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montesclaros.com - Ano 23 - sexta-feira, 9 de junho de 2023

 

PREFCIO

  Ruth Tupinamb Graa

Montes Claros era Assim... um passeio por esta cidade do meu passado. Um passado cheio de saudades, daquela terra de gente simples, sem luxo, preocupada apenas em viver, progredir, sem contudo prejudicar algum uma comunidade pequena, pouco civilizada, mas alegre como uma s famlia de mineiros...

 

Sua histria comeou assim :

  Muitos anos se passaram desde que um grande bandeirante e desbravador do serto, Antonio Gonalves Figueira, se transformou em colonizador, ao receber uma sesmaria

(com trs lguas de comprimento e lgua e meia de largura) como prmio dos servios prestados ao Governador Geral.

  Chegando Figueira s margens do Rio Verde, vendo a fertilidade das terras, pastagens nativas, onde at o sal gratuito aparecia nas baixadas salobras dos barreiros, sentiu que era ali o lugar ideal para fazer fortuna. No s com o ouro e pedras preciosas, que era o sonho dos bandeirantes, mas com a agricultura e principalmente pecuria, que at hoje o expoente mximo da economia desta regio.

  Ali ele plantou a Fazenda dos Montes Claros.

  Mais tarde, visando alcanar melhores preos para o seu gado, Figueira sentiu a necessidade de abrir estradas, desbravando extensas matas, ligando-se Tronqueira, na Bahia, e tambm ao So Francisco, mantendo grande comunicao e comrcio com amigos, parentes e outros fazendeiros mais antigos.

Atravs desta comunicao a notcia da Fazenda dos Montes Claros corria, e a vinda de ndios acuados, negros foragidos, companheiros expulsos de outras minas, a regio foi se povoando, e medida que sua ambio e os negcios cresciam, multiplicavam-se cada vez mais os currais de gado e os pontos estratgicos para negcios, prolongando-se a linha Montes Claros ao Rio das Velhas, ligando-se a Sabar e ainda ao Serro e Pitangui.

  Tudo isto era feito com grande sacrifcio, esforo e bravura, prprios de um bandeirante, com seu esprito audacioso e aventureiro.

  Sempre ambicioso Figueira j se comunicava com vrias cidades mineiras, levando a carne para alimentao das minas, tornando essa Regio o maior centro comercial de gado. Durante anos Figueira trabalhou como um bravo conquistador, acumulando fortuna e desenvolvendo comrcio desta regio que se tornara conhecida e cobiada por fazendeiros de So Paulo e Bahia, que por aqui passavam.

  Um dia, Figueira, j velho e cansado, quis rever sua terra natal e vendendo suas terras e bens ao Alferes Jos Lopes de Carvalho, retornou a So Paulo, onde residia sua famlia.

  Com o novo proprietrio, nova vida surgiu na Fazenda dos Montes Claros.

  Nesta altura o Figueira j havia transferido a sede da fazenda para as margens do Rio Vieira (nas imediaes onde hoje a Escola Normal Prof.Plnio Ribeiro) por causa das febres palustres das margens do Rio Verde. A sede antiga j estava danificada - assim como os currais - e Jos Lopes resolveu transferi-la para um lugar mais aprazvel, na mesma margem do Vieira, bem mais abaixo, tendo frente da sua residncia, a uns duzentos metros, uma bonita lagoa que muito embelezava a nova sede. Esta lagoa, com o tempo, desapareceu.

Era no local onde hoje a Praa de Esportes e a casa do Alferes Jos Lopes de Carvalho foi a primeira casa construda em Montes Claros no local onde o incio da Rua Dona Eva, demolida h alguns anos, para tristeza nossa.

  Jos Lopes era muito catlico e sentindo a necessidade de uma Capela para sua famlia e os moradores dos arredores assistirem os sacramentos (missas, batizados, casamentos, etc.), uma vez que a Capela mais prxima era em Bocaiva (a dez lguas), fez uma proposta. Com a promessa de doar um bom patrimnio para a referida parquia (lgua e meia de terra de comprimento, uma lgua de largura e mais cinqenta novilhas ferradas), conseguiu a licena do Visitador Geral de Jurisdies e Dispensas (serto de Minas Novas de Araua) Revm Sr.Dr. Silvestre Silva Carvalho. Tudo legalmente resolvido - escritura passada - e Jos Lopes , de posse da autorizao, mandou construir a Capela, em frente sua casa.

  Com a Graa de Deus, o esforo de Jos Lopes e as vantagens do patrimnio da nova Capela, os fazendeiros da vizinhana comearam a construir suas casas sua volta e aos domingos vinham com suas famlias fazer compras, bater papo com os amigos, saber os boatos e notcias da provncia e, mensalmente, receber os santos sacramentos da missa, pagar alguma promessa e, atendendo a amizade dos compadres, levar pia batismal os afilhados e, ao altar, os casais enamorados.

A populao foi crescendo assustadoramente, apareceram casas melhores, os primeiros sobrados, dos fazendeiros mais ricos e mais civilizados, vendas e lojas foram surgindo, tudo em volta da Capela, formando assim um Grande Largo (onde hoje a Praa Dr.Chaves). Este povoado passou a se chamar Arraial de Montes Claros, das Formigas, tornando-se a, o mais forte ponto comercial de gado bovino, cavalos, salitre, couros, etc.

  A notcia da riqueza do solo desta regio atraiu muitos fazendeiros, de vrias regies e, fazendas de criao de gado, enormes, se localizaram aqui nos arredores do Arraial das Formigas e a cultura do feijo, milho, algodo, mamona, j se fazia em grande escala crescendo os negcios e a populao.

  Comunicao escassa, longe da civilizao, o lombo do burro (com sus interminveis tropas) era a via de comunicao e transporte, tambm os carros de boi transitavam, dificilmente, nas pssimas estradas, esburacadas, desprovidas das tcnicas de engenharia, onde os tocos persistiam em atravancar e deslizar das pesadas rodas de madeira nas curvas estreitas e mal delineadas, num arroubo de coragem e persistncia do homem do serto.

  E assim este Arraial tornou-se conhecido e respeitado, e sessenta e dois anos depois, pela lei de 3 de outubro de 1831 foi elevado a Vila de Montes Claros das Formigas.

  Um ano depois, ao som do repicar alegre do sino da Capela de Nossa Senhora e So Jos e uma salva de vinte e um tiros, aps uma missa solene, tomava posse o primeiro Presidente da Cmara, eleito naquela vila, o Coronel Jos Pinheiro Neves que, naquela manh festiva de 16 de outubro de 1832, entrava na Cmara Municipal acompanhado pelos vereadores.

  Todas a Vila vibrava com o acontecimento to importante e o Largo da Igreja estava cheio de fisionomias alegres que aguardavam este momento. Aps os discursos de praxe, juramento de cumprimento do dever de cidado e Presidente da Cmara, foi servido bebidas a todos os presentes, ali mesmo no Largo, pois a casa da Cmara era minscula.

 

noite, houve animadssimo baile na residncia do Presidente, onde hoje o Palcio Episcopal.

  A Vila ia de vento em popa e quando a 3/07/1857 pela lei n 812 foi elevada categoria de cidade Cidade de Montes Claros - a Vila j desfrutava de todas as regalias de cidade propriamente dita.

 

A populao aumentara, possua cartrios, escolas, muitas casas comerciais, vrias ruas se abriram na parte de cima, inclusive um outro Largo que hoje a Praa Dr.Carlos, e se chamava Largo de Cima, e a cidade crescia.

  Enfim Montes Claros, esta gema maravilhosa dormiu tranqilamente durante anos, com toda beleza e riquezas naturais, nas entranhas deste serto mineiro, esquecida dos favores de nosso governo.

  A vida desta cidade era to simples como sua prpria gente, onde ricos e pobres se misturavam, sem preconceitos de raa e de cor...Ela j se libertara em poltica e na administrao, mas continuava sem estradas de rodagem, sem esperana de ferrovias, sem luz e energia que muito atravancavam o seu progresso. Nem por isto ela deixava de crescer e sua populao, como verdadeiras formigas, trabalhava incansavelmente, dia e noite, com a f do sertanejo, certo de que dias melhores viriam para aquele formigueiro humano.

  Em 1912 surgiram os lampies assentados em pequenos postes de candeia, protegidos contra chuva e vento, com iluminao de azeite, iniciativa da Cmara Municipal, e s na parte comercial, dando muito trabalho e pouco resultado.

  A populao continuava aflita e sem liberdade para transitar nas ruas, noite.

O Coronel Francisco Ribeiro dos Santos idealizou dotar Montes Claros de luz eltrica com a energia do Cedro. Foi uma tarefa difcil e rdua, uma vez que nossa terra no possua estrada isolada no interior de Minas.

E a 20 de janeiro de 1917, s vinte horas, uma luz forte e brilhante, fazendo inveja presunosa lua, clareava nossa cidade.

  A alegria se apossou de toda a populao que se aglomerava em frente Cmara Municipal.

  Os vivas, palmas, repicar de sinos e pipocar de foguetes se faziam ouvir com entusiasmo pela populao.

  A festa continuou com um grande baile, onde a fina flor da sociedade montes-clarense compareceu, levando o seu apoio e homenagem a este grande homem que dotara Montes Claros de uma luz que nos serviu durante muitos anos, apesar de todas as dificuldades que enfrentava numa cidade longe dos centros civilizados.

  Com sua morte, em 1923, o Coronel Lus Pires comprou de sua viva a usina do Cedro, continuando por muitos anos a fornecer luz populao, com muito dinamismo e eficincia, ao lado de sua esposa Dona Vidinha Pires, mulher de grande inteligncia, muito tino comercial, muita viso e que muito o auxiliou nesta grande tarefa de iluminar nossa cidade.

Em 1882, comeou nossa indstria, mais pelo arrojo dos nossos antepassados, a obstinao dos cometas e tropeiros, sendo todo o transporte feito em lombo de burros. A primeira fbrica instalada no Cedro (a uma lgua e meia da cidade), com a firma Rodrigues, Soares & Bitencourt Veloso.

  Em 1889 esta fbrica foi incendiada, sendo adquirida, mais tarde, pelo Coronel Joo Maia, Antonio Augusto Spyer e Jos Bonifcio. Os scios insatisfeitos venderam-na para a firma Cedro e Cachoeira . E, finalmente, foi comprada pelo Coronel Francisco Ribeiro dos Santos, de sociedade com o Coronel Joo Maia.

  Em pouco tempo, o Cel. Francisco Ribeiro adquiriu a parte do seu scio, tornando-se o nico proprietrio, at sua morte em 1923. Sua viva a vendeu a Jaime Rebello e Lus Pires.

Sempre amigos, dissolveram a sociedade sem constrangimento, ficando com toda a empresa o scio Lus Pires. A 7 de julho de 1914, homens de viso e grandes comerciantes inauguraram, Avenida Coronel Prates, a Fbrica de Tecidos (de algodo) pertencente Costa e Cia. (Joaquim Jos da Costa, Jos Antonio da Costa Jnior, Deputado Camilo Prates, Joo Catoni e Joo Ribeiro da Silva) que funcionou durante muito tempo, com sucesso total.

  Esta fbrica passou, mais tarde, s mos do Cel.Lus Pires e Francisco Ribeiro e depois s mos do Dr.Plnio Ribeiro (1950). Durante muito tempo somente a lua clareava, periodicamente, as ruas de Montes Claros.

  Enquanto vrios projetos de estradas de ferro, ligando esta cidade a vrios pontos do Estado, fracassavam, a Central do Brasil vinha chegando devagarzinho...

  Em Bocaiva a populao delirava, a sua estao ia ser inaugurada com a presena do Ministro da Viao, Dr.Francisco S, o grande mineiro e amigo de Montes Claros. Foi a nossa salvao e a nossa sorte. Chegando Bocaiva, atendendo o convite dos montes clarenses que o esperavam, com grande festa, veio at Montes Claros.

  Viu e gostou desta terra, que ficou tanto tempo esquecida pelos estadistas e reconhecendo o seu valor e a grande aspirao do seu povo, prometeu e cumpriu.

E num dia bonito de setembro de 1926 uma locomotiva apitava estridentemente e soltava baforadas de fumaa, anunciando que a Estrada de Ferro Central do Brasil estava chegando nossa terra. Foi um delrio total da populao a chegada deste grande ministro que nos trazia o progresso.Graas a ele, nossa Montes Claros teria mais transporte, melhor comunicao e maiores oportunidade, facilitando seu desenvolvimento scio-econmico.

  Foi uma nova etapa de progresso e a cidade crescia em todas as reas, mas ainda era pouco para aquela ente dinmica.

 

Faltavam-nos a gua canalizada e uma luz e energia eltrica que suprissem as necessidades da populao.

  Em 1938, no governo de Benedito Valadares e prefeito da nossa cidade Dr.Antonio Teixeira de Carvalho (Dr.Santos), foi inaugurado o servio de gua em Montes Claros. Foi um grande melhoramento, mas a cidade crescia e era escura. Em 1944, Dr.Benedito Valadares veio, pela segunda vez, nossa terra, inaugurando oficialmente a Central Hidreltrica de Santa Marta. O Dr.Cyro dos Anjos, chefe de seu gabinete, batalhou muito para esta realizao.

 

Foi ento que o Dr.Juscelino Kubitschek (entre 51 e 53) voltando os olhos para Montes Claros sentiu o problema, iniciando o servio para aproveitamento da queda dgua de Santa Marta, que no era o ideal mas deu algum resultado.

  A cidade crescia e a energia era pouca. O milagre maior veio em 15 de dezembro de 1959, criando a Superintendncia do Desenvolvimento do Nordeste SUDENE, pela lei 3.692, que abrangia 42 municpios do Norte de Minas, tudo em convergncia com a cidade de Montes Claros, que por sua situao privilegiada se tornou o plo de desenvolvimento da rea. A situao da cidade mudou e contando com a boa vontade da cpula governamental, foras polticas e elementos prestigiosos, com fora e coragem, conseguiram que em 1965, Montes Claros se ligasse ao sistema CEMIG (Centrais Eltricas de Minas Gerais) com o fornecimento da energia procedente de Trs Marias.

  Estava resolvido o nosso grande problema. Em julho de 1965 o escritrio da SUDENE foi instalado em Minas, sediado em Montes Claros, sendo o seu 1 Chefe o economista Dr. Mrio Peres Caldeira, montes-clarense e hoje, o seu atual chefe, em nossa cidade, o Dr.Marcelo Jos Martins Furtado de Souza. A exemplo do que ocorre em todas regies onde a SUDENE atua, o Norte de Minas tem experimentado, nos ltimos anos, indcios promissores de desenvolvimento. Em decorrncia, o homem dessa rea soube desfrutar o empenho governamental de todas as esferas. A rea mineira da SUDENE dispe hoje de crescente infra-estrutura econmico social e tornou-se o ponto de atrao de grandes investimentos. Em Montes Claros, os Distritos Industriais em plena expanso, e em outras cidades da regio, oferecem oportunidades para inmeras empresas, as quais trouxeram para nossa cidade um grande desenvolvimento scio-econmico.

  O progresso, propriamente dito, chegou em Montes Claros com a SUDENE. Com as indstrias aqui instaladas, milhares de empregos beneficiam a populao que cresceu 100 por cento contando a cidade com mais de 180 mil habitantes, mais de 30 projetos agro-pecurios e mais de 80 industriais.

Montes Claros hoje servida por grandes linhas areas e tambm estradas asfaltadas, tornando-se o grande plo de desenvolvimento desta regio norte mineira.

  No poderemos deixar de ressaltar o esforo do jornalista Jos Carlos de Lima, com a ajuda do Dr.Jos Bonifcio, os polticos montes-clarenses, os deputados Dr. Milton Prates, Dr.Plnio Ribeiro, Dr.Tefilo Pires, Dr.Jos Esteves Rodrigues, no sentido de resolver os problemas angustiantes de Montes Claros daquela poca.

  Hoje ningum mais segura o seu desenvolvimento e, como numa imploso, ela se explode e cresce assustadoramente em todos os sentidos : cultura, sade, pecuria, indstria, agricultura e urbanismo.

  com muita razo que no seu pout-pourri o povo canta :

 

Montes Claros, Montes Claros,

Terra de grande beleza

Comeou no Arraial de Formigas,

Transformou numa linda princesa.