar-lhe, um dia, o motivo disso e ela me contou uma bela e comovente histria a respeito de como se conheceram, a situao em que vivia e a gratido que sentia, acima de tudo, por ele. Mais um motivo para eu admir-la, pois a gratido, penso, um dos mais nobres sentimentos do ser humano.
O mundo no tomou conhecimento de sua existncia, mas deixou rastros profundos na vida de muitos, inclusive na minha. Hoje, deve repousar no Seio do Pai, pois, com certeza, foi uma das melhores criaturas que conheci em toda minha vida.

Maria Luiza Silveira Teles


79538
Por Maria Luiza Silveira Teles - 4/3/2015 20:48:17
COMO NO TER SAUDADE?...


As pessoas acima de setenta anos que se dizem no-saudosistas ou so mentirosas ou no tm boas lembranas.
Quando cheguei a Montes Claros, em 1960, deixei a capital, cidade em que nasci e onde fui criada, com grande pesar. O sonho de meu pai era voltar para a terra de seus antepassados e onde viveu sua juventude. Entramos todos, minha me e os irmos, em choque com ele. Mas, naquele tempo, o pai era o chefe da famlia e a palavra final era dada sempre por ele. Mal sabia eu que aqui viveria anos maravilhosos e amaria tanto esta terra!
Naquele tempo, Montes Claros ainda era uma cidade pequena em que todos se conheciam. Saamos rua sem grandes preocupaes. Nada de mal poderia nos acontecer. Bastava dizer de quem ramos filhos e todos conheciam nossos pais, nossa famlia, e tinham mil histrias para contar.
Ah, quanta saudade do Clube Montes Claros! Neste carnaval passado, ao assistir as Escolas de Samba, lembrei-me dos carnavais de l. Tudo era to inocente e romntico! Danvamos em duplas ou fazendo trenzinhos numa alegria to pura! Claro que sempre tnhamos um par preferido e nossos coraes batiam a mil quando ele nos dava a mo e nos lanava olhares convidativos. Estvamos, porm, sob a eterna vigilncia de um irmo ou um primo.
E o Automvel Clube?! A hora danante da juventude dourada, sempre organizada, aos domingos, pelo saudoso Lazinho... Ah, quantas lembranas maravilhosas! Era poca da jovem guarda e danvamos o i-i-i. L se apresentou, nesse tempo, o cantor Erasmo Carlos. Como esquecer a deliciosa Banda dos Ls Cheries e a voz suave e bela do Lcio Alves?...
Ah, e os tempos de Faculdade, como aluna, e, depois, como professora, l no velho casaro da ento rua Cel. Celestino, hoje Corredor Cultural Pe. Dudu!... Era um tempo de sonhos! Mergulhvamos nos estudos com delcia e tnhamos professores talentosos, que nos alargavam horizontes! Como esquecer as aulas de Baby, Pe. Tadeu, Pe. Jorge, professor Krupp, Glacira Mendes e tantos outros que, com esforo e estudo, conseguiam ser verdadeiros educadores, no apenas nos transmitindo conhecimentos, mas uma postura tica bem rara nos dias atuais.
E ns saindo das aulas e passando no barzinho de Seu Augusto, o Caf Galo, para tomarmos um copo de caf com leite?!... Cantando pela praa, cheia de rosas, a cano de Vandr: Caminhando e cantando e seguindo a cano, somos todos iguais, braos dados ou no (...). Vem vamos embora que esperar no saber, quem sabe faz a hora no espera acontecer (...)...
Jovens sonhadores esperando fazer histria e construir um Brasil mais igual, justo e progressista...
Claro que a dor e as perdas no poupam ningum, mas, apesar disso, posso afirmar que aqui fiz grandes amizades que perduram por toda a vida e tenho vivido a fase mais produtiva de minha vida.
Como no ter saudade? Como no me emocionar quando ouo as velhas canes de Roberto Carlos, a trilha musical de minha vida e de meus amores, hoje todos mortos?
Ah, Montes Claros, como te amo e como sinto falta de suas antigas casas com arquitetura dos anos cinqenta ou sessenta! As deliciosas varandas, onde namorvamos ou nos reunamos em turma simplesmente pra jogar conversa fora... Hoje, tombam uma a uma e tu cresces em direo ao alto com caractersticas de grande metrpole.
Eu sei que essa a ordem natural das coisas, mas pergunto: como no ter saudade?...
Saio s ruas e raramente vejo uma cara amiga... uma multido de desconhecidos apressados sempre falando ao telefone ou teclando mensagens...
Amigos, s os encontro em reunies espaciais. E, dia a dia, enterrando pessoas queridas... Como no ter saudade?...

Maria Luiza Silveira Teles


79469
Por Maria Luiza Silveira Teles - 17/2/2015 12:09:38
LEMBRANAS DE UMA GRANDE AMIZADE

Ouo os sinos da Matriz chamando, provavelmente, para a Missa das nove e, de repente, j no estou mais aqui. Meu pensamento voa e, de novo, estou saindo da chcara em que morvamos, no atual bairro Santa Rita, para encontrar minha inseparvel amiga, Lila Teixeira (hoje Schoffel), na Ovdio de Abreu.
De l nos dirigamos para a Missa das nove, na Matriz. Andar para ns aquela distncia, naquele tempo, no era seno um pulinho apenas.
amos sempre de roupa nova, em cima do salto, com meia fina, duas alegres adolescentes, cheias de graa, encantadas com a festa da Vida. nossa frente, o futuro era apenas um sonho colorido, um caminho atapetado de flores e esperanas.
Assistamos a Missa com toda piedade, mas nossos coraes estavam aos pulos, esperando o momento mais desejado do dia, quando a Missa terminaria e ns iramos em direo Praa de Esportes, onde, na boate, a hora danante do domingo nos esperava.
L, das dez s treze horas, ou, algumas vezes, at s catorze, danvamos contentes. Jamais levamos ch de cadeira. ramos disputadas e o romantismo predominava: olhos nos olhos, mos a tremer de emoo, ligeiramente abraadas aos nossos pares.
Podamos chegar a casa um pouco mais tarde, pois domingo era dia de ajantarado, isto , um almoo farto e variado, em que se comia na parte da tarde.
s dezesseis horas, tnhamos a infalvel matin e, noite, o footing na Praa Coronel.
Tempos de inocncia e pura alegria!...
Poderamos imaginar que, na descida da ladeira da vida, estaramos ainda juntas, mas ss?!
No nos casamos muito cedo para aquela poca, pois moa, depois dos vinte anos, j estava no barrico.
Eu ainda me casei na dcada dos vinte com aquele que, hoje sei, era o verdadeiro amor de minha vida. Isso depois de inumerveis paixes que ainda me confundiriam mesmo no futuro.
Ela, embora muito cortejada, sempre esperando por seu prncipe alto, louro, de olhos azuis.
Um dia, ele chegou l das estranjas e eu e meu marido fomos padrinhos dessa to esperada unio.
Mas, a vida nem sempre piedosa e justa, depois de muita festa, nos bateu na cara com a dura realidade de perdermos, ambas, os nossos companheiros.
E, hoje, sem pai e me, sem marido, que sempre foram meus refgios, meus amigos mais queridos, meus portos seguros, onde poderia sempre aportar com tranqilidade, mesmo depois das loucuras da juventude, vivido o luto, ainda vejo a vida como uma bela aventura e um grande aprendizado.
Jamais eu e ela perdemos a paixo pela vida e o encantamento de, pelo caminho, observar as belezas, bnos de Deus.
Mesmo agora quando a doena terrvel toma conta de seu organismo, com a sombra da morte ameaando-a, ela sorri e ainda brinca.
Hoje, quando ao alvorecer, um raio de luz bate em mim, agradeo sempre ao Senhor pelo dom supremo da vida.
Dores e alegrias, encontros e desencontros, chegadas e partidas sempre os teremos. Mas, nada disso faz a vida menos bela...
Agora que nossos filhos j so adultos, quase na maturidade, temos a alegria dos netos, que nos trazem de volta o encantamento da infncia de nossos filhos.
Como algum pode abominar a Vida, quando ela nos presenteia, a cada dia, com tanta beleza e tantas graas?...
Tudo passa... Momentos de alegria e aqueles de dor. O tempo vai nos esculpindo de formas diferentes, mesmo guardando traos da juventude, e nos d, hoje, o maior dos presentes: a Sabedoria.
A nica tristeza real, na velhice, no encontrarmos mais pela nossa querida cidade os traos concretos, palpveis, de nossa juventude, pois o passado vai sendo dilapidado pela ganncia impetuosa do homem que fez Montes Claros perder as suas mais belas caractersticas.

Maria Luiza Silveira Teles


79404
Por Maria Luiza Silveira Teles - 4/2/2015 14:54:31

TONINHO REBELLO O HOMEM E O POLTICO

Prometi guardar segredo, mas no posso me conter diante de tamanho entusiasmo!...
No prximo dia vinte e cinco, ser lanada, em Montes Claros, uma obra extraordinria que, certamente, ficar para sempre gravada em nossa Histria. Um livro escrito a quatro mos, unindo o talento literrio de uma jovem mulher fabulosa ao de um antigo jornalista poltico conhecido por todos. Estou falando de Ivana Ferrante Rebello e Jorge Silveira.
O ttulo do livro Toninho Rebello O Homem e o Poltico.
At que enfim, algum resolve deixar o registro na Histria de nossa cidade do mais extraordinrio administrador pblico que tivemos.
Todos ns, da velha gerao, sabemos bem quem foi Toninho Rebello. Entretanto, talvez no acontea o mesmo com as mais novas. E, numa era em que a poltica anda to desacreditada e a tica to esquecida, nada melhor que mergulhar na personalidade fascinante de um homem to raro como foi Toninho Rebello.
Acredito, tambm, que a parceria dos autores foi um casamento perfeito para retratar essa extraordinria personalidade.
Os mais velhos, aqueles da gerao de sessenta, vo amar relembrar os dourados tempos das gestes de nosso inesquecvel prefeito. E as novas geraes talvez possam aprender que se pode fazer poltica com justia, integridade moral, honestidade, amor e respeito pela coisa pblica.
Repetindo as palavras do prefaciador, o tambm jornalista e escritor, Itamaury Teles: Ao final deste admirvel livro, o leitor, com certeza, me dar razo....
Encontramos, na descrio de ambos, um homem inteligente, simples, humilde, embora rico, que nutria grande amor por sua terra natal e por sua famlia.
Eu mesma me lembro dele em frente Caixa Econmica Federal da Rua Doutor Santos, com a camisa para fora da cala e rodeado de amigos e admiradores. Sempre gentil e atencioso para com todos.
No estava aqui por ocasio de seu falecimento, pois jazia eu em um leito do Hospital Madre Teresa, na capital, mas bem posso imaginar a comoo que tomou conta da cidade. Recebi a notcia com tristeza e surpresa, sentimentos estes que sua sobrinha, a autora, mostra que compartilhava com toda a populao.
Os autores foram muito felizes na descrio do Homem e do Poltico, Antnio Lafet Rebello. Ivana, com seu estilo mais literrio e potico, nos leva comoo profunda, e Jorge, pelo vcio do jornalismo, com um estilo mais objetivo, analtico e preciso, nos faz admirar ainda mais a retido deste homem de tamanha grandeza.
O autor confessa: Com ele aprendi o caminho dos verdadeiros homens pblicos, marcado pela retido, competncia, honestidade e humildade. Mas o trao mais marcante de Toninho era a bondade. Ele era um homem bom de corao, solidrio, que desconhecia o dio..
J a autora termina seu relato com essas belssimas e emocionantes palavras: Na minha mente, est muito vvida sua imagem: olhos tristes, mos no bolso, fiscalizando alguma obra. Difcil imagin-lo como anjo, mas certamente estar nalgum lugar bonito do cu, rodeado de Jos Gomes, Maro, Hermes de Paula, Dr. Santos, vov Jayme e outros homens de bem, ouvindo Joo Chaves cantar e contando histrias de Montes Claros..
Nesse ponto, fechei o livro e no pude conter as lgrimas. Talvez minha alma se curvasse diante de um ser humano to extraordinrio. Ou, parafraseando o autor, porque ele foi o homem e o poltico com que sonhamos. Aquele tipo de homem e poltico que poder construir um mundo mais justo, solidrio e fraterno.
Ao fechar o livro, no final, fiquei silente, com uma secreta inveja dos dois autores que puderam gozar da convivncia desse homem.
Livro perfeito e agradvel, em todos os sentidos, que veio tarde, mas em tempo para se fazer justia a quem tanto mereceu.
Se ele foi vilipendiado, algum dia, porque os homens de alma pequena no tm condies de reconhecer a grandeza de outrem a quem no conseguem se comparar.
No relato de ambos os autores so lembrados outros grandes nomes de tantos que ajudaram nossa terra e nossa gente.

Maria Luiza Silveira Teles



79384
Por Maria Luiza Silveira Teles - 30/1/2015 13:56:10
TESTAMENTO

Depois que tudo terminara, movido pela curiosidade e pela saudade, ele pegou na agenda que ela deixara. Leu-a, cheio de tristeza, sem compreender o porqu de uma vida plena de dor e superao. Na primeira pgina estava escrito: Estou fraco e aquebrantado: tenho rugido por causa do desassossego do meu corao Salmos, 38:8.
Na ltima, ela escrevera: Sou peregrina da Vida. Andei todos os caminhos e conheci todas as mortes. Sofri todas as dores, chorei todas as lgrimas, ri todos os risos. Bebi a gua de todas as fontes, banhei-me em todos os rios e mares. Provei todo o fel e todo o vinho. Bati porta de mil coraes e explorei a terra de todos os homens. Busquei a Verdade em todos os livros, vasculhei terras e cus, galguei montes e desci abismos, recebi a mensagem de todos os seres.
Agora, nada que humano me estranho: sei bem da fome, do medo, da dor, da saudade, da misria, do sonho, da morte, da vida... Sei bem de noites tristes, em que os fantasmas povoam o ser; de corpos dilacerados, de vidas esquecidas, de crianas estupradas, de esperanas murchas, de vincos no rosto, de fel na alma. Sei bem o que amar e odiar. Sei de todas as paixes que fervem no peito de quem nasceu e, um dia, inexoravelmente, haver de morrer... No me falem que desconheo outros universos, galxias e seres extraterrestres: nada me desconhecido. E no me perguntem por que sou triste e alegre, homem e mulher, poeta e peregrina... No me perguntem nada, porque nada sei. Sei apenas que tenho os olhos secos de quem esgotou todas as lgrimas; ps sangrando de quem caminhou todos os caminhos; lbios cerrados de quem j gritou todo o amor, toda a busca, toda a revolta... Ouvidos moucos de quem escutou todas as mentiras. Mos inertes de quem j fez todos os gestos. Corao cansado de quem se entregou sempre e encontrou apenas couraas e mscaras de pobres criaturas com medo da vida. E no foi uma vida, eu juro que no: foram tantos amores, tantas as dores e as horas de espera e solido... Foram tantos os sonhos, pesadelos, caminhos de pedras e espinhos... Foram mil vidas, eu sei, nascendo e morrendo, a cada dia, a cada noite, a cada nova estao. Pisada, moda, triturada pelas ms dos moinhos de ventos das minhas iluses. Mas, eu grito! Algum me escuta? Quem ? Esto no fundo do poo ou so estrelas no cu? Venham comigo! Bebam de minha taa. Comam de meu po. Morem sob meu teto. A noite densa e eterna e a dor me fere e rasga a carne... A carne e as entranhas. Ela grita no silncio das noites, molha o rosto, a roupa e suja a cama. Geme nas cordas do violino, do violo, no teclado do piano, no sopro do saxofone... Vira cor e forma nas mos de quem no tem outra maneira de expressa-la; e verso, lgrima, revolta, prece, na caneta que desliza pelo papel, sem saber o que pede o corao. Gritar: eu, tambm, tenho que gritar! Gritar por este mundo que agoniza. Doem-me os seus estertores e esgares, as faces de horror e desespero... Os olhos vidrados contemplando um amanh em que no acreditam... Sou uma pessoa frgil como cristal, sensvel, amorosa, perceptiva, cuja noite da alma se prolonga. Rezar quase que meu exerccio dirio. Eu sei que Deus me escuta (s vezes tenho dvidas, sou obrigada a confessar...). Mas Ele fala comigo de diversas maneiras. Ele quem me mantm viva. Mas, de qualquer forma, tenho que gritar para sacudir os homens que dormem. Embora sinta um grande desnimo... Ele j veio. Andou por todos os caminhos poeirentos e cheios de abrolhos. Sangrou os ps, o corpo, a alma e foi crucificado. Que posso eu esperar? Que tenho ainda a fazer? Ele falou de Amor, Bondade, Justia, Perdo, Reconciliao, Complacncia. Mais de dois mil anos... Silncio...tudo silencia. E eu morro para esse mundo...

Ele fecha a agenda...

Maria Luiza Silveira Teles


79233
Por Maria Luiza Silveira Teles - 2/1/2015 16:32:16
A MORTE NO PODE ESPERAR...

Mais uma despedida... Sabemos que nossa vida no planeta provisria. Viemos aqui, provavelmente, para aprender. Principalmente, aprender a amar. Acredito que o homem tem duas asas: a asa do conhecimento e a asa do amor, que implica, tambm, a tica. Entretanto, poucos de ns desenvolvem, com equilbrio, essas duas asas. Meu amigo, Haroldo Lvio, que partiu no primeiro dia do novo ano, era um homem que soube desenvolver ambas.
Haroldo, meu companheiro de Academia e do Instituto Histrico, era, talvez, um dos maiores intelectuais de nossos tempos, por esses rinces.
E sua simplicidade, sua humildade, era do tamanho de sua grandeza intelectual e moral.
Estar perto dele, usufruir de seu rico cabedal de conhecimentos era sempre uma fonte de enriquecimento. Ah, meu amigo, como vou sentir sua falta!...
Em qualquer acontecimento social ele estava sempre acompanhado de sua bela esposa, Maria do Carmo, ou Duca para os ntimos. Eram companheiros formidveis, sempre cheios de alegria e bom-humor! Era, tambm, como sei, um excelente pai de famlia. Portanto, alm de intelectual respeitado, um homem reto, de princpios morais slidos.
Deixa para a posteridade um rico acervo cultural e um exemplo de integridade, honestidade, bondade, cavalheirismo.
Constatar o quanto era querido bastava ver quantos o cercavam no Caf Galo e, hoje, a multido que lotou o seu velrio e seu enterro. A despedia foi para todos que o amavam um momento nico de grande emoo.
Foi-se o homem, fica a sua herana e as marcas profundas que deixou na cidade de Montes Claros e, qui, em todo o norte de Minas. Feliz da criatura, como ele, que pode apresentar-se, sem mcula, diante do Pai-Criador.
H muito, desde a morte de seu irmo, Fernando, que estava prometendo a mim mesma visit-lo. Mas, por uma srie de motivos, principalmente de sade, fui adiando a visita. E eis que ele se vai sem que eu pudesse, mais uma vez, dar-lhe um abrao e batermos aquele papo to gostoso. A morte no pode esperar. Ele estava de malas prontas e mal sabia eu!... Perdo, meu amigo!
As cadeiras ocupadas por ele, em ambas as instituies citadas acima, sero ocupadas por outros. Eu, porm, hesitaria muito antes de faz-lo, pois o peso de seu nome implica em grande responsabilidade.
Para mim, amigo, voc foi nico e, portanto, insubstituvel.
Espero, de todos meu corao, podermos nos encontrar na eternidade, assim como com tantos outros entes queridos!
Adeus, amigo! Obrigada por ter feito parte de minha vida! Voc pode ter a certeza de ter marcado profundamente a vida de muitos com quem conviveu. Voc foi um privilgio! E a lacuna que deixa , verdadeiramente, dolorosa.

Maria Luiza Silveira Teles




Selecione o Cronista abaixo:
Avay Miranda
Iara Tribuzi
Iara Tribuzzi
Ivana Ferrante Rebello
Manoel Hygino
Afonso Cludio
Alberto Sena
Augusto Vieira
Avay Miranda
Carmen Netto
Drio Cotrim
Drio Teixeira Cotrim
Davidson Caldeira
Edes Barbosa
Efemrides - Nelson Vianna
Enoque Alves
Flavio Pinto
Genival Tourinho
Gustavo Mameluque
Haroldo Lvio
Haroldo Santos
Haroldo Tourinho Filho
Hoje em Dia
Iara Tribuzzi
Isaas
Isaias Caldeira
Isaas Caldeira Brant
Isaas Caldeira Veloso
Ivana Rebello
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Jorge Silveira
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Jos Prates
Luiz Cunha Ortiga
Luiz de Paula
Manoel Hygino
Marcelo Eduardo Freitas
Marden Carvalho
Maria Luiza Silveira Teles
Maria Ribeiro Pires
Mrio Genival Tourinho
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Paulo Narciso
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Roberto Elsio
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Saulo
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