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| De:
Repórter
98 FM |
Data:
22/4/2005
11:25 |
| Cidade:
Santiago
do Chile - América do Sul |
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(O repórter
98 – um deles – está no Chile. Foi de férias.
Prometeu enviar
“ anotações de viagem”, sem qualquer compromisso
ou data. Tentará.
Este é o primeiro despacho que envia. O repórter diz que
não sabe quando virão os outros, porque – pensa ele
– chegou a hora de conhecer mais e contar menos, e não pretende
estragar sua peregrinação com compromissos. “Quanto
mais menos, nenhum” – repete.
De toda forma, pede para avisar: mais do que ao Chile, mais do que aos
Andes ou ao Pacífico, foi, viajou, a Pablo Neruda, o poeta de olhos
semicerrados de tartaruga que muito o ajudou aos l8 anos. Pretende pagar
“uma conta” e acha que fará isto, visitando como um
peregrino, cuidadoso, as 3 casas do poeta – La Chascona, La Sebastiana
e Isla Negra. Crê, acredita mesmo, que o poeta esteja nelas, ou
impregnado nelas, e vai ao seu encontro. Este é o primeiro dos
depoimento que prometeu mandar )
“O vôo
de 3h20m, desde São Paulo, não desembarca exatamente sobre
“Santiago de La Nueva Extremadura”, uma cidade de quase 500
anos e 6 milhões de habitantes, que abriga 40% da populaçaõ
do Chile. A esplêndida visão da metrópole, espremida
entre duas cordilheiras, não concorre com a visão dos Andes
e se desfaz.
“Los Andes”,
como dizem os simpáticos nativos, superam toda descrição
dos bancos escolares quando emergem na proa do avião, retorcidos
e soberbos, espetando as nuvens brancas com suas geleiras brancas(foto).
A diferença é que ali são reais, existem, amedrontam.
Encerram a capital num desfiladeiro coberto de fumaça neste início
de Outono. De um lado, os Andres, com seus cumes de 7, 8 mil metros ou
mais; do outro lado, a cordilheira da Costa e, depois, o Pacífico,
que traz o distante Oriente para perto, como nunca antes fora possível.
Para trás,
em poucos minutos, ficaram os caracois do rio Paraná, os campos
riograndenses, as estepes argentinas, Córdoba, Tucumam, o imponente
Acóncaqua e uma história. Não muito distante de onde
voamos, um avião militar uruguaio caiu com um time de futebol e,
nas geleiras, quem não morreu durante semanas sobreviveu comendo
a carne gelada do outro que morreu ao lado. A história virou um
filme com muitos nomes e o que me lembro é este – “Sobreviventes
dos Andes”, ou algo próximo. A lembrança é
um calafrio, pois cair de avião nos Andes é morrer 3 vezes
- na queda, na altura que não recua e nas geleiras eternas.
Por fim, quando o
Boeing com velocidade cruzeiro de 835/km/h e uma temperatura externa de
70 graus negativos inclina, e vaza as nuvens, descobrindo pela frente
os Andes finais, certamente a vastidão da cidade não compete,
não concorre com os picos que até santa própria têm
– Santa Teresa de Los Andes.
A cidade corteja a
montanha e, as duas, adulam o centro da terra, ali sempre imprevisivelmente
revolto, medonho, capaz de acordar, por qualquer motivo, insolente, para
depois adormecer por longos períodos. Como agora – quando
os terríveis terremotos estão a 20 anos de nós, eles
que costumam vir regularmente sempre a cada 15 anos. Assim distantes,
ficam próximos, e chamam-se; a cada noite concentram energias para
vir acima. São esperados para esta tarde, ou amanhã; talvez
na semana que vem, ou na outra, na seguinte. O certo é que virão.
Virão, porque tem um encontro eterno com o Chile, e todos o esperam,
como num ritual; como esperam os chilenos, a cada primavera, que o gelo
da montanha se desfaça em água e que a água transborde
este magro e saltitante rio Mapocho, ora excessivamente diminuído
no caixão de concreto que lhe custodia. (O longo olhar e o abraço
do Chile ao seu próximo terremoto, os próximos, contaremos
adiante).
Do avião que
taxia, a cordilheira fica para trás e na memória; a bruma
a reduz a uma tênue, delgada e alta silhueta. Santiago exibe seus
Álamos, as alamedas vindas da França, onde Bonaparte fazia
desfilar as tropas sempre na sombra. A cidade é vasta, bela, de
uma terra branca, porosa, onde talvez comece, ou talvez termine, o gigantesco
aluvião de areia que vai, ou vem, do deserto de Atacama, ao norte,
o mais intratável do mundo. Os prédios são baixos,
na maioria, prudentemente postos asssim para que se contenham nos limites
do razoável quando tiverem que tremer, e até cair, por um
ou outro terremoto. As avenidas são longas, há verde pelos
caminhos, e alegria, e o outono já derruba as folhas sensíveis.
Uma só avenida, a do Libertador, nasce no pé dos Andes,
atravessa Santiago inteira e vai até o porto de Valparaíso,
conhecido como "porto do fim do mundo", cento e tantos quilômetros
depois.
Estamos no Chile e
queremos ir ao poeta. Por hoje, a 3 quarteirões deste simpático
Hotel Galerias, iremos só ao Palácio de La Moneda, pela
calle Moneda, no centro histórico, bem perto da Plaza de Armas,
o ponto zero da capital e da próxima exploração.
Veremos, com os olhos de 11 de setembro de 1973, as marcas da artilharia
aérea sobre o frontispício deste conjunto neo-clássico
(foto), atarracado, despojado até, antiga casa de fundição
da moeda colonial, onde o presidente Allende, cercado e exausto, sob a
mira dos “pilotos traidores” da Força Aérea
do Chile, desfechou contra o peito os tiros da metralhadora que lhe fora
presenteada por Fidel Castro para encaminhar a revolução
socialista. É uma versão. Ele teria sido morto, é
outra. Para uma só tarde, será demasiado desfazer o mistério.
Quem vai a procura de versos talvez deva evitar indagações.
Impossível.
O poeta Neruda, 12 dias depois deste primeiro 11 de setembro das Américas,
tambem foi alcançado pelos tiros, embora não estivesse no
La Moneda. Estava do outro lado da cidade, no final da BellaVista. O desgosto
o matou. Morreu porque nele morreu a esperança, e o câncer
que partiu da prostata achou no desencanto daqueles horas um aliado devastador.
Amanhã, quando chegarmos à sua casa em Santiago, La Chascona,
onde começa o Cerro San Cristobal, com o velório ainda posto
na sala, será possível perguntar por aqueles dias. Amanhã.
Talvez amanhã.
Hoje, na praça
defronte ao palácio, no seu pedestral de concreto, Salvador Allende
preside a tarde, e os Carabinéri do Chile, orgulho da população
por se sentir segura nas ruas, muito segura, os carabinéri permitem
educadamente que qualquer um entre e saia da sede do governo, onde agora
despacha o presidente Ricardo Lagos. Permitem -. ainda que por lá
alguem tardiamente procure o visionário que recolheu seus óculos
na sala incendiada do primeiro 11 de setembro das Américas, levantou-se
e foi morar à direita dos jardins, com os olhos de cimento voltados
para o Chile. E sobre uma frase: “Mucho mas temprano que tarde,
de nuevo se abriran las grandes alamedas por donde pase el hombre libre
para construir uma sociedad mejor”.
(Nos próximos
dias, La Chascona, a casa em Santiago de Pablo Neruda; onde viveu, onde
não morreu, e onde foi velado, dias depois do grande saque que
se seguiu ao golpe de 11 de setembro de 1973, no Chile)
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| De:
Repórter 98 - Segundo despacho
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Data:
16/4/2005 23:45
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| Cidade:
Santiago do Chile
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(Nas linhas abaixo,
o repórter 98 – um deles, envia do Chile o segundo despacho
da viagem que faz ao poeta Pablo Neruda. O primeiro, de semana passada,
está recolocado imediatamente abaixo, para que as duas narrações
obtenham unidade e sentido. Virão outros telegramas noticiosos,
como se dizia nos tempos de Neruda, ou e-mail, como acgora chamam esta
milagrosa forma de comunicação instantânea. Narrarão
a visita à La Sebastiana, em Valparaíso, e à Ilha
Negra, onde sob o olhar do poeta o Pacífico é o mais vasto
e misterioso dos oceanos. E o mais rude. )
As fotos acima mostram a intimidade do primeiro núcleo da casa
La Chascona, de Pablo Neruda, com o pátio interno; a construção
azul, ao fundo, em forma de farol marítimo, é a lareira
e o quarto do poeta; embaixo, a foto roubada de sua cama.
“Por estes dias, contemplando
o Salvador Allende Gossens que foi morto no La Moneda, ergueu-se e vive
nesta estátua de granito, de onde de solenes óculos vê
o Chile e é obrigado a ver também, no prédio escuro
adiante, os sinais dos balaços que o mataram, interrompemos as
primeiras “anotações de viagem” a Pablo Neruda.
Hoje, iremos à La chascona,
a casa em Santiago de Neruda, que tendo vivido pelo mundo e amado as mulheres,
muito sensual que foi, a três delas entregou sua alma, em três
casas essenciais. (À La Chascona, diga-se logo, deu sua morte).
Em 1939, numa praia desabitada
que lhe recordava o áspero e amado Puerto Saavedra da infância,
na costa escancaradamente aberta para o Pacífico e para o Oriente,
o poeta demarcou a residência oceânica, a que chamou de Isla
Negra, sem ser ilha e sem ser negra.
Em 1953, com o prêmio
Stalin da Paz construiu La Chascona. Estava ainda casado com a segunda
mulher, uma argentina vinte anos mais velha, e amava outra em segredo,
uma cantora chilena que conheceu no México, a “descabelada”,
“chascona”, nome que deu à casa de Santiago .
Por fim, em 1959, no porto
de Valparaíso, imaginou e finalizou a construção
de uma chalé-mirante, que olha para o mar e que chamou de La Sebastiana,
em honra do antigo proprietário de quem ficou amigo.
As 3 casas, por diferentes
que possam ser vistas, mostradas e examinadas, são uma, uniformemente
iguais no que nutre o poeta – o olhar.
La Chascona olha para os Andes,
do alpendre; nas outras duas, é o mar que o poeta procura trazer
para a sala, para a mesa, para os quartos, para a cama. Ou é simplesmente
a cama que ele deseja pôr no mar.
Assim são as 3 casas
e devemos entrar já na primeira, La Chascona.
APETITE
Como faremos isto em tempos
diversos, que de agora devem recuar aos dias sangrentos de setembro de
1973, é bom descrever logo, rapidamente, o Chile atual, que ontem
nos acolheu.
Na geografia, é a tripa
marinha de 4 mil quilômetros de cumprimento e 180 de largura média,
espremida entre os Andes inóspitos e o Pacífico, que nos
seus confins enlaça o Oriente.
São 15 milhões
de habitantes, remanescentes índios, poucos, os mapuche, e a mistura
de índios com os colonizadores espanhóis; 40% dos chilenos
estão em Santiago e os demais repartem-se pelo Norte Grande com
o deserto de Atacama e pelas regiões frias do sul, até o
polo austral.
Região farta de vulcões,
terremotos e tsunamis, o Chile viveu uma das piores ditaduras do século
passado. Hoje, recuperado para a democracia, apresenta a economia mais
desemperrada entre os 11 ou 12 vizinhos latinos (a maioria de língua
espanhola e um só – o Brasil - que fala português),
propiciando um visível salto na qualidade de vida da população.
As ruas da vasta Santiago são
seguras, limpas e belas; por elas, a qualquer hora do dia e da noite,
os patriotas e visitantes andam em perfeita segurança; a polícia
protege o cidadão e o cidadão confia na polícia;,
os carabinéri do Chile, sem dúvida, são um expressivo
e visível símbolo do orgulho naciona, é preciso repetirl.
Para quem chega do Brasil,
para quem vem de Montes Claros ou de Belo Horizonte, onde sair à
noite, e até de dia, em determinados lugares, virou uma aventura
e uma temeridade, poder circular por Santiago – de 6 milhões
de habitantes -, sem puxar o medo pela mão, é gratíssima
alegria.
Outra é perceber, rapidamente,
que o Estado aqui existe para resolver o problema de todos e não
para criar problemas para todos.
É nítido, transparente,
o esforço do Estado pelo bem geral, sem criar embaraços,
exigências, tropeços, armadilhas, leis e artimanhas que asfixiam,
infernizam, humilham, empobrecem e aviltam a população,
como no Brasil.
População moída
imemorialmente pelo insaciável apetite do Estado, que nasceu para
lhe servir, mas que a exaure torturadamente até o limite da indigência
e do esgotamento, seja de que governo for.
Os juros bancários no
Chile são de 2 por cento ao ano, contra cento e tantos no Brasil,
e um apartamento pequeno, no centro de Santiago, pode ser comprado por
20 mil dólares, com prazo de dezenas de anos.
A economia funciona, os níveis
de emprego são bons, os meninos vão para a escola de gravata
e, as meninas, com suas saias quadriculadas e golas de marinheiro. A escola
é privada, inclusive a universidade e o ensino primário,
mas ninguém que não tenha dinheiro fica de fora, pois há
um programa público que assegura a todos o acesso ao conhecimento.
MURMÚRIOS
É por este Chile de
economia civilizada, quase do primeiro mundo, que caminhamos, nesta manhã,
em direção ao bairro de Bella Vista, no sopé de Cerro
San Cristobal. O caminho é curto, vamos a pé desde a Plaza
de Armas, mas, quando lá chegarmos, em poucos minutos, será
23 ou 24 de setembro de 1973, dias depois do golpe do general Pinochet,
que matou Allende, o homem de granito e de óculos lá de
cima.
Na casa, percebam, há
murmúrios, e velam um corpo. Não houve terremoto nos últimos
dias, mas o estado da casa é de destruição semelhante.
A força aérea
do Chile bombardeou o palácio; metralharam os prédios vizinhos
e escorraçaram a democracia.
Depois, saíram atrás
dos que não se renderiam.
O poeta Pablo Neruda é
um deles, longamente indisposto com os tiranos. Está doente. O
golpe lhe suprime as forças, mas ele escreve as linhas finais,
e dolorosas, do “Confesso que Vivi”. O general Prates, seu
amigo, é esperado com uma coluna de tanques que deve marchar pelo
sul e que nunca vai chegar.
Neruda morre no hospital, longe
das três amadas casas. Havia começado a morrer 12 dias atrás
– num primeiro 11 de setembro das Américas - quando a rosa
rubra que Allende conduziu ao La Moneda converteu-se no cogumelo de fumaça
da primeira bomba despejada pelo primeiro avião bombardeiro.
A traição dos
“pilotos chiilenos” o matou, mais e definitivamente do que
o câncer de próstata, que quem sabe? poderia ainda entreter-se
com seus versos e deter-se.
Cerrada a vida do poeta , multiplicado
o ódio que lhe tinham, saíram a saquear suas casas –
primeiro, La Chascona, depois La Sebastiana, a que iremos visitar amanhã
em Valparaíso.
Rasgaram livros, rasgaram fotos,
destruíram recordações e histórias, destruíram
portas e janelas, estilhaçaram os vidros.
Procuravam armas, encontraram
poesia, e um caudal de águas desviaram do Cerro São Cristobal
para que as três diferentes partes de La Chascona fossem destruídas
pela pequena água, a mãe dos rocios, tão do agrado
e da intimidade de Neruda.
Era o terror do estado, o pior
deles, descendo em cachoeiras de vingança na sua própria
casa.
Quando chegaram com o corpo
do poeta para ser velado, e que agora está no segundo andar, deliberaram
os amigos não suavizar qualquer traço do ódio que
o precedeu, mantendo intacto o rebuço de selvageria.
Que o ódio, também
ele, velasse o poeta, e por castigo ouvisse sua rapsódia final:
“E a minha voz nascerá
de novo,
talvez noutro tempo sem dores,
sem os fios impuros que emendaram
negras vegetações ao meu canto,
e nas alturas arderá de novo
o meu coração ardente e estrelado”
O estádio nacional do
Chile – onde o Brasil foi bi-campeão mundial – empapuça-se
com milhares de presos, quando o corpo de Neruda deixa a La Chascona para
a sua não definitiva sepultura. Eu vejo a cena.
Os amigos estão encarcerados,
são caçados pelas ruas, mortos e torturados. Os que restaram,
que pularam sobre os sabres, estão aqui. Eu os ouço gritar,
quando passam com o morto:
“Pablo Neruda ? - Presente,
agora e sempre!
Povo chileno ? - Presente, agora e sempre!
Salvador Allende ? - Presente, agora e sempre!
A VIDA DOLOROSA
Daqueles dias, que foram anos, cessaram as águas desviadas do alto
morro. A admiração e o clamor do mundo tangeram as instâncias
do horror e La Chascona se transformou num centro de peregrinação,
tal como a encontramos agora, de volta a este Outono de 2005.
O poeta regressou por inteiro
a esta casa, partida em três, como sempre partirá suas outras
casas em três ambientes distintos. Uma parte, a mais alta, é
o “cérebro”; a segunda pertence ao “coração”,
ao amor, sempre o amor, e a mais baixa tem a serventia que o estômago
tem de sustentar as demais.
A via dolorosa que na primavera
de 1973 viu passar, envergonhada, o corpo de um dos maiores poetas de
todos os tempos, dobrada por uma ditadura cruel, é também
de volta uma rua meiga, entortada, que vai vai dar noutra rua, também
torta, também meiga e também gentil.
La Chascona levantou-se da
humilhação, recuperou-se.
Não importa, ou muito
importa, que numa vitrine junto a livros preciosos, de primeiras edições,
guarde e também exiba o pungente apelo de Matilde Urrutia, com
sua clara letra, para que cessasse o desvario, para que do extermínio
os verdugos poupassem os preciosos originais dos “Versos Del Capitan”,
que a ela, e só a ela, pertencem. A canção do amor
prudente que nasceu na ilha de Capri.
A letra vigorosa da mulher
forte, sobrevivente de terremotos especialmente devastadores em sua Chillán
natal, foi suficiente para estancar a fúria, submeter a arrogância
e, suprema vitória, livrar os versos do estrangulamento.
La Chascona assim vive.
Na porta da rua, rente ao passeio,
no primeiro nível, sempre em forma de navio e com detalhes outros
de embarcações, está a sala de jantar, onde Neruda
recebia os amigos. Na mesa, há um lugar só dele –
onde se senta, e comanda a barcarola gastronômica. Dom Pablo, o
gordo “capitão seco”, ancorado na Terra.
Mais adiante, há um
armário. Por este armário, por uma porta falsa de guarda-
roupa, há uma escada oculta para o segundo andar. Nesse andar está
o quarto que depois da morte de Neruda ocupou Matilde, a terceira e definitiva
paixão. E onde Matilde morreu.
Além do primeiro lance
dos jardins ascendentes, estão a lareira e o quarto do casal, com
vista para os Andes, em forma de farol marítimo. Na cama , triunfa
o leão de pelúcia que o poeta ganhou de Matilde ao receber
o Nobel de literatura.
O quadro na sala, perto de
um Panceti, é de Diego Rivera e põe no rosto de Matilde
a sua vida dupla. Neruda ainda estava com a segunda esposa e já
namorava Matilde. O muralista mexicano, cúmplice, pintou o perfil
de Neruda enlaçado pelos cabelos da “chascona”.
Por um seguinte caminho entre
os jardins, a partir dos aposentos do amor, vamos ladeira acima ao “cérebro”
da casa. É o local de trabalho, onde escrevia o poeta, numa mesa
de madeira devolvida pelo mar. Nesta caixa de vidro, silenciosos falam
os seus óculos de grossas armações. Mais adiante,
sem qualquer alarme, estão o pergaminho do Prêmio Nobel de
1971 e a medalha de ouro.
Na frente, abrindo caminho
para os Andes, fica a sala de leitura do escritório, com o quadro
de uma mulher. Neruda ali parava para ler, de costas para a cordilheira.
Dizia que a mulher do quadro à sua frente era tão feia que
o obrigava a voltar rapidamente para os livros, se levantasse os olhos.
A visita à La Chascona
– hoje museu – não é demorada, porque há
muita gente para entrar. As fotos internas são proibidas, mas o
melhor – as vistas que o poeta via e vê – estas são
livres e por elas volta Pablo Neruda. Com sua ampla calva. Com a voz quase
monótona, fanhosa, anasalada, do sul do chile. Com o sorriso de
criança no rosto largo. Com o inseparável boné de
jóquei. Recitando:
“De outro. Será
de outro. Como antes de mis besos.
Su voz, su cuerpo claro. Sus ojos infinitos.
Ya no la quiero, es cierto,
pero tal vez la quiero.
Es tan coerto el amor, y es tan largo el olvido”
Vem com ele o menino que fez notáveis versos em Teumuco, como estes.
Alguns como se recebesse um ditado, antes dos 15 anos.
O menino o segura pela mão
e dizem, e concordam, juntos: “O homem que não brinca perdeu
para sempre a criança que vivia nele e que lhe fará muita
falta”.
A chamar o poeta, pelas noites,
ficou um jasmineiro, que deita poesia por sua vez sobre o telhado de telhas
comuns, dessas feitas nas coxas.
Um jasmineiro como os jasmineiros
de qualquer parte, em Belo Horizonte ou Montes Claros. Com a graça
e o estrito perfume que Neruda foi buscar quando procurou as melhores
palavras para celebrar Garcia Lorca, o poeta assassinado na guerra civil
da Espanha.
Na noite em que os dois deveriam
ir ao circo Price de Madri, Lorca não veio. Ao invés de
circo, foi a um pelotão de fuzilamento.
(Amanhã, visitaremos
La Sebastiana, em Valparaíso, terra de rudes marinheiros e por
muitos anos o mais remoto porto do mundo. O porto do fim do mundo. A nos
esperar, na casa do poeta, um terremoto). “
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| De:
Repórter 98 - Penúltimo despacho
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Data:
9/4/2005 10:07
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Cidade:
Valparaíso
País:
Chile
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(Este é o terceiro
despacho, ou “anotações de viagem”, que o repórter
98 envia do Chile. Nos dois primeiros, reposicionados abaixo, fala do
país e fala principalmente da primeira casa do poeta Pablo Neruda
– em Santiago. Hoje, resume a segunda casa, em Valparaíso,
e anota que esteve em Viña del Mar, o mais importante balneário
do Pacífico Sul. Sobre esta cidade, recorda apenas que o Brasil
ali jogou para ser bi-campeão de futebol, em 1962. E que o lugar,
belo e já frio neste começo de Outono, não tem praias
que concorrem com as praias do Brasil. E de novo mergulha no poeta do
“Yo no lo quiero, amada/ Para que nada nos amarre/ que no nos una
nada”).
Nas fotos, o "porto do fim do mundo"; e a vista de Valparaíso,
do quarto e da cama do poeta, por suas janelas)
Aqui estamos em Valparaíso. O batismo dos descobridores quer significar
isto mesmo – “vale do paraíso”, uma sucessão
de vinhedos que vai da costa até os arredores de Santiago, vazando
a cordilheira do mar, que é apenas tênue aviso do que vem
depois – os altíssimos Los Andes, único ponto da América
Latina visto livremente do espaço.
Um personagem do Brasil é
também herói deste porto e deste povo. Cochrane, o primeiro
almirante da Imperial Marinha do Brasil. O lord inglês que a chamado
de Dom Pedro I, e pago por ele, correu com a armada portuguesa que resistiu
à independência nas costas da Bahia e do Maranhão.
Herói, elevado a barão
no Brasil, Cochrane depois veio lutar nas frias e revoltas águas
do pacífico e aqui –mais do que no Brasil – tornou-se
herói no levante pela independência. Sua voz é ouvida
neste porto.
A praça principal de
Valparaíso tem o nome de Vitória.
Belas e negras fontes guardadas
por negros leões de bronze não deixam esquecer que a esquadra
que partiu de Valparaíso venceu a Guerra do Pacífico, e
que o Peru, submetido, deixou vir de Lima fontes e leões, belíssimos,
que rosnam na praça.
Poetas não costumam
se inclinar diante de guerreiros, mas o inglês Alexander Thomas
Cochrane, da estirpe do almirante Nelson, tem lugar até na sala
mais ilustre do porto de Valparaíso, cujas casas penduradas pelos
morros lembram ao maior dos oceanos que a soberania das águas aqui
acabou.
São habitações
simples e coloridas de um quadro primitivo interminável, forrando
os morros, tendo no meio delas, no ponto mais alto, na melhor vista, no
mirante central, tocando as estrelas, entre o mar e dependuradas vidas,
a segunda casa de Neruda, chamada de La Sebastiana.
DIAS DE GLÓRIA
Antes que entremos a conhecê-la,
é preciso dizer que o “porto do fim do mundo”, na nossa
frente, teve outros dias de glória.
Viveu-os até por volta
de 1910, quando o Canal do Panamá tornou inútil aquele longo
laço de navios até o polo sul, quando era preciso contornar
o continente para tocar qualquer outro mar.
Seguiu vitorioso enquanto o
salitre chileno foi o sal da terra. Os alemães descobriram um substituto
sintético, melhor e mais barato, e a riqueza do Chile girou e se
perdeu nas minas ainda repletas do Atacama.
A outra glória de Valparaíso
é um bandido e chama-se Joaquim Murieta , e a glória talvez
deva ser partida com o México.
Querem uns que Murieta partiu
de Valparaíso para ser o aventureiro e salteador que foi na corrida
ao ouro da Califórnia, onde chegou antes dos americanos. Mataram
sua mulher e o mito – pretendido pelas duas pátrias –
ignorou a morte, e segue.
La Sebastiana, a casa de Neruda
que começamos a ver, é de 1959 e chegam a dizer que é
extravagante. O poeta a completou quando havia deixado definitivamente
sua segundo mulher, uma argentina, e já vivia com Matilde.
Aqui, passavam temporadas,
porque o porto, “que abre as portas ao mar infinito”, é
diferente da “ prisioneira Santiago, cercada por muros de neve”.
Pegou a construção
da casa pelo meio e a concluiu como pensou, anexando-lhe andares náuticos,
virados para o mar como esfinge em três lances e muitas vistas.
Miradouro de oceanos, sustentado
por cimento, ferro, vidros e portas baratas, material de demolição,
azulejos e toda recordação que juntou por uma vida de viajante.
Janelas e portas são
escotilhas e a mesa está posta como se o almoço espere o
poeta, trazido por correntes marinhas orientadas pelos mapas na parede.
“Dom Pablo est ici”,
anuncia a placa no barzinho, servido de um sino, debaixo de numerosas
escadas, retorcidas, enviesadas, vigias de “recuerdos” que
o dono foi anexando, até ancorar no bar onde apenas o capitão
de “los versos del capitán” tem ordens para entrar,
permanecer e servir os amigos. Só ele.
No último andar, queda
a cama do casal, de ferro, dourada, obliquamente estendida e oferecida
ao mar, que vem e vasa pelos vidros da ovalada alcova.
O Pacífico e seus barulhos,
navios, rumores, cantos e cerração. Amores, todos são
bem vindos a dentro. Se partem os barcos, e se de um deles se acena com
um lenço, a despedida talvez peça a cerimônia de um
veraz olhar pela escotilha.
Sobre a cama, um álbum
de fotografias, originais.
Consentem que eu o abra e dele
salta o poeta amazonense Thiago de Melo, do “Estatuto do Homem”,
numa imprecisa comemoração à noite na intimidade
de La Sebastiana.
Logo adiante, num canto, bradam
os jornais chilenos de 1971 que o dono ganhou o Prêmio Nobel de
Literatura.
Protegidos das mãos,
estão os livros amados , a máquina de escrever, a escrivaninha
de tantos poemas, a cadeira de senador romano, o olhar do almirante Cochrane,
e, sobre todos, em grau de sisudez que escorre da imensa barba branca,
o doce poeta norte-americano Walt Whitman, confessadamente a maior admiração
de Neruda, ao lado de Baudelaire e Rimbaud.
(Quando ordenava a construção
da casa, um pedreiro perguntou ao poeta se o homem era o seu pai. Pablo
refletiu e concedeu: “Sim, é meu pai. Meu pai espiritual”).
Viajante desde a mocidade,
Dom Pablo pouco parou em Valparaíso, mas de lá nunca saiu.
Quando lhe tiraram o mandato
de senador e ele teve que fugir saltando os Andes, um tempo ficou escondido
na casa de um militante do partido comunista, no porto. E, ali, farejado
por uma centena de policiais, concluiu seu livro mais importante –
o Canto General.
O TERREMOTO
No “porto do fim do mundo”,
como em qualquer parte do Chile, todos têm uma lembrança
de algum terremoto. Ou mais de um. Assim descrito, pelo poeta:
“ O ruído rouco
que vem da profundeza como se uma cidade submarina e subterrânea
arrojasse seus campanários enterrados a dobrarem para dizerem ao
homem que tudo terminou”.
O terremoto e sua mão
marinha, o tsunami, descrito por Neruda no “Confesso que Vivi”:
“...quando tudo já
parecia definitivamente quieto na morte, saiu do mar como o espanto último
a grande onda, a imensa mão verde, que, alta e ameaçadora,
sobe com uma torre de vingança varrendo a vida que fica a seu alcance”.
La Sebastiana, triunfante em
suas janelas sobre o mar, jamais foi alcançada por maremoto, porque,
no alto, está além e acima da onda maligna.
Contudo, suas paredes nos três
andares guardam cicatrizes do grande terremoto de 1965. O poeta aqui chegou
três dias depois, para examinar gretas nas paredes, relógios
no chão, vidros estilhaçados, objetos raros reduzidos a
lixo.
Dá para ve-lo no meio
da cena: Matilde varre a casa , pesarosa, enquanto Neruda a custo acha
o papel onde convocar:
“Vamos, poema de amor,
levanta-te dentro os vidros partidos que chegou a hora de cantar.
Ajuda-me, poema de amor, a
restabelecer a integridade a cantar sobre a dor”.
Em 1973, poucos dias antes
de morrer, terremoto igual em violência se abateu sobre La Sebastiana.
Talvez pior. Os militares saquearam a casa, com a mesma fúria que
dispensaram à La Chascona, em Santiago.
Sabe-se que o Chile se protege
melhor dos terremotos naturais, do que desses emprenhados pelo ódio.
Há uma cultura sísmica
que ajuda a entender, com resignada e mansa certeza, que o terremoto,
o próximo, sempre virá. A Catedral de Santiago, também
ela, já caiu 3 vezes e o intervalo entre um e outro grande abalo
é de 15 anos, e já se passaram 20.
A energia concentrada abaixo
da terra, socada e pisada pelos altíssimos Andes, está madura,
pronta para submergir, e os chilenos aguardam. Aguardam serenamente.
Ninguém deve correr.
As crianças caminharão para o ponto de defesa previamente
ensaiado. A nova ferrovia de Santiago promete não desmoronar, porque,
suspensa, é feita sobre molas, montadas por engenheiros japoneses,
os melhores do mundo em enganar terremoto.
Se a terra sacudir de dia,
será melhor – pensamos todos.
Se balançar durante
a noite, Deus esteja!
Assim, não será
muito dizer que o Chile, toda noite, deita-se com o medo. E que o medo
evanesce ao amanhecer, para voltar mais tarde, com a noite.
O poeta Neruda, diz o garçon
do restaurante Marco Polo, na Plaza de Armas, está por todo o Chile.
“Agarraremos em sua poesia. E ele nos consolará com novos
versos”.
Em vida, Neruda foi um poeta
ao reverso. Não tinha existência torturada, era namorador,
sensual, glutão, viajante, procurador de aventuras e apreciador
dos gozos, do vinho. Não importa que certa medida de desventura
o tenha acompanhado do berço.
Sua mãe morreu de tuberculose,
dias depois que nasceu. (“Sem que me lembre, sem saber que a olhei
com meus olhos, morreu minha mãe, dona Rosa Basoalto”).
Casado pela primeira vez com
uma holandesa, no Oriente, teve com ela uma única filha, que nasceu
com problemas congênitos e morreu aos 8 anos, da mesma hidrocefalia.
Com Matilde, experimentou duas
vezes a esperança de ouvir o doce “papai”, mas as duas
se frustraram. E o poeta do Chile, nem assim, desistiu da alegria.
Que teve na chuva seu personagem inesquecível:
“A grande chuva austral
que cai como uma catarata do Pólo, desde o céu do Cabo de
Hornos até a fronteira. Nesta fronteira, o Far West de minha pátria,
nasci para a vida, para a terra, para a poesia e para a chuva”.
(Falta visitar a casa de Isla Negra./
Ao sul de Santiago, a menos de duas horas, o poeta corre e toca o sino
toda vez que uma navio cruza o mar./
Depois, deita-se junto ao mar./
De volta a Santiago,
o sentido choro de um menino na porta de um tribunal chama o pai, e pode
acordar o poeta).
|
| De:
Repórter 98 - Quarto e último despacho
|
Data:
2/4/2005 21:15
|
| Cidade:
Isla Negra - Santiago do Chile
|
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(Abaixo, as derradeiras
“anotações de viagem” do repórter 98
que foi ao Chile, e já volta, visitar as três casas do poeta
Pablo Neruda. Nos 3 primeiros despachos, viu e comentou os Andes e as
casas La Chascona e La Sebastiana. Neste último, vai a Isla Negra,
que mais do que qualquer outra casa retém a poesia de Dom Pablo.
Além de guardar o próprio poeta, infinitamente disposto
diante do Oceano Pacífico).
As fotos mostram: 1 - as sepulturas de Pablo e Matilde, na areia branca;
2 - o quarto do casal com janelas para o Pacífico; 2 - a barcarola
branca e os sinos que o poeta tocava toda vez que uma embarcação
cruzava o horizonte; 4 - o mar que Neruda via de sua cama.
Estas são as
últimas anotações enviadas do Chile sobre as três
casas do poeta Pablo Neruda.
O menino nascido em
1904, com o nome de Neftali Ricardo Reyes Basoalto. Nascido em Parral,
ao sul, e criado em Teumuco pelo pai ferroviário (de trem lastreiro)
que depois da morte da mãe se casou novamente e lhe deu irmão
e irmã.
Até aos 69
anos, quando morre, Neruda repetirá que a chuva é o personagem
inesquecível de sua vida –, a fria e duradoura chuva austral,
que dura 13 meses no ano de apenas 12.
A poesia o acometeu
cedo, quando aprendeu a escrever, e sentiu “uma vez uma intensa
emoção e tracei algumas palavras semi-rimadas, mas estranhas
a mim, diferentes da linguagem diária”.
O resto é sabido.
Neftali levou a primeira
“visita da inspiração” ao exame do pai, que
lhe perguntou: “de onde o copiaste ? ”.
A fria recepção
começou por matar Neftali e a fazer nascer Pablo Neruda, o nome
tcheco que buscou aleatoriamente para permitir que a poesia jorrasse sem
a censura paterna.
Os dias e noites da
Teumuco incrustada em região indígena, servida de belos
rios e de um oceano que só acaba no Oriente, são os definitivos
de sua poesia e de sua vida.
O mais que fez depois,
viajando quase sempre, foi revisitar o menino de Teumuco, que certa vez
conheceu “uma senhora alta, com vestidos muito compridos e sapatos
de saltos baixos”.
A nova diretora do
liceu de meninas - Gabriela Mistral, que, como ele, seria Prêmio
Nobel de Literatura, pergaminho que pode ser visto no claustro da Igreja
de S. Francisco, no centro de Santiago, a mais antiga igreja do Chile
e a que jamais tombou diante dos terremotos.
“EU ME VOU’
Por um trem noturno,
que consumiu a noite e depois o dia, o poeta chegou a Santiago aos 17
anos, para aprender francês. Seus melhores poemas viajaram juntos
na mala adolescente, prontos.
Na rua Maruri, hoje
pouco localizável na Santiago de 6 milhões de habitantes,
nas margens do rio Mapocho, Neruda anexa poemas de entardecer numa pensão
de estudantes e publica o primeiro livro - “Crepusculário”.
Nele, acima de todos,
salta Farewel, retirado da boca de um quase ou pós-menino:
“Fui teu e foste
minha. Serás do que te ame, do que colha no teu horto o que eu
plantei/ Eu me vou, estou triste; mas sempre estou triste/venho desde
os teus braços. Não sei aonde vou/ ... Desde teu coração
diz adeus um menino. E eu lhe digo adeus”.
Um ano depois, mal
entrado nos 20, repete a dose com os 20 Poemas de Amor e uma Canção
Desesperada, de onde retira-se para a carreira solo o poema 20, conhecido
e recitado por toda parte : “ Puedo escribir los vessos mais tristes
esta noche...”
Saído da mais
abandonada adolescência, firma-se o poeta, que em seguida vai correr
o Oriente e as “residências na Terra”, como adido diplomático
do Chile, em aventuras que saltarão de porto em porto, até
regressar e partir muitas vezes do Chile.
Senador aos quarenta
e poucos anos, será despojado do mandato e obrigado a fugir a cavalo
pelos Andes, “com quem não se brinca”. Ou forçado
a ir para a cadeia.
Um ano antes de morrer,
receberá a ovação final do Chile, reunido em novembro
de 1972 no Estádio Nacional; o mesmo estádio que 10 meses
depois se encherá de presos políticos, entre eles seus amigos.
O poeta já
era, desde 21 de outubro de 1971, Prêmio Nobel de Literatura. Viria
a ser embaixador na França. Tinha, porém, encontro marcado
com o último revés, no primeiro 11 de setembro das Américas,
em 1973, por ocasião do golpe contra Salvador Allende.
Morreria de câncer,
12 dias depois, e toda a glória reverenciada no mundo não
livraria 2 de suas 3 casas de serem saqueadas pelo Exército.
ISLA NEGRA
O mar, a fome, o vento,
o frio, a aventura, a neve, o rio, o bosque e o amor, sempre o amor, estão
no núcleo da poesia de dom Pablo, mas num degrau menor que a chuva
de Teumuco, que nunca acaba.
Assim recordando,
entremos nesta casa de Isla Negra, que nos abre a última porta
ao poeta. Ele está aqui. Seu corpo estendido diante da praia nimba
o Chile.
“Mergulhado
nessas lembranças, desperto subitamente com o ruído do mar.
Escrevo na Isla Negra, na costa, perto de Vakparaíso. Acalmaram-se
há pouco os grandes vendavais que açoitaram o litoral. O
oceano – que, mais do que eu o olho na minha janela, me olha a mim
com seus mil olhos de espuma – conserva ainda no marulhar a persistência
terrível da tempestade”.
As aspas do “Confesso
que Vivi” sinalizam a importância da casa de Isla Negra na
obra de Neruda.
O poeta vivia já
com a segunda mulher, a argentina Delia del Carril, 20 anos mais velha,
depois de separar-se da primeira, que lhe deu a filha morta de hidrocefalia
aos 8 anos.
Em 1939, depois da
guerra civil da Espanha, o casal comprou a casa em praia desabitada, sem
água potável e sem eletricidade, mas que lhe lembrava o
mar e portos da infância.
A habitação
precária se resumia a um corredor, um banheiro, cozinhas e dois
dormitórios. “E, pelo mesmo preço, um mar enorme que
não cabe nos seus olhos.”
Aos poucos, à
custa de livros, imprime a marca pessoal, estreando neste resumido terreno
costeiro o ritual das casas partidas em 3 núcleos, como fará
nas outras – ordenando “cabeça, coração
e estômago".
Estava decidido a
escrever aqui o seu Canto General. “A costa selvagem da Isla Negra,
com o tumultuoso movimento oceânico, permitia que eu me entregasse
com paixão à empresa de meu novo canto”.
DIAS ESTIVAIS
Era já o homem
feliz, como consentiu que o descrevessem, e como de fato foi, sem se deixar
torturar pelos próprios tristes versos.
Neruda troca os dias
estivais de Isla Negra pelos de inverno, de longe a estação
preferida de seus versos, “quando uma estranha floração
se veste com as chuvas e o frio, de verde e amarelo, de azul e purpúreo”.
É quando açoita
o vento sul a praia, com fúria, expelindo sal, espuma e as ondas
que viajam do pólo chileno. Assim, surge esta Isla Negra, sem ser
ilha e sem ser negra, mas com formidáveis estrondos de mar, substituta
criada do Puerto Saavedra dos olhos infantis.
A pátria dos
primeiros dias, a visão que impregnou os versos inaugurais, muito
se desfez, de fato, pelo terremoto de 1960. ‘Sempre suspenso como
uma espada de fogo”, o cataclismo “aniquilou” com suas
lembranças e levou até a casa de nascença, em Parral,
desfeita:
“Entrou o mar
que levou rolando as casas e as embarcações. Os molhes ficaram
retorcidos e desbaratados. Uma onda gigante açoitou as papoulas.
Tudo foi destruído neste ano de 1960. Tudo. Que minha poesia conserve
em sua taça a antiga primavera assassinada”.
O navegante estático
finca-se aqui em terra firme; o marujo imóvel instala-se para adorar
as ondas por elas mesmas.
Teme maremotos e marulhadas,
mas os busca, e ali os espera, especialmente quando “os invernos
transcorrem com um espaço povoado até o infinito pelo férreo
mar e pelas nuvens que o cobrem’.
Depois, reafirmaria:
“ - O mar me pareceu mais limpo do que a terra. Nele, não
vemos os crimes diabólicos das grandes cidade, nem a preparação
do genocídio. À beira-mar não chega o smog purulento,
nem se acumula a cinza dos cigarros defuntos. O mundo se oxigena junto
à higiene azul das ondas”.
(Mas, queixa-se: “a
única coisa que entra no inverno, no outono e também na
primavera são as gabelas, os fiscais, os avisos tributários,
as cutiladas do imposto”).
NA PONTA DO TROVÃO
Recomponho, e vejo.
Num desses violentos ribombos do Pacífico contra o jardim de Isla
Negra, certa vez temeram os amigos que a casa do poeta e ele mesmo tivessem
sido engolfados pelo mar. Foi quando daqui saiu, dias depois, o mensageiro
verso tranquilizador:
“Na ponta do
trovão andei/ recolhendo o sal no rosto/ e do oceano, na boca,
o coração de vendaval/ eu vi o estrondor até o zênite,/morder
o céu e cuspi-lo”.
Conhecer Isla Negra é viajar hora e meia ao sul pelos campos pastoris
de Santiago, por ótima estrada. Um importante porto de exportação
de cobre a antecede e não há como não ver dosada
pobreza pelos caminhos da costa.
A casa da poeta, que
a imaginação antes dispôs em alto penhasco, com o
mar em obediente servidão, fica à esquerda, depois da estrada
de asfalto, sem sinais de glória, no nível da praia.
É só
deixar o carro no acostamento e percorrer uma quadra em direção
a pouca areia e muito pedra que estancam o Pacífico Sul. Como as
casas vizinhas, a de Neruda tem o doce contorno de uma cerca de madeira
e seria como as outras não fosse a procissão de visitantes.
O primeiro núcleo
da casa é de madeira, simples, em dois andares. Aqui, estão
as estátuas de proa de Neruda, o equivalente transatlântico
de nossas carrancas fluviais; no segundo, a biblioteca e a alcova de Pablo
e Matilde, que a simplicidade das 4 janelas de vidro, com altura de um
homem, abre os aposentos ao mar. Completamente.
A 200 metros da arrebentação,
separado por pedras escuras, a cama de Pablo e Matilde flutua novamente
sobre o oceano e tem dele a visão completa, integral, visto até
os seus confins, com bordados brancos e rendas de altar espumantes.
Há fartura
de mar para os sonhos do capitão. Se uma embarcação
surge no horizonte, navegando para Valparaíso e para o porto do
fim do mundo, eis que o poeta deixa tudo e corre.
Corre para tocar os
sinos que instalou quase defronte, nos mastros em forma de estrela que
colecionam 6 deles, perto da âncora enterrada na areia e de uma
barcarola branca.
Abaixo do quarto,
fica o bar da casa e, nele, escritos pela mão do poeta os nomes
dos amigos que se foram. No lance seguinte, em direção ao
sul, a parte correspondente ao estômago, sempre em formas marítimas,
como um convés.
Por toda parte, mascarones,
barcos veleiros aprisionados em garrafas, coleções de caracóis,
de alaúdes, lunetas, retratos de pássaros, recuerdos, fotos
dos amigos, livros dos amigos, presentes dos amigos, poesia dos amigos.
Por fim, a última
escrivaninha, já chegando à porta do quintal e do mar, construída
com outro pranchão que o mar devolveu.
A meio caminho da
cerca que separa o quintal do oceano, no quadrado sem ênfase, entre
pequenos tufos verdes e botões cor de rosa, estão na areia
branca os corpos de Neruda e Matilde.
Seus nomes resumidos
– Pablo Neruda e Matilde Urrutia - escritos no mármore com
4 datas, de nascimento e morte, anunciam ao mar que o casal mais feliz
da recente poesia mundial ali permanece, lado a lado.
O poeta Walt Whitman,
pai espiritual e uma das admirações de Neruda, certa vez
escreveu:
“Se queres ver-me
novamente, procura-me sob teus pés.
Dificilmente saberás quem sou ou o que significo;
Não obstante serei para ti boa saúde
E filtrarei e comporei teu sangue.
E se não conseguires encontrar-me, não desanimes;
O que não está numa parte esta noutra
Em algum lugar estarei a tua espera.”
(Antes de transferir
este relato pela Internet, já de volta a Santiago do Chile, uma
cena: o repórter 98 e seu amigo Landulpho Silveira, de Poços
de Caldas, diretor da TV Libertas de Pouso Alegre, passam diante do Tribunal
Criminal.
É um prédio
solene, próximo de outros, diante do Senado Chileno, ao lado do
belíssimo palácio da Chancelaria, logo adiante das ruínas
do antigo prédio do jornal El Mercúrio, arrasado pelo terremoto
de 85.
Os carabinéri
do Chile manobram um furgão verde, entrando de ré pela garagem.
Os guardas empunham metralhadoras.
Um grito de menino,
de 10 ou 12 anos, paralisa a manhã.
Supõe-se que
seja filho de um prisioneiro que está sendo desembarcado pelos
fundos. Como as mulheres e alguns homens, como as outras crianças
do grupo, o menino se joga no chão e cola o rosto no asfalto, desesperado.
Quer ver alguma coisa,
grita um nome, e o repete, aflito:
- Hijo!, Hijo!, Hijo”...
Supõe-se que
veja ao menos uma calça, ou uma perna, e do outro lado, responde
a voz de homem, rápida. O segundo grito do menino, agora contido
pela mãe, é ainda mais lancinante, doloroso.
Sugere a voz da rua
que o pai talvez seja ladrão, homicida, o que for.
O novo grito que percorre
e fere o azul da manhã é vasto, escala os Andes, e quem
sabe pode chegar ao poeta em Isla Negra.
Como explicar a um
filho de 10 anos, que estremecidamente ama o pai, que o pai é ladrão
e que assim condenado o amor entre eles deve cessar, ser amputado, destroçado
e arrancado, se revogado já não pode ser ? )
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Lourdes,
o amor mineiro de Lula

Lourdes, o amor mineiro
de Lula que não foi à posse
CASAMENTO de Lula e Lourdes. A família de Lourdes,
Lambari e dona Hermínia, de volta a Morro Agudo (Foto e reprodução
Leo Drumond)
Paulo Narciso
Especial para o HOJE EM DIA
O diálogo foi curto:
- O senhor é o senhor Luiz?
- Sou.
- O senhor precisa ser forte para ouvir o que vou lhe dizer. Seu filho
nasceu morto.
- Eu já sabia. O médico me explicou, ontem.
- O senhor precisa ser mais forte ainda, porque sua mulher também
morreu.
O senhor Luiz, de 25 anos, acabava de receber a pior notícia de
sua vida. Ele fez vômitos, encostou a cabeça na parede e,
assim, com ela fixa, rodou o corpo pelo longo corredor. Era manhã
da segunda-feira, 7 de junho de 1971, no Hospital Modelo - um dos maiores
de São Paulo. Além do médico, apenas uma pessoa presenciou
a cena. O amigo Lambari, um ano mais novo, irmão da moça
que morreu, tio do menino que deveria ter nascido vivo.
Além de cunhados, eram amigos. Muito amigos. O maço de cigarro
que fumavam era comprado em sociedade; as roupas que vestiam eram muitas
vezes as mesmas, revezadas. Para enfrentar as enchentes que ilhavam suas
casas contíguas dos "bailinhos" da vizinhança
pobre, eles empinavam e equilibravam o paletó e a calça
numa vassoura, e venciam o obstáculo com água no pescoço.
Lambari, nome recebido no pátio da fábrica, segue o mesmo
Lambari, torneiro-mecânico que a crise econômica expulsou
do pequeno comércio de carros usados em São Bernardo do
Campo. Mora com a mãe, na mesma casa de "meia-água",
de 5 metros de frente, no mesmo bairro operário onde o outro namorou,
noivou e casou.
O outro, seu cunhado, é o presidente da República, Luiz
Inácio Lula da Silva, o "Taturana". Um é o "Peão";
o outro, será sempre o "Magrelo". Assim se tratam. A
história que juntou os dois e a família dos dois é
uma intrigante sucessão de coincidências e semelhanças.
Ambos operários, ambos retirantes da seca, ambos filhos de mães
carismáticas, mas integralmente analfabetas e de extraordinária
presença na vida dos filhos, contrastando com a pouca influência
dos pais.
O presidente saiu do sertão de Pernambuco, com 7 anos, num caminhão
"pau-de-arara", com mãe, sete irmãos e parentes,
sem o pai, que havia engravidado uma prima de 15 anos, da mãe,
e já estava em São Paulo. O amigo e cunhado, com 6 anos,
fugia da mesma seca de 1952, com a mãe, o pai eternamente doente
e três irmãos e tios, entre eles a menina de 3 anos que seria
a primeira esposa de Lula.
Fugiram na "maria-fumaça", a locomotiva a lenha que puxava
o trem dos retirantes, ou "trem do sertão". Levaram dez
dias até São Paulo, três a menos que o "pau-de-arara"
que conduzia a família do noivo. Vinham de Minas Gerais, do Norte
de Minas, da zona rural de Montes Claros. Vinham, trazidos pelo destino,
ser o braço mineiro da família do operário que chegaria
à Presidência da República.
Vizinhos no bairro humilde, em mais de um bairro humilde, sócios
no cigarro, companheiros no desemprego, ouvintes da mesma pior notícia
de suas vidas, sabem tudo da juventude um do outro. São confidentes.
Mas sabem também que estão privados, nos últimos
anos, neste ano e nos próximos anos, de levarem as flores que durante
três anos Lula depositou no túmulo da mulher e do filho,
todo domingo, no cemitério da Paulicéia, bairro de São
Bernardo. E sofrem. Reservadamente sofrem.
Quando o hoje presidente da República perdeu a mulher e o primeiro
filho, em 7 de junho de 1971, sua condição de operário
em início de carreira, a mesma de Lambari e de suas famílias,
não permitiu que eles comprassem a sepultura perpétua. Nivelado
à situação de milhares de brasileiros, o agora mais
poderoso homem do país já não tem onde deixar suas
flores, individualizadas. Depois de 5 anos, os despojos de mãe
e filho foram retirados da cova rasa e se tornaram anônimos como
os outros Silva - no ossuário da Paulicéia.
Na sexta-feira da última semana, dia 20 de junho, enquanto o presidente
dos Estados Unidos recebia o seu colega brasileiro na Casa Branca, Lambari,
de 56 anos, e sua mãe e primeira sogra de Lula, dona Hermínia
Soares de Andrade, voltavam pela primeira vez - depois de 50 anos - à
casa de adobe que abandonaram em 1952, no Morro Agudo, a 48 quilômetros
de Montes Claros.
Ao contrário daqueles dias, a seca ainda não se impôs;
a casa tomada pelo mato na encosta está quase no chão, mas,
deixada só, resiste; o riacho que descia da serra e esculpia na
pedra secou, e todos perguntam pelos passarinhos, que contra o costume
não vieram se apresentar aos antigos moradores.
Apenas o canteiro de manjericão avisa que ali, um dia, existiu
vida, e que crianças brincavam como crianças. Depois, veio
a seca, e elas se foram.
Unidos pela seca...
Lula, até hoje, está convencido de que as
mortes de sua primeira mulher e do filho foram causadas por negligência.
Em depoimentos a Denise Paraná, na biografia autorizada "Lula,
o Filho do Brasil", ele revela a revolta de sua convicção:
"A Lourdes tinha ficado grávida e, no sétimo mês
da gravidez, ela pegou hepatite. Ninguém me tira da cabeça
que ela morreu por negligência da rede hospitalar do Brasil, por
problemas de relaxamento médico. Porque ela estava com anemia profunda
e uma hepatite crônica. Ela poderia ter sido melhor tratada. Morreu
sem que houvesse nenhuma assistência para ela. Eu fui ao hospital
e vi. Ela gritava, ela gritava, ela gritava. Não tinha um médico
para atender, não tinha ninguém. Sinceramente, eu tenho
muitas restrições a esses médicos que estavam no
hospital. Hoje, eu tenho consciência de quanto um desgraçado
de um pobre passa nos hospitais".
Fugitivos da mesma seca de 1952 nos sertões de Pernambuco e de
Montes Claros, a 3 mil quilômetros de distância entre si,
Lula com 7 anos, Lourdes com 3, os dois se encontraram em São Paulo
já mocinhos, vizinhos de uma casa de parede-meia no bairro operário
da Ponte Preta.
Abandonada pelo marido quando estava grávida de Lula, já
nos dias de nascer, dona Lindu recebeu carta do segundo filho mais velho,
Jaime, que a chamava para São Paulo, supostamente a pedido do marido.
O penúltimo dos filhos e caçula dos homens, Lula, havia
escapado de morrer aos 4 anos, quando uma jumenta o ergueu pela boca,
numa mordida, e só o largou depois de receber uma punhalada no
pescoço.
Sem recursos para sustentar os filhos, dona Lindu vendeu as terras secas
por 13 mil cruzeiros, vendeu o relógio, vendeu o jumento, vendeu
os santos e as fotografias de família, e tomou o "pau-de-arara"
com sete filhos, um irmão, cunhada e sobrinho. Deixou apenas o
cachorro, que, aos cuidados de um tio, parou de comer e morreu de saudade
dos meninos. Enquanto esperava o caminhão "pau-de-arara",
que atrasou, ela colocou os filhos num quartinho na bodega do Tozinho,
e fechou a porta, para que o cachorro "Lobo" não visse
os meninos e os meninos não vissem o cachorro. Dona Lindu estava
determinada: "Vamos embora, ou bem ou mal, para morrer de fome, nós
morremos em São Paulo".
A viagem até o marido e o segundo filho, em Santos, durou exatos
13 dias e 13 noites, de 10 a 23 de dezembro de 1952. Lula - que nunca
havia saído de Vargem Comprida - viajou com uma única camisa.
Ela chegou podre a São Paulo. O percurso foi feito todo na terra;
havia poucos ônibus e os raros postos de gasolina não dispunham
de banheiros. O motorista do "pau-de-arara" era quem punha ordem
na hora das "necessidades" e disciplinava no meio do mato: "homens
para um lado, mulheres para o outro". Lula descreve o "pau-de-arara":
- É uma tábua atravessada na carroceria do caminhão.
Não tem nem encosto atrás. Não é um banquinho
de madeira. É uma tábua grudada na carroceria. Você
senta e não tem encosto. A gente pode cair. Tinha umas 30, 40 pessoas
dentro do caminhão. A gente dormia na calçada. Se esticava
e começava a dormir ali. Às vezes, com um cobertorzinho.
E, de repente, a gente acordava embaixo da chuva e tinha de correr para
debaixo do caminhão. Não cabia todo mundo. Ficava todo mundo
amontoado debaixo do caminhão.
Ainda na saída de Pernambuco, numa noitinha, bateram na lataria
da boléia, indicando que alguém estava com "precisão".
O caminhão parou no meio do mato e Lula e o irmão "Frei
Chico", três anos mais velho, que vinham sentados no banco
de trás com as pernas de fora, foram os primeiros a saltar. Mas,
estava escuro, acharam o lugar perigoso, e o motorista arrancou com o
caminhão. Lula e o irmão, deixados para trás, gritavam,
correndo: "pára, pára, pára", enquanto
dona Lindu se desesperava na carroceria com os outros cinco filhos.
Na viagem, quase se cruzam em Minas
Quando entraram em Minas, os retirantes desceram pelo
Leste, em direção a Teófilo Otoni e Governador Valadares,
quando poderiam ter seguido pela rota de Montes Claros, muito usada pelos
retirantes nordestinos, especialmente pelos que vinham pelas "gaiolas"
do Rio São Francisco até Pirapora. "Frei Chico",
que se declara ateu apesar do "frei" no apelido, diz que o caminhão
viajava com a lona abaixada e que se lembra apenas da cidade de Vassouras,
no Rio. Ele tinha 10 anos.
Se tivessem passado por Montes Claros, poderiam ter cruzado com uma camioneta
que, no mesmo mês, do mesmo ano, levava os retirantes Lourdes e
sua família para a estação da Central do Brasil,
onde tomaram o "trem baiano" para São Paulo.
O pai de Lula era estivador no Porto de Santos e se surpreendeu com a
chegada da primeira família, naquela véspera de Natal. Com
a prima de dona Lindu, ele já tinha filhos de 6 e 7 anos e a primeira
coisa que perguntou, ao ver a família que não esperava,
foi pelo cachorro "Lobo", que havia ficado no Sertão.
"Cadê o cachorro?". Lula lamenta: "Na verdade, meu
pai estava pouco interessado que minha mãe viesse para cá,
porque ele queria viver a vidinha dele com a mulher que ele tinha aqui,
que era uma prima de minha mãe. Meu pai tinha saído de Pernambuco
com essa prima, ela tinha desaparecido, mas ninguém tinha feito
a relação entre o desaparecimento dela e a vinda do meu
pai. E meu irmão, na carta, não conta essa história
para minha mãe, só diz que meu pai queria que ela viesse
para cá".
O estivador Aristides, carregador de sacos de café, bem ou mal,
acolhe a primeira família, transfere a segunda mulher para outra
casa e os aloja na casa principal. Ficava dois dias numa casa, dois dias
na outra. Acabou pai de 18 filhos, oito com dona Lindu, fora os quatro
que morreram, e dez com a prima dona "Mocinha". Os filhos, todos
os filhos, não têm boas lembranças dele, e Lula chega
a dizer nas suas memórias que o pai "cuidava mais dos cachorros
que dos filhos".
De Montes Claros, a moça chega a Lula
Tempos depois, quando ganhou uma "mangueirada"
na cabeça, dona Lindu resolve, agora por iniciativa dela, deixar
o marido, cansada dos maus-tratos contra ela e os filhos. "E aí,
para nós foi ótimo. Nós ficamos em liberdade? A gente
passou a viver melhor. Era uma pobreza com liberdade. Então, a
separação dos meus pais, no fundo, no fundo, foi uma grande
liberdade" comemorou Lula, que quase só podia trabalhar, pois
era proibido de estudar pelo pai "analfabeto" que adorava comprar
jornais quando andava de barco, "lendo" jornal muitas vezes
de cabeça para baixo.
Os três irmãos mais velhos já trabalhavam, e Lula
e "Frei Chico" vendiam laranja, tapioca e amendoim, pelas ruas
de Santos, além de carregarem feixes de lenha. O que se tornaria
presidente da República se lembra de que todos gozavam do seu pescoço
curto: "Eu era assim de tanto carregar lenha".
Aos 10 anos, Lula vai com a mãe e os irmãos para São
Paulo. Eles mudaram para um barraco, que "era tão barraco,
que um dia despencou". Algumas das irmãs já trabalhavam
como empregadas domésticas e toda a mudança se resumia "numa
tina e uma lata de leite Mococa, para guardar o pão e uma faca".
Era a mobília das l2, 13 pessoas que moravam juntas.
Engraxate, tintureiro, telefonista, Lula ia trocando de emprego conforme
mudava de endereços, mas servido de uma calça só,
que a mãe lavava aos domingos. O sonho era ser motorista de caminhão,
mas este dia não chegava. "Foi um período muito ruim.
Muita miséria. Mas eu era um moleque feliz. Porque a gente era
pobre, mas a gente tinha um mundo à nossa disposição".
Na Vila Carioca, em mais de um endereço diferente, ele consegue
entrar para o Senai, "no melhor período da minha infância".
Toma o primeiro "fogo" da vida, um porre de vinho e cerveja,
e começa a trabalhar na Fábrica de Parafusos Marte e, depois,
na Fábrica Independência. Aqui, como torneiro-mecânico
trabalhando à noite, o braço da prensa "fechou"
e esmagou o dedo menor da sua mão esquerda. Com a indenização
de 350 mil cruzeiros, Lula comprou móveis para a mãe e um
terreninho. Mais: o dedo esmagado, envolto em curativos, despertaria dó
em Maria de Lourdes, que logo se tornaria vizinha. Era o encontro da moça
de Montes Claros com o rapazinho de Vargem Comprida, em São Paulo,
uma cidade já com milhões de habitantes.
E Lula vai encontrar Lambari
Era l965. Lula foi com a família morar na Ponte
Preta, na Vila São José, divisa de São Caetano e
São Paulo. Ele estava com um dedo a menos na mão esquerda,
desempregado e "tinha muita miséria em casa". Mas, uma
miséria significativamente menor. A família já possuía
um fogão de duas bocas e muitos catres velhos. "Eu e o meu
irmão colocamos o fogão bem no alto e nós íamos
com muito orgulho em cima do caminhão. Afinal de contas, a gente
já tinha um fogão".
O seu plano de vida estava definido: "Tudo o que eu queria era o
que todo mundo quer - ter uma vida tranqüila, ganhar meu salário.
Queria casar e constituir minha família sem nenhuma ilusão".
Com 20 anos, nada sugeria o futuro líder de massas, bom orador,
desinibido, convincente. Ao contrário, era tímido, trancado
mesmo, pouco saliente, pouco "saído" - resumia sua mãe.
Queria só ter casa, mulher e filhos. Para isso, o destino havia
feito sua parte.
Ao lado da casa, depois da parede vizinha, morava Maria de Lourdes, com
pai, mãe e três irmãos. Os retirantes de Montes Claros
haviam dado a volta pelo mundo, no interior de São Paulo, e também
acabavam de chegar, ali. Todos se tornaram amigos. Lambari, o melhor de
todos. O amigo da juventude.
Mas, havia enchentes. A água do ribeirão teimoso vinha pela
janela, misturada com a dos vasos sanitários, e acordava Lula quanto
atingia o colchão. Resolveram mudar de novo e foram para o Jardim
Patente. A família de Lourdes, com o mesmo problema, também
se mudou.
Lá, os amigos, "amigos mesmo", conhecidos de muitos anos,
companheiros de festas, de bailes, de enchentes, de desemprego, de infortúnio,
resolveram se namorar. Numa festa, Lula tomou três conhaques, criou
coragem e fez a proposta. Lambari ajudou no consentimento, mas não
ficou atrás. Passou a namorar a irmã de Lula mais nova,
Tiana, ou Ruth, conforme lhe chamavam pelo nome de batismo ou pelo do
registro civil.
Na festa, sanduíche e guaraná
Ruth, a irmã de Lula, tem a memória do clima:
"Nossa adolescência foi uma fase gostosa. Nós fizemos
uma amizade gostosa. Lula nunca foi de namorar. A primeira namorada dele
foi Lourdes. Tinha o Jacinto, que hoje a gente chama de Lambari, tinha
o Toninho e o Zezinho. Tinha os bailinhos em casa de família, domingo
à tarde. Tocava Ray Coniff, Carlos Alberto, Roberto Carlos. A gente
bebia refrigerante".
Maria de Lourdes, - "a morena de cabelos compridos, muito bonita,
conservadora, sem nenhuma formação política, muito
trabalhadora", segundo Lula, já era tecelã. Seus patrões
a aconselharam e ela repetiu a Lula que ele não deveria se envolver
com sindicatos. Ele tomou posse como diretor sindicalista em 24 de abril
de 1969 e se casou no dia 25 de maio.
A festa foi na casa da irmã Ruth, na Paulicéia, com batatinha,
pão, sanduíche, bolo e guaraná. Com as economias,
compraram casa na rua que tinha quatro nomes, à medida que se encurvava.
Sogros e cunhados moravam na Rua Verão e Lula e Lourdes, na Rua
Outono. A casa tinha dois quartos, sala e cozinha, logo reformada para
receber o primeiro filho. A gravidez transcorria tranqüila, até
que, no oitavo mês, Maria de Lourdes apareceu muito pálida,
com os olhos amarelos.
Nas suas memórias, Lula descreve: "Foi nesta casa que eu fiquei
viúvo. Eu lembro que eu fui visitar ela num domingo. Ela estava
numa situação deplorável no hospital, com um monte
de gente no quarto. Ela gritava, eu fui chamar a enfermeira, a enfermeira
não quis atender. Na segunda feira, eu fui levar a roupinha da
criança. Cheguei lá e ela estava morta. Meu filho estava
morto. Isso marcou muito a minha vida. Como morreu a Lourdes, morrem milhões
de pessoas por aí nesse país sem ter o menor tratamento
médico. Nós tínhamos planejado um filho, a gente
queria ter um filho".
O velório de mãe e filho foi na Rua Outono. O piso de tábua
corrida afundou com o peso de tanta gente. Lula descreve o estado em que
ficou:"Eu fiquei muito tempo meio bobão. Eu ia no cemitério
todo domingo, eu levava flores para colocar no túmulo dela. Eu,
às vezes, ia sair de noite para qualquer lugar, mas quando eu ouvia
música....não agüentava... e voltava para casa. Eu
não tinha mais vontade de sair. Eu fiquei três anos e meio
deprimido. Eu fiquei muito tempo meio borocoxô. Eu perdi o sentido
da vida. Não tinha mais vontade de nada. Eu passei três anos
sem namorar".
De Minas, um amor e um amigo
Enquanto o caminhão "pau-de-arara" conduzindo
Lula descia de Vargem Comprida, hoje Caetés, , uma outra família
deixava o Norte de Minas. O lavrador Manoel de Bitu, irmão do padrasto
de dona Hermínia, morava em Ibitinga, interior paulista, e queria
que eles fossem para lá. O pai de Lourdes, João Evangelista,
havia lançado sementes na encosta pedregosa do Morro Agudo, em
plena estação das águas, mas a roça de milho
e feijão não brotou. Era a seca, na época das chuvas,
a pior.
A mãe de dona Hermínia, casada pela segunda vez, havia morrido
de parto, junto com a criança. Brasinho, mulato forte muito afeiçoado
à menina Lourdes, de 3 anos, então lidera os retirantes
em direção ao seu irmão, na cultura de algodão,
na fazenda paulista. Venderam dois porcos, dois cavalos e galinha e seguiram:
Brasinho, dona Hermínia, com 22 anos, o marido Evangelista, o irmão
dela, Mané Codorna e os quatro filhos do casal - Toninho, de 8
anos, Jacinto (Lambari) de 6, Lourdes, de 3, e Zezinho, de apenas 8 meses.
Os 48 quilômetros de Morro Agudo à estação
da Central do Brasil em Montes Claros foram vencidos numa camioneta. Duro
foi esperar o trem "maria-fumaça", arranchados na calçada
da Praça da Estação, com centenas de outros retirantes.
Depois de dias de espera, quando fazia uma caçarolada de abóbora,
o apito estridente convocou os retirantes, a abóbora foi atirada
no saco de farinha, e todos se precipitaram no vagão de segunda
e última classe.
A rotina nos dez dias seguintes até São Paulo, de baldeação
em baldeação, é a epopéia de todo retirante
que o "trem do sertão" levou e trouxe de São Paulo,
sempre cheio, sempre melancólico, sempre carregado mais de saudades
do que de apinhados passageiros.
Lances dramáticos não faltaram àquela caravana de
mineiros. Toninho e Jacinto (Lambari) arrancaram algum dinheiro dos menos
infelizes com as vozes infantis, de 8 e 6 anos, que cantavam, e suavizavam,
com a música sertaneja, o drama reprisado de outros. (Lambari,
até hoje, canta música sertaneja, toda sexta-feira, no restaurante | |