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montesclaros.com - Ano 23 - sexta-feira, 9 de junho de 2023


Marcelo Eduardo Freitas    [email protected]
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Por Marcelo Eduardo Freitas - 12/12/2020 12:48:07
O PLURAL EXERCCIO DO AMOR: PRECISO AGRADECER!

* Marcelo Eduardo Freitas

O lder sul-africano, Nelson Mandela, Nobel da paz em 1994, dizia que "para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, elas podem ser ensinadas a amar".

Existem variadas formas de exercitar o amor.

Na ocasio em que o apstolo Paulo se encontrava em feso, ele escreve a sua primeira carta de aconselhamentos aos Corntios.

Paulo fala da excelncia da caridade, um amor puro, que excede e supera quase todas as outras coisas.

"O amor paciente, o amor bondoso. No inveja, no se vangloria, no se orgulha.
No maltrata, no procura seus interesses, no se ira facilmente, no guarda rancor.
O amor no se alegra com a injustia, mas se alegra com a verdade.
Tudo sofre, tudo cr, tudo espera, tudo suporta".

Ningum, por maior santidade que possua, detm o monoplio do amor. O amor plural! No se apresenta com frmula certa! No algo matemtico! No pode ser visto como uma receita de bolo, onde os ingredientes so previamente conhecidos, adicionados e misturados.

Repilo, com todas as foras de minha alma, aqueles que s veem um jeito de exercitar o amor. uma falta de maturidade. Ou melhor, uma falta de humanidade, particularmente por ignorar a prpria espcie.

Nos ltimos dias dos meses de novembro e incio desse ms de dezembro, alguns sabem, a minha me foi internada com Covid-19. Intubada por 11 dias, extubada, agora se recupera das sequelas causadas pelo mal. Foram dias de angstia!

Mas no vou me concentrar nas dificuldades. Quero ressaltar, nessa perorao, apenas e to somente o amor.

Retiro-me ao amor dos filhos. Uns presentes, outros nem tanto. Do amor fraternal. Do amor conjugal, tantas vezes mal visto, talvez pela forma rude com que meu pai aprendeu a exercit-lo. Do amor estampado na face invisvel das oraes. Foram tantas! Do amor dos mdicos pela sua profisso e seus pacientes, esse a maior razo dessa escrita.

Observei de perto, nas UTI`s Covid-19, o quanto os profissionais de sade como um todo, alm de externar o amor, tm amargurado a dor da perda de seus pacientes. Vi olhos lacrimejados, corpos arrepiados, vozes trmulas. Ouvi relatos terrveis de quem s queria a vida, mas se deparou, no raras vezes, com a inevitvel visita da morte. Doeu na alma! E a vida sucumbiu!

Por dever de lealdade, especialmente agora com o amor de minha me em casa, no poderia deixar de reconhecer, publicamente, o trabalho dos profissionais de sade de nossos hospitais, especialmente da SANTA CASA DE MONTES CLAROS e OTORRINO CENTER, sem que isso represente a excluso de qualquer outro estabelecimento de sade ou profissional vinculado a outros hospitais. Aqui no os nomino, para no cometer o pecado da injustia. So anjos sem asas! Espritos de luz!

O milagre do amor foi e est sendo exercitado todos os dias! Salva vidas! Leva alegrias! Amargura tristezas, perdas, frustraes! Mas se regozija com a cura, com a convalescena, com a vida.

Concluo essa loa s graas recebidas com as palavras de Vincius de Moraes: Chore, grite, ame Diga que valeu, que doeu, que daqui pra frente s vai melhorar Perdoe, insista, ame novamente No leve a vida to a srio Descomplique Quebre regras, perdoe rpido, beije lentamente Ame de verdade, ria descontroladamente e nunca lamente nada que tenha feito voc sorrir.

Pouco importam as religies. Agradecer, sempre ser a prece mais bela que existe! De corao, muito obrigado!

(*) Delegado de Polcia Federal, Professor da Academia Nacional de Polcia e Deputado Federal.


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Por Marcelo Eduardo Freitas - 27/11/2020 00:01:34
PERDA DE TEMPO, DESPERDCIO DE RECURSOS E AUSNCIA DE EFETIVIDADE!

O Supremo Tribunal Federal est desde o ms de abril desse ano buscando uma deciso sobre o depoimento presencial ou por escrito por parte do Presidente da Repblica.

Em uma simples petio, a Advocacia-Geral da Unio resolveu o "imbrglio": o Presidente abre mo do seu depoimento (modernamente visto como um meio de DEFESA), reservando-se no direito de no se manifestar.

Relembro que desde 2018 o mesmo STFproibiu a chamada "conduo coercitiva", quando o investigado ou ru era obrigado a depor.

Na ocasio, o prprio Ministro Celso de Mello assim se manifestou:

"Tenho para mim que se revela inadmissvel, sob perspectiva constitucional, a possibilidade de conduo coercitiva do investigado, suspeito, indiciado ou do ru, especialmente se se analisar a questo sob a gide da prpria garantia do devido processo penal, inclusive da prerrogativa contra a autoincriminao, que muito mais ampla do que o direito ao silencio (...) tanto quanto a presuno de inocncia."

Em resumo: a imprensa notcia com alarde algo que j est sedimentado e garantido a todos os investigados! Na minha vida funcional, nos ltimos 20 anos, me deparei com inmeras situaes idnticas! Clarssimo direito do investigado ou ru! Absolutamente nenhuma novidade! Assim como no novidade alguma a verborragia, o uso excessivo de expresses no compreensveis ao cidado comum e a lentido por parte do Supremo Tribunal Federal!

Pobre Brasil! Triste realidade vivida pelo povo brasileiro! Mesmo com toda essa pandemia, apesar de toda a crise econmica, ainda perdemos precioso tempo debatendo situaes que em absolutamente nada envolvem o mrito da investigao!

Com pesar, nas palavras de Rolando Lero, "SAMBARILOVE".

Marcelo Eduardo Freitas
Delegado de Polcia Federal/Deputado Federal


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Por Marcelo Eduardo Freitas - 26/12/2018 14:45:32
O FIM DAS SUCESSIVAS REELEIES NO LEGISLATIVO BRASILEIRO

* Marcelo Eduardo Freitas

De acordo com dados do TSE, dos 513 deputados que vo tomar posse no ano que vem, 251 foram reeleitos, o que equivale a 48,9% do total.

A Cmara dos Deputados, assim, vai iniciar um novo mandato em fevereiro de 2019 com a mais elevada taxa de renovao registrada desde as eleies de 1998. Pela primeira vez em duas dcadas, os deputados reeleitos representaro menos da metade das cadeiras da Casa, abrindo-se espao para um elevado nmero de novatos. No Senado, a renovao foi de 85%, com 30% de caras novas.

Em meio a um cenrio poltico e econmico desafiador, algumas iniciativas precisam ser discutidas com maior profundidade, carecendo de um acurado olhar social.

No Brasil, mostram-se gritantes os sinais de desconfiana e desaprovao popular em relao s instituies parlamentares dos trs nveis de governo. A insatisfao, no entanto, no tem resultado na discusso e aprovao de medidas concretas que tragam maior controle social sobre o desempenho dos parlamentares.

guisa de considerao, tolera-se amplamente o funcionamento pleno e regular do Legislativo em apenas trs dias da semana. A Constituio assegura nada menos do que trs meses de recesso das atividades parlamentares, durante os quais os parlamentares esto dispensados do comparecimento a sesses. Se o ano de eleio, tolera-se que votaes importantes para o pas sejam adiadas para permitir que os parlamentares acompanhem a campanha eleitoral em seus Estados.

Enquanto no se adotam medidas que intensifiquem o controle eleitoral dos polticos, por no se acreditar que ele produza os resultados esperados, a impacincia da sociedade com os casos extremos de desvios se exacerba, o que leva, por sua vez, escolha de pessoas no to preparadas para o exerccio da relevante funo, no j propalado voto de protesto.

Ao cuidar dos vereadores, deputados estaduais, distritais, federais e dos senadores, a nossa Constituio da Repblica fixou-lhes a durao dos mandatos em quatro anos para os primeiros e oito anos para os ltimos. Essa definio da durao dos mandatos vem desde a promulgao da primeira constituio republicana e foi mantida na Carta em vigor justamente por essa tradio. At hoje, no entanto, nada se falou sobre um termo s sucessivas reeleies legislativas.

Em face da sacralidade dos dispositivos constitucionais que tratam da durao dos mandatos parlamentares, representado pelo debate praticamente inexistente acerca desse tema, a despeito de sua relevncia para o funcionamento do sistema poltico, prope-se aqui uma discusso aberta sobre esse ponto em especfico, obviamente sem prejuzo de outros: o fim das contnuas reeleies nos parlamentos brasileiros.

Em um breve retrospecto sobre o assunto, observo que da anlise das atas das reunies da Subcomisso do Poder Legislativo da Assembleia Nacional Constituinte, constata-se que as discusses sobre a durao de mandatos foram praticamente inexistentes. A nica emenda sobre o assunto foi apresentada pelo ento Constituinte Magito Vilela. A emenda propunha a reduo do mandato de senador de oito para quatro anos. Realizada a votao, a proposta foi rejeitada por 309 votos contra 121, com 21 abstenes.

No se olvida da existncia de pases desenvolvidos, notadamente europeus, com estendida durao dos mandatos legislativos, sem tantos vcios como se observa em terras tupiniquins. Uma provvel explicao a de que a longa tradio democrtica vivida por esses pases faz com que os benefcios de uma reduo de mandatos no sejam to necessrios quanto no Brasil.

A cincia poltica reconhece amplamente que a experincia legislativa aumenta o poder poltico da autoridade constituda e, consequentemente, a capacidade de atrair benefcios para os representados. Se certo que um tempo mais longo de exerccio proporciona ao poltico, por exemplo, um maior conhecimento, e assim maior poder de influncia, do processo de elaborao do oramento e da burocracia, lado outro, permite, tambm, o surgimento de uma rede, cada vez mais complexa, de troca de favores que beiram promiscuidade, gerando aquilo que se tem denominado de crime institucionalizado, uma espcie de evoluo ao crime organizado.

No desarrazoado realar que os parlamentares brasileiros, como regra, uma vez assumidos os mandatos, preferem estritamente permanecer no mandato a serem substitudos, criando barreiras entrada para potenciais competidores. Assegurada uma longa durao do mandato, o auferimento cumulativo dos benefcios e prerrogativas inerentes ao cargo representa tambm uma vantagem comparativa em relao aos competidores.

No campo partidrio, observa-se que os partidos polticos no apoiam abertamente a reduo de mandatos legislativos. O desenvolvimento de um modelo terico com base na literatura sobre teoria da informao sugere que quanto maior a durao de mandatos, maior o incentivo para que o eleitorado acomode os polticos menos competentes no exerccio do cargo. De outro giro, com uma durao mais curta, a tendncia a de que os eleitores realizem a seleo por competncia, afastando os polticos ineficientes.

Enfim, no se pode esperar que haja uma intensificao do debate deste relevante tema sob impulso advindo exclusivamente dos crculos polticos. A presso advinda das ruas tem surtido visveis efeitos. Que o povo compreenda que a democracia se faz com alternncia. Acreditamos ter chegado o momento de se acabar com as reiteradas reeleies no parlamento. A proposta est lanada. Uma reeleio para o mesmo cargo no legislativo, a nosso sentir, j seria suficiente. J pensou no assunto?

(*) Delegado de Polcia Federal. Professor Doutor da Academia Nacional de Polcia. Deputado Federal eleito por MG, sem jamais ter sido filiado a partidos polticos ou disputado qualquer eleio antes.


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Por Marcelo Eduardo Freitas - 23/10/2018 12:24:38
A FALA DE EDUARDO E O RISCO DEMOCRACIA

*Marcelo Eduardo Freitas

A imprensa de todo o Brasil noticiou declaraes dadas por Eduardo Bolsonaro, em vdeo de 4 meses atrs, quando se afirmou que o STF poderia ser fechado, caso houvesse alguma tentativa de impugnao da candidatura do pai dele, o presidencivel Jair Bolsonaro.

A grande verdade, que falas como essa j foram (mal)ditas aos quatro cantos de nosso pas, sem maiores repercusses.

guisa de exemplos, os petistas Wadih Damous (tem que fechar o Supremo), em vdeo gravado no ms de abril, logo aps o STF negar Habeas Corpus preventivo ao ex-presidente Lula e reafirmar a permisso para executar a pena aps condenao em segunda instncia, alm de Jos Dirceu (deveria tirar todos os poderes do STF), em entrevista concedida ao portal AZ, do Estado do Piau.

Observa-se, deste modo, sem maiores esforos argumentativos, que a grande retumbncia dada s palavras de Eduardo se deve ao fato de seu pai, Jair Bolsonaro, se encontrar frente nas pesquisas para as eleies presidenciais que se avizinham (dia 28/10 - domingo).

Sobre o eventual risco democracia, o presidente do Superior Tribunal de Justia (STJ), Joo Otvio de Noronha, disse que as pessoas esto "exagerando" e "superdimensionando" a fala do deputado. Para ele, no h "nenhum risco" de o Brasil "ter a sua democracia arranhada".

"Nitidamente no vi nenhum interesse de ameaa. Esto exagerando na dimenso do que ele falou. Ele respondeu a uma pergunta: `Se o Supremo no deixar algum legitimamente eleito...` Ele diz: `O Supremo, se fizer, ter que enfrentar...`. Nota que no teve nenhuma inteno. Com a devida vnia, eu acho que esto superdimensionando a declarao feita antes do primeiro turno. De modo algum [existe risco democracia]. O Brasil no corre nenhum risco de ter a sua democracia arranhada. Nenhum risco, ao meu sentir. Pouco importa quem seja o presidente eleito".

As declaraes do presidente do STJ, por si s, a nosso sentir, j seriam suficientes para acalmar os nimos e estancar discursos de aproveitadores que, no jogo poltico, pouco se preocupam com a verdade.

Contudo, a verdadeira lio democrtica, o genuno senso de responsabilidade, o ldimo pedido de desculpas veio do pai do autor das falas, Jair Messias Bolsonaro, demonstrando ao Brasil, de forma absurdamente madura e coerente, o quanto est preparado para assumir a presidncia de nossa repblica: Isso ocorreu h quatro meses, eu no tinha conhecimento. Ele diz que respondeu a uma pergunta sem p nem cabea, at houve a palavra brincadeira no meio daquilo. Conversei com ele, ele reconheceu o seu erro, pediu desculpas. Eu tambm, em nome dele, peo desculpas ao Poder Judicirio. No foi a inteno dele atacar quem quer que seja. E eu espero que, como todos ns podemos errar, que os nossos irmos do Poder Judicirio deem por encerrada essa questo.

Se pretendiam diminuir o pai em razo das palavras do filho, o tiro saiu pela culatra. Jair Bolsonaro se agigantou! Submeteu-se s urnas, vontade do povo, afastando qualquer discurso sobre golpe. Esfaqueado covardemente, quase sucumbiu. Combateu o bom combate, pediu perdo e verdadeiramente se purificou para ser o prximo Presidente do Brasil! Que venham logo os dias de glria... Viva a democracia!

*Delegado de Polcia Federal. Deputado Federal eleito.


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Por MARCELO EDUARDO FREITAS - 12/5/2018 13:53:43
A DEMOCRACIA AINDA A MELHOR OPO!

* Marcelo Eduardo Freitas

O filsofo americano Reinhold Niebuhr nos ensina que a capacidade do homem para a justia faz a democracia possvel, mas a inclinao do homem para a injustia faz a democracia necessria.

nesse contexto que acabo de ler, minutos antes de escrever estas provocaes, uma reportagem retratando que, entre os anos de 1974 e 1979, o ento presidente do Brasil, General Ernesto Geisel, sabia e autorizou a execuo de opositores durante a ditadura militar. Tal constatao, ao que se denota, foi verificada em memorando escrito pelo diretor da CIA, em 11 de abril de 1974, dirigido ao ento secretrio de Estado dos Estados Unidos poca, e somente agora revelado por aquele pas.

Os fatos so muito graves e escancaram que, nas ditaduras, as liberdades individuais so estranguladas e tudo possvel para a construo de um determinado objetivo, ainda que vidas de inocentes sejam solenemente retiradas.

"Acorda, amor/Eu tive um pesadelo agora/Sonhei que tinha gente l fora/Batendo no porto, que aflio!" Estes versos so da cano "Acorda, Amor", tambm conhecida como "Chame o Ladro", de autoria de Chico Buarque de Holanda. No entanto, quando gravados pela primeira vez, no LP "Sinal Fechado", de 1974, foram atribudos a um desconhecido, chamado Julinho da Adelaide.

Em verdade, mais que um pseudnimo, Julinho da Adelaide foi um artifcio de que Chico Buarque se utilizou para burlar a implacvel censura que lhe impunha o governo militar do Brasil da poca, evidenciando, mais uma vez, a tristeza de uma ditadura e o valor de uma democracia, cujos direitos so ressalvados e a liberdade de expresso proporcionada aos seus cidados.

A definio etimolgica de democracia governo do povo, sendo este a base para a organizao dessa forma administrao. Contudo, para o poder emanar do povo, h que se ponderar que todos os indivduos que o compem sejam iguais e livres para agir e se manifestar, havendo um nivelamento dos cidados, tornando-os semelhantes no contexto do debate pblico.

O escritor Robert A. Dahl, em seu livro Sobre a Democracia, publicado originalmente em 1998, traduzido em 2001 pela Editora UnB faz um ensaio sobre o que vem a ser democracia, encarado como um sistema poltico que tem, em suas caractersticas, a qualidade de ser inteiramente ou quase inteiramente responsivo a todos seus cidados, sendo o tipo ideal de forma de governo e entendida em duas dimenses: contestao pblica e inclusividade.

Assim, a democracia vem sendo o maior avano que um pas pode ter em sua forma de governo desde que as liberdades e garantias individuais e sociais comearam a ter maior espao com o fim das ditaduras militares nas dcadas de 80 e 90 e o fim do bloco comunista sovitico.

Nesse sentido, atrelada aos direitos e garantias individuais e sociais, a democracia proporciona um ambiente para o cidado desenvolver suas potencialidades, garantindo e resguardando seu direito vida, liberdade, igualdade, propriedade, entre outros mais.

A constitucionalidade dos atos do governo, as eleies justas, livres e diretas, a liberdade de expresso, a ampliao e diversificao das fontes de informao, a autonomia das instituies, associaes e sindicatos, a cidadania inclusiva, tudo isso uma conquista evidente da democracia, que possibilitou a ascenso do indivduo, frente aos arbtrios de determinado governante.

Segundo a Comisso Nacional da Verdade, durante o regime militar houve cerca de 434 mortes e desaparecimentos, pessoas que, considerando-se oprimidas, reagiram forma de governo. Muitos deles jovens universitrios que levantaram a bandeira da igualdade e liberdade.

Democracia oportunizar a todos o mesmo ponto de partida. Quanto ao ponto de chegada, depende de cada um.

A maior desgraa da democracia que ela traz tona a fora numrica dos idiotas, que so a maioria da humanidade. Nesse sentido, permite, nessa forma de governo, que esses idiotas exeram os direitos democrticos; sendo um deles, o direito de ser votado.

Contudo, por mais que proporcionou essa voz aos idiotas, a democracia possibilitou visibilidade aos excludos e humilhados, gerando pleno exerccio do poder pelo povo, garantindo a possibilidade de no ser submetido a determinado arbtrio de certos governantes e a capacidade e obrigao desse povo em tomar decises e no ser visto apenas como mero espectador.

Para finalizar essa perorao, no poderia deixar de citar a clebre frase de Winston Churchill, primeiro ministro do Reino Unido, durante a Segunda Guerra Mundial: A democracia a pior forma de governo, exceto todas as outras que tm sido tentadas de tempos em tempos. Sendo assim, A DEMOCRACIA AINDA A MELHOR OPO!

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


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Por Marcelo Eduardo Freitas - 28/4/2018 12:29:56
AS EMENDAS PARLAMENTARES EM TEMPOS DE ELEIO E AS MIGALHAS QUE PERPETUAM MISRIA

* Marcelo Eduardo Freitas

Acabo de ler com tristeza a notcia da liberao de 4,2 bilhes de reais para emendas parlamentares. Confesso, caro leitor, que essa notcia me deixou bastante entristecido ao saber que, por mais essa manobra poltica, h o desejo enrustido de perpetuar corruptos contumazes no poder.

Comeo a refletir na incongruncia das aes do governo (propositalmente com m minsculo), quando observamos a suspenso do aumento do funcionalismo pblico por falta de verbas, a ideia da reforma da previdncia por no comportar as dvidas advindas da m organizao de seus recursos, a mitigao de programas de governos sob a justificativa da falta de dinheiro, o atraso nos repasses pblicos. E por a vai...

Talvez porque eu esteja velejando nestas guas, turvas creio eu, observo que tal liberao seja a maneira mais fcil de fazer o povo pagar pela campanha eleitoral de alguns que esto a usufruir da mquina pblica.

Como difcil falar em eleio no Brasil! Como complicado viver as consequncias do sufrgio no pas onde reina a hipocrisia e a dissimulao escancarada para a compra dos votos dos mais humildes!

E haja trator, ambulncia, caixa dagua, canos, emprego, aposentadoria... a indstria de distribuio de misria que sempre reina em ano de eleio! Estupra-se a democracia por um botijo de gs, uma panela de presso ou um punhado de moedas...

As pessoas precisam entender que devem escolher os bons polticos pelo seu histrico de vida, trabalho, conquistas. Decidir por aquele que enxerga o povo e v sua real necessidade, no pelas esmolas ganhadas atravs de falsas promessas e de uma cara deslavada, aparecendo de quatro em quatro anos em sua cidade.

muito mais fcil dar a ambulncia, fazer uma festa para a entreg-la e depois us-la para mandar o cidado morrer nos corredores lotados dos hospitais em Montes Claros. Aps simples: basta culpar o mdico, acusar o hospital, tentar fechar o pblico para beneficiar o privado e mandar uma coroa de flores para o velrio da pessoa que poderia ter em sua cidade um ambulatrio capaz de socorr-lo e trat-lo a tempo e modo minimante dignos.

mais simples dar o trator, mandar matar um boi, fazer um churrasco e depois deixar aqueles produtores sorte do bom Deus e do ciclo da chuva, sem auxlio ou projeto de implementao e viabilizao do negcio agropecurio e preservao ambiental.

Por qual motivo cuidar das nascentes dos rios, suas margens, educar sobre a conservao ambiental? muito melhor dar uns canos, tirar umas fotos, soltar uns foguetes e deixar o cidado l, sem qualquer instruo, desmatando e secando a fonte de gua que abastece a sua plantao, a dos outros e gera renda a milhares de famlias, como o caso do nosso sofrido So Francisco!

Quanto mais eu ando por esse norte de Minas, mais eu tenho a certeza e a convico da necessidade de mudana e substituio dessa velha poltica do coronelismo, agora travestida de moderna, com roupas novas, mas que ainda premia com uma bota para que a outra seja recebida logo aps as eleies. E dependendo do poltico em que se vota, bem capaz de nem receber o outro p!

triste o uso da mquina pblica, sempre no ano eleitoral, para que as velhas raposas continuem a se perpetuar no poder.

George Carlin, humorista americano, dizia que a honestidade pode ser a melhor poltica, mas importante lembrar que aparentemente, por eliminao, a desonestidade a segunda melhor poltica. As condutas dos polticos so norteadas pela atitude dos eleitores, ou seja, aceitar a migalha em troca dos valiosos votos de uma comunidade inteira estuprar a democracia! acabar com a esperana que deve nortear todo cidado de bem! condenar aquela comunidade a mais quatro anos de espera... Esperar o que mesmo?

Meus amigos, estamos no ano do presentinho, da ajudinha, da contribuio, da inverso de valores que observa com antipatia a honestidade! Se mede o poltico pelas migalhas que deixa... Triste demais enxergar isso e perceber que est impregnado na educao de vrias geraes.

Tentar mudar isso uma obrigao de todos ns! Ao invs de usar as redes sociais para duelos ofensivos e medocres, que estampam um imbecil distino entre esquerda e direita que jamais existiu, usemos para replicar a necessidade de mudar essa mentalidade do coronelismo enraizado por uma viso ampla, pensando no futuro da comunidade em que vivemos, da necessidade de sua regio, das possibilidades de obras, investimentos e projetos que podero vir atravs do voto correto, consciente e pautado para o bem de todos.

O poeta e retrico romano de nome Juvenal, autor das Stiras, pontual ao nos dizer que a honestidade elogiada por todos, mas morre de frio. Que tenhamos novos rumos, novas formas de poltica, que sejamos ressurreio! Que sejamos honestos conosco e com aqueles que nos rodeiam. Que possamos abraar a integridade, a honradez e fazer com que elas se esquentem em nossos coraes e se perpetuem atravs de nossos atos! Que sejamos luz! Que no ofertemos as nossas conscincias nesse grande balco de negcios que comea a se instalar em nosso sofrido norte de Minas. Basta de migalhas!

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


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Por Marcelo Eduardo Freitas - 21/4/2018 19:28:24
O PODER DO POVO E A LUZ DA VIDA

*Marcelo Eduardo Freitas

O Brasil vive hoje um momento desafiador em meio ao atual cenrio de completa crise poltica, social e cultural. Ironicamente, tambm estamos vivendo um momento em que os acontecimentos se tornaram mais claros, evidentes e visveis populao em geral que, abestalhada, sofre com tudo isso.

Para se ter uma noo, passada quase que de forma imperceptvel pela populao tempos atrs, mais modernamente, a corrupo passou a ser considerada pelos brasileiros o maior problema que nossa nao enfrenta. Tempos mudaram, o que era errado, imoral, ilcito continuou errado, mas hoje tornou-se visvel e combatvel!

Nossa reflexo de hoje no vai buscar compreender ou analisar a situao de nosso pas que, por um axioma, vive uma crise sistmica. Buscamos, meus caros, com essa provocao fomentar e possibilitar a anlise de seu papel como cidado, como um construtor ativo da democracia e como aquele que vai auxiliar, com o seu dom e seu poder poltico, o pas a superar essa crise antes nunca visvel.

A Constituio cidad, apelido carinhoso dado Constituio da Repblica Federativa do Brasil, possibilitou prerrogativas extremamente importantes ao cidado que em seu artigo 1, pargrafo nico, exposto atravs da seguinte estruturao: Todo poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituio. com esse poder derivado de ns, povo, que seremos capazes de eleger representantes que saciariam nossa sede de justia, que criariam leis mais justas e firmes, que amenizariam os problemas sociais, que fomentaria o pas a sair de uma crise poltico-econmica.

De igual maneira, com esse poder, seriamos capazes de construir o bem da coletividade atravs do exerccio direto da democracia, seja pelo plebiscito, referendo ou iniciativa popular. Esse ltimo, pasmem ou no, d ao povo a possibilidade de, cumprindo os requisitos constitucionais, propor uma lei ao congresso nacional.

Saindo um pouco do discurso dotado de jarges e expresses jurdicas, busco com essa reflexo mostrar que, para alm do direito, h uma fora motriz que capaz de reestruturar uma sociedade em crise; e essa fora vem de dentro de cada um de ns.

Criado numa famlia catlica, sempre fui um homem de muita f e levo comigo a crena de que cada um nasceu com um dom, uma habilidade intrnseca, uma luz interior, esperando para ser acesa a fim de iluminar o caminho das pessoas ao seu redor. Sendo senhores e senhoras de nosso prprio destino, temos de ouvir nossos dons, de ouvir nossas vocaes e compreender que com elas podemos mudar o mundo a nossa volta.

Nossas habilidades so teis coletividade, seja como um mdico vocacionado que salva a vida de inmeras pessoas, seja como um policial vocacionado que coloca sua vida em risco para manter a paz da coletividade; seja como um juiz vocacionado que permite a construo da justia, por meio de suas decises; seja como um professor vocacionado que instrui na direo do sonho de seu aluno; seja como um pedreiro vocacionado que constri monumentos incrveis, sendo fonte de inspirao para as pessoas; seja como um vendedor de salgados vocacionado que permite s pessoas perceberem o amor que coloca no simples preparo de uma refeio.

Quando nos retramos e deixamos de ouvir nossos dons, damos espao de sermos sugados por essa iluso coletiva que diz que o nosso destino est nas mos de algum, que no ns prprios. Quando perdemos tempo reclamando, atacando uns aos outros, alimentando essa onda que causa angstia e medo, deixamos de fazer a nica coisa que poderia ser verdadeiramente revolucionria.

Portanto, caro leitor, que possamos ser luz! Que possamos nos dar conta de que um simples gesto muda o mundo. Para alm de exercer nossos direitos que so capazes de refletir em toda coletividade, que sejamos capazes de acender essa luz interior que temos, iluminando o caminho das pessoas ao nosso redor, rompendo com a escurido que permeia nossa nao. Que possamos difundir o amor, atravs da caridade e da doao de um pouco de nosso tempo, que possamos dar esperanas atravs de nosso brilho interior. Desta maneira, que essa vela que se encontra em nossas almas seja acesa e, assim como Jesus apregoou em seu evangelho, que sejamos a luz do mundo, fazendo com que ningum ande nas trevas, possibilitando, atravs de nossas aes, o exerccio da luz da vida!

*Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia.


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Por Marcelo Eduardo Freitas - 14/4/2018 14:31:05
WE, THE PEOPLE (EUA) X NS, REPRESENTANTES DO POVO (BRASIL)

* Marcelo Eduardo Freitas

Em 1513, Nicolau Maquiavel em sua obra prima O Prncipe apresentou ao mundo uma das teorias polticas mais elaboradas pelo pensamento humano. A criao exerce forte influncia na descrio do Estado, desde a sua publicao at os dias de hoje.

Em tempos de uma repblica esfacelada por todas as formas possveis de desvios, com homens pblicos submetidos a situaes de completo e inaceitvel declnio moral, inacreditvel que o povo brasileiro no faa nada para alterar esse deprimente estado de coisas.

certo que os brasileiros vivemos de aparncias e nos inclinamos frequentemente s necessidades mais imediatas, mas haver nessa repblica, em pleno ano de 2018, quem se deixe, uma vez mais, se levar pelos fingimentos e dissimulaes daqueles que hoje ocupam os espaos pblicos? Quanto tempo mais deveremos aguardar para que o povo brasileiro seja, de fato, o centro de comando e controle de nossa nao?

Historicamente, o povo brasileiro sempre foi alijado do processo de tomada de decises. Para melhor compreenso, traaremos adiante um breve paralelo entre as Constituies do Brasil e a dos EUA.

O prembulo (incio) da Constituio americana apresenta a seguinte introduo: "We, the People..." ou "Ns, o povo...". Por aquelas bandas, as pessoas, indivduos unidos com anseios comuns de imigrantes europeus ingleses, irlandeses, franceses, entre outros, nutriam um ideal revolucionrio, estimulado especialmente pela falta de liberdade, sem excluso de outras limitaes que existiam na Europa do sculo XVIII e XIX. Estas pessoas desejavam formar uma nao! Um pas onde a liberdade seria preservada em todas as suas dimenses, em prol do bem comum, com instituies verdadeiramente fortes!

A Constituio brasileira de 1988, lado outro, da mesma forma que sua antecessora, a Constituio de 1967 que foi imposta pela Ditadura Militar, no foi fruto de nenhuma revoluo! O prembulo de nossa Constituio de 1988 no apresenta o povo brasileiro como seu autor, mas sim, os representantes do povo, ou seja, deputados e senadores, eleitos por voto direto e obrigatrio que, em uma assembleia constituinte, criada especificamente para o fim de promulgar uma Constituio, discutiram e votaram os termos do que seria a "Constituio Cidad", focada essencialmente na concretizao de direitos e garantias fundamentais individuais. Por isso, a introduo da Constituio brasileira comea com "Ns, representantes do povo...". A diferena abismal, j que a americana, como dito, comea com Ns, o povo! D para compreender?

A grande e lamentvel realidade nacional que nenhuma de nossas Constituies foi fruto de qualquer forma de revoluo. Nunca houve, em nosso Brasil varonil, uma Constituio elaborada fundamentalmente pelo povo brasileiro, assim como a Constituio americana, elaborada como fruto de uma revoluo. A independncia brasileira, por exemplo, longe de ser um movimento revolucionrio, agradou a todos e contou, inclusive, com o apoio da Inglaterra. O Brasil, por sua vez, "herdou" a dvida deixada pelos portugueses e at hoje nos arrastamos para pagar essa conta carssima recebida de legado. J nascemos endividados!

O fato de nunca ter ocorrido nenhuma revoluo no Brasil se deve fundamentalmente ao processo histrico de formao institucional, poltica e educacional dos brasileiros que marcado, mesmo at os dias de hoje, pelo modo de vida dos povos ibricos (originrios da Pennsula Ibrica - Portugal e Espanha)!

O modo de vida portugus se ope diametralmente aos dos demais povos europeus. Mesmo os povos do Norte da frica, que mantm relacionamento constante e frequente com a Europa, diferenciam europeus e portugueses. Em nenhum outro povo a personalidade assume papel to importante. Talvez por essa razo seja to difcil mudar essa nossa cultura do jeitinho, da vantagem, da esperteza...

Entre os povos ibricos, caro leitor, no h orgulho nem unio, nem coletivismo e muito menos solidariedade. Vrios indivduos, intelectuais ou no, referncias em moralidade e excelncia, protagonistas da prpria histria que, dependendo dos valores de sua personalidade, principalmente da sua humildade, alcanaro o fim supremo da existncia: o cio, a mordomia e as prerrogativas inerentes aristocracia portuguesa da poca das navegaes e da escravatura. Uma nao que valoriza essencialmente os valores da personalidade, de um homem forte em um meio hostil em detrimento da solidariedade, da garantia e da certeza sobre o futuro e o comprometimento com as futuras geraes.

A concluso que se extrai desse nosso engessamento coletivo, dessa nossa apatia histrica, desse terrvel medo de mudanas no pode ser outra: no h razo para revoluo entre o povo brasileiro: "No fim tudo d certo, Se no deu certo ainda porque ainda no chegou ao fim". Sempre houve e sempre haver uma oligarquia, uma elite intelectual a servio da elite dominante, em troca de alguns espelhos e benefcios surreais o suficiente para se verem distante do povo e se julgarem membros portadores de uma carga gentica que os faz diferentes a pontos de pertencerem a uma pseudo elite econmica. Com a humildade digna do carinho e da doura brasileira se apresentaro como "representantes do povo brasileiro" e "tocaro" as instituies e constituies brasileiras sob o manto de serem os representantes legtimos de um Estado declaradamente de joelhos diante da corrupo e da desgraa que aflige a vida de milhes de brasileiros. Isto Brasil! Precisamos evitar a armadilha de sermos sugados por essa iluso coletiva que diz que o nosso destino est nas mos de algum, que no ns prprios. E ento, vamos continuar agindo da mesma forma que fizemos nos ltimos 518 anos? Lembrem-se: ns somos o povo!

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


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Por Marcelo Eduardo Freitas - 7/4/2018 08:40:13
OS NEGROS, OS POBRES, OS EXCLUDOS E AS PRISES QUE ESCANCARAM DESIGUALDADE

* Marcelo Eduardo Freitas

Com os episdios recentes que abalaram nossa nao, em que muitos polticos e criminosos de colarinho branco esto sendo presos por seus crimes, talvez seja a hora de comentarmos um pouco sobre o sistema prisional brasileiro, aquele que tem atrado a compaixo de muitas pessoas ao se depararem com imagens de TV, exibindo velhinhos em cadeiras de roda. O que acontece l dentro, contudo, certamente muito pior!

Etimologicamente, a expresso priso vem do latim prehensio, radical de prehensum, verbo que originou o portugus prender. Absorvido pelas culturas anglo-portuguesas, traduz-se no cerceamento de liberdade de algum que cometeu alguma espcie de delito, tipificado em nosso ordenamento jurdico, que prev expressamente a imposio de tal medida considerada extrema.

De fato, tirar a liberdade de uma pessoa e obriga-la a viver dentro de uma jaula talvez seja uma das mais brutais condutas contra um ser humano. Sem olvidar da ao que levou o indivduo ao crcere, como tirar a vida de algum a conta-gotas.

Sabiamente, o nosso conterrneo e escritor Darcy Ribeiro profetizou muito do que est acontecendo agora em nosso pas quando disse em 1982 que, "se os governantes no construrem escolas, em 20 anos faltar dinheiro para construir presdios. E assim aconteceu!

O Brasil hoje conta com mais de setecentos e vinte e seis mil presos em seu sistema carcerrio, sendo considerada a terceira maior populao prisional do mundo, perdendo somente para os Estados Unidos e a China, e vem antes de muitos pases populosos como a Rssia e a ndia. A quantidade de presos to grande e to insuportvel que, diuturnamente, observamos absurdos que acontecem dentro das penitencirias por conta desse enorme contingente de enjaulados.

Agregado a isso, a quantidade de agentes prisionais, que merecem maior ateno e valorizao pelo Estado, extremamente diminuta. As instalaes fsicas se tornam insalubres e sem condies mnimas de higiene. Pega-se carrapato, piolho, virose, doenas dermatolgicas, vive-se em condies sub humanas. assim o nosso sistema!

Nessa condio inspita de sobrevivncia, o sistema carcerrio brasileiro perde a essncia principal de sua existncia, que a funo de ressocializar e conscientizar o detento de seus erros, tornando esse objetivo impossvel de se atingir. Em verdade, o que temos hoje so as maiores escolas de crime de que se tem notcias. Nas cadeias, caro leitor, entra o ladro que sai homicida e traficante, vinculado e leal a uma organizao criminosa. A que ponto vamos chegar?

Temos em nosso ordenamento penal brasileiro, hoje, seis tipos de priso, quais sejam: priso Temporria, Priso Preventiva, Priso em Flagrante, Priso para execuo da pena, Priso preventiva para fins de extradio e Priso civil do no pagador de penso alimentcia. Cada modalidade de acautelamento engloba uma situao concreta sobre a pessoa que est sendo presa, podendo ela ser de curto a longo prazo, no ultrapassando, no entanto, o mximo legal de 30 anos por crime cometido.

A maior polmica na atualidade acerca das prises, entretanto, no se d em razo de sua condio degradante. A discusso se acirra quando tratamos do encarceramento de pessoas que no se enquadram na massa de noventa e nove por cento da populao carcerria, isto , o rico, branco, que cometeu crime de colarinho branco, ou seja, todo tipo de corrupo pblica ou privada. O que fazer com uma pessoa que vivia em manses luxuosas, com banheiros imponentes com mrmores importados, camas enormes, com colches macios e lenis caros, e que agora est fadada a dividir uma cela com outras dez pessoas, em um lugar que suporta cinco, defecando em uma latrina, e vivendo em pequenos metros quadrados?

Talvez, agora, o olhar social se volte para as prises, com o intuito de dar alguma forma de dignidade queles que ali se encontram, ainda que essa condio esteja sendo forada pelo, digamos, perfil do novo cliente do sistema penal.

Meus amigos, temos o hbito de desejar a priso de assassinos violentos, estupradores covardes, traficantes perigoso. Mas, de forma recorrente, nos esquecemos daqueles que desviam milhes e vivem uma vida luxuosa em detrimento de outros, que ficam dias em uma maca nos corredores de hospitais para serem atendidos.

Embalado pelos fatos que acontecem neste exato momento em que escrevo essas palavras, a fim de no ofender predilees de quem quer que seja, talvez seja melhor concluir com o escritor francs Marcel Proust: As pessoas querem aprender a nadar e ter um p no cho ao mesmo tempo. Tudo que foi prazer torna-se um fardo quando no mais o desejamos. S se ama o que no se possui completamente. A felicidade salutar para o corpo, mas s a dor robustece o esprito. Os dias talvez sejam iguais para um relgio, mas no para um homem. Que a liberdade e a igualdade sejam irms siamesas inseparveis para sempre! A regra que prevalecer para o colarinho branco deve ser estendida a todos os negros, pobres e miserveis excludos de nossa nao! Chega de cadeia apenas os pequeninos!

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


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Por Marcelo Eduardo Freitas - 29/3/2018 16:26:38
LAVAR AS MOS NO TRAZ FELICIDADE

* Marcelo Eduardo Freitas

A ideia de renascimento e renovao trazida pela Pscoa nos remete aos momentos evidenciados em nossas vidas, com nfase para as particularidades pelas quais passam a nossa nao. Esse momento de reflexo Crist, que traz nossa vida a necessidade de refletirmos sobre nossos pensamentos e aes, especialmente aqueles a que estamos mais apegados, nos leva a indagar, lado outro, sobre a nossa omisso, ou seja, quando deixamos de fazer algo que poderia ter sido feito, principalmente quando se trata de ajudar algum, de acolher um ser humano, sem olvidar dos animais.

Se formos analisar a histria e o sofrimento de Jesus Cristo em seus ltimos dias, a figura de Pncio Pilatos reflete justamente essa omisso que se busca aqui retratar. Aquela pessoa que tinha o poder de mudar, de impedir o mal, mas que por covardia, passividade, desleixo, no o fez.

Muitos vo indagar e afirmar que Jesus passou por isso porque estava escrito, era assim que tinha que acontecer. Mas o que pretendo chamar a ateno neste espao que, naquele momento da histria, o ato de lavar as mos de Pilatos significou bem mais do que um simples desinteresse e indiferena, pois a consequncia de sua ao foi cruel e covarde: ele entregou o Messias para a crucificao, para o sofrimento, para a expiao e morte.

Fazendo uma analogia para os dias de hoje, muito interessante aproveitarmos o momento de reflexo da Semana Santa para indagarmos sobre nossas omisses diante das agruras e sofrimentos das outras pessoas. E essa construo de ideias fundamental para o engrandecimento e o amadurecimento social. difcil trabalhar para que a realidade mude! Muito difcil! mais difcil do que desintegrar um tomo! Mas no podemos ficar estticos diante de um mundo que gira! Maldades que s aumentam!

O ato covarde de lavar as mos em tempos modernos evidenciado na conduta de muitos que se isolam ou vivem de aparncias. Ainda existem pessoas entre ns que s observam a pobreza e a misria pela televiso. No raras vezes, simplesmente mudam o canal para ver moda, viagens, festas... realmente mais fcil lavar as mos! Porm tem sido a pior de todas as escolhas! Funciona como que um bumerangue. Pode at demorar, mas que volta, volta!

Ignorar o momento que estamos vivendo hoje em sociedade inaceitvel! Deixar de enfrentar as nossas mazelas covardia! No sem razo, Chico Xavier dizia que a omisso de quem pode e no auxilia o povo, comparvel a um crime que se pratica contra a comunidade inteira. Eu particularmente acredito muito nisso! No nasci para omisso, porque no meu sangue corre pura indignao!

Quantos policiais precisam morrer? Quantas pessoas nos corredores dos hospitais viro a bito pela falta de oportunidade de se tratar? Quantas crianas se transformaro em bandidos pela falta de oportunidade de serem educados e includos? Quantos vo morrer de fome por conta de nossa inrcia?

Enquanto isso, muitos de ns estamos lavando as mos, enxugando-as em toalhas finas e fechando os olhos para o que acontece. A omisso, repito, a mais insensata forma de covardia! Ver algo ruim e no se irresignar a pior forma de violncia, pois a conduta que mais perpetua a crueldade e a perversidade. A omisso diante da maldade, em verdade, nos faz piores que o prprio mal! Os homens deveriam ser lembrados mais por suas atitudes do que por suas palavras, mais por seus acertos que pelos seus erros e mais por suas virtudes que pelos seus defeitos.

No lave as suas mos, seja autor de boas obras! Ajude o prximo e no se omita! Nossas atitudes escrevem nosso destino. Ns somos responsveis pela vida que temos. Culpar os outros pelo que nos acontece cultivar a iluso. A aprendizagem nossa e ningum poder faz-la por ns, assim como ns no poderemos fazer pelos outros. Quanto mais depressa aprendermos isso, menos sofreremos.

Que Jesus renasa no corao de cada um de ns, fazendo-nos transformar, renascer e trabalhar! Que sejamos instrumentos de mudanas! Mais que ORAR, que sejamos AO! Neste exato momento h um irmo que chora!

* Dedico esse texto a meu amigo Gilson Pinho, um transformador de vidas pela ao caridosa, e que faz aniversrio neste dia. Deus o abenoe!

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


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Por Marcelo Eduardo Freitas - 24/3/2018 09:36:04

O STF E A PRISO DE LULA

* Marcelo Eduardo Freitas

Na prxima semana, mais especificamente no dia 26/03 (segunda-feira), o Tribunal Regional Federal da 4 Regio (TRF4) vai julgar os embargos de declarao apresentados pelo ex-presidente Luiz Incio Lula da Silva, condenado a uma pena de 12 anos e 1 ms de priso, por envolvimento em corrupo e lavagem de dinheiro no rumoroso caso relacionado a um triplex em Guaruj/SP.

O recurso apresentado pela defesa de Lula, teoricamente, tem por fundamento a contestao de eventuais omisses, obscuridades, dvidas ou contradies contidas na deciso de mencionado Tribunal. Contudo, como a deciso ser tomada pelos mesmos desembargadores que deram a sentena de janeiro, bastante improvvel que eles acolham os questionamentos.

A regra, ento, seria a priso do ex-presidente. Vale registrar: diretriz adotada para todos os demais casos em situaes anlogas julgadas pelo TRF4. Qualquer outro condenado naquela Corte, deste modo, comea a cumprir sua pena assim que se esgotam todos os recursos naquele Tribunal. Mas rejeitados os embargos, Lula ser preso? Essa a grande questo que tem sido apresentada pelos cidados de bem de nossa nao.

Caro leitor, ainda que negado o recurso apresentado por Lula, ele no ser preso! Traduzindo em midos, o que aconteceu na sesso de quinta-feira prxima passada, no Supremo Tribunal Federal (STF), foi simples: a mais alta Corte do Brasil decidiu, em carter provisrio, no permitir a priso do ex-presidente Luiz Incio Lula da Silva.

Vou tentar explicar melhor toda essa loucura: O STF, em verdade, decidiu que antes precisava decidir se podia decidir. Decidiu que poderia! Mas decidiu no decidir, mesmo podendo decidir! Decidiu, assim, que vai decidir o mrito em outro dia. Mesmo assim, decidiu que o TRF4 no pode decidir pela priso antes da deciso a ser tomada pelo prprio STF, inicialmente no dia 04 de abril, aps a semana santa. Entendeu? Triste Brasil!

A bem da verdade e esperando ser didtico, por uma deciso tomada em 2016, o STF autorizou, mas no obrigou, o incio das penas depois da deciso da segunda instncia, como o caso do TRF4. No foi estabelecido um critrio objetivo para dizer quando manter algum preso ou solto inconstitucional. Na falta de requisitos mnimos, amplia-se a indstria de habeas corpus, liminares e outras tantas possibilidades, sempre que o ru pode arcar com o alto custo de uma defesa bem preparada e cara, por bvio.

Voltando o olhar para o aspecto tcnico, a nosso sentir, h um erro ainda maior em toda essa situao: o Supremo deveria ter pautado, em verdade, eram as Aes Declaratrias de Constitucionalidade (ADCs) que permitiriam Corte tomar uma deciso clara e objetiva a respeito da conjuntura que, concretamente, fora apresentada pela defesa do ex-presidente. Valeria para todas as pessoas, indistintamente! Nesse caso que est sendo julgado, s vale para o Lula! Ningum mais, que fique claro!

Ingressando mais detidamente nas particularidades do julgamento, foi possvel perceber, pelo voto dos ministros, que Lula tem todos os motivos para ser otimista a respeito da deciso que ser tomada aps o feriado, quando da apreciao do mrito do Habeas Corpus. Na primeira votao, para decidir se poderiam decidir, dois daqueles de quem se esperava um voto contra Lula entraram no jogo da embromao: Alexandre de Moraes e Rosa Weber. O placar: 7 a 4!

Na votao, tomada diante de um pedido feito da tribuna, em que a defesa alegou iminncia de priso, a situao foi um pouco mais apertada, 6 votos a 5, com a Ministra Rosa Weber ficando favorvel defesa. Em 2016, consigna-se, ela foi contra cumprir penas depois da deciso da segunda instncia! Mas tem respeitado a deciso do tribunal, tanto em decises individuais quanto nas votaes da Primeira Turma, a que pertence.

Quando o STF voltar ao assunto, no prximo dia 4 de abril, a expectativa que se repita o placar da ltima votao de ontem, 6 a 5 a favor de Lula e contra a sua priso. A nosso sentir, estaro, por consequncia, enfraquecidas a Operao Lava Jato e tantas outras que tocaram em ungidos antes intangveis fora do direito penal, pois os acusados sabero que a priso voltar a ser uma realidade destinada com exclusividade aos pretos, pobres e prostitutas. Esqueam a ideia de cadeia para todos aqueles, criminosos de colarinho branco, que contem com recursos milionrios para financiar os advogados estrelados que dominam os percursos das "liminares", "habeas corpus", "mritos" e outras coisitas mais. Era o que no gostaramos que acontecesse. , ao que tudo indica, o que colhero os brasileiros. E Lula continuar solto, em campanha Brasil afora, mesmo estando inelegvel. Para quem no conhece, eis o Brasil em que se vive em bero esplndido.

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


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Por Marcelo Eduardo Freitas - 17/3/2018 10:24:13
O analfabeto poltico e a falsa ideia de que votos brancos e nulos invalidam eleies no Brasil

* Marcelo Eduardo Freitas

Bertolt Brecht, poeta e dramaturgo alemo, dizia que o pior analfabeto o analfabeto poltico. Ele no ouve, no fala, nem participa dos acontecimentos polticos. Ele no sabe que o custo de vida, o preo do feijo, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remdio dependem das decises polticas. O analfabeto poltico to burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a poltica. No sabe o imbecil que, da sua ignorncia poltica, nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que o poltico vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais.

Em tempos de redes sociais ativas, em que a preocupao sempre a aparncia, a alienao poltica est afetando grande parte da populao brasileira, fazendo crescer o poltico vigarista, tantas vezes mostrado pela Operao Lava Jato, potencializando, desta maneira, a rejeio das pessoas sobre o relevante assunto aqui tratado.

Muitos reverberam frases feitas e textos desconexos de pessoas que acreditam que no votar a melhor opo. Triste realidade de nossa repblica! Mal sabem que essa conduta omissiva a principal porta de entrada para o malversador do errio, aquele que rouba merenda de escolas, recursos de hospitais, verbas de programas sociais, propiciando mais misria ao povo brasileiro.

Numerosos cidados replicam a ideia de no se comprometerem com a poltica, no raras vezes como forma de protesto e indignao, o que no deixa de ser uma reao vlida. Contudo, essa posio completamente contraproducente, j que no afeta em absolutamente nada no resultado das eleies.

Alguns eleitores cultuam a ideia do voto branco ou nulo e incitam outros a faz-lo com a intuio de que, se formarem maioria, anularo as eleies. Para complicar ainda mais, uma mensagem que circula na internet pelo menos desde 2010 defende o voto nulo e diz que, se essa opo alcanar maioria, a eleio anulada e todos os candidatos so impossibilitados de concorrer novamente. Isso uma tremenda mentira!

A verdade que a eleio s cancelada quando a maior parte dos votos fica nula em razo de uma irregularidade decorrente de fraude, coao, utilizao de falsa identidade, cassao da chapa do vitorioso, entre outros. Caso contrrio, os votos no so considerados vlidos. E para decretar a vitria de um candidato, s s vlidos interessam. Os brancos e nulos so excludos da conta, como se simplesmente jamais tivessem existido!

Para melhor esclarecer ao leitor, preciso informar que o TSE - Tribunal Superior Eleitoral entende que o voto em branco aquele em que o cidado no manifesta preferncia por nenhum dos candidatos. Antes do aparecimento da urna eletrnica, para votar em branco bastava no assinalar a cdula de votao, deixando-a em branco. Hoje em dia, para votar em branco necessrio que o eleitor pressione a tecla branco na urna e, em seguida, a tecla confirma.

Na mesma linha, o TSE considera como voto nulo aquele em que o eleitor manifesta sua vontade de anular o voto. Para votar nulo, o eleitor precisa digitar um nmero de candidato inexistente, como por exemplo 00 e depois a tecla confirma.

Antigamente, como o voto branco era considerado vlido (isto , era contabilizado e dado para o candidato vencedor), ele era tido como um voto de conformismo, no qual o eleitor se mostrava satisfeito com o candidato que vencesse as eleies, enquanto que o voto nulo (considerado invlido pela Justia Eleitoral) era tido como um voto de protesto contra os candidatos ou contra a classe poltica em geral.

Para aumentar e replicar essa ideia descabida, alguns interpretaram de maneira covarde o artigo 224 do Cdigo Eleitoral, onde diz que, havendo a anulao de mais da metade dos votos, a eleio seria anulada, convocando-se outra, o que gerou uma confuso proposital que beneficia somente aqueles que j so detentores de mandato eletivo. No se anulam eleies por votos propositalmente brancos ou nulos!

Segundo o professor Gilson Alberto Novais, em um pas onde mais de 30% do povo no sabe quem o governador do seu Estado e 20% no sabe quem o presidente da Repblica, segundo o IBGE, estimular o voto branco ou nulo tem sido uma arma daqueles que torcem pelo quanto pior, melhor. Confiam na alienao dos eleitores.

Concluo essa provocao plena democracia com as palavras do poeta Pedro Rodrigues, bem apropriada ao momento singular que vivenciamos: Perdoa esse povo alienado, sem dias de glria, vivendo o mesmo do novo e s estendendo a mo para pedir esmolas camufladas de benefcios sociais. tempo de mudar o Brasil! A nica forma democrtica de faz-lo no voto! E que ele seja plenamente vlido!

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


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Por Marcelo Eduardo Freitas - 10/3/2018 11:01:20
FRATERNIDADE E SUPERAO DA VIOLNCIA

* Marcelo Eduardo Freitas

Em plena ditadura militar, no distante ano de 1961, a ao de trs padres, responsveis pela Caritas brasileira, ao idealizarem uma campanha para arrecadar fundos para atividades assistenciais, plantaram o primeiro embrio da hoje conhecida Campanha da Fraternidade.
Trs anos mais tarde, no ano de 1964, foi realizada a primeira Campanha de amplitude nacional, sob os cuidados da CNBB - Conferncia Nacional dos Bispos do Brasil.
Para este ano de 2018, de maneira extremamente apropriada e consentnea com a nossa terrvel realidade, foi escolhido o tema fraternidade e superao da violncia e o lema: Vs sois todos irmos (Mt 23,8).
O objetivo geral da Campanha, destarte, o de construir a fraternidade, promover uma cultura de paz, de reconciliao e de justia, como efetivo mecanismo de superao da violncia. Confesso que no ser fcil! Os homens temos sido ruins com nossos semelhantes!
No momento em que escrevo essas palavras, acabo de tomar conhecimento de uma troca de tiros em uma propriedade rural, localizada no municpio de Capito Enas/MG, que deixou, at este momento, seis pessoas feridas, segundo a Polcia Militar. Conforme relatos, um grupo chegou em um caminho ba e desceu do veculo atirando contra os ocupantes da fazenda, que revidaram o ataque. Sem qualquer juzo de valor sobre fatos que ainda pendem de investigao, a violncia contra trabalhadores rurais e povos tradicionais ainda uma realidade presente em nosso meio!
Na mesma senda, na semana em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, dados divulgados pelo Ncleo de Estudos de Violncia da USP e o Frum Brasileiro de Segurana Pblica, revelam que o Brasil permanece como uma das naes mais violentas do mundo para as mulheres.
Os dados mostram que 4.473 mulheres foram vtimas de homicdio em 2017, um crescimento de 6,5% em relao a 2016, quando 4.201 mulheres foram assassinadas. Isso significa que uma mulher assassinada a cada duas horas no Brasil, taxa de 4,3 mortes para cada grupo de 100 mil pessoas do sexo feminino. Para que o leitor tenha ideia do que isso representa, se considerarmos o ltimo relatrio da Organizao Mundial da Sade, o Brasil ocuparia a 7 posio entre as naes mais violentas do planeta contra a mulher.
Como se tudo isso no fosse suficiente, o Brasil ostenta hoje o ttulo de campeo mundial em nmeros absolutos de homicdios. So 171 pessoas assassinadas por dia em nossa repblica de bananas. Para melhor compreenso da gravidade do problema, a Sria, pas que se encontra em guerra civil declarada, matou - nos ltimos quatro anos - cerca de 256 mil pessoas. No Brasil, contudo, o nmero bem maior: so 279 mil pessoas mortas no mesmo perodo. uma insanidade! Um massacre silencioso e sem reao efetiva, com pblico alvo conhecido e determinado!
Aqui no vou nem aprofundar nos nmeros da corrupo, que retiram investimentos bsicos da ordem de quase 1 trilho de reais, em detrimento especialmente das classes mais pobres de nossa nao. Essa forma de violncia, em verdade, faz parte de nossa histria, lamentavelmente.
Observa-se, assim, que a realidade brasileira tem sido deprimente. Lado outro, a provocao estampada pela Campanha da Fraternidade deste ano gritante. Provoca a cada um de ns a fazer um pouco mais! fato que ningum ignora tudo, que ningum sabe de tudo! Todos ns sabemos de alguma coisa! O que se exige hoje atitude! Em verdade, no estou no mundo para simplesmente a ele me adaptar, mas para transform-lo; se no possvel mud-lo sem um certo sonho ou projeto de mundo, devo usar toda possibilidade que tenha para no apenas falar de minha utopia, mas participar de prticas com ela coerentes. preciso conter a brutalidade humana, a intolerncia, a selvageria!
A obedincia uma deciso de carter individual. O servir um ato de manifestao coletiva. Pois somente servindo encorajamos o prximo a tambm servir, ou seja, o ato de servir gera a gratido, gratido que gera satisfao, que gera mais servir. O amor ao prximo proporciona isso: uma corrente de benevolncias, um grande desafio de carter humanitrio. Precisamos de servir mais! Ajudar ao prximo e unirmos foras em busca de uma efetiva cultura de paz e superao da violncia!
Concluo essa breve provocao superao de todas as formas de violncia com as palavras do poeta Reinaldo Ribeiro: Decidi que deveria ignorar a aprovao coletiva no dia em que percebi que a vida um bombardeio de crticas e a morte uma avalanche de hipcritas elogios. Por isso, mesmo vivendo em paz com todos que posso, digo que o amor de Deus tudo que me basta! Que no amor do Criador possamos amar todas as criaturas! A orao, por si s, no basta! tempo de ao! Onde est o seu irmo que chora?

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


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Por Marcelo Eduardo Freitas - 7/3/2018 22:59:59
O dia internacional da mulher

Quando se iniciou o processo de industrializao e expanso econmica, na virada do sculo XX, aconteceram protestos sobre a condio de trabalho feminino.
No dia 08 de maro de 1857, operrias de uma fbrica de tecidos, de Nova Iorque, fizeram uma grande greve. No sem razo, ocuparam a fbrica e comearam a reivindicar melhores condies de trabalho.
A manifestao foi reprimida com violncia. As mulheres foram trancadas dentro da fbrica, que foi incendiada. Naquela ocasio, aproximadamente 130 tecels morreram carbonizadas, num ato totalmente covarde e desumano.
Somente no ano de 1910, em Conferncia na Dinamarca, ficou decidido que o 8 de maro passaria a ser o Dia Internacional da Mulher, homenageando aquelas que morreram em busca de um mundo menos desigual.
Na data em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, dados divulgados pelo Ncleo de Estudos da Violncia da USP e o Frum Brasileiro de Segurana Pblica, revelam que o Brasil permanece como uma das naes mais violentas do mundo para as mulheres.
Os dados mostram que 4.473 mulheres foram vtimas de homicdio em 2017, um crescimento de 6,5% em relao a 2016, quando 4.201 mulheres foram assassinadas. Isso significa que uma mulher assassinada a cada duas horas no Brasil, taxa de 4,3 mortes para cada grupo de 100 mil pessoas do sexo feminino. Para que o leitor tenha ideia do que isso representa, se considerarmos o ltimo relatrio da Organizao Mundial da Sade, o Brasil ocuparia a 7 posio entre as naes mais violentas do planeta contra a mulher.
Ao cumprimentar cada uma das mulheres que nos do a alegria da existncia nesta data to especial, desejo profundamente que os nmeros apresentados jamais se repitam!
A mulher a obra mais perfeita do Criador! A ela, toda honra, todos os espaos e toda a glria debaixo dos cus! tempo de respeito e igualdade!
Feliz Dia Internacional da Mulher!


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Por Marcelo Eduardo Freitas - 24/2/2018 00:26:01
O ABUSO SEXUAL INFANTIL DENTRO DA FAMLIA

* Marcelo Eduardo Freitas

No tenho o hbito de assistir novelas. Nada contra queles que assistem. At admiro a pacincia dos que dedicam seu tempo a essa forma de descontrao. Acredito, contudo, que uso os meus dias com coisas melhores. Essa semana, no entanto, um dos folhetins lanou um tema muito importante e pouco debatido na sociedade: o abuso sexual infantil, principalmente dentro da famlia.

Caro leitor, o cientista francs Louis Pasteur dizia que quando vejo uma criana, ela inspira-me dois sentimentos: ternura, pelo que , e respeito pelo que pode vir a ser. Fico imaginando, assim, o caminho que estamos seguindo em sociedade. Os dados so alarmantes e exigem ateno de cada um de ns.

Para se ter uma dimenso do problema, de acordo com levantamentos do Ministrio da Justia, no Brasil so registradas ao ano mais de 21 mil denncias de explorao infantil. Cerca de 67,7% das crianas e jovens que sofrem abuso e explorao sexuais so meninas. Os meninos representam 16,52% das vtimas. Os casos em que o sexo da criana no foi informado totalizaram 15,79%.

Lado outro, os dados sobre faixa etria mostram que 40% dos casos so referentes a crianas de 0 a 11 anos. Adolescentes de 12 a 14 anos e de 15 a 17 anos correspondem, respectivamente, a 30,3% e 20,09% das denncias. Quanto ao perfil do abusador, os homens representam 62,5%, sendo adultos entre 18 e 40 anos os principais autores dos casos noticiados.

Diante de todo esse cenrio, a legislao s vem aumentando com o intuito de reprimir tal situao. Dentre outras, temos a Lei n 13.440/2017, que estipula pena obrigatria de perda de bens e valores em razo da prtica dos crimes tipificados como prostituio ou explorao sexual; a Lei n 13.441/2017, que prev a infiltrao de agentes de polcia na internet com o fim de investigar crimes contra a dignidade sexual de crianas e adolescentes; a Lei n 13.431/2017, que estabelece a escuta especializada e o depoimento especial para crianas e adolescentes vtimas ou testemunhas de violncia.

Ocorre que, mesmo com impactantes propagandas e novas legislaes, nada parece surtir o efeito almejado. Os casos de abuso sexual infantil tm aumentado! O que mais grave: mais de 80% dos abusos sexuais cometidos contra crianas e adolescentes acontecem dentro da casa da prpria vtima. Pior: mais de 50% dos casos denunciados tm como autor do abuso o pai do adolescente ou seu padrasto. Isso simplesmente terrvel! Em alguns casos, a vtima pode, mais tarde, reproduzir o dano sofrido e tornar-se um abusador!

No raras vezes me perguntam sobre qual a parte de meu trabalho que menos gosto de fazer. Sempre digo que so as operaes que versam sobre pedofilia ou aquelas que envolvam crianas de alguma maneira. uma coisa dolorida, que causa uma certa forma de dio ao autor da barbrie. No tem como no nos lembrarmos de nossos filhos.

Isso me remete minha primeira operao policial, na regio do Bico do Papagaio, no estado do Tocantins. Ao ingressar na casa de um traficante, a primeira figura que vi foi um menino (na poca com a mesma idade e feio de meu filho), esfregando os olhos e assustado com a nossa entrada que acabara de o acordar. Aquela cena me marcou muito. Aprendi que por mais enrgica que deva ser uma ao policial, sempre encontraremos pessoas, seres humanos de carne e osso como cada um de ns. Premidos por alguma condio de vida, caram no mundo do crime. Tm parentes prximos e merecem o nosso respeito!

Com o passar dos lustros, a gente acaba se anestesiando com algumas formas de maldade. At se acostuma a ver as perversidades praticadas pelo bicho homem. Entretanto, toda ao em que crianas so usadas ou abusadas nos trazem um tristeza imensurvel. As aes de combate pedofilia so dessas que difcil de acostumar. A indignao e a tristeza so enormes. Costumo dizer - ao ver essas insanidades - que o ser humano tem sido um projeto fracassado de Deus! Sei que estou errado! Mas difcil de aceitar!

As redes sociais tm ajudado a banalizar as mltiplas formas de violncia. Aos poucos, estamos legitimando linchamentos, torturas, abusos e sacrilgios. Quero aqui chamar a ateno, assim, para essa terrvel forma de crueldade. Que sejamos capazes de identificar o mal e estender as mos a quem mais necessita. Que crianas e jovens cresam no caminho do bem e no venham a sofrer qualquer forma de abuso. A essncia para se construir uma sociedade justa est na famlia! Preserve a sua e eduque os seus filhos no caminho do bem! Certamente teremos dias de glria, onde relatos de abuso sexual infantil sejam apenas histrias de livros de terror.

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


83109
Por Marcelo Eduardo Freitas - 17/2/2018 06:20:36
O candidato paraquedista, o atentado democraciae a desgraa que assola o Norte de Minas

* Marcelo Eduardo Freitas

Em tempos onde as irms siamesas tica e moral agonizam em nossa Repblica, confesso que pensei em escrever algo que realmente pudesse impactar o leitor, no apenas pela razo, antes, contudo, por fora da emoo. Proponho aqui um exerccio dialtico com as vozes que ecoam do corao. O essencial, por vezes, invisvel aos olhos!
Nasci e fui criado na zona rural. Estudei em escolas pblicas durante toda a minha vida. Na infncia, os cadernos ainda tinham fotos de candidatos. Era a nica maneira de escrevermos em papel. Sem eles, s nos sobravam o quadro, as paredes e as pedras na beira do rio, onde escrevamos com o to, uma espcie de torro que saciou a fome anmica de muitos de minha gerao. Eram tempos de muitas guas. Confesso, no entanto, que jamais vi ou ouvi os candidatos com os quais estudei. Eram todos de locais distantes que, admito, nunca imaginei estar.
O tempo, no entanto, no s cura a alma, mas tambm nos reconcilia com o futuro que logo vira passado. No sem razo, em Esa e Jac, Machado de Assis o define como um rato roedor das coisas, que as diminui ou altera no sentido de lhes dar outro aspecto. O estudo deu uma outra feio minha vida!
Hoje, homem feito talvez, ainda observo com um olhar nostlgico os tempos idos. Mas sinto no peito a mesma tristeza de outrora. Uma dor aguda. A situao do Norte de Minas ainda permanece inalterada! Os incautos dessas bandas, acreditem, ainda elegem bares de outros lados de nosso Estado e da capital. Alguns, registro, nunca sentiram o calor do norte, a poeira vermelha, a seca, a fome, a excluso, a ausncia de sade, o sofrimento do sertanejo.
Caro leitor, Dante Alighieri, "o sumo poeta" italiano, dizia que no inferno os lugares mais quentes so reservados queles que escolheram a neutralidade em tempo de crise. inaceitvel o silncio de homens e mulheres considerados de bem, quando confrontados com o que se denomina candidato paraquedista, assim considerado aquele que s aparece em poca de eleio. Em uma linguagem bem simples, so aqueles candidatos que residem em uma regio bem longe da nossa e, sem pudor, vm pedir votos em nossas casas. Passada a apurao, nunca mais o veremos!
deprimente e causa nuseas observar diversos prefeitos apoiarem candidatos de fora, sem qualquer compromisso com a regio. No tenho receio em afirmar que a misria que historicamente causa desgraa aos cidados dessas bandas pode ser tributada baixssima representatividade que historicamente ostentamos. Quem de fora, meus amigos, no tem compromisso com a sua sade pblica, com a segurana pblica de sua cidade, com a educao pblica de seus filhos.
Incontveis vezes vi e ouvi relatos de pessoas que, por absoluta inexistncia de Ateno Bsica Sade (ABS), presenciaram a dor da morte em ambulncias a caminho da cidade de Montes Claros. Crianas que faltam s aulas por ausncia de merendas nas escolas. Famlias que se findam em trgicos acidentes causados pela escassez de boas estradas. Segurana pblica sendo enaltecida com o aporte de uma viatura policial frota da cidade. simplesmente ultrajante! E nesse perodo do ano a desgraa aumenta! Observo em redes sociais e em jornais impressos a cara de pau de vereadores, prefeitos e lderes comunitrios que se gabam em receber uma ambulncia, um trator, um caminho como se fosse um verdadeiro benefcio para a comunidade. Isso , em verdade, uma tremenda vergonha!
Meus amigos, isso no melhora em absolutamente nada as suas cidades! um engodo, uma grande enganao, uma farsa para buscar novamente o seu voto e entregar-lhe a forasteiros, gente de fora. Se querem discutir sade pblica, indaguem a seus representantes sobre quem ir atender a sua famlia quando faltar-lhes a sade. Para qual hospital sero levados os seus entes queridos quando sobrevier a doena. Perguntem a seu prefeito sobre o ndice de desenvolvimento humano de sua cidade, sobre o ndice de Desenvolvimento da Educao Bsica (Ideb) da escola de seus filhos e o que, concretamente, tem sido feito para melhor-los.
Ningum pretende que a democracia seja perfeita ou sem defeito. Tem-se dito que a democracia a pior forma de governo, salvo todas as demais formas que tm sido experimentadas de tempos em tempos. Entretanto, em nossa regio, a coisa tem sido muito feia! H uma maneira, contudo, de enfrentar esse quadro. Comece vomitando na cara de quem engana o povo, de quem mente deslavadamente para o eleitor, de quem no respeita a conscincia do cidado e compra votos como se fosse bananas. Basta!
possvel mudar! preciso renascer de forma muito parecida com o que faz a nossa vegetao todos os anos, mesmo quando as vidas paream ridas. Como o espao curto, a revolta grande e a esperana persevera, s nos resta concluir essa provocao ao debate com as palavras de Jos Saramago: Eu tinha dito que iria propor tirar a palavra utopia do dicionrio. Mas, enfim, no vou a tanto. Deixe ela l estar, porque est quieta. O que eu queria dizer, que h uma outra questo que tem de ser urgentemente revista. Tudo se discute neste mundo, menos uma nica coisa: a democracia. Ela est a, como se fosse uma espcie de santa no altar, de quem j no se espera milagres, mas que est a como referncia. E no se repara que a democracia em que vivemos uma democracia seqestrada, condicionada, amputada. assim nestes sertes das gerais!

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


83094
Por Marcelo Eduardo Freitas - 10/2/2018 10:16:42
A reforma da previdncia e a vida de inocentes

* Marcelo Eduardo Freitas

Um dos assuntos mais discutidos recentemente, com o apoio escancarado da grande mdia, tem sido a questo alusiva reforma da previdncia.

Apresentado originariamente em dezembro de 2016, o texto sofreu diversas alteraes desde a comisso especial da Cmara dos Deputados, o que evidencia que no houve um estudo aprofundado sobre o tema, muito menos um cuidado sobre as estratgias necessrias aprovao da reforma em questo.

A dificuldade para conseguir os 308 votos favorveis (3/5 dos Deputados), em duas votaes no plenrio, qurum necessrio aprovao de Emendas Constitucionais, fez com que o governo enxugasse a proposta mais uma vez, em uma tentativa de garantir a aprovao.

O presidente da Cmara, Rodrigo Maia, pretende pautar a matria at o fim de fevereiro. O texto, entretanto, ainda no conta com o apoio de 308 Deputados, como demonstrado, o mnimo necessrio para aprovar uma proposta de emenda Constituio (PEC). O governo continua com apenas 270 votos de Deputados favorveis medida.

Tudo leva a crer que, se chegar a maro ainda sem votos, o assunto dever ser engavetado no Parlamento Federal. Mas, caso seja possvel garantir os 314 votos prometidos pelo ministro da Secretaria de Governo, Carlos Marun, e ser aprovado em dois turnos, o texto seguir para o Senado, onde precisar tambm do apoio de dois teros dos senadores, o que equivale a 54 dos 81, novamente em duas fases de votao para, enfim, poder ser promulgado.

Nesta semana, demonstrando uma estridente ausncia de articulao, o presidente do Senado, Euncio Oliveira, afirmou que no ter pressa para pautar a matria. A Cmara est h um ano e meio discutindo isso. Se votarem a reforma da Previdncia e ela vier para o Senado, seguiremos ritos normais de tramitao.

A questo complexa. A reforma da Previdncia est longe de ser consenso at mesmo entre os pr-candidatos Presidncia da Repblica, que opinam de modo completamente destoante uns dos outros.

A grande verdade que o governo federal errou feio ao eleger determinadas categorias funcionais para serem satanizadas. o que se buscou fazer, por exemplo, com os funcionrios pblicos, apresentados em propagandas estatais, por grandes veculos de comunicao, como se fossem verdadeiros privilegiados.

Esse aspecto merece uma digresso especial. A nosso sentir, a escolha dos funcionrios pblicos como alvos nada tem de ocasional. Manipula-se preconceitos difusos para se criar um inimigo externo ao tempo em que se busca demonizar os servidores pblicos estveis e independentes, estruturados pela Constituio de 1988.

Ora, so estes funcionrios estveis, que ingressaram no servio pblico antes de 2003, principalmente das carreiras de estado, que formam a espinha dorsal das carreiras que investigam, fiscalizam, processam, incomodam as foras polticas que esto no poder. O objetivo final vai muito alm da previdncia, portanto, o que se busca, claramente, manter o sistema poltico corrompido.

J se dizia que, na guerra, a verdade sempre a primeira vtima. O grande problema que se apresenta expor sociedade os nmeros tais quais eles realmente so. Isso o governo federal no fez! Em pleno sculo XXI, com mdias sociais torpedeando a vida das pessoas, um equvoco primrio. O problema do suposto dficit da previdncia social no Brasil, por exemplo, no est no envelhecimento da populao, mas sim na ineficincia dos governantes que administram o sistema e no desvio das importncias para outras finalidades, completamente alheias seguridade social.

Em sntese, no posso concordar com uma reforma que paga nica e exclusivamente pelos trabalhadores, sem qualquer enfrentamento s terrveis renncias fiscais, por exemplo. preciso concertar a Previdncia, admito. Mas que se inicie por onde est o erro, particularmente salrios, aposentadorias e benefcios que esto em desacordo com a moralidade, a tica, a decncia, a humanidade e no atacar, justamente, aqueles que s contriburam para o engrandecimento deste pas. Como diria o professor Luiz Roberto Bodstein:

Na juventude, quando se desfruta do encontrado no pomar.
A maturidade o tempo de plantar.
A velhice o tempo de colher.

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


83062
Por Marcelo Eduardo Freitas - 3/2/2018 08:41:24
O foro privilegiado e a premente necessidade de seu fim

* Marcelo Eduardo Freitas

Na semana que se passou, ao escrever sobre o crepitar do que seria uma nova era em nossa nao, particularmente aps a condenao do ex-presidente Lula, percebi que muitos dos articulistas com os quais debatemos, independente de bandeiras, questionaram atuaes anteriores de nossos tribunais superiores, mormente sobre a situao de alguns mandatrios, ocupantes de altos cargos em nossa repblica, intocveis pela mo punitiva do Estado: os famosos detentores de foro privilegiado!

Assim, at mesmo por fora de um dever cvico, no poderamos fugir ao debate em torno deste tormentoso tema, j que o poder das normas em um Estado Democrtico de Direito deveria ter o condo de colocar todos abaixo delas e reafirmar que, independente do cargo que se ocupa, da condio socioeconmica da pessoa ou da sua cor da pele, a lei est acima de cada um de ns!

Em uma breve digresso histrica, temos que o foro por prerrogativa de funo, aqui simplesmente foro privilegiado, foi criado pela Constituio de 1824, que assim estabelecia: excepo das causas, que por sua natureza pertencem a Juzos particulares, na conformidade das Leis, no haver Foro privilegiado, nem Commisses especiaes nas causas cveis, ou crimes.

Em 1889, a ento nova Constituio Federal republicana deu competncia ao Senado para julgar os membros do Supremo Tribunal Federal nos crimes de responsabilidade. A estes, como um certo contrapeso, atribuiu-se o poder de julgar os juzes federais inferiores, o presidente da Repblica e os Ministros de Estado, guisa de exemplos.

Desde ento, o foro privilegiado sempre esteve inserido em nossas Constituies, apregoando ora de maneira mais ampla, ora com menos abrangncia, os cargos que teriam o julgamento com uma forma de conduo diferente dos demais. A maior adio lei do foro veio em 1969. Em plena ditadura, concedeu-se a prerrogativa a todos os parlamentares, com o Congresso fechado aps a promulgao do AI-5.

Em uma resumida definio, tem-se que o foro privilegiado um instituto que permite que determinadas autoridades, em virtude do cargo ou funo que exeram, sejam processadas e julgadas, originariamente, pelos tribunais inferiores (ou de 2 grau), tribunais superiores ou pelo Supremo Tribunal Federal, nos casos estabelecidos na Constituio Federal, especialmente em situaes envolvendo os nossos deputados e senadores.

A Constituio brasileira uma das mais generosas do mundo em relao ao assunto. Atualmente, 54.990 pessoas tm foro privilegiado no Brasil. Alm do presidente e do vice, tm direito a julgamento em instncias superiores todos os ministros, os comandantes do Exrcito, Marinha e Aeronutica, todos os governadores, prefeitos, senadores, deputados federais, juzes, membros do Ministrio Pblico (federal e estaduais), chefes de misso diplomtica permanente, ministros do STF, TST, STM, TSE e STJ, da PGR, do TCU e conselheiros de tribunais de contas estaduais, alm de algumas categorias mais especficas e outras funes em que o foro determinado pelas constituies estaduais, como vereadores, por exemplo.

A criao pode at ter sido lastreada em bons propsitos. Lamentavelmente, contudo, a finalidade do instituto tem sido completamente deturpada, servindo, em muitos casos, de escudo para evitar processos judiciais ou condenaes para autoridades pblicas que fazem mal feitos.

guisa de exemplos recentes, citam-se os casos do atual presidente da repblica, Michel Temer, e do senador Acio Neves, este com a chancela de nosso Supremo Tribunal Federal, o que fez com que legislativos municipais e estaduais, Brasil afora, aproveitassem a deciso sobre o senador tucano para livrar seus prprios deputados e vereadores, alvos de mandados de priso ou ordens de afastamento.

A situao acima fez com que inmeras crticas surgissem de norte a sul do pas. Diversas perguntas ainda quedam sem respostas. Aqui reproduzo algumas delas, com destinao direta aos nossos Ministros do Supremo Tribunal Federal: Se o STF autorizou a priso aps condenao em segunda instncia, por que ministros continuam a conceder habeas corpus contra a orientao do plenrio, como se o precedente no existisse? Se a restrio ao foro privilegiado j tem oito votos favorveis, pode um ministro pedir vista sob alegao de que o Congresso se manifestar a respeito? Pode ignorar o prazo para devoluo do processo? Se l chegam tantos casos centrais da agenda do pas, como pode um magistrado, sozinho, manipular a pauta pblica ao seu sabor (por meio de pedidos de vista, de liminares engavetadas etc.)?

Enfim, como sucessivamente apregoado, chegou a hora de mudar o Brasil. O fim do foro privilegiado uma dessas medidas que impactam na construo de um pas melhor. Se somos todos iguais (e somos) nada h que justifique a seleo de juzes para apitar determinado jogo! Eu confio nos magistrados de primeira instncia e no tenho qualquer receio de ser julgado por qualquer um deles!

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


83037
Por Marcelo Eduardo Freitas - 26/1/2018 22:26:13
NO IMPORTA O QUO ALTO VOC ESTEJA, A LEI AINDA EST ACIMA DE VOC

* Marcelo Eduardo Freitas

Em traduo livre do ingls be you never so high the law is above you, a clebre frase com a qual iniciamos esse texto atribuda ao religioso e historiador britnico Thomas Fuller, no sculo XVII.
Em terras tupiniquins, a citao ganhou corpo a partir do momento em que o Juiz Srgio Moro a utilizou para concluir a sentena que condenou o ex-presidente Luiz Incio Lula da Silva pelos crimes de corrupo e lavagem de dinheiro, no rumoroso caso do triplex de Guaruj (SP).
Em sua deciso, criticada por algumas agremiaes por ser considerada absolutamente severa e parcial, assim sintetizou o nclito magistrado de primeira instncia: Registre-se que a presente condenao no traz a este julgador qualquer satisfao pessoal, pelo contrrio. de todo lamentvel que um ex-Presidente da Repblica seja condenado criminalmente, mas a causa disso so os crimes por ele praticados e a culpa no da regular aplicao da lei. Prevalece, enfim, o ditado no importa o quo alto voc esteja, a lei ainda est acima de voc꒔.
Na ltima quarta-feira (24/01), por unanimidade, os trs desembargadores da 8 Turma do Tribunal Regional Federal da 4 Regio, com sede em Porto Alegre/RS, decidiram em favor de manter a condenao e ampliar a pena de priso em desfavor do ex-mandatrio petista para 12 anos e 01 ms, teoricamente o tornando inelegvel em face da Lei Complementar 135/2010, conhecida como Lei da Ficha Limpa. A deciso de Moro, pela quantia da reprimenda aplicada, se tornara benevolente, ainda que os seus opositores a isso no tenha dado qualquer destaque.
Parafraseando o ex-ministro Ayres Brito, do Supremo Tribunal Federal, d um certo gosto de fel em observar um estadista se ver condenado de maneira to deprimente. triste observar a derrocada de quem saiu da misria e ocupou o maior posto de nossa nao, aquele que um dia fez a esperana vencer o medo. Lado outro, no se pode negar: bonito de se ver a maturidade com que nossas instituies, ainda que de maneira tmida, tm enfrentado os criminosos de colarinho branco.
No sem razo, o Desembargado Victor Laus, um dos julgadores do rumoro caso, fez constar: Talvez o que haja de mais singular, mais peculiar nesta operao Lava Jato seja a feliz reunio de talento, entusiasmo, interesse, competncia e qualificao profissional, ou seja, no momento especial que o pas vive, policiais, peritos, membros do ministrio pblico federal, delegados e brilhantes advogados reuniram-se e debruaram-se sobre todos os trabalhos coligidos no mbito desta investigao. Se h alguma coisa que seja absolutamente incontroverso no mbito da operao Lava Jato, a qualificao dos profissionais que sobre ela esto se debruando....
Sem qualquer satisfao pessoal pela condenao de quem quer que seja, se antes eram somente os pretos, os pobres e as prostitutas, a percepo que hoje se tem realmente no sentido de que ningum est acima da lei. Acreditem, isso auspicioso! No se est negando, no entanto, que tudo isso recente. Muito menos no se pode deixar de registrar que todas as inovaes legislativas, que permitiram tocar um dos maiores lderes polticos de nossa repblica, foram geradas na gesto do prprio Partido dos Trabalhadores. Refiro-me aqui, guisa de exemplos, s leis anticorrupo, de combate ao crime organizado, de lavagem de dinheiro, entre tantas outras. O feitio voltou-se contra os feiticeiros!
Acompanhei de perto e atentamente, durante todos esses anos, esse quadro de mudanas. Sou quota integrante de boa parte disso e participei de vrias das aes que hoje se tm por exitosas, particularmente daquelas que tocaram o ex-deputado Eduardo Cunha e os Senadores Renan Calheiros, Fernando Collor de Mello, entre tantos outros, antes ungidos.
Delaes e confisses marcaram a condenao de Lula. Dentre estas, consigna-se a do ex-ministro Antnio Palocci, contendo variadas informaes sobre propinas em stio, prdio e apartamento, alguns dos casos ainda pendentes de julgamentos. Que a mesma regra valha, indistintamente, para todos, independente da cor da bandeira que se ostenta. Mostrada a culpa, que se condenem os Michels, Acios, Geddels, Cunhas, Garotinhos, Cabrals, Renans, Rodrigos, entre vrios outros no menos nocivos aos interesses nacionais.
Que os homens pblicos de nossa politia aprendam de vez a fazer o certo sem olhar a quem. Que percebam a gesto da coisa pblica como se fosse algo verdadeiramente sagrado. Que escolham bem seus fiis escudeiros, amigos destra. Nas palavras do mesmo historiador que deu azo ao ttulo desta perorao, homem nenhum pode ser feliz sem um amigo, nem pode estar certo desse amigo enquanto no for infeliz. Que a verdade se sobreponha s trevas! O Brasil precisa de muita luz!

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


83030
Por Marcelo Eduardo Freitas - 20/1/2018 10:31:48
ROUPA NOVA EM CORPO VELHO

* Marcelo Eduardo Freitas

Uma passagem extremamente marcante da Bblia Crist pode ser encontrada no Evangelho de Lucas, o Evangelista, terceiro dos quatro Evangelhos cannicos. Ele relata a vida e o ministrio de Jesus de Nazar, detalhando a histria dos acontecimentos, desde o nascimento ascenso. Alguns estudiosos da Bblia entendem que o autor do Evangelho de Lucas tambm escreveu o Atos dos Apstolos.

Em seu captulo 5, a Boa Nova registra uma discusso sobre a prtica do jejum. H dois grupos de discpulos que o praticam, os de Joo e os dos fariseus, ao passo que os discpulos de Jesus no o fazem.

Instado a se manifestar sobre o tormentoso tema que at os dias atuais provoca manifestaes acaloradas entre fieis, Jesus esclarece: Os convidados de um casamento podem fazer jejum enquanto o noivo est com eles? Mas dias viro em que o noivo ser tirado do meio deles. Ento, naqueles dias, eles jejuaro. E contou-lhes uma parbola: Ningum tira retalho de roupa nova para fazer remendo em roupa velha; seno vai rasgar a roupa nova e o retalho novo no combinar com a roupa velha.

Caro leitor, creio que uma das maiores virtudes dos Evangelhos est em relegar ensinamentos que se mostram, ainda que se passem os lustros, mais atuais do que nunca. Com efeito, por mais que se queira, ningum pode negar que vivemos novos tempos. O propalado tempo da espera j se cumpriu! A comparao de Jesus, deste modo, acentua a necessidade de dar um salto de qualidade para superar esquemas envelhecidos e assumir a novidade que est por vir.

A digresso acima, destarte, tem um propsito, contextualizado com a realidade atual: trazer ao debate pblico a terrvel situao de nossa nao, estrangulada por uma enorme gama de desvios comportamentais, mxime de nossos representantes, em sua maioria eleitos pelo povo. Para os menos esclarecidos, o mesmo grupo dos ltimos quarenta anos, sem qualquer renovao efetiva! gritante que h algo de errado! Com milionria estrutura de marketing, trocam-se as roupas, as colocam no velho e o apresentam como novo. Com isso, consuma-se a fraude que se repete a cada dois anos!

Recente pesquisa conduzida pelo instituto Idea Big Data mostra que 56% dos eleitores no pretendem reeleger nenhum candidato nas prximas eleies, independentemente do cargo! Ao mesmo tempo, 64% das pessoas no pretendem votar em nenhum envolvido na operao Lava Jato, sejam eles inocentes ou no!

Quando perguntados pelo citado instituto de pesquisa se preferiam um lder ou um gestor para presidncia da Repblica em 2018, 68% dos entrevistados disseram gestor. Mesmo sem saber ao certo o que significa um termo ou outro, o sentimento do eleitor para 2018 parece estar mais apartidrio do que nunca, no obstante manifestaes isoladas em redes sociais que paream dizer o contrrio.

Os nmeros so fortes, sobretudo para eleio majoritria (Governador, Senador e Presidente). No caso da proporcional (Deputados), o clculo mais difcil, at porque teremos que ver se a famigerada atuao dos cabos eleitorais - ou lderes comunitrios, no raras vezes lobos travestidos em peles de cordeiros - ainda ter o mesmo efeito de outrora, movidos que so por moedas de prata jogadas por estrangeiros. Alguma semelhana com o Norte de Minas?

No obstante as conhecidas adversidades, o cenrio alvissareiro! A natureza humana tem uma grande capacidade de renovar nossos sonhos! Tudo aquilo que acreditvamos ser o suficiente para tornarmos uma pessoa realizada acaba por se tornar apenas mais um degrau na busca pela realizao do que ainda est por vir!

O meu ideal poltico a democracia, para que todo o homem seja respeitado como indivduo e nenhum venerado. Que surjam novos dias, meses, anos melhores para que possamos renovar nossas esperanas. Que venham novas amizades, novos amores, novas expectativas, novos nomes na poltica, enfim. Caso contrrio no h esperana que sobreviva a tanto tempo agonizando. Roupa nova em corpo novo! o momento de construirmos a nao que queremos! Renovo minhas crnicas em 2018 promovendo uma ode ao que ainda est por vir...

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


82683
Por Marcelo Eduardo Freitas - 9/9/2017 09:07:37
O DILEMA DO PRISIONEIRO E AS MALAS DE GEDDEL

* Marcelo Eduardo Freitas

Acabo de ver pelos jornais que o ex-ministro Geddel Vieira Lima, do PMDB, foi preso preventivamente, em Salvador, na manh da ltima sexta-feira. A priso ocorre trs dias aps a Polcia Federal ter apreendido R$ 51 milhes em uma espcie de bunker, utilizado pelo peemedebista. As impresses digitais coletadas no imvel no deixam dvidas, no obstante a presuno de inocncia, aqui respeitada.

As investigaes efetivadas at agora evidenciam que o peemedebista, valendo-se de seu cargo na Caixa Econmica Federal, "agia internamente, de forma orquestrada", para beneficiar empresas com liberaes de crditos dentro de sua diretoria, alm de fornecer informaes privilegiadas para os outros integrantes da organizao criminosa composta, dentre outros, pelo deputado cassado Eduardo Cunha, do PMDB do Rio de Janeiro, tambm preso.

De fato, as malas recheadas de dinheiro fizeram pipocar nas redes sociais uma srie de brincadeiras diversas, no obstante a gravidade da situao. Brasileiro assim mesmo! Gosta de fazer piadas at mesmo nos momentos de desgraa! Uma delas, comparava as malas de Geddel necessaire, uma espcie de bolsa pequena, arrastada s pressas pelo tambm ex-deputado federal Rocha Loures. Os escndalos so tantos que uns, muito graves, so sucedidos por outros, mais graves ainda.

preciso deixar claro que os R$ 51 milhes de reais, apresentados de maneira s antes vista nos grandes cartis de drogas do mundo, representa apenas uma pequena gota no grande mar de lamas chamado corrupo, que cada vez mais gera misria ao sofrido povo brasileiro. Caro leitor, o Brasil perde ao ano quase R$ 800 bilhes de reais exclusivamente por conta da corrupo! Por mais que a lava jato tenha descortinado um novo olhar social, ainda - enquanto nao - no percebemos os desvios que acontecem ao nosso redor. Somos um dos pases menos transparentes do mundo nesse aspecto (percepo da corrupo). Alis, chamo a ateno para o filme, recm lanado, Polcia Federal - a Lei para todos!, onde essas questes so muito bem abordadas. Vale a pena ver!

Com Geddel preso, que fique claro, algo mais ainda pode acontecer, mormente em situaes em que, sabemos todos, ele no agia sozinho! Chamo a ateno neste breve espao, de maneira muito superficial, para aquilo que, na teoria dos jogos, se chama de dilema do prisioneiro.

O dilema do prisioneiro um jogo bastante conhecido entre os estudiosos do direito penal que representa bem o impasse entre cooperar e trair. Resumidamente, a histria a seguinte. Dois suspeitos, A e B, so presos pela Polcia (Federal). A polcia, sem provas suficientes para os condenar, ento separa os prisioneiros em salas diferentes e oferece a ambos o mesmo acordo:

1. Se um dos prisioneiros confessar (trair o outro) e o outro permanecer em silncio, o que confessou sai livre enquanto o cmplice silencioso cumpre 10 anos de cana.

2. Se ambos ficarem em silncio (colaborarem um com ou outro), a polcia s pode conseguir conden-los a 1 ano cada um.

3. Se ambos confessarem (trarem o comparsa), cada um leva 5 anos de cadeia.

Cada prisioneiro faz a deciso sem saber a escolha do outro - eles no podem conversar. Como o prisioneiro deve reagir? Existe alguma deciso racional a tomar? Qual seria a sua deciso, caro leitor?

Trouxe esse tema discusso para que todos tenham a noo de como as prises ganham relevncia em situaes como a de Geddel. No sem razo, assim, as defesas tcnicas buscam costurar mecanismos para revogar, de forma cada vez mais clere, o dilema a ser enfrentado pelo prisioneiro. Antes, somente suportado por minorias excludas, eleitas pelo sistema para serem penalizadas! Eis os tempos!

O leitor mais atento vai observar que o ex-ministro do PT, Antonio Palocci, conforme amplamente noticiado pela imprensa, parece ter adotado, ante o dilema do prisioneiro, a posio de, no crcere, delatar os seus antigos companheiros de partido.

momento assim de transparncia! preciso que deixemos nossas bandeiras partidrias de lado e faamos a escolha do que realmente representa o melhor para nosso pas. No d mais para apoiar corruptos, bandidos safados que, dia aps dia, com ou sem lava jato, roubam dinheiro do povo, gerando cada vez mais misria, prantos e ranger de dentes! Sejamos sensatos! Nas palavras do Juiz Srgio Moro, a corrupo no tem cores partidrias. No monoplio de agremiaes polticas ou governos especficos. Combat-la deve ser bandeira da esquerda e da direita. dever de cada um de ns!

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


82643
Por Marcelo Eduardo Freitas - 2/9/2017 09:44:02
A mulher e os seus medos

* Marcelo Eduardo Freitas

Tenho uma filha feminista e me orgulho disso! Contudo, na busca por construir condies de igualdade entre os gneros, ela defende algumas ideias que, no raras vezes, chega a assustar. Uma concepo moderna, madura, lastreada nos ideais scio-polticos do sculo XIX, forte at demais para uma adolescente meio criana, meio mulher.

Hoje, na busca por escolher o tema dessa perorao, lembrei-me de uma de nossas conversas recentes, ocasio em que tratamos sobre o fato de ser mulher nesses tumultuados dias que vivemos.

Achei interessante aquela menina, travestida de mulher, me revelar pontos intrigantes que s vezes passa desapercebido. Traduzindo para uma linguagem simples, so medos e receios que qualquer mulher carrega. Quer um exemplo? Quando sozinha, andando na rua, se a mulher olhar para trs e observar a presena de um homem, ela fica receosa, muitas apressam o passo e ficam com medo. Mas se aquela pessoa estranha for outra mulher, o sentimento de conforto, de alvio.

Esse relato primrio me deixou pensativo, at porque na semana que se passou uma das pautas dos telejornais foi justamente o feminicdio e os seus assustadores nmeros em dias atuais. Dados chocantes de uma realidade que, ao invs de acabar, s aumenta! Mas como evitar isso? O que est acontecendo para que a violncia contra a mulher se banalize dessa forma? So questes que precisam ser discutidas em todos os ambientes coletivos, com particular nfase para as famlias.

E as pesquisas no param por a... As classes mais abastadas tm um ndice inferior de violncia contra a mulher. No pelo elevado nvel de instruo e/ou educao que se diz ter. Mas em virtude do receio daquela que sofre a agresso de ver-se fora das pginas de colunas sociais, numa migrao considerada aviltante para as manchetes policiais.

Na conversa entre pai e filha, o que mais causa estranheza a maneira como se judicializa uma questo social que deveria ser encarada de forma direta, como poltica efetivamente pblica. O medo, caro leitor, intrnseco ao sexo feminino! (In) justamente porque nossa sociedade realmente machista! Criamos os nossos filhos homens com maior liberdade de ao. As meninas conquistam espao meio que por garimpagem. Freqentemente so tolhidas (na maioria das vezes pela me, pela av) pelas mulheres mais velhas que se viram na mesma situao e receiam pelas conquistas das novas geraes. E ainda assim acreditamos na evoluo da espcie...

A esta altura, no nos custa indagar: o que leva um homem a seguir uma mulher, a ter o sentimento de posse sobre ela, a impedi-la de viver a vida, de decidir sobre os rumos a seguir, de crescer conforme sua convenincia? Onde vai parar essa concepo de que a obrigao de limpar, lavar, passar e cozinhar sempre feminina? Por que dar criana do sexo feminino uma vassourinha de brinquedo, uma mquina de lavar roupas, um fogozinho para fazer comidinha? Em pleno sculo XXI, ser essa a melhor opo?

O cantor Erasmo Carlo, em homenagem s mulheres, entonava que dizem que a mulher sexo frgil, mas que mentira absurda, Eu que fao parte da rotina de uma delas, sei que a fora est com ela.... E ele tem razo! Porque quando penso nas mulheres que conheo, sempre me vem cabea muitas que com pequenos atos dirios de amor feminino mudaram o mundo. Reflito sobre minha formao e o poder de minha me para me moldar no homem que hoje sou. Na sua fora, no seu carinho, na sua delicadeza, em seu amor. Vejo minha filha e, em tempos de modernidade lquida, enxergo um futuro dinmico, ntegro, firme, mas envolvido em uma delicadeza e uma capacidade de cativar absurdamente inerentes ao gnero feminino. E nesse olhar paradoxal, para trs e para frente, a beleza feminina encanta! Que me perdoem os homens, mas a grandeza das mulheres sublime!

Volto, ento, aos temores femininos, que desmancham esse meu pensar potico, propondo uma profunda reflexo sobre a realidade da violncia e amedrontamento por que passam as mulheres. Que nesse florescer de setembro, que trs consigo a beleza das flores e da primavera, possamos refletir de maneira franca e crtica sobre as mulheres nossa volta, particularmente sobre seus anseios e inquietaes. Como as tratamos, o que queremos e o que faz bem a elas?

De uma coisa tenho certeza, alm da morte: mulher esteio! Como ensina a melodia que faz bem aos ouvidos: Mulher, mulher, na escola em que voc foi ensinada, jamais tirei um dez! Sou forte, mas no chego aos seus ps! Toda honra e toda a glria quela que, com medo, o cerne da vida!

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


82627
Por Marcelo Eduardo Freitas - 26/8/2017 10:49:50
As administraes municipais e a polcia do po e circo

* Marcelo Eduardo Freitas

As expresses latinas Panem et circenses foram adotadas durante o imprio romano a fim de se referirem poltica do po e circo. Em resumo, era a maneira como os lderes romanos lidavam com a populao em geral, para mant-la fiel ordem estabelecida e conquistar o apoio do povo.

Esta frase tem origem na Stira X do humorista e poeta romano conhecido por Juvenal, que viveu por volta do ano 100 d.C., e no seu contexto original criticava a falta de informao do povo romano, que no tinha qualquer interesse em assuntos polticos, s se preocupando, por consequncia, com o alimento e o divertimento.

J de incio nesta loa conscincia crtica, no por demais citar Bertolt Brecht, para quem o pior analfabeto o analfabeto poltico. Ele no ouve, no fala, nem participa dos acontecimentos polticos. Ele no sabe que o custo de vida, o preo do feijo, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remdio depende das decises polticas. O analfabeto poltico to burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a poltica. No sabe o imbecil que da sua ignorncia poltica nasce prostituta, o menor abandonado e o pior de todos os bandidos que o poltico vigarista, pilantra, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo.

Historicamente, pesquisadores e historiadores acreditavam que essa poltica fora criada como uma medida de manipulao de massas, onde a aristocracia incentivava a plebe de certa forma a ficar cada vez mais desinteressada em poltica e dar ateno somente para prazeres como a comida, atravs do po, e o divertimento, retratado pelo circo.

Carcopino, arquelogo e historiador francs, afirmava que, por ter muito tempo livre e por ser ociosa, a plebe poderia revoltar-se contra o governo, e para que isso no ocorresse era necessrio criar polticas como a do po e circo, para mant-la sob controle.

Em verdade, assim, a poltica do po e circo foi de extrema importncia para se buscar uma estabilidade social na sociedade romana. Com ela, as classes dominantes buscavam controlar e conter os nimos da populao pobre, evitando, dessa forma, que as rebelies se tornassem cada vez mais constantes.

Projetando o po e circo para os nossos dias, particularmente para as administraes municipais, abro os jornais do sofrido Norte de Minas Gerais e vejo como os hospitais esto sucateados, sem mdicos, sem medicamentes, sem atendimento. A educao em frangalhos, sem merenda, sem bons professores, sem dignidade. A segurana pblica estrangulada, sem policiais, sem viaturas, sem armamentos, sem coletes, sem local adequado para reciclar presos. Sim, lixos so reciclveis, recuperveis. Seres humanos parece que no so

Surge, a partir destes intricados problemas, as seguintes indagaes: como os gestores brasileiros governam sem, pelo menos, haver sinal de subverso social? Por que a maioria se submete, silenciosamente, a essa forma aviltante de privao?

A resposta parece estar nas estratgias polticas. No Brasil, percebe-se a aplicao - nas devidas propores - do po e do circo, em que o governo, em suas trs esferas, por meio de medidas assistencialistas, jogos de futebol e shows musicais, alienam a populao em relao aos problemas da nao.

Sem olvidar da relevncia da cultura, como pode um prefeito se preocupar com festas populares enquanto a populao no possui remdios bsicos nos hospitais? Como aceitar municpios quebrados, sem dinheiro para pagar servidores, com dvidas para todos os lados, contratar cantores musicais a preos de ouro?

Causa revolta observar, com lucidez, o que tem acontecido em nossa regio. Meu Deus, festejar o qu, se o povo est morrendo mingua, se a criana no tem merenda na escola, se o bandido rouba luz do dia, se o pai de famlia no tem emprego? Vamos corrigir, com prioridade, problemas estruturais de nossa sociedade! S aps, com serenidade, poderemos comemorar algo! Ser que estou escrevendo qualquer coisa difcil de ser compreendida? Vale realmente pena sorrir em um dia de festividades musicais e penar um ano inteiro de tristes realidades? Sem trabalho, sem educao, sem sade, sem segurana!

O professor Paulo Freire dizia que o ser alienado no procura um mundo autntico. Isto provoca uma nostalgia: deseja outro pas e lamenta ter nascido no seu. Tem vergonha da sua realidade. Nada mais realista para uma regio que parece ter parado no tempo, onde IDHs e IDEBs so siglas completamente desconhecidas daqueles que, eleitos pelo povo, ainda insistem em distorcer a imagem do real.

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


82608
Por Marcelo Eduardo Freitas - 19/8/2017 08:05:10
O ATENTADO EM BARCELONA E A MORTE EM NOME DE DEUS

* Marcelo Eduardo Freitas

Acabo de ver pelos jornais de todo o mundo mais um terrvel atentando contra a humanidade. Sem dor ou remorso, o motorista de uma van, num grande arremedo de irracionalidade, atropelou vrias pessoas em uma das regies tursticas mais movimentadas de Barcelona, segunda cidade mais populosa da Espanha, deixando ao menos 13 mortos e uma centena de feridos de pelo menos 18 nacionalidades distintas.

Criado com o objetivo original de estabelecer um califado nas regies de maioria sunita no Iraque, autoproclamando como autoridade religiosa sobre todos os muulmanos do mundo, o grupo Estado Islmico assumiu a autoria. Os jihadistas sunitas, assim, se apresentam como herdeiros de um regime que existiu desde a poca do profeta Maom at mais ou menos um sculo atrs. Muulmanos que no aderem ideologia insana so considerados infiis e alvos de sucessivos ataques!

Numa linguagem bem simples, o islamismo foi consubstanciado pelo profeta Maom, nascido em Meca, por volta de 570, na Arbia Ocidental. Aquele que aceita a f no islamismo chamado de muulmano, que tem por livro sagrado o Coro e frequncia nas mesquitas.

Sem olvidar de diversas outras justificativas utilizadas para explicar o inexplicvel, sem manifestar apreo, desapreo ou predileo por quaisquer formas de religio, a grande indagao que remanesce, ao menos etimologicamente de natureza religiosa, : at que ponto aceitvel matar em nome de Deus?

Caro leitor, as religies, tal qual a conhecemos, tm por propsito religar cada um de ns a Deus, embora nem todos consigam. Certo que nascemos sem trazer nada, morremos sem levar nada. No meio do intervalo entre a vida e a morte, brigamos por aquilo que no trouxemos e no levaremos. de difcil compreenso a crueldade que perpassa a execuo de atos to hostis a iguais. Deus realmente vive? Onde podemos encontra-lo?

Muitos perambulam tentando entender por que seus companheiros de igreja ou templo fecham os olhos e parecem ver o seu Deus. Outros, contudo, nada vm ou sentem. queles que encontraram Deus em sua prpria religio podemos at imitar por um tempo. Se a graa no vier, no entanto, devemos entender que h vrios caminhos e que cada um deles pode permitir que encontremos o nosso. Eu ainda busco o meu Deus e no consigo v-lo diante de tamanha brutalidade! No aceito a morte em Seu santo nome!

Profundamente sensibilizado, nas peroraes de Baruch Espinosa, filsofo racionalista do sculo XVII, que encontro razes para concluir essa minha loa a um mundo de paz, onde nenhuma morte tenha respaldo em nome de Deus. profundamente tocante! Contudo, revela-se intil para quem j est no caminho escolhido, mas uma fonte de inspirao para aqueles que, como eu, ainda perambulam na escurido em busca de luz:

"Para de ficar rezando e batendo no peito. O que eu quero que faas que saias pelo mundo, desfrutes de tua vida. Eu quero que gozes, cantes, te divirtas e que desfrutes de tudo o que Eu fiz para ti.

Para de ir a estes templos lgubres, obscuros e frios que tu mesmo construste e que acreditas ser a minha casa. Minha casa est nas montanhas, nos bosques, nos rios, nas praias. A onde eu vivo e expresso o meu amor por ti.

Para de me culpar pela tua vida miservel; eu nunca te disse que eras um pecador.

Para de ficar lendo supostas escrituras sagradas que nada tm a ver comigo. Se no podes me ler num amanhecer, numa paisagem, no olhar dos teus amigos, nos olhos de teu filhinho... no me encontrars em nenhum livro

Para de tanto ter medo de mim. Eu no te julgo, nem te critico, nem me irrito, nem me incomodo, nem te castigo. Eu sou puro amor.

Para de me pedir perdo. No h nada a perdoar. Se Eu te fiz... Eu te enchi de paixes, de limitaes, de prazeres, de sentimentos, de necessidades, de incoerncias, de livre-arbtrio. Como posso te castigar por seres como s, se sou Eu quem te fez?

Crs que eu poderia criar um lugar para queimar a todos os meus filhos que no se comportam bem pelo resto da eternidade? Que tipo de Deus pode fazer isso?

Esquece qualquer tipo de mandamento, so artimanhas para te manipular, para te controlar, que s geram culpa em ti. Respeita o teu prximo e no faas aos outros o que no queiras para ti. A nica coisa que te peo que prestes ateno tua vida; que teu estado de alerta seja o teu guia. Tu s absolutamente livre para fazer da tua vida um cu ou um inferno.

Para de crer em mim... crer supor, imaginar. Eu no quero que acredites em mim. Quero que me sintas em ti quando beijas tua amada, quando agasalhas tua filhinha, quando acaricias teu cachorro, quando tomas banho de mar.

Para de louvar-me! Que tipo de Deus eglatra tu acreditas que Eu seja? Tu te sentes grato? Demonstra-o cuidando de ti, da tua sade, das tuas relaes, do mundo. Expressa tua alegria! Esse o jeito de me louvar.

Para de complicar as coisas e de repetir como papagaio o que te ensinaram sobre mim. No me procures fora! No me achars.

Procura-me dentro... a que estou, dentro de ti."

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


82593
Por Marcelo Eduardo Freitas - 12/8/2017 10:25:23

O GOSTO DO AGOSTO!

* Marcelo Eduardo Freitas

A expresso Agosto, originria do latim augustus, representa o oitavo ms do calendrio gregoriano. Foi assim chamado por decreto em honra ao imperador Csar Augusto. Dizem que Agosto o ms do desgosto. Eu no penso assim!

Agosto traz consigo algumas peculiaridades sertanejas que so intrnsecas a ns, norte mineiros por nascena ou por adoo: o friozinho, a canela cinza em razo da poeira, a mata seca nas serras que circundam a cidade e, claro, as tradicionais festas que marcaram minha infncia.

Cercada de mitos e lendas, as Festas de Agosto simbolizam um patrimnio histrico de nossa cidade. Congrega pessoas de vrios cultos, festeja santos e cultiva a tradio. Narra a histria de nossa terra, instiga o imaginrio e faz a fuso da razo com a emoo, o inventado com o potico.

Nesta mistura de cores e sabores, h mais de um sculo, vimos por nossas ruas os reis, rainhas e princesas, os catops e caboclinhos, que junto com os marujos formam a trindade das Festas de Agosto de Montes Claros... E atrs vai o povo, cultuando a tradio que surgiu da devoo popular, e foi influenciada pela herana da cultura e religiosidade dos negros, dos ndios e dos portugueses. Uma mistura bonita de se ver!

O sincretismo e o hibridismo religiosos so marcantes nas Festas de Agosto. Essa manifestao cultural, que comea pela Igreja Catlica, mas mistura com os atabaques negros e os cantos indgenas, transformam a devoo, enriquecem e embelezam essa relao religiosa e cultural, que atravs dessa referncia simblica cria uma extenso nica, ampliando e incentivando a identidade e a construo do nosso sofrido povo destes sertes das gerais.

Os Reinados de Nossa Senhora do Rosrio, de So Benedito e o Imprio do Divino Esprito Santo atraem um cortejo de pessoas que vm na Festa de Agosto uma das maiores manifestaes culturais do pas, uma grande representatividade de ns norte-mineiros.

Quem nunca ouviu falar em mestre Zanza e seu simbolismo de luta pela preservao dos Catops? O saudoso Hermes de Paula, que desempenhou um papel importantssimo para a valorizao das Festas de Agosto?!

Com nostalgia, lembro-me da suntuosidade das Festas, quando era pequeno. Talvez as crianas de hoje no tenham tanto compromisso com as Festas de Agosto, mas eu, religiosamente, durante toda a minha infncia, at o ensino fundamental, tinha que fazer uma pesquisa sobre a festividade, e inclua participar do cortejo no sbado de manh, todo ano, sem falta... Bons tempos aqueles! noite, ao redor da Igreja do Rosrio, na praa da Matriz, toda a famlia participava. O cheiro do arroz com pequi, o colorido das fitas e a alegria do povo. Levo meus filhos sempre! Cultuar nossas razes, apreciar nossa cultura, tudo isso faz parte da formao do montesclarense!

Agora, os desafios da modernidade confrontam a tradio e a histria, mas montesclarense sabe juntar as duas coisas, coexistir passado, presente e futuro. Mistura as culturas dos ndios, quilombolas, vazanteiros, geraizeiros... Toca maracatu, tambor e capoeira... Come arroz com pequi, acaraj e beiju... Encanta-se pelo seu artesanato com barro, pintura e tecido... Sente o cheiro da fuso e do misto dos sabores... Cultua a f, a crendice... Perpetua a estria e a histria... Isso so as Festas de Agosto... Isso Montes Claros!

A importncia das Festas de Agosto transcende o mstico e o religioso, e se torna vital como poltica cultural de transformao da realidade social, pois democratiza e insere, combate excluso e cria uma cultura de paz, desenvolvimento e cidadania.

Que possamos carregar conosco essa identidade cultural, de respeito e f, cultuando nossas tradies e ampliando nossos valores humanos. Que o rico folclore montesclarese seja reverenciado e que nossa diversidade seja apreciada e reconhecida. Como nos ensinou Dulce Sarmento em sua msica Catop:

Catop!
No terno de So Benedito,
No terno de Nossa Senhora,
Vem cantar a glria!
Vem cantar a glria!
Viva Montes Claros! Eis o gosto do Agosto!

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


82573
Por Marcelo Eduardo Freitas - 5/8/2017 09:28:16
O RELGIO DO FIM DO MUNDO E O FIM DE MS DOS BRASILEIROS

* Marcelo Eduardo Freitas

Existe um relgio, criado h 70 anos, que em vez de medir a passagem do tempo, indica o quo prximo o nosso planeta est de ser destrudo. Atualmente, seus ponteiros marcam dois minutos e meio para meia-noite, horrio previsto para o fim do mundo. O relgio mantido pelo comit de diretores do Bulletin of the Scientists da Universidade de Chicago.

Quando foi concebido em 1947, os ponteiros do relgio estavam em sete minutos antes da meia-noite. Desde ento, isso mudou 22 vezes, variando de dois minutos para a meia-noite em 1953 a 17 minutos para a meia-noite, em 1991.

Apenas em 1953 os ponteiros estiveram mais adiantados do que agora, marcando, como dito, dois minutos para meia-noite, aps os EUA e a antiga Unio Sovitica testarem bombas termonucleares, no auge do que se denominou por guerra fria e que marcou a infncia de muitos de ns. Quem no se lembra?

Em 1991, com o fim da Guerra Fria e novos acordos firmados entre Washington e Moscou para reduo de armas, o relgio chegou a indicar 17 minutos para meia-noite, sua melhor marca.

O relgio foi ajustado pela penltima vez em 2015, quando foi transferido de cinco para trs minutos antes da meia-noite, diante de perigos como as mudanas climticas e a proliferao nuclear. Esse foi o mais prximo que ele havia chegado da meia-noite em mais de 20 anos. Contudo, eventos recentes - como o lanamento de um mssil balstico intercontinental pela Coreia do Norte e a deciso de Donald Trump de retirar os EUA do Acordo de Paris sobre mudanas climticas - acendem um enorme alerta, a atrair o olhar e ateno de cada um de ns.

Nas ltimas semanas, por exemplo, diversos portais de notcia e jornais da televiso levantaram um novo alerta sobre o aquecimento global, depois que um iceberg do tamanho do Estado de So Paulo se desprendeu na Antrtica. Some-se a este evento natural algumas outras causas, como o aumento no ndice de registros de entrada de asteroides (meteoros) na atmosfera terrestre, evidncias de novo corpo celeste prximo ao sistema solar, e at mesmo uma iminente queda da economia, causando um colapso econmico global, entre outros inmeros eventos. Estes so alguns dos fatores que especialistas, cientistas e economistas vm apontando como aptos a gerar o fim do mundo, o que se enquadra em algumas das profecias do livro do Apocalipse.

Os fatos mundiais so preocupantes, admito! No entanto, preocupante tambm tem sido a realidade pela qual passa o povo brasileiro. sujeira para todos os lados, amigo. Enquanto a violncia grita nas ruas, no Congresso Nacional acordos so feitos para impedir que o curso natural das guas siga o seu rumo. Sim, os nossos representantes eleitos tm nos decepcionado cada vez mais! S no v quem no quer! E aqui no se cuida de defesa ou crtica a qualquer bandeira! Tudo farinha do mesmo saco, salvo rarssimas excees.

E para pagar os acordos, reformas esto sendo cunhadas sem a devida discusso com a populao. Emendas parlamentares para deputados federais que se comprometem com o governo tm sido negociadas escancaradamente. A ttica no nova e foi sistematicamente utilizada por todos os governos at aqui, que fique claro.

Esses recursos so usados em propostas apresentadas pelos parlamentares a fim de beneficiar suas bases eleitorais, comprando a conscincia dos incautos eleitores com mseras fatias de recursos amealhados com gosto de sangue e troca da dignidade de incontveis trabalhadores. Quem paga os custos dessa fanfarrice toda o trabalhador brasileiro, que j nem se preocupa mais com o fim do mundo! Brasileiro tem medo mesmo do fim do ms! Fim do ms o fim do mundo em parcelas, j dizia um amigo! Como difcil ter conscincia das coisas em terras tupiniquins!

Caro leitor, se tudo correr bem, no h que se ter medo do fim do mundo em 2017! Mas que h que se ter medo que ele continue como est, isso sim, todos ns temos que ter! O Brasil, ento, nem se fala! Afinal, existem problemas que j passaram da hora de serem corrigidos. A meia-noite j se foi h tempos! Que essa corja de indecentes que negocia a desgraa da populao seja banida da vida pblica, sem qualquer forma de violncia ou coao, mas na conscincia crtica, atravs do voto. Que as palavras do grupo de rap Apocalipse 16, em O ltimo Dia, possam ecoar como um brado estridente a nossos parlamentares: Pra que tanto dinheiro? No adianta por no bolso do terno.. Eles no aceitam isso l no inferno. E se inicia o ms de agosto

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


82534
Por Marcelo Eduardo Freitas - 15/7/2017 10:33:09
QUANTO CUSTA A DIGNIDADE DE UM DEPUTADO?

* Marcelo Eduardo Freitas

Engana-se quem pensa que j viu de tudo nesta repblica de bananas. A bola da vez o julgamento poltico-jurdico alusivo ao recebimento de denncia apresentada pela Procuradoria-Geral da Repblica contra o senhor presidente da Repblica.

Michel Temer se tornou, destarte, o primeiro dirigente da histria do Brasil a ser alvo de denncia, ainda no exerccio do mandato. O que pior: o mandatrio de nossa nao est sendo acusado da prtica dos crimes de corrupo e lavagem de dinheiro, o que por si s, sem qualquer juzo prvio de culpabilidade, j gravssimo. Nuvens plmbeas, assim, pairam sobre a cabea do cidado brasileiro. E no por conta de chuvas torrenciais, to ausentes nestes sertes das gerais. por conta da podrido que assola a nossa poltica partidria.

guisa de consideraes introdutrias, registro que na ltima quinta-feira (13/07), a Comisso de Constituio e Justia (CCJ) da Cmara dos nobres deputados aprovou parecer recomendando a rejeio da denncia, rechaando, assim, um primeiro parecer, do deputado Srgio Zveiter, que recomendava o prosseguimento da acusao.

O texto ser enviado Mesa Diretora da Cmara, que dever inclu-lo na ordem do dia de sesso previamente definida entre os lderes partidrios. Segundo o presidente da Casa, Rodrigo Maia, a votao - em plenrio - est marcada para acontecer no dia 2 de agosto.

O rito procedimental a ser adotado mais ou menos o seguinte: aps discusso, o plenrio da cmara decidir se a denncia ser aceita ou no. A Constituio Federal determina que, para ser autorizada a abertura de investigao contra um presidente da Repblica, so necessrios os votos de 342 deputados, ou seja, dois teros dos membros da Casa. Caso contrrio, o Supremo no pode dar continuidade ao processo. A votao nominal, de maneira semelhante a um processo de impeachment (cada deputado profere seu voto, individualmente, no microfone). Essa regra, contudo, pode ser mudada por um projeto de resoluo que altere o regimento interno da Casa. Seria uma maneira para os ilustres deputados poderem votar a favor de Temer, sem ter suas imagens atreladas ao salvamento de um presidente com altssima rejeio popular, frise-se, denunciado por corrupo e lavagem de capitais.

Segundo Rodrigo Maia, ser adotada a seguinte sistemtica para a votao: (1) a defesa de Temer ter 25 minutos para se manifestar; (2) o relator do parecer vencedor na CCJ ter 25 minutos para apresentar o voto; (3) na sequncia, inicia-se a discusso entre os deputados inscritos. Pelo regimento, um requerimento para encerrar a fase de debates poder ser votado aps dois parlamentares terem falado contra a denncia e outros dois a favor; (4) assim que for atingido o qurum de 342 deputados, comear a votao.

Caro leitor, qualquer que seja o resultado, a Cmara dos Deputados estar, uma vez mais, manchada pela suspeita veemente de escancarada compra de conscincias, melhor seria dizer, dignidade de nossos representantes eleitos.

Em fala extremamente agressiva, o ento relator Srgio Zveiter, integrante do mesmo partido do presidente, acusou Michel Temer de compra de votos para obter, na comisso, deciso contrria abertura da investigao contra sua pessoa: O senhor Michel temer, contra quem pesam serssimos indcios, acha que pode, usando bilhes de reais de dinheiro pblico, submeter a Cmara dos Deputados a seu bel sabor para proibir a sociedade de saber o que realmente aconteceu. E arrematou: Distribuir bilhes em dinheiro pblico obstruo de justia. Para que os deputados venham aqui nesta comisso atrs de liberao de verba, emendas parlamentares e cargos, e votarem contra este parecer. Muitos outros deputados manifestaram-se no mesmo sentido. A imprensa noticia escandalosamente a liberao desenfreada de emendas para parlamentares apoiadores do governo. Outras denncias ainda esto por vir! Fico a imaginar o preo que ns, povo brasileiro, ainda teremos que pagar, em todos os sentidos auferveis pela nossa frtil imaginao. Quanta tristeza na alma!

Para finalizar: a amizade s existe onde impera a tica! Onde no h tica, no h lealdade, seno cumplicidade indecente, efmera e interessada! Em A Divina Comdia, escrita por Dante Alighieri no sculo XIV, consta que, frente aos portes do inferno, Dante e Virglio do de cara com uma mensagem no muito animadora: Deixai toda esperana, vs que entrais. Aqui tambm no h esperana! Afinal, estamos no Brasil de miserveis e de deputados que vendem a sua dignidade s custas de algumas moedas de prata!

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


82441
Por Marcelo Eduardo Freitas - 3/6/2017 10:42:02
AS CRACOLNDIAS E A INTERNAO COMPULSRIA

* Marcelo Eduardo Freitas

A imprensa nacional tem divulgado insistentemente as tentativas da Prefeitura e do governo de So Paulo no enfrentamento questo da cracolndia, particularmente aps operao policial que culminou com a priso de 38 suspeitos de fornecer a droga a miserveis que perambulam pela regio da Luz, zona central da capital paulistana.

Etimologicamente, pode-se dizer que a cracolndia, resultante da derivao de crack + lndia, a terra do crack. Cracolndias, desta maneira, so locais onde h a presena de traficantes e centenas de usurios, muitas vezes comercializando e consumindo drogas em plena luz do dia, sem se incomodarem com a existncia de moradores ou mesmo de autoridades.

Desde o seu surgimento em meados dos anos 1990, a Cracolndia s tem se expandido. Atualmente, ela tem filiais em diversas outras regies da cidade de So Paulo. Ao buscar pelo termo no sistema Google Maps, da empresa Google, mostrado pessoa a regio prxima Rua Helvtia, no bairro de Santa Ceclia, no Centro daquela cidade, situao que nos faz inferir que a expresso parece ter sido oficializada pelo servio de mapas do Google, o que no representa qualquer exagero.

Estudos efetivados recentemente pela Administrao Municipal identificaram outros 22 pontos com dependentes qumicos, vivendo como zumbis. Esses pontos, que esto na regio central, so considerados minicracolndias, especialmente por concentrarem menos viciados (algumas dezenas). As cracolndias costumam ter centenas!

Como confrontar tamanho problema? O que fazer diante da situao? Devemos nos omitir ou adotar medidas duras de enfrentamento questo?

A Prefeitura e o Governo de So Paulo foram severamente criticados pela abordagem adotada no tratamento dado aos usurios da terrvel droga.

O Escritrio das Naes Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) e as Organizaes Pan-Americana da Sade e Mundial da Sade (OPAS-OMS) manifestaram preocupao com a possibilidade de se internar compulsoriamente - e em massa - pessoas usurias de drogas. Segundo a ONU, as polticas pblicas de combate s drogas devem se orientar por princpios como a garantia de direitos humanos, o acesso aos mais qualificados mtodos de tratamento e serem balizados por evidncias cientficas.

Especialistas que criticaram a ao foram indagados sobre quais medidas adotar. Em resposta, que pode ser facilmente acessada pela rede mundial de computadores, chegou-se a afirmar que no h soluo para o problema da cracolndia sem uma reestruturao da sociedade. O mdico oncologista Drauzio Varella arrematou: "Todo mundo tem que se convencer de que no possvel acabar com a cracolndia. A cracolndia no causa de nada, consequncia de uma ordem social que deixa margem da sociedade uma massa de meninos e meninas nas periferias."

A nosso sentir e com o devido respeito, coisas de quem s enfrenta a questo do ponto de vista superficial, distncia, como se a sociedade comportasse - no atual estgio de degenerao - espao para defesa de teses acadmicas ou formao de biografias individuais.

Caro leitor, o problema est a, diante de nossos olhos! O momento de enfrent-lo agora! No d para aguardar a reestruturao da sociedade! J no h mais espaos para dilatao de tempo! So jovens que matam e se matam, todos os dias! Pela lei, trfico crime! Portanto, caso de segurana pblica! Tem de ser combatido com prises e apreenses!

Os dependentes qumicos, contudo, devem receber tratamento, j que estamos lidando com um grave problema de sade pblica que implica em evidentes disfunes na segurana pblica. E no venham dizer que a questo do dependente um problema somente dele. No ! Perguntem a suas famlia, indaguem aos demais cidados que habitam nessas regies ocupadas pelo trfico e abuso de drogas sobre o que pensam.

preciso, em concluso, apresentar respostas imediatas ao infortnio. Se necessrio, com a internao compulsria dos dependentes de drogas, especificamente naquelas hipteses em que estes provocam danos a si mesmos ou aos outros. Sem prescindir de servios e programas de abordagem de rua, consultrios de e na rua, ateno bsica em sade (postos de sade, unidades bsicas de sade, estratgias de sade da famlia), ambulatrios especializados, Centros de Ateno psicossocial lcool e drogas (CAPSad), Centros de Convivncia, grupos de auto-ajuda - to raros em nossa nao - o crack representa a iluso de quem j no tem nenhuma esperana na realidade. No h que se falar em capacidade de escolha! Esta j foi deixada para trs! Ou vamos continuar fingindo que o problema no existe?

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


82427
Por Marcelo Eduardo Freitas - 27/5/2017 10:25:18
UM BRASIL QUE SANGRA

* Marcelo Eduardo Freitas

No melhor estilo novela mexicana, sucedem-se no Brasil escndalos de todas as vertentes, envolvendo incontveis bandeiras e implicando diversas autoridades, de todos os escales da repblica. Parece at vale a pena ver de novo, j que o que acontece hoje uma espcie de repetio, um certo reprise do que acontecera outrora, mudando apenas os atores do teatro da vida real.

Os ltimos que foram pegos com a boca na botija foram o atual presidente da repblica Michel Temer, o senador afastado Acio Neves e o deputado federal Rocha Loures.

Acio foi gravado solicitando R$ 2 milhes a Joesley Batista, do grupo J & F. Rocha Loures foi filmado pela Polcia Federal recebendo outros R$ 500 mil do citado empresrio. Surpreendido arrastando uma mala recheada de propina, devolveu o dinheiro na Superintendncia da Polcia Federal em So Paulo, faltando, contudo, R$ 35 mil do valor total. Como se no bastasse, dias depois, depositou em uma conta da Caixa Econmica Federal os R$ 35 mil que haviam sido surrupiados. muita honestidade

Juristas afirmam que Temer, por sua vez, teria cometido cinco crimes: obstruo de justia, corrupo passiva, corrupo ativa, organizao criminosa e prevaricao. Os trs sero investigados em conjunto, no mesmo inqurito, de nmero 4.483, no Supremo Tribunal Federal. O presidente diz que no renuncia. At quando?

A situao acima, caro leitor, ensejou em diversos pedidos de afastamento do chefe da nao, sem prejuzo de manifestaes extremadas, amplamente divulgadas pela imprensa. Na Esplanada dos Ministrios, na ltima quarta-feira, os protestos contra as reformas e pela renncia de Michel Temer, duraram cerca de seis horas. Os estragos foram enormes. Uma vez mais, o pas sangrou!

Como se no bastasse, na quinta-feira passada, cercado por uma comitiva de 320 pessoas, o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil - OAB, Claudio Lamachia, entregou mais um pedido de impeachment contra Michel Temer, pugnando para que ele perca o mandato e fique inelegvel por oito anos.

No sem razo, o site da revista americana Time, famosa pela lista das cem pessoas mais influentes do mundo, colocou o presidente Michel Temer entre os cinco lderes mundiais mais impopulares do planeta, ficando atrs, pasmem, inclusive do atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, bastante contestado em seu pas.

Qual ser, ento, a soluo para estancar o sangramento? O que deve ser feito para que o pas saia da UTI?

Nos gabinetes de quem dita as regras do poder em Braslia, ganha cada vez mais fora a construo da chamada "sada TSE", via atravs da qual o presidente seria cassado em duas semanas pelo Tribunal Superior Eleitoral (a famosa cassao da chapa Dilma/Temer, lembram?).

At a semana passada, a vitria de Temer no TSE era certa, principalmente depois que ele indicou dois novos ministros nos ltimos meses, maximizando as chances de improcedncia da ao proposta.

No entanto, os novos contornos do caso, a partir da delao dos donos da JBS, mudaram todo o cenrio. Em conversas reservadas, o ministro Napoleo Nunes Maia, por exemplo, j teria dito que desistiu da possibilidade de votar pela separao da chapa. Seus colegas de tribunal tambm confidenciam que a situao de Temer se agravou, embora tecnicamente ele no possa ser julgado por atos estranhos ao processo.

O escritor Stanislaw Ponte Preta, pseudnimo usado por Srgio Marcus Rangel Porto, dizia que a prosperidade de alguns homens pblicos do Brasil uma prova evidente de que eles vm lutando pelo progresso do nosso subdesenvolvimento. Aqui, em terras tupiniquins, apenas se subtrai! Somar, ningum soma!

A histria do Brasil parece refletir a idia de uma casa edificada na areia, bem longe da rocha. No sem motivos, portanto, Capistrano de Abreu, um dos primeiros grandes historiadores do Brasil, aconselhava: "Eu proporia que se substitussem todos os captulos da Constituio decretando: Artigo nico: todo brasileiro fica obrigado a ter vergonha." Que comece pela nossa classe poltica. tempo de virar a pagina! momento de conter a sangria!

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


82407
Por Marcelo Eduardo Freitas - 20/5/2017 08:45:29

POLTICA, DROGAS E A MORTE DE JOO WALTER GODOY

* Marcelo Eduardo Freitas

O Brasil passa hoje pela pior crise econmica, poltica e moral de sua histria recente!
Assistimos atnitos a sucessivos escndalos que teimam em no cessar. As instituies de controle, sobretudo a Polcia Federal e o Ministrio Pblico, tm cumprido com louvor a sua misso constitucional.
Os ltimos trabalhos bem evidenciam: no h bandeiras na ao dos rgos de controle! Todos os grandes partidos, sem exceo, foram tocados pela mo punitiva do Estado. Pessoas que antes eram intangveis, hoje no se vem mais como outrora.
Pretendia escrever, como se denota, sobre a droga da poltica partidria, que incontveis vezes, graas ao de parcela considervel de seus integrantes, tem feito do Brasil motivo de chacota para todo o planeta. Que o diga a srie americana House of Cards, produzida pela plataforma de vdeos On Demand Netflix, que fala sobre corrupo e a luta pelo poder na Casa Branca. Em seu perfil oficial no Twitter se fez constar, em portugus: T difcil competir.
Indagada por uma usuria do Twitter se no deveria fazer uma verso de House of Cards passada no Brasil, o perfil afirmou: Eu at tentaria, mas se eu reunisse 20 roteiristas premiados no conseguiria chegar numa histria essa altura.... A situao deprimente, para dizer o mnimo!
Voltando ao tema proposto, observo que melhor tratar sobre a poltica de drogas, adotada pelo pas, fazendo, por conseqncia, uma singela homenagem ao Professor Joo Walter Godoy, que nos deixou na ltima quinta-feira, para habitar na casa do Altssimo. Deixo, assim, que sobre a droga da poltica comentem todos os grandes veculos de comunicao do pas.
As drogas, em uma linguagem bem simples, so substncias qumicas de origem natural ou sinttica que afetam de alguma forma o sistema nervoso do ser humano, podendo causar alteraes na mente, no organismo e no comportamento das pessoas. As conseqncias do abuso de drogas, por vezes, so irreversveis.
De acordo com dados da Rede de Informao Tecnolgica Latino Americana - RITLA, nos ltimos quatro anos, 279 mil pessoas foram assassinadas no pas. No ano passado, o Brasil teve 170 assassinatos por dia, ostentando, assim, o maior nmero absoluto de homicdios no mundo!
guisa de comparao, na Sria, que se encontra em guerra civil declarada, foram vitimadas 256 mil pessoas nos ltimos 04 anos. 23 mil a menos que o Brasil!
Obviamente, parcela considervel desses homicdios est diretamente relacionada disputa por pontos de distribuio de drogas. E aqui que entra o nosso referencial regional em trabalho voltado preveno a este mal e que, bem por isso, merece as nossas justas homenagens, o nosso mais profundo reconhecimento e o irrestrito sentimento de gratido.
Conheci Doutor Joo Walter Godoy nos idos de 2004, quando retornei Montes Claros, vindo do Estado do Tocantins. Montesclarense por adoo e diamantinense de nascimento, Doutor Joo Walter sempre foi um referencial na luta contra o mal das drogas. Participou de incontveis eventos, escreveu diversas obras sobre o assunto e lutou at o fim para se manter vivo.
Na ltima sexta-feira fui ao velrio de Doutor Joo. Sobre o seu corpo se encontrava sua viva, com um semblante abatido, mas com um olhar sereno. Emocionada, relatou-nos sobre o respeito e admirao que nutria sobre nossa pessoa. Confesso que arrepiei e chorei. Afinal, Doutor Joo Walter sempre foi um referencial de homem, um exemplo de pai e um incansvel lutador. Lutou at o ltimo instante, nas palavras de sua senhora.
Eu admiro aqueles que conseguem sorrir com os problemas, reunir foras na angstia, e ganhar coragem na reflexo. coisa de pequenas mentes encolher-se, mas aquele cujo corao firme, e cuja conscincia aprova sua conduta, perseguir seus princpios at morte. Era assim o Doutor Joo Walter!
Que a droga da poltica partidria consiga reformular a poltica sobre drogas em nossa nao. Que adolescentes e jovens possam ser preservados da mortandade que graa luz do dia. Que exemplos como os de Doutor Joo Walter Godoy se repitam. Que tenhamos mais pessoas para lutar contra esse mal e tantos outros que nos atormentam. Siga em paz Doutor Joo! As suas obras so eternas!

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


82386
Por Marcelo Eduardo Freitas - 13/5/2017 08:32:10
As dores que devemos sentir

* Marcelo Eduardo Freitas

Dia desses, deparei-me com meu filho no interior do seu quarto, chorando aquilo que seria a sua primeira decepo amorosa. A me, toda preocupada, instava a todo momento: Vai l e conversa com ele. Me, quando v filho ameaado, vira bicho. Contudo, ainda que sentida, a recusa se fez necessria. Afinal, h dores que devemos realmente sentir para melhor compreender cada passo a ser dado na histria da vida. Era preciso, assim, que meu filho chorasse!

O polmico filsofo alemo Friedrich Nietzsche afirmava que a todos com quem realmente me importo, desejo sofrimento, desolao, doena, maus-tratos, indignidades, o profundo desprezo por si, a tortura da falta de autoconfiana e a desgraa dos derrotados. No sem razo, ele acreditava que o sofrimento e a dor so absolutamente normais. O homem para conquistar o que almeja, destarte, deve passar pela luta e pelo padecimento. O fracasso e a angstia so importantes para a obteno da felicidade e do sucesso.

Caro leitor, quem nunca se deparou com situaes sofridas? Quem nunca sentiu a dor da perda? Quem nunca sofreu com um amor partido? Quem no derramou lgrimas no mar da vida? Quem no passou por dissabores? Quem nunca perdeu um emprego? Quem no conhece algum com um casamento que mal comeou e j terminou? Uma amizade que acabou com traio? Tudo vai deixando sinais, marcas profundas, cicatrizes no corao. Contudo, preciso reconhecer: sempre h tempo para aprendermos!

Algumas dores, assim, so necessrias para nosso engrandecimento. Certas coisas acontecem com um porqu. Voc sofre hoje e amanh feliz. A vida, amigo, segue tal qual o mar, com dias de tempestade e dias de bonana. Dias ruins nos ensinam que os dias bons merecem ser comemorados. Precisamos, desta maneira, trabalhar as dores da alma, para que sirvam somente como aprendizado, extraindo delas a capacidade de nos fortalecermos. preciso, por conseguinte, reaprendermos que o melhor de ns, ainda est em ns mesmos, no importam os erros.

Elie Wiesel, escritor judeu, sobrevivente dos campos de concentrao nazistas, que recebeu o Nobel da Paz de 1986, foi condenado a padecer no mundo tenebroso que o nacionalismo alemo criou. Sua angstia foi extremamente profunda. Reza a lenda que Wiesel s aceitou publicar a sua autobiografia depois de permanecer mais de dez anos em silncio: Ele no queria que o rancor contaminasse sua verso sobre o holocausto!

No livro Night - Noite -, publicado em 1955, Wiesel relata, no sem dor, sobre as agruras do campo de concentrao, sem, no entanto, esconder a sua crise de f. A execuo de dois adultos e uma criana, numa tarde sombria de imolao, o machucaram profundamente. No momento mais dramtico e dolorido do livro, Wiesel descreve a histria de trs judeus que foram amarrados em p, em cima de cadeiras. Os trs pescoos, colocados no mesmo momento dentro das cordas da forca. Em relato agoniante, Wiesel continua:

Vida longa liberdade, gritaram os dois adultos.

A criana continuou silenciosa.

Onde est Deus? Onde est ele, algum perguntou atrs de mim.

Ao sinal do chefe do campo, as trs cadeiras tombaram.

Total silncio atravessou o campo. Sobre o horizonte, o sol se punha.

Ento o desfile comeou. Os dois adultos no estavam mais vivos. Suas lnguas inchadas penduradas, tingidas de azul. Mas a terceira corda continuava se movendo; sendo to leve, a criana continuava viva

Por mais meia hora ele continuou l, lutando entre a vida e a morte, morrendo em lenta agonia sob nossos olhos. E ns tivemos que olh-lo de cheio em sua face.

Ele ainda estava vivo quando passei em frente dele. Sua lngua continuava vermelha, seus olhos ainda no estavam vidrados.

Atrs de mim, escutei o mesmo homem perguntando:

Onde est Deus agora? Onde est Ele?

Aqui est Ele! Ele est pendurado aqui na forca

Naquela noite a sopa tinha gosto de cadveres.

A compreenso cientfica no necessria para afirmar a existncia de Deus e onde Ele habita. Se posso intuir, creio que Ele ergueu seu tabernculo perto do oprimido, nunca com o opressor. Deus acolhe o proscrito, jamais o poderoso. amigo do injustiado, no do injusto. Deus estava com o menino enforcado, no com o nazista que o matava. Sempre que a minha sopa tem gosto de cadveres, a sopa de Deus tambm tem. Que possamos encontrar na dor motivos para aprender e crescer! O mandamento mais simples que cada pessoa pode cumprir agradecer! Sejamos gratos, ainda que as dores, por um instante, paream intransponveis!

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia



82367
Por Marcelo Eduardo Freitas - 6/5/2017 14:36:23
A OPACIDADE DO DIREITO E AS DECISES DO STF

* Marcelo Eduardo Freitas

A distncia que separa o Direito e o homem comum sempre foi muito grande. Este afastamento percebido em ambos os momentos identificveis no fenmeno jurdico: tanto naquele em que a norma jurdica funciona, ainda, como simples condutor para a adoo de uma determinada ao (antes que qualquer conflito se instale, e para que ele no se instale), quanto naquele outro em que, j identificado o conflito, erguido o obstculo que, de alguma forma, atravanca o convvio entre homens, o Direito funciona como mecanismo destinado a solucion-lo, atravs do Poder Judicirio.

Diz-se opaco aquilo que no deixa atravessar a luz; que no transparente; que toldado, turvo. A opacidade do Direito, defendida com brilhantismo pelo jurista argentino Carlos Mara Crcova, destina-se a demonstrar que entre o Direito e o seu destinatrio interpe-se uma barreira opaca que os afasta, tornando o cidado incapaz de absorver do Ordenamento Jurdico os seus contedos e sentidos, entender os seus processos e instrumentos e, por isso, incapaz de dele se beneficiar como seria almejado.

Assim, a Opacidade do Direito est diretamente relacionada com a interpretao dada linguagem jurdica e com o acesso, uso e significado da justia por parte dos cidados, na medida em que reflete a grande distncia existente entre o Direito e a sua compreenso e utilizao pelo homem comum. Em outras palavras: a norma jurdica, no seu papel de ordenadora, de redutora da complexidade do conviver humano opaca. Na maioria das vezes imperceptvel, mantendo-se l distante, apenas acessvel (e no em sua totalidade!) aos sentidos daqueles que lhe tm o Direito como objeto de trabalho.

A violncia do poder inerente s relaes entre dominados e dominadores, requer formas de sublimao O poder, para se perpetuar e se fazer acreditar, carece de uma roupagem mais amena, exteriorizando-se atravs de justificativas ideolgicas que o tornam suportvel: a crena em uma fundamentao mstica, divina ou racional ou, como no cenrio que se desfigura hoje sob os nossos olhos, na fatalidade da existncia de um Estado de Direito, burocraticamente construdo e subsumido a normas jurdicas hierarquicamente escalonadas, cuja incidncia nos fatos de nossas vidas deve ser (e somente pode ser) verificada por um grupo de pessoas tecnicamente preparadas para este fim, assim como para o de aplicar as sanes respectivas ao descumprimento destas normas, resolvendo os conflitos que obstaculizam o conviver social.

Uma das formas de exerccio deste poder, portanto, a prpria certeza de que s os iniciados, um grupo especialmente preparado, e por isso diferenciado da maioria restante, capaz de retirar da norma jurdica as respostas que se fazem necessrias, permanecendo o Direito necessariamente opaco para todo o resto.

A digresso acima uma crtica contundente, ante as ltimas decises emanadas de nossa Suprema Corte. Serve apenas para que possamos maximizar nossos mais profundos sentimentos de indignao. bvio que a nossa Corte Constitucional, equivocadamente, ainda imagina que a sociedade no est vendo o que est se passando nas fronteiras jurdicas de nossa nao. Ser que os doutos Ministros do STF avaliam o mal que tm causado ao pas? Ou o Olimpo em que vivem os afasta totalmente da conscincia nacional? Faam uma pesquisa para avaliar o que a populao honesta pensa, hoje, da instituio em que militam.

Michel Foucault afirmava que o poder s tolervel com a condio de disfarar uma parte importante de si mesmo, que seu xito est na proporo direta de como conseguir esconder parte de seus mecanismos, porque para o poder o oculto no pertence ordem do abuso; indispensvel para seu funcionamento. Segue da que a opacidade do Direito, sua falta de transparncia, a circunstncia de no ser cabalmente compreendido, pelo menos no contexto das formaes sociais contemporneas, longe de ser um acidente ou acaso, um problema instrumental suscetvel de soluo com reformas oportunas, alinha-se como uma demanda objetiva de funcionamento do sistema. Como um requisito que tende a escamotear o sentido das relaes estruturais estabelecidas entre os sujeitos, com a finalidade de legitimar/reproduzir as dadas formas da dominao social.

A opacidade uma das formas de manter esse mecanismo em funcionamento: o Direito permanece como algo oculto, at mesmo enigmtico, mistrio que s pode ser desvendado por alguns e que, por essa mesma razo, produz decises dotadas de grande impositividade, j que inclumes a maiores questionamentos. Que o digam os casos Dirceu, Bumlai e Genu - todos, amigos do poder. Pensemos nisso! Voltemos a nossa ateno para nosso Supremo Tribunal Federal. Todos aqueles que l se encontram so servidores pblicos. Empregados do povo brasileiro. Prestadores de servios (e no de favores) nao. Direito translcido? Compreensvel por todos? No parece realmente possvel. Mas, sem dvidas, alguma luz pode e deve ultrapassar o Direito, diminuindo a perplexidade e temor com que os olhos do homem comum o veem. S no se sabe como e quando. A imprensa livre e as mdias sociais so essenciais para diminuir distncias! No existem intocveis em nossa repblica!

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


82353
Por Marcelo Eduardo Freitas - 29/4/2017 11:21:41
A BALEIA AZUL E O INCONSCIENTE COLETIVO

* Marcelo Eduardo Freitas

No raras vezes, a sociedade dita civilizada se depara com situaes de difcil compreenso, aptas, contudo, a gerar gravssimos danos coletivos, mormente pela dificuldade em se reprimir as eventuais violaes s normas proibitivas. A onda do momento o jogo Baleia Azul, resultante da traduo direta do original russo, Siniy Kit.

O jogo teria sido criado na Rssia, onde a incidncia de mortes por causa dessa brincadeira foi a mais alta de todo o planeta, at o presente momento. guisa de exemplo, em fevereiro deste ano, duas adolescentes se jogaram do alto de um prdio de 14 andares em Irkutsk, na regio da Sibria. Segundo investigaes, Yulia Konstantinova, de 15 anos, e Veronika Volkova, de 16, se mataram depois de percorrer as 50 tarefas enviadas. Em sua pgina no Facebook, Yulia havia compartilhado a imagem de uma baleia azul.

O homem criador do jogo estaria preso desde o ano de 2015, no apenas por criar o Baleia Azul, mas tambm por ser o desenvolvedor de outras brincadeiras que trariam srios malefcios para a sociedade. A idia de criar o jogo comeou com 50 pessoas. Ele teria colocado todas elas em um grupo de uma rede social e logo a loucura teria se espalhado. Algo muito recorrente em tempos de modernidade lquida, acepo cunhada pelo socilogo polons Zygmunt Bauman para se referir poca atual em que vivemos: uma poca de liquidez, de fluidez, de volatilidade, de incerteza e insegurana, onde toda a fixidez e todos os referenciais morais da poca anterior, denominada por citado autor como modernidade slida, so retiradas de palco para dar espao lgica do agora, do consumo, do gozo e da artificialidade.

Em sntese, o jogo consiste em uma srie de desafios dirios, enviados vtima por uma espcie de "curador". H desde tarefas simples como desenhar uma baleia azul numa folha de papel at outras muito bem mrbidas, como cortar os lbios ou furar a palma da mo diversas vezes. Em outras ocasies, os curadores exigiram dos participantes que desenhassem uma baleia azul em seus antebraos, com uma lmina. Sangue jorrava da pele de jovens incautos e incultos. O desafio final, pasmem, tem sido determinar que o jovem se mate.

Inexoravelmente, esses acontecimentos nos fazem pensar sobre um fenmeno que certamente no novo: suicdio entre a populao jovem, mas que ganha impulso renovado a cada influxo provocado por novas tecnologia. Esse tipo de jogo, dinamizado por um lder, vem ganhando xito porque se dirige fundamentalmente a adolescentes e jovens, fase em que estamos mais expostos a influncias terceiras.

A nosso sentir, os ndices tragicamente elevados de suicdios encontrados em pases que enfrentam problemas scio-econmicos, como aqueles que surgiram desde a queda da Unio Sovitica, resultam de males sociais extremamente amplos, provocando, em uma espcie de alucinao coletiva, o extermnio de parcela da sociedade que vive margem do convvio saudvel. Em tempos atuais, quem nunca observou como os nossos jovens tm sido alheios ao mundo real? Quem nunca presenciou rodinha de amigos, todos vidrados em modernos smartphones, sem qualquer dilogo?

O problema, meus caros, grave. Resulta, contudo, de uma somatria de fatores que orbitam em torno da famlia. Os pais tm se tornado figuras sem "cor", sem vida, sem presena, sem autoridade, sem amor. Estamos demasiadamente distrados, buscando culpados para nossos erros e omisses, mas sabemos que ningum substitui a presena dos pais na vida dos filhos. Quando faltam os pais, os filhos buscam preencher a ausncia com qualquer coisa que, em verdade, no tem real valor, como a Baleia Azul.

preciso, assim, deixar claro que, caso a vtima dessa brincadeira morra, os curadores podem ser indiciados por induzimento, instigao ou auxlio ao suicdio ou at mesmo por homicdio. Podem, assim, pegar at 30 anos de cadeia! A depender das circunstncias que envolvam os coordenadores do jogo, estes podem ser ainda responsabilizados por associao criminosa (trs anos de recluso), leso grave (oito anos de priso) e/ou ameaa (seis meses), conforme diversos relatos que se observou.

Para no ficar no vazio, buscando atribuir certo efeito pedaggico ao presente texto, informo que a Polcia Federal tem adotado algumas recomendaes s famlias, a fim de orient-las sobre como proceder em situaes que tais. Em sntese, temos que: (1) Os pais devem atrair a confiana dos filhos por meio do dilogo franco e aberto, sem qualquer tipo de represso para que no primeiro sinal de perigo a criana se sinta vontade para procurar sua ajuda. (2) Observe comportamentos estranhos dos filhos como isolamento, tristeza aguda, decepo amorosa, comportamentos depressivos, atitudes suicidas. (3) Preste ateno se no corpo de seu filho no existe sinais de mutilao ou queimaduras e se ele est usando camisas de mangas compridas para evitar a exposio dessas marcas. (4) Evite que seus filhos fiquem muito tempo na internet ou assistindo filmes na televiso durante a madrugada. (5) Observe se seu filho est saindo de casa em horrios pela madrugada com o objetivo de cumprir tarefas impostas pelo jogo. (6) Pea ao seu filho para ser adicionado s redes sociais dele. Fazendo isso voc poder saber o que est se passando e com quem ele est interagindo. Caso os pais no tenham idade para aprender a conviver com este mundo virtual, eles devem delegar a tarefa para um parente mais prximo (irmo, primo, sobrinho), algum que o adolescente seja ntimo e confie. (7) Deixe o computador em um local comum e visvel da casa. (8) Ao proibir alguma pgina, explique as razes e os perigos da rede. (9) Evite expor na internet informaes particulares e dados pessoais como telefones, endereos, documentos, horrio que sai de casa e para onde est indo, localizao acessvel o tempo todo. (10) Evite colocar fotos com locais onde frequenta (clubes, teatros, igrejas), carros (a placa localiza o endereo), casa (mostra onde a pessoa mora). (11) Nunca adicione desconhecidos.

Alerta final: ainda que se mate a Baleia Azul, outros "bichos de sete cabeas" aparecero em suas famlias! Pais, cuidem de seus filhos! A responsabilidade nunca deixou de ser sua!

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


82311
Por Marcelo Eduardo Freitas - 8/4/2017 09:28:09
NO ESTAMOS PREPARADOS PARA ENVELHECER!

* Marcelo Eduardo Freitas

Segundo estudos da Secretaria de Direitos Humanos do Governo Federal, nossa populao idosa cresceu 55% em dez anos, representando hoje 12% dos brasileiros. Agregado a esse dado revelador, tive recentemente a oportunidade de visitar o Lar das Velhinhas, que fica bem no centro da cidade de Montes Claros. A visita se deu na ltima semana, e, confesso, sai de l muito introspectivo e reflexivo: de um modo geral, pude observar que no estamos preparados para cuidar de nossos idosos e no estamos prontos para envelhecer, situao que exige cuidado e ateno de cada um de ns.

Na enfermaria da Casa de Apoio tem cerca de cinqenta camas, uma ao lado da outra, espalhadas por um grande espao. L esto senhorinhas que passam por vrias dificuldades fsicas e psicolgicas, dores de todas as vertentes. Contudo, confesso que a que mais me marcou foi a dor do abandono. Algumas assumem a angstia de terem sido deixadas ali, outras mentem para si mesma e para ns, seus ouvintes, com uma convico esperanosa sobre os filhos que, um dia, iro busc-las daquele local sagrado. Mais adiante, dentro do mesmo salo, pude observar algumas velhinhas com bonecas e fraldas, em verdadeiro regresso ao passado. Outras muito alegres, maquiadas, sorridentes... Muito bem tratadas, so cuidadas por profissionais que se intercalam entre uma e outra jornada, cuidando do corpo e buscando afagar a alma de quem recebeu de presente o abandono. Uma vez mais penso comigo: no estamos prontos para envelhecer!

Em algumas culturas, o idoso visto como sinnimo de sabedoria e experincia, em que o dever de respeito corriqueiro, repassado por geraes. Aqui no Brasil, entretanto, observamos que quase nove milhes de lares brasileiros so mantidos por pessoas idosas, que representam a principal fonte de renda do ncleo familiar. possvel, a partir de anlises estatsticas de casusticas criminais, verificar tambm que aumentou - de forma considervel - o nmero de violncia contra o idoso, sendo as principais a negligncia, a violncia psicolgica, o abuso financeiro/econmico, a violncia fsica e sexual e a discriminao.

Nessa concepo, o idoso passa a ser aquele que sustenta o ncleo familiar, no obstante tenha sido tratado de modo inversamente proporcional, como um insustentvel peso. E todos os dias, diuturnamente, nos deparamos com esses tipos de violncia perto de ns, seja no transporte, na sade, na acessibilidade, mas principalmente em casa, onde o tratamento, muitas vezes, frio, grosseiro e indelicado. Duvido que no conheam algum que, em idade avanada, passa por privaes decorrentes, acima de tudo, da falta de amor de filhos e parentes prximos.

As pessoas se esquecem que a vida um ciclo que todos ns iremos passar. Por mais que se possa pontuar, ainda que exclusivamente sob o aspecto legal, um limite de idade para que possamos ingressar nessa categoria de ser considerado idoso, temos que refletir sobre a ausncia de algo que possa, de forma universal, estancar as vicissitudes do problema. Tudo, assim, est a depender da conjuntura biolgica, emocional e psicolgica, enfim de uma srie de fatores. Temos idosos com uma carga cultural e uma experincia de vida invejvel, pessoas dinmicas, independentes, que tm um fulgor e um entusiasmo que fazem muitos jovens ficarem para trs. Mas temos tambm aqueles que so frgeis, dependentes, delicados, doentes... E todos eles precisam, no raras vezes, de muito pouco. De algo que deveria ser ofertado em abundancia e gratuitamente na natureza: carinho, amor, ateno, cuidado...

Diante da reforma da Previdncia, em que se discute o aumento da idade mnima para recebimento de benefcios variados, devemos tratar o tema com muito mais cuidado. preciso debater polticas pblicas de preveno a eventuais gastos desnecessrios, sem olvidar de uma imprescindvel ateno especial aos nossos idosos. Estamos, todos, a envelhecer! um curso de guas que jamais volta atrs!

Voltando ao Lar das Velhinhas, observo que l h aquelas que precisam de sua ajuda, fraldas, comida, roupas, remdios... E tambm de sua visita, da sua alegria, do seu carinho, de sua ateno. Esse apenas um exemplo que se deu comigo. Poderia aqui citar inmeros outros espaos destinados a acolher seres humanos que, tais quais bichos, so abandonados em praas pblicas. Precisamos fazer mais. Publicamente, reconheo a minha omisso com relao ao meu prximo.

Sai do Lar das Velhinhas e a primeira coisa que fiz foi telefonar para minha me, mulher forte, guerreira, que no consigo enxergar como idosa de jeito nenhum. Comentei sobre o que vi, das pessoas que conversei, e do outro lado da linha ela me lembrou: Meu filho, todos ns somos sujeitos a intempries. por isso que devemos viver baseados no amor, valorizar o hoje, as pessoas, a famlia, os momentos, os sonhos. Rezar para que ao chegar na velhice aqueles que cuidamos possam nos valorizar e tambm cuidar de ns. Arrematou a conversa com uma sapincia e segurana dignas de uma senhora de seus sessenta e poucos anos, verbalizando tudo aquilo que eu estava pensando: no estamos preparados para envelhecer. Minha me, meu pai, sozinhos vocs jamais ficaro!

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


82257
Por Marcelo Eduardo Freitas - 18/3/2017 09:54:03
O GOLPE DA LISTA FECHADA E A REPBLICA DAS BANANAS

* Marcelo Eduardo Freitas

Tenho observado com ateno os acontecimentos dos ltimos anos e sinto que o pas tem sido, de fato, passado a limpo. As grandes operaes de combate s fraudes decorrentes do abuso de poder poltico e econmico bem evidenciam essa nova realidade de pensar e agir dos brasileiros.

Contudo, confesso que nos ltimos dias presenciei algumas atitudes emanadas dos atuais detentores de poder que nos fizeram acreditar que somos todos dbeis: aps reunio entre os presidentes do Senado, Euncio de Oliveira, da Repblica, Michel Temer, da Cmara, Rodrigo Maia - sob a batuta do presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Gilmar Mendes - houve por parte de referidas autoridades pblicas a defesa de um novo "plano infalvel" para se livrar das investigaes da Operao Lava Jato, ideia esta que, pasmem, j fora derrotada duas vezes quando levada ao Plenrio da Cmara: o voto em lista fechada, que se pretende seja adotado para as eleies de 2018!

Caro leitor, primeiro veio a tentativa de anistiar o caixa dois de campanha. No deu certo. Depois, bem na calada da noite em que o pas chorava a queda do avio da Chapecoense, desfiguraram o projeto das Dez Medidas contra a corrupo, que no avanou. Agora, ressuscitaram a ideia de uma pseudo reforma poltica, a fim de estancar de vez qualquer possibilidade de renovao do atual e desacreditado parlamento brasileiro. tempo de ateno!

Noam Chomsky, ativista poltico americano, afirmava que os intelectuais tm condies de denunciar as mentiras dos governos e de analisar suas aes, suas causas e suas intenes escondidas. responsabilidade dos intelectuais dizer a verdade e denunciar as mentiras. Obviamente, no somos intelectuais. No entanto, tambm no somos nefitos na arte de estudar cenrios desgastados pela completa ausncia de comportamentos ticos ou morais. momento, pois, de denunciar desmandos e amarraes inaceitveis. O sistema de lista fechada uma dessas aberraes.

Em linhas gerais, no sistema fechado, os votos passam a ser computados em listas apresentadas pelos partidos. Nele, o eleitor escolhe uma ordem fixa de candidatos. Nessa metodologia, a partir do nmero de votos, cada sigla tem direito a um nmero de cadeiras. Mas essas so ocupadas na ordem previamente estabelecida para a campanha, favorecendo os caciques da poltica nacional e no os candidatos mais votados.

A justificativa recorrente para o voto em lista fechada que ele supostamente cria um elo mais forte entre eleitores e partidos. Em terras tupiniquins, usado como subterfgio ante a absurda fragmentao em 35 legendas, 28 delas representadas no Congresso. Mas seria bem mais razovel fazer isso extinguindo as coligaes nas eleies para deputado, por exemplo. So elas que misturam programas antagnicos e criam situaes bizarras, como o voto num parlamentar republicano que elege um democrata - ou vice-versa.

Em 2003, quando foi aventada pela primeira vez, a lista fechada surgiu como forma de tornar vivel o financiamento pblico das campanhas eleitorais. No entender dos deputados, seria impossvel combinar lista aberta e financiamento pblico, pois no haveria como fiscalizar as centenas de candidatos que concorrem a deputado em cada estado. A mentira novamente se repete. Usam e abusam dos mesmos argumentos fajutos de outrora.

Logo aps o escndalo dos sanguessugas, em abril de 2007, essa mesma proposta foi votada no Plenrio da Cmara e derrotada por 251 votos a 182. No final de maio de 2015, na nsia de promover a reforma poltica, o ento presidente da Casa, Eduardo Cunha, levou diversas propostas a votao. Na noite confusa do dia 26, trs foram derrubadas, entre elas mais uma vez a lista fechada. O resultado foi um massacre: 402 votos contra e 21 a favor.

Como se no bastasse o descalabro, a fim de que o leitor tenha a exata dimenso da deformidade defendida de pblico, ainda esto querendo propor uma suave regra de transio: em 2018, os atuais deputados seriam os primeiros das listas das legendas! Acabaria, por completo, frise-se, com qualquer possibilidade de modificao do nosso ttrico quadro poltico.

Meus amigos, isso uma vergonha deslavada! preciso gritar de forma estridente, a fim de incluir a discusso nas pautas das entidades civis como um todo. Registro que para valer para as prximas eleies, a proposta deve ser aprovada at o dia 02 de outubro/2017. Voc vai aceitar isso calado?

Consigna-se, por oportuno, que mudanas bem mais simples, algumas delas j defendidas pela Coalizo pela Reforma Poltica Democrtica e Eleies Limpas, capitaneadas pela CNBB e OAB, como o fim das coligaes, a exigncia de um mnimo nacional de 1,5% dos votos para um partido ter direito a assento na Cmara, tempo de TV e recursos do Fundo Partidrio, o voto distrital, alm da redistribuio peridica das cadeiras, respeitando mudanas demogrficas, foram apresentadas. Nenhuma avana efetivamente no nosso sofrvel parlamento brasileiro. Por que ser?

A expresso Repblica das bananas foi cunhada pelo escritor americano William Sydney Porter, conhecido como O. Henry, no conto O Almirante, de 1904. um termo pejorativo para um pas, normalmente latino-americano, politicamente instvel, submisso a algum pas rico e frequentemente governado por corruptos e opressores. Algo em comum com o Brasil? O pas s muda se voc mudar!

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


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Por Marcelo Eduardo Freitas - 11/3/2017 09:18:09
DROGAS E ARMAS: LIBERAR OU CONTROLAR?

* Marcelo Eduardo Freitas

Tenho dito nos debates por onde tenho passado ultimamente que o Brasil enfrenta, neste incio de sculo XXI, dois enormes problemas naquilo que se refere ao combate violncia e ao crime organizado, de um modo geral: a legalizao das drogas e a liberao do comrcio de armas de fogo.

Armas e drogas so, assim, dois dos temas com os quais mais temos nos deparado. Com efeito, j que no se consegue acabar com o trfico, melhor seria sua liberao, apregoam alguns. Outros, na mesma senda, entendem que a melhor maneira de enfrentar a violncia crescente est na liberao do comrcio, aquisio e porte de armas de fogo pelos cidados de nossa repblica. Ser realmente verdade?

A revista Exame desta semana traz reportagem extremamente atual em que afirma que a legalizao da maconha no diminuiu o trfico no Uruguai. A informao se lastreia em recente entrevista concedida pelo Diretor Nacional de Polcia daquele pas, Mario Layera, ocasio em que afirmou que a legalizao da maconha, aprovada em 2013, no implicou diretamente na queda do trfico desta droga e que o narcotrfico aumentou o nmero de assassinatos. O resultado, de simples anlise, decorre de uma tica singelamente capitalista: no haver viciados interessados em se submeter ao sistema (legal) se no for para obter drogas mais baratas, o que acaba por gerar um grande contrassenso pois o Estado no deve facilitar ou incentivar o uso de drogas, licitas ou no.

guisa de considerao sobre a situao de nosso vizinho, em dezembro/2016, a Brigada de Narcticos uruguaia demonstrou que a droga mais confiscada naquele ano foi a maconha, chegando a 4,305 toneladas at 18 de dezembro, sendo que em 2015 havia sido de 2,52 toneladas. No sem razo, assim, Layera concluiu que pelo trfico de drogas constatado nos ltimos tempos, houve um aumento dos nveis de crimes e homicdios.

O Brasil, nos ltimos anos, tornou-se corredor para o trfico internacional de entorpecentes. No sem razo, deste modo, somos o principal pas de trnsito para o escoamento da cocana sul-americana para a Europa - a droga que vai para os EUA, outro grande mercado, passa sobretudo pela Amrica Central, particularmente pelo Mxico.

O nosso pas o segundo maior mercado de cocana e seus derivados no mundo. O nmero absoluto de usurios no Brasil representa 20% do consumo mundial. Internamente, desta maneira, enfrentamos enormes problemas naquilo que se refere recuperao de nossos usurios, sem olvidar das inmeras vtimas da visvel violncia resultante do trfico. Para se ter uma noo do problema, em 2015, 58.383 pessoas foram assassinadas no Brasil. Equivale a dizer que o pas teve um assassinato a cada 9 minutos, ou que 160 pessoas morreram de forma violenta e intencional por dia. No perodo de 2011 a 2015, o pas matou mais pessoas que a Sria: foram 278.839 brasileiros mortos pela violncia, nmero ainda maior que os 256.124 mortos pela guerra sobre a qual, em diversas ocasies, tivemos a oportunidade de nos manifestar. Surge, ento, uma outra indagao: com tantos crimes violentos, registrados de norte a sul do pas, a sada est em armar a populao?

A ideia de desarmar os homens de bem e deixar os bandidos armados tem sido a crtica mais frequente ao desarmamento. preciso no esquecer que as reformas na lei de controle de armas do pas foram, antes, discutidas pelos parlamentares com especialistas em reduo de violncia armada, que no seriam ingnuos de acreditar que bandido entrega arma voluntariamente. verdade, por conseguinte, que bandidos no compram arma em loja. Quem compra so os homens de bem. Depois, os bandidos vo l tom-las, praticando furtos e/ou roubos em suas residncias, conforme evidenciam diversas estatsticas.

A Campanha do Desarmamento, destarte, visou recolher armas de dois segmentos: armas legais de pessoas fsicas civis (4.441.765), e armas do mercado informal, isto , no registradas (4.635.058). As demais armas de criminosos (3.857.799), como bem disse o ministro da Justia Mrcio Thomaz Bastos poca, tm que ser tomadas fora pela polcia. Se isso no feito, falhamos!

Muitos estudos tm sido realizados, principalmente nos Estados Unidos, que um verdadeiro laboratrio de anlise sobre os benefcios e malefcios do uso de armas, para responder pergunta: Estou mais seguro com uma arma de fogo?

So raros os estudos realizados no Brasil sob esse tema to crucial para orientar o usurio de arma. Pesquisa do ISER, contudo, procurou responder pergunta e se voc reagir quando assaltado?, analisando 3.394 assaltos registrados nas delegacias do municpio do Rio de Janeiro e asseverou: Quando se reage com arma de fogo a um assalto igualmente realizado com arma de fogo, a chance de se morrer 180 vezes maior do que quando no se reage. A possibilidade de se ficar ferido 57 vezes maior do que quando no h reao. por isso, e no por preconceito contra a arma, que alguns especialistas em defesa, inclusive ns, aconselham a quem atacado de surpresa com arma de fogo: Em princpio, no reaja.

Enfim, trouxe esses dois temas, muito rapidamente, a fim de que o leitor tenha a plena certeza de que, para alm da corrupo, devemos nos posicionar sobre diversos outros assuntos de interesse nacional. A violncia que est ao seu lado, caro amigo, no obra do acaso. Resulta da ao de pessoas que, voluntariamente, optaram pelo mal. O enfrentamento deve ser feito pelo Estado, com a participao dos cidados. Drogas e armas: liberar ou no? O que voc pensa?

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


82218
Por Marcelo Eduardo Freitas - 4/3/2017 15:37:49
QUEM DISSE QUE SERIA FCIL?

* Marcelo Eduardo Freitas

O livro dos Provrbios um daqueles que compem o Antigo Testamento da Bblia Crist. Vem logo aps os Salmos e imediatamente antes do livro de Eclesiastes. No sem razo, da sabedoria dos adgios se extrai que se te mostrares fraco no dia da angstia, que a tua fora pequena (Pr: 24, 10).

Observamos diariamente o quanto as adversidades tm capacidade de provocar diferentes reaes nas pessoas. Umas se abatem e ficam desesperadas ante o primeiro problema. Outras ficam apticas, sem qualquer forma de reao. H, contudo, um pequeno grupo que no se conforma com o mal. Intrpidos, lutam com todas as foras dalma para alterar aquela incomoda e transitria situao de vida. Saber lidar com as dificuldades da vida , de longe, a habilidade mais importante que podemos desenvolver como ser humano. Aprendi, desde muito jovem, que nenhum homem mais frgil que o outro, nenhum tem assegurado o dia seguinte. Somos todos iguais no nascer e no partir!

Enfrentar algumas realidades amargas da vida, assim, requer coragem. Winston Churchill, famoso primeiro-ministro do Reino Unido durante a Segunda Guerra Mundial, via na coragem um ponto de partida. Certa feita, chegou a afirmar: "A coragem a primeira entre as qualidades humanas, porque a qualidade que garante todas as outras". Obviamente, no se referia apenas coragem em momentos histricos e raros - aquela associada a personalidades famosas e grandes acontecimentos - mas da coragem do dia a dia. Mais do que qualquer outra coisa, coragem uma deciso. a deciso de ir fundo e em busca do nosso prprio carter, de achar a fonte de nossa fora quando a vida nos decepciona. a deciso que temos de tomar se queremos nos tornar plenamente humanos.

A vida, dessa maneira, deve ser encarada como uma diuturna busca pela evoluo e superao. Dificuldades so rotineiras. Todos ns as temos. A diferena est no modo com que lidamos com os problemas. Como delineado, uns deixam-se abater e caem na vala dos murmuradores. Outros se motivam e agem, concretizando seus objetivos e atingindo o sucesso, em diversas reas da vida. preciso abstrair de cada instante dessa nossa efmera passagem o mximo de sabedoria possvel. E com f em Deus devemos seguir adiante, na busca incessante de se tornar uma pessoa melhor, para a famlia, para os amigos e para sociedade.

guisa de fundamentao terica do que aqui estamos a afirmar, no sentido de que as dificuldades de fato nos engrandecem, pode ser observada na tese de que os brasileiros negros so os responsveis pela inveno dos dribles do futebol, pois no podiam, em tempos distantes, encostar em jogadores brancos nas partidas. dito que eles importaram movimentos do samba para tanto.

Domingos da Guia, o "Diamante Negro", jogador da seleo brasileira de 1938, certa feita disse em entrevista:
"Ainda garoto eu tinha medo de jogar futebol, porque vi muitas vezes jogador negro, l em Bangu, apanhar em campo, s porque fazia uma falta, nem isso s vezes () Meu irmo mais velho me dizia: Malandro o gato que sempre cai de p Tu no bom de baile? Eu era bom de baile mesmo, e isso me ajudou em campo Eu gingava muito O tal do drible curto eu inventei imitando o miudinho, aquele tipo de samba." (Domingos da Guia, vdeo Ncleo/UERJ, 1995).

Esses foram homens que pegaram as limitaes e dificuldades que possuam e transformaram em vantagens, ao canalizarem suas foras.

A vida, portanto, dura e nem sempre justa. Mas isso no quer dizer que ela no possa ser boa, gratificante e prazerosa." O que ela espera da gente que tenhamos coragem! Transforme, pois, as pedras que voc tropea nas pedras de sua escada.

O que quero aqui dizer, em concluso, que ningum disse que as coisas seriam fceis, que haveria cu sem tempestades, noites sempre estreladas. Contudo, a cada dia que passa, observo que uma grandeza sobrenatural nos concede fora nos momentos de tribulaes, conforto nas horas de angstias, ombro para as nossas lgrimas, e luz para conduzir o nosso caminho. Se ns podemos ter certeza de algo, que lidaremos com desafios e atribulaes. O ponto para uma vida melhor, ento, no seria se livrar das dificuldades, mas encontrar uma maneira de lidar com elas. Como ensina-nos Sneca, as dificuldades devem ser usadas para crescer, no para desencorajar. O esprito humano cresce mais forte no conflito. Pode at no ser fcil, mas maravilhoso viver a vida!

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


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Por Marcelo Eduardo Freitas - 25/2/2017 09:27:56
VIDAS QUE SE MUDAM EM INSTANTES

* Marcelo Eduardo Freitas

Em tempos modernos, comum observarmos pessoas que, de to ocupadas, esquecem-se do singelo fato de que aqui aportaram para viver. Fazem todas as coisas, assumem inmeros compromissos, menos sentir a suavidade e a beleza da vida.

Muitos sequer param para respirar profundamente. Outros tantos, mormente nos grandes centros urbanos, passam lustros sem observar as estrelas. No raras vezes, abruptamente, so surpreendidos com um cncer, um enfarto e, a partir da descoberta do evento extremo, gastam tudo o que, ano aps ano, cuidaram de acumular, a fim se verem livres da doena e curtirem somente aquilo que, outrora, tiveram em abundncia.

Caro leitor, j parou para pensar no quanto a nossa vida efmera? J chegou a refletir sobre o quanto as coisas mudam de uma hora para outra, sem que haja qualquer planejamento? Imagine o quanto aquele ltimo segundo pode alterar completamente a sua vida. Coisas espontneas que acontecem de surpresa podem ter um impacto enorme em nossas existncias. A vida assim, amigos, coisa que se muda em um simples instante. Num piscar de olhos.

Quero aqui, deste modo, incitar aqueles que se depararam com essa leitura a no mais perderem tempo com coisas desnecessrias, discusses inteis, agresses gratuitas, vidas que no valem a pena. tempo de reflexo, de aproveitar as coisas simples, de sentir o afago e o afeto da famlia. O bom da vida a travessia, cada conquista, todos os momentos, com ou sem dor.

Frequentemente nos apegamos a coisas to pequenas que deixamos de vislumbrar um momento maior, tudo por conta de nosso excesso de vaidade, de nossa busca insensata por ouro e prata que no podero nos acompanhar. A vida passa to rpido e, com relativa frequncia, assistimos de camarote o nosso destino se desenhar em nossa frente, sem que sejamos capazes de fazer algo. So poucas, assim, as certezas de que temos na vida, se que podemos dizer que existe alguma outra, seno a morte. Das coisas que j vivi sei apenas que tudo passa e dificilmente uma situao vai se repetir em nossas trajetrias. Sejam bons ou ruins, nossos momentos no acontecem duas vezes. Aproveitem!

O ltimo ato pode ser daqui a muito tempo, ou talvez no prximo instante. Tem gente que no gosta de pensar na morte. Eu apenas penso como uma separao forada pela finitude. Ame, portanto, enquanto tempo. Viva o hoje ao lado dos seus, corra na praia, suba uma montanha para admirar o horizonte, veja o nascer do sol, abrace seus filhos e beije seus pais, responsveis que so pelas lies que conduzem seus passos.

O rei Davi, na sua velhice antes de falecer, deu a Salomo, seu filho e sucessor, alguns conselhos a fim de que pudesse conduzir o povo de Israel. A Misso de Salomo era conservar as 12 tribos de Israel unidas, prosperas, e devotas ao Deus de Abrao, Isaque e Jac, os trs patriarcas da Historia do povo Hebreu. Salomo ainda , por muitos, considerado o homem mais sbio de todos os tempos, o que nos faz acreditar que os conselhos de seu pai influenciaram positivamente nas decises que ele tomou em sua vida. Abaixo, cuidarei de apenas trs deles.

O primeiro: seja humilde! Est l na Bblia Crist, em I Reis 2:1-2: "Ora, aproximando-se o dia da morte de Davi, deu ele ordem a Salomo, seu filho, dizendo: Eu vou pelo caminho de toda a terra...". O Rei, assim, no melhor e nem pior que ningum. um ser humano como outro qualquer, caminhando pela terra. Do p viemos, ao p retornaremos!

O segundo: seja forte! (Como diria meu amigo Padre Avilmar: Coragem!). Esta lio se extrai de I Reis 2:2: "Eu vou pelo caminho de toda a terra; s forte...". Ser forte, corajoso o sinnimo de ser ousado, o que no se confunde com atrevimento ou intromisso. Estamos, todos, sujeitos a tropear e cair. Para levantar, contudo, temos que ser fortes, corajosos. O Fraco no capaz de liderar nem a si prprio, muito menos de governar os outros!

O terceiro: porta-te como homem! I Reis 2:2: "Eu vou pelo caminho de toda a terra; s forte, pois, e porta-te como homem". Obviamente, a questo aqui tratada em nada tem a ver com o gnero das pessoas. Cuida-se, isto sim, de honrar os tratos, a palavra e o compromisso firmados com os outros. preciso respeitar o ser humano! So lies, assim, que busco levar comigo a todo momento.

Para finalizar: dizem que h trs coisas que nunca voltam atrs: a flecha lanada, a palavra pronunciada e a oportunidade perdida. Viva a vida amigo! Seja humilde! Seja forte! Seja humano! Vidas mudam em instantes...

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


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Por Marcelo Eduardo Freitas - 18/2/2017 00:07:07
A GUERRA DE CIVILIZAES DO SCULO XXI

* Marcelo Eduardo Freitas

Em janeiro deste ano de 2017, o presidente dos EUA, Donald Trump, adotou uma srie de medidas cunhadas com o propsito de proteger o povo norte-americano de ataques de estrangeiros admitidos nos Estados Unidos".

Uma dessas medidas, foi a assinatura de uma ordem executiva, algo similar s nossas medidas provisrias, em que se determinou o fechamento temporrio das fronteiras daquela nao aos imigrantes de sete pases de maioria muulmana e a refugiados de todo o mundo.

Numa entrevista ao canal Christian Broadcasting Network, Trump disse que dar prioridade na solicitao de refgio a cristos de origem sria. A preferncia aos cristos e a excluso dos muulmanos, como se evidencia, parece soar como uma medida manifestamente discriminatria, contrria aos valores constitucionais americanos e a diversos tratados internacionais de Direitos Humanos.

Reforada por esses ideais excludentes, assim, estamos a assistir passivamente primeira guerra de civilizaes do sculo XXI. Como se observa, o pano de fundo no novo: a disputa Islamismo x Religies Judaico-Crists, em uma situao de evidente ps-verdade, a fim de reconquistar o mundo perdido, isto , a qualidade de vida do povo norte americano, pouco importando o preo a ser pago.

A Histria uma das cincias mais fantsticas com as quais podemos lidar. Conhec-la faz com que no ingressemos em terrenos arenosos, de onde no poderemos sair.

Em apertada sntese, as 3 grandes religies monotestas - cristianismo, judasmo e islamismo - sempre pregaram a paz, a tolerncia, a compaixo e o amor ao prximo. Mesmo assim, todas elas, sem exceo, deixaram suas marcas em guerras e banhos de sangue ao longo da trajetria da humanidade.

Foi assim com os judeus, os primeiros monotestas, que reivindicaram uma aliana especial com Deus h 4 mil anos. J no sculo 4, os patriarcas catlicos qualificaram os seguidores do judasmo de filhos do diabo e inimigos da raa humana. No sculo 7, de igual maneira, foi a vez do isl tentar impor a primazia de seu Deus sobre os demais.

O que quero aqui apresentar, deste modo, no sentido de que, em toda a histria, o comrcio da f sempre matou inocentes. Por vezes, interesses manifestamente econmicos estavam ocultos atrs daquilo que apregoavam as religies monotestas. Vou retroceder apenas ao sculo XX, a fim de no sermos cansativos e ultrapassarmos o espao previsto para esta explanao.

O sculo XX viu crescer uma devoo militante nas principais religies, chamada popularmente de fundamentalismo. Abaixo, citarei apenas 04 disputas religiosas que, juntas, levaram ao genocdio de mais de 610 mil pessoas.

CONFLITO 1: Judeus x Muulmanos; onde: Oriente Mdio; quando: em curso desde 1947; resultado: mais de 7,5 mil mortos de 2000 para c.

CONFLITO 2: Hindus x Muulmanos; onde: ndia e Paquisto; quando: Fim da dcada de 1950; resultado: 500 mil mortos!

CONFLITO 3: Catlicos x Protestantes; onde: Irlanda do Norte; quando: dcadas de 1960 a 1980; resultado: quase 4 mil mortos!

CONFLITO 4: Cristos x Muulmanos; onde: Blcs; quando: Dcadas de 1980 e 1990; resultado: Mais de 100 mil mortos!

Registro, ainda, que o Holocausto, encabeado por Adolf Hitler (tambm no sculo XX) foi executado no auge da sociedade que se dizia moderna e racional. Mas a fora motriz do genocdio - o antissemitismo - se nutriu dos mitos religiosos arraigados durante sculos na Europa para, uma vez mais, promover o extermnio de seres humanos. Muito parecido com o que se prega hoje nos EUA.

Vejo, desta maneira, com extrema preocupao as medidas defendidas pelo presidente norte-americano, Donald Trump, particularmente naquilo que se refere segregao de pessoas, exclusivamente, pela religio que abraa ou segue. A nosso sentir, h evidentes interesses econmicos travestidos nas tais proibies, pouco importando a dignidade de pessoas que, como ns, deveriam ser livres em suas escolhas.

Penso, as vezes de modo utpico, que a humanidade pode conviver de forma harmoniosa. No sem dor, claro. Mas se o custo da qualidade de vida depende do isolamento ou banimento de populaes inteira, no vale a pena o preo a ser pago. Muito ainda veremos no decorrer dos prximos 04 anos, no mnimo. De minha parte, no apoiarei quaisquer medidas que, calcadas em ps-verdades, apregoam a desunio entre seres humanos que, em sua gnese, deveriam ser tratados como iguais. Precisamos ter muito cuidado com as ideologias que se buscam disseminar. Cristianismo, judasmo ou islamismo pouco importa! A opo de cada um h de ser livre! O certo no deixar de ser certo por ser praticado por uma islamita! O errado tambm no deixar de assim o ser, ao ter sido praticado por um cristo! Sejamos sensatos! No importa o rtulo! Somos, todos, filhos de um mesmo Pai! Jamais discrimine as pessoas pela opo religiosa adotada!

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


82157
Por Marcelo Eduardo Freitas - 3/2/2017 22:54:48
INCONFIDNCIAS?

* Marcelo Eduardo Freitas

Em apertada sntese, o conhecimento histrico aquele registrado por um historiador. O trabalho deste, assim, interpretar os fatos histricos ou as experincias humanas com a ajuda dos registros e vestgios que foram deixados por um povo em um determinado local e tempo.

Para que essa regresso temporal ocorra, o historiador se vale de palavras. Palavras que l do passado, palavras que fala no presente, palavras que escreve para o futuro, a fim de que outros as leiam e delas extraiam conhecimentos.

Quando o historiador se debrua sobre um passado, quando se dispe a devanear, a percorrer e imaginar um determinado tempo que lhe necessariamente diferente, ele deve faz-lo de uma maneira extremamente racional, buscando encontrar o verdadeiro sentido para cada uma das expresses utilizadas. A histria, portanto, deve ser permanente livre, a ponto de fazer com que o seu pblico destinatrio possa compreender o real sentido de cada momento de transformao social, identificando o papel de cada um de seus atores.

Desde meados do sculo XVIII, fazia-se sentir o declnio da produo de ouro nas Minas Gerais. Por essa razo, na segunda metade daquele sculo, a Coroa portuguesa intensificou o controle fiscal sobre a sua ento colnia na Amrica do Sul, proibindo, em 1785, as atividades fabris e artesanais, taxando severamente os produtos vindos da metrpole. A Inconfidncia Mineira, deste modo, foi uma tentativa de revolta abortada pelo governo em 1789, na ento capitania de Minas Gerais, que buscava se rebelar, entre outros motivos, contra a execuo da derrama e o domnio portugus.

A Inconfidncia, assim, em linhas gerais, pretendia eliminar a dominao portuguesa de Minas Gerais, estabelecendo um pas independente. No havia a inteno de libertar toda a colnia brasileira, pois naquele momento uma identidade nacional ainda no tinha se formado. A forma de governo escolhida foi o estabelecimento de uma Repblica, inspirados pelos ideais iluministas da Frana e da independncia dos Estados Unidos da Amrica.

Foi, sem dvidas, um dos mais importantes movimentos sociais da Histria do Brasil. Significou a luta do povo brasileiro pela liberdade, contra a opresso do governo portugus no perodo colonial.

O movimento foi trado por Joaquim Silvrio dos Reis, que fez a denncia para obter perdo de suas dvidas com a Coroa. Os rus foram acusados do crime de "lesa-majestade", como previsto pelas Ordenaes Filipinas, Livro V, ttulo 6, materializado em "inconfidncia" (falta de fidelidade ao rei). O nico protagonista da Inconfidncia Mineira que foi enforcado e esquartejado foi um militar de baixa patente, o Tiradentes. Os demais conspiradores, senhores da alta sociedade mineira, fartos de pagar impostos coloniais, foram indultados.

A Inconfidncia Mineira, destarte, transformou-se em smbolo mximo de resistncia para os mineiros, a exemplo da Guerra dos Farrapos para os gachos, da Inconfidncia Baiana para os baianos, da Revoluo Constitucionalista de 1932 para os paulistas, da Revoluo Pernambucana de 1817 e Confederao do Equador de 1824 para os Pernambucanos. Tempos depois, Tiradentes foi alado pelo governo brasileiro condio de mrtir da independncia do Brasil e como um dos precursores da Repblica no pas.

A Inconfidncia Baiana durou mais tempo e buscou objetivos mais amplos. No apenas lutou por uma repblica independente, mas tambm pela igualdade de direitos, sem quaisquer distines de raas, o que no havia se dado na Inconfidncia Mineira.

Quando j havia sido derramado muito sangue e a rebelio havia sido vencida, o poder nacional poca indultou os protagonistas, com quatro excees: Manoel Lira, Joo do Nascimento, Lus Gonzaga e Lucas Dantas. Esses quatro foram enforcados e esquartejados. Eram todos negros, filhos ou netos de escravos. E assim se apregoou a justia que solenemente perdura em terras tupiniquins! Basta ver o mapa de nosso sistema prisional!

Em tempos atuais, cunhou-se at medalha em deferncia ao passado: a Medalha dos Inconfidentes, considerada uma honraria especial direcionada a cidados que prestam servios de extrema relevncia sociedade, e exemplo para os demais, inspirados nas virtudes ensinadas pelo heri nacional, o Tiradentes.

Caro leitor, a expresso inconfidncia quer dizer falsidade, infidelidade, traio. A histria oficial continua chamando de Inconfidncias os primeiros movimentos nacionais que lutavam pela libertao do Brasil. Penso que os novos rumos tomados por nossa repblica indicam que a busca por um pas melhor, mais justo, menos desigual, independente, no pode ser tido por traio. Merece, a nosso sentir, uma readequao, ao menos semntica, a fim de que crianas e jovens cresam conscientes de que os verdadeiros traidores da ptria so aqueles que nada fazem para mudar o seu pas.

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


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Por Marcelo Eduardo Freitas - 27/1/2017 14:15:23
AS FACES CRIMINOSAS E OS LADRES DO ERRIO

* Marcelo Eduardo Freitas

Nos ltimos dias, observamos atonitamente a mortandade de seres humanos provocada pela ao irracional de seus iguais. As mortes que mais chamaram a ateno das pessoas ocorreram atrs das grades, na disputa pela hegemonia nos presdios de pelo menos trs estados de nossa federao. Recursos, j parcos, foram alocados para estancar a visvel crise de nosso sistema prisional. Outros setores, no menos essenciais, certamente sero prejudicados.

Especialistas de diversas reas do saber se arvoraram no direito de apresentar solues para o caos, particularmente em razo da gritante superlotao das unidades destinadas ao encarceramento coletivo. Alguns infelizes, em tica absurdamente determinante, chegaram a apregoar que apenas os crimes de sangue e dio deveriam levar ao crcere, j que estes seriam os piores. Aqueles outros, de colarinho branco, executados por animais sociais, por no apresentarem maior gravidade em concreto, seriam passveis de outras formas de reprimenda, que no o encaminhamento s masmorras.

Observa-se, assim, que alguns vesgos por opo, includa parcela significativa do prprio Poder Judicirio, continuam, em pleno sculo XXI, a apregoar o enclausuramento apenas dos pretos, pobres e prostitutas, j que, marginalizados pelo nascimento, jamais alcanaro a possibilidade de sonegar tributos em grande escala, desviar recursos pblicos, lavar dinheiro, oferecer propinas, entre tantas outras formas privilegiadas de expandir desgraa sociedade.

Em tempos de redes sociais, as imagens difundidas chocaram aos leigos. Contudo, no se cuida de nenhuma novidade no submundo do crime. Lado outro, o comportamento de donzelas assustadas com o vento das autoridades de nossa repblica surpreendente. Acaso no sabiam, de fato, o que acontecia nos calabouos do Estado?

guisa de considerao, no ano de 2012, no governo da ento presidente Dilma Rousseff, ocorreram 121 rebelies, 20.310 fugas e 769 presos mortos. Em 2015 foram mais outros 500 presos mortos. Nos cinco anos de governo da presidente afastada foram assassinados quase 300 mil brasileiros, metade deles jovens e pobres. Outros 250 mil foram esmagados na impunidade do trnsito. Essa foi a pior indecncia do governo recentemente defenestrado.

A concluso que nos parece evidente, deste modo, que querem assustar a plateia brasileira com bandidos desdentados, descalos, sem camisa e com apenas uma bermuda para cobrir-lhes o corpo. esse realmente o crime organizado que todos temem? So esses os verdadeiros responsveis pelo flagelo da ptria? muita falta de lealdade intelectual promover bandos em organizaes criminosas!

Como se no bastasse, o mantra da vez agora : "prendemos muito e prendemos mal!". Por isso, vamos soltar todos os que pudermos para dar folga aos presos sufocados, deixando a populao brasileira asfixiada com mais bandidos nas ruas. muita ingenuidade! O sistema prisional, como grande regra geral, possui apenas reincidentes especficos. So pessoas que cometeram sucessivos delitos e, por ironia do destino, caram em alguma bocada fria que as levaram s prises. Antes, inexoravelmente, envolveram-se em uma srie de crimes que sequer chegaram ao conhecimento do Estado, gerando a propalada cifra oculta da criminalidade. Acaso algum conhece um s ladro, em terras tupiniquins, que foi em cana de primeira?

A esta altura o leitor atento se pergunta, mas qual a soluo? Ningum, em pleno juzo de suas faculdades mentais, vai dizer o contrrio: uma sociedade se corrige com educao, gnero do qual a instruo espcie (educao religiosa, educao escolar, educao familiar, etc.) e, precipuamente, com a diminuio da desigualdade entre as pessoas. No sem razo, assim, sociedades prsperas, quando desiguais, tambm so extremamente violentas. O remdio, por conseguinte, no vir a curto prazo. preciso persistncia!

Portanto, nos parece que, enquanto no corrigidos os rumos de nossa repblica, outra alternativa no nos resta seno o encarceramento de criminosos contumazes, includos, por bvio, aqueles que desviam recursos pblicos, lesam o errio, ocasionando, por consequncia, um estridente genocdio brasileira, no perceptvel aos olhos dos menos atentos. No sem razo, desta maneira, o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal, Ayres Britto, afirmou em recente entrevista: Os assaltantes do errio so os meliantes mais prejudiciais ideia de vida civilizada. O dinheiro que desce pelo ralo da corrupo - sistemicamente, enquadrilhadamente -, o que falta para o Estado desempenhar bem o seu papel no plano da infraestrutra econmica, social, prestao de servios pblicos, educao de qualidade, sade. O assaltante do errio, no fundo, um genocida. o bandido nmero um. Este, assim, parece ser o principal interessado na perpetuao da crise no sistema prisional. Este, sim, representa o verdadeiro crime organizado!

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


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Por Marcelo Eduardo Freitas - 21/1/2017 09:36:00
A MORTE DE TEORI E OS RUMOS DA LAVA JATO

* Marcelo Eduardo Freitas

A inusitada morte do Ministro do Supremo Tribunal Federal, Teori Zavascki, ocorrida aps a queda de um avio bimotor na ltima quinta-feira (19/01), em Paraty (RJ), lana sobre a Operao Lava Jato uma nuvem plmbea, ocasionando, no sem razo, incertezas sobre o seu futuro.

Como se sabe, Teori era o relator do processo na Suprema Corte e estava na iminncia de homologar os acordos de delao premiada de 77 executivos da construtora Odebrecht, sem prejuzo de outros julgamentos extremamente relevantes, envolvendo bares de nossa repblica.

Em tempos de imediata difuso de notcias, os fatos viraram manchete de jornais de todo o planeta. O argentino El Clarn afirmou que "foi um trgico acidente", destacando que Teori investigava o caso Odebrecht, um escndalo de corrupo na poltica brasileira. O espanhol El Pas lembrou a importncia do Ministro nas investigaes e afirmou que todos os olhos polticos do pas estavam nos prximos passos deste magistrado. Tambm observou que o caso poder ter sua anlise postergada em meses. Assim como o El Pas, o jornal francs Le Figaro afirmou que o magistrado era um juiz-chave nas investigaes dos casos de corrupo da Petrobras.

Em terras tupiniquins, entre outras tantas manifestaes de pesar, o juiz Sergio Moro, titular da Operao Lava-Jato em primeira instncia na Justia Federal do Paran, divulgou nota em que se diz perplexo com a morte de Teori. Para ele, o ministro foi um heri brasileiro.

Por fim, as redes sociais foram inundadas por teorias da conspirao em relao ao falecimento do citado Magistrado.

Caro leitor, no obstante a desconfiana geral, no ostentamos dvidas no sentido de que a Lava Jato vai continuar, mas deve ter um atraso significativo, porque necessrio aguardar a nomeao de um outro Ministro, a fim de substituir Teori.

Isso ocorre por que, de acordo com o artigo 38 do regimento interno do STF, o relator deve ser substitudo "em caso de aposentadoria, renncia ou morte". Um novo Ministro, desta maneira, dever ser indicado pelo presidente da Repblica, Michael Temer, que citado dezenas de vezes na delao da Odebrecht, e aprovado pelo Senado Federal, atualmente presidido por Renan Calheiros, tambm investigado na operao Lava jato.

De fato, naquilo que se refere especificamente transparncia e lisura na conduo de mencionada operao policial, no obstante a sagrada presuno de inocncia, a meno aos nomes de autoridades da repblica, como aquelas acima declinadas, podem ocasionar um certo constrangimento nacional, particularmente por que o novo Ministro, a ser designado, poder ser o responsvel pela direo dos trabalhos, gerando dvidas sobre a parcialidade em sua conduo.

Entretanto, outro dispositivo do prprio regimento interno, menos comum, d margem a uma soluo mais rpida e, a nosso sentir, menos traumtica para nosso pas. Cuida-se do artigo 68 do referido regimento interno. Citado dispositivo prev a possibilidade de redistribuio de processos para outros ministros, em casos excepcionais, como parece ser o caso da Lava Jato, mormente pelas particularidades que o envolvem.

Deste modo, com base no mencionado artigo 68, j utilizado anteriormente pelo Ministro Gilmar Mendes, a Presidente do STF, a norte mineira Carmen Lcia, poder decidir sobre a redistribuio dos processos que estavam sob responsabilidade de Zavascki para outros ministros. O pedido de redistribuio tambm pode ser feito pelo Ministrio Pblico ou pelos advogados das partes interessadas. Os advogados da Odebrecht j deram sinais de que vo pedir a redistribuio.

Ainda restariam, no entanto, algumas dvidas sobre que critrios seriam adotados para tal redistribuio. guisa de considerao, ela pode ser feita tanto entre todos os ministros da corte, como apenas entre aqueles que compem a Segunda Turma, qual pertencia Teori, formada, atualmente, pelos ministros Gilmar Mendes, Ricardo Lewandowski, Celso de Mello e Dias Toffoli. O mais sensato, a nosso sentir, no sentido de que a redistribuio atinja, indistintamente, a todos os Ministros do STF, exceo de sua presidente, por fora regimental.

Portanto, no obstante a lamentvel passagem do Ministro Teori, acreditamos que a operao Lava jato, seja pelo olhar atento da sociedade, seja pela cobertura da imprensa mundial, seja pela grandeza das instituies envolvidas, dever prosseguir. Os prximos passos sero definidos pela montesclarense Carmen Lcia, atual presidente da Corte. Que Deus lhe conceda a sabedoria necessria para decidir. Que tenha, assim, a mesma firmeza que nutre a esperana dos norte mineiros nestes sertes das gerais. Eu acredito!

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia



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Por Marcelo Eduardo Freitas - 14/1/2017 13:14:04
POLTICA NO BRASIL COISA PARA MACHO!

* Marcelo Eduardo Freitas

Como de costume e por dever de ofcio, no fim do ano que se passou e incio de 2017, acompanhamos algumas solenidades alusivas diplomao e posse de candidatos eleitos no ltimo sufrgio, de outubro prximo, destinado escolha de prefeitos e vereadores.

Confesso que, no obstante a macia e mais expressiva renovao da histria da nova repblica, senti um certo desconforto ante incmoda e bvia constatao: poltica, no Brasil, coisa para macho!

Caro leitor, guisa de introduo ante perturbante verificao, na macrorregio norte de Minas, a quantidade de mulheres eleitas foi baixssima, o que lamentvel. Quase no presenciamos vereadoras eleitas, de to poucas. A legislao brasileira exige, desde 2009, o mnimo de 30% e o mximo de 70% de candidatos de cada sexo em eleies proporcionais, o que inclui as candidaturas ao cargo de vereador, em uma evidente tentativa de estimular a participao feminina na poltica.

Ocorre que, em todo o pas, de um modo geral, o nmero de mulheres sem nenhum voto disparou aps a citada lei. Foram 14.498 candidatas que no receberam nenhum voto para a cmara municipal, apesar de estarem aptas a disputar as eleies. Elas representam 1 em cada 10 candidatas ao parlamento municipal, o que equivale a 10% do total. Sem essas mulheres de voto zero, uma em cada quatro chapas de vereadores poderia ser indeferida pela justia eleitoral.

Como se no bastasse a fraude acima, o Brasil elegeu apenas uma mulher prefeita no primeiro turno, em capitais, nas eleies municipais. No Congresso Nacional, apesar de a participao das mulheres estar em relativa ascenso, ainda no passa de 10%.

A maior representatividade proporcional, nas ltimas eleies municipais, foi no Rio Grande do Norte, em que 28% das prefeituras ficaram com mulheres. Em seguida, esto Roraima (27%), Alagoas (21%), Amap (20%) e Maranho (19%).

Em situao oposta, com o menor percentual de mulheres eleitas, est o Esprito Santo, onde somente 5% das administraes sero comandadas por mulheres no prximo quadrinio. Em seguida esto Rio Grande do Sul (6%), Minas Gerais (7,3%), Paran (7,4%) e Amazonas (8,2%).

H, ainda, um outro dado que nos parece bem mais grave: em regra, as mulheres eleitas para assumir os mandatos eletivos so filhas e/ou esposa de polticos proeminentes, outrora ocupantes dos cargos em disputa. O nosso pas pssimo para cultivar lideranas. Recepcionamos a lavagem cerebral provocada pela propaganda poltica como algo natural e, com isso, aceitamos - passivamente - a eleio de parentes e aderentes dos detentores do poder como se fosse algo natural, o que pode justificar a situao do nordeste brasileiro, acima vista. Deste modo, podemos concluir que, salvo algumas melhoras extremamente pontuais, o quadro ainda de extrema desigualdade na assuno dos cargos eletivos.

De acordo com o ltimo Censo do IBGE, as mulheres representam 51% da populao do Brasil, nmero suficiente para que o quadro apresentado sofra sublimaes. E por que no se altera? A nosso sentir, fruto de uma cultura extremamente machista, que alija as mulheres da participao na sociedade, da tomada de decises, enfim, de exercer ativo papel nas mudanas que se espera.

No sem razo, Millr Fernandes dizia que a anatomia uma coisa que os homens tambm tm, mas que, nas mulheres, fica muito melhor. Concordo plenamente! Contudo, diante de um quadro como este, no demais concluir com Sneca, um dos mais clebres intelectuais do imprio romano, quando dizia: Uma mulher bonita no aquela de quem se elogiam as pernas ou os braos, mas aquela cuja inteira aparncia de tal beleza que no deixa possibilidades para admirar as partes isoladas. Que a mulher encontre espao nos diversos ramos da atividade humana, especialmente na poltica partidria. Que seja admirada no pela aparncia que ostenta, mas pelo modo de pensar, pelo que efetivamente , pela sua inteireza. tempo de reconstruo de rumos, de renovao de cenrios, outrora devastados pela ignorncia e pelo machismo. Se queremos um pas melhor, preciso valorizar as mulheres!

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia



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Por Marcelo Eduardo Freitas - 23/12/2016 17:12:22
NATAL: PRECISO CELEBRAR O AMOR!

* Marcelo Eduardo Freitas

O Natal materializa a data em que celebramos o nascimento de Jesus Cristo, expresso maior de amor entre os homens. A Bblia, entretanto, nada diz sobre o dia exato em que Jesus nasceu. A comemorao do Natal, desta maneira, no fazia parte das tradies crists no incio dos tempos.
As antigas comemoraes de Natal costumavam durar at 12 dias. Cuidava-se de uma referncia ao tempo em que os trs reis Magos levou para chegarem at a cidade de Belm e ofertarem os presentes - ouro, mirra e incenso - quele que, mais tarde, se tornaria o mais bendito dos frutos dos ventres terrenos.
Foi apenas no sculo IV, por determinao do Papa Julio, que o dia 25 de dezembro foi estabelecido como data oficial de comemorao do natalcio de Cristo. A idia por trs da celebrao era imprimir no corao das pessoas a importncia do nascimento do Filho de Deus. Na Roma Antiga, o 25 de dezembro era a data em que se comemorava o incio do inverno. Por isso, acredita-se que haja uma relao deste fato com a oficializao da celebrao do Natal.
Em tempos mais recentes, motivada por aspectos econmicos, passamos a cultivar, por vezes em detrimento do nascimento do Salvador do mundo, a figura do "bom velhinho", inspirada que foi no bispo chamado Nicolau, que nasceu na Turquia em 280 d.C. O bispo, considerado homem de bom corao, costumava ajudar pessoas pobres, deixando pequenos sacos com moedas prximas s chamins das casas. Foi transformado em santo (So Nicolau) pela Igreja Catlica, aps vrias pessoas relatarem milagres atribudos a ele.
At o final do sculo XIX, o Papai Noel era representado com uma roupa de inverno, na cor marrom ou verde escura. A roupa nas cores vermelha e branca, com cinto preto, foi criada pelo cartunista alemo Thomas Nast e apresentada ao mundo no ano de 1886. Em 1931, entretanto, uma campanha publicitria da Coca-Cola mostrou o Papai Noel com o mesmo figurino criado por Nast, que tambm eram as cores utilizadas na propaganda do refrigerante. A campanha publicitria fez um grande sucesso, ajudando a espalhar a nova imagem do Papai Noel por todo o planeta.
Ainda que se leve em conta apenas o aspecto cronolgico, o Natal uma data de grande importncia para o ocidente, particularmente por marcar, a partir do nascimento de Jesus, o incio de nossa histria moderna, com a contagem dos tempos levando-se em conta este fenmeno natural. O verdadeiro significado do Natal, no entanto, no est nos presentes materiais que damos ou ganhamos, mas sim no amor verdadeiro que podemos compartilhar com o prximo. nesta poca do ano que aparentemente as pessoas se tornam mais religiosas e sensveis, liberam perdo e tornam-se mais solidrias e humildes.
Natal, deste modo, momento de renascimento. poca de reacender o fogo da vida, de renovar os sonhos e metas para o ano novo que j se anuncia. tempo tambm de celebrar todas as conquistas vividas e os objetivos alcanados. Esta a poca da virada, de planejar um ano ainda melhor do que este que est dando adeus. sinnimo de famlia, de unio, de aproximao das pessoas, e quando esse sentimento recproco sinal de que o verdadeiro esprito do Natal se fez presente em nossos coraes.
Felizes, assim, so as famlias que comemoram, em unio, o verdadeiro Natal, aquele que mais que Papai Noel, aquele que mais que presentes. O verdadeiro Natal em famlia aquele que nos reunimos para comemorar o nascimento de Jesus, para comemorar a unio e a paz dos homens de boa vontade.
Contudo, diante da mesa farta, espero que as idias e a histria desse Homem sirvam, pelo menos, como uma provocao reflexo. Amar um ato de coragem! Deixemos o dio para os covardes!
Que possamos encontrar em 2017 o verdadeiro Cristo em nossas existncias! Que passemos a resgatar vidas! No mnimo, em moldes similares queles que utilizamos para recuperar lixos. As pessoas podem melhorar! Podem encontrar o caminho! tempo de unio, paz e reflexo! tempo de acreditar no ser humano e transformar o mundo num lugar onde todos os nossos sonhos se tornem realidade!
O Natal um tempo de benevolncia, perdo, generosidade e alegria. A nica poca que conheo, no calendrio do ano, em que homens e mulheres parecem, de comum acordo, abrir livremente seus coraes.
Como diria Santo Agostinho ama e faz o que quiseres. Se calares, calars com amor; se gritares, gritars com amor; se corrigires, corrigirs com amor; se perdoares, perdoars com amor. Se tiveres o amor enraizado em ti, nenhuma coisa seno o amor sero os teus frutos. Um abenoado Natal e um Ano Novo repleto de bnos e realizaes!

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


82029
Por Marcelo Eduardo Freitas - 16/12/2016 11:30:16
PODE UM HOMEM MATAR ESPOSA E FILHA?

* Marcelo Eduardo Freitas

No decorrer desta semana, em razo dos acontecimentos que a marcaram, talvez impelido por um certo arroubo de criticidade, resolvi revisitar alguns textos do filsofo grego Epcuro, particularmente quando de seu dilema lgico sobre o problema do mal, mais conhecido como o paradoxo de Epcuro.

Em sntese, pude me deparar com a perplexidade do discpulo de Plato sobre a questo da existncia do mal. O grande filsofo grego registrou de forma perturbadora aquilo que, a seu sentir, representava um certo antagonismo: "Ou Deus quer abolir o mal e no pode; ou ele pode e no quer. Se ele quer, mas no pode, ele impotente. Se ele pode, mas no quer, ele mal. Se Deus pode abolir o mal e realmente quer faz-lo, por que existe mal no mundo?"

No raras vezes, ouvi dizer que o mal no pode vencer o mal. S o bem pode faz-lo. Contudo, parece que a corrente do bem tem ficado enfraquecida. Trago reflexo o tormentoso tema que me angustiou nos ltimos dias: Sem ter para onde fugir, moradores do leste da cidade sria de Aleppo esto pedindo permisso a religiosos para que pais possam matar as filhas, mulheres e irms antes que elas sejam capturadas e estupradas pelas foras do regime de Bashar al-Assad, da milcia libanesa do Hezbollah ou do Ir.

Uma trgua deveria ter permitido a sada de moradores da cidade. Mas com a retomada dos bombardeios na ltima quarta-feira, a retirada de seres humanos indefesos foi suspensa. O desespero aumenta e, isolados por terra, miserveis da rea cercada enviam apelos dramticos pelas redes sociais.

Um conhecido lder religioso que fugiu da Sria, Muhammad Al-Yaqoubi, afirmou que estava recebendo consultas de Aleppo, incluindo algumas inquietantes: Pode um homem matar sua mulher, filha ou irm antes que ela seja estuprada pelas foras de Assad, na frente dele?

Visivelmente, ultrapassamos todos os limites da racionalidade e descambamos para o lado de uma perturbadora e estridente descrena. O livre arbtrio parece soar como um erro de programao. Sob qualquer perspectiva, sob quaisquer aspectos que se queira observar, inaceitvel imaginar a possibilidade de que, cidados, mesmo num quadro ttrico de guerra, tenham que ceifar a vida de pessoas prximas, como uma forma de preservao da pureza. No d para no se comover com a dor do prximo! De to amarga a questo, difcil at mesmo imaginar sobre os limites do que seriamos capaz de fazer.

Segundo a ONU e outras organizaes internacionais, crimes de guerra e contra a humanidade vm sendo perpetrados na Sria por todos os lados e de forma desenfreada. Para se ter uma dimenso, o nmero de mortos passa das 250 mil pessoas, sendo mais da metade de civis. Outras 130 mil pessoas teriam sido detidas pelas foras de segurana do governo. Mais de quatro milhes de srios j teriam buscado refgio no exterior para fugir dos combates, com a maioria destes tomando abrigo no vizinho Lbano. A Human Rights Watch, uma organizao de defesa dos direitos humanos, chegou a afirmar que o caso do pas est "entre os piores do mundo".

Padre Antnio Vieira, em seus sermes, dizia que o bem ou presente, ou passado, ou futuro: se presente, causa gosto; se passado, causa saudade; se futuro, causa desejo. preciso, ento, que desejemos, como nunca, a odissia do bem. Ao tempo em que se avizinha o natal, sentar-se mesa farta sem refletir sobre a desgraa alheia parece ecoar como uma provocao.

A pior forma de covardia testar o poder na fraqueza dos outros. No sem razo, Jos Saramago dizia que evidente: a maldade, a crueldade, so inventos da razo humana, da sua capacidade para mentir, para destruir. Olhar para os cus, assim, atribuindo as mazelas da criatura ao Criador bater abaixo da linha do intelecto!

Bem sabemos que no fcil viver a vida. Para que esse barco, contudo, possa fazer a travessia do grande mar existencial, no sem dificuldades, preciso compreender que vale a pena ser o heri de sua prpria histria. S depende de nossas aes. O futuro no pode ser previsto, mas pode ser modelado a partir do que fazemos agora, nesse momento que, no sem razo, se chama presente. a nossa habilidade de inventar e construir o futuro que nos d esperana para fazermos do mundo algo melhor. Boas aes geram outras boas aes. O amor tem o poder de irradiar e contagiar o mundo. A orao opera milagres. Que possamos celebrar o nascimento do Cristo direcionando nosso olhar queles que sofrem. No espere a hora da morte para lembrar o que precisa ser feito. tempo de reflexo!

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


82017
Por Marcelo Eduardo Freitas - 9/12/2016 20:56:41
DECISO JUDICIAL SE CUMPRE?

* Marcelo Eduardo Freitas

Tanto no Brasil como em qualquer outro pas democrtico do globo terrestre, fazer com que todas as decises do Poder Judicirio sejam cumpridas, particularmente, por ser esta uma das, seno a mais, importante conquista de um Estado democrtico, dever de cada um de ns.

Surge, assim, o conhecido ditado: Ordem judicial no se discute, se cumpre. Em minhas aulas na faculdade de Direito, aprendi, desde cedo, que referida assertiva figurava como uma espcie de mantra, no passvel de desacato por qualquer cidado.

Contudo, em tempos atuais nessas terras tupiniquins, certos acontecimentos at que poderiam ser opacos, a fim de impedir que qualquer do povo deles tivesse conhecimento. O objetivo seria o de evitar a imagem de um Estado fraco, covarde, que se estremece ante os poderosos de planto. Serei mais claro abaixo, apresentando os fatos tais quais me pareceram ser.

Na segunda-feira (5/12), aps deciso individual proferida pelo Ministro do Supremo Tribunal, Marco Aurlio de Mello, Renan Calheiros foi afastado da presidncia do Senado. A deciso, tomada em carter de liminar, se deu em razo de referido senador ter se tornado ru sob a acusao do crime de peculato (desvio de dinheiro pblico), alm de se encontrar na linha de substituio do presidente da repblica, Michel Temer. Em caso de viagem ao exterior, por exemplo, quem deveria assumir a presidncia de nosso pas seriam os presidentes da Cmara e do Senado, nessa ordem.

A deciso determinando o afastamento, destarte, por ser provisria, precisaria de confirmao pelo plenrio do STF. O Senado, no entanto, decidiu no afastar Renan, que sequer assinou a notificao enviada pelo Poder Judicirio. A deliberao, assim, foi solenemente descumprida. Pior, pela mais alta casa do legislativo brasileiro.

No sem razo, desta forma, quando do julgamento em definitivo pelo plenrio da corte, o Ministro Marco Aurlio fez constar de seu voto: "Tempos estranhos os vivenciados nessa Repblica... Pensa o leigo que o Senado da Repblica o senador Renan Calheiros. Ante a liminar, cancelou-se no s encontro natalino, como cancelou-se no dia de ontem a sesso plenria, procedendo-se de igual forma quanto sesso de hoje... Caso provocao haja, est na inconcebvel, intolervel e grotesca postura de desrespeitar ao extremo ordem judicial. Recusar at mesmo, j no digo o cumprimento, mas o simples `ciente` nos mandados de notificao expedidos".

Embora a maioria do Tribunal tenha entendido que Renan Calheiros no precisa ser afastado da presidncia do Senado Federal pelo fato de ser ru, de forma contrria ao que determinou a liminar do ministro Marco Aurlio, nos parece evidente que o bom funcionamento da sociedade depende, e muito, do respeito e da obedincia que se presta s autoridades pblicas, seguindo as regras estatudas pelas leis. As liminares, portanto, tambm devem ser obedecidas, no obstante o seu destinatrio.

guisa de exemplos, se os prprios governantes se arvoram no direito de no respeitar as leis, os juzes no as aplicam com iseno, os militares desafiam seus superiores hierrquicos, enfim, se os demandantes de uma ao judicial desrespeitam as decises judiciais, o caos se instala na sociedade. O Judicirio fica limitado a apenas reconhecer o direito do cidado, sem autoridade para garantir sua execuo! No se pode viver em comunidade, buscando sempre algo somente do agrado pessoal, sem observar o direito do outro.

Insta registrar que, fortalecido aps a deciso plenria que atendeu a seus interesses, indagado por jornalistas sobre toda a situao vivenciada pelos poderes, o senador afirmou: A deciso do Supremo fala por si s. No d para comentar deciso judicial. Deciso do STF para se cumprir. Quanta ironia!

Sneca, um dos mais clebres advogados, escritores e intelectuais do imprio romano, afirmava que voc ser avarento se conviver com homens mesquinhos e avarentos. Ser vaidoso se conviver com homens arrogantes. Jamais se livrar da crueldade se compartilhar sua casa com um torturador. Alimentar sua luxria confraternizando-se com os adlteros. Se quer se livrar de seus vcios, mantenha-se afastado do exemplo dos viciados. tempo de renovar a Repblica! Afastar os vcios que a inquina! hora de se cumprir as leis! Enfraquecer o Judicirio no bom para os rumos de nossa nao. Boas ou ms, as decises judiciais devem ser cumpridas! Em caso de desconformidade, sempre haver um remdio para correo da eventual injustia. Este, o princpio fundamental de todas as constituies livres, inclusive a brasileira. Parece que o Senado se esqueceu disso.

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


81994
Por Marcelo Eduardo Freitas - 2/12/2016 15:51:10
AS DIMENSES DO TEMPO E A MAIOR DOR DO MUNDO

* Marcelo Eduardo Freitas

O tema, objeto desta loa vida, de uma complexidade incomensurvel. Sem muita pretenso, buscaremos enfrent-lo abordando as dores do corpo, sem olvidar, no entanto, daquelas que realmente tm atormentado o sono de milhes de pessoas ao redor do planeta: as dores da alma.
guisa de introduo, dor uma experincia desagradvel, provocada por diferentes motivos e com intensidades variveis. Algumas, de to fortes, nos causam at calafrios. Cada pessoa, sendo nica, a recebe de uma maneira distinta. H aqueles que esperneiam por um simples corte na mo. Outras h, no entanto, que suportam uma angina silenciosamente. Os seres humanos, de fato, somos um grande mistrio!
Todos ns j passamos por momentos em que acreditvamos estar diante da maior de todas as dores. Desde a boa e velha batida do dedinho na quina do mvel, ou a martelada na cabea do dedo, arrancando-lhe a unha. O assunto to intrigante que at fizeram uma espcie de ranking.
Esto entre aquelas consideradas de maior intensidade as seguintes dores: clica renal, lombalgia aguda, rompimento de tendo, neurite herptica, hipertenso intracraniana, enxaqueca severa, apendicite, dor de dente, cncer, dor do parto, infarto, angina. Mas qual ser a maior dor do mundo?
Confesso que em minhas andanas dialoguei, ainda que indiretamente, com diversas pessoas sobre o assunto. Em todas, um ponto nos pareceu comum. Ultrapassada a fase aguda, com a diminuio dar dor, h um certo alvio.
H, no entanto, outras formas de dor, no elencadas no rol acima, que julgo muito maior. Em contraposio dor do parto, por vezes aliviada com o uso de potentes anestsicos, apta a gerar a alegria da vida, h o momento da partida. Sim, caro leitor, a dor da morte faz com que, leigos ou letrados, aps os momentos de fragilidade gerados pela perda repentina, percam as estribeiras.
Suportamos com certa naturalidade a morte de nossos pais, a passagem de nossos amigos, o bito de um irmo, o decesso de esposas e/ou maridos. Todavia, sem muitos rodeios, h uma forma de morte que no consigo observar sem irresignao. Essa capaz de alterar, completamente, as dimenses do tempo: refiro-me ao padecimento de um filho!
Caro leitor, j vi homem valente berrar como um cabrito, letrado perder a noo das coisas, crentes negarem a existncia de Deus. Sorrisos que se foram e no voltam mais. Essa, meus amigos, a dor da perda de um filho, aquela que considero a maior de todas as dores do mundo! S de pensar me fragilizo. De imaginar me sinto fraco. Nenhum pai ou me deveria passar por este sofrimento. Ver a vida de um filho ser interrompida uma experincia que ningum merece viver. Jos Saramago dizia que os filhos so seres emprestados para um curso intensivo de amor ao prximo, de vida e de coragem. Ter um filho um ato de amor e de destemor inigualvel. O amor que se sente por um filho incondicional. Por isso, a ojeriza ao aborto.
A mulher que perde o esposo chamada de viva. O filho que perde os pais tido por rfo. Entretanto, no h no dicionrio um termo que designe o pai ou a me que perdeu um filho! A crena de que a lei da natureza determina que os mais velhos morram antes dos mais jovens dificulta ainda mais a compreenso do que enterrar o corpo do prprio filho.
Casamentos so desfeitos, homens viram alcolatras, amizades desaparecem, um sorriso parece soar como uma certa forma de auto-reprovao. preciso atribuir um resignificado vida. A vida que se sonhou, no mais existir. Surge sempre lembrana a incmoda pergunta sobre o que poderia ter sido feito e no o foi.
Existem momentos em que gostaramos muito de ajudar a quem amamos, mas no podemos fazer nada. Ou as circunstncias no permitem que nos aproximemos, ou a pessoa est fechada para qualquer gesto de solidariedade e apoio. Ento, nos resta apenas o amor. Nos momentos em que tudo intil, ainda podemos amar - sem esperar recompensas, mudanas, agradecimentos.
Se conseguirmos agir desta maneira, a energia do amor comea a transformar o universo a nossa volta. Quando esta energia aparece, sempre se consegue realizar o trabalho pendente. Henry Drummond dizia que "o tempo no transforma o homem. O poder da vontade no transforma o homem. O amor transforma".
Que nenhum pai ou me sofra com a dor de enterrar seus filhos! Neste perodo do advento, primeiro tempo do ano litrgico, onde os cristos se preparam para celebrar o nascimento de Jesus, o que mais desejo ao meu prximo! Celebrem, pois, a vida!

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


81983
Por Marcelo Eduardo Freitas - 25/11/2016 13:11:10
A PS-VERDADE EM UM BRASIL DE DESLETRADOS

* Marcelo Eduardo Freitas

A cada ano, a Oxford Dictionaries, departamento da universidade de Oxford responsvel pela elaborao de dicionrios, elege uma palavra para a lngua inglesa. Neste ano de 2016, a escolhida foi ps-verdade (post-truth).

Alm de eleger o termo, a instituio definiu o que a ps-verdade: em sntese, um adjetivo que se relaciona ou denota circunstncias nas quais fatos objetivos tm menos influncia em moldar a opinio pblica do que apelos emoo e a crenas pessoais. A palavra, desta maneira, tem sido usada por quem avalia que a verdade est perdendo importncia, mormente no debate poltico. Em um Brasil de desletrados, ento, nem se fala.

O termo ps-verdade, com a definio atual, foi usado pela primeira vez em 1992, pelo dramaturgo srvio-americano Steve Tesich. Ele tem sido empregado com alguma constncia h cerca de uma dcada, mas houve um pico no uso da palavra, que cresceu 2.000% em 2016.

Para diversos veculos de imprensa, a proliferao de boatos no Facebook e a forma como o feed de notcias funciona foram decisivos para que informaes falsas tivessem alcance e legitimidade. Este e outros motivos tm sido apontados para explicar a ascenso da ps-verdade.

Outras plataformas como Twitter, Telegram e Whatsapp favorecem a replicao de boatos e mentiras. Grande parte dos factides so compartilhadas por conhecidos nos quais os usurios tm confiana, o que aumenta a aparncia de legitimidade das histrias.

Segundo a revista The Economist, o mundo contemporneo est substituindo os fatos por indcios, distores por vieses, percepes por convices. Estamos saindo da bipartio tradicional entre certo ou errado, bom ou mau, justo ou injusto, fatos ou verses, verdade ou mentira para ingressarmos numa era de avaliaes fluidas, terminologias vagas ou juzos baseados mais em sensaes do que em evidncias. A verossimilhana ganhou mais peso que a comprovao!

2016, assim, est sendo o ano em que a verdade dos fatos no est importando para a opinio pblica, despontando como o mais representativo dessa nova era. E ps-verdade talvez seja mesmo a expresso que melhor define a sensao de incredulidade diante do que testemunhamos no decorrer do ano que ainda no acabou.

guisa de exemplo, mesmo com um repertrio de mentiras assustadoras, milhes de pessoas decidiram votar em Donald Trump. No importa se os fatos comprovaram sua compulsividade em mentir. O que vale a emoo - a mesma que levou a populao a apoiar uma guerra para impedir que o inimigo usasse armas de destruio em massa que, em verdade, nunca existiram. Outro exemplo: Atribuir a qualquer investida em desfavor dos supersalrios ou do auxlio moradia a capacidade de afetar a operao Lava-Jato. Mentira escancarada! Tanto deve prosseguir a mencionada operao, quanto as aes que objetivam pr termo a caprichos imorais e inaceitveis, especialmente em tempos de terrveis crises econmicas (no vou nem me referir crise moral!).

um caso tpico de aplicao da teoria da cognio preguiosa, criada pelo psiclogo israelense e prmio Nobel Daniel Kahneman, para quem as pessoas tendem a ignorar fatos, dados e eventos que obriguem o crebro a um esforo adicional. Em pases atrasados como o Brasil, onde a populao quase sempre no processa o que v, ouve ou l, o risco de distores absurdamente enorme. Por isso, toda preocupao nunca ser pouca.

A verdade, a despeito das diversas correntes filosficas que no encontram um consenso absoluto sobre sua conceituao, pode ser definida, em sua acepo comum, como a "conformidade com o real", ou a "representao fiel de alguma coisa da natureza". Santo Agostinho a define da seguinte forma: Verum est id quod est, ou seja, a verdade o que .

Pode-se dizer, destarte, que a busca da verdade, presente em todas as reas do conhecimento, um anseio da alma humana, e que nasce concomitantemente com o ser humano. A filsofa paulistana Marilena Chau ensina que "a busca da verdade est ligada a uma decepo, a uma desiluso, a uma dvida, a uma insegurana ou, ento, a um espanto e a uma admirao diante de algo novo ou inslito. Como nada mais espanta a humanidade, a ps-verdade se expande.

tempo, portanto, de uma aplicao contempornea do velho brocardo romano: veritas est indivisa et quod non est plene verum non este semiplene verum sed plene falsum, ou seja, a verdade indivisa e o que no plenamente verdadeiro no semiplenamente verdadeiro, mas plenamente falso. Estamos cultuando e replicando, s vezes de modo insciente, em razo da cognio preguiosa, mentiras deslavadas. urgente criarmos mecanismos para dificultarmos que mdias sociais, sem censura por parte de quem quer que seja, propaguem noticias falsas aos seus usurios, distorcendo fatos ou criando situaes absolutamente inexistentes. A histria ainda no nos libertou de tiranos e assassinos. Olhemos um pouco no retrovisor. A propaganda nazista, fervorosamente defendida por Goebbels, permitiu o extermnio de milhes de judeus. No duvidem, portanto, de que outros anticristos possam surgir, maquiando a imagem do real. Ergam suas cabeas e olhem a parte superior de nosso mapa continental. Se promessas de campanhas forem cumpridas, haver choro e ranger de dentes. Melhor, assim, que seja apenas ps-verdade. Afinal, parece que os seres humanos, cada vez mais, adoramos observar sangue, suor e lgrimas, especialmente de inocentes indefesos.

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


81919
Por Marcelo Eduardo Freitas - 29/10/2016 10:41:26
ELEIES/2016: O SEGUNDO TURNO EST A

* Marcelo Eduardo Freitas

O segundo turno das Eleies 2016 ser realizado no prximo domingo, dia 30 de outubro. Ocorrer nos municpios com mais de 200 mil eleitores, em que nenhum dos candidatos a prefeito tenha conseguido a maioria absoluta, ou seja, 50% dos votos vlidos mais um.
Esta sistemtica de escolha foi introduzida em Portugal pela Constituio de 1976. Em um primeiro momento, apenas para as eleies presidenciais. No Brasil, procedimento muito semelhante foi introduzido com a Constituio Federal de 1988. O objetivo era evitar que o eleitorado desistisse daquele candidato considerado melhor, a fim de apoiar outro, considerado mais forte, com mais chances de vitria, para no perder o voto. Algo muito comum em terras tupiniquins.
Mas, afinal, em que circunstncias h segundo turno em nosso pas?
A resposta pode ser facilmente encontrada nos arts. 28, 29, inciso II, e 77, todos da nossa Constituio. De acordo com esses dispositivos, o segundo turno poder ocorrer apenas nas eleies para presidente e vice-presidente da Repblica, governadores e vice-governadores dos estados e do Distrito Federal e para prefeitos e vice-prefeitos de municpios com mais de 200 mil eleitores. Por eliminao, assim, so eleitos em uma nica votao: vereadores, deputados estaduais, deputados federais, senadores, assim como prefeitos e vice-prefeitos de municpios com menos de 200 mil eleitores.
Desde a redemocratizao, houve segundo turno, por exemplo, nas eleies para presidente e vice-presidente da Repblica de 1989, 2002, 2006 e 2010. J nas eleies de 1994 e 1998, o presidente e o vice-presidente da Repblica foram eleitos no primeiro turno.
Nos casos expressamente enumerados na Constituio, deste modo, o que define a possibilidade de realizao de segundo turno a adoo do critrio da maioria absoluta de votos, caracterstico do chamado sistema eleitoral majoritrio de dois turnos.
O Brasil tem 92 municpios onde possvel a ocorrncia de segundo turno. Nas eleies de 2012, 50 cidades o tiveram. Neste ano, isso acontecer em 56 das 92 cidades.
So Paulo o Estado com maior nmero de municpios com 2 turno: 14. Em seguida, vem o Rio de Janeiro, com sete. Ainda no Sudeste, onde h a possibilidade de nova consulta nas urnas em 50 cidades, o Esprito Santo contabiliza quatro, e Minais Gerais, trs. Dentre as cidades de Minas, est Montes Claros/MG, com a situao de um dos candidatos sub judice, ou seja, pendente de julgamento pelo Poder Judicirio. No caso concreto, pelo Tribunal Superior Eleitoral, j que o Tribunal Regional Eleitoral/MG determinou o cancelamento da chapa, baseando-se na impossibilidade de substituio do candidato a vice-prefeito a menos de 20 dias antes do pleito, exceto em caso de falecimento.
Apesar disso, o registro da candidatura ainda no foi totalmente indeferido. Nos casos em que so apresentados recursos, como na hiptese, os votos do candidato so computados separadamente, mas o processo continua at que seja definida a situao do registro da chapa.
Isso se d por conta do que expressamente prev a lei das eleies (Lei 9.504/97), em seu artigo 16-A: O candidato cujo registro esteja sub judice poder efetuar todos os atos relativos campanha eleitoral, inclusive utilizar o horrio eleitoral gratuito no rdio e na televiso e ter seu nome mantido na urna eletrnica enquanto estiver sob essa condio, ficando a validade dos votos a ele atribudos condicionada ao deferimento de seu registro por instncia superior.
A norma, embora possa onerar aos cofres pblicos, haja vista a possibilidade de se realizar uma nova etapa das eleies, com deciso contrria aos interesses do candidato recorrente, ao final, positiva. Permite-se que o povo, de onde todo poder emana, possa escolher quele que mais dignamente ir represent-lo na gesto da coisa pblica. o que se espera seja feito em Montes Claros.
Ulysses Guimares dizia que a grande fora da democracia confessar-se falvel de imperfeio e impureza, o que no acontece com os sistemas totalitrios, que se autopromovem em perfeitos e oniscientes para que sejam irresponsveis e onipotentes. O voto uma conquista das sociedades livres. Espera-se que o eleitor assim tambm o compreenda. preciso ir s urnas. Que cada um faa o seu papel. Os rumos de nossas cidades sero definidos em poucos cliques. Cidado, a escolha sua!

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


81910
Por Marcelo Eduardo Freitas - 22/10/2016 09:57:59
A LOUCURA DA LIBERDADE

* Marcelo Eduardo Freitas

A histria da escravido nos Estados Unidos inicia-se no sculo XVII. As prticas utilizadas eram bastante similares quelas adotadas pelos espanhis e portugueses em colnias na Amrica Latina.
Em 1808, quando o Congresso americano proibiu oficialmente a importao de escravos, no se imaginava que as divergncias entre o Norte industrializado e o Sul agrcola fossem se agravar tanto, a ponto de culminar numa guerra civil. A escravido, assim, foi o estopim do conflito. Suas causas, no entanto, foram um somatrio de fatores socioeconmicos e poltico-culturais.
A diferena entre nortistas e sulistas teve origem no processo de desenvolvimento de cada uma destas regies. Enquanto o Sul prosperava custa do trabalho escravo e da exportao de matria-prima para a Europa, o Norte privilegiou o trabalho assalariado e a articulao de um poderoso comrcio.
Historicamente, a cor da pele influenciou fortemente a formao da cultura e dos valores norte-americanos. No ano de 1840, em Washington, capital dos EUA, foi realizado um censo, considerado oficial, a fim de medir a demncia dos negros daquele pas.
De acordo com o censo, havia nove vezes mais loucos entre os negros livres que entre os negros ainda considerados escravos.
O Norte, assim, era considerado um vasto manicmio. Quanto mais ao Norte, pior a coisa ia ficando. Lado outro, do Norte para o Sul, a maluquice ia se transformando em discernimento e sensatez. Entre os escravos que trabalhavam nas prsperas plantaes de algodo, tabaco e arroz a loucura praticamente no existia!
O censo realizado, deste modo, confirmava a certeza dos senhores da poca: a escravido, excelente remdio, desenvolvia, entre os negros (obviamente), o equilbrio moral e a sensatez. A liberdade, no poderia ser diferente, gerava cada vez mais pessoas doidas, insanas, malucas, contestadoras.
Em vinte e cinco cidades do Norte no havia sido encontrado um s negro lcido. Em trinta e nove cidades de Ohio, hoje um dos principais plos industriais do pas, e vinte cidades do Estado de Nova York (que no deve ser confundido com a cidade de mesmo nome, localizada ao sul do Estado), os negros loucos somavam mais que todos os demais negros.
O censo parecia no ser digno de f! Contudo, continuou sendo a verdade oficial durante um quarto de sculo, culminando, em 1 de janeiro de 1863, com a Proclamao de Emancipao, entabulada por Abraham Lincoln, dcimo sexto presidente dos EUA, grande artfice da outorga de liberdade queles que assim deveriam ter nascidos.
Lincoln Libertou os escravos, ganhou a guerra e perdeu a vida! Foi atingido na cabea por um disparo dado queima roupa. Uma pea no Teatro Ford, em Washington, foi o palco para que o ator John Wilkes Booth, na noite de 15 de abril de 1865, inconformado com a derrota na guerra civil, consumasse o ato extremo.
Na defesa da mesma causa, em 04 de abril de 1968, Martin Luther King, um dos mais importantes lderes do movimento dos direitos civis dos negros nos Estados Unidos e no mundo, tambm sucumbiu. Foi assassinado com um tiro na sacada de um hotel em Memphis. de Luther King a frase que marcou a lendria marcha pelos direitos civis, rumo a Washington, em 1963: "No haver tranquilidade nem sossego na Amrica enquanto o negro no tiver garantidos os seus direitos de cidado Enquanto no chegar o radiante dia da justia A luta dos negros por liberdade e igualdade de direitos ainda est longe do fim".
As consideraes acima, sem olvidar de tantos outros exemplos, servem de base para podermos afirmar, com preciso, que a liberdade apregoada aos quatro cantos do planeta custou caro a muitos daqueles que nos antecederam. No entanto, ainda nos encontramos em um processo de consolidao de direitos e garantias. No Brasil, ainda no ostentamos plena liberdade de opinio, palavras, votos, crena religiosa, convico filosfica ou poltica. Precisamos, portanto, fazer um pouco mais. Ainda que se pague um alto preo.
, portanto, no inconformismo, na loucura, que conseguimos alcanar o que um dia se julgou impossvel. Fernando Pessoa afirmava que a loucura, longe de ser uma anomalia, a condio normal humana. No ter conscincia dela, e ela no ser grande, ser homem normal. No ter conscincia dela e ela ser grande, ser louco. Ter conscincia dela e ela ser pequena ser desiludido. Ter conscincia dela e ela ser grande ser gnio. Como os negros do Norte, que tenhamos f! Ainda que por geraes sejamos taxados de insanos. Liberdade, um dia, foi coisa de louco!

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


81901
Por Marcelo Eduardo Freitas - 14/10/2016 22:36:13
CNCER: O QUE IMPORTA A ESPERANA!

* Marcelo Eduardo Freitas

Essa semana fui surpreendido com a desconfortvel notcia de que os exames feitos em algum da famlia haviam dado positivo para adenocarcinoma, uma espcie de tumor maligno que pode afetar vrios rgos do corpo humano, o que obviamente nos tirou o sono. Em uma linguagem clara e acessvel, as anlises diagnosticaram uma espcie de cncer, o que nos fez escrever um pouco sobre esse tormentoso assunto que at hoje assombra numerosas famlias.
Antes de abordar o aspecto relativo s reaes que se passam, em geral, na cabea daqueles que so acometidos pelo mal, cumpre-nos esclarecer sobre a etimologia da palavra. A origem da expresso cncer vem do grego Karkinos e do latim Cncer, ambos significando caranguejo, pela semelhana observada entre as veias ao redor do tumor externo e as pernas do crustceo, no obstante alguns acreditarem, at hoje, que o nome teria relao com o fato de a doena evoluir de modo similar ao movimento do animal.
Os registros mais antigos do aparecimento do cncer so atribudos a Hipcrates (460 a.C.), uma das figuras mais importantes da histria da medicina. A caracterstica destruidora da doena foi citada por Galeno, mdico grego e primeiro pesquisador a classificar os tumores de pele em malignos e benignos. Galeno considerava o cncer como um mal incurvel. E assim o foi por longas dcadas. Hoje, contudo, a briga se tornou menos desleal, dado o razovel nmero de pessoas que alcanam a completa remisso em qualquer uma de suas mais de 100 formas de manifestao.
De acordo com dados do Instituto Nacional do Cncer - INCA, estima-se que, no Brasil, ocorrero 472.050 novos casos de cncer. Destes, 234.570 afetaro pessoas do sexo masculino. 237.480 pessoas do sexo feminino. Como qualquer clula do corpo pode se transformar e originar um tumor maligno, estas estimativas evidenciam um aumento progressivo do nmero de casos no cenrio brasileiro. Contudo, nem de longe, se encontram entre as principais causas de morte em nossa nao, capitaneadas pelos derrames (doenas cerebrovasculares), infartos e homicdios/acidentes de trnsito.
O diagnstico de cncer vivido como um momento de angstia e ansiedade. A doena rotulada como dolorosa e mortal. comum o desencadeamento de preocupaes em relao morte. Alm do momento do diagnstico, ao longo do tratamento, o paciente vivencia perdas e diversos sintomas que, alm de acarretar prejuzos ao organismo, coloca-o diante da incerteza em relao ao futuro, maximizando, assim, sua ansiedade.
O resultado de um estudo que perguntou a 443 pessoas com cncer qual foi o primeiro pensamento ao serem informados do diagnstico da doena revelador: medo, desespero e morte so as palavras que vm cabea quando dada a fatdica notcia de que h um cncer no corpo!
Em geral, o paciente oncolgico entra em um estgio de reaes psquicas que se divide em 5 fases: negao, revolta, barganha, depresso e aceitao. So fases que se apresentam desde o momento do diagnstico, mas que podem variar de pessoa para pessoa. Algumas passam mais tempo por uma determinada fase, outras mais rapidamente. Tem aquelas que invertem as fases. Outras, que no passam por todas elas.
O fundamental que o paciente seja informado de tudo sobre sua doena: o tipo de cncer, as formas e procedimentos de tratamentos, os sintomas e o prognstico esperado. Quanto mais informaes o paciente possui, maior ser sua participao durante esse processo e menor ser a sua ansiedade. Essa compreenso da doena e do tratamento e envolvimento, por parte do paciente, em cada etapa, favorecem o bom prognstico e a melhor qualidade de vida, afirmam os especialistas.
O mdico austraco Viktor Frankl dedicou toda a sua vida ao desenvolvimento e divulgao de uma nova forma de terapia, que busca explorar o sentido da vida e a dimenso espiritual da existncia. Ele acreditava que indivduos com valores e crenas no materiais (espirituais), que lhes davam sentido de existir, eram mais capazes de enfrentar diferentes tipos de problema e sofrimentos.
A religiosidade uma forma diferenciada de percepo e conexo com a vida que procura captar, fruir e proteger tudo aquilo que transcende a materialidade e a imediaticidade do mundo. No existe, portanto, religio alguma que seja falsa. Todas elas respondem, de formas distintas, a condies dadas da existncia humana. Rubem Alves dizia que o sentido da vida no um fato. Num mundo ainda sob o signo da morte, em que os valores mais altos so crucificados e a brutalidade triunfa, iluso proclamar a harmonia com o universo, como realidade presente. A experincia religiosa, assim, depende de um futuro. Ela se nutre de horizontes utpicos que os olhos no viram e que s podem ser contemplados pela magia da imaginao. Deus e o sentido da vida so ausncias, realidades por que se anseia, ddivas da esperana. De fato, talvez seja esta a grande marca da religio: a esperana. E talvez possamos afirmar, com Ernest Bloch: onde est a esperana ali tambm est a religio". Embora no sem dor, que a chama da esperana no se apague! Ainda que tenhamos a certeza de que o prximo suspiro ser o derradeiro! O cncer no o fim, seno o comeo de uma nova travessia!

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


81882
Por Marcelo Eduardo Freitas - 8/10/2016 09:30:47
CRIAES E CRIATURAS: O ERRO EST NO USO PELO HOMEM!

* Marcelo Eduardo Freitas

Em uma poca onde apenas os homens tinham acesso s universidades, Marie Sklodowska Curie, nascida em 07 de novembro de 1867, foi a primeira mulher catedrtica da Sorbonne, sendo tambm a primeira mulher, em toda histria, a receber o prmio Nobel.
No final do sculo XIX, em 1898, Marie e seu marido, Piere Curie, descobriram uma substncia que emitia quatrocentas vezes mais radiao que o urnio. Deram a ela o nome de Polnio, em referncia ao pas onde nasceu Marie. Naquela poca, a Polnia estava sob domnio do Imprio Russo, portanto no era reconhecida como uma nao.
Durante suas pesquisas, o casal percebeu que, ao remover o urnio e o trio da substncia conhecida como pechblenda, este mineral se tornava ainda mais radioativo. Isso os instigou a procurar por novos elementos naquela amostra. Foi assim que Marie Curie conseguiu isolar o polnio.
Pouco tempo depois, comearam suas experincias com o rdio, trs mil vezes mais poderoso que o urnio. Criaram, ento, a palavra radioatividade e, juntos, receberam o prmio Nobel.
Em uma conferncia realizada na Sucia, em Estocolmo, Pierre chegou a advertir aos presentes sobre o caso do prprio Alfred Nobel, inventor do dinamite: Os poderosos explosivos permitiram humanidade realizar trabalhos admirveis. Mas tambm so um meio terrvel de destruio nas mos dos grandes criminosos que arrastam os povos guerra. Em tempos modernos, amargamos a nossa tranqilidade com frequentes exploses de caixas eletrnicos, guisa de exemplo.
Pouco tempo depois, Pierre foi atropelado justamente por uma carreta que carregava quatro toneladas de material militar. Marie sobreviveu. Seu corpo, no entanto, pagou uma dura pena em razo de seus xitos com as pesquisas cientificas. As radiaes provocaram queimaduras, chagas e fortes dores. Marie morreu de anemia perniciosa. A filha, Irene Joliot-Curie, que tambm foi prmio Nobel de qumica em 1935 pelas suas conquistas no novo reino da radioatividade, morreu de leucemia.
Outro que tambm no teve muita sorte com o mal uso de sua criao foi o argonauta brasileiro Alberto Santos Dumont (1873-1932). Nascido em Minas Gerais, em 20 de julho de 1873, ele se apaixonou pela aeronutica ao ler, quando menino, as obras do escritor francs Jlio Verne. Aos 32 anos, sobrevivente de uma srie de acidentes, recebeu o ttulo de Cavalheiro da Legio de Honra da Frana. Aos 33, inventou um pssaro a motor que decolava sem catapulta e se elevava e voava a seis metros do cho. Ao aterrissar, declarou: Tenho a maior confiana no futuro do aeroplano.
Aos 49, pouco depois da primeira grande guerra, advertiu liga das Naes: As proezas das mquinas areas nos permitem entrever, com horror, o grande poder de destruio que elas podero alcanar, como semeadoras da morte, no apenas entre as foras combatentes, mas tambm, infelizmente, entre as pessoas indefesas.
Em 1914 teve incio a Primeira Guerra Mundial. Santos-Dumont, desgostoso por ver o avio transformado em hedionda arma mortfera, se retirou definitivamente do campo de provas. Era o incio de uma grave depresso que mudaria profundamente o carter desse aviador excepcional e o assombraria pelo resto de sua existncia.
Aos 53 chegou a afirmar: No vejo razo para que no se proba os aeroplanos de jogarem explosivos, quando se probe de jogar veneno na gua. J aos 59 se pergunta: Por que inventei isso, que em vez de ajudar o amor se converte numa maldita arma de guerra? E se enforca em um quarto de hotel, aproveitando-se da ausncia de um sobrinho. De to pequeno, no pesando quase nada, uma gravata foi suficiente para o triste fim.
Caro leitor, os seres humanos so capazes de criar coisas espetaculares. No entanto, ao mesmo tempo em que conseguimos nos superar e melhorar nosso padro de vida, somos capazes de utilizar nossas descobertas e invenes para prejudicar a prpria existncia humana e a natureza. H, nesse aspecto, um evidente e gritante paradoxo, razo maior dessa escrita.
de se concluir, portanto, que as inovaes cientficas e tecnolgicas no so boas ou ms para os homens em razo de sua simples existncia. O uso que fazemos delas que pode ser til ou prejudicial ao futuro da humanidade. De um modo geral, a tecnologia tem contribudo para a destruio da natureza. Lado outro, pode contribuir, muito mais, para reparar e prevenir os danos que diuturnamente temos ocasionado. preciso conscincia coletiva e menos estupidez. Afinal, como diria Albert Einstein, s h duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana, mas no estou muito seguro da primeira. Da segunda pode-se observar como nos destrumos s para demonstrar quem pode mais.

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


81848
Por Marcelo Eduardo Freitas - 23/9/2016 21:26:49
ESCOLA, FAMLIA E A RESPONSABILIDADE NA CRIAO DOS FILHOS

* Marcelo Eduardo Freitas

A nossa moderna sociedade, aos poucos, gradativamente, tem transferido escola a responsabilidade na formao, educao e cuidado com crianas e jovens. J no se cuida mais de propiciar to somente instruo! A escola, assim, passou a ser um espao de substituio convivncia familiar harmnica e formadora, cada mais reduzida em quantidade e qualidade.
Pelas estradas da vida, ouvi, certa feita, o relato de uma me, a respeito de reunio que tivera com o marido (e pai dos filhos comuns!), j tarde da noite, a fim de tratar daquilo que seria um problema de um dos filhos do casal: - O menino no obedece!, disse a me. Depois de alguns breves minutos de conversa, sem qualquer concluso sobre o problema, o pai disse: - Fique tranquila, falta apenas uma semana de frias. Com a volta s aulas, quem sabe a escola d um jeito nesse moleque....
A breve narrativa apresentada acima, com devaneios sobre a forma com que se tem buscado a soluo na criao dos filhos, nos permite fazer a seguinte indagao: a quem cabe a responsabilidade pela educao dos filhos? Aos pais ou escola?
A primeira abordagem que aqui pretendemos adotar, parte de uma premissa socioeconmica das famlias brasileiras. Pesquisas recentes evidenciam a existncia de dois tipos de famlia: (1) o grupo de classe mdia e alta, que coloca os filhos em escola particular (12%); (2) o restante da populao nacional, que usa a escola pblica (88%).
No primeiro grupo, em geral, os pais sentem-se tranquilos e confortveis, j que seus filhos esto numa boa escola, na qual dizem confiar. H uma crena no sentido de que o futuro dos herdeiros est praticamente garantido e em boas mos. J no segundo grupo, surpreendentemente, a maioria dos responsveis tambm se diz contente e satisfeito com a educao oferecida pela escola pblica. Mas quais so as razes?
Segundo pesquisa do Inep, essa satisfao pode ser encontrada no fato de que quase 60% dos pais do ensino pblico no completaram nem o ensino fundamental. Alm disso, 75% nunca ou raramente l jornais ou revistas. Deste modo, quando estes pais comparam a escola da sua poca com a do seu filho, tendem a associar as relativas melhorias materiais que o filho recebe atualmente com uma educao de boa qualidade, o que, de um modo geral (h excees, admito!), nem de longe, condiz com a verdade e se trata de um fato lamentvel. Basta ver o acesso s melhores universidades, aos bens de consumo, sade, segurana, etc. Os melhores clices so consumidos pelos ocupantes do primeiro grupo!
Um outro aspecto, no menos relevante, o aspecto social ou familiar. Os pais tm terceirizado praticamente toda a criao e educao dos filhos. A famlia perdeu seu ncleo pai-me-filho, tornando-se um amontoado de pessoas vivendo, no raras vezes, sob o mesmo teto ou at em tetos diferentes, tentando educar o filho com suas vises estanques de mundo, para assim encaminh-los escola.
A escola, destarte, acaba sendo a responsvel por carregar o piano, um peso que no deveria ser dela, ao ficar com a parte que cabe aos pais na formao do carter, do afeto, do acolhimento, da personalidade. Nestes casos, a responsabilidade , a toda evidncia, dos pais. E no h ningum que possa preencher este espao. A educao deve vir de casa! Aos professores compete o reforo ao ensino, instruindo os alunos sobre direitos e deveres perante escola e famlia. No sem razo, o educador Iami Tiba leciona que os pais eram exigentes, os filhos obedeciam. Houve uma mudana e esses pais que hoje tem mais irmos do que filhos, por amor, deram o que no tiveram: liberdade e prazer. Alm disso, foram pais e mes capacitados para trabalhar e no para serem pais. Educacionalmente est errado. Se a criana s faz o que quer, ela no faz o dever.
O referencial famlia est sendo, solene e passivamente, sobreposto por outros, embora relevantes no processo de engrandecimento humano, secundrios na formao e informao cognitiva, moral, sexual, religiosa ou cvica de seres em constituio. Cuido, aqui, do grupo de colegas, amigos, redes sociais, entre tantas outras formas de apartar imberbes do agrupamento familiar.
Em concluso: na relao entre pais e escolas, deve-se ter o mximo de cuidado a fim de que haja coerncia entre a educao que se desenvolve no colgio e o que os pais ensinam em casa. No sem razo, assim, o escritor e militar italiano Edmundo De Amicis afirmava que a educao de um povo pode ser julgada, antes de mais nada, pelo comportamento que ele mostra na rua. Onde encontrares falta de educao nas ruas, encontrars o mesmo nas casas. Nossos lares tm sido recanto para falta de educao e distanciamento. Reflexo inexorvel do que observamos nas esquinas da vida. tempo de reconstruir o templo destrudo. O barco est afundando em guas profundas. Como se vive em sociedade, no adianta pular primeiro. Ou salvamos o todo ou tambm naufragaremos juntos!

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


81827
Por Marcelo Eduardo Freitas - 17/9/2016 10:27:01
SUICDIO: NO SE OMITA!

* Marcelo Eduardo Freitas

Diversamente de outros textos, em que procuramos traar abordagens de forma abstrata, escrevo hoje a pedido de um amigo que, na ultima semana, movido por um rasgo de desespero, buscou por cabo prpria vida.
Enfrento, assim, nesta missiva, um tema que tem impactado a vida de inmeras famlias Brasil a dentro: o suicdio, no raras vezes recepcionado pela nossa sociedade com o vu do silncio, como se estivssemos a lidar com um assunto sobre o qual devesse pairar um voto de no discusso, de negao ao debate, de mais absoluto silncio. Erramos! Profundamente!
No quero enfrentar a questo discutindo aspectos eminentemente espirituais, sem olvidar de sua relevncia. Seria reduzir demasiadamente, a nosso sentir, um problema que transcende os caminhos da f, cuidando-se, certamente, de mais um caso de sade pblica.
De maneira didtica, vou iniciar pela etimologia. A palavra suicdio foi concebida no ano de 1737 pelo botnico francs Ren Desfontaines. Com origem no latim - sui (si mesmo) e caedere (ao de matar) -, ela aponta para a necessidade de buscar a morte como uma fuga para o suplcio que se torna insuportvel. Esta ao voluntria e intencional parte da premissa de que a morte significa o fim de tudo, um mergulho no nada, um alvio para a tormenta.
No sem razo, deste modo, o Centro de Valorizao da Vida (CVV), lanou a campanha Setembro Amarelo, com o propsito de conscientizar sobre a preveno ao suicdio, alertando a populao a respeito da realidade no Brasil e no mundo, sem deixar de apresentar algumas formas de preveno, j que, a cada 45 minutos uma pessoa se mata em nosso pas. Pelos nmeros oficiais, assim, so 32 brasileiros mortos por dia, taxa superior s vtimas da AIDS e da maioria dos tipos de cncer. Na mesma linha, a cada 40 segundos, algum ceifa a prpria vida em alguma parte de nosso planeta.
H um outro dado extremamente grave: a Organizao Mundial da Sade (OMS) estima que, para cada suicdio, mais de 20 outras tentativas ocorreram e, por algum motivo, no deram certo. Isso sem falar na cifra oculta daqueles que, fortemente, consideraram a idia de tirar a prpria vida. Esse dado, portanto, ainda uma perigosa incgnita!
O lado mais alarmante de todo esse estado de coisas talvez esteja na alta taxa de suicdio entre jovens que mal comearam a caminhada. Entre os 15 e os 24 anos, ele j se encontra em terceiro lugar nas causas de morte, logo aps os acidentes e homicdios.
O cncer, a AIDS e demais doenas sexualmente transmissveis (DSTs), h duas ou trs dcadas, eram lastreadas por tabus. Vamos, assustadoramente, o exponencial aumento do nmero de vtimas. Foi preciso o esforo coletivo, liderado por pessoas destemidas e organizaes engajadas, para quebrar paradigmas, falando sobre o assunto, esclarecendo, conscientizando e estimulando a preveno, tudo para reverter esse cenrio. O resultado rendeu frutos!
Na sociologia de Durkheim, o suicdio apresentado de trs maneiras distintas: Egosta, Altrusta ou Anmico. Aqui nos compete esclarecer que, conforme citado socilogo, cada sociedade est predisposta a fornecer um contingente determinado de mortes voluntrias, apresentando, em cada momento da sua histria, uma atitude definida em relao ao suicdio. Chega de mortes voluntrias! preciso alterar posturas! Mudar condutas! isso que estamos a propor!
O suicdio tem sido um mal silencioso. As pessoas fogem do assunto. Por medo, receio ou desconhecimento no percebem os sinais de que uma pessoa prxima est com ideias suicidas. A esperana o fato de que, segundo a OMS, 9 em cada 10 casos poderiam ser prevenidos. necessrio ajuda e ateno de quem est ao redor de um potencial suicida. Suicdios podem ser evitados se sinais no forem banalizados! Alguns comportamentos, como deixar de sair com os amigos, demonstrar tristeza por muito tempo ou ter alteraes expressivas no humor podem indicar que pessoas prximas precisam de ajuda! As tentativas de suicdio ou sua prtica efetiva envolvem sempre uma grande dose de sofrimento, tenso, angstia e desespero! Estenda, assim, a mo que acolhe, o ombro que conforta. Isso pode salvar vidas!
Um outro ponto relevante no enfrentamento: Segundo a OMS, cerca de 30% dos suicdios no mundo ocorrem por envenenamento com pesticidas, sendo a maioria registrada em zonas rurais, de pases com baixa e mdia renda. Outros mtodos recorrentes so o enforcamento e o uso de armas de fogo. O conhecimento dos mtodos de suicdio mais utilizados, destarte, uma importante ferramenta para a elaborao de estratgias de preveno que tm se mostrado eficazes, como a restrio de acesso aos meios. Sem meios, os fins no so atingidos!
A Fundao Oswaldo Cruz afirma que a maior parte das pessoas que pensa em cometer suicdio enfrenta uma doena mental que altera, de forma radical, a percepo da realidade e interfere no livre arbtrio. A depresso um desses males! O tratamento da doena a melhor forma de prevenir! A espiritualidade considerada um fator de proteo! Ter uma crena afasta a possibilidade de pensamentos suicidas! No entanto, isoladamente, no resolve o problema! A ateno bsica de sade deve estar preparada para identificar sinais de alerta, ter familiaridade com o assunto e encaminhar o potencial suicida para algum servio especializado. Contudo, infelizmente, essa no a realidade do nosso sistema de sade. Enquanto a realidade desejvel no chega, nosso papel fazer mais. Observe! D carinho! Ame mais! Acolha! Ajude! A f o instrumento que Deus nos deu para suportar as dificuldades! A soluo h de vir com a cincia! Bons mdicos, bons medicamentos, vidas salvas!

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


81816
Por Marcelo Eduardo Freitas - 9/9/2016 22:59:31
S P E A ELE VOLTARS!

* Marcelo Eduardo Freitas

O livro do Gnesis o primeiro, tanto da Bblia Hebraica como da Bblia Crist, antecedendo, pois, ao Livro do xodo e fazendo parte daquilo que se denominou por Pentateuco.
Em Gnesis, 2, 7, consta que Deus modelou o homem com a argila do solo, soprou em suas narinas o flego da vida e o homem se tornou um ser vivente. Embora na cultura ocidental as expresses p e argila no sejam usadas para a denominao de um mesmo substantivo, tem-se que, em hebraico, a expresso apar usada para idntica finalidade. Literalmente, significa a terra solta que fica acima do solo, sem que se precise revolv-la."
Na liturgia catlica, em especial, reverbera at hoje a frase que, em latim, ganhou ares estarrecedores, fazendo tremer homens e mulheres de bem: pulvis es et in pulverem reverteris (s p e a ele voltars!).
Reduzir ao p, deste modo, significa retirar do ser humano o flego da vida, soprado pelo Criador, nas narinas da criatura, no momento da criao. O sopro da vida, assim, a nosso sentir, reveste-se na mais exuberante obra de que a imaginao humana ousou alcanar. Nasce, a partir daquele momento transcendental, a plenitude do livre arbtrio, sem o qual a prpria existncia perderia todo o seu sentido. Somos senhores de nossas prprias escolhas! No raras vezes, contudo, atribumos as mazelas de nossa existncia quilo que se denominou de destino."
Livre Arbtrio (De Libero Arbitrio) foi uma das obras de autoria de Santo Agostinho, datada de 395. Escrita em forma de dilogo do autor com o seu amigo Evdio, Santo Agostinho elabora, em referida obra, algumas teses a respeito da liberdade humana e aborda a origem do mal moral.
Com certa frequncia, expresso livre arbtrio se atribui o mesmo significado da expresso liberdade. Contudo, Santo Agostinho buscou distinguir claramente esses dois conceitos: O livre arbtrio a possibilidade de escolher entre o bem e o mal. A liberdade o bom uso do livre arbtrio. Isso significa que nem sempre o homem livre quando pe em uso o livre arbtrio, a carecer continuamente de como usa essa caracterstica. Dessa maneira, o livre arbtrio est mais relacionado com a vontade. Porm, uma distino entre os dois que a vontade um ato ou ao, enquanto o livre arbtrio uma faculdade concedida ao ser humano.
Para santo Toms de Aquino, por seu turno, embora o livre-arbtrio parea designar um ato, ele na verdade uma potncia ou faculdade, por meio da qual podemos julgar livremente. Assim sendo, tal potncia no pode ser confundida com o hbito nem com nenhuma fora a ele submetida ou ligada.
No mbito da filosofia, o livre arbtrio se contrape ao determinismo, que defende que todos os acontecimentos so causados por fatos anteriores, excluindo-se, portanto, a responsabilidade do ser humano pelos seus atos. A filosofia entende que o indivduo faz exatamente aquilo que tinha de fazer. Seus atos so inerentes sua vontade. Ocorrem com a fora de outras causas, internas ou externas.
Antgona, obra espetacular de Sfocles, afirma que h muitas maravilhas neste mundo, mas a maior de todas o homem. Carrego minhas muitas dvidas a esse respeito. Afinal, temos cometido tantos erros que, no obstante a beleza da criao, chego a desanimar-me com o ser humano. No sem razo, Blaise Pascal, filsofo e escritor mstico cristo, refletindo sobre esse tormentoso tema, chegou a indagar: O que o homem na natureza? Um nada em comparao com o infinito, um tudo em face do nada, um intermdio entre o nada e o tudo.
preciso ajustar o prumo, sacodir a poeira e arrastar pelo exemplo. Quero, em vida (e nesta!), ver um mundo melhor. A comear pelo nosso Brasil, pas que por longos anos abrigou degredados e coxos de conscincia. Talvez por essa herana maldita ainda tenhamos que amargar por mais duas ou trs geraes o peso da busca pela vantagem, pelo ganho fcil, pelo cio em detrimento do trabalho rduo.
No sem razo, portanto, Chico Xavier afirmava que o exemplo uma fora que repercute, de maneira imediata, longe ou perto de ns... No podemos nos responsabilizar pelo que os outros fazem de suas vidas, cada qual livre para fazer o que quer de si mesmo, mas no podemos negar que nossas atitudes inspiram atitudes, seja no bem quanto no mal.
Que sejamos fontes de inspirao, luz e sabedoria existencial. Palavras convencem! Exemplos arrastam! O que v ao observar a prpria imagem refletida no espelho? preciso renascer antes que se retorne ao p!

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


81807
Por Marcelo Eduardo Freitas - 3/9/2016 08:55:53
O AMARGO CAMINHO DA CONSTRUO DA VERDADE

* Marcelo Eduardo Freitas

Em substituio aos mitos e s crenas religiosas, na tentativa de compreender e melhor assimilar o mundo e tudo o que nele habita, surge, aos poucos, bem gradativamente, o conhecimento filosfico.
Observa-se, deste modo, que a gnese da filosofia se deu no exato momento em que o ser humano, pensador por imposio natural, passou a buscar explicaes, de forma racional, para os fenmenos da natureza.
Os filsofos, ento, comearam a se perguntar sobre as mais diversas questes que permeiam o pensamento humano. Uma delas sobre o amargo caminho da construo da verdade. O que a Verdade? Onde e como busc-la?
Sabe-se que uma das caractersticas marcante dos indivduos a busca permanente pela verdade. o candente desejo de comprovar a veracidade dos fatos e de distinguir o verdadeiro do falso. Isso nos coloca frequentemente em dvidas sobre o que nos fora ensinado desde a mais tenra idade. A busca pela verdade surge, pois, na infncia. No sem razo, ao longo da vida, estamos sempre questionando as verdades estabelecidas pela sociedade. A filosofia, por conseguinte, tem na investigao da verdade o seu maior valor. No existe uma verdade cujo sujeito possa ser o seu nico detentor!
Cumpre-nos consignar, de incio, que, em consonncia com a definio clssica, "verdade" "aquilo em relao a que no posso me enganar".
Plato, filsofo e matemtico da Grcia Antiga, inaugura suas reflexes sobre a verdade afirmando: Verdadeiro o discurso que diz as coisas como so; falso aquele que as diz como no so. a partir daqui que se comea a formar a problemtica em torno da verdade.
O ateniense Scrates, considerado um dos mais sbios e inteligentes de todos os tempos, afirmava que "a verdade no est com os homens, mas entre os homens".
Aristteles, o mais eminente dos discpulos de Plato, preceptor do imperador Alexandre, o Grande, da Macednia, dizia que negar aquilo que , e afirmar aquilo que no , falso, enquanto afirmar o que e negar o que no , verdade. Observem a profundidade da concepo Aristotlica. Absurdamente consentnea com os nossos tempos.
Hilrio, por seu turno, afirmava que "o verdadeiro o ente que se revela e se explica". J Santo Agostinho acreditava que "a verdade aquilo atravs do qual se revela aquilo que ... o critrio pelo qual julgamos o que terrestre".
Para Nietzsche a verdade um ponto de vista. Ele no define nem aceita definio da verdade, porque diz que no se pode alcanar uma certeza sobre isso. Restaria, destarte, uma intrigante indagao: que critrio devemos utilizar para saber em relao a que podemos ou no nos equivocar? Se as nossas faculdades intelectuais so as mesmas, o que leva a entendermos determinadas coisas de modos to diversos?
preciso distinguir para compreender! Acredito que o homem tende naturalmente para o bem, que os seus atos ostentam o que bom por meta. No sem razo, deste modo, se diz que ningum erra por ignorncia. O erro, assim, se resume em, conhecendo o bem, escolher o mal. No entanto, ainda que tendendo ao bem, conhecendo o bem, o homem pode errar! E tem errado muito! O erro se qualifica, ainda mais, quando podendo se impedir o mal, o homem se omite, permitindo o insuflar do infortnio.
A mentira pode at "dar certo", particularmente em tempo de eleies, quando fortunas so gastas na compra de conscincias, mas ainda uma mentira e no a verdade! A verdade no simplesmente o que coerente ou compreensvel. Um grupo de pessoas pode se reunir e formar um compadrio com base em um conjunto de falsidades, onde todos concordam em contar a mesma histria falsa, mas isso no torna a sua apresentao verdadeira. A verdade no o que a maioria diz ser verdade! Cinquenta e um por cento de um grupo pode chegar a uma concluso errada! O nosso dever, assim, no permitir que o erro atinja a tantos! Uma escolha impensada, materializada em poucos cliques, pode durar quase dois lustros!
A palavra grega para "verdade" aletheia, que significa literalmente "desesconder" ou "esconder nada." Ela transmite a ideia de que a verdade est sempre disponvel, translcida, aberta e acessvel para que todos a possam ver, sem nada sendo escondido ou obscuro A palavra hebraica para "verdade" emeth, que significa "firmeza", "constncia" e "durao". Esta definio implica uma substncia eterna e algo em que se pode contar. Em latim verdade veritas. Corresponde maneira de narrar os fatos acontecidos, a maneira de narrar, assim, determinar a verdade dos fatos. Na concepo hebraica, verdade emunah, que significa confiana. Nessa concepo, Deus e os seres humanos so verdadeiros se cumprem o que prometem e se no traem a confiana daqueles que neles creem. A verdade aqui est relacionada com a esperana de cumprimento do que foi prometido. a minha definio preferida! Concluo afirmando que no possvel seguir adiante sem olhar para trs! H promessas descumpridas! O que dizem que ser feito, portanto, no pode ser tido como verdade! Entendeu?

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


81794
Por Marcelo Eduardo Freitas - 27/8/2016 10:11:28
A PROPAGANDA NAZISTA E AS ELEIES NO BRASIL

* Marcelo Eduardo Freitas

Uma das caractersticas mais marcantes do Nazismo e do processo de instituio do Terceiro Reich, por Adolf Hitler, sem sombra de dvidas, foi o discurso antissemita, assim compreendido como o conjunto de peroraes elaboradas contra a populao judaica europia.
Obviamente, atrelados a esses discursos estavam outros, que se referiam diretamente ao sequestro da conscincia da populao alem, progressivamente insuflada pela linguagem do nazismo ou mais propriamente a linguagem do Terceiro Reich. A funo da propaganda e o uso dos meios de comunicao de massa, destarte, foram cruciais naquele processo de alienao coletiva.
A histria nos mostra que o grande arquiteto criador da mquina que esvaziou a conscincia de uma legio de pessoas foi Joseph Goebbels, ento ministro da propaganda nazista, que ficou marcado pelo seu dio a judeus e comunistas, sua admirao pela figura de Hitler e seu fanatismo pelo poder.
A biografia de Goebbels, aqui vista muito rapidamente, surpreendente. Seu pai era catlico. Trabalhava como funcionrio em uma fbrica e o sustentou durante os estudos universitrios. Na Primeira Grande Guerra, Goebbels foi dispensado do servio militar por causa do seu p torto, resultado de uma doena de infncia, deficincia esta que mais tarde seria usada pelos seus inimigos para o compararem com "o coxear do Diabo".
Em 1922, doutorou-se em filologia na Universidade de Heidelberg, com reconhecimentos literrios, dramticos e jornalsticos. Em 1928, Hitler deu ao bem-sucedido orador, brilhante propagandista e jornalista editor de "O Assalto" (e de 1940 a 1945, de "O Imprio"), o posto de diretor de propaganda do Partido, para toda a Alemanha. Foi assim que Goebbels comeou, ento, a criar o mito do "Fhrer" (lder, dirigente) ao redor da pessoa de Adolf Hitler e a instituir o ritual das celebraes e demonstraes do Partido, o que teve um papel decisivo para converter as massas ao que se denominou de Nacional Socialismo.
Autor de frases clebres como o ano de 1789 est, a partir daqui, erradicado da histria - numa clara referncia Revoluo Francesa, que se lastreou nos pilares da liberdade, igualdade e fraternidade -, e Uma mentira dita cem vezes se torna verdade, Goebbels, aps o suicdio de Hitler e a derrota alem na Segunda Guerra, assassinou seus seis filhos e se matou junto com a esposa, Magda Quandt, relegando posteridade referenciais que no deveriam ser seguidos.
Toda essa construo terica, acima vista, tem o propsito central de fazer uma reflexo com as eleies no Brasil. Realizadas atravs do voto direto, secreto e obrigatrio, o primeiro escrutnio, do qual existem registros em nossa nao, ocorreu em 1532, por meio do qual foi eleito o ento representante do Conselho da Vila de So Vicente.
Na atualidade, as eleies so realizadas a cada dois anos em nosso pas. exceo do cargo de senador, que tem mandato com durao de oito anos, os demais cargos eletivos tm mandatos de quatro anos. Como as votaes ocorrem a cada binio, os cargos eletivos so disputados em dois grupos, da seguinte forma: Eleies federais e estaduais - para os cargos de Presidente da Repblica (e vice), Senador, Deputado Federal, Governador (e vice) e Deputado Estadual. Eleies municipais - para os cargos de Prefeito (e vice) e Vereadores.
Assim, inexoravelmente, at que se venha uma efetiva reforma poltica, to temida pelos polticos por profisso - no raras vezes destitudos de vocao -, a cada dois anos nos deparamos com as nada agradveis propagandas partidrias, seja no rdio, na televiso ou, doravante, na internet, mormente nas mdias sociais. So candidatos segurando criancinhas no colo, tomando o famoso cafezinho, beijando velhinhos, abraando mendigos, prometendo melhorias na sade, educao, segurana, transporte, lazer e cultura. Repetem, deste modo, a mesma prtica que se tornou comum na dcada de 30, na Alemanha de Goebbels. O que pior: sistematicamente, o eleitor brasileiro, destitudo da capacidade de autodeterminao, deixa se enganar pelas mesmas bravatas de outrora. Chega doer na alma!
A psiquiatra sua Elizabeth Kubler-Ross afirmava que precisamos ensinar prxima gerao de crianas, a partir do primeiro dia, que eles so responsveis por suas vidas. A maior ddiva da espcie humana, e tambm sua maior desgraa, que ns temos livre arbtrio. Podemos fazer nossas escolhas baseadas no amor ou no medo. Que a nossa luta, assim, possa ser pela autodeterminao dos brasileiros, a fim de que cada eleitor, no obstante as propagandas de massa, possa escolher aquilo que realmente represente algo de bom para sua cidade, seu estado e sua ptria. tempo de coragem! momento de libertao! o exerccio do livre arbtrio! A hora da conscincia crtica! Se no for agora, que Deus tenha pena de ns!

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


81784
Por Marcelo Eduardo Freitas - 19/8/2016 22:40:27

MAIS UMA CRIANA SRIA: ONDE ESTO OS DIREITOS DOS MANOS?

* Marcelo Eduardo Freitas

Para se compreender os reais motivos que levaram a Sria a sua situao atual preciso retroceder ao ano de 1962. Naquela data, diversas medidas de proteo aos cidados, at ento previstas no texto constitucional daquele pas, foram suspensas.
A Sria era governada pelo ditador Hafez al-Assad que, durante trs longas dcadas, manteve-se no comando. Em 2000, como se fosse uma espcie de herana gentica, Hafez transfere o poder ao seu filho, Bashar al-Assad, que at hoje, com mo de ferro, mantm-se no jugo daquela sofrida nao.
O atual conflito civil na Sria iniciou-se, de fato, aps sucessivos protestos da populao, a partir do ms de janeiro de 2011. Em fevereiro daquele mesmo ano, o tom das manifestaes ficou bem mais agressivo. Diversos grupos de rebeldes armados foram, aos poucos, se formando. Em boa parte, influenciados pelas diversas revoltas que ocorriam, ao mesmo tempo, no Oriente Mdio: a chamada Primavera rabe.
Os grupos de oposio, desde ento, ao se manifestarem de forma resoluta, evidenciaram o objetivo de derrubar Bashar al-Assad, presidente daquela ptria, a fim de dar incio a um processo de renovao poltica e criar uma nova configurao democracia da Sria. Porm, a situao acredita que as aes do Exrcito Srio Oficial, que sabidamente pratica aes violentas contra os manifestantes, so formas de combate a terroristas que, em essncia, pretendem desestabilizar a nao. A verdade, assim, passa a ser algo visto de pontos distintos.
Tenho para mim que a essncia da democracia est na alternncia de poder. A mudana de governantes e a severa rejeio perpetuidade de dirigentes polticos no comando das naes so as bases do conceito de democracia, formulao esta herdada da Grcia antiga. Felizmente, a maioria das sociedades contemporneas adota um regime profundamente inspirado nesta ideia, com vrios graus de imperfeio, admito. Contudo, a pior democracia prefervel melhor das ditaduras, j dizia Ruy Barbosa.
Superadas as digresses histricas sobre a origem da desgraa naquele pas, que faz fronteira com o Lbano e o Mar Mediterrneo a oeste, com a Turquia ao norte, com o Iraque ao leste, com a Jordnia ao sul e Israel ao sudoeste, mantendo, assim, posio estratgica no globo terrestre, preciso ressaltar uma situao absurdamente dramtica: relatrio das Naes Unidas classifica a guerra sria como a "grande tragdia do sculo 21". "A Sria transformou-se na grande tragdia deste sculo, uma calamidade em termos humanos com um sofrimento e deslocamento de populaes sem precedentes nos ltimos anos", afirmou Antnio Guterres, do Alto Comissariado das Naes Unidas para Refugiados (ACNUR). O saldo parcial deste flagelo assustador: 260 mil mortos e 4,5 milhes de refugiados!
Dentre as vtimas da penria, mais uma vez, uma criana! As TVs do mundo inteiro mostraram Omran Daqneesh, um pequeno menino de 5 anos, trajando short e camiseta completamente sujos de sangue e poeira, imagem que causou comoo nas redes sociais de todo o planeta.
Alvo de um bombardeio areo em Aleppo, no norte da Sria, juntamente com pelo menos outras 52 pessoas, segundo o Observatrio Srio de Direitos Humanos (OSDH), Omran, infelizmente, no um caso isolado: H outras 100 mil crianas que esto na linha de frente da guerra civil! Pior: sem absolutamente nenhuma resposta minimamente digna por parte dos Direitos Humanos. Os discursos, assim, venham de onde vier, mais uma vez, falham! A proteo internacional a seres to indefesos parece surtir efeito somente quando se cuidam dos manos, isto , nacionais das grandes potncias ocidentais que, por conta desse detalhe, no devem passar por qualquer forma de tribulao. Afinal, nesta senda, o pau que d em Chico no deve bater em Francisco! preciso, portanto, um pouco mais de coerncia nos discursos sobre direitos humanos! A preservao vida deve valer em cada rinco do planeta! Simples assim!
O poeta ingls John Donne, terceiro de uma famlia de seis filhos, afirmava que a morte de cada homem diminui-me, porque eu fao parte do gnero humano; eis porque nunca pergunto por quem dobram os sinos: por mim. por cada um de ns! Mormente em tragdias reiteradas como aquelas acima vistas.
O mal tem assolado muitas famlias. preciso, destarte, exercitar o poder de irresignao. Mas com aes concretas que minimizem os efeitos deletrios da guerra sobre os homens e mulheres de bem, onde quer que ocorra. Pode ser ao seu lado, no lar esfacelado pelas drogas, pela bala perdida, pela violncia contra mulheres e crianas, entre tantas outras formas de crueldade e privao. Quem nunca as viu? No sem razo, Vladimir Herzog afirmava que quando perdemos a capacidade de nos indignarmos com as atrocidades praticadas contra outros, perdemos tambm o direito de nos considerarmos seres humanos civilizados. preciso olhar para o prximo! Mano, eis a a essncia do primeiro mandamento do Declogo!

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


81767
Por Marcelo Eduardo Freitas - 12/8/2016 23:10:00
A GRANDEZA DO RECOMEO

* Marcelo Eduardo Freitas

Uma das passagens mais marcantes da Bblia Crist pode ser encontrada no dilogo de Jesus com o fariseu Nicodemos, este considerado mestre da lei e membro do Sindrio, uma espcie de corte suprema da lei judia, com a funo de administrar justia, interpretando e aplicando a Tor (Pentateuco ou Lei de Moiss).
Embora no haja fontes claras de informao sobre Nicodemos fora do Evangelho de Joo, muitos historiadores identificam-no como Nicodemos Ben Gurion, mencionado no Talmude como um homem rico, figura respeitada, generosa e popular, com a reputao de ter tido poder milagroso.
Enquanto est em Jerusalm para a Pscoa, Jesus teria realizado diversos sinais ou milagres. Por conta disso, muitos passaram a crer nele. Nicodemos, que segundo o Evangelho de Joo mostrou-se favorvel ao Messias, teria ficado deslumbrado. Querendo aprender mais, j noite, provavelmente com receio de que, se visto, sua reputao perante outros lderes judeus ficasse prejudicada, ele visita a Jesus.
Rabi, diz Nicodemos, sabemos que o senhor veio como instrutor da parte de Deus, pois ningum pode realizar esses sinais que o senhor realiza a menos que Deus esteja com ele. Em resposta, Jesus diz a Nicodemos que para algum entrar no Reino de Deus preciso nascer de novo (Joo 3:2, 3).
Sem saber como algum pode nascer de novo, Nicodemos pergunta ao Nazareno: Ser que [algum] pode entrar no ventre da sua me e nascer outra vez? (Joo 3:4). Jesus, ento, explica ao fariseu: A menos que algum nasa da gua e do esprito, no pode entrar no Reino de Deus (Joo 3:5).
Em tempos atuais, sem olvidar da relevante lio de espiritualidade, a expresso nascer de novo significa ter a oportunidade de uma nova chance, reiniciar a vida, aprender com a grandeza do recomeo. Por vezes, chega a dar medo, uma terrvel sensao de insegurana. Quem de ns, afinal, nunca ficou apreensivo diante da possibilidade de ter que comear tudo outro vez?
Caro leitor, embora difcil, necessrio aprender o exato momento em que ciclos chegam ao final. preciso encontrar sentido no efmero, sob pena de perdermos, por vezes, a alegria e o real sentido da vida. No sem dor, devemos enfrentar o fato de que filhos crescem, entes queridos morrem, casamentos chegam ao fim, casas ainda que novas - so vendidas, postos de empregos so fechados, anos letivos se encerram, envelhecemos, ficamos flcidos e, seja pela fora da gravidade (para todos) ou da gravidez (para as mulheres), camos, perecemos. O botox, amigos e amigas, no far efeito para sempre!
Gabriela Mistral, poetisa chilena e Prmio Nobel de Literatura de 1945, buscava a perseverana das ondas do mar, que fazem de cada recuo um ponto de partida para um novo avano. Pode ser incio do ano, uma segunda-feira ou mesmo o amanh. Sempre h razes para se oportunizar uma nova chance. No sejamos coletores de lixos que as pessoas jogam sobre ns atravs de opinies mesquinhas, sob suas vises sujas e podres a respeito do que realizamos com a conscincia tranquila.
Pode parecer ofensivo, mas h pessoas que precisam do suicdio para o recomeo! Evidentemente, no o literal, mas o moral. Aquele que mata a parte psicolgica que nos deixa para baixo, acabado, depressivo, sem foras para seguir adiante. Essa morte bem-vinda! Serve para apagar as feridas e fazer com que sigamos em frente, sem enganaes despropositadas, j que todos ns, sem exceo, carregamos estilhaos de nossos erros, frustraes ou decepes. Embora aptos a marcar o corpo, so fragmentos que no podem impedir a libertao da alma.
nas palavras de Carlos Drummond de Andrade, o mais influente poeta brasileiro do sculo XX, que encontramos inspirao para concluir essa pregao ao recomeo: Mesmo que o hoje te d um no, lembre-se que h um amanh melhor, a certeza de que os nossos caminhos devemos traar ao lado de quem nos ama; com amor, paz, confiana e felicidade, a base para se recomear. Um recomeo, pra pensar no que fazer agora, acreditando em si mesmo, na busca do que ser prioridade daqui pra frente; planos? Pra que os fizemos, j que o amanh mistrio? A qualquer momento pode ser tempo, de revisar os conceitos e aes, e concluir, que tudo aquilo que voc viveu marcou, porm no foi suficiente pra que continuasse. Recomear dar uma nova chance a si mesmo, renovar as esperanas na vida e o mais importante, acreditar em voc de novo.


(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


81751
Por Marcelo Eduardo Freitas - 5/8/2016 21:14:45
*POBRES OU RICOS, O DIFERENCIAL EST NA EDUCAO!*

* Marcelo Eduardo Freitas

O padre e escritor Paulo Bazaglia, da arquidiocese de So Paulo, relata-nos que, certa feita, ouviu de algum que um pessoa era to pobre, mas to pobre, que a nica coisa que lhe restara em vida era muito dinheiro.
De fato, quem nunca se deparou com algum que, no obstante mantenha um patrimnio material considervel, nutre uma vida de misria? Sem sono, sem paz, sem amor! So pessoas que apresentam um carter to vil e uma alma to pequena que no ultrapassam um gro de mostarda. No sem razo, assim, o poeta grego Eurpedes afirmava que h uma espcie de pobreza espiritual na riqueza que a torna semelhante mais negra misria.
Do evangelho cannico de Lucas, 12, 15-17, se extrai que devemos tomar cuidado contra todo tipo de ganncia, por que, mesmo que algum tenha muitas coisas, a vida de um homem no consiste na abundncia de bens. Percebe-se, destarte, que o cerne da altercao aqui proposta gira em torno dos conceitos de riqueza e pobreza, transcendendo, lado outro, a questo eminentemente tangvel.
No quero aqui travar uma discusso puritana sobre o tema, enfocando aspectos sobremaneira teolgicos. Mas parafraseando David S. Landes, professor emrito da Universidade de Harvard, em sua obra A Riqueza e a Pobreza das Naes, aplicvel plenamente a ns, seres humanos, por que alguns so to ricos e outros to pobres?
Num registo refulgente, David S. Landes nos apresenta explicaes persuasivas, dignas de consignao nesse espao: O mundo est dividido em trs espcies de naes: aquelas em que as pessoas gastam rios de dinheiro para no aumentar de peso, aquelas em que as pessoas comem para viver e aquelas em que as pessoas no sabem de onde vir a prxima refeio. Se chegou at aqui, certamente voc no se enquadra nesta ltima opo!
Estimado leitor, o Brasil superou, em parte, a extrema pobreza. So raros os casos de pessoas que morrem mingua de alimentos. Lado outro, estamos extremamente distantes de alcanar a riqueza para o nosso povo, mormente em razo do nosso viciado e ptrido sistema poltico, agregado a uma corrupo institucionalizada, que retira das pessoas o acesso ao conhecimento, nico mecanismo de efetiva libertao.
Os brasileiros, em geral, no conseguem participar das decises polticas relevantes, ao menos de forma consciente. Permitem a perpetuao de prticas absolutamente reprovveis. guisa de exemplos, citam-se os recorrentes casos de detentores de poder que, inobstante os sucessivos envolvimentos em escndalos, retornam ao comando dos castelos.
O Senador Cristvam Buarque, certa feita, afirmou que a pobreza de viso dos ricos impediu tambm de verem a riqueza que h na cabea de um povo educado. Ao longo de toda a nossa histria, os nossos ricos abandonaram a educao do povo, desviaram os recursos para criar a riqueza que seria s deles, e ficaram pobres: contratam trabalhadores com baixa produtividade, investem em modernos equipamentos e no encontram quem os saiba manejar, vivem rodeados de compatriotas que no sabem ler o mundo ao redor, no sabem mudar o mundo, no sabem construir um novo pas que beneficie a todos. Muito mais ricos seriam os ricos se vivessem em uma sociedade onde todos fossem educados. Mas isso esperar demais. Os ricos so to pobres que no percebem a triste pobreza em que usufruem suas malditas riquezas".
Obviamente, no se pode generalizar situaes. Mas, em funo de seu histrico de colonizao, desenvolvimento tardio e dependncia financeira, alm dos problemas internos, antigos e recentes, as classes dominantes de nosso pas - isso nos parece um axioma - sempre se mantiveram no pice da pirmide econmica s custas da desgraa e da falta de educao de nosso povo.
preciso, sob quaisquer aspectos que se busque enfrentar, alterar esse estado de coisas. Precisamos de mais pessoas que, no obstante a ausncia transitria de recursos materiais, apresentem um razovel nvel de conscincia crtica. Em tempos de olimpadas no Brasil, onde tudo parece festa, no desarrozoado concluir com as palavras do cantor e compositor jamaicano Bob Marley: melhor atirar-se luta em busca de dias melhores, mesmo correndo o risco de perder tudo, do que permanecer esttico, como os pobres de esprito, que no lutam, mas tambm no vencem, que no conhecem a dor da derrota, nem a glria de ressurgir dos escombros. Esses pobres de esprito, ao final de sua jornada na Terra no agradecem a Deus por terem vivido, mas desculpam-se perante Ele, por terem apenas passado pela vida. Uma vez mais, est chegando a hora de refazermos nossas lutas. O primeiro domingo de outubro parece ser uma boa data para a batalha. Est com medo de qu?

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


81742
Por Marcelo Eduardo Freitas - 29/7/2016 22:35:18
Uma vida sem inimigos

* Marcelo Eduardo Freitas

J parou para pensar o quanto a vida feita de paradoxos? Alegria e tristeza, guerra e paz, alto e baixo, noite e dia, vida e morte, amigos e inimigos. , assim, de opostos que se formam nossa estrutura terrena. Com efeito, no h um s ser humano que passou por essa vida sem trilhar por caminhos antagnicos.
Quero, aqui, enfrentar um tema que pode parecer espinhoso. Mas no se deve abdicar de uma causa pela dificuldade da travessia! Podemos ter uma vida apenas de amigos? Ser essa realmente a melhor escolha?
H pessoas que se gabam de no possuir nenhum desafeto, qualquer opositor, enfim, nenhum inimigo. Chegam a estufar o peito para reverberarem a faanha. Afinal, estariam a cumprir risca os desgnios Cristos. Ser mesmo verdade?
Caro leitor, a primeira coisa que um ser humano deveria aprender a diferena entre o bem e o mal, e jamais confundir o primeiro com inrcia, passividade e subservincia. O mundo passa por situaes de extrema covardia, maldade, violncia aos direitos mais elementares de seres indefesos. Ruy Barbosa verberava que o dio ao mal amor do bem, e a ira contra o mal, entusiasmo divino. Nem toda ira, pois, maldade... Ento, no somente no peca o que se irar, mas pecar no se irando... a hora das responsabilidades, a hora da conta e do castigo, a hora das imprecaes, quando a voz do homem reboa como canho e as sideraes da verdade revolvem o cho coberto de vtimas e destroos incruentos. Eis a a clera santa, eis a a ira divina! Quem, seno ela, h de expulsar do templo o renegado? Quem, seno ela, expulsar da cincia o apedeuta, o plagirio, o charlato? Quem, seno ela, banir da sociedade o imoral, o corruptor, o libertino? Quem, seno ela, varrer dos servios do Estado o prevaricador, o concussionrio e o ladro pblico? Quem, seno ela, precipitar do governo o negocismo, a prostituio poltica, a tirania?
Bem sei que no adianta acender as luzes se o insensato optou por viver na escurido! Nunca me passou pela cabea, desta maneira, a possibilidade de omisso ante aquilo que considero errado. Ainda que, para alterar a realidade ao nosso redor, tenha que amargurar sensveis perdas, inclusive dos amigos que um dia caminharam conosco. No possvel agir com indiferena diante das mazelas que afligem os coxos de conscincia. Aqueles que, mesmo sendo as principais vtimas da hostilidade, no apresentam foras para reagir.
A condio negativa do mundo atual se relaciona muito mais omisso dos bons que ao dos maus, que fique claro. Quando um silencia, de maneira inversamente proporcional, o outro avana. A omisso de quem pode e no auxilia o povo, comparvel a um crime que se pratica contra a comunidade inteira, j nos ensinava Chico Xavier.
No Evangelho de Lucas 6:27-29, Cristo nos relega as seguintes consideraes a respeito do abrolhoso tema que aqui se busca enfrentar: Ame seus inimigos, faa o bem para aqueles que te odeiam, abenoe aqueles que te amaldioam, reze por aqueles que te maltratam. Se algum te bater no rosto, oferea a outra face.
A lio que aflora da boa nova, embora possa soar pouco puritana, de clareza solar: Jesus Cristo nos exortou a amar nossos inimigos! Ele nunca nos disse que no devemos ter inimigos! Uma pessoa sem inimigos, assim, forosamente algum que nunca lutou por nada nessa vida! A cada bela impresso que causamos, conquistamos um inimigo. Para ser popular indispensvel ser medocre, j dizia Oscar Wilde.
No fao aqui, por bvio, uma loa inimizade. Mas rejeito uma vida sem contestaes, sem irresignaes. O mundo se transforma a cada dia, tornando-se um pouco menos tirnico, a partir da ao de inconformados. A paz e a tranquilidade que tanto almejamos sempre custou muito caro a alguns abnegados que jamais deixaram de vigiar. No sem dor, sofrem, justamente por isso, todas as formas de perseguio.
preciso, por conseguinte, nascer de novo. Fazer e refazer o que ainda est errado. Rever pontos de vista. Lutar pelo correto, ainda que isto nos conduza ao amargo percurso da ojeriza, da averso, da antipatia, por vezes, da execrao pblica. nas palavras de Jos Saramago, destarte, que encontro razes para concluir: A viagem no acaba nunca. S os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memria, em lembrana, em narrativa. Quando o visitante sentou na areia da praia e disse: No h mais o que ver, saibam que no era assim. O fim de uma viagem apenas o comeo de outra. preciso ver o que no foi visto, ver outra vez o que se viu j, ver na primavera o que se vira no vero, ver de dia o que se viu de noite, com o sol onde primeiramente a chuva caa, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui no estava. preciso voltar aos passos que foram dados, para repetir e para traar caminhos novos ao lado deles. preciso recomear a viagem. Sempre. preciso seguir adiante! Ver alm do horizonte! Coragem!

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


81729
Por Marcelo Eduardo Freitas - 23/7/2016 00:13:26
Os ataques terroristas e as Olimpadas no Brasil: quando rezar a melhor opo

* Marcelo Eduardo Freitas

No ltimo dia 14/07, em Nice, na Frana, onde milhares de pessoas se dirigiram para presenciar a queima dos fogos de artifcio por ocasio do aniversrio da Queda da Bastilha, um caminho branco de 25 toneladas avanou em alta velocidade pelo Passeio dos Ingleses, avenida costeira da quinta cidade mais populosa daquele pas, ceifando covardemente a vida de 84 pessoas e ferindo outras 308. As cenas so deplorveis e fazem tremer at os seres humanos mais rudes. Crianas e adultos prensadas ao asfalto em decorrncia da prtica de mais um ato insano! O franco-tunisiano, Mohamed Lahouaiej Bouhlel, de 31 anos, responsvel pela terrvel ao, foi alvejado pela polcia francesa e morto logo aps a carnificina sem causa ou justificativa minimamente aceitvel.

O terrorismo internacional sempre nos chamou a ateno, sendo objeto de preocupaes recorrentes, particularmente por parte daqueles que buscam compreender as razes que levam a atos to extremos. Em poca de grandes eventos, ento, o desassossego se maximiza. Mais ainda quando o espetculo deva ser no Brasil.

O psiquiatra forense Marc Sageman fez um estudo intensivo dos dados biogrficos de 172 participantes da jihad, um termo rabe que significa luta, esforo ou empenho, tambm utilizado para descrever o dever dos muulmanos de disseminar a f muulmana. Em seu livro Understanding Terror Networks, que busca uma melhor compreenso sobre o terrorismo, Sageman concluiu que as redes sociais, os "laos estreitos de famlia e amizade", e no os distrbios emocionais e comportamentais gerados pela "pobreza, trauma, loucura ou ignorncia", teriam inspirado jovens muulmanos alienados a empreender jihad e matar outras pessoas ao redor do nosso planeta.

Referida alienao, observada em diversas partes do mundo, tambm opera em nossa nao. No foi seno, assim, por essa razo que a Polcia Federal fez na ltima quinta-feira (21/07) a Operao Hashtag, desencadeada com o propsito de prender 12 jovens alienados, suspeitos de planejar um atentado terrorista durante as Olimpadas no Rio de Janeiro, grupo este que seria, at aqui, a maior ameaa aos Jogos olmpicos.

Obviamente, a ao deve ser festejada, j que foi possvel obstar a eventual ao do grupo terrorista antes mesmo que qualquer ato hostil acontecesse. Caro leitor, em tema de terrorismo internacional, a histria assim evidencia, toda prudncia nunca demais, ainda que, em um primeiro olhar, possa parecer violar direitos fundamentais dos supostos atores da trama cuja execuo ainda no se iniciara efetivamente.

Em uma breve digresso histrica, sem prejuzo de outros, podemos observar variados atos recentes tendentes a propagar o terror, cabendo aqui citar os seguintes: (1) Atentado em 17 de fevereiro de 2016, na cidade de Ancara, capital da Turquia; (2) Atentado de julho de 2016 em Nice, acima referenciado; (3) Atentado de Ouagadougou, a capital de Burkina Faso, no oeste da frica, iniciado em 15 de janeiro de 2016; (4) Atentado em Charsadda, no Paquisto, ocorrido em 20 de janeiro de 2016; (5) Atentados em Bruxelas em maro de 2016; (6) Atentado em Istambul em janeiro de 2016; (7) Atentados em Jacarta em 14 de janeiro de 2016; (8) O massacre de Orlando, ocorrido em 12 de junho de 2016, na boate LGBT chamada "Pulse".

Observa-se, deste modo, que toda preocupao com a ao de grupos terroristas nos jogos olmpicos 2016 salutar. O histrico acima visto bem demonstra isso. No se olvida, no entanto, da relevante e louvvel atuao das instituies de nosso pas. Mas lembremos que no temos a menor expertise nesta seara, at mesmo pela cultura de paz que sempre ostentamos, no havendo, apenas guisa de exemplo, qualquer precedente apto a justificar a ao das autoridades na represso, com neutralizao, dos supostos responsveis pelas aes que levariam ao terror. Como se dar a interpretao dos fatos nos tribunais? Que garantias tero aqueles que, ao se depararem com o terror, tiverem que puxar o gatilho?

Julio Ramos da Cruz Neto afirma que o terrorista traz como certo o que a razo v como errado, age com a mesma certeza com que em dvida, a sociedade observa...Como um rob, programado para aterrorizar no para pensar e por no ter um lar definido, se define escondendo atrs das sombras de seu prprio terror. Essa ausncia de previsibilidade mnima pode representar o maior risco. No se sabe de onde os ataques podem surgir. Muito menos de que forma. Foi assim em outros pases. Pode ser desta maneira em terras tupiniquins.

As Olimpadas constituem em tempos modernos um dos eventos mais populares e prestigiados em todo o mundo, sendo o nico capaz de reunir delegaes de mais de 200 pases em uma mesma cidade. Em princpio, haveria motivos para contentamentos, no para preocupaes. Assim como no feriado de 14 de julho, em comemorao Tomada da Bastilha, em 1789, que abriu espao para a liberdade, a igualdade e a fraternidade, que a humanidade deveria celebrar, mas o terror relegou ao acaso em Nice, no se pode desprezar sua ocorrncia em nosso pas. Rezar para que nada acontea, assim, parece ser a nossa melhor opo! Que venham os jogos olmpicos. Mas que seja breve!

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


81571
Por Marcelo Eduardo Freitas - 14/5/2016 08:50:03
E AGORA?

* Marcelo Eduardo Freitas

Aps passar pela Cmara dos Deputados, o plenrio do Senado Federal aprovou na ltima quinta-feira (12/05) a abertura de processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff, do PT. Ao todo, foram 55 votos favorveis e 22 contrrios. O placar surpreendeu, inclusive, aos oposicionistas.

A deciso do Senado implica no afastamento da presidente do mandato por at 180 dias, at o julgamento final pela cmara alta. Com o afastamento de Dilma, o vice Michel Temer assumiu o cargo de presidente em exerccio. Se tudo acabasse por aqui, no obstante os estragos causados, talvez estaramos um pouco menos descrentes sobre o futuro de nossa repblica. Mas as disputas persistem e parece que no vo arredar.

A presidente afastada, em discurso recheado de rancor e em diversos pontos contraditrios, afirmou que o processo partiu de uma oposio "inconformada" com o resultado das eleies e que passou a "conspirar abertamente" pelo seu afastamento: "Tenho sido alvo de intensa e incessante sabotagem. O objetivo evidente tem sido me impedir de governar." Acrescentou, ainda, que o maior risco para o pas ser dirigido por um governo "sem voto, que no tem legitimidade. E arrematou: A populao saber dizer no ao golpe. Aos brasileiros que so contra o golpe, fao um chamado: mantenham-se mobilizados, unidos e em paz. A luta para democracia no tem data para terminar. E ns vamos vencer." A indagao que se faz : como se pode pretender lutar estando em paz? O que mais estarrecedor: Aluta... no tem data para terminar!

Lado outro, em seu discurso de posse, bem ou mal, Michel Temer chegou a asseverar: Minha primeira palavra ao povo brasileiro a palavra confiana. Confiana nos valores que formam o carter de nossa gente, na vitalidade da nossa democracia; confiana na recuperao da economia nacional, nos potenciais do nosso pas, em suas instituies sociais e polticas e na capacidade de que, unidos, poderemos enfrentar os desafios deste momento que de grande dificuldade.

Caro leitor, e agora? Como cidado, o que fazer no meio desse turbilho insano e, por vezes, inconseqente? Pode a poltica partidria sobrepor-se aos interesses da nao? Como devemos agir?

Tenho dito e aqui reafirmo, uma vez mais: preciso seguir adiante. O pas necessita de reconquistar a confiana de empresrios, demonstrar que vai manter o ajuste fiscal, controlar a inflao e reequilibrar as finanas pblicas. preciso voltar ao trabalho, produo. Basta de proselitismo poltico. O momento agora de coeso nacional. No em favor de um partido, que fique claro, j que essencialmente so muito parecidos, mas de uma causa: o resgate da moralidade e o crescimento econmico imediato.

Vale registrar, a esta altura, que recentemente o diretor-geral da Organizao Mundial do Comrcio (OMC), Roberto Azevdo, afirmou que o pas precisa superar o atual momento de turbulncia e instabilidade poltica para voltar a registrar crescimento econmico. No mesmo sentido foram as palavras da economista do Fundo Monetrio Internacional (FMI), Teresa Ter-Minassian, para quem o Brasil no sai da crise econmica se no resolver a crise poltica.

No ostentamos dvidas, assim, no sentido de que, para alcanarmos a almejada vitria, necessrio crescimento. Devemos engrandecer a fim de que possamos nutrir foras para encarar os desafios que sero colocados na vida dos brasileiros. E sero muitos! Obviamente, inevitvel crescer sem ao menos sentir uma pequena dor, um certo incmodo. Que fique, deste modo, restrito apenas ao campo partidrio, da preferncia pela bandeira. Mas deixemos o pas avanar, sem barreiras ideolgicas deletrias, como as que outrora se viu.

A escritora francesa Anas Nin dizia que a vida um processo de crescimento, uma combinao de situaes que temos de atravessar. As pessoas falham quando querem eleger uma situao e permanecer nela. Esse um tipo de morte. A pgina est virada. preciso sacudir a poeira e seguir em frente. A desordem e as disputas a qualquer custo pesam, bem mais, nas costas dos menos favorecidos. Pensemos nisso. Amanh ser um lindo dia... Um dia! Que seja em breve!

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


81556
Por Marcelo Eduardo Freitas - 7/5/2016 00:00:39
O ALTO PREO DA DIGNIDADE

* Marcelo Eduardo Freitas

O conturbado cenrio nacional nos remete a uma anlise aprofundada do conceito de dignidade e o seu verdadeiro sentido em tempos de declnio moral. O filsofo alemo Immanuel Kant dizia que a dignidade o valor de que se reveste tudo aquilo que no tem preo, ou seja, que no passvel de ser substitudo por um outro equivalente. , assim, uma qualidade inerente aos seres humanos, enquanto entes morais e ticos.

Com o passar dos tempos e diante da facilidade advinda da tecnologia, passamos a minimizar o sentido de certos adjetivos que deveriam nortear as nossas condutas e percepes dirias. Creio que de maneira defensiva, a fim de justificar ou suavizar os efeitos da (ir)responsabilidade atrelada a nossos atos. mais fcil, assim, acreditar que de nossas condutas no adviro conseqncias. Se vierem, sero abrandadas pelo esquecimento. O povo tem memria curta.

A velha mxima de que os fins justificam os meios impera em nossa combalida sociedade como nunca. Buscamos justificar os atos impensados, as maldades tramadas e as omisses covardes, como se delas no adviessem terrveis consequncias. Mas assim caminha a humanidade. Estamos sensivelmente perdendo a essncia do que vem a ser dignidade.

Em tempos corridos, para alcanarmos um objetivo, pouco importa o que sente o prximo. Muitas pessoas acreditam que somente o seu problema relevante e digno de resoluo, enquanto os problemas sociais, as dificuldades alheias, a desgraa do outro, so vistas como meros dissabores.

A inverso de valores e conceitos esto transformando as geraes mais novas, apodrecendo-lhes a esperana em algo melhor. Recentemente, recebi um vdeo em que uma jovem de dezoito anos, recm completados, presa por trfico interestadual de drogas, zombava e menosprezava da situao de priso em que se encontrava.

A moa em questo estudava em um dos melhores colgios particulares da cidade e vinha de uma famlia de classe mdia alta, fato por ela mesma confirmado. Em determinado momento da reportagem, a jovem canta um funk, e muito alegre diz que errou e que a vida assim: Em alguns dias a pessoa vence e em outras ela perde....

O que se v, de maneira cristalina, que aquela jovem no tem qualquer parmetro de dignidade. Perdeu a essncia. No tem noo das suas aes, das responsabilidades e conseqncias advindas delas. Mas essa moa, aqui retratada guisa de exemplo, tambm representa aquele que sai bbado da balada e assume a direo de seu carro, sem pensar nos resultados. O que deixa de prestar socorro a algum porque simplesmente no quer perder o precioso tempo, que a tudo mais relevante. O que finge que no v o erro e continua a comet-lo. Enfim, a moa, relatada acima, apenas externou o que muitos hoje fazem como se certos fossem. Alguns, lado outro, dizem arrepender-se, quando so surpreendidos. Ser? Por que no corrigiram antes? Em incontveis ocasies ouvi de pessoas que viviam do erro dizer que a primeira vez. No era!

Agregada a essa falta de noo da realidade, temos tambm aquela parcela de pessoas que acreditam que tudo deve ser muito fcil. Buscam um atalho e tentam passar por cima de tudo e de todos para se chegar aonde quer. No se estuda mais, trabalho se confunde com emprego, o correr atrs foi ultrapassado pelo vamos aguardar para ver como que fica. Isso terrvel!

Aprendi, desde cedo, com meus pais, que dignidade coisa que vem de bero. No se compra, no se vende. a firmeza no carter. o propsito na construo de ideais. o agir corretamente, sem tirar vantagens. percorrer o caminho mais longo, ainda que mais penoso. manter a serenidade ainda que perea o mundo. Ser digno algo sublime. Valores incalculveis na esfera moral e espiritual revestem a trajetria daqueles que adotam esta postura. Precisamos fazer com que as aes de homens e mulheres dignas sejam aquelas que, de fato, meream a ateno das geraes vindouras.

Em suas reflexes poticas sobre o desconcerto do mundo, Lus de Cames nos relega lies que se encaixam como luvas idia central proposta no texto:

"Os bons vi sempre passar / No Mundo graves tormentos; / E para mais me espantar, / Os maus vi sempre nadar / Em mar de contentamentos.

Eis o preo da dignidade. Se estiver disposto a pagar, aceite a cruz dos graves tormentos.

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


81486
Por Marcelo Eduardo Freitas - 16/4/2016 08:49:34
PRECISO SEGUIR ADIANTE!

* Marcelo Eduardo Freitas

Na ltima quinta-feira, dia 14/04, o Supremo Tribunal Federal (STF) convocou sesso extraordinria para julgar cinco aes sobre a votao do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, pelo plenrio da Cmara dos Deputados. Os pedidos eram variados, mas em sntese objetivavam suspender ou alterar a ordem da votao estabelecida pelo presidente da Casa, Eduardo Cunha.

A Suprema Corte rejeitou todas as alegaes apresentadas, ora por parlamentares da base aliada, ora pela Advocacia Geral da Unio. Deste modo, a discusso do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff acontece desde a ltima sexta-feira e vai at o prximo domingo, com deliberao pelo plenrio da Cmara.

Aprovado o impeachment em plenrio, h a remessa do pedido ao Senado. O processo no aberto de forma automtica. De igual modo, Dilma no ser afastada de imediato. O Senado tambm deve manifestar-se, previamente, em relao abertura do processo, ao invs de simplesmente acatar a deciso da Cmara. Entretanto, basta que a maioria simples dos senadores, em um total de 41, se manifeste a favor. A partir da, h o afastamento da presidente do cargo pelo prazo de at 180 dias.

O Senado, ento, teria at seis meses para realizar todas as apuraes das acusaes levantadas. Nesse perodo, o vice-presidente Michel Temer j assumiria a presidncia. A sesso em que se decidiria sobre a sada de Dilma seria presidida pelo presidente do STF, sendo necessrio dois teros dos senadores favorveis ao impeachment, 54, para que ele venha a se concretizar. Caso esse nmero de votos no seja alcanado, Dilma voltaria normalmente ao exerccio do cargo.

Toda essa digresso relevante para que o leitor tenha a percepo de que o caminho no simples. Durante o desenrolar do complexo processo poltico a sociedade brasileira continuar amargando o preo por uma economia em frangalhos, com o desemprego batendo fortemente casa do trabalhador.

Em artigo recente, o diretor do Departamento para o Hemisfrio Ocidental do Fundo Monetrio Internacional (FMI), Alejandro Werner, afirmou que o Brasil enfrenta em 2015/2016 uma contrao da atividade somente vista na poca da crise da dvida externa da Amrica Latina, em 1981/1983.

Para complicar ainda mais, sob o ttulo "O terrvel declnio econmico do Brasil", o jornal britnico Financial Times (FT) afirmou que o sistema poltico brasileiro "podre" e "no funciona". O editorial consigna ainda que: "Se o Brasil fosse um paciente em um hospital, mdicos da UTI o diagnosticariam como `terminal`. Os rins j eram, e o corao parar em breve".

A situao to delicada que fez com que a doleira Nelma Penasso Kodama, conhecida como a dama do mercado, afirmasse recentemente CPI da Petrobras: "O Brasil movido a corrupo. Parou a corrupo, parou o Brasil".

Caro leitor, toda essa srie de notcias negativas gera uma onda de pessimismo generalizada. De um lado, a populao evita gastos diante da alta dos preos e da ameaa de desemprego crescente. De outro, comrcio, indstria e construo pisam no freio, porque sentem que o consumidor est inseguro. preciso insurgir!

Qualquer que seja o resultado do julgamento efetivado pelo Parlamento brasileiro exige de ns uma postura completamente diferente. De menos passividade e de mais ao. Temos que encontrar o caminho do progresso, do crescimento, do emprego, do desenvolvimento econmico. Crise se debela, acima de tudo, com o trabalho. No podemos ficar parados esperando a morte chegar. Como diria Martin Luther King, se no puder voar, corra. Se no puder correr, ande. Se no puder andar, rasteje, mas continue em frente de qualquer jeito. O Brasil precisa seguir adiante!

Charles Bukowski, romancista estadunidense nascido na Alemanha, afirmava que no h nada que ensine mais do que se reorganizar depois do fracasso e seguir em frente. Sem imputar a quaisquer partidos ou pessoas em especfico a gravidade do momento, a nica alternativa que nos resta reagir e buscar mecanismos para sairmos do caos em que nos encontramos. No d mais para continuar lamentando. Ou encontramos o caminho ou a mquina do tempo nos far voltar ao passado. Opo temos. A soluo sempre h de vir do livre arbtrio de cada um de ns! A escolha nunca deixou de ser nossa! Sejamos francos!

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


81456
Por Marcelo Eduardo Freitas - 9/4/2016 10:16:30
O CUSTO DE NOSSA OMISSO

* Marcelo Eduardo Freitas

A histria, acontecimento cclico que , se renova a cada amanhecer. Os nossos dias tm sido pesarosos, no se pode negar. Temos tantos problemas e convenincias pessoais que, no raras vezes, relegamos para o derradeiro nvel de relevncia as questes de interesse coletivo ou geral.

certo que o exerccio da cidadania beneficia, em primeiro lugar, ao comunitrio e, em ltima posio, o indivduo, observado de forma antropocntrica. Numa sociedade que patrocina o individualismo, sobra pouco espao para a participao em benefcio do coletivo. A omisso, entretanto, tem um elevado preo, observada de qualquer posio em que se encontre o intrprete. Descuidar da vida poltica, desse modo, s beneficia queles que, no s no se descuidam, como dela participam ativamente. So os "donos do poder", os "tomadores de deciso", que sabem muito bem o poder da poltica, usando a alienao do coletivo em benefcio prprio.

Uma coisa certa: nada passa em branco! Toda escolha ou omisso, sem exceo, uma semente. Toda semente ter o fruto correspondente ao plantio. Donald Winnicott, psicanalista ingls, afirmava que preciso atentar para o fato de que a fraqueza, o retraimento, a omisso so to agressivos quanto manifestao aberta de agressividade. Ser roubado to agressivo quanto roubar. O suicdio fundamentalmente igual ao assassinato.

Atualmente falamos na crise econmica de 2016 no como uma possibilidade, como era comentado no incio do ano, mas sim como uma sequncia piorada da crise que se abateu sobre o pas. No se trata mais, desse modo, de indagar se a crise econmica ir acontecer ou no neste ano, pois essa questo j foi sobejamente esclarecida. Trata-se, agora, de saber o quanto pior ser, j que depois de um ano onde nenhum dos fatores estruturais da economia brasileira reagiu, a piora do cenrio econmico dada como certa. O Seguro Desemprego criou uma espcie de colcho para as pessoas que esto sendo demitidas e, por isso, os reflexos nefastos do desemprego ainda no foram sentidos em sua plenitude. A coisa vai piorar!

A freada da economia domstica, a perda do grau de investimento, os juros mais altos, a crise poltica e a depreciao da moeda brasileira alm do esperado criam um cenrio de enormes incertezas, dificultando sobremaneira na tomada de decises. No sem razo, assim, as crises econmica e poltica, sem olvidar da crise moral, provocaram tempos traumticos que estagnaram a nao.

Os partidos e as instituies dedicam todas as suas energias para a discusso sobre o mandato da presidente Dilma Rousseff. Os aliados tentam mant-la no cargo, enquanto a oposio busca meios de abreviar sua passagem pelo Planalto. O impeachment, assim, tornou-se uma possibilidade vivel. A posse do vice, Michel Temer, soa, para alguns, como um golpe do PMDB para assumir, plenamente, o poder central. No TSE pede-se a cassao da chapa Dilma/Temer. Delaes e provas contundentes mostram que a chapa teria sido eleita, em 2014, de forma no republicana. Obviamente, h problemas semelhantes com outras chapas, mas elas no so objeto das quatro aes em andamento no Tribunal Superior Eleitoral.

Que continuemos a nos omitir da poltica tudo o que os malfeitores da vida pblica mais querem, dizia Bertolt Brecht. Em verdade, um certo aditamento ao que j nos ensinava Plato entre 428-347 A. C: O preo a pagar pela tua no participao na poltica seres governado por quem inferior.

No preciso ter olhos abertos para ver o sol, nem preciso ter ouvidos afiados para ouvir o trovo! Somos os nicos responsveis pelo quadro de abalo ssmico estrutural em que nos encontramos. A mesma poltica que nos faz ver o fim do tnel a mesma apta a nos fazer encontrar a luz. Max Weber dizia que h duas maneiras de fazer poltica. Ou se vive para a poltica ou se vida da poltica. Nessa oposio no h nada de exclusivo. Muito ao contrrio, em geral se fazem uma e outra coisa ao mesmo tempo, tanto idealmente quanto na prtica.

preciso, portanto, se politizar. Ser capaz de compreender a importncia do pensamento e da ao poltica, adquirindo, destarte, conscincia dos deveres e direitos dos cidados. Paulo Freire dizia que o ser alienado no procura um mundo autntico. Isto provoca uma nostalgia: deseja outro pas e lamenta ter nascido no seu. Tem vergonha da sua realidade. Talvez seja por essa razo que tantos afirmam querer ir embora do Brasil. Somos uma nao de alienados que no luta para nada, seno para o prprio umbigo. tempo de retomar os rumos, sacudir a poeira e erguer o Brasil! tempo de conscincia crtica! hora de pensar no coletivo!

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


81393
Por Marcelo Eduardo Freitas - 19/3/2016 10:00:10
A PF PRECISA DE AUTONOMIA!

* Marcelo Eduardo Freitas

Os dias atuais tm sido marcados por notcias ruins. Em todos os cenrios. Mas o que mais tem chamado a ateno, no se pode negar, so as divulgaes que envolvem os escndalos nos altos escales da repblica brasileira. A populao canarinho, de to acostumada, parece se anestesiar com os despautrios que a mdia revela. Aonde vamos chegar?

A atuao de nossas instituies tem sido posta em xeque. guisa de exemplo, em conversas gravadas com autorizao judicial no mbito da operao Lava Jato, o ex-presidente Luiz Incio Lula da Silva criticou a tentativa da Polcia Federal de buscar autonomia" e diz que os procuradores da Repblica acham que "so enviados de Deus". Em outro momento, o ex-presidente Lula afirma o seguinte: "Sabe o que acontece? O problema que ns temos que fazer nos respeitar! Um delegado no pode desrespeitar um poltico, um senador ou um deputado! Sabe? No tem sentido! Um cara do Ministrio Pblico tem que respeitar! Todo mundo quer autonomia... Quem est precisando de autonomia nesse pas a Dilma!

A presidente Dilma Rousseff, por seu turno, declarou que a interceptao e divulgao de uma conversa que ela teve por telefone com o ex-presidente Lula uma "agresso democracia" e afirmou que o caso ser investigado e punido.

A verborragia no ficou sem resposta. Em um discurso duro em frente sede da Justia Federal no Paran, o coordenador da fora-tarefa da Lava Jato em Curitiba, Deltan Dallagnol, disse que as interceptaes telefnicas que envolvem o ex-presidente Luiz Incio Lula da Silva e a presidente Dilma Rousseff mostram "a extenso do abuso de poder" e evidenciam uma "guerra desleal travada nas sombras". E acrescentou: "As tentativas de amedrontar policiais federais, auditores da Receita Federal, procuradores da Repblica e o juiz federal Sergio Moro devem ser repudiadas. Os atentados investigao revelam a extenso do abuso de poder e do descaso com o estado democrtico de direito na Repblica". O Judicirio brasileiro, em diversas frentes, tambm se manifestou de forma eloqente.

A esta altura, no nos custa reprisar aqui as palavras de Paulo Francis, certa feita, durante a cobertura das eleies presidenciais norte-americanas: "No importa em nada para os destinos daquela nao se ganhar Bush, Clinton ou um cabo corneteiro". A verdade que os EUA, graas atuao dos "pais fundadores da ptria", pensaram as instituies daquele prspero pas para muito alm do seu tempo, fortalecendo-as e dotando-as da necessria autonomia para agir, sem interferncias de governo.

O Brasil passa hoje por um momento singular. As manifestaes de rua evidenciam a necessidade de combate firme corrupo e a gritante inteno do povo brasileiro em propiciar mais liberdade de atuao aos rgos de controle, com particular nfase para a Polcia Federal. Em carta dirigida ao povo brasileiro, o Juiz Srgio Moro chegou a afirmar: Importante que as autoridades eleitas e os partidos ouam a voz das ruas e igualmente se comprometam com o combate corrupo, reforando nossas instituies e cortando, sem exceo, na prpria carne, pois atualmente trata-se de iniciativa quase que exclusiva das instncias de controle.

nesse sentido, deste modo, que emerge a necessidade de autonomia para que a Polcia Federal, uma das instituies mais relevantes no combate corrupo de nossa nao e uma das mais bem avaliadas pelo povo brasileiro, possa investigar. Sem presses governamentais de quaisquer ordens, como as acima vistas e amplamente divulgadas pelos rgos de comunicao, tambm duramente criticados por alguns incomodados com a imprensa livre de nossa ptria.

A ideia de fortalecimento institucional est compreendida na PEC 412/2009, que garante PF "sua autonomia funcional e administrativa e a iniciativa de elaborar sua proposta oramentria dentro dos limites estabelecidos na lei de diretrizes oramentrias". A Proposta de Emenda Constitucional 412/2009, se aprovada, poderia corrigir um grande nmero de dissabores aos quais a PF tem sido submetida. Todos, devidamente justificados em medidas que nada apresentam de republicano. Que fique claro: a autonomia oramentria, administrativa e financeira aqui defendida, a mesma que foi dispensada Defensoria Pblica da Unio (DPU), na PEC 247/2013 (transformada na Emenda n. 80/2014), que era vinculada ao MJ.

Em concluso: muitas medidas poderiam ser minimizadas com a autonomia apregoada pela PEC 412/2009, propositalmente repetida a fim de que o leitor melhor se informe. imperioso que a populao organizada, representada pela Igreja, Maonaria, OAB, Ministrio Pblico, associaes, Imprensa, Rotary e ONG`s, no se cale em momento de tamanha degradao moral! Podemos aprimorar a nossa nao. No d mais para esperar. Chegou a hora de fortalecermos nossas instituies! urgente uma Polcia Federal autnoma! Aprovao da PEC 412 j! Caro leitor, voc faz a diferena! O seu grito estridente pode melhorar a vida de geraes vindouras!

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


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Por Marcelo Eduardo Freitas - 11/3/2016 21:30:12
O IMPORTANTE CATIVAR

* Marcelo Eduardo Freitas

Aps tantas turbulncias nos ltimos dias, com o noticirio nacional sendo abastado de divulgaes nada agradveis, o que nos resta, de fato, discorrer sobre temas recheados de leveza e suavidade. Escolhi, deste modo, falar sobre a necessidade de cativar, com o propsito de se permitir, por consequncia, a conservao do amor entre as pessoas, com nfase para a famlia, amigos e outros que proporcionaram algum sentindo especial para nossas vidas.

Cativar, segundo o dicionrio, pode ser definido como a arte de impressionar uma pessoa (ou vrias) com o carter, o jeito de ser, agir, pensar ou falar. O verbo tem sido conjugado no pretrito imperfeito, estando, em tempos ditos modernos, completamente obsoleto. Posso estar enganado, mas creio que boa parte daqueles que ousaram amar um dia comungaro da mesma opinio aqui externada.

Alimentamos a tendncia de acreditar, de forma pvida, que o amor considerado verdadeiro dura para sempre. Nada mais precisamos fazer alm de afirmar isso uma nica vez, em toda a vida. O amor no sobrevive por si s! Amor verbo de ao! escolha diria! Significa fazer, fazer uma vez mais, refazer se necessrio e comear tudo de novo! reconstruir o templo destrudo em apenas trs dias! preciso crescer e ser nutrido!

Por vezes conquistamos as pessoas, mas esquecemos de cuidar delas. Isso moleza! Difcil mesmo compartilhar com leveza, conviver com tolerncia, aceitar com benevolncia! Revelar segredos, abstrair e superar os defeitos! Regar todos os dias a planta da vida. Conquistar e reconquistar, quantas vezes for necessrio. No fcil, mas to necessrio para a manuteno dos relacionamentos quanto o respirar para a vida!

Cativar, assim, no prender, no mimar. Ser amoroso exercer a arte de cativar da forma e na hora certa. Nada de mais, nada de menos. Sabedoria to necessria para administrar de forma sutil e equilibrada os relacionamentos que temos, seja no trabalho, na escola ou no lar.

Em O pequeno Prncipe, terceira produo literria mais traduzida no planeta, Antoine de Saint-Exupry relata, com sensibilidade singular, a dificuldade de se cativar. No dilogo do Principezinho com a Raposa, l pela parte XXI, essa lhe transmite ensinamentos que devem ser lembrados eternamente pela humanidade: Eis o meu segredo: s se v bem com o corao. O essencial invisvel aos olhos. Os homens esqueceram essa verdade, mas tu no a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsvel por aquilo que cativas.

Em determinado momento da obra, aqui retratada livremente, sem obedincia cronolgica, ocasio em que se referiam a uma bela rosa que brotara um dia de um gro trazido no se sabe de onde, indaga o Prncipe: Que quer dizer cativar? uma coisa muito esquecida, disse a Raposa. Significa criar laos.

Obviamente, a Raposa no estava dizendo que o Pequeno Prncipe deveria regar, proteger e tirar as larvas da rosa para sempre. A responsabilidade eterna que o Pequeno Prncipe tinha era a de ensinar a rosa a se cuidar sozinha e mant-la sempre viva em sua lembrana. Assim tambm deve ser com todos aqueles que amamos.

A importncia de valorizar o que se cativa, termo esse que o autor coloca com muita adequao, deveria ser aplicado a todos ns. Devemos nutrir sentimento de responsabilidade sobre quem se torna importante em nossas existncias, mas que, no raras vezes, deixado de lado por conta do nosso egosmo e arrogncia. O amor, quando em desnutrio, precisa do soro do carinho, do afago, do afeto, para manter-se vivo.

A concluso a esta breve perorao continuidade do amor deve ser extrada das palavras da Raposa ao Pequeno Prncipe: Tu no s nada ainda para mim seno um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu no tenho necessidade de ti. E tu no tens tambm necessidade de mim. No passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, ns teremos necessidade um do outro. Sers para mim o nico no mundo. E eu serei para ti nica no mundo.... preciso agir sem esperar contrapartidas, retornos de ocasio ou reconhecimentos que apenas inflam superficialmente o nosso ego. Como diria Fernando Pessoa, amo como ama o amor. No conheo nenhuma outra razo para amar seno amar. Que queres que te diga, alm de que te amo, se o que quero dizer-te que te amo? No presente do indicativo, eu cativo! E tu? Cativas a quem ama?

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


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Por Marcelo Eduardo Freitas - 5/3/2016 01:01:16
O SILNCIO DOS BONS E O GRITO DOS CORRUPTOS

* Marcelo Eduardo Freitas

pblico e notrio, na democracia brasileira, o discurso eloquente de corruptos contumazes que, ao se verem surpreendidos com a boca na botija, reverberam a cantilena de sempre: perseguio poltica!

Para fazerem ecoar o bramido estridente, alguns se valem de potentes meios de comunicao (jornais, revistas ou Tvs), no raras vezes adquiridos s custas de gordas propinas ou sonegao milionria, camuflada de filantropia, a fim de atribuir veracidade ao conto do vigrio. Melhor seria dizer, ao grito do vigarista!

Em tempos de imprensa livre, a manifestao do pensamento representa um dos fundamentos em que se apoia a prpria noo de Estado democrtico de direito. Por isso mesmo, no pode ser restringida pelo exerccio ilegtimo da censura estatal. No sem razo, a Carta de Princpios, tambm denominada Declarao de Chapultepec, assinada no Mxico em 1994, durante a Conferncia Hemisfrica sobre Liberdade de Expresso, foi textual ao estabelecer que "o pensamento h de ser livre, permanentemente livre, essencialmente livre.

Essa liberdade, entretanto, nos custa caro. Mormente a olhos e ouvidos. Por isso mesmo, ouvimos e observamos, atnitos, a desfaatez de homens e mulheres que, mesmo chafurdados em lamaal, no se cansam de atirar lamas em pessoas e instituies que nutrem uma trajetria irreprochvel e de eloquentes servios prestados nao brasileira. Valem-se do mesmo subterfgio utilizado pela propaganda nazista. Basta rememorar as palavras de Adolf Hitler, expressadas em 1926, em seu livro Mein Kampf: "A propaganda poltica busca imbuir o povo, como um todo, com uma doutrina... A propaganda para o pblico em geral funciona a partir do ponto de vista de uma ideia, e o prepara para quando da vitria daquela opinio".

A resposta aos facnoras h de vir do silncio dos ofendidos, a fim de evitar eventual e previsvel arguio de suspeio, sem olvidar, entretanto, do clamor e apoio que deve advir das ruas. A sociedade, em situaes que tais, no pode manter-se inerte. Todos aqueles que no trocaram conscincias por favores ou empregos pblicos, distribudos em forma de rodzio pelo governante de planto, devem adotar postura ativa.

Maquiavel se perguntava se, para um prncipe, era melhor ser amado ou ser temido. Como as duas qualidades eram mutuamente excludentes, era preciso escolher apenas uma delas. Mas qual seria a melhor? O pensador renascentista concluiu que ser temido era muito mais seguro do que ser amado. Esse pensamento foi externado em O Prncipe, entre os anos de 1505 e 1515, mas ainda existem aqueles ignorantes inteis que acreditam piamente que instituies iro recuar com escndalos histricos. No iro! Venham de onde vier!

Quando era criana, em tempos de extrema privao e sofrimento oriundos da vida na zona rural, era muito comum presenciar a sangria de porcos que, antes do abate covarde, berravam assustadoramente. O sertanejo, rude como de costume, empurrava a faca bem abaixo da pata dianteira esquerda e, com certo orgulho, bradava: O bom cabrito aquele que no berra, mas o porco, mesmos aos berros, morre!

Os tempos mudaram! As instituies funcionam! Isso tem incomodado muita gente que se julgava intocvel! No so! Karl Marx dizia que sem sombra de dvida, a vontade do capitalista consiste em encher os bolsos, o mais que possa. E o que temos a fazer no divagar acerca da sua vontade, mas investigar o seu poder, os limites desse poder e o carter desses limites. Com maior razo deve-se investigar o capitalista que, promissor no ramo dos negcios, se embrenha pelos caminhos da poltica partidria. Esse, no h dvidas, vai usar do espao pblico para atender seus interesses privados, pois como ensina a Ministra Carmen Lcia, o dinheiro para o crime o que o sangue para a veia. Se no circular com volume e sem obstculos no temos esquemas criminosos. O poder exclui as barreiras que o dinheiro no conseguiu derrubar!

Immanuel Kant, filsofo prussiano, considerado o pai da filosofia moderna, dizia que a preguia e a covardia so as causas pelas quais uma to grande parte dos homens, depois que a natureza de h muito os libertou de uma direo estranha, continuem, no entanto de bom grado menores durante toda a vida. So tambm as causas que explicam porque to fcil que os outros se constituam em tutores deles. to cmodo ser menor... No tenho necessidade de pensar, quando posso simplesmente pagar; outros se encarregaro em meu lugar dos negcios desagradveis.

O bom ladro salvou-se na cruz. Mas no h salvao possvel para homens e mulheres que, podendo, se acovardam diante do mal. tempo de irresignao! Como diria Norman Vincent, os covardes nunca tentam, os fracassados nunca terminam, os vencedores nunca desistem. Eu no desisto nunca! E voc?

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


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Por Marcelo Eduardo Freitas - 26/2/2016 13:56:46
O PROFESSOR DE ONTEM E O ALUNO DE HOJE

* Marcelo Eduardo Freitas

Acabo de ler a notcia de que um juiz, na longnqua cidade de Rio Branco, no Estado Acre, negou pedido de danos morais a um aluno em ao promovida contra a Faculdade em que estuda. O motivo da contenda estaria adstrito ao fato do professor ter atribudo nota zero ao discente em determinada prova. Interpelado pelo aluno, o professor o mandou estudar. Simples assim!

Para o magistrado, restou comprovado que a prova do aluno foi corrigida de forma correta: Restou plenamente demonstrado que o autor no possui o domnio da matria e, desta forma, de fato, no poderia ser aprovado ou sequer obter a nota que almeja`.

Fiquei pensando em tempos remotos, em que estudar representava uma verdadeira odisseia. Eram lguas de distncia para chegar escola, montado a cavalo por vezes, passando em rios com o corpo amarrado em cordas, quando cheio. Caminhar com o nico sapato apertado, sem merenda, sem cadernos caros, aqueles dos personagens de televiso. No era fcil! Mas nessa vida de contradies tudo era, de fato, muito gostoso! Foram dificuldades que nos fortaleceram!

E por falar em cadernos, quem estudou na zona rural sabe do que vou falar: na imensa maioria das vezes, eram aqueles fornecidos pelos polticos da poca. Capa brochuro, que nunca aguentava at o meio do ano, com o hino nacional na contracapa. Pode parecer contraditrio, mas agradeo muito a Elizeu Resende, Hlio Garcia, entre tantos outros. Sem aqueles cadernos, creio que seria pior. No fundo no fundo, ajudaram a moldar a minha conscincia poltica, a minha personalidade crtica.

O professor era a figura mais importante. Obviamente, depois do pai e da me. E ai daquele que ousasse responder de maneira impetuosa. O respeito e o temor eram evidentes e generalizados. E o medo da palmatria? Digam o que quiser, mas a ao da temida palmatria endireitou menino demais! Bem sei que em tempos modernos, o professor seria linchado em praa pblica. Sem direito at mesmo a explicar o porqu do seu uso.

Recordo-me que a nossa rotina escolar era mais ou menos assim: orao, hasteamento da bandeira nacional, hino entoado e sala de aula, com moral e cvica e OSPB. A disciplina era rigorosa. Sem olvidar do esforo hercleo de chegar escola limpo, penteado e com a tarefa feita, no obstante os piolhos que sempre atormentavam os meninos da poca. Obviamente, comigo no foi diferente. A cabea era grande e os cabelos eram lisos. Hoje, entretanto, a cabea continua grande. Os cabelos... Cada vez mais raros! O tempo passou!

Caro leitor, a moda agora colocar o fone do celular no ouvido e fazer o favor ao professor de ficar quieto em sala de aula. Acabou o respeito! A decncia! A essncia da verdadeira educao tem se esvaido com a tal modernidade. Estamos realmente evoluindo?

Professor agora no pode nem mais mandar o aluno estudar. No pode reprovar, nem mesmo ser austero. Para onde vamos com tudo isso? Confesso que, por vezes, chego a desanimar. Minha sensao hoje a de que a tecnologia da modernidade nos trouxe uns culos monocromticos e s enxergamos o que est na superfcie, o que vem fcil. Sinto-me s vezes no meio de uma legio formada pela alegria instantnea e felicidade ftil. No se pode perder nada. E sem nada a perder no se aprende a ganhar!

Como diria Darcy Ribeiro, ultimamente a coisa se tornou mais complexa porque as instituies tradicionais esto perdendo todo o seu poder de controle e de doutrina. A escola no ensina, a igreja no catequiza, os partidos no politizam. O que opera um monstruoso sistema de comunicao de massa, impondo padres de consumo inatingveis e desejos inalcanveis, aprofundando mais a marginalidade dessas populaes.

De fato, precisamos viver mais, amar mais, sem perder de vista o que nos trouxe at aqui. Para seguir adiante, preciso compreender o passado. Como diria Carlos Drummond de Andrade a cada dia que vivo, mais me conveno de que o desperdcio da vida est no amor que no damos, nas foras que no usamos, na prudncia egosta que nada arrisca, e que, esquivando-se do sofrimento, perdemos tambm a felicidade. A dor inevitvel. O sofrimento opcional. A educao a essncia para uma sociedade saudvel! Flexvel demais acaba por no conseguir erguer-se e ficar de p!

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


81300
Por Marcelo Eduardo Freitas - 20/2/2016 23:40:59
A DECISO DO STF E O INCIO DO CUMPRIMENTO DE PENAS NO BRASIL

* Marcelo Eduardo Freitas

O Supremo Tribunal Federal decidiu alterar sua jurisprudncia na ltima quarta-feira, passando, assim, a permitir que o cumprimento da pena de priso seja iniciado imediatamente aps a deciso de segundo grau, confirmando eventual condenao criminal.

A deciso, deste modo, modifica posicionamento anterior do prprio Tribunal, atendendo evidentes clamores advindos das ruas, por melhor dizer, da populao brasileira. A mudana visa combater a ideia de morosidade da justia e a gritante sensao de impunidade que a todos ns tem assustado. Obviamente, tambm prestigia o trabalho dos juzes de primeira e segunda instncias, j que a sentena s se considerava definitiva aps confirmao pela ltima instncia do Poder Judicirio brasileiro, isto , o prprio STF.

Por sete votos a quatro, o tribunal entendeu que a priso, depois da confirmao da sentena condenatria por uma corte de segundo grau, no viola o princpio da presuno de inocncia.

A Ordem dos Advogados do Brasil reagiu enfaticamente deciso. Em nota, o Conselho Federal e o Colgio de Presidentes Seccionais manifestaram possuir posio firme no sentido de que o princpio constitucional da presuno de inocncia no permite a priso enquanto houver direito a recurso". A celeuma, destarte, gira em torna da interpretao do inciso LVII do artigo 5, de nossa constituio cidad que enfatiza que ningum ser considerado culpado at o trnsito em julgado de sentena penal condenatria.

Vale registrar que no ano de 2011 o ento ministro Cezar Peluso apresentou a chamada "PEC dos Recursos", com o objetivo de reduzir o nmero de pedidos de reviso ao Supremo e ao Superior Tribunal de Justia, dando mais agilidade s execues das penas em nossa nao. O que se pretendia com referida PEC, que no andou no Congresso Nacional por motivos bvios, era mais ou menos a mesma coisa que fora decidida pela nossa Suprema Corte.

Caro leitor, confesso que a deciso no me surpreendeu, especialmente em tempos de Operao Lava-Jato, numa conjuntura em que toda a sociedade clama por justia e pelo fim da corrupo. A mudana de paradigma, deste modo, pode fazer com que os condenados nesta e em outras grandes operaes tenham suas condenaes iniciadas em tempo bem menor, em viso apta a rever o extremo garantismo que tem permeado a aplicao do direito penal no pas.

O Juiz Srgio Mouro, em nota, chegou a afirmar que a deciso fecha uma das portas da impunidade no sistema penal brasileiro. Pensamos de forma idntica! Era necessrio atribuir novos rumos execuo da pena no Brasil. Obviamente, preciso, de igual modo, humanizar o sistema prisional, estancando sucessivas violaes aos direitos dos detentos, onde quer que se encontrem.

Vale registrar, por oportuno, que nesta nova realidade os recursos continuam disposio dos condenados. Mas sua utilizao como ferramentas de protelao, empurrando com a barriga o incio da condenao, perde o sentido, j que deixam de suspender a execuo da sentena, a partir do segundo grau, por melhor dizer, aps deciso dos Tribunais de Justia ou dos Tribunais Regionais Federais.
No ano de 2009, ao proferir voto no julgamento de determinado Habeas Corpus, vencido, o ento Ministro Joaquim Barbosa afirmou: Se formos aguardar o julgamento de Recursos Especiais e Recursos Extraordinrios, o processo jamais chegar ao fim. No processo penal, o ru dispe de recursos de impugnao que no existem no processo civil. Nenhum pas do mundo convive com a generosidade de habeas corpus que existe no Brasil. Para reforar seu ponto de vista, Barbosa mencionou um caso que se encontrava sobre sua mesa: Sou relator de um rumoroso processo de So Paulo. S de um dos rus foram julgados 62 recursos no STF, dezenas de minha relatoria, outros da relatoria do ministro Eros Grau e do ministro Carlos Britto. Esse quadro parece chegar ao fim!

O cenrio, por conseguinte, alvissareiro. O Brasil ter dias melhores. Observo certa confluncia de esforos tendentes a diminuir, em particular, a impunidade e a corrupo em terras tupiniquins. As grandes democracias do mundo civilizado ostentam trs caractersticas essenciais para melhorias considerveis de cenrios: educao, fortalecimento de programas de fiscalizao e aplicao de punio adequada e efetiva para corruptos contumazes. A deciso do Supremo abre espao para esta ltima. digna de comemorao!

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


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Por Marcelo Eduardo Freitas - 13/2/2016 09:22:09
O CARNAVAL ACABOU! E DA?

* Marcelo Eduardo Freitas

O Carnaval deste ano chegou ao fim. Durante este perodo de festas que inclui corpos desnudos em forma de arte, tradio, explorao do turismo e descontrao, ocorrem tambm muitos outros processos, todos bastantes profundos e menos evidentes aos olhos dos menos atentos, especialmente quando passa a euforia.
Que fique claro: ficar sem fazer nada, por um dado momento, at necessrio! Contudo, nem todo brasileiro gosta de carnaval. Alis, so muitos os brasileiros que no apreciam tal festividade. Dizem que o carnaval deixou de ser uma manifestao cultural, e passou a ser um verdadeiro atestado de um comportamento irresponsvel e, por vezes, animalesco. No quero aqui polemizar, afinal cada um de ns somos responsveis (ou deveramos ser) pelas escolhas que fazemos.
A histria evidencia que o carnaval teve origem nos rituais para celebraes da fertilidade nas margens do rio Nilo, no Egito antigo, h aproximadamente seis mil anos. Com o passar dos tempos, essas comemoraes evoluram, adquirindo significados dspares por todo o planeta. Aos tradicionais bailes e desfiles alegricos, acrescentaram-se as explcitas manifestaes sexuais.
A partir desse evidente fenmeno hedonista, com a elevao do prazer a bem supremo, consoante algumas teorias, a Igreja Catlica proibiu essas manifestaes sexuais. Do embargo surge, ento, a palavra "carnaval", que significa "carne levare", isto , afastar a carne.
At os dias atuais se leva em conta a celebrao que antecede o perodo da quaresma como sendo o "ltimo festejo profano". Na quaresma, de acordo com o calendrio Cristo, os fiis so convidados abstinncia dos prazeres da carne para se lembrarem da ressurreio do Cristo. Funciona mais ou menos assim: o indivduo pratica toda a sorte de estupidez no carnaval e, logo aps, entra em estado de remorso a fim de preparar seu esprito para a Pscoa. Uma espcie de catarse s avessas!
Cumpre-nos consignar, a essa altura, que as fantasias carnavalescas se originaram do carnaval de Paris, na Idade Mdia. A partir daquela capital francesa, bero da liberdade, igualdade e fraternidade, ocorreram diversas adaptaes por cidades de todo o mundo. Uma delas foi o Rio de Janeiro, que aperfeioou a criao, fazendo dos desfiles carnavalescos um verdadeiro espetculo exibicionista, transmitido ao vivo para milhes de pessoas em todo o planeta.
No h, assim, a menor dvida no sentido de que "mscaras" e "fantasias" auxiliam momentaneamente as iluses que aparentam tornar a vida mais leve, mais fcil e mais alegre. Mas, afinal, por trs de "tanto riso e de tanta alegria, mais de mil palhaos no salo...", quando nossa verdadeira pele e nossa verdadeira face estaro, de fato expostas? Quando acordaremos efetivamente para os problemas sociais de nossa nao?
Seria cmico se no fosse trgico o fato de que "uma semana antes do carnaval a sade pblica estava tomada por um colossal desespero para tentar diminuir os efeitos da festa. Camisinhas aos montes foram distribudas na esperana falida de conter o impulso sexual inerente ao festejo, no qual todos so de todos. Ou ningum de ningum. Tanto faz. O sexo vendido to barato quanto a cerveja nas esquinas". A dengue, chikungunya e o zika vrus tambm tomam conta de todo o pas. E o povo nada v! Acfalo, como de costume!
Caro leitor, a festa acabou! tempo, assim, de regaar as mangas e voltar ao Brasil verdadeiro, despido, doravante, apenas de iluses superficiais que nos tiram o foco das desgraas que nos tem assombrado. O momento de trabalho! De produo! De observao minuciosa!
As atenes devem ser direcionadas para outros "blocos": "O bloco do Congresso Nacional com seus deputados `fanfarres` usando e abusando do dinheiro pblico e fazendo a gente acreditar que eles so honestos. O `bloco` dos senadores, o bloco dos prefeitos corruptos, vereadores, governadores, empresrios que adoram dar uma `gratificao` e, tambm o `bloco` dos juzes, promotores, procuradores, advogados, delegados e propineiros de planto que por a se vo. O bloco da Lava Jato.
A Televiso tenta esconder esses fatores, mas a realidade todos sabemos: Brasil com corrupo, violncia, prostituio e um alto ndice de desigualdade social. No d, portanto, para ficar festejando ao som de "metralhadora" que nada ensina e apenas entorpece! Como diria Chico Xavier, "Deus nos concede, a cada dia, uma pgina de vida nova no livro do tempo. Aquilo que colocarmos nela, corre por nossa conta". O Brasil o que , exclusivamente, pelo que temos feito com ele!

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


81209
Por Marcelo Eduardo Freitas - 30/1/2016 12:29:44
EM BUSCA DAS TRADIES PERDIDAS

* Marcelo Eduardo Freitas

Euclides da Cunha dizia que "o sertanejo , antes de tudo, um forte. No tem o raquitismo exaustivo dos mestios do litoral". Foi em Os Sertes que realmente me senti tal qual um"Hrcules-Quasmodo", expresso eternizada na obra daquele carioca que, em 21 de setembro de 1903, se imortalizou ao assumir a cadeira 7 da Academia Brasileira de Letras.
Se vivo estivesse, talvez Euclides no teria a mesma viso de nossos sertanejos, especialmente aqueles arraigados em nossos sertes das gerais, beneficirios de algum programa eleitoreiro em tempos modernos. Adiante, como diria Descartes, aduzirei as razes pelas quais me persuado de haver chegado a um certo e evidente conhecimento da verdade, a fim de ver se, pelas mesmas razes, poderei eu tambm convencer outros.
Desde criana mantenho o hbito de, nesta poca do ano, caar o pequi que em abundncia ofertado pela me-natureza. A regio em que nasci tem centenas de pequizeiros que forram o cho com estas enormes frutas do cerrado. tanto pequi que voc acaba escolhendo os maiores, imaginando o almoo delicioso que est por vir... Nem sei se os brasileiros de outras regies deste imenso pas gostam da fruta. Eu simplesmente adoro!
Aps a "caada" ao fruto que s bom quando cai do p, congelo em pequenas pores, de modo a poder consumi-lo durante o ano inteiro. justamente naquele perodo em que a fruta no produzida que sinto mais saudades. A, sim, fica bem mais gostoso um prato quentinho, cheio de pequi!

Para quem ainda no conhece, o pequi uma fruta tpica do cerrado, sendo que muitos Estados brasileiros tentam assumir a sua "paternidade". Tem o de Gois (grande, mas amarelo clarinho e com pouca "carne"), o de Mato Grosso (enorme, mas meio inspido), e o nosso (amarelo ouro, carnudo). J experimentei todos e digo francamente: no existe, no mundo, pequi mais saboroso que o nosso!
Considerada uma das "carnes" mais apetitosas do norte de Minas, ao lado da carne de sol, o centro da cidade de Montes Claros/MG exala o seu cheiro com os vendedores ambulantes que barganham valores variados, de acordo com o tamanho do fruto.
No final de semana que passou fui, uma vez mais, catar pequi. Confesso que voltei com um discurso triste, regado luz de velas, j que a energia havia ido embora, e algumas doses de um bom whisky escocs. Caro leitor, o pequi est se perdendo debaixo dos pequizeiros. Ningum mais se ocupa em busc-lo. Muitos, inclusive moradores da zona rural, preferem pagar por uma dzia de pequis, a muitas vezes caminharem algumas lguas a fim de buscarem no mato. E no s com o pequi no! com a manga, o coquinho azedo, a pitomba, a acerola... Tudo se perdendo no p!
Os meninos de hoje no sabem o que sair na chuva, com uma faca e uma sacola nas mos, catar o pequi, descasc-lo, passar embaixo de um p de pitomba e sair chupando-a enquanto chega a um p de coquinho azedo para, depois, voltar feliz para casa, fitando aquele amarelo do pequi que est dentro da sacola, acreditando ser, ao menos por um instante, ouro de verdade.
Com essa breve perorao, escrita de maneira singela, fao aqui indagaes: por que as pessoas esto perdendo a capacidade de ir atrs daquilo que realmente desejam? "Por quem os sinos dobram"? Todo mundo s quer receber o produto pronto. Acabado. No se batalha mais por nada. a gerao google. Em um s clique ao alcance das mos! Quanta futilidade!
Hoje temos o pequi em postas, em pedaos, sem caroo, tudo perfeitamente embalado, registrado, com conservante e caro. E enquanto isso o pequi se perde debaixo do p, sem nenhum sertanejo a ir busc-lo. Tudo est se transformando em p, literalmente! Basta ver o exemplo do leite que deixou de ser saudvel quando tirado quentinho das tetas das vacas e colocado em copos, cheios de espuma. Quem no passou por isso... Prefiro nem comentar!
Para aqueles que, tendo a oportunidade, ainda no a aproveitaram, no demais concluir com as palavras do mesmo poeta romancista usado no incio desta loa s tradies perdidas: "Passam-se um, dois, seis meses venturosos, derivados da exuberncia da terra, at que surdamente, imperceptivelmente, num ritmo maldito, se despeguem, a pouco e pouco, e caiam, as folhas e as flores, e a seca se desenhe outra vez nas ramagens mortas das rvores decduas." Vivam o hoje! O amanh pode no vir!

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


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Por Marcelo Eduardo Freitas - 23/1/2016 17:17:48
A ESCRAVIDO EM TEMPOS ATUAIS

* Marcelo Eduardo Freitas

A Histria nos conta que na partilha da frica, o rei Leopoldo (18351909), da Blgica, transformou o Congo em sua propriedade privada, submetendo os habitantes a uma explorao desumana, perpetrando um genocdio que causou a morte de cinco milhes de congoleses.
Fuzilando elefantes, o monarca transformou a colnia na mais prdiga fonte de marfim. Aoitando negros infelizes, extraiu ltex abundante e barato para a borracha dos pneus dos carros que comeavam a rodar pelas estradas de todo o mundo. Ele jamais foi ao Congo. Tudo por causa dos mosquitos da poca. Creio que jamais viria ao Brasil, mormente em tempos de dengue, chicungunha e zika vrus. Transmitidas, trs em um, pelo mesmo inseto.
Em sua obra Corao das Trevas, Joseph Conrad, narra a histria do capito Lon Rom, oficial de elite das tropas coloniais, que obrigava os nativos a ficar de quatro, a fim de receber suas ordens. Na entrada de sua casa, entre as flores do jardim, havia vinte estacas. Cada uma ostentava, como decorao, a cabea de um negro rebelde, chamado por Lon de animais estpidos. O preo a pagar muito alto!
Realidade semelhante foi suportada pelos silvcolas: guisa de considerao, no sculo XVIII, na colnia de Massachusetts, pagava-se o valor de cem libras esterlinas por cada couro cabeludo arrancado de ndio. Quando os EUA alcanaram sua independncia, materializada em 04 de julho de 1776, os couros cabeludos scalps eram cotados em dlares. Em tempos de economias fragilizadas, como a nossa, imaginem o valor, em real, que seria pago por tamanha aberrao da humanidade. Dizem que na Patagnia Argentina os poucos ndios, antes de serem expulsos de suas terras, cantavam ao ir embora: Terra minha: no te afastes de mim, por mais longe que eu me afaste de ti. Outra dvida enorme! Aqui, entretanto, aprofundarei um pouco mais na submisso do negro ao mpeto dos poderosos.
Obviamente, a histria do Brasil no passou alheia ao problema: a escravido representa uma profunda ferida em nossa caminhada. No foi seno por essa razo que Darcy Ribeiro chegou a afirmar: O Brasil, ltimo pas a acabar com a escravido, tem uma perversidade intrnseca na sua herana, que torna a nossa classe dominante enferma de desigualdade, de descaso....
Caro leitor, africanos escravizados e seus descendentes foram a principal mo-de-obra da Colnia e do Imprio. Mas apesar de ter sido abolido no sculo 19, o trabalho escravo ainda uma realidade, configurado de um jeito muito mais velado em novos modelos de explorao atuais.
Vale registrar que a Organizao Internacional do Trabalho (OIT) considera como escravido todo regime de trabalho degradante que prive o trabalhador de sua liberdade. Calcula-se que 21 milhes de pessoas sejam escravizadas atualmente no mundo, realidade que tem sido maximizada a cada dia, particularmente com a imigrao em massa, provocada pelas guerras civis e conflitos tnicos ou religiosos de todas as ordens. preciso ateno no olhar!
Hoje, nos grandes centros urbanos de nossa nao, observamos uma massa enorme de dvenas, oriundos em boa parte da frica e pases que enfrentam guerras civis, que esto sendo submetidos a formas gritantes de privao, configurando legtimas hipteses de trabalho escravo. Nas praias, nas esquinas, nos sinais, vendem de tudo que provm da mfia chinesa. So senegaleses, nigerianos, congoleses, quenianos. Em regra, obedecendo cegamente s ordens emanadas dos modernos senhores feudais, camuflados, em peles de cordeiros, na confortvel condio de empresrios do crime socialmente tolervel: o comrcio de produtos contrabandeados ou contrafeitos. Isso sem falar nos homens que so submetidos, fora, ao trabalho na pecuria, nas lavouras, na minerao e na produo de carvo vegetal. Mulheres e crianas so maioria nos prostbulos destes ares. A imensa maioria dos escravos modernos, assim, ainda so negros! O odioso espetculo ainda subsiste!
V-se, deste modo que, abolida em 1888, a escravido ainda sobrevive em novas formas de explorao no Brasil. Salta aos olhos! preciso corrigir rumos! No vale ficar rico s custas da desgraa e sofrimento alheios. Retribua, a cada um, o que for devido pelo direito. Como ensina-nos Jean-Jacques Rousseau, se h escravos por natureza, porque os h contra a natureza; a fora formou os primeiros, e a covardia os perpetuou. Chega de covardia! tempo de liberdade! tempo de igualdade!

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


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Por Marcelo Eduardo Freitas - 16/1/2016 10:02:06
OS PORCOS SELVAGENS E O POVO BRASILEIRO

* Marcelo Eduardo Freitas

Entende-se por programa social, em sentido lato, qualquer iniciativa tendente a melhorar as condies de vida de uma determinada sociedade. Grande parte destes programas so implementados pelo Estado, que tem a responsabilidade de atender s necessidades coletivas.
A gnese destes projetos, assim, era positiva. Contribuiu para estancar desigualdades por vrias regies do planeta. Na Amrica Latina, entretanto, a experincia se manteve atrelada a evidentes instrumentos de perpetuao de poder.
A verso mexicana do bolsa-famlia, nominada de "Oportunidades", foi decisiva para que Felipe Caldern fosse eleito em 2006 e permanecesse no poder at o ano de 2012. Hugo Chvez, na Venezuela, criou um conjunto de programas assistenciais chamado "Missiones", sendo que em determinado perodo de seu "reinado" 31% dos recursos pblicos daquela nao foram destinados a tais projetos. Nicols Maduro sucedeu a Chvez e o paternalismo, aqui interpretado em seu estrito sentido, como uma modalidade de autoritarismo, na qual uma pessoa exerce o poder sobre outras, combinando decises arbitrrias e inquestionveis com elementos sentimentais e concesses graciosas, persistiu.
Na Argentina, Nestor Kirchner tambm se apoiou no programa denominado "Chefe de Lugar" para assistir mais de 2 milhes de desempregados atravs de uma rede integrada de aes que ia desde a garantia de renda reinsero no mercado de trabalho. No Chile, com Michelle Bachelet, e na Bolvia, com Evo Morales, a mesma situao se repetiu.
Em uma leitura rpida de cenrios, percebe-se que o assistencialismo, sem olvidar de sua relevncia em um determinado momento pico, tem sido utilizado como evidente mecanismo de compra escancarada de votos, alijando um incomensurvel nmero de pessoas da capacidade de escolher seus representantes de maneira isenta de vcios. Em democracias frgeis como a brasileira, onde a ideologia de tirar proveito em tudo ainda impera (Lei de Grson), fica realmente difcil de acreditar na garantia constitucional do livre sufrgio.
Da implementao dos programas sociais no Brasil exsurge, deste modo, algumas concluses que nos parecem axiomticas: houve, sim, certa incluso social. Os ricos ficaram mais ricos. Mas a classe mdia se viu severamente achatada. Sentindo-se esquecida, essa mesma classe mdia voltou-se para a direita e est extremamente insatisfeita com a atual situao do pas. Vale registrar que as derrotas do assistencialismo comeam a aparecer na Venezuela, na Argentina e no Mxico. O castelo de areia, assim, parece desmoronar, j que "no existe almoo grtis", exceto aquele cujo preo se paga com a liberdade.
A esta altura, a fim de atribuir maior alcance ao contedo do texto, trago colao a histria dos porcos selvagens, aqui retratada livremente, no desiderato expresso de consignar que existem bons programas sociais e programas somente eleitoreiros. Assim o fao.
Durante uma aula em uma determinada universidade, um dos alunos, inesperadamente, perguntou ao seu professor: - voc sabe como se capturam os porcos selvagens?
O professor achou que era uma piada e j se preparou para uma resposta engraada. O jovem, entretanto, respondeu que no se cuidava de uma piada. Com seriedade, comeou sua narrao: - voc captura porcos selvagens encontrando um lugar adequado na floresta e jogando milho ao cho. Os porcos vm cotidianamente comer o milho ofertado gratuitamente. Quando se acostumam a vir diariamente, voc constri uma cerca ao lado do local onde eles se habituaram a vir. Quando se adaptam com a cerca, eles voltam para comer o milho e voc constri o outro lado da cerca...
Eles voltam a se acostumar e tornam a comer novamente. Voc vai, pouco a pouco, at instalar os quatro lados do cercado ao redor dos porcos. No final, instala uma porta no ltimo lado. Os porcos, j condicionados ao milho fcil e s cercas, comeam a vir sozinhos pela entrada. a que voc fecha o porto e captura todo o grupo. Simples assim! Em um minuto, os porcos perdem sua liberdade. Eles comeam a correr em crculos dentro da cerca, mas j esto submetidos situao de aprisionamento e dependncia. Depois, comeam a comer o milho fcil e gratuito. Ficam to acostumados circunstncia que esquecem como caar por si mesmos e, por isso, aceitam a escravido. Mais ainda: mostram-se gratos com os seus captores e, por geraes, vo felizes ao matadouro.
Qualquer semelhana com o povo brasileiro no mera coincidncia! Como diria Marco Tlio Ccero, filsofo e poltico romano, assassinado em 07 de dezembro de 43 a.C., em lio extremamente consentnea com a nossa realidade, "o oramento nacional deve ser equilibrado. As dvidas devem ser reduzidas, a arrogncia das autoridades deve ser moderada e controlada. Os pagamentos a governos estrangeiros devem ser reduzidos se a nao no quiser ir falncia. As pessoas devem, novamente, aprender a trabalhar, em vez de viver por conta pblica". 2016 est s comeando!

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


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Por Marcelo Eduardo Freitas - 9/1/2016 11:16:24
SIMPLESMENTE "CHIQUINHA"

* Marcelo Eduardo Freitas

Fui criado na roa. Ps descalos, poucos recursos, solto na rua. Nunca fui afeto a animais. Passarinho para mim, s rolinha mirada no estilingue, ou codorna para fritar nos fins de tarde. Assim cresci. Cachorro? S dos outros, criado no quintal da casa e com a nica funo de vigia ou segurana.
Nunca imaginei que pudesse "amar" um bicho, um animal. Talvez um "gostar", mas amar jamais... At a chegada de Chiquinha.
Chiquinha foi presente de um casal amigo nossa famlia no ano de 2006. Mistura de pinscher com p duro, ela chegou pequena, uma bolinha de pelos, com olhos grandes, assustados, cambaleando pela casa. Lembro-me de como reclamei no incio.
Pequena, era vestida e mimada pela menina da casa, criana como ela. Brincavam o tempo inteiro! Quando todos se instalavam na sala para assistir TV, l vinha Chica, com um vestidinho tirado de uma boneca, se aconchegar sempre no meu peito. Tudo feito de maneira bem devagar, tolerado por mim meio que involuntariamente. Foi assim, lentamente, que floresceu o amor. No h aqui outro sentimento a ser expressado!
Escandalosa por raa, brincalhona, pulava muito alto. Conseguia morder todos os calados e mais alguns brinquedos. Sempre com um jeitinho de moleca, nos olhava de uma maneira simples e sincera, como se quisesse dizer: "eu sei que fiz algo errado!" Ento a gente ria e l estava ela de novo. Foi assim que descobrimos que ela j fazia parte do cotidiano da famlia.
Acordava cedo, entrava em todos os quartos, pulava na cama de todos, lambia como se despertador fosse, e voltava para a cama da menina se aconchegando entre os ursos que ali ficavam, enquanto todos saiam para a escola ou o trabalho.
Com uma cognio invejvel, todos os dias ao meio-dia, l estava ela em frente ao porto, esperando a menina chegar da escola. E quando esta chegava, o afago e o beijo eram certos. Sempre sob a reclamao da me que advertia sobre os cuidados com a sade. Pobre me! Mal sabia que aqueles vermes, no fundo no fundo, fortaleciam a alma e o esprito da criana.
tarde, onde estava a menina, estava tambm Chiquinha. Cantando no banheiro, no quintal, na cozinha, deitada aos seus ps no sof. Andavam sempre juntas. Eram duas verdadeiras companheiras. Isso me deixava feliz!
Ao anoitecer, como algum que trabalha, Chiquinha sabia que a ela cabia a segurana da casa. Coitado daquele que ousava encostar. Latia e pulava frequentemente. Ns j sabamos o latido destinado ao carteiro, s pessoas que passavam na rua, aos outros cachorros. At mesmo quando algum chegava porta Chica nos avisava. Era um alarme ambulante. Sempre alerta, em estado de viglia.
Em 2011, tive a certeza da importncia dela de forma trgica: Chiquinha foi atropelada na porta de casa. Desespero total! A menina, com um tero na mo, fez mil promessas. Chorava e pedia pela vida de Chiquinha. E no que Deus deu essa oportunidade! Chiquinha ficou quase um ms sem caminhar. Fez cirurgia, costurou um olho que, com o acidente, pulou para fora, tomou antibitico e voltou a ser aquela amiga de sempre: alegre, companheira, leal e sincera.
E o tempo passou! Chiquinha j fugiu de Pet shop. Adorava correr pela avenida, pegar as pelcias da cama da menina e lev-las para a sua. Sair de carro e sentir o vento no rosto. Comer carne na hora do almoo. Todos os dias, noite, ela sempre deitava no meu peito, especialmente quando chegava detonado do trabalho. Era uma espcie de ansioltico. Parece que absorvia todas as energias ruins.
Como j era de se esperar, o nosso amor cresceu com Chiquinha. A ideia de morar em apartamento, mudar de cidade, tudo sempre inclua o bem-estar dela. A menina era irredutvel. Como pai, sempre compreendi isso. Confesso que tambm me atormentava a ideia de deix-la. No a deixamos. Ela, entretanto, nos deixou precocemente.
Em outubro de 2015, Chiquinha acordou diferente. Subiu as escadas para os quartos com dificuldade. Quase no conseguiu pular na cama da menina para acord-la para a escola. Um susto! tarde, no entanto, j estava na veterinria com diagnstico de infeco nos rins.
E o que mais me chamou a ateno em Chiquinha foi seu olhar. Agora triste, querendo ajuda, o que nos preocupou veementemente.
Viajei a trabalho e a menina ficou responsvel por levar Chiquinha todos os dias, ao meio-dia, na veterinria para tomar o remdio. E assim foi feito! Mas numa quinta-feira Chiquinha se foi. Estava na cama da menina, deitada. O infarto foi fulminante. Morreu olhando "dentro" dos olhos dela. A menina conheceu a morte de perto! Desesperada, chorando, clamando a Deus, pediu pela vida de Chica. No adiantou! A pobre cadela perdeu o brilho dos olhos, desvalida, fraca, sucumbiu. A casa ficou vazia! Todos os cmodos, os horrios do dia, os barulhos da rua, tudo ficou longe e triste sem Chiquinha!
Como podemos amar tanto um animal? Hoje, antes de me sentar para escrever, eu estava deitado no sof como de costume, passando os canais da TV, ocasio em senti, uma vez mais, a falta de Chiquinha. Por isso me senti no dever de escrever sobre ela, pois acredito que muitos que agora leem esse texto tambm tm sua Chiquinha em casa. Grande ou pequeno, gato ou cachorro, no importa! Esses animais acabam, sempre, conquistando e ensinando o valor do amor simples, leal e companheiro. So verdadeiras criaturas de Deus! Por isso, tambm devem ser amadas e respeitadas!
Esteja em paz Chica! A sua falta nos aperta o peito!

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


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Por Marcelo Eduardo Freitas - 31/12/2015 09:11:28
ADEUS ANO VELHO!

* Marcelo Eduardo Freitas

Mais um ano est na iminncia de chegar ao fim. O Brasil, enquanto nao politicamente organizada, passou por momentos de extremada turbulncia. O cenrio poltico e econmico foi dos piores possveis. Falta-nos educao pblica de qualidade. A violncia a todos ns tem assustado. O desemprego novamente bate porta das famlias brasileiras. A sade est um caos. A nossa justia anda capenga. A nossa carga tributria uma das mais altas do planeta. A polcia continua corrupta. A poltica... Tambm! Confesso que o cenrio seria desanimador, no fosse a vida que se renova a cada dia.
Vivemos em ciclos que se completam. Que se fecham para, adiante, serem reabertos. Uns morrem, outros tantos (ou mais) nascem. A noite contraposta pela manh. A destruio pela reconstruo. A tristeza pela alegria. O fim sobreposto pelo incio. No obstante nossas reaes, por vezes desesperadas, os ciclos abertos se fecharo. tempo, assim, de nos desprendermos de tudo o que de ruim nos aconteceu no velho ano.
Caro leitor, o ano novo s se inicia, de fato, quando nos desamarramos dos anacrnicos vcios que carregamos dentro de nossos coraes. tempo de ressurreio. Faamos do dia primeiro de janeiro um dia de libertao e comeo de uma nova vida. De superao e busca por dias menos tumultuados. Como ensina-nos Carlos Drummond de Andrade, "para sonhar um ano novo que merea este nome, voc, meu caro, tem de merec-lo, tem de faz-lo novo, eu sei que no fcil, mas tente, experimente, consciente. dentro de voc que o ano novo cochila e espera desde sempre."
No adianta, dessa maneira, desejar feliz ano novo se cometermos os mesmos vcios do ano pretrito. preciso sabedoria e autocrtica para fazer com que as conquistas sejam realmente merecidas. O nosso futuro, destarte, no poderia ser diferente, resultar sempre de nossas escolhas. Certas ou erradas, elas so "to somente nossas escolhas". Paradoxalmente, esquea o destino, sem jamais subestim-lo!
Albert Einstein dizia que "quem nunca errou nunca experimentou nada novo". Se necessrio, que erremos no ano vindouro. Mas contemplemos o novo, sem medos desnecessrios. Como ensina-nos Buda, a lei da mente implacvel. O que voc pensa, voc cria; O que voc sente, voc atrai; O que voc acredita, torna-se realidade. Que tenhamos muita sade. Mais amor ao falar. Mais pacincia ao ouvir. Mais cautela ao lidar. Mais roupa bonita para usar. Mais coraes para conquistar. Mais amigos de verdade. Mais sorrisos verdadeiros. Mais amores leais. Mais verdade. Muito mais verdade. E s! J nos ser suficiente! Precisamos realmente tentar!
Martin Luther King afirmava que " melhor tentar e falhar que ocupar-se em ver a vida passar. melhor tentar, ainda que em vo, que nada fazer. Eu prefiro caminhar na chuva a, em dias tristes, me esconder em casa. Prefiro ser feliz, embora louco, a viver em conformidade. Mesmo as noites totalmente sem estrelas podem anunciar a aurora de uma grande realizao. Mesmo se eu soubesse que amanh o mundo se partiria em pedaos, eu ainda plantaria a minha macieira. O dio paralisa a vida; o amor a desata. O dio confunde a vida; o amor a harmoniza. O dio escurece a vida; o amor a ilumina. O amor a nica fora capaz de transformar um inimigo num amigo...".
Em concluso a este breve adeus ao velho e calorosa recepo ao novo, no por demais finalizar com o poema A Pedra, cuja verso originria atribuda a Antnio Pereira Apon, mas aqui livremente retratada: O distrado nela tropeou. O bruto a usou como arma. O empreendedor a usou para construo. O campons dela fez um assento. Michelangelo dela fez uma escultura. Davi com ela matou o gigante. Jesus mandou remov-la para ressuscitar Lzaro. Observe, assim, que a diferena no est na pedra, mas na atitude das pessoas! No existe "pedra" no seu caminho que no possa ser aproveitada para o seu prprio crescimento. Que Deus, Senhor da Verdade e da Razo, nos d a necessria sabedoria para compreender o que fazer com cada uma das pedras que encontrarmos em nossas vidas, tornando-as, deste modo, alicerces para a construo de um mundo melhor. Que enterremos o ano de 2015 pressentindo o que fazer com as prximas pedras! Boas festas a todos ns. E que venha 2016!
(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


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Por Marcelo Eduardo Freitas - 25/12/2015 11:33:47
NATAL: EXISTEM RAZES PARA COMEMORAR?

* Marcelo Eduardo Freitas

O natal materializa a data em que celebramos o nascimento de Jesus Cristo. A Bblia, entretanto, nada diz sobre o dia exato em que Jesus nasceu. A comemorao do natal, assim, no fazia parte das tradies crists no incio dos tempos.
As antigas comemoraes de natal costumavam durar at 12 dias. Cuidava-se de uma referncia ao tempo em que os trs reis Magos levou para chegarem at a cidade de Belm e ofertarem os presentes - ouro, mirra e incenso - quele que, mais tarde, se tornaria o mais bendito dos frutos dos ventres terrenos. Sim, Cristo nasceu humano. Como cada um de ns!
Foi apenas no sculo IV que o dia 25 de dezembro foi estabelecido como data oficial de comemorao do nascimento de Cristo. Na Roma Antiga, o 25 de dezembro era a data em que se comemorava o incio do inverno. Por isso, acredita-se que haja uma relao deste fato com a oficializao da celebrao do Natal.
Ainda que se leve em conta apenas o aspecto cronolgico, o natal uma data de grande importncia para o ocidente, particularmente por marcar, a partir do nascimento de Jesus, o incio de nossa histria moderna, com a contagem dos tempos levando-se em conta este fenmeno natural.
Em tempos mais recentes, motivada por aspectos econmicos, passamos a cultivar, por vezes em detrimento do nascimento do Salvador do mundo, a figura do "bom velhinho", inspirada que foi no bispo chamado Nicolau, que nasceu na Turquia em 280 d.C. O bispo, considerado homem de bom corao, costumava ajudar pessoas pobres, deixando pequenos sacos com moedas prximas s chamins das casas. Foi transformado em santo (So Nicolau) pela Igreja Catlica, aps vrias pessoas relatarem milagres atribudos a ele.
At o final do sculo XIX, o Papai Noel era representado com uma roupa de inverno, na cor marrom ou verde escura. A roupa nas cores vermelha e branca, com cinto preto, foi criada pelo cartunista alemo Thomas Nast e apresentada ao mundo no ano de 1886. Em 1931, entretanto, uma campanha publicitria da Coca-Cola mostrou o Papai Noel com o mesmo figurino criado por Nast, que tambm eram as cores do refrigerante. A campanha publicitria fez um grande sucesso, ajudando a espalhar a nova imagem do Papai Noel por todo o planeta.
A figura do Papai Noel, deste modo, ganhou traduo em todo o mundo civilizado: Alemanha (Weihnachtsmann), Argentina, Espanha, Colmbia, Paraguai e Uruguai (Pap Noel), Chile (Viejito Pascuero), Dinamarca (Julemanden), Frana (Pre Nol), Itlia (Babbo Natale), Mxico (Santa Claus), Holanda (Kerstman), Portugal (Pai Natal), Inglaterra (Father Christmas), Sucia (Jultomte), Estados Unidos (Santa Claus), Rssia (Ded Moroz). O sucesso do bom velhinho ainda muito grande!
Retratada rapidamente a atual concepo de natal, no quero aqui gerar desconfortos a quem quer que seja. Trago apenas uma breve reflexo em momento to sublime: muitos de ns reuniremos em famlia para celebrar, mais uma vez, o nascimento daquele Homem. Beberemos do melhor clice. Comeremos o melhor dos manjares. Mas estaremos sendo coerentes com nossas aes neste ano que se finda? Temos motivos para, realmente, comemorar o natal do verdadeiro Cristo?
Caro leitor, tenhamos um momento de sensatez. Apenas um! Olhemos para o nosso pas. Para a corrupo que graa ao meio dia. Para o menor abandonado. O drogado. O doente. O refugiado. O analfabeto. O ladro. Acolheramos este em nossa casa para cear ao nosso lado? Jesus Cristo prometeu levar o ladro para casa! "Em verdade te digo que hoje estars comigo no Paraso". Est l no evangelho de Lucas!
Em momentos de extrema degradao moral, tantas vezes retratada de variadas formas, que o exemplo de Cristo nos faa abrir os olhos para o amor ao prximo. Jesus, nosso paradigma inspirador, optou pelos coxos, os oprimidos, os ladres, os renegados, os miserveis, leprosos e prostitutas. H, em ns, algo que se assemelhe a isso? Estamos acolhendo o nosso irmo ou tento tirar proveito dele?
Marcelo Freixo, em recente artigo publicado na Folha, chegou a afirmar: "Diante da mesa farta, espero que as ideias e a histria desse homem sirvam, pelo menos, como uma provocao reflexo. Paulo Freire dizia que amar um ato de coragem. Deixemos ento o dio para os covardes".
tempo de amor! Menos consumo! Mais respeito ao prximo! Acolhimento! Mas no apenas em um dia! Em todos os outros! Que possamos encontrar em 2016 o verdadeiro Cristo em nossas existncias. Que passemos a resgatar vidas. No mnimo, em moldes similares queles que utilizamos para recuperar lixos. As pessoas podem melhorar! Podem encontrar o caminho! Cristo assim nos ensinou! Se voc realmente acredita, h razes para comemorar!

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


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Por Marcelo Eduardo Freitas - 19/12/2015 09:07:20
CENRIO DE INCERTEZAS

* Marcelo Eduardo Freitas

Na histria recente de nossa repblica, creio, o Brasil jamais passou por fase de tamanha desconfiana e incerteza quanto ao que pode nos acontecer enquanto nao, termo este que possui um forte contedo emocional e que teve origem no momento em que os povos europeus almejavam a formao de unidades polticas dotadas de solidez e estabilidade, possibilitando a cessao do constante estado de guerra que vigorava na poca.

O artifcio de se empregar referida terminologia, que deveria deflagrar reaes emocionais no povo, objetivava afastar do poder os monarcas, responsveis diretos pelas guerras interminveis e, por outro lado, possibilitava burguesia a tomada do poder poltico. Em um dado momento histrico, deu certo!

Na combalida nao brasileira, so sucessivas as descobertas de desvios de todas as nuances, encrustadas nas mais altas esferas de poder. Chega a desanimar at mesmo o mais entusiasta dos mortais. crise que no se acaba mais!

H, por outro lado, registro, um ponto positivo em todo o infortnio que nos importuna: as instituies, ainda que de forma compulsria, como em um parto a frceps, esto atuando no mais elevado limite de suas foras, j que no h espao para omisses de quaisquer ordens. Ocorre que chegar o tempo em que no se poder fazer mais, sob pena de se comprometer os limites de desempenho de cada rgo. O povo,elemento humano do Estado que mantm um vnculo jurdico-poltico com o pas, pelo qual se tornam parte integrante deste, quem deve assumir as rdeas de toda a situao periclitante que a todos ns tem assombrado.

bblico: Felizes so aqueles que no viram nem ouviram. Os brasileiros estamos, assim, a ver e ouvir, em alto e bom som, que as coisas andam mal. E parece que perceberam a gravidade dos acontecimentos: em meio aos recentes desdobramentos da Operao Lava Jato, imediatamente aps a priso do pecuarista Jos Carlos Bumlai, amigo do ex-presidente Lula, e simultaneamente s prises do senador Delcdio do Amaral, do PT/MS, e do banqueiro Andr Esteves, dono do BTG Pactual, o instituto Datafolha realizou pesquisa a fim de ouvir a opinio dos brasileiros sobre o principal problema do pas.

A pesquisa mostrou, pela primeira vez na histria, a corrupo como o principal problema da nao, na opinio dos brasileiros. O assunto aparece com mais do que o dobro de apontamentos que o segundo colocado nas pesquisas: a sade. Consigna-se, aqui, que os levantamentos comearam a ser realizados no ano de 1996, perodo em que o emprego, ou sua falta, era considerado o principal fator de preocupao de nossa sociedade.

A corrupo o maior mal que uma nao pode ter. Dela advm todos os problemas de desigualdade social, m prestao de servios de sade, educao e segurana para a populao, o no investimento em pesquisas visando o desenvolvimento da nao, o no investimento empresarial com vistas ao crescimento econmico do pas, a manuteno de um sistema poltico de autobeneficiamento dos parlamentares, entre outros. Um pas corrupto no tem futuro!

Para quem acreditou que a conjuntura no iria piorar, mormente no perodo ps-pesquisa, acima referida, registro que a Polcia Federal e o Ministrio Pblico Federal cumpriram na manh do ltimo dia 15 de dezembro mandado de busca e apreenso na residncia oficial do presidente da Cmara, deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), em Braslia. A PF tambm cumpriu mandados na casa e no escritrio do peemedebista no Rio de Janeiro e na Diretoria Geral da Cmara dos Deputados. A ao, batizada de Catilinrias, em referncia ao discurso de Marco Tulio Ccero, em Roma, 63 a.C, como forma de reao s pretenses de Lcio Srgio Catilina, acusado de planejar um golpe para derrubar a Repblica, teve uma estrondosa repercusso nos corredores de ambas as casas do Congresso Nacional.

V-se, deste modo, que muito ainda h por ser feito. O cenrio de incertezas. Mas acredito que o povo est percebendo a gravidade da situao. Estamos quase conseguindo! Mas o problema talvez resida no quase...

Como diria Sarah Westphal, "ainda pior que a convico do no e a incerteza do talvez a desiluso de um quase. o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo que poderia ter sido e no foi. Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu est vivo, quem quase amou no amou. Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos, nas chances que se perdem por medo, nas ideias que nunca sairo do papel por essa maldita mania de viver no outono...

No que f mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao alcance, para as coisas que no podem ser mudadas resta-nos somente pacincia. Porm, preferir a derrota prvia dvida da vitria desperdiar a oportunidade de merecer. Pros erros h perdo; pros fracassos, chance; pros amores impossveis, tempo. De nada adianta cercar um corao vazio ou economizar alma. Um romance cujo fim instantneo ou indolor no romance. No deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impea de tentar. Desconfie do destino e acredite em voc. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive j morreu". E que venha 2016!

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


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Por Marcelo Eduardo Freitas - 12/12/2015 15:50:27
A TRAGDIA DE MARIANA E O SILNCIO DE MARINA

* Marcelo Eduardo Freitas

Os acidentes com barragens, de um modo geral, so mais comuns do que se concebe. Revelam, quase sempre, deficincias no manejo de suas estruturas e certo descaso com a legislao, especialmente a ambiental.
Fundada em 1977, sendo responsvel pela produo de pequenas bolas de minrio de ferro empregadas na produo de ao, a mineradora Samarco, controlada pela Vale e pela anglo-australiana BHP Billiton, a 10 maior exportadora do Brasil. A empresa atua em Minas Gerais e no Esprito Santo, estados por onde a tragdia se mostrou mais estridente, particularmente por serem cortados pelas guas do Rio Doce, mais importante bacia hidrogrfica totalmente includa na Regio Sudeste, com cerca de 853 km de extenso.
A China, no ano 1975, registrou o maior incidente na rea, aps o rompimento de duas grandes barragens, sucedido pela ruptura de outras 62 estruturas secundrias. A catstrofe ocasionou a morte, direta ou indiretamente, de 230 mil pessoas. O Canad, por seu turno, tambm amargurou tragdia similar, quando a barragem da mineradora Imperial Metals rompeu em Mount Polley, na Columbia Britnica, e liberou 14,5 milhes de metros cbicos de resduos, dos quais 4,5 milhes de areia contaminada. No houve registro de mortes. A Itlia tambm sofreu com o descaso ambiental: em julho de 1985, a ruptura da barragem de Stava causou a morte de 268 pessoas.
No Brasil, a tragdia de Mariana, com o rompimento do dique do Fundo, liberou 62 milhes de metros cbicos de lama e rejeitos, que percorreram cerca de 500 Km, at desembocar em alto-mar. Passados pouco mais de um ms do drama, 15 corpos foram encontrados. 8 pessoas ainda esto desaparecidas.
A atuao do governo brasileiro na tragdia no tem sido considerada satisfatria. Recentemente, a ONU fez duras crticas ao que considerou uma resposta "inaceitvel" por parte dos mandatrios de nossa nao, alm da Vale e da BHP Billiton. A ausncia de divulgaes precisas sobre os riscos gerados pela enorme quantidade de lama no Rio Doce foi uma das principais queixas. Obviamente, as observaes da ONU so procedentes. "As providncias tomadas pelo governo brasileiro, a Vale e a BHP para prevenir danos foram claramente insuficientes. As empresas e o governo deveriam estar fazendo tudo que podem para prevenir mais problemas, o que inclui a exposio a metais pesados e substncias txicas. Este no o momento para posturas defensivas".
A digresso acima vista, com vis manifestamente crtico, mas completamente apartidrio, tem um gritante propsito: chamar a ateno para o silncio eloquente e absurdo daquela que se autoproclamou porta voz das questes ambientais e fundadora do partido rede sustentabilidade. Sim, caro leitor, onde est Marina Silva? Por que mantm o mais absoluto silncio sobre a terrvel tragdia humana acima relatada, a nosso sentir a maior desdita ambiental do pas?
Marina Silva representava o que se denominou de "terceira via" em 2010. Repetiu o mesmo desempenho de votos nas eleies de 2014. 22 milhes de pessoas acreditaram nela. Inclusive eu. Mas, com pesar, constata-se que pouco ou nada fez para quem se anunciava como uma das principais lideranas do "ambientalismo" em nossa nao. "Ser que a obtusidade poltica e o oportunismo seletivo de Marina to cretino quanto se imagina? Ser que as ligaes de Marina com financiamento de campanhas e seus diversos aliados` de gigantescas empresas brasileiras, to conhecido por todos, so igualmente esprias como o so de toda a nossa classe poltica?"
Chico Xavier dizia que "a omisso de quem pode e no auxilia o povo, comparvel a um crime que se pratica contra a comunidade inteira". A neutralidade e a mudez diante da injustia pior que a prpria injustia. O mpio, pelo menos, tem a coragem de ser mpio ao cometer a injustia. Agora, o convenientemente silente se faz conivente por covardia, cometendo a injustia por omisso. Infere-se do mpio, mormente, apenas um pecado! Infere-se do omisso, todos os outros, somados sua patente covardia.
Mariana sofreu pela ao dos maus. Marina erra ao omitir-se do bem. E assim caminha o nosso futuro poltico. Sem lideranas constitudas. Difcil acreditar em algum. Mais difcil ainda confiar em partidos polticos. Mas, sei, preciso buscar luz no fim do tnel. Fazer hoje, matutando no porvir. Como diria Paulo Freire, "pensar no amanh fazer profecia, mas o profeta no um velho de barbas longas e brancas, de olhos abertos e vivos, de cajado na mo, pouco preocupado com suas vestes, discursando palavras alucinadas. Pelo contrrio, o profeta o que, fundado no que vive, no que v, no que escuta, no que percebe... fala, quase adivinhando, na verdade, intuindo, do que pode ocorrer nesta ou naquela dimenso da experincia histrico-social." "Aos navegantes destas guas turvas", originrias ou no de Mariana, resta a esperana de que a decepo no estanque a vontade consciente de acertar do povo brasileiro. Oxal tenhamos dias melhores!

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


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Por Marcelo Eduardo Freitas - 5/12/2015 03:07:50
OS BONS MORREM CEDO!

* Marcelo Eduardo Freitas

O cantor e compositor brasileiro Renato Russo, clebre por ter sido o vocalista fundador da banda de rock Legio Urbana, o autor da msica que inspira o ttulo deste texto: Os Bons Morrem Jovens!
Em cano que nos faz refletir sobre a brevidade da vida, dedicada a pessoas que ele admirava e que deixaram esse mundo cedo demais, Renato dizia: " to estranho, os bons morrem jovens, assim parece ser, quando me lembro de voc, que acabou indo embora, cedo demais".
Do livro do Eclesiastes, parte dos escritos atribudos tradicionalmente ao Rei Salomo, extrai-se que "para tudo h um tempo, para cada coisa h um momento debaixo dos cus: tempo para nascer, e tempo para morrer; tempo para plantar, e tempo para arrancar o que foi plantado". Mas no nos preparamos! A dor da perda implacvel! como uma flecha cravada no peito! S quem um dia perdeu sabe o estrago que fica no corao! E como di...
Ningum, em juzo perfeito das razes, deixa de chorar com a dor da morte. pior do que pedra nos rins. Di mais que dor de dente. maior que a dor do parto. Supera a dor da angina. A nica sada chorar.
Dizem que a morte apenas o ltimo caminho que todos temos que tomar. Leigos ou letrados, jovens ou no, a histria nos relega passagens de grandes homens e mulheres que dedicaram parte de sua obra a este espinhoso tema. Scrates, filsofo ateniense do perodo clssico da Grcia Antiga, dizia que "a um homem bom no possvel que ocorra nenhum mal, nem em vida nem em morte". preciso f! O escritor chins Mo Yan, por sua vez, afirmava que "onde a vida existe, a morte inevitvel. Morrer fcil; viver que difcil. Quanto mais dura a vida se torna, mais forte a vontade de viver. E quanto maior o medo da morte, maior a luta para continuar a viver". Prefiro, entretanto, as palavras de uma das figuras mais importantes do Alto Renascimento, Leonardo da Vinci, quando afirmava: "Que o teu trabalho seja perfeito para que, mesmo depois da tua morte, ele permanea".
Caro leitor, fiz esta breve digresso no mais profundo desiderato de render as mais sentidas e justas homenagens quele que recentemente se foi. Partiu abruptamente! Deixou saudades e foi habitar destra do Criador! Peo permisso, assim, para relatar um pouco sobre pessoa que, em vida, se assemelhou ao filho de Deus na terra. Por suas palavras, gestos e aes. Coisa rara em dias de tanto declnio moral.
Para tanto, volto um pouco no tempo. Ao perodo de minha infncia, marcada por momentos de extrema pobreza financeira. As dificuldades eram muitas. Mas lembro-me com carinho da figura do meu tio Jos Admilson. Carinhosamente chamado de tio "Dimilso". Figura simples, acolhedora. Quase sempre de chapu na cabea. Receptivo. Em sua casa, nunca nos faltou um caf com queijo, um frango na panela e um sorriso nos lbios. Nem o sol, a lua ou as estrelas tiveram a ousadia de v-lo irritado. Nunca soube de um s grito seu com quem quer que seja. Pai admirvel, marido invejvel, trabalhador exemplar. Nem a seca destes sertes das gerais o tiraram o brilho dos olhos. Criou quatro filhos. Todos com a mesma altivez do pai.
Quis Deus que numa madruga quente deste ms de dezembro o derradeiro suspiro fosse dado. s 03h fora atendido por um jovem mdico. s 06 h, j em casa, nos deixou. Faltou-lhe ar. Doeu-lhe o peito. O quarto ficou pequeno. A garagem foi seu aconchego. Escorado na parede, sucumbiu. Creio que fora infarto. Mas como muitos outros Joss, desabastados de nosso pas, a causa da morte foi considerada indeterminada. Ainda di e vai doer por um bom tempo, at se converter em saudade.
Aguinaldo Silva, cineasta e telenovelista brasileiro, dizia que "saudade sentir que existe o que no existe mais. Saudade o inferno dos que perderam, a dor dos que ficaram para trs, o gosto de morte na boca dos que continuam. S uma pessoa no mundo deseja sentir saudade: aquela que nunca amou. E esse o maior dos sofrimentos: no ter por quem sentir saudades, passar pela vida e no viver".
Vivemos! Sentimos! Amamos! E a vida deve seguir adiante! Como diria Santo Agostinho, "a morte no nada. Se dei bons exemplos, siga-os, se fui bom imitem-me, se deixei vocs com saudades, quando se lembrarem de mim faam uma orao, peam meu descanso, meu repouso e que meu encontro com Deus, seja minha glria. Me deem o nome que vocs sempre me deram, falem comigo como vocs sempre fizeram... Pensem simplesmente que nos encontraremos mais cedo ou mais tarde... No tenham revoltas, no lamentem, apenas tentem compreender. Se no lembrarem de mim com alegria, vou ficar no meio do caminho, sem poder ir para onde tenho que ir, sabendo que nada posso fazer para voltar para vocs... A vida significa tudo o que ela sempre significou, o fio no foi cortado... Eu no estou longe, apenas estou do outro lado do caminho... Vocs que ficaram, sigam em frente, a vida continua linda e bela como sempre foi".

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


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Por Marcelo Eduardo Freitas - 28/11/2015 10:18:38
A PRISO DO SENADOR, AS INSTITUIES DA REPBLICA E O APTICO POVO BRASILEIRO

* Marcelo Eduardo Freitas

A Polcia Federal prendeu na manh da ltima quarta-feira, 25/11, o senador Delcdio do Amaral (PT-MS), lder do governo no Senado. Conforme as investigaes, o senador foi preso por estar atrapalhando apuraes da Operao Lava Jato. Tambm foram presos pela PF, naquela mesma manh, o banqueiro Andr Esteves, do banco BTG Pactual e o chefe de gabinete de Delcdio, Diogo Ferreira.
Numa conversa de 1 hora e 35 minutos, o ento lder do governo revelou seu plano para conseguir um habeas corpus no Supremo Tribunal Federal (STF), a fim de tirar o ex-diretor da Petrobras, Nestor Cerver, da priso e envi-lo para fora do Pas. Em troca, Cerver no faria acordo de delao premiada em que citaria o senador. Delcdio, assim, fora preso por tentar, concretamente, dificultar a delao premiada de Cerver sobre uma suposta participao dele em irregularidades na compra da refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos.
O senador tem uma trajetria de vida que no merecia terminar assim. Tcnico, participou da construo e montagem da Usina de Tucuru, no Par. Depois de viver dois anos na Europa, trabalhando para a Shell, voltou ao Brasil, ocasio em que foi diretor da Eletrosul, no ano de 1991. No final do governo Itamar Franco foi ministro de Minas e Energia, entre o ms de setembro de 1994 a janeiro de 1995.
Entre 2000 e 2001, no governo Fernando Henrique Cardoso, foi diretor de Gs e Energia da Petrobrs, quando trabalhou com Cerver e Paulo Roberto Costa, ambos presos na Operao Lava Jato. Naquele mesmo ano de 2001, ele se aproxima do PT e se torna secretrio de infraestrutura do ento governador do Mato Grosso do Sul, Zeca do PT, e na sequncia, apoiado por este, elegeu-se senador, no ano de 2002. Dali em diante, abandonou a sua vocao tcnica. A poltica partidria, que mais tarde iria virar-lhes as costas, em carta precipitadamente redigida pelo presidente de seu prprio partido, tornou-se sua maior inspirao. A poltica seria uma fora vital se fosse utilizada em prol do povo, mas, infelizmente, ela promove a elevao concreta de alguns cidados que legislam somente em causa prpria. Pobre Delcdio. O esprito deve estar carcomido. Tornou-se o primeiro senador, ps constituio de 1988, a ser preso em pleno exerccio do mandato. Senadores ouvidos, em quase sua totalidade, registraram perplexidade. Por qu?
Caro leitor, de acordo com a Constituio Federal, desde a expedio do diploma, deputados federais e senadores no podero ser presos, salvo em flagrante de crime inafianvel. Em casos como o de Delcdio, os autos devem ser remetidos, no prazo de 24 horas, Casa Legislativa respectiva para que, por voto da maioria dos membros, seja resolvida a questo da priso. O precedente foi aberto. O risco fora maximizado. Outros podero ser presos. No caso de Delcdio, coube ao presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), outro alvo da Operao Lava Jato, assim como o presidente da Cmara, Eduardo Cunha, conduzir a sesso que decidiria o futuro de Delcdio. Naquela noite, o Senado decidiu, em votao aberta, pela manuteno da priso de Delcdio. O resultado foi 59 votos a favor e 13 contra. Cabalstico?
Por muitos anos Delcdio do Amaral era apenas conhecido como Delcdio Amaral. No ano passado, consultou-se com uma numerloga e passou a adotar "Delcdio do Amaral", inclusive na urna eletrnica nas eleies. Por qu? "Sou mstico. Sigo muito o que os nmeros indicam. Minha vida foi sempre guiada pelo nmero 8. Minhas filhas todas tm uma composio de oitos. Se voc somar Delcdio do Amaral` d 16, que 8 vezes 2. Que 8 de fevereiro, dia do meu aniversrio. E assim vai". Parece que a numerologia no deu sorte a Delcdio. Melhor para o povo. E por falar em povo, onde est? Creio que dormindo em bero esplendido.
O sculo passado foi considerado um dos perodos mais revolucionrios da histria mundial, marcado por transformaes sociais, polticas e econmicas profundas. Os motivos para as revolues foram diversos: da independncia de pases derrubada de ditaduras - ou mesmo ao estabelecimento de novas. E neste sculo XXI? O que o povo brasileiro tem feito? Acredito, sem pestanejar, que apenas tem contado com a prpria sorte e buscado meios de tirar vantagem em tudo. , assim, gritante a letargia do povo brasileiro quando se cuida de decises relevantes de nossa repblica.
Oscar Wilde, dizia que "o descontentamento o primeiro passo na evoluo de um homem ou de uma nao". Em momentos como este, chegada a hora do povo tomar o congresso e exigir dos parlamentares que cumpram o seu papel. Chega de roubalheira! Ningum aguenta mais! As instituies esto chegando ao seu limite de atuao. Se apertarem mais, correm o risco de caminharem para os caminhos do arbtrio e da ilegitimidade, o que ser pssimo para o futuro de nosso pas.
Carlos Drummond de Andrade afirmava que a "democracia a forma de governo em que o povo imagina estar no poder". No estamos! O povo brasileiro est dormente. Incapaz de formas organizadas de reao. Falta-lhe a educao necessria para encontrar os meios. Como dizia Thomas Browne, "a multido: esse enorme pedao de monstruosidade que, considerada a partir dos seus elementos, parece feita de homens e das criaturas sensatas de Deus; mas, considerada como um todo, forma uma enorme besta e uma monstruosidade mais horrvel do que Hidra". Ah, quase me esqueci: multido tem 8 letras!
(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


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Por Marcelo Eduardo Freitas - 14/11/2015 10:09:59
O AUCAR, O DIABETES E A MORTE DE "TIA MARIA"

* Marcelo Eduardo Freitas

Reza a lenda que o rei Dario (550 a.C. a 486 a.C.), cognominado o Grande, celebrou, na antiga Prsia, hoje parte do territrio Iraniano, a descoberta de uma "cana que d mel sem precisar de abelhas".
Muito antes, entretanto, a ndia, bero da grande civilizao Hindu, e a China, maior pas da sia Oriental e o mais populoso do mundo, a haviam conhecido. Todavia, os europeus cristos descobriram o acar graas aos rabes, quando os cruzados viram as plantaes nas plancies de Trpoli e provaram os saborosos sumos que, dizem, tinham salvado da fome populaes sitiadas em pequenos vilarejos do territrio do Lbano, situado ao leste do mar Mediterrneo.
"Como o fervor mstico no cegava seus olhos bom para os negcios, os cruzados se apoderaram das plantaes e das moendas nos territrios que iam conquistando, do reino de Jerusalm at Acre, Tiro, Creta e Chipre, passando por um lugar nas vizinhanas de Jeric, que no por acaso se chamava Al-Sukkar". A partir de ento, o acar, pesado em gramas nas farmcias, foi o "ouro branco" comercializado em toda a Europa.
A descoberta do que deveria ser bom, porm, com o passar dos tempos tornou-se demasiadamente ruim. Em 1500 a. C., mdicos egpcios relataram casos de pessoas que urinavam muito, emagrecendo, por consequncia, at a morte. Conta-se que Areteu, mdico que teria vivido na Grcia entre os anos 80 d.C. e 138 d.C., criou o termo "diabetes mellitus" para "fazer referncia ao gosto adocicado da urina de seus pacientes".
Entretanto, foi apenas em 1776 que o esculpio de Liverpool, Matthew Dobson, desenvolveu um mtodo para determinar a concentrao de glicose na urina, livrando os mdicos do terrvel dissabor de prov-la. A doena, por outro lado, s foi "reconhecida como entidade clnica em 1812, ano da publicao do primeiro nmero do The New England Journal of Medicine, a revista mdica mais lida pelos mdicos de hoje".
De l para c muitas descobertas foram concretizadas pelo homem. Infelizmente, contudo, os avanos conquistados no tratamento da doena no tm refletido, em especial, na sade pblica de nosso pas. Vivemos uma epidemia de diabetes que se propaga de forma absolutamente assustadora, seguindo os passos da obesidade, da vida sedentria e estressada dos grandes centros urbanos.
Para se ter uma dimenso do drama, s no Brasil h 12 milhes de pacientes diabticos. Se esse nmero assustador, mais ainda so as previses: se continuarmos no mesmo ritmo de vida, plageando os norte-americanos, em 2050, cerca de 30% dos adultos sofrero de diabetes. A proporo chegar a 50% para a populao acima dos 65 anos.
O diabetes uma das principais causas de insuficincia renal, cegueira, amputao de membros, doenas cardiovasculares de um modo geral. "Surge quando o pncreas deixa de produzir ou reduz a produo de insulina, ou ainda quando a insulina no capaz de agir de maneira adequada".
De to complexa, admite quatro formas distintas de escrita da palavra: o diabete, o diabetes, a diabete e a diabetes. preciso, assim, ter muito cuidado e ateno. Trago, adiante, como mecanismo de reflexo, caso recente envolvendo pessoa de meu grupo familiar: cuida-se de minha "tia Maria".
Embora tenha se mantido sempre distante, h alguns episdios relmpagos que marcaram a minha memria. Era uma pessoa de trato difcil. Em razo de divergncias inaceitveis entre iguais, no conversava com os irmos. Na velhice, fora colocada em um asilo. Menos de uma semana aps, veio a bito: uma sbita parada cardiorrespiratria tirou a vida da menos nobre das Marias. Em sua cama, naquele amanhecer sombrio do ms de novembro, muitas formigas, atradas pelo "sangue doce" daquela que no teve nenhum parente prximo a lhe acudir no momento em que mais precisava, a fizeram companhia. O diabetes teria sido o fato clnico gerador daquela perda sentida. Creio que foi o desgosto!
Caro leitor, embora a doena cause um estrago descomunal, refiz essa trajetria histrica da descoberta e dos perigos do acar para dizer, paradoxalmente, que temos mesmo que adoar nossas vidas: com mais amor, acolhimento, respeito e compaixo. Mario Quintana, poeta e jornalista gacho, dizia que "diabtico quem no consegue ser doce". A diabetes matou Maria, mas a vida a fez sentir um gosto amargo como fel. Faltou a Maria, em sua reta final, a doura da famlia, o conforto de um lar, a presena dos irmos, a tolerncia da filha! Que Deus a tenha!

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


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Por Marcelo Eduardo Freitas - 7/11/2015 09:13:10
O MACHISMO, A MULHER E MARIA

* Marcelo Eduardo Freitas

Na Mitologia Grega, de acordo com os poetas do Olimpo, Pandora foi a primeira mulher criada por ordem de Zeus (deus dos deuses) como parte de um castigo a Prometeu, em razo da revelao do segredo do fogo para a humanidade. Prometeu teria roubado as sementes do deus Hlio (deus do fogo) e repassado aos homens para que estes pudessem cozinhar e fazer suas tarefas domsticas. Enfurecido, Zeus resolveu criar uma mulher que tivesse vrias qualidades de diversos deuses.
Pandora recebeu de Afrodite o poder da seduo. Da deusa Atena, os conhecimentos da arte da tecelagem. Prometeu se casou com Pandora. De acordo com a fbula, a humanidade tinha vivido em harmonia at aquele momento. Pandora, porm, no suportando a tentao, resolveu abrir sua nfora (a expresso "caixa de pandora" foi criada no Renascimento) que continha todos os males da humanidade e liberou todas as desgraas (vcios, doenas, loucura, pobreza, pragas, violncia, crimes e at mesmo a morte).
De igual maneira, de acordo com os sacerdotes da Bblia, outra mulher, chamada Eva, criada diretamente por Deus da costela de Ado, teria comido o fruto proibido da rvore da cincia (do "conhecimento do bem e do mal"), e aps o ocorrido, de acordo com o relato bblico, toda a humanidade ficou privada da perfeio e da perspectiva de vida infindvel.
V-se, assim, seja na mitologia grega ou no cenrio bblico-cristo, que a figura da mulher foi a "responsvel" por levar o mundo a calamidades extremas. No sem fundamento, destarte, o papel da mulher na sociedade ocidental, especialmente em Grcia e Roma, j havia sido fortemente reduzido frente ao do homem, de forma que o indivduo do sexo feminino tivera sua esfera de atuao limitada ao campo domstico e familiar, jamais alcanando pleno exerccio de direitos sociais e polticos permitidos ao sexo masculino, que assumia as responsabilidades ligadas ao trabalho e chefia. Exsurge aqui o machismo ou chauvinismo masculino, conceito que se funda na supervalorizao das caractersticas fsicas e culturais associadas ao sexo masculino, em detrimento daquelas associadas ao sexo feminino, pela crena de que homens so superiores s mulheres. Erramos profundamente! Era preciso corrigir rumos! Coisa que se deu a pouco mais de 1000 anos atrs: a me de Jesus, Maria, foi consagrada me da humanidade e smbolo de pureza da f, at mesmo como forma de resgatar o espao estrangulado da mulher na sociedade da poca.
No sculo XI, enquanto a igreja inventava o purgatrio e a confisso obrigatria, surgiram na Frana 80 igrejas e catedrais em homenagem a Maria, que passou a ser ainda mais sagrada a partir de 1854, ocasio em que o Papa Pio IX revelou que Maria havia sido concebida sem pecado, o que, traduzindo, significava que tambm era virgem a me da Virgem Maria.
Caro leitor, todo o conhecimento histrico a respeito da vida de Maria encontra-se nos Evangelhos escritos pelos apstolos Mateus, Lucas e Joo. Como genitora de Jesus, Maria ocupa um papel essencial na teologia e idolatria de grande parte dos 2,2 bilhes de cristos que existem no mundo, especialmente daqueles que formam a Igreja Catlica.
Os historiadores calculam que Maria estava com 16 ou 18 anos quando seu filho nasceu. As circunstncias precisas de sua morte so desconhecidas e os Evangelhos do apenas breves reflexos de sua vida: "Ela pertencia casa de Davi (Lucas 1:26), morava na Baixa Galilia e ficou noiva de um carpinteiro chamado Jos (Mateus 1:18)."
Maria foi uma presena silenciosa durante a passagem de seu filho na terra. A ltima de suas frases foi emitida nas bodas de Cana, quando disse Jesus: "Eles no tm mais vinho", incitando-o a realizar seu primeiro milagre, a transformao da gua em vinho (Joo 2:1). Ela vista pela ltima vez chorando aos ps da cruz, quando Jesus morre (Joo 19:25).
As aparies de Maria a fiis atravs dos anos, levou construo de altares em sua homenagem em todo o mundo, sendo os mais famosos o da Madona Negra de Chestochowa, na Polnia, reverenciado desde o sculo XIV; o retrato de Nossa Senhora de Guadalupe, comemorando a apario no Mxico, em 1531; Nossa Senhora de Lourdes (Frana, 1858); e Nossa Senhora de Ftima (Portugal, 1917).
Maria, mulher, , na atualidade, a divindade mais adorada e milagrosa de todo o planeta. Se Eva ou Pandora tinha condenado as mulheres ao erro, Maria as redime. Graas a ela, as "pecadoras", filhas de Eva ou Pandora, tm a oportunidade de se arrepender e construir um mundo novo. tempo de mais espao para as mulheres, seja nas famlias, no mercado de trabalho, nos ambientes polticos, enfim, em toda a sociedade. chegada a hora de se pr fim ao machismo e suas terrveis consequncias. Pelo bem dos homens, em especial. Quanto a Maria, sigo em sua devoo, crente no poder intercessor de sua santidade. Como diria So Luis de Montfort, "em Maria e por Maria que o Filho de Deus se fez homem para a nossa salvao". Mediocremente, eu creio!
(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


80770
Por Marcelo Eduardo Freitas - 31/10/2015 12:26:44
A FALTA QUE VOC FAZ

* Marcelo Eduardo Freitas

Mario Srgio Cortella, professor e filsofo paranaense, escreveu um livro cujo ttulo bastante simples e sugestivo: Se voc no existisse, que falta faria?
Acredito que nossas respostas se direcionem para um mesmo rumo: no primeiro momento, o pensamento vai longe. Imaginamos vrias coisas que fizemos e muitas outras que deixamos de fazer; e talvez, em um ato de arrogncia, nos convencemos da nossa prpria importncia no espao que ocupamos. Adiante, entretanto, em um segundo olhar, comeamos a duvidar de ns mesmos. Acreditamos que fizemos pouco ou que devamos ter feito mais. Em um ato, meio que de desespero, nos entristecemos e nos recolhemos a uma insignificncia sobre-humana. Ser que realmente fao falta?
A morte no deve ser um exerccio de esquecimento, seno de lembranas e reflexes. Mario Quintana deixou em um de seus cadernos de poesias o epitfio que gostaria que colocassem em sua lpide: Eu no estou aqui! Ele, sujeito sbio que era, quis dizer com isso algo bem simples, a nosso sentir: quando morremos deixamos de existir em ns mesmos para permanecermos nas pessoas que nos conheceram. Passamos a existir no mago daqueles que nos considerava importante. Assim, quando algum morre e lembramos de uma frase, de uma comida que gostava, de um momento, de um sorriso, estamos, com isso, revivendo essa pessoa, e fica demonstrado que ela foi importante, que faz falta. Di! Mas no deixa de ser gostoso, sob os auspiciosos cuidados do amor.
O escritor francs Antoine de Saint-Exupry j dizia que o que se leva da vida a vida que se leva. E em complementao, arrematou Benjamim Disrael: a vida muito curta para ser pequena. Assim, a receita considerada infalvel para ser lembrado parece ser simples: no seja intil! isso mesmo! Seja o melhor em tudo que fizer! Jamais faa somente o possvel! Seja supremo em tudo na vida! Estar vivo j uma vitria! A mediocridade consiste em uma sutil diferena entre fazer o possvel e fazer o seu melhor. medocre, assim, aquele que podendo fazer o seu melhor, faz apenas o que lhe era possvel.
Trago aqui, como exemplo, filho de professor que sou, o educador de uma escola de comunidade carente. Basicamente, so dois os tipos existentes: (1) aquele professor que j sai de casa resmungando, queixa-se de tudo e medianamente d sua aula diria, sempre cansado, estressado, se sentindo sempre desvalorizado. Em contraposio, (2) h aquele professor-anjo, que todos os dias chega na escola com uma aula diferente, conhece seus alunos, procura ajudar na educao daquelas crianas que muitas vezes no tm o que comer, decora a sua sala de aula com flores e gravuras de papel cortados artesanalmente, sorri sempre, abraa seu aluno, transmite o que h de mais sublime nessa profisso: a confiana e o amor. Esse professor, diferente do primeiro, mesmo sabendo do pouco que recebe e do cansao que o seu trabalho, faz com capricho. Faz o melhor na condio que tem, enquanto no tem condies para fazer melhor ainda. E isso o seu maior diferencial. Ele vai ser o professor lembrado, ser sempre uma doce recordao, e mesmo morrendo, sempre ser revivido por muitos e por muito tempo. Este vai fazer falta! No sentiremos sua omisso! Apenas sua ausncia!
Caro leitor, viver no se contentar com o possvel, fazer o seu melhor! Albert Shweitzer nos faz refletir quando diz que a tragdia no quando um homem morre, mas o que morre dentro dele enquanto est vivo. Ao vivermos de modo medocre, como se estivssemos vivendo em stand by, esperando sempre por algo novo, ou por algum que vai mudar a nossa vida, vamos perdendo o que h de melhor nela. A vida, assim, vai se tornando preto e branco, inspida, sem qualquer graa ou emoo. Sempre h aqueles que no puderam quando deviam. Isto porque no fizeram quando podiam... E a vida simplesmente passa.
Viver, meus amigos, fazer o seu melhor e jamais contentar com o possvel. Isso vale para a vida pessoal, para os estudos, o trabalho, as nossas amizades, nossos compromissos, nossa religiosidade e f. Enfim, como nos ensina Madre Tereza de Calcut: "O que importa quanto amor colocamos no trabalho que fazemos, seja ele pequeno ou grande".
Em concluso, revigoro aqui o poeta Mario Quintana: Existe apenas uma idade para sermos felizes, apenas uma poca da vida de cada pessoa em que possvel sonhar, fazer planos e ter energia suficiente para os realizar, apesar de todas as dificuldades e todos os obstculos. Uma s idade para nos encantarmos com a vida, para vivermos apaixonadamente e aproveitarmos tudo, com toda a intensidade, sem medo nem culpa de sentir prazer. Fase dourada em que podemos criar e recriar a vida, a nossa prpria imagem e semelhana, vestirmo-nos de todas as cores, experimentar todos os sabores e entregarmo-nos a todos os amores, sem preconceitos nem pudor. Tempo de entusiasmo e coragem, em que toda a disposio de tentar algo de novo e de novo quantas vezes for preciso. Essa idade to fugaz na nossa vida chama-se presente e tem a durao do instante que passa.... E j passou!

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


80689
Por Marcelo Eduardo Freitas - 17/10/2015 12:10:43
FINANCIAMENTO EMPRESARIAL DE CAMPANHA

* Marcelo Eduardo Freitas

O financiamento de campanhas polticas no Brasil sempre foi totalmente privado, ora feito por pessoas fsicas, ora patrocinado por pessoas jurdicas. Com o passar dos tempos, ficou evidente uma constrangedora e inaceitvel situao do chamado caixa-dois, ou seja, aquele fundo fomentador ilegal, que recebia dinheiro de quem, em regra, no podia doar de forma transparente. Em uma linguagem mais acessvel, caixa-dois um jargo resultante da contabilidade para definir o caixa onde fica o dinheiro desviado, no contabilizado, e muito menos declarado aos rgos de fiscalizao responsveis, originrio, em grande parte das vezes, da prtica de crimes em detrimento dos cofres pblicos.
O maior problema, mormente nas doaes efetivadas por pessoas jurdicas, destitudas que so de qualquer ideologia social, resulta da difcil e improvvel possibilidade de se afastar os favores financeiros prestados aos pseudo-representantes do povo de um estridente interesse de retorno financeiro sucessivo, por parte dos doadores.
Pobre So Francisco de Assis! Jamais imaginou que a clebre frase " dando que se recebe", extrada da "Orao da paz" ou "Orao de So Francisco", embora de autoria annima, seria to mal utilizada em tempos modernos! Para se ter uma dimenso da gravidade da situao, o Jornal O Globo estampou que "empreiteiras recebem R$ 8,5 por cada real doado a campanha de polticos". Quem paga toda essa diferena, que fique claro, voc cidado! Os "juros", de forma evidente, so muito abusivos e lesivos aos interesses coletivos!
Um sinal de alerta j pairava sobre nossas cabeas em casos recentes. Para se ter uma dimenso do problema, empreiteiras investigadas na operao Lava Jato, da Polcia Federal, doaram quase R$ 98,8 milhes aos dois candidatos Presidncia que chegaram ao segundo turno das eleies presidenciais prximas passadas. A prestao de contas final, divulgada pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral), evidenciou que a presidente reeleita, Dilma Rousseff, do PT, foi a que mais recebeu dinheiro das empresas sob investigao. Ao todo, 08 construtoras doaram para sua campanha: Andrade Gutierrez, Camargo Corra, Engevix, Galvo Engenharia, OAS, Odebrecht e Queiroz Galvo. O total chegou a R$ 64.636.179,25. As maiores doaes foram da Andrade Gutierrez, com R$ 21 milhes e da OAS, que doou R$ 20 milhes.
J Acio Neves (PSDB) recebeu pouco mais da metade de seis construtoras: Andrade Gutierrez, Camargo Corra, OAS, Odebrecht e Queiroz Galvo. Somadas as doaes, foram ofertados ao candidato R$ 34.170.000. A Andrade Gutierrez foi tambm a campe de doaes ao tucano, repassando R$ 19 milhes.
importante registrar, ainda, que alm das doaes diretamente aos candidatos, acima vistas, os partidos tambm foram contemplados com doaes volumosas das empresas investigadas, conforme prestao final de contas dos diretrios nacionais. Ao todo, as construtoras envolvidas no escndalo doaram R$ 207 milhes. O partido que mais recebeu foi o PT, com R$ 56 milhes doados, seguido pelo PSDB, com R$ 52 milhes; PMDB, com R$ 41 milhes; e PSB, com R$ 13 milhes. bvio, assim, que no h, pelas principais empresas doadoras, qualquer predileo partidria. O ganhador, seja de que partido for, j estar comprometido.
Esclareo que jamais observei com bons olhos esse "estado de coisas". Algo, assim, precisava ser mudado. E foi: O Supremo Tribunal Federal proibiu a doao de campanhas eleitorais por pessoas jurdicas. Entendeu a nossa Suprema Corte que as doaes no se mostravam adequadas ao regime democrtico em geral e cidadania, em particular. "O aumento dos custos de campanhas no corresponderia ao aprimoramento do processo poltico, com a pretendida veiculao de ideias e de projetos pelos candidatos. Ao contrrio, os candidatos que tivessem despendido maiores recursos em suas campanhas possuiriam maior xito nas eleies".
Era necessrio por termo farra do poder econmico, que sempre construiu propagandas enganosas angariando votos de menos esclarecidos, rfos de educao, grande maioria da populao de nossa nao. Victor Bello Accioly chegou a afirmar, certa feita, que "a reforma poltica importante, mas nenhuma reforma ser maior do que a conscientizao popular". No foi seno por essa razo que Eduardo Galeano em "O livro dos abraos" nos legou com a preciso costumeira: "Pela tela desfilam os eleitos e seus smbolos de poder. O sistema, que edifica a pirmide social escolhendo pelo avesso, recompensa pouca gente. Eis aqui os premiados: so os usurrios de boas unhas e os mercadores de dentes bons, os polticos de nariz crescente e os doutores de costas de borracha". Que venham mais mudanas!

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


80662
Por Marcelo Eduardo Freitas - 10/10/2015 10:51:19
AS "PEDALADAS FISCAIS" E O IMPEACHMENT DE DILMA ROUSSEFF

* Marcelo Eduardo Freitas

O plenrio do Tribunal de Contas da Unio (TCU) emitiu na noite da ltima quarta-feira (07/10) parecer conclusivo sobre as contas da Presidncia da Repblica, referentes ao exerccio de 2014. Na oportunidade, unanimidade, recomendou ao Congresso Nacional a rejeio das contas apresentadas pela Presidente Dilma Rousseff, situao que no ocorria desde o longnquo ano de 1937, durante a ditadura de Getlio Vargas.
Entre as razes que motivaram a recomendao pela rejeio das contas esto a omisso de passivos da Unio junto ao Banco do Brasil, ao Banco Nacional de Desenvolvimento Social (BNDES) e ao Fundo de Garantia por Tempo de Servio (FGTS), em face dos adiantamentos concedidos para despesas do Programa Minha Casa, Minha Vida, entre outras. Em resumo, so as chamadas "pedaladas fiscais". Mas o que vem a ser isso e quais as consequncias para o mandato da Presidente?
As chamadas "pedaladas fiscais", foi o nome dado prtica de se de atrasar, de forma proposital e consciente, o repasse de dinheiro para bancos (pblicos e tambm privados) e autarquias, como o INSS. O objetivo do Tesouro e do Ministrio da Fazenda era melhorar artificialmente as contas federais. Ao deixar de transferir o dinheiro, o governo apresentava todos os meses despesas menores do que elas deveriam ser na prtica e, assim, ludibriava o mercado financeiro e especialistas em contas pblicas. "Esses atrasos ajudam a fechar as contas de um determinado ms ou at de um ano fiscal, uma vez que joga a conta para o perodo seguinte".
O parecer do TCU, assim, ser avaliado, em um primeiro momento, pela Comisso Mista de Oramento do Congresso e, depois, pelos plenrios da Cmara e do Senado, ou em sesso conjunta do Congresso Nacional, se houver acordo para isso. Os parlamentares podem acatar a recomendao do TCU e reprovar as contas ou votar pela aprovao. A deciso, desse modo, poltica!
A questo que se indaga neste momento : E se as contas de Dilma Rousseff forem rejeitadas pelo Congresso Nacional? O que pode acontecer? Existem vrias possibilidades, mas aquela que ganharia mais fora seria no sentido de setores da oposio darem incio a um processo de tentativa de impedimento da presidente, alegando crime de responsabilidade.
A lei n 1.079/50, que disciplina o impeachment, diz que constitui crime de responsabilidade, por afronta ao Oramento, entre outros comportamentos: "Ordenar ou autorizar, em desacordo com a lei, a realizao de operao de crdito com qualquer um dos demais entes da Federao, inclusive suas entidades da administrao indireta, ainda que na forma de novao, refinanciamento ou postergao de dvida contrada anteriormente". Os fatos, assim, so graves e exigem a ateno de todos ns!
Outro ponto que merece aprofundada reflexo consiste no fato de que as "pedaladas" foram identificadas no primeiro mandato da Presidente eleita, e no no atual. Mesmo assim haveria fundamentos para o pedido de impeachment? A resposta no simples! No sem razo, portanto, a OAB criou uma comisso especificamente para avaliar a possibilidade de destituio de nossa dirigente.
O jurista Paulo Brossard leciona em sua obra "O Impeachment" que o cargo de presidente to valioso que at mesmo fatos alheios e anteriores Presidncia podem ensejar o afastamento. Outros estudiosos do tema tambm seguiram o entendimento acima afirmando caber, sim, impeachment por crime de responsabilidade praticado no mandato anterior. Esto entre eles Adilson Dallari, Ives Gandra Martins, Flavio Bierrenbach, Dirco Torrecillas Ramos e Gustavo Badar. Lado outro, Joaquim Falco, diretor da faculdade de Direito da FGV-Rio, entende que "razes tcnicas" tornam difcil que a rejeio das contas gere um processo de afastamento, embora no descarte a possibilidade de ele ser aberto, pois cuida-se, como j afirmado, de uma deciso manifestamente poltica.
Muita gua ainda h por rolar. Pretendia francamente que no chegssemos a este ponto. Que as instituies encontrem maturidade para agir, sempre, amparadas pelas leis de nosso pas. O mesmo vale para nossos representantes. Um ponto de equilbrio precisa ser encontrado. At l o povo mingua a po, gua e circo. Mas quem so os palhaos? Gilberto Dimenstein chegou a afirmar certa feita que "o Brasil uma nao de espertos que, reunidos, formam uma multido de idiotas". tempo de transparncia Brasil! Os discursos, venham de onde vier, devem refletir nossas aes. O resto bravata! Coesos no entendimento, no formamos, nem de longe, uma ptria de estpidos!

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


80623
Por Marcelo Eduardo Freitas - 3/10/2015 09:21:25
ESTADO DE COISAS INCONSTITUCIONAL

* Marcelo Eduardo Freitas

Trago hoje ao conhecimento dos leitores um tema novo em nosso pas e extremamente intrigante: cuida-se do chamado "estado de coisas inconstitucional". Mas o que vem a ser isso? Vou procurar descrev-lo da maneira mais simples possvel, a fim de que o leitor, no habituado com expresses jurdicas, possa amealhar o seu contedo.
Criada pela Corte Constitucional da Colmbia (CCC), essa teoria vem sendo utilizada para os chamados "casos estruturais", ou seja: (a) situao de fracasso generalizado de polticas pblicas, associado a violaes reiteradas e massivas de direitos fundamentais, afetando, por consequncia, um nmero amplo de pessoas; (b) bloqueio do processo poltico ou institucional que parece, de certa forma, imune aos mecanismos de ajuste e correes tradicionais, ensejando na violao sistemtica de direitos e na perpetuao de situaes; e (c) violaes de direitos que no podem ser atribudas unicamente a uma autoridade estatal, decorrendo de deficincias generalizadas, sendo necessrias mudanas estruturais, novas polticas pblicas ou o ajuste das existentes, alocao de recursos, etc.
O Supremo Tribunal Federal se deparou com a questo quando do julgamento da Medida Cautelar na Arguio de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 347, de relatoria do ministro Marco Aurlio. O requerente, Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), pedia que o sistema penitencirio brasileiro fosse declarado um "estado de coisas inconstitucional", j que evidente a situao de violao de direitos dos presos. O Plenrio de nossa corte constitucional entendeu que no sistema prisional brasileiro ocorreria violao generalizada de direitos fundamentais dos presos no tocante dignidade, higidez fsica e integridade psquica. As penas privativas de liberdade aplicadas nos presdios converter-se-iam, assim, em penas cruis e desumanas.
Entendo por coerente a deciso emanada de nossa Suprema Corte. Mas o que me intriga profundamente saber por qual razo, mais uma vez, justamente a situao daqueles que violaram a legislao de nosso pas, de forma sistemtica, fora erigida em primeiro lugar. Obviamente, o Brasil tem seus "estados de coisas inconstitucionais"! E no so poucos! "Possui quadros de violao massiva e contnua de direitos fundamentais decorrentes e agravadas por omisses e bloqueios polticos e institucionais que parecem insuperveis: saneamento bsico, sade pblica em diferentes estados e municpios, violncia urbana em diversas regies metropolitanas, [moradia], [trabalho e emprego], consumo de crack, [falncia do sistema de ensino], entre outros".
Por que nada disso foi levado ou mereceu considerao de nossa Suprema Corte ou de nossos partidos polticos? Em havendo, como de fato h, variadas situaes de "estado de coisas inconstitucionais", por que no se apreciar, em primeiro lugar, aquelas envolvendo os pas e mes de famlias, crianas, idosos, trabalhadores, estudantes, servidores? No consigo aceitar com naturalidade, num cenrio de escassos reconhecimentos de direitos, que tudo aquilo que se refira queles que violam as normas sejam colocados em primeiro lugar. Causa ou no uma certa revolta? Reconheo o direito do preso, violador da norma penal, mas no aceito o direito do cidado de bem? isso mesmo?
Para se ter uma dimenso do instituto aqui debatido, a sua origem remonta ao ano de 1997, ocasio em que 45 professores dos municpios de Mara La Baja e Zambrano tiveram os direitos previdencirios recusados pelas autoridades locais colombianas. A Suprema Corte constatou que o descumprimento da obrigao era generalizado, alcanando um nmero amplo e indeterminado de professores alm dos que instauraram a demanda, e que a falha no poderia ser atribuvel a um nico rgo, e sim que seria estrutural. Havia, segundo os juzes, uma deficincia da poltica geral de educao com origem na distribuio desigual dos subsdios educativos, feita pelo governo central, em favor das entidades territoriais. Ou seja, l se discutiu, em primeiro lugar, como primeiro caso, a educao! O respeito a direito de professores! Em nossa nao, tantas vezes vilipendiado por governos descompromissados com a instruo de crianas e jovens!
O Brasil tem assumido a importao, muitas vezes acrtica, de diversos institutos europeus. No caso do "estado de coisas inconstitucional" a gnese da teoria, como dito, colombiana. O que se pugna aqui, entretanto, no sentido de que, em se tratando de reconhecimento de direitos, parta de onde partir, que sejam valorizados e assentidos, em primeiro lugar, os direitos daqueles que trabalham, produzem, mantm suas famlias com o suor do corpo e no daqueles que teimam em violar o nosso sufocado sistema de justia criminal. Chega de demagogia! Gente honesta em primeiro lugar! H muitas outras minorias a serem escudadas! Simples assim!

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


80590
Por Marcelo Eduardo Freitas - 26/9/2015 09:21:10
UBUNTU!

* Marcelo Eduardo Freitas

A filsofa poltica alem judia, Hannah Arendt, que conseguiu fugir dos campos de concentrao nazistas na 2 guerra mundial, afirma que "a essncia dos direitos humanos o direito a ter direitos". Sem direitos, toda a humanidade ser falha!
, assim, por conta do reconhecimento de direitos que nos deparamos hoje com uma sociedade minimamente organizada, democrtica e empenhada em maximizar proteo a minorias historicamente desrespeitadas. Temos, desse modo, os Estatutos do idoso, da criana e do adolescente, do consumidor, leis especficas de salvaguarda e valorizao da mulher, do negro, enfim, nos cercamos de prerrogativas importantes para uma melhor convivncia em sociedade.
Lado outro, no se pode deixar de ressaltar, estamos atravessando uma etapa de nossas vidas em que nos deparamos com pessoas que acreditam que o "direito a ter direitos" sobrepem-se a quaisquer direitos alheios. Alguns julgam que podem solenemente ultrapassar vrios limites, desrespeitando garantias consagradas de terceiros, exclusivamente para que o objetivo almejado seja atingido. Os fins, assim, mais do que nunca, esto sendo utilizados para justificar os meios! Isso preocupante!
Todos sabemos que o ser humano, animal racional, egosta por natureza. No foi seno por essa razo que Oscar Wilde dizia que "egosmo no viver nossa maneira, mas desejar que os outros vivam como ns queremos". Muitos de ns, destarte, nos sentimos no direito de desrespeitar a prerrogativa do prximo sem qualquer receio ou pudor, tudo em favor do nosso prprio benefcio. E a que surge uma avalanche de problemas pessoais, sociais e culturais, relacionados com essa perspectiva egosta de se ter direitos, a chamar a ateno de toda a coletividade.
O trnsito, nos grandes centros urbanos, um bom observatrio sobre o quanto estamos sendo animalizados. Todos se preocupam em ocupar espaos e passar por cima de tudo (que os digam os motoqueiros sobre os motoristas), ou desviar de tudo sem olhar pelo retrovisor, passando da direita para a esquerda em um zigue-zague frentico (que os digam os motoristas sobre os motoqueiros). Ningum pode ceder lugar. No h respeito ou generosidade. Ser essa a regra? E quem tem mais direitos? At que ponto o meu direito no est prejudicando a vida ou a incolumidade de outrem? Isso no conta? So muitos os corpos estendidos ao cho em razo de acidentes que facilmente poderiam ser evitados!
Auguste Comte, filosofo francs fundador da Sociologia e do Positivismo, ensina-nos que "a moral consiste em fazer prevalecer os instintos simpticos sobre os impulsos egostas", e neste ponto que gostaria de livremente retratar um pequeno conto, a fim de melhor expressar a ideia central proposta no texto. Assim o fao:
Um antroplogo ingls, certa feita, decidiu por estudar o comportamento em sociedade de uma determinada tribo africana. Ao cabo dos estudos, props uma brincadeira s crianas daquele pequeno lugar: colocou uma grande quantidade de doces em uma cesta e sugeriu uma corrida. Aquele que chegasse primeiro levaria a cesta com os doces para si.
Ele alinhou as crianas, que estavam prontas para correr, e bradou: um, dois, trs e... J!
Todas se deram as mos, correram juntas at a cesta, a pegaram juntas e comemoraram unidas. Sem vencidos nem vencedores!
O antroplogo olhou curioso e uma das crianas disse: ubuntutio! Nenhum de ns poderia ficar feliz se todos os outros iriam ficar tristes! Para os africanos, ubuntu a capacidade humana de compreender, aceitar e tratar bem o outro, uma ideia semelhante de amor ao prximo. Trata-se de um conceito amplo sobre a essncia do ser humano e a forma como se comporta em sociedade. Significa generosidade, solidariedade, compaixo com os necessitados, e o desejo sincero de felicidade e harmonia entre os homens. E , assim, nessa essncia pueril de amor ao prximo que devemos refletir sobre a possibilidade de transformao do mundo ao contemplarmos no somente o direito individual, mas tambm o direito alheio, daqueles que posso ajudar ou, pelo menos, no prejudicar.
Nossas condutas devem refletir no s a necessidade de direitos, mas tambm o nosso compromisso com o dever. Dalai Lama afirma que o "egosmo causa a ignorncia, a clera e o descontrole, que so a origem dos problemas do mundo." Que sejamos mais solidrios, mais humanos, que possamos irradiar o bem a todos que passam por nossas vidas, pois s assim, atravs de uma espcie de ato reflexo comunitrio, nossos direitos sero respeitados. No por imposio estatal, mas por educao social, to necessria em nossos tumultuados dias. Que sejamos, pois, uma sociedade ubuntu!

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


80559
Por Marcelo Eduardo Freitas - 19/9/2015 09:04:12
A DITADURA DO SUFRGIO

* Marcelo Eduardo Freitas

Ainda no tempo de eleio, mas hora de reflexo, mormente em cenrios de graves crises polticas. A expresso sufrgio pode ser sintetizada no "poder que se reconhece a certo nmero de pessoas (o corpo de cidados) de participar direta ou indiretamente na soberania, isto , na gerncia da vida pblica.`` Atravs deste instituto, o cidado possui uma garantia considerada democrtica, podendo decidir, por intermdio do voto, o futuro do seu Pas, Estado e Municpios.

gritante, por outro lado, que a vontade do cidado pode sofrer interferncias de diversas vertentes, dentre estas o abuso de poder econmico. No foi seno por essa razo que o Supremo Tribunal Federal entendeu ser inconstitucional a doao de empresas a campanhas partidrias. Atualmente, 40 pases no mundo probem que grandes companhias financiem disputas eleitorais. A deciso veio tarde, mas representa um grande avano! Outros mais precisam acontecer! Vejamos abaixo um desses, a nosso sentir de urgente implementao em terras brasileiras.

A Constituio de 1988, conhecida como Constituio democrtica por assentir expressamente ao cidado o direito de intervir na esfera poltica, trouxe relativas modificaes no sistema eleitoral, principalmente com a insero dos eleitores, antes excludos, no rol dos detentores de direitos polticos. Foi assim que analfabetos, mulheres, dentre outros exclusos, passaram a ter salvaguardado os direitos de voto que, consoante a nossa legislao eleitoral, universal, direto, secreto e obrigatrio. Aqui se apresenta um grave problema que trago colao dos leitores para debate.

A democracia brasileira, que parece compilar as ideias estampadas na viso de Abraham Lincoln, de um governo do povo, pelo povo e para o povo, adota como princpio bsico a adeso ao sufrgio universal. Como se sabe, essa viso justificada sob a alegao de que, atravs do voto, o povo poderia escolher seus governantes e ter assim um maior controle sobre os assuntos que lhe dizem respeito. "O argumento mais insistentemente apregoado pelos defensores do regime democrtico o do direito liberdade. E essa liberdade, explicam, se legitimaria, principalmente, pelo direito ao voto". Mas, e se o cidado no quiser votar? Ele livre para no ir s urnas? Essa imposio se coaduna com um regime efetivamente democrtico? Em muitos pases, principalmente na atrasada Amrica Latina, a obrigatoriedade do voto ainda prevalece. No Brasil no diferente!

A nosso sentir, obrigar as pessoas a comparecer s urnas, em dias de eleio, mesmo que seja para anular seu voto ou deix-lo em branco, to ofensivo democracia quanto proibir o eleitor de faz-lo. A classe poltica, que depende do voto para assumir o poder, no pode impor essa obrigao ao cidado. Mesmo que seja pelo temor de um boicote coletivo em dias de eleio.

Caro leitor, no temos dvidas de que o escrutnio universal permite ao cidado o acesso s decises pblicas e constitui um pilar da democracia do Estado Moderno. Com a participao direta, atribuiu-se ao povo, politicamente organizado, o poder de deciso a determinado assunto de governo, enquanto com a participao indireta, o povo elege representantes, o que muito positivo.

Ocorre que, do Estado mais transparente ao mais fechado, do egosta ao altrusta, do mais autoritrio ao mais flexvel, todos se utilizam do termo democrtico para se justificarem. Isso acontece porque a democracia possui inmeras matizes que lhe possibilita coexistir nos mais diferentes tipos de organizao da vida civil.

Entretanto, para que uma verdadeira democracia acontea, necessrio que o povo se coloque no epicentro do Estado, de forma que possa irradiar para a estrutura estatal sua vontade. O Estado brasileiro, que j possui um arcabouo voltado para o bem comum, dever buscar a efetiva concretizao dos direitos fundamentais, permitindo-se que a vontade do cidado seja respeitada. Mesmo que este desejo seja o de no participar das escolhas. Particularmente quando nenhum daqueles que sero votados apresentam um mnimo grau de confiabilidade e respeito. Por essas razes, nos mesmos moldes em que se proibiu a doao de empresas a campanhas, chegou a hora de se acabar com a antidemocrtica obrigatoriedade do voto, verdadeira ditadura do sufrgio! Precisamos evoluir Brasil! Cidado, o que voc acha?

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


80523
Por Marcelo Eduardo Freitas - 12/9/2015 09:24:41
AO TEMPO UM TEMPO

* Marcelo Eduardo Freitas

"Tudo tem o seu tempo determinado, e h tempo para todo o propsito debaixo do cu". Est l no livro do Eclesiastes, parte dos escritos atribudos tradicionalmente ao rei Salomo, por narrar fatos que coincidiriam com aqueles de sua vida terrena.
Fao essa breve introduo para reportar-me, com perplexidade, s barbaridades cometidas pela juventude em perodos modernos: no esto aprendendo a valorizar a sabedoria milenar da espera do tempo!
Os jovens de hoje buscam, de forma irracional, antecipar circunstncias que deveriam ser um pouco mais preservadas. Com isso, infncias so perdidas pelo sexo precoce e sem preveno alguma. O prazer da companhia dos pais abandonado cada vez mais cedo. Paradoxalmente, cada vez mais tarde os adultos abdicam o lar materno para assumir as responsabilidades advindas do trabalho honesto. Os causos contados pacientemente pelos avs j no so mais escutados. As drogas ocupam o espao que deveria ser do dilogo entre amigos. As pessoas no se preservam mais. Os homens, por exemplo, desaprenderam o valor da troca de olhares, da conquista pelo dilogo, do beijo ansiosamente aguardado, das carcias. Tudo se tornou to fcil, inspido, sem graa. Tenho receio do que est por vir!
No pretendo neste espao assenhorear-me da verdade e da razo. certo que a sociedade est em constante mutao. As pessoas evoluem (ou pelo menos deveriam). Mas a sensao que tenho no sentido de que muito do que deveria ser bom e belo est sendo completamente vulgarizado. O que acham?
Quem nunca ouviu, por exemplo, algum dizer que est amando aps alguns "amassos" em dias festivos. Quanta iluso! Amor e pressa simplesmente no se misturam! preciso tempo e convivncia para ser amor! No se constri, portanto, da noite para o dia! necessrio pacincia, virtude esta considerada dos sbios. Temos, assim, nos tornado grandes fazedores de coisas, mas sem sentido e direo. Fazemos porque est em uma lista e est na lista porque temos que fazer. Por que e para que mesmo? No sabemos ao certo! No foi seno por essa razo que o imortal Machado de Assis escreveu em Memrias Pstumas de Brs Cubas: "Matamos o tempo, o tempo nos enterra". E como temos sido freneticamente enterrados!
A esta altura vale registrar aqui, desse modo, uma singela advertncia aos leitores: Dependendo do que for fazer, por vezes, mais do que uma noite ser necessria! Muitos de ns enxergamos as pausas como sinais de fracasso quando, em verdade, cuidam-se de meros intervalos para que a vida possa prosseguir. Bela, pujante e gostosa de se viver! Por vezes, assim, d um tempo!
preciso buscar o equilbrio. Manter-se consciente, respeitando o ritmo da vida. Chegou o momento de baixar a ansiedade e compreender que as situaes desagradveis e incmodas surgem para nos aperfeioar, tornar-nos melhores e mais afetivos em nossas relaes. Devemos aprender que muitas vezes as respostas esto no silncio e preciso serenar a mente, amainar os nimos e sentir o pulsar do corao. Como diria o poeta, hora de "relaxar e deixar que a vida simplesmente seja", sem pressas ou antecipaes nocivas nossa formao, enquanto animais racionais.
Escrevo hoje, pois, por dias menos agitados, por juventudes menos precipitadas, por refeies em famlia, pelo dilogo saudvel e por momentos de maior serenidade. Como diria Jos Saramago em seu Ensaio Sobre a Cegueira, "afinal, h que ter pacincia, dar tempo ao tempo, j devamos ter aprendido, e de uma vez para sempre, que o destino tem de fazer muitos rodeios para chegar a qualquer parte".

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


80467
Por Marcelo Eduardo Freitas - 29/8/2015 11:23:48
O RACISMO E SUAS TERRVEIS CONSEQUNCIAS

* Marcelo Eduardo Freitas

A expresso "caucasiano" uma palavra costumeiramente utilizada como um adjetivo que descreve pessoas de pele branca, especialmente as de origem europeia. O termo "raa caucasiana" foi criado pelo filsofo Christoph Meiners no sculo XVIII, mas s se popularizou no sculo XIX pelo cientista e naturalista alemo Johann Friedrich Blumenbach, que acreditava que o Cucaso (regio prxima ao mar Negro), era o bero da humanidade, e que dali provinham a inteligncia e a beleza. O termo ainda continua sendo usado at os dias de hoje.
Blumenbach definiu esta "classificao racial" a partir da anlise de 245 crnios que fundamentariam o direito dos europeus de humilhar os demais povos do globo terrestre, dada a sua suposta superioridade em relao aos nativos australianos, ndios americanos, asiticos amarelos e, abaixo de todos, "deformados por fora e por dentro", os negros africanos.
A cincia sempre situou os negros "nos pores" da nau chamada humanidade. guisa de exemplos, em 1863, a Sociedade Antropolgica de Londres chegou concluso de que os negros eram intelectualmente inferiores aos brancos, e que s os europeus tinham a capacidade de humaniza-los e civiliza-los. 144 anos aps, no ano de 2007, o geneticista norte-americano James Watson, Nobel de medicina, chegou a afirmar estar cientificamente demonstrado que os negros continuam sendo menos inteligentes que os brancos. Quanta maldade foi feita na busca pela hegemonia entre povos!
Caro leitor, a ideologia da superioridade de raas foi construda para "justificar as atrocidades dos espanhis e dos portugueses, que se arrogavam o direito de explorar os povos descobertos`. Que mal poderia haver em escravizar os ndios, se eles eram seres inferiores, colocando-se em dvidas se possuam alma? Eis como se estrutura o racismo: primeiro se estigmatiza o grupo que se quer discriminar e depois se tira proveito desta estigmatizao. Do mesmo modo se procedeu em relao escravido africana. Construiu-se primeiramente a ideologia da inferioridade natural dos negros e depois se legitimou a instituio escravocrata".
Assim, que fique claro: ao se falar de raa e etnia, muitas pessoas demonstram total desconhecimento ou ideias completamente distorcidas sobre a questo. No existem raas humanas! Apenas a espcie humana! A cor da pele, a forma do nariz, o tipo do cabelo, o tipo do sangue, o formato e cor dos olhos, a espessura dos lbios, no so suficientes para estabelecer diferentes tipos de raas entre os seres humanos, que biologicamente so iguais em praticamente tudo. Todas as ideias de racializao humana caram por terra! Porm, a construo social erigida a partir de conceitos e vises estrbicas permanece, at hoje, no imaginrio popular, gerando efeitos nefastos a minorias historicamente defenestradas.
Como se sabe, o racismo a "convico sobre a superioridade de determinadas raas, com base em diferentes motivaes, em especial as caractersticas fsicas e outros traos do comportamento humano". A Declarao Universal dos Direitos do Homem foi criada com o objetivo de proteger os direitos fundamentais das pessoas, condenando todo o tipo de discriminao pela raa, sexo, nacionalidade, etnia, idioma, religio ou qualquer outra condio. Est l, expresso, em seu texto!
Desse modo, podemos afirmar, sem titubear, que o racismo s causa prejuzos para o futuro, o desenvolvimento e o dilogo dentro de uma nao, retirando do mercado de trabalho, no propiciando condies de sobrevivncia mnimas, no viabilizando estudo e sade de qualidade a minorias que vivem em lugares periclitantes e insalubres, em evidente situao de excluso social.
Recente pesquisa feita em terras tupiniquins mostrou que os jovens negros so as principais vtimas de violncias, o que inaceitvel. O Brasil tem hoje a maior populao negra do mundo fora da frica, e no podemos permitir que o racismo faa parte do nosso dia a dia, j que formamos uma populao completamente heterognea, com ascendncias de todas as partes do planeta.
Precisamos realmente corrigir os rumos! Quero aqui consignar, assim, que ningum, absolutamente nenhuma pessoa debaixo do sol, tem o poder de sobrepor-se s outras sob quaisquer pretextos, mormente com base em critrios como cor da pele, etnia, opo sexual, nacionalidade ou religio. Temos uma enorme dvida social, em especial com a populao negra. A conta tem que ser paga. A correo de rumos deve vir da base, desde a infncia. Como diria Nelson Mandela, "ningum nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religio. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, elas podem ser ensinadas a amar". Escrevo hoje por um Brasil menos racista!
(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


80416
Por Marcelo Eduardo Freitas - 15/8/2015 08:49:57
O TEMPO E OS RELACIONAMENTOS

* Marcelo Eduardo Freitas

A noo comum de tempo inerente a cada ser humano. Todos somos, em princpio, capazes de reconhecer e ordenar a ocorrncia dos eventos percebidos pelos nossos sentidos. Ao lado do tempo existe o momento, em regra indeterminado e breve.
Como o tempo tem fluido de forma rpida (no poderia ser diferente), os momentos so eternizados pela memria das pessoas de bem. A vida e o tempo so os nossos dois maiores professores. A vida nos ensina (pelo menos deveria) a fazer bom uso do tempo enquanto o tempo nos ensina o valor da vida.
Nos ltimos anos, tenho observado, de forma atnita, o quanto os relacionamentos tm sido desfeitos de maneira to mesquinha. As pessoas no exercitam o mnimo de tolerncia. Famlias inteira so destrudas pela absoluta ausncia de compreenso e pacincia entre os parceiros, gerando eternas disputas insanas por questes banais. O que poderia ser uma saudvel unio tornou-se motivo para a perpetuao de dio e rancor. O que fazer? Como evitar o mal da ruptura sentimental? Realmente, era amor? Era feliz e no sabia?
Dentre tantas questes, aprendemos que para ser feliz com uma outra pessoa, precisamos, em primeiro lugar, no precisar dela. Percebemos, tambm, que aquele algum que voc acredita amar e que nada quer com voc, definitivamente, no o "algum" da sua vida. Aprendemos a nos valorizar, a nos cuidarmos e, principalmente, a gostar de quem tambm gosta da gente. Como diria o poeta, "o segredo no correr atrs das borboletas... cuidar do jardim para que elas venham at voc. No final das contas, voc vai achar no quem voc estava procurando, mas quem estava procurando por voc!"
Para realar a inteno do texto, importante trazer aqui a histria de um casal que estava casado havia mais de meio sculo. Poucas foram as vezes em que haviam brigado naqueles dez lustros. Os dias que passaram juntos foram recheados de felicidade e contentamento. Dividiam tudo e no tinham segredos entre si, exceo de um. A mulher tinha uma pequena caixa que guardava no alto do guarda-roupas do casal. Ela sempre dizia ao marido que ele no deveria olhar dentro da caixa enquanto durasse o relacionamento. Assim foi feito por muito tempo...
medida que os anos se passaram, chegou um momento em que o marido pegou a caixa e perguntou se poderia finalmente saber o que ela continha. A mulher concordou, e ele a abriu, descobrindo duas toalhinhas de croch e mais de 25.000 reais. Quando ele perguntou o que significava aquilo, ela respondeu: "Quando nos casamos, minha me me disse que sempre que ficasse brava com voc ou sempre que voc dissesse algo de que eu no gostasse, eu deveria tricotar uma toalhinha de croch e depois conversar com voc sobre o assunto".
O marido ficou extremamente comovido. Lgrimas rolaram pelo seu rosto com aquela doce histria de vida. Ele ficou admirado pelo fato de que nos 50 anos de casamento teria incomodado a esposa apenas o suficiente para que ela tricotasse duas toalhinhas de croch. Sentindo-se extremamente bem a respeito de si mesmo, pegou a mo da mulher e disse: "Isso explica as toalhinhas, mas e quanto aos 25.000 reais?"
A esposa sorriu gentilmente e disse: "Esse o dinheiro que ganhei vendendo todas as toalhinhas que tricotei ao longo dos anos".
Que o tempo nos ensine a ser um pouco mais tolerante com os outros, especialmente com nossas parceiras de caminhada. Relacionar-se , antes, reconhecer que somos falveis e tambm erramos, tal qual uma imagem refletida num espelho. Busquemos no prximo o que h de bom e belo. Que os defeitos sirvam para aprimorar o dilogo. Que ao final, a famlia seja preservada de todo o mal. O mundo precisa de um pouco mais de amor e compreenso.
(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


80385
Por Marcelo Eduardo Freitas - 8/8/2015 15:09:31
O QUE FAZ VOC FELIZ?

* Marcelo Eduardo Freitas

A msica composta por Seu Jorge, de onde extraio inspiraes para o presente texto, apresenta uma letra que diz mais ou menos assim: "O que faz voc feliz?/A lua, a praia/O mar, uma rua/Um doce, uma dana/ Paixo, dormir cedo/Comer chocolate/Passear na cidade/O carro, o aumento/a casa, o trabalho/O que faz voc feliz?/Arroz com feijo/Matar a saudade/Goiabada com queijo/Um amor, um desejo/Um beijo na boca,/um dia de sol/viver um romance/jogar futebol/O que faz voc feliz?"
Obviamente, a lista do que pode nos fazer feliz enorme, variando de pessoa para pessoa. Se fossemos acrescentar aqui nossos desejos mais ntimos, a lista seria maior ainda, pois a felicidade decerto um sentimento particular, inerente a todo ser humano. Encontr-la sempre foi o desiderato de todas as geraes, passadas ou no.
De anseios simples ao mais complexos, essa busca por momentos de puro xtase est impregnada em tudo que vivemos, e ento nos perguntamos: a felicidade uma situao meramente transitria? a mensurao do que passamos? (Se der positivo ento somos felizes!?) poder ter tudo o que se almeja? subjetiva, objetiva, formal, material? Enfim, o que ser essa bendita felicidade?
Em pesquisas noturnas, na eterna busca pelo saber, encontramos conceitos polmicos. Alguns ingnuos ou utpicos. Mas uma coisa certa: mesmo tendo um conceito individual, regado por sonhos peculiares, todos, sem exceo, ainda que no menor dos gozos das faculdades mentais, procuramos este estado de esprito.
Desde a Grcia antiga, com as primeiras percepes filosficas sobre tica, moral, virtudes, o homem j refletia sobre o que poderia ser felicidade. Tales de Mileto j dizia, entre os anos 7 a.C. e 6 a.C, que "ser feliz ter corpo forte e so, boa sorte e alma formada". Para Scrates, entretanto, no havia relao da felicidade com somente satisfao dos desejos e necessidades do corpo. O homem, destarte, no seria apenas corpo, e sim e principalmente, alma. Felicidade seria ento o bem da alma, atravs da conduta justa e virtuosa. J para Kant, a felicidade no tem relao com tica. Est no mbito do prazer e do desejo, e logo no seria tema para investigar de maneira filosfica.
A Constituio dos Estados Unidos da Amrica, de 1787, colocava a felicidade como "direito do homem", erigindo-a, assim, como pensamento poltico da poca. Mas como ser feliz? Como fazer com que outros sejam tambm felizes? O que faz da vida aquele que se diz feliz? A felicidade alheia pode nos trazer felicidade?
Teorias filosficas, mdicas, receitas caseiras, casos alheios... Tudo contribui para nos deixar ainda mais indecisos, mais temorosos, pois segundo essas conjecturas a maneira como vivemos pode expressar felicidade ou no, dependendo do ponto de vista de cada um dos intrpretes da vida. E a, nesse complexo mundo dos conceitos abstratos, que nos deparamos com pessoas de vrias idades, instruo, classe social, todas buscando o mesmo sentido em suas vidas: ser feliz!
Trago aqui, desse modo, uma reflexo que nos foi passada h algum tempo. Cuida-se de um pensamento do draumaturgo espanhol Jacinto Benavente, nobel de literatura de 1922, que sempre procurou nas ideias de Sigmund Freud influxos para suas peas: "ningum aprende a viver pela experincia alheia; a vida seria ainda mais triste se, ao comearmos a viver, j soubssemos que viveramos apenas para renovar a dor dos que viveram antes."
De igual modo, no se pode esquecer das lies de Mrio Cortella, que em poucas palavras nos apresenta uma certa "receita" para a felicidade: "Ser feliz no apequenar a vida..." Destarte, em tudo o que for fazer, por mais simples que possa ser, trate como algo verdadeiramente especial. Jamais menospreze o seu poder de transformar o mundo! Um sorriso, um gesto, um olhar. Basta desejar profundamente que aquele momento seja recheado de felicidades, e ele ser!
Em concluso, no se pode esquecer de duas premissas bsicas sobre a felicidade: (1) a primeira que ela deve sempre ser buscada, almejada por cada um de ns. A vontade deve vir de dentro para fora. Somos ns que provocamos nossos prprios sentimentos. (2) A segunda assero, semelhante primeira, sempre olhar nossa volta, valorizando tudo o que nos cerca, pois como diria Mario Quintana, "quantas vezes a gente, em busca da ventura, procede tal e qual o avozinho infeliz: Em vo, por toda parte, os culos procura, tendo-os na ponta do nariz!"
E ento, o que faz voc feliz?

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


80349
Por Marcelo Eduardo Freitas - 31/7/2015 22:34:49
O CULTO AO CORPO E O BRASIL SEM EDUCAO

* Marcelo Eduardo Freitas

O incio do culto ao corpo perfeito surgiu na Grcia. A preocupao com a forma fsica era de extrema importncia para o povo grego. A busca por uma capacidade intelectual e fsica acima dos padres ocidentais acabaram por difundir o lema to repetido em tempos atuais: "mens sana in corpore sano", ou seja, mente saudvel em corpo so. O corpo era bastante discutido na Grcia antiga, apesar de assuntos como a poltica e a tica serem considerados os mais relevantes pelos pensadores da poca. Filsofos como Scrates (470 a 399 a.C.), Plato (427 a 347) e Aristteles (384 a 322 a.C.), tambm discutiram sobre esse assunto. Scrates nutria uma viso integral de homem, entendendo como importante tanto o corpo quanto a alma para o processo de interao do homem com o mundo. Plato pensava de modo diverso, pois possua uma viso mais dicotmica, na qual o corpo servia de priso para a alma. As ideias de Aristteles aproximavam-se mais das ideias de Scrates do que das de Plato, pois partia do princpio de que as aes humanas eram executadas em conjunto - corpo e alma -, todas num processo contnuo de realizao. Atualmente, o corpo humano objeto de estudo de vrias reas da Cincia e da Filosofia, principalmente quando suas dimenses passaram a ter um discurso multidisciplinar. Certamente, as mutaes que o mesmo sofreu ao longo da construo da sociedade ocidental so responsveis por esse interesse em discuti-lo e estud-lo com maior profundidade e alcance. No Brasil, lamentavelmente, temos observado, especialmente jovens, que parecem cultuar um corpo saudvel. Mas se esquecem plenamente de uma mente sadia. Relegam, por completo, a leitura e os estudos, em busca de um ideal que no ostenta a menor relevncia para a construo de uma sociedade calcada em premissas slidas. No discutem poltica, filosofia, sociologia, tica ou mesmo religio. Em redes sociais, assassinam as regras mais basilares da lngua portuguesa. Como nutrir esperana em uma nao que parece ser acfala?
Que fique claro: no estou aqui a defender o descuido com a sade fsica. Mas precisamos melhorar, e muito, os cuidados com a nossa sade mental. Permitir com que o corpo conduza as diretrizes de nossas vidas pode nos levar, tanto na seara privada quanto nos espaos pblicos, a perdas ainda maiores e irreparveis. Para ilustrar a ideia central deste texto, nada melhor que a "parbola da democracia", extrada dos contos e observaes do Talmude, livro sagrado dos judeus, aqui retratada livremente. Por muito tempo, a cauda da serpente tinha seguido a cabea, e tudo estava bem. Um dia comeou a estar descontente com este "arranjo da natureza", e dirigiu-se nestes termos cabea: - H muito tempo que observo com indignao o seu injusto procedimento. Em todas as nossas viagens, voc que toma a dianteira, enquanto eu, como um criado servil, sou obrigado a seguir-te. sempre a primeira a aparecer em toda a parte e eu, como um miservel escravo, tenho que andar atrs. Isto justo? No sou eu um membro do mesmo corpo? Porque no poderei dirigi-lo to bem como voc?
- Rabo imbecil, exclamou a cabea. Queres dirigir o corpo? No tem olhos para ver o perigo, nem ouvidos para te avisarem dele, nem crebro para o evitar. No compreende que para sua vantagem que eu dirijo e o guio pelo melhor caminho?
Para minha vantagem, no verdade, disse a cauda. Essa a mesma linguagem de todos os usurpadores. Pretendem reger para o bem dos seus escravos; mas no me submeterei mais tempo a semelhante estado de coisas. Insisto que a partir de agora devo tomar a dianteira.
- Pois bem, replicou a cabea, j que se diz to competente, que assim seja; mas depois no diga que no o avisei dos perigos. Portanto, a partir de agora, guia voc e veremos. A cauda regozijou-se e tomou a dianteira. A primeira faanha foi arrastar o corpo para uma fossa de lodo. A situao no era das mais agradveis. A cauda lutou muito andando sem rumo apalpando os obstculos que no conseguia ver. Com grande esforo conseguiu sair da lama; mas o corpo estava to coberto de imundice que nem parecia pertencer mesma criatura. A faanha seguinte foi enroscar-se sobre cips e espinhos selvagens. A dor foi intensa; o corpo inteiro ficou ferido gravemente. Aqui teria sido o fim de tudo se a cabea no tivesse vindo a seu reboque; mostrou-lhe ento a melhor maneira de sair daquela situao e assim foram salvos. Mas a cauda no se conformou com seus prprios erros e insistiu em continuar administrando a dianteira. Continuou a marchar; e quis o acaso que entrasse numa fornalha acessa mais de mil graus. Em questo de segundos comeou a sentir os efeitos do calor que ameaava destru-la em poucos minutos. O corpo inteiro ficou congestionado; foi uma situao terrvel. Mais uma vez a cabea veio em seu auxilio salvando a todos. Mas j era bastante tarde e a cauda havia sido consumida pelo fogo. Apesar dos esforos da cabea, o fogo continuava implacvel destruindo rapidamente o resto do corpo. Portanto, a cabea tambm foi destruda. A ruina da prpria cabea foi permitir ser guiada pela cauda. Esse ser seguramente o destino de nosso pais se a nossa juventude continuar sendo guiada pelo corpo. O Brasil est vivenciando uma situao terrvel! A culpa de um s partido ou temos todos uma parcela de responsabilidade? Os tempos atuais exigem o culto mente sadia! http://montesclaros.com/mural/cronistas.asp?cronista=Marcelo%20Eduardo%20Freitas

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


80317
Por Marcelo Eduardo Freitas - 25/7/2015 00:55:22
"JE SUIS"PEDRO

* Marcelo Eduardo Freitas

A expresso "je suis Charlie"foi criada por um cartunista francs logo aps os atentados terroristas contra o jornal satrico Charlie Hebdo, que deixou 12 mortos. Cartazes com referida frase, traduzida em diversos idiomas, inundaram manifestaes em redes sociais de todo o planeta.
No Brasil no foi diferente. Vrios de nossos pares aproveitaram a onda e adotaram o lema sem sequer saber o que isso realmente significava e o contedo propagado por mencionado jornal. Nosso povo mestre por buscar em terras estrangeiras supostos bons exemplos, relegando o patrimnio humano existente em terras tupiniquins. Sim, caro leitor, ns temos em nosso pas figuras ocultas que so dignas do mais alto galardo nos cus. So pessoas que, com suas condutas, transmitem exemplos que devem ser seguidos em todos os dias de nossas vidas. Adiante, descreverei um pouco sobre um desses personagens annimos.
Antes, importante esclarecer, sei que as palavras aqui escritas jamais chegaro ao real destinatrio delas. Talvez ele sequer as compreenda, dado o pouco hbito pela leitura. Mas no posso deixar de externar que, hoje, "je suis" Pedro. Se tivesse, assim, que buscar em quem me espelhar, ele seria meu paradigma: humildade, sabedoria, serenidade e riqueza de esprito, no obstante a absoluta ausncia de recursos materiais.
Tenho dito de forma reiterada, plagiando Napoleon Hill, que "o triunfo de cada homem parece ser quase na exata proporo dos obstculos e dificuldades que ele tem de vencer". Talvez seja por essa razo que os evangelistas fazem referncia a Pedro 171 vezes, sendo 114 nos evangelhos e 57 nos Atos dos Apstolos. No evangelho de Mateus (16, 18), consta que o Messias lhe atribuiu a seguinte e rdua misso: "Tu s Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja".
O Pedro a que aqui me refiro, entretanto, outro. Nem por isso menos nobre e importante, mormente na formao de valores a homens incautos e incultos, como eu. Desde criana foi acometido por paralisia infantil, doena que lhe comprometeu as duas pernas e brao esquerdo. Sempre viveu de forma muito modesta, pouco dependendo de terceiros para a realizao de tarefas dirias. Cuida-se de um carpinteiro de causar inveja, no obstante acreditar que sua real misso, tal qual a Cristo, a de verdadeiramente esculpir almas.
Recentemente, Pedro teve que ser internado, acometido que foi de uma bronquite asmtica. Aps quatorze dias de internao, retornou a seu humilde lar. Fui visit-lo. Aprendi um pouco mais sobre as diversas dimenses da verdadeira grandeza. Preciso descrever, em minucias, o que se deu, a fim de que o leitor se sinta no mesmo ambiente que estive. Assim o fao: A casa era bem simples. Paredes pintadas de branco, talvez forado pelo cal. O porto verde j estava aberto. A pequena porta da sala tambm. Imediatamente ao entrar na casa avistei Pedro, embrulhado em um pequeno cobertor marrom. Parecia uma pequena criana, embora j passados mais de 70 anos. A tarde estava fria. Na pequena cama sobrava espao, j que as pernas estavam atrofiadas. O dormitrio estava ao lado de uma janela azul, por vezes aberta nas madrugadas para ver as estrelas, como ele mesmo nos descreveu. Em uma cadeira, prxima ao dormitrio, havia uma espcie de ch de rapadura, considerado remdio natural para as doenas de inverno. Sem que perguntssemos qualquer coisa, j fomos recebidos com um enorme e estrondoso sorriso de agradecimento. Estar em sua simples morada, gozando a tranquilidade dos eleitos, era sua maior felicidade. Riqueza? Mesmo na pobreza material, Pedro se dizia um homem rico e agradecido. Afinal, estava bem, ainda que com um flego curto pela doena em fase inicial.
Conversamos sobre diversos assuntos. Em nenhum momento ouvi qualquer palavra que pudesse denotar lamurias ou lamentaes. fato: o corpo de Pedro se debilita a cada dia de forma mais intensa. Mas no observei outra coisa seno seu sorriso desdentado, sem qualquer rancor pelo quadro que o abatia desde a infncia, agora agravado pela enorme dificuldade que tem em permanecer sentado em sua cadeira de rodas curtindo o sol da manh, considerado uma grande "beno" e motivo de profunda alegria.
Para concluir: agradea por tudo aquilo que j aconteceu em sua vida, mesmo os momentos de profunda dor. No obstante as inmeras descobertas cientficas, a nossa compreenso do universo ainda muito superficial. No podemos julgar o que quer que realmente acontea em nossa passagem aqui na terra. Nada acontece por acaso, e se aconteceu Deus quis assim. O que nos resta correr atrs de nossos objetivos, mesmo que o universo parea conspirar em contrrio. Deus est contigo! No chores! Como diria Fernando Pessoa, "s vezes ouo passar o vento; e s de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido". Sejamos Pedros!Do latim "Petrus". Significa a rocha.

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


80292
Por Marcelo Eduardo Freitas - 17/7/2015 21:19:05
NINGUM VENCE SOZINHO!

* Marcelo Eduardo Freitas

do Papa Francisco a clebre frase adotada como ttulo deste texto: "Ningum vence sozinho!" Obviamente, devemos ter humildade para reconhecer que somos melhores juntos! Isoladamente, pouco ou quase nada podemos fazer. exatamente essa ideia de comunho de esforos, de unidade de entendimentos, que d sentido ao processo de formao de sociedades minimante organizadas.
No ambiente corporativo, de igual maneira, o adgio ganha mais fora. Grandes corporaes somente se solidificam com a comunho de esforos de todos os envolvidos no caminho da produo. Desde o mais simples ao mais abastado dos funcionrios.Todos so peas importantes no trabalho em equipe. Cada um representa uma pequena parcela do resultado final. Quando um falha, todos devem se unir, para sua reconstruo.
Desse modo, podemos afirmar que a edificao de novos paradigmas, de um novo cenrio, de uma nova realidade brasileira, depende da juno de esforos de cada um de ns. Devemos, assim, na mais ampla acepo do termo povo, de onde todo poder emana, lutar por interesses que efetivamente atendam aos anseios de todos os brasileiros, independentemente de cor, sexo, raa ou religio. Parece soar como utpico, mas no impossvel!
Theodore Roosevelt,vigsimo sexto presidente dos Estados Unidos, de 1901 a 1909, afirmava que " muito melhor arriscar coisas grandiosas, alcanar triunfos e glrias, mesmo expondo-se a derrota, do que formar fila com os pobres de esprito que nem gozam muito nem sofrem muito, porque vivem nessa penumbra cinzenta que no conhece vitria nem derrota".
Esopo, por seu turno, o mais conhecido dentre os fabulistas, sem dvida um grande sbio que viveu na antiguidade, embora sua origem seja um mistrio cercado de muitas lendas, em uma de suas fbulas, conta a histria do "Galo de Briga e da guia", aqui retratada livremente.
Dois galos estavam disputando em feroz luta: o direito de comandar o galinheiro de uma chcara.
Por fim, aps intensa batalha, um pe o outro para correr e autoproclamado o vencedor.
Franois Fnelon afirmava que "muitas vezes nossos erros nos beneficiam mais do que nossos acertos. As faanhas enchem o corao de presuno perigosa; os erros obrigam o homem a recolher-se em si mesmo e devolvem-lhe aquela prudncia de que os sucessos o privaram." E no que o Galo derrotado se afastou e foi se recolher num canto sossegado do galinheiro. O vencedor, tomado de orgulho e vaidade, tal qual alguns de ns, em tempos atuais, voando at o alto de um muro, bateu as asas e exultante cantou com toda sua fora.
Uma guia, que pairava ali perto em busca de alimento, lanou-se sobre ele e, com um golpe certeiro, levou-o preso em suas poderosas garras. Adeus galo vencedor!
O Galo derrotado saiu do seu canto e, da em diante, reinou absoluto e livre de qualquer concorrncia. Moral da histria: Orgulho ou arrogncia ainda o caminho mais curto para a runa e a perdio. Devemos, assim, ser altivos na derrota e humildes na vitria. Afinal, a superioridade nada mais representa seno uma ilusria, aparente e temporria vantagem...
Como eplogo desta breve loa unio entre as pessoas, no se pode concluir seno com as palavras de Lus Roberto Barroso, recentemente, aos formandos do curso de direito do Centro Universitrio de Brasilia-UniCEUB: "As coisas no caem do cu. preciso ir busc-las. Correr atrs, mergulhar fundo, voar alto. Muitas vezes, ser necessrio voltar ao ponto de partida e comear tudo de novo. As coisas, eu repito, no caem do cu. Mas quando, aps haverem empenhado crebro, nervos e corao, chegarem vitria final, saboreiem o sucesso gota a gota. Sem medo, sem culpa e em paz. uma delcia. Sem esquecer, no entanto, que ningum bom demais. Que ningum bom sozinho. E que, no fundo no fundo, por paradoxal que parea, as coisas caem mesmo do cu, e preciso agradecer". tempo de gratido e unio!

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


80255
Por Marcelo Eduardo Freitas - 11/7/2015 12:18:12
A DELAO PREMIADA E OS PULSOS DO COLARINHO BRANCO

* Marcelo Eduardo Freitas

Nos ltimos anos o povo brasileiro se deparou com uma expresso que tem aguado o imaginrio popular. A imprensa noticia diariamente casos de transgressores que fizeram acordo com o Ministrio Pblico ou com a Polcia Federal e resolveram "abrir o bico" e entregar os demais comparsas de empreitada criminosa. Refiro-me aqui propalada delao premiada. Mas o que isso?
Procurarei aqui neste breve texto esclarecer ao leitor, de maneira bem simples e didtica, o que realmente significa o instituto da delao premiada, sem o "juridiqus" muito comum em artigos cientficos que fazem do assunto algo "opaco" nossa combalida sociedade.
Entende-se por delao premiada uma espcie de acordo firmado com o Ministrio Pblico e a Polcia Federal pelo qual o ru ou suspeito de cometer crimes se compromete a colaborar com as investigaes e entregar os demais integrantes da organizao criminosa em troca de benefcios, como a reduo da pena, por exemplo.
O primeiro esclarecimento que se faz, com o propsito de corrigir a desastrosa fala de nossa presidente em terras ianques, que a delao efetivada em tempos modernos nada tem a ver com aquela obtida mediante tortura em perodos abominveis de nossa histria. No livro "A Ditadura Escancarada", Elio Gaspari afirma que, em perodos de exceo, a tortura surge como uma opo evidentemente vivel pelo "fato de que ela funciona. O preso no quer falar, apanha e fala". Definitivamente, no o caso! , no mnimo, irresponsvel dizer o contrrio, j que embora advogados de envolvidos em operaes da PF apontem abusos nas prises, no se tem notcia de violncia fsica ou supresso do direito de defesa, mormente quando da firmao dos acordos, onde o advogado (defesa tcnica) necessariamente tem que se fazer presente ao ato.
No Brasil, que fique claro, a delao, que tambm adota o nome de colaborao ou cooperao processual premiada, est prevista em diversas leis, desde a dcada de 90: Crimes hediondos (1990), crime organizado (1995), sequestro (1996), lavagem de dinheiro (1998), trfico de drogas (2002), entre outras. De forma mais ampla, a delao premiada recebeu tratamento especial na lei que trata das organizaes criminosas (2013), sancionada justamente por Dilma Rousseff, a mesma que afirmou "no respeitar delatores".
Caro leitor, em todo o mundo civilizado, h o convencimento de que a delao extremamente relevante e eficaz nas investigaes e punies a todos aqueles envolvidos com organizaes criminosas e corrupo. No foi seno por essa razo que a ONU, por intermdio das Convenes de Palermo (2000) e Mrida (2003), recomendou o uso de referida forma de cooperao. O Brasil, por seu turno, signatrio de ambas as Convenes, o que implica em dizer que assumiu compromisso internacional na adoo do instituto, o que tem sido feito a duras batalhas, especialmente quando os braos a receberam as pulseiras prateadas so de polticos corruptos ou de mafiosos de colarinho branco. Verdadeiros sociopatas do poder que, gradativamente, esto sendo presos, no obstante os bilhes de reais em patrimnio acumulado s custas de sangue de inocentes.
O jurista Fabio Medina Osrio, Doutor em Direito Administrativo pela Universidade Complutense de Madri, "olhando o direito comparado e o que ocorre hoje no mundo em termos de combate corrupo", afirma que "no apenas nos EUA, mas na Europa, as prises cautelares tm sido utilizadas no incio de processos ou quando investigaes assinalam elementos robustos de provas", lembrando os casos do ex premier de Portugal, Jos Scrates, e os dirigentes da FIFA, presos cautelarmente por corrupo, sendo que alguns, em idade avanada, seguem encarcerados. A ideia no humilhar ningum, mas, diante do poder econmico ou poltico das pessoas atingidas, estancar o curso de aes delitivas de alto impacto nos direitos humanos medida que se impe. Para Medina Osrio, o que realmente novo aqui no Brasil so as chamadas "prises democrticas", "erga omnes", onde cabem ricos e pobres! Eis os tempos!
Como concluso, assumo que sou um fracasso nessa luta diria na busca de uma sociedade menos desigual! Sigo, assim, lutando na certeza de que tenho fracassado todos os dias. Mas no desanimo! Como diria o montesclarense e imortal, Darcy Ribeiro, "fracassei em tudo o que tentei na vida. Tentei alfabetizar as crianas brasileiras, no consegui. Tentei salvar os ndios, no consegui. Tentei fazer uma universidade sria e fracassei. Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei. Mas os fracassos so minhas vitrias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu". Maior que a tristeza de no haver vencido a vergonha de no ter lutado!

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


80195
Por Marcelo Eduardo Freitas - 3/7/2015 10:10:27
UM AMIGO FIEL

* Marcelo Eduardo Freitas

Em dias to corridos, embora lamentvel, foroso concluir que temos tido dificuldades em cultivar amizades sinceras. Interesses no to nobres movem as relaes modernas. Crianas esto sendo criadas em "cativeiros" completamente apartadas das relaes humanas. Tudo se tornou eminentemente virtual. Passam-se os anos e, ao olharmos pelo retrovisor da vida, observamos que no cultivamos amizades genunas. Aquelas de infncia, verdadeiras, to raras em tempos atuais.
bblico e no se pode negligenciar: "Um amigo fiel uma poderosa proteo: quem o achou, descobriu um tesouro. Nada comparvel a um amigo fiel, o ouro e a prata no merecem ser postos em paralelo com a sinceridade de sua f". Para os incautos, est l no livro do Sircida, mais conhecido como Eclesistico, de autoria atribuda a Jesus Ben Sirac.
Ter amigos de infncia, assim, recordar o passado com um sorriso nos lbios. ter a sensao de que bons momentos foram vividos na companhia de verdadeiros companheiros de jornada. D saudades! semelhante quela descrio apresentada pelo saudoso Manoel Bandeira, em Velha Chcara: "a casa era por aqui... Onde? Procuro-a e no acho. Ouo uma voz que esqueci: a voz deste mesmo riacho. Ah quanto tempo passou! (Foram mais de cinqenta anos). Tantos que a morte levou! (E a vida... nos desenganos...) A usura fez tbua rasa da velha chcara triste: No existe mais a casa... - Mas o menino ainda existe".
Relembro com alegria do tempo que passou e no mais retornar. Mas a vida segue sempre adiante, para alm do horizonte. Assim, para que ningum perca a oportunidade de colacionar amizades fieis, nunca demais relembrar a histria do "Pai Conselheiro", aqui reescrita livremente: Um jovem recm-casado, num daqueles dias de calor ardente, estava sentado em um sof, bebendo suco gelado durante uma visita casa de seu humilde pai. Ao conversarem sobre a vida, o casamento, as responsabilidades dirias, as obrigaes da pessoa adulta, o pai remexia pensativamente os cubos de gelo a derreterem no seu copo quando lanou um olhar claro e sereno para o filho.
- Nunca se esquea de seus amigos, aconselhou! Sero mais importantes na medida em que voc envelhecer. Independente do quanto voc ame sua famlia, os filhos que porventura venha a ter, voc sempre precisar de amigos. Lembre-se de ocasionalmente ir a lugares com eles. Faam coisas juntos. Cometam irresponsabilidades e conserve amizades de infncia, estas as mais importantes de toda a sua jornada.
"Que estranho conselho", pensou o jovem. "Acabo de ingressar no mundo dos casados. Sou adulto. Com certeza minha esposa e a famlia que iniciaremos sero tudo de que necessito para dar sentido minha vida!"
Contudo, ele obedeceu ao pai. Manteve os amigos do passado e a cada dia aumentava o nmero de relacionamentos. Conforme os anos se sucediam, ele foi compreendendo que seu pai sabia do que falava. Na medida em que o tempo e a natureza realizavam suas mudanas e mistrios sobre o homem, amigos mostraram-se baluartes em sua vida.
Passados mais de 50 anos, o ento jovem aprendeu: O tempo passa. A vida acontece. A distncia separa. As crianas crescem. Os empregos vm e vo. O amor perde a intensidade. As pessoas no fazem o que deveriam fazer. O corao se rompe. Os pais morrem. Os colegas esquecem-se dos favores. As carreiras terminam... Mas os verdadeiros amigos estaro sempre presentes, no importando quanto tempo e quantos quilmetros haja entre vocs. Afinal, um amigo nunca est mais distante do que o alcance de uma necessidade, torcendo por voc, intervindo em seu favor e esperando por voc de braos abertos, abenoando sua vida! Quando iniciamos esta aventura chamada vida, no sabemos o quanto precisaremos uns dos outros!
Enfim, cultivem amizades de infncia! Como razo para concluir esse breve culto s amizades sinceras, no posso finalizar seno com as eternas palavras do velho delegado de polcia e cronista gacho, Paulo Sant`Ana, equivocadamente atribudas a Vincius de Morais: "Eu poderia suportar, embora no sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos! A alguns deles no procuro, basta saber que eles existem. Esta mera condio me encoraja a seguir em frente pela vida... mas delicioso que eu saiba e sinta que os adoro, embora no o declare e no os procure".

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia


80158
Por Marcelo Eduardo Freitas - 27/6/2015 10:06:53
SER FELIZ: CAUSA E EFEITO

* Marcelo Eduardo Freitas

O fsico e matemtico ingls Isaac Newton, em sua "terceira lei", mais conhecida como "ao e reao" ou "causa e efeito", afirmava que toda ao corresponde a uma reao de igual intensidade e sentido oposto.
Do ponto de vista eminentemente cientifico, assim, podemos inferir, ento, que somos os canalizadores de nossas prprias realidades. Desde os primeiros momentos de nossas existncias recebemos o livre arbtrio, ou seja, a capacidade de deliberada escolha, o que nos permite concluir que a criao de um ambiente de harmonia e beno, de plena felicidade, misso de cada um de ns.
Tenho observado, desse modo, que o estado de no ter , antes, um estado de ingratido. O que no est bom em sua vida resulta solenemente da ausncia de gratido! H um brocardo latino que nos ensina que "nullum officium referenda gratia necessarium est", isto , nenhum dever mais importante que a gratido. De minha parte, agradeo a Deus por ter vindo da zona rural, por ter passado por situaes efetivas de extrema pobreza, por ter amealhado todas as conquistas com muita dificuldade, por no ter apego a bens materiais e por saber que, ainda que tudo d errado, eu posso regressar s minhas origens. Afinal, como diria Antnio Gomes, pai do nosso eterno vice-presidente Jos de Alencar, "o importante na vida poder voltar". Sim, devemos cultivar portos seguros em que possamos lanar nossas ncoras quando chegar a hora de parar!
Napoleon Hill ensina-nos que "o triunfo de cada homem parece ser quase na exata proporo dos obstculos e dificuldades que ele tem de vencer.Ser bem sucedido no mundo sempre uma questo de esforo pessoal. Todavia, um engano acreditar algum que pode vencer sem a cooperao de outros". A "Lei do Triunfo", assim, resume-se nas lies seguintes: no existem atalhos para o sucesso. A combinao de um desejo ardente de prosperidade com um propsito de vida definido e um plano de ao efetivo para se atingir o objetivo ser sempre o melhor caminho. F inabalvel em Deus e confiana em si mesmo so ingredientes indispensveis. Enquanto o ser humano no encontra um propsito definido na vida, dissipa energias e dispersa pensamentos sobre diversos assuntos e em variadas direes, que no conduzem ao xito, mas indeciso e fraqueza. Isso pssimo!
Que fique claro: as adversidades e as derrotas temporrias so em geral "males que vm para bem", pois foram o indivduo a fazer uso da imaginao e deciso para encontrar a felicidade. No foi seno por essa razo que Chico Xavier afirmava que "imperioso interpretar a dor por mais altos padres de entendimento. Ningum sofre, de um modo ou de outro, to-somente para resgatar o preo de alguma coisa. Sofre-se tambm angariando os recursos preciosos para obt-la".
Dentro dos mais acurados padres tcnicos, pode-se dizer que o pensamento positivo, ou fora vital, uma forma de perturbao eltrica que pode ser captada por induo e transmitida distncia, em moldes similares s ondas de telgrafos sem fios, por exemplo. Todo crebro humano, dessa maneira, ao mesmo tempo uma estao transmissora e receptara para as vibraes da freqncia do pensamento. Energia positiva, assim, gera mais energia positiva!
Entre os mdicos mais estudiosos e outros profissionais dedicados defesa da sade, h uma crescente tendncia para aceitar a teoria de que todas as doenas comeam quando o crebro do indivduo se encontra em estado de esgotamento. Todas as formas de energia e todas as espcies de vida animal ou vegetal, para sobreviverem, precisam ser organizadas. Diz-se que a Natureza odeia a preguia em todas as suas formas. Fornece vida contnua apenas aos elementos que esto em incessante atividade. Amarre-se um brao ou outra parte do corpo tornando-o inativo e, dentro de pouco tempo, a parte imobilizada se tornar atrofiada, ficando sem vida. Ao contrrio, faa-se de um dos braos um uso maior do que o habitual, como acontece no caso do ferreiro que maneja um pesado martelo o dia inteiro, e esse brao se tornar mais vigoroso, mais forte e muito mais musculoso. Assim tambm o com o pensamento! Se ruins, no adianta esperar coisas boas!
Em concluso: o universo est em constante transformao. As nossas conquistas resultam de nossas escolhas. Que jamais deixemos de sonhar, de acreditar, de pensar positivamente, como se reflexo de um espelho fosse. As palavras de Napoleon Hill encerram o texto de hoje: "Ame as suas vises e os seus sonhos como se eles fossem as crianas da sua alma; os planos de suas maiores realizaes". Pense nisso, agradea profundamente a Deus e seja abenoado! Afinal, voc pode at chorar por uma noite, mas ser feliz uma questo de escolha!

(*) Delegado de Polcia Federal e Professor da Academia Nacional de Polcia




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