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montesclaros.com - Ano 23 - sexta-feira, 9 de junho de 2023


Enoque Alves    [email protected]
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Por Enoque Alves - 30/12/2016 20:54:27
O QUE PODE MUDAR COM A VIRADA DO CALENDRIO?

*Enoque Alves Rodrigues

Dentro de mais algumas horas entraremos em um novo ano. O ano de 2017 promete. Trabalhando duro, como em todos os finais de ano, estou de planto na empresa de onde retiro as minguadas patacas que me sustentam a cada ms depois de l deixar o couro, rsrsrs.

Nas ruas quase no se v ningum. Vias expressas livres. Todos os semforos geralmente lentos em dias normais esto verdes. Toro para que demorem um pouco mais a se abrirem. Transportes coletivos antes entupidos de gente, agora, surpreendentemente, vazios. As pessoas esto viajando pelos Litorais ou talvez, por Cidades mais distantes desde as comemoraes do Natal e s retornaro lide, se Deus assim o permitir, depois do dia dois de Janeiro. Mas, caso Deus no permita, no tem importncia, por que grande parte vai retornar mesmo, de verdade, ao velho batente, s depois do Carnaval.

Igrejas vazias, Bancos sem filas, Lojas s moscas onde se veem apenas alguns mortais tentando efetuar trocas de presentes que ganharam no Natal em virtude de alguma desateno do bom velhinho que, na empolgao, ou, quem sabe, com um espumante a mais no coit, se esqueceu do tamanho do sapato, do colarinho da camisa ou da cintura da cala do dignssimo presenteado. No se lembrou de que, ps e pescoos no so iguais, e que, cinturas crescem ou diminuem de acordo com o que se coloca na barriga, que depende da fora de vontade de cada um. O Jornaleiro j no jornala mais, e o lixeiro... Bem, este no tira folga nunca. Algum tem que recolher a sujeira do Mundo, pois afinal, quase tudo que produzimos lixo e parece que ainda estamos longe do dia em que a terra parou. Falando nisso, voc j deu a sua caixinha do Natal deste ano ao amigo lixeiro de sua rua?

No?

Muquirana! Mo de vaca! Rsrsrs.

Bem, sigamos. Ater-nos-emos frase que d titulo a esta crnica. O que pode mudar com a virada do Calendrio?.

Respondo.

Nada, absolutamente!

O calendrio por si s no tem nenhum poder para mudar ou modificar coisa alguma.

Sim. De nada adianta voc encher a cabea de ideias fantasiosas e planos inexequveis para o ano de 2017 se voc no realizar, antes de tudo, dentro de voc, uma faxina geral. Uma mudana radical. Comece por se desvencilhar -eu sei que no fcil- da euforia que nestas ocasies se apossa das pessoas. Coloque os ps no cho. Lembre-se de que voc ainda no morreu e que o seu Mundo, o nosso Planeta real ainda se chama Terra, onde o buraco mais embaixo. Aqui, o simples fato de procurarmos viver um dia aps o outro j exige de ns muito esforo e sabedoria. tarefa dificlima, desafiarmos o crdito fcil que nos induz ao consumismo cruel e suicida, enquanto grande parte de nossos irmos passa fome, e as dificuldades e vicissitudes que o mundo atual nos impe para trilharmos os caminhos da decncia e comedimento por onde somente cabras da peste triunfam depois de encarar com dignidade, persistncia e superao, os perrengues aos quais todos ns estamos vinculados.

A vida no d saltos e em suas curvas no existem atalhos. Se voc daqueles que gostam de tudo que fcil esteja certo de que, quando voc menos esperar, estar retornando ao mesmo lugar. Quem tem objetivos na vida tem uma rota a seguir. Caminhar por ela em toda a sua extenso sem se olhar para os lados e no final da jornada poder dizer, conscientemente, alto e bom som, Combati o bom combate. Acabei minha carreira e guardei a f. Desde agora a coroa da justia que me foi guardada a qual o Senhor, Justo Juiz, me dar. Timteo, 4:7, a maior recompensa. A vida e o Justo Juiz que o Apstolo Paulo se refere no permitem espertezas ou expedientes. Voc um bom entendedor, mas mesmo assim eu vou lhe explicar. Se ao invs de encarar hoje, jovem e forte, com coragem e determinao, as barreiras que a vida lhe colocar frente, voc se homiziar por trs das vs e traioeiras facilidades, vai acabar, um dia, quando no tiver mais foras, que voltar ao ponto zero onde se encontrava para refazer, velho, raqutico e cansado, tudo aquilo que sua esperteza e pendores fteis, outrora, no lhe deixaram sequer iniciar. Ningum engana a Deus. Somos aqui espritos impuros possuidores de viso limitadssima que no nos permitem ver um palmo alm do nosso nariz.

No faa, portanto, promessas vazias para o ano que vai comear. Regime, amar ao prximo, respeitar a todos, adultos, velhos e crianas, estender mo ao necessitado, visitar hospitais e asilos, levar uma palavra de f e conforto a quem mais precisa devem fazer parte integrante de sua vida durante todos os dias de todos os anos.

No seja ingnuo. Comear ou terminar um ano muito simples. Nenhuma diferena faz se voc no for macho o suficiente para travar batalhas rduas e ferozes, diariamente, para domar o seu eu e mudar de vez a sua vida, procurando, sem falcias, mas com disciplina, melhorar um pouco a cada dia. Enquanto voc insistir em permanecer na zona de conforto, a sua vida tambm no passar de uma zona. Assumir s rdeas do seu destino preciso. A vala mais prxima a vivenda natural para quem deixa a vida se esvair escorando-se em seus barrancos.

isso o que voc quer?

Nada muda se voc no se mudar. Inclusive essa crnica que escrevo e publico desde 2004 a qual s modifico o ano a cada virada.

Pensem nisso e sejam felizes!

timo 2017 para todos!

E tenho dito.

*Enoque Alves Rodrigues


81047
Por Enoque Alves - 31/12/2015 13:59:26
O QUE PODE MUDAR COM A VIRADA DO CALENDRIO?

*Enoque Alves Rodrigues

Dentro de algumas horas entraremos em um novo ano. O ano de 2016 promete. Trabalhando arduamente, como em todos os finais de ano, estou de planto na empresa de onde retiro as minguadas patacas que me sustentam a cada ms depois de l deixar o couro.
Nas ruas quase no se v ningum. Vias expressas livres. Todos os semforos geralmente lentos em dias normais esto verdes. Toro para que demorem um pouco mais a abrir. Transportes coletivos antes entupidos de gente, agora, surpreendentemente, jazem desrticos. As pessoas esto viajando pelos Litorais ou qui, por Cidades mais longnquas desde as comemoraes do Natal e s retornaro lide, se Deus assim o permitir, depois do dia quatro de Janeiro. Mas, caso Deus no queira, a maioria s vai voltar de verdade ao batente depois do Carnaval.
Igrejas vazias, Bancos sem filas, Lojas s moscas onde se v apenas alguns mortais tentando efetuar trocas de presentes que ganharam no Natal em virtude de alguma desateno do bom velhinho que, na empolgao, olvidou-se do tamanho do sapato, do colarinho da camisa ou da cintura da cala do dignssimo presenteado. Esqueceu-se de que, ps, pescoos e barrigas crescem ou diminuem de acordo com a fora de vontade de cada um. O Jornaleiro j no jornala mais (ainda bem que recebo em casa os mais importantes jornais e revistas semanais de So Paulo) e o lixeiro... Bem, este no tira folga nunca. Algum tem de coletar a sujeira do Mundo, pois afinal, quase tudo que produzimos lixo e parece que estamos longe do dia em que a terra parou msica cantada pelo poeta baiano Raul Seixas. Falando nisso, voc j deu a sua caixinha do Natal deste ano ao amigo lixeiro de sua rua?
No?
Muquirana!
Bem, sigamos. Ater-nos-emos frase que d titulo a esta crnica. O que pode mudar com a virada do Calendrio?.
Respondo.
Nada, absolutamente!
O calendrio por si s no tem nenhum poder para mudar ou modificar coisa alguma.
Sim. De nada adianta voc encher a cabea de ideias fantasiosas e planos inexequveis para o ano de 2016 se voc no realizar, antes de tudo, dentro de voc, uma mudana radical. Comece por se desvencilhar (eu sei que no fcil) da euforia que nessas ocasies se apossa das pessoas. Comece por colocar os ps no cho. Lembre-se de que voc ainda no morreu e que o seu mundo, o nosso mundo real ainda se chama Planeta Terra aonde o buraco mais embaixo. Aqui, o simples fato de procurarmos viver um dia atrs do outro j exige de ns muito esforo e sabedoria. No tarefa fcil desafiarmos as dificuldades e vicissitudes que o mundo atual nos impe para trilharmos os caminhos da honestidade por onde somente cabras da peste triunfam depois de encarar com dignidade, persistncia e superao, os perrengues aos quais todos ns estamos vinculados.
A vida no d saltos e em sua reta no se permite atalhos. Se voc daqueles que gostam de tudo que fcil esteja certo de uma coisa: voc est se utilizando de atalhos e como todo e qualquer atalho, quando voc menos esperar estar retornando ao mesmo lugar. Quem tem objetivo na vida tem uma rota a seguir. Caminhar por ela em toda a sua extenso sem se olhar para os lados e no final da jornada poder dizer, conscientemente, alto e bom som, assim como o fez o Apstolo Paulo ao chegar ao fim de sua vida e olhar para trs Combati o bom combate. Acabei minha carreira e guardei a f. Desde agora a coroa da justia que me foi guardada a qual o Senhor, Justo Juiz, me dar. Timteo, 4:7, a maior recompensa.
A vida e o Justo Juiz ao qual Paulo se refere no permitem espertezas ou expedientes. Voc um bom entendedor, mas mesmo assim eu vou lhe explicar. Isso quer dizer que se voc hoje, jovem e forte, deixou de encarar s barreiras que a vida se encarregou de lhe colocar frente, homiziando-se nas vs e traioeiras facilidades, vai acabar, um dia, quando no tiver mais foras, voltando ao ponto onde se encontrava para refazer, velho, reumtico e esbaforido, com a lngua de fora, aquilo que sua esperteza e pendores fteis, outrora, no lhe deixaram sequer iniciar. Ningum engana a Deus. Somos aqui espritos impuros possuidores de viso limitadssima que no nos permite ver um palmo alm de nosso nariz.
No faa, portanto, promessas vazias para o ano que vai comear. Regime, amar o prximo, respeitar a todos, adultos, velhos e crianas, estender mo ao necessitado, visitar hospitais e asilos, levar uma palavra de f e conforto a quem mais precisa devem fazer parte integrante de sua vida durante todos os dias de todos os anos.
No seja tonto. Comear ou terminar um ano to simples quanto as suas necessidades fisiolgicas. Nenhuma diferena faz se voc no for macho o suficiente para travar batalhas rduas, ferozes e ferrenhas, diariamente, para domar o seu eu e mudar de vez a sua vida procurando, sem falcias, mas com disciplina, melhorar um pouco a cada dia. Enquanto voc insistir em permanecer na zona de conforto, a sua vida ser tambm uma zona. Assumir s rdeas do seu destino preciso. A vala mais prxima a vivenda natural para quem deixa a vida se esvair escorando-se em seus barrancos.
isso o que voc quer?
Pense nisso e seja feliz!
E tenho dito.


80663
Por Enoque Alves - 10/10/2015 13:53:37
O BREJO E SUA GENTE X FELICIANO OLIVEIRA

*Enoque Alves Rodrigues

O contedo fsico que possuo sobre Feliciano Oliveira, resultado de pesquisas insones dos velhos tempos em que ainda se compulsavam livros, to robusto que mesmo tendo deixado para referi-lo por ultimo, nesta srie com a qual considero finalizada minha modesta colaborao ao povo de minha terra, ainda tive de reduzir para no exceder as 1240 palavras deste espao e no ofuscar personalidades anteriormente mencionadas de igual importncia para a nossa cidade de Brejo das Almas ou Francisco S. Filho do fazendeiro e poltico de renomada liderana local da UDN, Lauro Oliveira, Feliciano nasceu no Municpio de Brejo das Almas onde iniciou sua longa vida pblica a qual sempre esteve voltada para a qualidade. Ao contrrio de alguns que o antecederam na Prefeitura do Brejo, assim como de uma boa parcela de seus contemporneos, Feliciano sempre foi de fidelizar a excelncia em todas as suas realizaes.
Menino, ainda, colaborava com o pai na administrao da produtiva fazenda quando j sonhava ter em mos s rdeas dos destinos do Municpio de Francisco S. Com doze anos, a contragosto, foi enviado para estudar em Montes Claros e Depois Belo Horizonte, retornando ao Brejo depois de concluir seus estudos. Determinado a seguir carreira na politica, estabeleceu como Quartel General a prpria fazenda do pai. Dali ele disparava petardos polticos de renome e farta projeo local informando sobre sua inteno de se candidatar a algum cargo eletivo por onde certamente conseguiria ser til a sua Cidadezinha de Brejo das Almas que amava. Feliciano, assim como a maioria de ns, Brejeiros, era um eterno inconformado com certos privilgios que outras cidades vizinhas tinham em detrimento de nosso Brejo das Almas ou Francisco S.
De seu posto de observao na fazenda encravada entre as montanhas Brejeiras refletia e matutava, com inquietude juvenil, o quanto a Poltica Social havia sido cruel para com sua terra e sua gente. De vida simples, mas abastada com aquilo que a terra me produzia, no conseguia entender e aceitar passivamente os motivos pelos quais poucos tinham tanto enquanto muitos no tinham nada. De onde, meu Deus, havia brotado tanta misria?
- Prefeito Feliciano, o senhor s vai conseguir ajudar a sua cidade e o seu povo se for um excelente prefeito. O Brejo das Almas j teve muitos prefeitos bons anteriores ao senhor e veja, entretanto, onde ainda estamos... Sonhava!
- Deputado Feliciano, se o senhor no mudar sua forma de legislar revendo este seu pendor para com os pobres vai ser muito difcil ver aprovado algum projeto seu... Seguia sonhando!
Feliciano sabia de antemo o quo infrutferas seriam quaisquer tentativas suas em busca da concretizao do sonho de ser prefeito de Francisco S sem bases polticas e plataformas slidas de preferncia lastreadas no seio das mais tradicionais famlias do Brejo cuja militncia politico administrativa de resultados positivos j se encontrava inquestionavelmente solidificadas desde a fundao do lugar. E disparava os seus petardos em forma de bilhetinhos os quais eram endereados aquelas famlias que, no entanto, relutavam em aceita-lo. Quando, finalmente, conseguiu romper a resistncia ao seu nome no seio dos Dias, Pereira, Penna etc., soube que o mesmo no frua de receptividade fcil entre os Silveira. Ele tinha pedigree no sangue, pois o pai era poltico, mas nenhuma tradio ou experincia que o identificassem com os anseios da maioria. Necessitavam, ali, de algum com mais cabedal de conhecimento e comprovada eficcia administrativa. As dificuldades e mazelas do Brejo exigiam muito mais que um jovem idealista e sonhador. A histria d como tutor poltico de Feliciano certo cnego de nome Sebastio. Mas como veremos mais adiante, ele apenas o iniciou nesta arte, abrindo-lhe s portas ao utilizar-se de seu valioso carisma e prestigio com os quais lhe apresentou junto aos Silveira. Tutor do jovem Feliciano mesmo foi o grande Enas Mineiro de Sousa, pois, uma vez convencido dos reais propsitos de Feliciano, no mediu esforos no sentido de ajuda-lo a torna-los realidade.
Orador eloquente, capaz de levar s lgrimas multides de pessoas, muito bem articulado, pausado no falar, cuidadoso com as palavras e convincente, aos poucos Feliciano conseguiu conquistar a confiana de todos inclusive do prprio Enas Mineiro, uma slida e poderosa liderana local que, apenas para prestigiar Feliciano, cedeu-lhe a cabea de chapa numa demonstrao de humildade, generosidade, desapego e grandeza do Capito, que naquele pleito eleitoral se candidatou a vice-prefeito de Feliciano, tendo ele, Enas, puxado quase todos os votos que elegeria vitoriosa aquela chapa: Feliciano Oliveira finalmente sagrava-se Prefeito de Francisco S (1947-1950) com expressiva votao e o mais importante: o seu vice era ningum menos que o homem mais poderoso da regio, um corajoso e destemido desbravador e empreendedor nato oriundo do nordeste do Brasil tendo de l sado pobre para trabalhar duro e fazer fortuna no norte de Minas: Enas Mineiro de Sousa.
O jovem Feliciano tinha boa vontade e coragem para realizar, mas no tinha experincia e nem sempre sabia como fazer. Nos momentos de insegurana e incerteza o capito lhe dizia: vai, moo. Faa a sua parte. Coloque sempre sua frente os nobres ideais que o motivaram e trouxeram at aqui que eu me encarrego de concretiz-los junto com voc!.
Dito e feito.
Realizaram uma excelente e profcua administrao na Prefeitura Brejalmina.
No pleito seguinte encontramos Feliciano Oliveira retribuindo ao seu benfeitor a mesma gentileza de outrora. Agora era o prprio Feliciano, experiente e realizador, o vice de outro iniciante na Poltica, mas imbudo de desejos de mudanas, filho de Enas, de nome Pedro Mineiro de Sousa (1951-1954). Como da vez anterior, e como no podia deixar de ser, aquela dobradinha reversa conseguiu ser igual ou ligeiramente melhor que a anterior. Obras importantssimas saram do papel, materializando-se em benefcio da populao. Diziam as boas lnguas brejeiras que administrao igual quela s a do doutor Jardim.. No obstante no ter sido contemporneo dessas administraes (tinha eu somente um ano em 1954), conheo-as muito bem pelos escritos que li, e, principalmente, pelo que me falava o meu saudoso av que tinha o vezo de comparar gestes passadas.
As administraes bem-sucedidas de Feliciano Oliveira frente Prefeitura de Francisco S, quer como Prefeito ou vice, proporcionaram ao nosso Municpio grandes saltos de qualidade rumo ao progresso clere e eficaz guardada as devidas propores de morosidade das coisas, feitos e fatos inerentes poca. Tanto verdade que foram suficientes para que Feliciano Oliveira, uma vez mais, ou seja, consecutivamente, alis, acontecimento este indito at os dias atuais, conseguisse se reeleger Prefeito de Francisco S com excelente votao nos pleitos de 1954 (final de seu mandato de vice), para o prximo perodo de 1955-1958. Tinha ele neste quadrinio administrativo como seu Vice um gigante e competente homem pblico, filho de Jacinto, orgulho das Alterosas.
Mais uma vez grandes metas foram batidas e ndices de qualidade de vida antes inatingveis fizeram-se presentes. Feliciano consolidava na Prefeitura do Brejo das Almas os seus sonhos de menino. O timo trabalho, a experincia, o reconhecimento e o respeito polticos conquistados lhes credenciavam, certamente, a alar voos mais altos por outras plagas muito alm das fronteiras de seu querido Brejo das Almas. Ali ele poderia multiplicar por milhares os beneficirios de sua luta e empenho em prol dos mais carentes no somente em seu torro natal.
Foi exatamente o que ele fez. Diga-se, com muito sucesso!
E tenho dito.
*Enoque Alves Rodrigues Brejeiro.


80594
Por Enoque Alves - 26/9/2015 13:05:26
CADERNOS DE EDICLAR. O REENCONTRO COM O PASSADO BREJEIRO.

*Enoque Alves Rodrigues

Quando soube que Karla Celene Campos lanaria o livro Cadernos de Ediclar Memrias do Brejo das Almas, preparei-me emocionalmente, pois j sabia de antemo, que dai surgiriam revelaes que, fatalmente, me colocariam frente a frente com o meu passado hoje distante, naquela cidadezinha que ainda que dela tenha me afastado fisicamente por mais de quatro dcadas, jamais deixei de amar e visitar, mesmo no possuindo l, em dias atuais, pelo menos que eu saiba, qualquer vnculo sanguneo mais forte.

Muito me orgulho do passado simples e despojado no Brejo das Almas, bem como dos rumos que dei a minha vida at o presente momento a partir dali.

Minhas inquietudes, na verdade, curiosidades e expectativas saudveis que se confirmavam a maneira que ia avanando na leitura de mencionado livro, se repousavam em uma base muito slida apoiada que estava sobre trs pilares indefectveis.

1. Conheci o grande poeta popular do Brejo que d nome ao livro.
2. A abrangncia de tempo e espao aludidos em mensagem on-line que li, previamente, tornava-me, como todo Brejeiro daquela contemporaneidade, participante direto de uma histria, verdadeira e real. Os Cadernos de Ediclar se referem a ns.
3. Conheo de nome, a autora de Ventos e Vivncias desde 2000 quando garimpei esta obra sua publicada em 1998, numa Livraria da Bela MOC. Sei do zelo de Karla com a escrita, pesquisadora nata que ao ponto de no desprezar quaisquer mincias. O carinho com que ela se dedica ao que faz e a sua entrega no deixam dvidas da excelncia final do produto que cria.

Mesmo assim confesso que levei um susto ao iniciar a leitura de Cadernos de Ediclar. No esperava encontrar ali, lado a lado, citados com nomes e apelidos, pessoas com as quais tive o privilgio de conviver, principalmente por saber que a grande maioria delas j se encontra, h muito tempo, no andar de cima, nos braos de Deus. Sou um jovem ancio de sessenta e dois anos que apesar de fruir de sade perfeita, sempre evito grandes emoes at mesmo para mant-la como est. Assim sendo, pedi um tempo aos afazeres que me detinham para absorver, calma e tranquilamente, sem sofreguido ou aodamento, as sensaes maravilhosas deste reencontro com a minha histria, com a nossa histria, com a histria de nossa Cidade, que Ediclar e Karla nos relatam.

Particularmente, encontro-me inserido e identificado nesta obra o que muito me envaidece. Brejeiro, assim como o prprio Ediclar o fez um dia, eu tambm deixei o Brejo em busca de melhores condies de vida em luta rdua e frentica por plagas distantes, de entranhas frias, ao contrrio do calor hospitaleiro de meu povo humilde da terra me que me serviu de bero. por isso que muitos voltam. Ediclar voltou...

Compulsar os Cadernos de Ediclar retornar ao Brejo antigo. Muito mais que um livro de histrias reais e versos, so compndios de resgates de nossas memrias e razes e como tal deveriam ser adotados por instituies de ensino de nossa regio. Os psteros que vierem a habitar o Brejo das Almas em longnquo futuro ver-se-o tambm retratados nesta obra valiosa, uma verdadeira prestao de servios da autora, de Ediclar e dos personagens que nela desfilam nossa comunidade Brejalmina. Os que vierem depois de ns certamente que sabero preservar e difundir aos demais o grande palco que foi o nosso Brejo das Almas por onde, atores e atrizes, principais e coadjuvantes, sem dlia ou script, sapatearam, cantando em versos e prosas, interpretando e ensinando a interpretar, com galhardia, elegncia e altrusmo, cada qual com suas virtudes e peculiaridades, suas prprias histrias em forma de novela da vida real que eles e todos ns um dia recebemos de Deus a graa infinita de escrever neste Planeta chamado Brejo das Almas.

Parabns, Karla. Belo trabalho. Que Deus a ilumine sempre!

Obrigado, Ediclar, pelo presente de inestimvel valor que voc legou a todos ns.

E tenho dito.

*Enoque Alves Rodrigues nasceu no Brejo.




80501
Por Enoque Alves - 5/9/2015 10:15:55
O BREJO E SUA GENTE IX - BENJAMIM FIGUEIREDO


O BREJO E SUA GENTE IX BENJAMIM FIGUEIREDO

*Enoque Alves Rodrigues
Entre os cinco ltimos prefeitos que ocuparam a Prefeitura de Francisco S no regime intervencionista, ou seja, Dr. Antonio Tenrio, Dr. Benjamim Marinho Figueiredo, Cel. Francisco Atade, Dr. Othon Novais e Dr. Anbal Serra, antes de chegarmos ao grande Feliciano de Oliveira Penna no inicio do perodo de redemocratizao do Brasil, farei um breve relato nesta minha crnica do ms de Setembro-2015 figura do Belo-horizontino de nascimento e Brejeiro por convico Dr. Benjamim Marinho Figueiredo no s em virtude da relevncia de sua bem-sucedida administrao, mas, tambm, ou qui, principalmente, pelo seu imenso e incondicional amor que sempre demonstrou para com o Brejo e sua gente, por que nem mesmo depois de ter sido vitima de traies politicas de um deputado antigo correligionrio seu, que serviram para abreviar a sua gloriosa gesto no auge de grandes realizaes, radicou-se em Montes Claros de onde obtinha informaes da politica e administrao do Brejo, mantendo-se sempre postos para colaborar a qualquer momento com quem quer que fosse o prefeito, somente pelo simples desejo de seguir servindo ao nosso povo. Por vrias vezes, em noites caladas e silenciosas, humilde e discretamente, sem ser notado, visitava o Brejo das Almas, quela altura Francisco S, postando-se em frente a serra do Catuni de onde observava as paisagens adjacentes, retornando, invariavelmente Montes Claros antes do amanhecer.

A indicao de Benjamim Figueiredo para Prefeito de Francisco S foi feita pelo Governador do Estado de Minas Gerais Benedito Valadares. Naquela poca esta era uma das prerrogativas dos governadores de estado. Tudo normal, no fosse forma confusa, incoerente e desastrada do governador ao tomar sua deciso que acabou por tumultuar todo o processo da indicao e talvez residam ai s resistncias e dificuldades que Benjamim enfrentaria uma vez empossado Prefeito, que certamente contriburam para aflorar invejas e vaidades alheias que culminaram com a interrupo de sua excelente gesto.

Contrassenso?

No!

Realidade.

Sou um modesto executivo da Engenharia. No entanto, entendo, que sempre que algum se prope a escrever alguma coisa, at mesmo por respeito aos poucos que o leem, no pode, jamais, ocultar os fatos que causaram suas consequncias como tambm deve se abster de dourar a plula dando ao personagem retratado virtudes que no teve ou tem. Lealdade aos fatos e respeito a quem l so premissas bsicas de uma formao razovel.

Antes de optar pela indicao de Benjamim Figueiredo, o Governador Benedito Valadares havia dado a sua palavra s principais lideranas politicas do Brejo, divididas em duas correntes opostas sob o comando dos irmos Dias, de um lado Joo de Deus e do outro Gentil Dias apoiado por Osmani Barbosa, (PSD UDN), garantindo que o indicado seria Filomeno Ribeiro, da regio e aceito por todos ali por unanimidade. A robustez e comprometimento de um lder poltico local daquela poca no se media com qualquer aparelhinho Xing-ling como se faz hoje. O cara valia o quanto pesava e o seu peso era aferido pela palavra dada e cumprida. Se o sujeito tinha crdito, se sempre cumpriu com a palavra, todos nele confiavam cegamente at o dia em que deixasse de cumpri-la.

- Fulano falou que at o dia 32 de dezembro deste ano vai fazer jorrar ouro do morro do moc!

Todos acreditavam. Mesmo sabendo que o ms de dezembro s tem 31 dias, preferiam aguardar at o ltimo dia do ms para ver o que aconteceria e s depois disso que iam rever os seus conceitos de credibilidade sobre o tal fulano.

Foi assim que quando o Governador Benedito, - que evidentemente, no era o santo porreta que conhecemos e que jamais deixou de cumprir uma promessa -, roeu a corda, grande frustrao causou a todos os polticos que tinham como liquido e certo a indicao de Filomeno Ribeiro. A decepo era geral no s por que ningum ali conhecia o novo indicado, mas principalmente pela vergonha e orgulho ferido das lideranas que j haviam se comprometido junto s suas bases onde disseminaram a indicao infalvel de Filomeno que aquela altura j era saudado como o novo prefeito de Francisco S. Por onde ele passava era recebido com muita pompa e reverncia. O balde de gua gelada que o governador furo jogou na gente Brejeira e seus lideres com aquela indicao inusitada causou muitos constrangimentos a todos especialmente a Filomeno que viu escapar por entre os dedos a grande oportunidade de ser Prefeito, e ao prprio Benjamim que desconhecia aquela malfadada articulao de bastidores. Mas tambm serviu para lhe despertar a conscincia para a grande responsabilidade que viria assumir assim como para a luta feroz que teria pela frente. Ele tinha de reverter quela situao de insegurana que pairava sobre sua pessoa apenas por no ser do lugar. O primeiro passo seria se tornar conhecido do povo Brejeiro, pois assim ganharia sua confiana e a melhor maneira de trazer o povo para o seu lado para que ele pudesse se mostrar por inteiro e revelar as suas intenes de realizar o seu melhor seria conquistando, antes, os seus lideres. Foi o que ele fez. Aos poucos e com muita humildade o Prefeito Benjamim Marinho Figueiredo ia pavimentando o seu caminho construindo Obras de impacto social irrefutvel. de sua gesto a implantao do primeiro sistema de abastecimento de guas de Francisco S, entre outras. Madrugador, trabalhador contumaz, polido, fluncia verbal perfeita, possua um marketing pessoal de dar inveja aos marqueteiros polticos de hoje, que ao contrrio do grande Benjamim, por no terem o que mostrar, mentem, descaradamente.

Havia, entretanto, outra liderana ali. Alis, diga-se de passagem, a mais poderosa da regio, a qual no se simpatizava muito com Benjamim. Jeito matreiro, de pouco falar, apesar de grande articulador, riqussimo, proprietrio de muitas fazendas sendo a principal delas a Fazenda Burarama, hoje uma linda e progressista Cidade que leva o seu merecido e honroso nome. Exercia poder absoluto sobre os destinos do Brejo das Almas, Montes Claros e adjacncias. Ele mandava prender e soltar. Era, no entanto, de boa ndole e benevolente e ao que se sabe nunca abusou de seu poder e autoridade sobre os menos favorecidos. Parecia justo. Mas estava na poltica para onde levou tambm seus dois filhos Pedro e Antonio. Seu nome? Enas Mineiro de Souza, ou Capito Enas. Cito-o neste final apenas para lembrar que no episdio que culminou com a exonerao do Prefeito Benjamim pedido de um deputado de tendncia duvidosa que fundamentou o seu argumento ao fato de ser Benjamim um prefeito realizador, mas, espalhafatoso, (referia-se a divulgao que dava s suas Obras), o Capito Enas preferiu no tomar partido. No se lanou mo sequer de uma bazuquinha de seu poderio blico. At ai nada demais se no tivesse na sequncia, ou partir da substituio de Benjamim por Francisco Atade, seu correligionrio, ter sido ele, junto com Pedro, seu filho, beneficirios polticos de uma herana abortada no momento em que mais se realizava em prol do povo brejeiro, profcua, arrojada e transparente.

Os homens passam, mas suas histrias ficam.

E tenho dito!

*Enoque Alves Rodrigues Brejeiro.

Esta srie composta por dez captulos que teve incio em Janeiro-2015 ser encerrada no prximo ms de outubro-2015 com Feliciano Oliveira.


Al Brejeiros!!!
hoje, 05/09/2015, s 19:00 horas, na Cmara Municipal do Brejo, o lanamento de nossa amiga e conterrnea Karla Celene Campos. Cadernos de Ediclar a sua nova Obra que pelos informes que recebi, nos conduz ao reencontro com a Histria de nossa Cidade escrita nas ruas, casas, campos e botecos, por seus personagens, muitos j no andar de cima, que a sua maneira a souberam amar, honrar e dignificar.
Sobre esse novo trabalho de Karla, vejam o que diz a grande Diva, maior autoridade no assunto em todo o nosso estado, a doutora Maria Luiza Silveira Teles: http://www.minaslivre.net/site/index.php/85-maria-luiza-silveira-teles/3565-o-passeio-de-karla-celene-e-ediclar-pela-historia-de-brejo-das-almas.
Obrigado!
Um forte abrao a todos vocs!


80383
Por Enoque Alves - 7/8/2015 21:06:14
O BREJO E SUA GENTE VIII JOO BAWDEN


*Enoque Alves Rodrigues

Quando em maro de 1931, Jacinto Silveira passou s mos do mdico Paulo Cerqueira Rodrigues Pereira a direo do municpio de brejo das Almas depois de sua nomeao pelo presidente Olegrio Maciel, pouco ou quase nada se sabia do indicado, na verdade, at aquela ocasio, um mdico de renome em Belo Horizonte. Realizou, no entanto, uma eficiente administrao no obstante ter presidido o municpio por apenas oito meses quando foi transferido na condio de mdico leprlogo, para a Colnia Santa Izabel, em Belo Horizonte. Assim sendo fao aqui este sucinto relato apenas para registrar sua passagem pela Prefeitura do Brejo em virtude do muito que realizou no obstante o pouco tempo que a ocupou. Construo do matadouro s margens do rio so domingos, inicio do nivelamento das ruas e praas, reparos nas estradas que do acesso ao interior do municpio, fiscalizao do ensino, reforma do cemitrio, etc., so algumas obras de sua bem-sucedida administrao.
Nascido no sculo 19, durante o imprio, filho do mdico, poltico influente (quatro vezes governador do estado de Minas) e minerador Doutor Antnio Teixeira de Sousa Magalhes e de dona Maria Angelina Bawden, os bares de Camargo, uma das mais ricas famlias da cidade de Mariana, em Minas Gerais, Joo Bawden Teixeira teve onze irmos e desde a infncia j trazia no sangue o vrus benevolente da mais pura e tradicional poltica mineira, na qual fora introduzido pelo pai, onde a palavra dada sobrepunha a todo e qualquer documento. Ainda adolescente matriculou-se na Escola de Minas, bero da nata abastada, em Ouro Preto, de onde saiu aps se formar Engenheiro Gegrafo, com 23 anos de idade. Muito tempo depois se transferiu para Montes Claros onde juntamente com os coronis Joo Martins da Silva Maia, Virglio Machado e os engenheiros Jos Bawden Teixeira (seu irmo), Nelson Washington da Silva e ele Joo Bawden Teixeira fundaram nesta Cidade a empresa de engenharia Maia, com a qual construiu centenas de quilmetros de estradas de rodagens serto dentro, quando, finalmente, por mera casualidade, ou seja, quando realizava levantamentos topogrficos por uma picada quando menos se esperava, viu-se em pleno centro de um simptico povoado pelo qual de cara se apaixonou. Era o Brejo das Almas com o seu famoso amontoado de pequenas casas e empoeiradas ruas. Ali ele passou a residir de passagem. Assim ns mineiros definimos as localidades aonde nos encontramos em trnsito por que no pretendemos fixar residncia, mas, que no caso do Dr. Joo Bawden tal colocao no funcionou, por que a cada dia que se passava tornava-se cada vez mais potente o seu amor pelo Brejo ao ponto de l permanecer do final do ano de 1930 at o dia da sua morte ocorrida dois dias antes do Natal de 1937.
Na introduo do meu livro O Brejo das Almas em Crnicas fao um pequeno passeio pelas origens das mais tradicionais famlias que residem no Brejo das Almas, hoje Francisco S. Como a maioria dos sobrenomes que povoam at os dias atuais o Brejo das Almas descende de Ouro Preto, Vila Rica e Mariana, o Doutor Joo Bawden Teixeira tambm acabou por se juntar a essas famlias no Brejo. Tornou-se amigo incondicional do coronel Jacinto que em virtude do agravamento do mal de Parkinson j estava se afastando da poltica, assim como do atual prefeito, o mdico doutor Paulo Cerqueira Rodrigues Pereira e das mais importantes foras polticas regionais. Quando o Doutor Joo Bawden tomou conhecimento do afastamento do prefeito Doutor Paulo Cerqueira correu at a casa do coronel Jacinto solicitando-lhe, com humildade, que o indicasse como substituto do Doutor Paulo Cerqueira de quem ele era admirador pela maneira como conduzia a gesto do municpio e pela forma arrojada de trabalhar, salientando, ainda com modstia, suas experincias como engenheiro e que pretendia, com toda sinceridade, dar continuidade aos projetos iniciados pelo Doutor Paulo Cerqueira bem como empreender novas benfeitorias no sofrido municpio. Vrias vozes se levantaram contra o pleito do Doutor Bawden. Ningum ali conhecia o seu passado. Tambm pudera: O doutor Bawden no era do lugar e acabava de ali chegar. Estou me referindo ao final do ano de 1931. Sequer imaginavam que por trs daquele homem riqussimo apesar de aparncia simples, existia uma longa e muito bem consolidada carreira politica que comeou ainda jovem, em Mariana, como vereador, passando por todas as escalas, de maneira que em 1903 j era senador da Repblica recentemente proclamada por Deodoro, em 1889. As lideranas politicas locais encontravam-se rachadas pau a pau ou meio a meio como queira. O fiel da balana ali estava difcil de achar e a tal metade e mais um que decide tudo em nossas vidas ali no se manifestava. Escafedeu-se. No dava o ar da graa. Jacinto apenas endossou o desejo do Dr. Joo, mas, como eu j disse doente, no se envolvia mais com poltica. favor, Sebastio Bessa e seu grupo puxavam de um lado, enquanto que do lado contrrio o grande Rogrio da Costa Negro e seu grupo tambm puxavam com vontade. O argumento de Rogrio era robusto e indestrutvel: O doutor Joo Bawden que havia nascido em bero de ouro em local distante era pouco afeito ao trabalho e no cumpriria com suas promessas por que era demasiado bomio e no seria responsvel o suficiente para zelar pelas coisas do municpio.
Rachados e intransigentes entraram todos para a reunio promovida no Brejo das Almas pelo Partido Republicano Mineiro em casa do prprio Sebastio Bessa e depois de acirrada discusso Rogrio da Costa Negro ainda se mantinha irredutvel em sua posio. Foi quando algum ali temeroso por entregar s rdeas do destino do municpio em mos estranhas, para surpresa de todos os presentes, surgiu em meio aquela reunio, ostentando um empoeirado exemplar do Jornal Liberal Mineiro, da Cidade de Ouro Preto, pertencente ao Partido Liberal, que em sua edio de nmero 93, do dia 16 de agosto do ano de 1884, na seo parlamentar do dia 07/08/1884 se registrava, clara e evidente, a seguinte meno honrosa alusiva ao desconhecido doutor Joo Bawden: dotado de sentimentos de nobreza e dignidade. essencialmente caritativo, amigo sincero e extremado, est sempre pronto a acudir (socorrer) com prazer a voz da amizade e aos reclamos da pobreza de quem ele um firme sustentculo (benfeitor). Como as sementes, os grandes sentimentos precisam de terrenos e estaes prprias para vingar e florescer no corao do nosso magnnimo e ilustre democrata, que um sacrrio de virtudes e por isso florescem exalando perfume nos coraes que sabem conhecer a altura dos seus merecimentos....
Era s o que faltava. Contra fatos no h argumentos j dizia uma sbia raposa da politica mineira de nome Jos Maria. As foras agora se alinhavam em torno de Joo Bawden que acabou tendo o seu nome referendado como prefeito substituto do Brejo das Almas em Janeiro de 1932, consecutivamente.
Quando Vargas determinou eleies gerais constitucionais o Dr. Joo Bawden diante do muito que havia realizado pelo Brejo das Almas foi aclamado e eleito pelo povo prefeito constitucional. Mesmo aps o Presidente Getlio Vargas a 10 de Novembro de 1937, consumar o golpe de estado que lanou o Pas numa ditadura cruel e sanguinria e depois de promover uma verdadeira caa s bruxas, com milhares de prises e destituies violentas de polticos guindados constitucionalmente ao poder pelo voto popular, no encontrando no Brejo das Almas nada que desabonasse a conduta imaculada e transparente do prefeito bom de trampo Doutor Joo Bawden, no lhe restou nenhuma alternativa que no fosse confirma-lo no cargo de prefeito que j ocupava. Infelizmente, agora, pouco tempo ele teria naquela nova gesto, porque vitimado por um ataque de angina veio a falecer no cargo no dia 23/12/1937 quando foi substitudo pelo Dr. Arthur Jardim de Castro Gomes, aqui j retratado. Como justa homenagem ao homem que tanto dignificou a nossa terra o povo Brejeiro exigiu que o seu corpo nela fosse sepultado.
Hoje, ao ver em meu Brejo das Almas, ruas e praas com suas placas ostentando o nome do Doutor Joo Bawden eu me pergunto: qual seria, ao certo, a porcentagem de Brejeiros locais que saberia resumir em poucas palavras a importncia que teve este nome para a nossa cidade?
Acredito que poucos.
E tenho dito.

*Enoque Alves Rodrigues nasceu no Brejo.


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Por Enoque Alves - 4/7/2015 16:12:15
O BREJO E SUA GENTE VII GERALDO TITO

*Enoque Alves Rodrigues

Escrever alguma coisa sobre algum com quem, de certa forma, tivemos, ainda que esporadicamente, algum contato visual em algum lugar do passado, no fcil. As dificuldades se multiplicam por mil maneira que a pessoa que desejamos nos referir, em singela homenagem, tenha vivido intensamente ao transformar cada minuto de sua existncia terrestre relativamente longa, em produzir. Produzir e produzir. O personagem que reverencio neste ms de Julho-15 no desperdiou um segundo sequer da vida que Deus lhe deu com algo que no fosse til. Transitou com inteira cadncia e desenvoltura por todos os patamares da vida, tendo se destacado em todos, mas, principalmente no campo do intelecto, onde com humildade, proficincia, elegncia e maestria grande e valioso legado nos deixou, suficiente para nos orgulharmos dele e pela oportunidade que tivemos de sermos seus conterrneos.
Geraldo Tito Silveira, Coronel, Escritor, Poltico, Professor, Delegado, Historiador, Jornalista, Diretor, Filantropo, Esprita Kardecista Vidente, era um dos filhos de Jacinto Silveira, fazendeiro e poltico e de Maria Luiza Silveira, normalista do outrora povoado de Brejo das Almas, hoje Francisco S, MG, onde nasceu no dia 06/02/1917 e desencarnou em Montes Claros no dia 18/12/2005 de causas naturais, com quase 89 anos.
Aos sete anos matriculou-se no Grupo Escolar de Brejo das Almas onde sua me era professora de onde saiu aos doze anos depois de se formar no curso primrio para ir estudar em Montes Claros, no Ginsio Diocesano. Ao concluir o curso ginasial ento com 16 anos partiu para Belo Horizonte onde mergulhou por inteiro nos estudos e no trabalho, iniciando-se na Capital das Alterosas profcua produo literria ao mesmo tempo em que galgava patentes na policia mineira, onde, aos 24 anos tornou-se oficial aspirante e na sequncia oficial de gabinete, coronel, delegado e outros cargos e estrelas que com meritocracia inquestionvel, resultado de muito trabalho, dedicao e esmero, conseguiu amealhar. Como delegado especial atuou em vrias cidades de Minas, inclusive, em sua cidade de nascimento Francisco S aonde posteriormente veio a ser tambm prefeito, exercendo, respeitosa e dignamente as atribuies que este cargo requer, sempre pautado pela retido de carter, justia social, honestidade e austeridade, auferindo ao errio municipal recursos jamais dantes aportados, sem em nenhum momento se descuidar do exerccio altivo e persistente das aes empreendedoras em resposta s necessidades dos muncipes carentes. Destacou-se, enquanto prefeito de Francisco S, pela ateno especial e prioritria que dispensou ao ensino pblico ao dotar as escolas de razovel estrutura fsica desde o seu mobilirio, alm de estabelecer um calendrio de reciclagem do corpo docente levando levas imensas de professores de volta aos bancos escolares em cidades vizinhas como, Montes Claros, Porteirinha, Monte Azul, entre outras, de onde retornavam com currculos turbinados, mais preparados para reassumirem suas funes s que agora, promovidos e remanejados para outros distritos do grande municpio, mediante melhores salrios e condies de trabalho.
Jornalista e Redator dos bons por mais de 50 anos, daqueles que possuam em um velho caderno capa dura, nomes, endereos e telefones das mais importantes figuras da Repblica de ento, jamais se deixou levar pela ansiedade do furo da notcia antes de checar as fontes e muitas vezes consultar o prprio noticiado. Geraldo Tito Silveira escreveu para vrios jornais, entre eles, o Estado de Minas, Hoje em Dia, Dirio da Tarde, Dirio de Minas, O Globo, Jornal do Brasil, alm dos jornais de Montes Claros, como O Dirio, Jornal do Norte e Jornal de Notcias. Foi diretor-superintendente do Jornal do Norte, de 1983 a 1984. Escreveu para inmeras revistas e mereceu crticas extraordinrias de jornalistas e Redatores famosos em sua poca.
Como escritor, foi o melhor que o norte de Minas j produziu at os dias de hoje. Ningum melhor que o Cel. Tito conseguiu decifrar com tanta riqueza de pormenores a alma do caboclo brejeiro, seus costumes, suas crenas e seus anseios. Sua produo literria robusta e imbatvel. Convivi com ela em infncia e posso assegurar o quanto agregou ao meu saber. Tenho o privilegio de possuir ainda hoje 14 livros, garimpados com muito suor em sebos Brasil a fora, dos 24 que compem sua obra literria publicadas em vida, e outra aps sua morte, sem contar as inditas no total de 10 a serem publicadas. Os livros escritos por Geraldo Tito so enciclopdias balsmicas de viagens no tempo. possvel a qualquer um visitar o antigo Brejo das Almas com suas estreitas e empoeiradas ruazinhas de cho batido, seu folclore e seus personagens da poca sem sair do lugar apenas lendo prolas como O Padre Velho, Lembranas Antigas do Brejo das Almas, A famlia Silveira de Brejo das Almas, etc., tamanha a autenticidade de sua narrao. J o antigo Egito pode ser visitado nas pginas de Memrias de Cludia Prcula ou Pncio Pilatos. Conversa de Meganha, Crnica da Polcia Militar de Minas Gerais, Os Milicianos da Capitania do Ouro, Tocaia de Bugres, etc., nos remetem aos fatos e costumes praticados pela polcia mineira em vrias pocas. Esprita Kardecista praticante, convicto e fervoroso, Geraldo Tito Silveira brindou comunidade esprita, da qual fao parte, com importantes obras como O Evangelho Segundo Judas, Fumaa de Satans, Os Litostrtos, O Salto no Tempo, O Clero da Foice e do Martelo, etc.
Geraldo Tito Silveira recebeu muitos prmios e horarias em vida, que, no entanto, apesar de indiscutveis valores literrios e exaltao ao saber, ficaram muito aqum do jus merecido. Ele foi realmente um homem muito alm de seu tempo. Foi membro da Academia Municipalista de Letras, Academia Montesclarense de Letras, Instituto Histrico e Geogrfico de Minas Gerais e acadmico fundador da Academia de Letras Joo Guimares Rosa, da Polcia Militar de Minas Gerais e chefe de segurana das Usinas Malvinas.
Geraldo Tito Silveira foi casado com a professora Maria Jos Nunes Silveira com quem teve seis filhos. De seu segundo casamento com dona Maria de Ftima Oliva Silveira teve apenas uma filha. A seu respeito escreveu o grande poeta e intelectual, Cndido Canela: Conheo Geraldo Tito Silveira desde os tempos de calas curtas. Ao contrrio do que muitos pensam, trata-se de um homem de bom corao, caridoso, cidado correto, militar digno de seus gales, esprita kardecista convicto, excelente esposo, pai e av amorozssimo.. Por ter lidado com oligarquias que queriam dobr-lo pela fora da autoridade e do dinheiro e com pessoas que o ameaavam, atravs de armas, por circunstncias de sua prpria profisso, ele desenvolveu uma couraa de brabeza. Entretanto, prova das palavras de Cndido Canela foi o fato de ter deixado, por onde passou dezenas de afilhados, filhos de soldados, cabos e sargentos, que sempre o amaram e respeitaram muito.
Depositrio fiel das mais puras e relevantes virtudes humanitrias que nem mesmo a vida dura de caserna ou a dor da injustia e padecimento por longa doena do pai conseguiram abalar, Geraldo Tito Silveira o nosso grande exemplo de que o que bom j nasce feito e que as dificuldades da vida de cada um de ns s devem servir para nos tornarem cada vez melhores. Que a mais slida lembrana que podemos deixar de ns mesmos a do saber com humildade. Herana esta que transitoriedade nenhuma consegue apagar.

E tenho dito.

*Enoque Alves Rodrigues brejeiro.

Vem ai, Feliciano Oliveira. No percam!


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Por Enoque Alves - 4/6/2015 15:12:39
O BREJO E SUA GENTE VI EURICO PENA

*Enoque Alves Rodrigues

Seguindo com a srie mensal que tem por objetivo reverenciar de maneira singela, alguns de nossos antepassados Brejeiros de relevncia maior que se destacaram na histria de nossa cidade pelo muito que por ela realizaram e que com lisura de carter, slidas iniciativas sociais, poltico-administrativa, souberam dignifica-la, ao levar adiante suas gestes com transparncia, honestidade, dedicao e equilbrio sempre privilegiando aqueles que mais necessitavam, preservando, imaculadamente, suas respectivas biografias as quais escreveram com naturalidade, despretensiosamente, etc.
O meu retratado de hoje pertence a uma contemporaneidade recente e possvel que muitos dos poucos que ainda me leem devam ter com ele cruzado um dia em nossa querida Francisco S. Sim, o perodo ao qual me reporto no o do Brejo das Almas. Alis, ele apenas nasceu no Brejo onde viveu at os 24 anos. Mas, fez-se homem, politico e importante mesmo em Francisco S pela qual trabalhou arduamente. Se voc no conterrneo te informo que Brejo das Almas e Francisco So uma mesma Cidade. Pronto: poupei-lhe do trabalho de recorrer Wikipdia. Isto posto, vamos em frente!
Eurico Pena da Silveira o nobre personagem que ilustra esta minha crnica de Junho exatamente por canalizar em torno de si todas as referncias positivas e virtudes singulares das quais grandes castas de gestores pblicos atuais a cada dia se distanciam. Por motivos que imensa parte das inteligncias medianas no alcana competncia, dedicao e honestidade so virtudes que levas considerveis de gestores no conseguem coadunar. Esforam-se, verdade, por vezes, chegando at mesmo a jurar sobre a Bblia que independente das circunstncias que venham a enfrentar seguiro firmes e fortes na defesa de seus princpios lastreados por este trinmio, mas, lamentavelmente, ao tomarem posse de nosso errio se esquecem de que de nada adianta ser competente e dedicado se no for honesto o suficiente para resistir s tentaes do dinheiro fcil. Dureza mesmo para eles, garbosos, faceiros e lisos como o quiabo, somente o drear (assim falamos no Brejo), por que desce macio e reanima. Tomou?
Dedicado, competente e honesto. Empreendedor nato e tocador de obras, assim era Eurico Pena que por duas vezes esteve frente da Prefeitura de nossa querida cidade de Francisco S onde se destacou pela quantidade de obras que realizou. Muitas delas, inclusive, se encontravam com os seus projetos engavetados h dezenas de anos. Conheci de perto, o grande Eurico, sobre o qual fiz um pequeno relato primeiro, acredito, h alguns anos atrs em crnica intitulada Assim Era Francisco S Jardim Pblico Municipal, na qual descrevia a inaugurao desta obra, projetada por outro prefeito, o Dr. Arthur Jardim.
Eurico Pena da Silveira nasceu no Brejo das Almas, hoje Francisco S, Minas Gerais, em 07/05/1914, ao pipocar da primeira guerra mundial. Filho de dona Joana Alves da Silveira e de Tiburtino de Oliveira Pena enveredou-se, muito cedo pelos campos das artes e da poltica tendo sido contemporneo de grandes vultos da poltica local. Foi prefeito de Francisco S em plena ditadura militar, em dois perodos distintos, de 01/02/1967 a 31/01/1970 e de 01/02/1973 a 31/01/1977. No obstante as dificuldades naturais por que passavam o Brasil devido ao regime de exceo e principalmente o norte de Minas onde se localiza a nossa cidade, em meio ao polgono da seca, as administraes de Eurico Pena da Silveira foram todas elas cobertas por grandes realizaes pautadas no bom e barato. Realizou-se muito com pouco dinheiro. Em sua primeira gesto (1967/1970) Eurico elegeu como prioridade revolucionar o permetro urbano do Municpio onde construiu prdios, praas, escolas, pontes, chafarizes e empedrou ruas inteiras alm de fazer seus nivelamentos e corrigir seus traados. Aos bairros de Francisco S, distantes, ngremes e sofrveis, alm de estender essas benfeitorias, levou gua e luz eltrica que at ento no possuam. Aps embelezar nossa cidade, dotando-a de uma nova roupagem e semblante saudvel, alegre e amistoso, Eurico, agora, voltava a sua segunda gesto (1973/1977), progressista e eficiente, para as zonas rurais deste imenso municpio composto, ento, por distritos cujo ndice de analfabetismo, crescimento social e miserabilidade haviam desafiado vrios antecessores e suas administraes, que pouco ou quase nada conseguiram avanar.
Calando botas de couro canos longos e usando calas rsticas do tipo arranca toco e camisa de morim batido, transportado por uma velha rural bandeirante dessas que sobem em serras, Eurico supervisionava pessoalmente as obras nos mais longnquos distritos. Acompanhava tudo de perto. Nesse diapaso, graas a sua coragem e empenho construiu inmeras escolas em zonas rurais inspitas para onde tambm levou estradas e pontes que agora ligavam aqueles pequeninos ncleos marginalizados por desditas anacrnicas, ao centro urbano de Francisco S, onde respiravam os seus iguais, em melhores condies de civilidade. O matuto brejeiro teve sua honra e dignidade restabelecidas por Eurico que para isto nenhum esforo mediu.
Na cultura, mexeu na grade escolar instituindo turnos distintos alm de reforar a merenda da gurizada. Incentivador incansvel do folclore do lugar. Festeiro, convicto, participava de todas as comemoraes brejalminas que ocorrem, quase sempre, no ms de setembro, quando se homenageiam a um milho de santos em cada dia. Presena marcante nos catops. Nas artes, patrocinava compositores e cantores, principalmente aqueles que enalteciam as coisas de Francisco S. Na literatura bancava escritores e suas publicaes nem sempre bem-sucedidas, etc.
Grande baluarte da boa poltica brejeira que praticava em prol do bem comum sem jamais utiliza-la em benefcio prprio. Nascido em famlias de tradies poltica e religiosa secular na vida de Francisco S, Eurico Pena da Silveira, criana ainda, no teve dificuldade em escolher o caminho que seguiria ao crescer. Seria poltico assim como os seus ancestrais. Mas no seria um poltico qualquer. Tentaria, dentro do possvel, ser igual ou prximo ao velho Jacinto, falecido em 1938. Queria prefeitar. Desejava, humildemente, colocar um tijolinho nas paredes de seu Brejo das Almas ou Francisco S. Acabou por erguer muitas paredes nas quais se encontram gravado o seu honroso nome em letras indelveis que o tempo, senhor absoluto da razo, merecidamente, insiste em reluzir, no obstante a sua ausncia fsica j longeva, efetivada que foi em 27/05/1993.
Eurico Pena da Silveira. Esse o cara do qual todos ns brejeiros temos motivos mais que suficientes para nos orgulharmos. Viveu em uma poca aonde a lei do mais forte prevalecia e aqueles que detinham o poder o utilizavam para massacrar os mais fracos e alimentar seus prprios egos. Eurico Pena enfrentou todas as dificuldades tirando leite de pedra sem jamais se esquecer dos menos favorecidos para os quais governava, no obstante vir ele de famlia de posses. O que bom j nasce feito. E fim de papo.
E tenho dito.

*Enoque Alves Rodrigues nasceu no Brejo.

Vem ai, Feliciano Oliveira. No percam!


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Por Enoque Alves - 27/4/2015 08:20:26
O BREJO E SUA GENTE V ANTNIO FERREIRA

*Enoque Alves Rodrigues

Quando em uma bela e ensolarada manh de Janeiro do ano de 1929, Antnio Ferreira e sua mulher Cndida Peres juntamente com sua numerosa prole adentraram s ruas empoeiradas do Brejo das Almas, provenientes da Cidadezinha dos Montes Claros, pouqussimas almas que habitavam o Brejo de outrora sequer imaginavam a importncia que aquele senhor, alto, loiro, de olhos verdes e falar manso teria partir dali e durante toda a sua vida, para o cotidiano pacato daquele diminuto povoado de cuja emancipao (07/09/1923) que demandou feroz e ferrenha luta, ele prprio havia participado na condio de Vereador ainda em sua cidade. Ele nasceu em Montes Claros, onde se formou em qumica farmacutica, mas estava desde o seu reencarne predestinado ao Brejo das Almas.
Uma vez no Brejo, fincou residncia no Largo da Matriz, prximo a nica farmcia do lugarejo de propriedade de Francelino Dias, o Frana, com quem passou a trabalhar at conseguir montar sua prpria farmcia, l pelos idos de 1930 no mesmo Largo da Matriz todo desnivelado e esburacado, sem qualquer melhoria. Assim sendo, quando no ano de 1931, na gesto do prefeito Dr. Paulo Cerqueira Rodrigues Pereira se iniciaram as obras de nivelamento e empedramento das ruas e do antigo Largo da Matriz e adjacncias, Antnio j se encontrava inteiramente estabelecido naquele Largo com a sua bem sortida e frequentada farmcia que progredia vertiginosamente devido ao empenho, conhecimento e popularidade de seu dono que a transformou na melhor botica de toda a regio. O farmacutico Antnio naquelas bandas era a salvao para muita gente. Olhava na cara do caboclo e j sabia qual remdio lhe dar para a cura plena dos males fsicos desde as dores do espinhao at as dores da alma por que ali Antnio, munido de inteligncia impar no campo do intelecto muitas vezes tinha de atacar tambm de psiclogo oferecendo sempre uma palavra terna e amiga de encorajamento e motivao aquela gente sofrida que muitas vezes sequer tinha o que comer em casa. Independente de o matuto brejeiro ter ou no dinheiro no bolso para adquirir o remdio, jamais saia de sua farmcia de mos abanando. Antnio utilizava muito mais os seus conhecimentos na prtica da caridade e filantropia aos menos favorecidos, que para ganhar dinheiro, mesmo vindo ele prprio de famlia simples, de poucos dotes, apesar de ter sustentado sua grande famlia com o conforto necessrio e com toda dignidade de marido zeloso e pai de famlia exemplar.
Compadre do Coronel Jacinto Silveira, fundador do Brejo das Almas, muito antes de ele, Antnio, se mudar para o Brejo, pois ainda em Montes Claros, Antnio e Jacinto j eram amigos e companheiros de bancada na Cmara de Vereadores daquela Cidade na qual Antnio era secretrio tendo sido dele a redao do projeto que se converteria na lei estadual (843) que faria do Brejo, Municpio, de onde plantaram as sementes de um novo porvir para o distante povoado que ambos ombreariam, transformando-o em cidade progressista dentro de suas naturais limitaes. No Brejo das Almas os elos desses dois gigantes, Antonio e Jacinto, viriam a se fortalecer muito mais quando no dia 20 de Janeiro do ano de 1933, na mesma Igreja Matriz que ainda hoje l est, une-se em matrimnio uma filha de Antnio, ento com dezoito anos, com um dos filhos de Jacinto, de vinte e trs anos, cujo enlace de longevidade superior a sete dcadas e meia, se estenderia por toda a vida, pois s se findou depois do ltimo suspiro do filho de Jacinto no ano de 2009 e, mais recentemente, para nossa tristeza, com a morte da Diva Brejeira, filha de Antnio com 100 anos no dia 17/04/2015.
Forjado do mais puro ao, de ascendncia europeia, a vida nem sempre sorrira para Antnio que desde cedo teve de ir luta. No Brejo, dentro do ambiente familiar teve de assumir a conduo do lar e educao dos filhos devido ao dissabor da ausncia da esposa devotada Cndida, para infrutfero, longo e penoso tratamento mental em Montes Claros. Muitas foram s lutas com as quais o gigante Antnio teve de travar com o destino de onde ele sempre ressurgia com mais fora e resilincia.
Poltico, Farmacutico Diplomado, Mdico sem Diploma, Escrivo de Paz, Orador e Poeta. Em todas as enumeradas atividades que Antnio ocupou deixou sua marca indelvel gravada posteridade de curta memria. possvel que poucos saibam hoje quo relevantes foram s iniciativas deste grande Brasileiro para a vida de nosso pequeno torro natal de nome Brejo das Almas.
Na politica, combativo e atuante vereador e secretrio na Cmara de Montes Claros, entre outras aes de cunho social, foi o autor e redator do projeto que se converteria na lei 843 que tornou o Brejo das Almas Municpio independente. Farmacutico, exerceu com dedicao e generosidade essa nobre arte em beneficio dos menos favorecidos. Mdico sem diploma, muitas doenas diagnosticou em seu inicio recomendando ao enfermo procurar tratamento imediato em cidades com recursos. Foi de Antnio, o mdico sem diploma, o primeiro diagnstico de cncer na garganta do padre Augusto que depois mediante sua recomendao procurou o doutorzo diplomado Joo Jos Alves na bela MOC. Como escrivo de paz, ele colaborou na resoluo de muitas pendengas que invariavelmente conduziam seus litigantes aos melhores termos. Orador eloquente, Antnio era capaz de levar s lgrimas o mais duro corao. Em todo e qualquer evento ele era convidado para realizar a abertura e encerramento onde deixava fluir em dico clara e didtica perfeita os sentimentos arraigados no recndito do mais puro e elevado saber. O Brejo das Almas que agora se chamava Francisco S no tinha um hino que o enaltecesse e identificasse. Professores e alunos lamentavam no ter um hino para cantar em homenagem a jovem beldade do norte de Minas, quase adolescente, que recentemente havia se emancipado. Atendendo ao clamor da professora Maria de Jesus Sampaio coube a Antnio escrev-lo, brindando a todos ns, Brejeiros que amamos esta terra com o mais lindo hino cuja letra foi musicada por Corinto Cunha, tambm poeta e amigo de Antnio:
-Brejo das Almas ou Francisco S... Igual a ti, outro no h....
Lembram-se?
Pois .
Depois de todas essas dicas e deste extenso prembulo no possvel que voc ainda no saiba a que Antnio me refiro. A menos que voc no seja Brejeiro. Nessa condio voc estaria desculpado. Mais se voc nasceu no Brejo, mesmo no vivendo l assim como eu, voc teria a obrigao de saber de cor e salteado quem foi esse sujeito.
Antonio Ferreira de Oliveira era Niquinho Farmacutico no Brejo das Almas ou Niquinho Acar como era conhecido em Montes Claros, onde tambm era farmacutico.
Niquinho Farmacutico pode ser considerado um dos grandes expoentes do velho Brejo das Almas. Conseguiu, neste torrozinho de meu Deus, colocar em prtica todos os atributos com os quais a Divina Providncia o dotara. Exerceu todas as suas atividades sempre voltadas para a benevolncia e crescimento do Brejo e de sua gente. Mesmo assim conseguiu amealhar com toda a sua honestidade, razovel patrimnio que, no entanto, no muito afeito as coisas materiais e, principalmente, pelo vicio do alcoolismo que infelizmente adquiriu, veio a falecer desprovido de bens materiais na residncia de sua filha amada e do genro querido. Levou consigo a maior riqueza. A certeza plena de que enquanto neste mundo peregrinou ofereceu a todos indistintamente o seu melhor sem em momento algum pedir algo em troca. Doou-se por inteiro aos que dele necessitavam e com isto partiu feliz no obstante o sofrimento imposto pela doena.
E tenho dito.
*Enoque Alves Rodrigues nasceu no Brejo.
Vem ai, Feliciano Oliveira. No percam!


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Por Enoque Alves - 27/4/2015 08:16:29
O BREJO E SUA GENTE IV ARTHUR JARDIM

*Enoque Alves Rodrigues

Em 24/08/1949, quando Feliciano Oliveira, Prefeito de Francisco S, inaugurava o servio permanente de luz eltrica fornecida pela Usina Santa Marta, a mesma que abastecia Montes Claros, poucos se lembravam de que a iniciativa daquele grande feito que agora se concretizava havia se iniciado, na verdade, dez anos antes, ou precisamente em 30/11/1939, ainda que de maneira precria, na gesto do grande Brasileiro nascido no ano de 1897, em Conselheiro Lafaiete, norte de Minas, de nome Arthur Jardim de Castro Gomes, ou melhor, Doutor, sim, ele era Doutor, no por ter sido o grande engenheiro que foi o que para ns j seria uma grande honra, mas, principalmente por sua inteligncia, carter, competncia, e integridade inquestionveis em todos os postos que ocupou.
Talvez a pobreza de dados que atualmente se encontram disponveis sobre o Doutor Arthur Jardim de Castro Gomes se justifica pela inexistncia de rguas capazes de dimensiona-lo integralmente, em toda a sua magnitude. Sabemos que nem sempre a histria prdiga ou justa para com os grandes vultos que efetivamente a souberam escrever, quase sempre com letras de sangue, por que eles existiram em uma poca em que tudo era mais difcil e muitas vezes para levar adiante os seus projetos tiveram de tirar leite de pedra, alm de se sacrificar ao extremo em prol do ideal de realizar o seu melhor para assim minorar o sofrimento dos mais carentes.
O Dr. Arthur Jardim de Castro Gomes que tambm foi Prefeito da cidade de Corinto tornou-se Prefeito de Francisco S de 1938 1942, no perodo intervencionista, em substituio ao Dr. Joo Bawden Teixeira que morreu repentinamente. Em sua bem-sucedida administrao frente Prefeitura Brejeira a cidade que ainda chorava seu lder recentemente desaparecido (08/01/1938) se transformou em um verdadeiro canteiro de obras. O arrojado Plano Diretor que o Prefeito Dr. Arthur Jardim escreveria de prprio punho para por em prtica no primeiro ano de seu mandato, contemplou todas as reas vinculadas direta ou indiretamente ao desenvolvimento urbano do sofrido Municpio de maneira que ao chegar ao final de sua gesto quase nada restava por fazer do que havia planejado. Em seu relatrio, a guisa de prestao de contas, que ele escreveu e enviou ao ento Governador do Estado de Minas, Benedito Valadares, em dezembro de 1942, deixa claro em linguagem simples e objetiva que soube dignificar o cargo que lhe fora confiado com grandes e incalculveis realizaes em beneficio da cidade e de seus muncipes, que lhe propiciavam conscincia tranquila do dever cumprido.
Enumerar as realizaes do Dr. Arthur Jardim na Prefeitura do Brejo significa correr riscos de omisso. Fez tanto que ainda hoje permanecem inabalveis os pilares de sua administrao. Da radical mudana topogrfica do antigo traado das ruas brejeiras com aterramentos colossais que sepultavam o feio fazendo brotar o bonito, escavaes que punham abaixo montanhas de terra que durante anos desafiaram cabeas geniais, terraplenagens extensas e nivelamentos abismais que colocavam cara a cara em condio de igualdade o aclive ngreme com o declive, empedramentos, prdios, jardins, barragens, criou bairros e distritos, etc.
O Prefeito Arthur Jardim abusava de suas multifaces qualidades na cavernosa arte de engenhar. Grande parte dos projetos que executou quando se achava na Prefeitura do Brejo foram produzidos por ele. Saram de sua prancheta e ganharam formas pelo seu nanquim. Ele mesmo os fazia e ainda corria para executa-los. Tambm, pudera. O cara era tudo na engenharia. Ele era engenheiro topgrafo, engenheiro civil e eletricista, engenheiro rural, engenheiro paisagstico e engenheiro urbano. Para o Brejo das Almas daqueles tempos, ento, o Dr. Arthur Jardim no poderia ter vindo em hora mais oportuna. Ele era tambm escritor, conferencista, jornalista e articulista de vrios jornais entre eles, Gazeta do Norte, Gazeta do Lavrador e Dirio da Noite, entre outros.
Membro da Maonaria onde praticava fervorosamente seu amor e devoo por todos. Intelectual acadmico, tendo ocupado a cadeira de n 26 da Academia Montesclarense de Letras, tambm naquele egrgio templo do saber patrono da cadeira de n 14 ocupada com humildade, sapincia e galhardia pela escritora e professora Karla Celene Campos. O Dr. Arthur Jardim foi tambm funcionrio graduado de instituies de renome e projeo nacional como Estrada de Ferro Central do Brasil, Departamento de Estradas e Rodagens, Departamento de guas e Esgotos de Minas Gerais, etc.
Fez todos os seus estudos, do primrio Escola Superior de Engenharia em Belo Horizonte. Foram seus pais Jos Henrique de Castro Gomes e dona Celestina Jardim de Castro Gomes.
Mesmo no sendo o Dr. Arthur Jardim de Castro Gomes, Brejeiro de nascimento, conhecia o brejo como ningum ao ponto de escrever a mais bela e completa monografia onde discorre com riqueza de pormenores nossa regio como a fauna com suas variadas espcies de animais domsticos que vivem no Municpio de Francisco S, que em sua maioria se constituem das mais comuns em varias partes do Brasil. Aves e pssaros selvagens caractersticos da regio, canoros e de belas plumagens. Dentre eles o sofr, o corricho, o canarinho amarelo e o pardo, o pintassilgo, a patativa, o bicudo, o curi, o pssaro preto de trs espcies, o cardeal e a brabeza e mais seis espcies de beija-flores. H tambm as pombinhas verdadeiras e amargosas, a juriti, a inhambu, a zabel, o sabi, o tico-tico, o bem-te-vi, a codorna, o quem-quem, os anuns pretos e brancos, as rolinhas pedrs e parda, o Joo congo, o Joo de barro, e muitos outros. Com relao s aves de rapina, catalogou varias espcies de gavies de penacho e o carcar. Em se tratando dos animais selvagens mencionou a suuarana, a lombo-preto, e em algumas regies o tigre, a anta, os gatos maracaj e marisco, a raposa, o caititu, o queixada, os tamandus, os tatus pebas e bola, a paca, os veados, os coelhos, as cutias, o guaxo, os pres e a jaratataca. Quanto a serpentes, a maior mesmo a jiboia, a caninana, a jararacuu, a cip, a cascavel, a coral, a jararaca e outras mais. No tocante as variedades de peixes so muitas, a comear pelo grande surubi do rio verde grande, o dourado, as curumbats, as traras, o piau e, ainda no rio verde e vrias lagoas, os grandes jacars, as ferozes piranhas, os mandis, etc.
Referindo-se flora o Dr. Arthur Jardim nos diz ser quase toda constituda de CAMPOS Limpos, Cerrados e Gerais. CAATINGAS Altas, de vazantes, baixas e mdias. CATANDUVAS Altas e Baixas. Informa que nas Catanduvas encontram-se o Pau de leo, garapa, potumuj, ip, catinga de porco, e outras mais. J nos cerrados o pau terra, o vinhtico, a cagaiteira, a samambaia, o tingui, a caraba, o angico e outros, quanto s serras que rodeiam o nosso municpio destacou todas elas de acordo com suas grandezas como a Serra do Catuni, um planalto que desce bruscamente, na vertente ocidental, que a do Verde Grande, de 900 1000 metros de altitude mdia, 700 650 na base da elevao, etc. Falou da orografia composio do solo e subsolo brejeiro que segundo os seus estudos geotcnicos avanadssimos para a poca, so compostos de vrias camadas entre elas a de argila, calcrio, lajedos, xistos, cascalho, quartzo, entre outras. Sobre a hidrografia do Brejo das Almas o Dr. Arthur informava ser ela pobre tendo em vista que a maioria dos rios e crregos que banham o Municpio feita de rios temporrios, ou seja, aqueles que s existem no perodo das chuvas tendo destacado como principais permanentes naqueles tempos hoje nem tanto, o Verde Grande, o So Domingos, e o Gorutuba, etc.
O Doutor Arthur Jardim utilizou em beneficio de Francisco S grande parte de seus conhecimentos topogrficos, pois com desprendimento e generosidade que somente os que atingiram elevados nveis de grandeza so capazes, graas ao seu amor incondicional pelo Brejo, colocou o nosso municpio no mapa do mundo ao embrenhar-se em suas entranhas de matas fechadas de difcil acesso, tendo convivido durante trinta dias com todo tipo de obstculos, onde o caboclo lhe transmitia em dialeto nativo seus usos e costumes e outras preciosidades roceiras que viriam ilustrar o seu rico libelo mongrafo, tendo de l retornado somente depois de concluir os estudos das linhas imaginrias e seus paralelos, meridianos, latitudes e longitudes que definiriam com exatido as coordenadas geogrficas ou a posio que ocupa a Cidade de Francisco S no Globo por onde todo e qualquer ser em qualquer parte do Planeta consegue localiza-la. Talvez para voc, da gerao GPS, isso no diz nada, mas naqueles tempos significava tudo.
Ufa!
Que prazer falar do grande homem que foi o Doutor Arthur Jardim de Castro Gomes. Que bom poder enaltecer aqui neste pequeno espao, um pouco do muito que ele fez. Que timo seria se os brejeiros de hoje e psteros jamais o esquecessem.

E tenho dito!

*Enoque Alves Rodrigues nasceu no Brejo das Almas.

Vem ai, Feliciano Oliveira. Aguardem!


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Por Enoque Alves - 27/4/2015 08:13:37
O BREJO E SUA GENTE III NECO SURDO

*Enoque Alves Rodrigues

Quando no final do ano letivo de 1924 o professor Jos Maria Fernandes que lecionava na nica escola do Brejo das Almas foi substitudo pelo professor Manuel Jos Veloso, vulgo Neco Surdo, codinome este alusivo ao seu estado de surdez, apenas a normalista Maria Luiza Silveira, maestra maior, cuja batuta o velho Neco obedecia, sabia que no se tratava de uma simples e corriqueira transio, no obstante t-la efetuado sob o argumento mais que justificado que consistia no srio envolvimento do antecessor com o lcool. Discreta e silenciosamente, escrevia-se ali, com letras indelveis, o prenncio de uma nova era que revolucionaria, durante muito tempo, o ensino pedaggico no recm-emancipado municpio.
Trpego e alquebrado. Muito mais velho que o professor anterior, Neco Surdo tambm se diferia deste no tocante a metodologia. Tambm adepto da palmatria, verdade, mas bem menos rigoroso e mesmo ranzinza, era, por vezes, alegre, compreensivo, tolerante e brincalho. Enquanto Jos Maria se utilizava de uma rigidez arcaica onde qualquer displicncia do aluno era punida com a palmatoria, o sucessor, de jeitos simples e despojados, apesar de enrgico, distribua simpatias na mesma proporo em que irradiava didtica e cultura para a petizada carente do saber. A sua deficincia auditiva em nada interferia em sua conduta e eficincia pois, sempre que alguma dificuldade em entender ou fazer a leitura labial do aluno lhe surgia que o impossibilitasse de dispensar-lhe a ateno necessria e sanar s duvidas, ele recorria, imediatamente, mimica e trejeitos do inspetor escolar Mateus Alves. O nico problema, bem, temos ento um problema, contrariamente ao que afirmei poucas linhas atrs, era que o inspetor Mateus em matria de mimica era uma negao. Jamais havia frequentado uma Universidade de Mmica. Sabia tanto de mmica quanto este velho engenheiro de medicina. Mas ele dava l suas pauladinhas. E assim, de gestos em gestos, entre uma careta e outra, inspetor, professor e alunos iam se entendendo e a cultura ali s se expandia. Grandes homens se formaram naquela poca pelas mos do professor Neco Surdo.
Ao mesmo tempo em que se preparava para abolir a palmatoria naquela escola, ele trouxe de volta s mos dos alunos, o lpis e o caderno que, inusitadamente, haviam sido proibidos pelo professor de antes que dizia serem desnecessrios por que os alunos tinham de decorar em dez minutos os textos que ele escrevia no quadro negro assim como as fraes aritmticas. Quanto aos intervalos de recreios onde Jos Maria colocava, sistematicamente, a molecada para carpir mato, o bom Manuel Jos aproveitava para brincar com as crianas e ao mesmo tempo solucionar questes pontuais que porventura no conseguiram assimilar na formalidade do ambiente escolar. Enquanto os meninos jogavam com bola de meia, s meninas que se mantinham separadas dos meninos somente nos intervalos, jogavam peteca. Numa poca em que sequer se falava em emancipao feminina era impensvel imaginar que naquelas bandas pouca distino havia entre meninos e meninas que compartilhavam dos mesmos anseios de ser algum, depositando nas mos de um simples professor s rdeas de seus destinos que invariavelmente os conduziriam pelos caminhos do bem.
Certa vez ou precisamente no dia 22/12/1925 o padre Augusto Prudncio da Silva saia de seu Orfanato na Rua da Amargura em direo a Rua das Aroeiras onde se localizava a escola do professor Neco. Vinha ele numa misso muito importante: elegeria os dez melhores alunos que haviam se destacado naquele ano para que passassem o Natal junto aos seus quarenta pequeninos dos quais ele cuidava com o maior carinho. O padre chegou ali na hora do recreio e desejava observar maneira com que cada criana se comportava no ptio. Neco no sabia daquela visita inesperada. No havia sido informado. Os padres daqueles tempos eram tidos como fieis representantes de Deus na terra alm de serem dignos de todas as honras de um chefe de estado. Qualquer municpio tinha dois gestores, o padre e o prefeito. Sem contar que quela poca o padre Augusto que havia sido prefeito em Montes Claros (1901/1904) era, tambm, vereador no Brejo. Apesar de bondoso e compreensivo, ele era demasiado rigoroso. Todos conheciam sua fama de homem enrgico que no tergiversava quando tinha de falar a verdade.
Por uma razo que a prpria desconhece, coube ao pobre do inspetor escolar Mateus Alves visualizar primeiro o padre que, aparentemente no o vira. Ato contnuo, disfarada e sorrateiramente, tratou de correr para avisar o professor Neco Surdo que, entretido, batia uma bolinha com os seus pupilos do outro lado do muro. Apesar da curta distncia, intil seria gritar. Primeiro por que Neco era surdo e no o ouviria e segundo porque poderia chamar a ateno do padre que aguardava.
Criativo ou sem sada, no importa. a necessidade que faz o sapo pular. Lanou mo de um pano branco o qual ps sobre a cabea e galgou a escada no sentido de sinalizar para Neco do outro lado. Por mais que Mateus tentasse, Neco no conseguia ler-lhe os gestos. Quando ele passava mo sobre o pano branco na cabea em aluso tnica e aos cabelos brancos do padre, Neco, irritado, gesticulava de l o chamando de velha coroca e caduca. Paciente, Mateus, cujo interesse era apenas salvar a pele do mestre, colocou um dos ps sobre o muro com o qual pretendia imitar o padre que mancava de uma das pernas. Escorregou-se caindo de costas aos ps do padre que bem mais alto que ele observava h muito tempo o professor Neco interagindo com os seus alunos em um momento de paz e descontrao que o padre ao invs de repreender como pensava Mateus, elogiou, assim se expressando:
- muito bonito de se ver um professor, do alto do seu saber, se divertindo com os seus alunos onde por alguns instantes se nivelam como criaturinhas de Deus que so!.
E virando-se para Mateus, disse-lhe:
- Levanta-te da, meu filho... Essa brincadeira sua de subir em muro e ficar pulando igual Saci Perer com uma perna s no nada saudvel e voc pode se machucar... V brincar junto aos demais. Por favor, avise ao professor Neco que quando terminar o recreio preciso falar com ele. sobre o Natal das crianas daqui!.
Pois .
A vida simples de ser vivida. Somos ns que a dificultamos, por vezes, quando queremos nos antecipar ao pensamento dos outros.
E tenho dito.
*Enoque Alves Rodrigues nasceu no Brejo das Almas.
Ateno: Feliciano Oliveira vem ai!


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Por Enoque Alves - 1/2/2015 14:39:01

O BREJO E SUA GENTE II PADRE AUGUSTO


*Enoque Alves Rodrigues


Augusto Prudncio da Silva nasceu no dia 31 de Julho de 1856, em Montes Claros, quando esta localidade situada ao norte de Minas Gerais j no era mais uma colnia dos temidos ndios tapuias ou do bravo Bandeirante Antnio Gonalves Figueira. A praa onde hoje se encontra erguida a velha Matriz era o ponto central da comunidade. Algumas ruas adjacentes j eram caladas o que dava um aspecto limpo e civilizado ao lugar.


Aos cinco anos de idade, seus pais, Camilo Prudncio e Maria j notavam sua forte inclinao para as coisas eclesisticas. Aos sete anos Augusto Prudncio j acompanhava o vigrio, o cnego Chaves, seu padrinho, no lombo do cavalo em viagens pelas freguesias. Dois anos depois de o primeiro bispo de Diamantina, dom Joo Antnio dos Santos fundar o Seminrio Diocesano naquela cidade, em 1865, Augusto, ento com 11 anos foi internado neste Seminrio no ano de 1867, graas influncia do cnego Chaves, de onde, 12 anos depois se sagraria padre, aps receber a ordem de subdicono em 20/06/1878, de dicono em 21/12/1878 e ter lecionado latim no prprio Seminrio enquanto aguardava completar a idade mnima de 23 anos para ser consagrado padre o que viria a ocorrer no dia 03/08/1879.


Augusto era aos vinte e trs anos quando se tornou padre, um jovem muito bonito, alto, (media 1,81 metro), musculoso, loiro, de olhos azuis, lbios grossos e usava culos com lentes pequenas e aros de ouro em decorrncia de leve miopia que segundo diziam, fora causada pela intensa leitura muitas vezes luz de lamparina altas horas da noite.


Aos 23 anos ou precisamente no dia 16 de agosto de 1879, vestindo uma batina nova de tecido brilhante, colarinho rendado e um barrete de trs bicos o jovem Augusto Prudncio acompanhado de uma multido de amigos e vizinhos, saia da residncia de seus pais em direo a Igreja Matriz, que naquele tempo se denominava de Parquia de Nossa Senhora da Conceio e So Jos de Montes Claros, onde celebraria a sua primeira missa. Augusto foi o terceiro proco daquela Igreja construda inicialmente no ano de 1769 como simples capela passando por vrias mutaes at chegar ao estgio atual. A primeira criana batizada pelo padre Augusto, ainda em Montes Claros, chamou-se Osrio tendo o jovem padre se afeioado tanto a este menino que o tomou como pupilo e foi responsvel pela sua criao e educao. Talvez tenha iniciado ai o seu grande amor e devoo que demonstrou durante toda a sua vida de quase 75 anos de idade pelos pequeninos menos favorecidos que ampararia em seu orfanato na cidade que adotaria como bero como veremos na sequncia.


De vez em quando o Padre Augusto, montava a cavalo e chegava at o distrito de So Gonalo de Brejo das Almas, a fim de visitar os parentes. Ele j ia ali anteriormente para ministrar as festas religiosas, hospedando-se em casa do coronel Jacinto Silveira. Falecida a sua me, em Montes Claros, consolidou-se a sua transferncia em definitivo para a freguesia de Brejo das Almas.


Em 1904, depois de haver exercido o cargo de presidente da Cmara de Vereadores e chefe do Executivo municipal (prefeito 1901/1904) em sua terra natal, Montes Claros, aps eleio disputadssima e cheia de peripcias, por solicitao prpria feita a Dom Joaquim Silvrio, sucessor de Dom Joo, foi transferido para a freguesia de So Gonalo de Brejo das Almas, hoje Francisco S. Tratava-se de um recanto solitrio, para onde nenhum outro padre se arriscaria. Pequeno lugarejo prximo serra do Catuni cuja origem remonta poca colonial, quando o garimpeiro audacioso se aventurava pelos sertes procura de pedras preciosas, no mesmo lugar onde um dia (02/11/1704) certo bandeirante fincou um rstico cruzeiro em madeira e bradou alto e bom som um vaticnio que infelizmente ainda hoje em dias atuais do ano da graa de 2015 no se confirmou completamente de que aquela terra se transformaria em um comrcio prspero e que muito orgulho daria aos seus locais. O amigo ao qual me refiro que no era Mineiro do brejo como ns, mas Paulista de Santos, s no conseguiu ver em sua bola de cristal os obstculos que seus psteros teriam de transpor para levarem adiante a rdua tarefa diagnosticada em sua otimista premonio da qual podemos dizer com a imparcialidade natural de filhos das Alterosas que at o momento pouco se cumpriu, a no ser o amor, orgulho e devoo que mantemos pelo Brejo das Almas, nossa terra, que permanecerem impregnados, incondicionalmente, em nossa mente, corao e espirito e como bons Brejeiros que somos almejamos um dia ver todas as predies do grande desbravador cumpridas.


Sua posse como vigrio do Brejo foi festejada durante oito dias seguidos, recebendo a freguesia das mos do vigrio de Gro Mogol, padre Agapito. Como a parquia no tinha casa para residncia do padre, Augusto passou a residir em companhia de Jacinto Silveira.


No Brejo das Almas o grande Brasileiro, pescador de almas, Augusto Prudncio da Silva, foi escrevendo, paulatinamente, com a caneta da humildade e amor ao prximo os seus exemplos de vida, cuja marca persiste at hoje no obstante decorridos 84 anos desde que partiu (17/03/1931) vitimado por um cncer na garganta, primeiramente descoberto pelo competente doutor da farmcia Niquinho, e depois confirmado pelo doutorzo Joo Jos Alves, na bela MOC.


A primeira escola pblica de Brejo das Almas deve a sua criao ao Padre Augusto, que a construiu ao lado da casa de Jacinto Silveira. Como a esposa deste era normalista, a seu pedido, o Governo nomeou-a professora, abrindo assim a primeira picada no ensino primrio naquela diminuta povoao. rduo defensor dos pobres e oprimidos construiu anexo casa paroquial um orfanato onde amparava a infncia rf de quarenta crianas o qual mantinha duras penas com os parcos recursos que conseguia angariar.


Realizou a ampliao da antiga igreja e no campo da religio promoveu verdadeira revoluo litrgica junto aos fiis que s fazia aumentar. Comandava pessoalmente as festas religiosas com danas, cnticos e gincanas onde a populao prazerosamente se divertia. Nas artes, com os meninos de seu orfanato, organizou uma banda de msica a qual deu o nome de LIRA que tinha a frente o Mestre Jos Maria e com ela disputavam torneios musicais com bandas de Montes Claros. Com isto o padre Augusto incentivava o culto das artes e das letras completando a formao intelectual de seus alunos, pois os mesmos j tinham oficinas de carpintaria e sapataria onde aprendiam o ofcio para a conquista do po.


Na Poltica Brejeira Augusto foi vereador atuante (1924/1930) na primeira legislatura do recm-instalado municpio. Na ordem pblica, peitou muitos bandoleiros em inmeras colunas de desordeiros que antes se formavam nos confins do nordeste e que se dirigiam s localidades ermas para promoverem a barbrie como assaltos, estupros e assassinatos de pessoas indefesas. Entre os bandoleiros, Manduca e Alfredo, vulgo Alfredo eram os mais temidos. O primeiro cismou de amarrar um cavalo no cruzeiro em frente igreja quando o padre rezava missa. Incontinenti, pediu licena aos fiis, interrompeu a missa, foi l fora e passou o maior sabo no valente Manduca que, amedrontado com o padre, desamarrou a animlia do cruzeiro, mas no dia seguinte foi forra, roubando-lhe trs vacas que o padre de igual forma o fez devolver debaixo de vaias de seus capangas. J Alfredo teve de interromper vrias festas que promovia ao som de msicas altas e muita cachaa. O padre Augusto chegava, dava um horrio para o bandoleiro por fim a farra e no tinha mais conversa.


Possua o dom da premonio e clarividncia. Com o seu simples olhar mandava quebrantos e outras mandingas para o espao. No tempo em que viveu, a lei do mais forte era mantida mira da escopeta. A sua forma correta de ser e agir o fez se encontrar muitas vezes na mira de algum com o dedo no gatilho que, no entanto, no disparava por que na hora h o dedo do valente borra-botas travava o qual pilhado pelo padre em seu desafortunado intento se derretia todo se ajoelhando aos ps do padre a pedir perdo que s era dado depois de grande sermo que invariavelmente deixava o absolvido em palpos de aranha. So inmeras as aes com as foras ocultas que tem o padre Augusto no centro. Possua uma fora no olhar capaz de ver atrs dos montes e mover montanhas. No as utilizava, no entanto, salvo quando necessrio.


Em seus aniversrios a Rua da Amargura onde morava era toda enfeitada. Em 31/07/1916 quando ele completou sessenta anos, vrios discursos foram ali proferido sendo o que mais o emocionou foi o da menina Edith Silveira com o menino Jos Galvo Bicalho que lhe ofereceram um ramalhete de flores. missa de ao de graas comparecia quase toda populao brejeira.


Afirmam os mdicos que o cncer uma das doenas mais cruis e que mais atormenta o organismo do homem. Como corolrio aos que vieram ao mundo em misso santificada, o padre Augusto Prudncio da Silva colhido que foi pela doena, muito sofreu. Jamais a amaldioou. Ao contrrio, cansado, com 74 anos, vergava agora sob o peso inclemente das dores que nem mesmo a agulhada de morfina conseguia conter. Nestes momentos de dores extensas seus olhos azuis lacrimejavam e ele delirava. Em seu delrio de frases desconexas o que se ouvia entre um gemido e outro eram Senhor... Maria... Estou... Aqui... Abade... Confessor...


A folhinha marcava 17 de maro do ano de 1931. Um velho pataco talhado em madeira localizado em sua cabeceira assinalava 15 horas e 23 minutos, quando o Padre Augusto Prudncio da Silva deu o seu ltimo suspiro aps receber a extrema uno que lhe foi dada pelo Cnego Marcos Premonstatense, Salineiro, de origem belga.


Ningum ali queria acreditar que um ser to bondoso fosse colhido nas malhas da morte. O imenso cortejo o levaria de novo velha Matriz onde merecidamente frui o repouso dos justos. Sim, apenas repousa, por que os justos e bons no dormem, jamais.


E tenho dito.


*Enoque Alves Rodrigues nasceu no Brejo das Almas.


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Por Enoque Alves - 11/1/2015 17:16:45
O BREJO E SUA GENTE I JACINTO SILVEIRA

No prximo dia 8 de Janeiro de 2015 o nosso querido Brejo das Almas ou Francisco S estar completando 77 anos desde que viu partir rumo ao mundo maior, com quase 67 anos de idade, o seu fundador e principal defensor Jacinto Alves da Silveira, que durante toda a vida travou, no campo de batalha da politica, na maioria das vezes enfrentando inimigos sem rostos, ocultos por falsidades e traies, lutas ferozes que varavam noites, no sentido de ver concretizado o sonho de emancipao politico-administrativa do Brejo das Almas do municpio de Montes Claros o que ocorreria em 1923/24, para que atravs deste feito, conforme ele imaginava, o seu povo pudesse usufruir-se de dias melhores e de um futuro menos incerto. Faleceu Jacinto em 1938 depois de ter padecido durante doze longos anos do mal de Parkinson cuja patologia neurolgica degenerativa o obrigava a arrastar-se pelas ruas do Brejo at a antiga sede do agora municpio onde trabalhava arduamente numa demonstrao clara e inequvoca de dignidade, retido de carter, fora e persistncia, deixando gravado em letras indelveis posteridade os mais slidos e reais exemplos de vida que se encontram apenas na lide honrada uma vez que somente por este caminho o homem consegue escrever o seu prprio nome nos anais de uma histria igualmente digna e longeva.
Lutador incansvel pelos direitos de seu povo, ntegro, transparente, correto em todas as suas atitudes, honesto at a medula, numa poca em que a mosca varejeira j sobrevoava o mundo da poltica, Jacinto Silveira conduzia os destinos do povo Brejeiro para o porvir, assim como Moiss do Egito o seu povo rumo Terra Prometida. Jamais perdeu uma eleio. O Brejeiro daqueles tempos sabia reconhecer os valores inalienveis daquele homem e o tinha como a um verdadeiro Lder. E como tal ele se comportava: respeitador e cerimonioso, de falar pausado, mirava sempre nos olhos do interlocutor e no o interrompia enquanto falava. Firme, convincente e assertivo. Jamais tergiversou ou se utilizou de meias verdades para expressar o seu pensamento. Era homem de posies claras e definidas. Benevolente e despojado, servia a todos com amor sem pedir nada em troca. Disciplinado, sabia ser enrgico sem ser jactante. Muitos foram os Governadores de Estado que utilizaram o prestigio de Jacinto. A palavra dele era uma ordem e nela todo e qualquer Brejeiro acreditava cegamente por que Jacinto a proferia com clareza e nunca deixou de cumpri-la.
Jacinto Alves da Silveira foi, at hoje, o nico capaz de reunir todos os predicados que habilitam qualquer individuo a afirmar ter vivido a vida em toda a sua plenitude na prtica do bem. Descendente de famlias de Ouro Preto, assim como Pena, Oliveira, Dias, Xavier, entre outras, Jacinto, um dos muitos filhos do velho Fazendeiro Jos Alves da Silveira, nasceu no Brejo, l pelos idos de 1871, quando o Brejo sequer sonhava em ter as feies de hoje. Assemelhava-se, muito mais, ao longnquo dois de novembro de 1704, quando no passava de uma vasta mata s margens dos rios Verde Grande, So Domingos e Gorutuba, onde Antnio Gonalves Figueira fincou pela primeira vez, ao lado da Lagoa das Pedras, o imenso cruzeiro que marcaria para sempre, no tempo e no espao, o inicio de uma nova era. Jacinto, ao contrrio de seus outros irmos que eram todos Fazendeiros, desde a infncia, apesar de rstico, j se revelava muito inteligente, quando lia, escrevia e realizava clculos difceis at mesmo para quem tinha a mais elevada cultura. Era, desde aqueles tempos, um iluminado, na mais clara e lmpida definio do termo.
Alto, bigodes aparados e cabelos cortados escovinha, Jacinto trajava-se sempre de brim-cqui. Em sua juventude percorria no lombo do cavalo por estradas de cho batido, a longa distncia de 270 quilmetros conduzindo grandes manadas de gados de corte que eram vendidas na cidade de Curralinho, hoje, Corinto, situada ao norte de Minas Gerais. Com 24 anos conheceu e casou-se com a normalista Maria Luiza de Arajo, na velha Matriz de Montes Claros, no dia 16 de Novembro de 1895. Maria Luiza foi durante toda a vida, sua fiel e inseparvel companheira, a qual foi responsvel pela conduo dos destinos do povo brejeiro no campo da educao e cultura, enquanto Jacinto preparava esse mesmo povo na poltica e principalmente para a emancipao administrativa do Brejo. Jacinto foi o primeiro presidente da primeira legislatura municipal brejeira, 1924/1930, que era composta pelos seguintes vereadores: Padre Augusto Prudncio da Silva, Francisco Fernandes de Oliveira, Jos Dias Pereira Zeca, Joo de Deus Dias de Farias e Rogrio da Costa Negro, este ltimo, um grande comerciante do ramo de tecidos.
Rico, dono de vrias fazendas de gado e cultivo, casas comerciais e muitas outras fontes de renda, Jacinto Alves da Silveira, homem que durante toda a existncia sempre teve a casa cheia de amigos e correligionrios aos quais sempre ajudava com recursos pessoais, sem qualquer interesse ou apego material seno ao simples prazer de servir. Bancava, do prprio bolso, inmeros candidatos em campanhas eleitorais carssimas. Depois de ter custeado a emancipao do Brejo das Almas onde, tambm, doou ao estado prdios de sua propriedade para comporem a Sede Administrativa e o Conjunto Arquitetnico do Municpio, condio esta indispensvel a sua aprovao e homologao, morreu, no entanto, pobre, mas digno e praticamente s, tendo ao seu lado apenas os familiares mais prximos.
No sem motivo que um de seus filhos, o tambm Coronel Geraldo Tito Silveira, assim se expressa em um de seus lindos libelos, referindo-se as indiferenas das quais fora vitima o pai: Nos ureos tempos de sua vida abastada, quando ele plantava as sementes de uma pequena fortuna, depois esbanjada nos ardores da poltica, feita somente para o bem-estar de outrem, sua casa solarenga vivia repleta de amigos. At ento, no se via pela estrada real, que ia dar Bahia, uma s pousada ou hospedaria, de modo que os forasteiros que por ali passavam procuravam a casa do Coronel Jacinto, onde recebiam todo o conforto, gratuitamente. Muitas dessas pessoas eram acometidas de terrveis pestes inclusive febre brava!.
E arremata o grande escritor do Norte de Minas, Geraldo Tito Silveira, agora lamentando mais uma grande injustia com a qual brindaram o pai. Alis, muito j falei sobre tal injustia que espero um dia, qui nessa atual encarnao ver corrigida: Como corolrio da ingratido dos homens, mudaram o nome de Brejo das Almas, no para perpetuar o nome de Jacinto Silveira, na terra que engrandecera, mas para honrar o nome de outro Brasileiro, Ilustre, verdade, mas que nada fizera por ela.. Refere-se ao Doutor Francisco S, (1862-1936), nascido na fazenda Brejo de Santo Andr, que naqueles tempos pertencia ao Municpio de Gro Mogol e que foi Ministro da Viao e levou a Estrada de Ferro Central do Brasil at Montes Claros, esta sim, muito lhe deve.
Servidor nato e dedicado que jamais guardou mgoas ou fugiu luta, no obstante toda a ingratido que recebeu, em virtude de seu incondicional amor pelo Brejo e seu povo, se realizassem hoje uma chamada oral convocando homens de bem a colaborarem com qualquer causa que tivesse por objetivo o bem comum, a justia social, a luta contra as desigualdades dos menos favorecidos, algum, digno, decente, probo e humano em quem, todos ns pudssemos nos espelhar, ao gritarem o nome Jacinto Alves da Silveira!, com toda certeza ouviramos, prontamente, em algum lugar do Brasil a voz firme, forte e determinada do coronel e grande Lder Brejeiro:

Presente... Eis-me aqui!.

E tenho dito.

*Enoque Alves Rodrigues nasceu no Brejo das Almas.


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Por Enoque Alves - 2/12/2014 20:48:09
COISAS DO BREJO - GARAPAS BREJEIRAS I





Coisas do Brejo Garapas Brejeiras I

*Enoque Alves Rodrigues

Herana de nossos antepassados que aqui se aportaram com suas caravelas, ainda hoje, esporadicamente, aqui e ali, se cultiva no Brasil e principalmente no norte de Minas Gerais, a tradio milenar dos engenhos artesanais que em sua maioria so aqueles cuja moagem feita mediantes trao animal ou especificamente por algumas cangas de bois quando se quer produzir em grandes escalas melado, rapadura, mascavo, doce, puxa, cachaa, etc.

Em meus tempos de menino quaisquer famlias detentoras de um pequeno pedao de terra se destacavam pelo cultivo da cana de acar e a sua posio econmica era medida pelo tamanho do engenho que tinha assim como pela quantidade de cangas, trelas ou parelhas de bois que utilizavam aos seus servios.

No Brejo das Almas ou Francisco S e suas adjacncias as moagens se iniciavam l pelo ms de Julho e se estendiam at o ms de dezembro absorvendo mo de obra excedente e barata que, via de regra, tornava-se obsoleta imediatamente aps o trmino das atividades nos engenhos. Durante a colheita e moagem da cana famlias inteiras se acorriam s fazendas por que sabiam que em todas elas havia o fator gerador de seus estipndios com os quais pelo menos durante aquele semestre supririam suas necessidades mais elementares. O ganhme era pouco, mas o trabalho pesado que as mantinham era constante e com isso dava para ir enganando o estmago. Todas as fazendas iniciavam ao mesmo tempo a moagem da cana quando o cantar dolente das moendas em sinfonia perfeita, ecoava pelas quebradas do serto sem fim. Eu ficava extasiado naquele mundo e me sentia como se os meus ps tocassem o solo de outro planeta.

Mantendo a tradio, o meu av que possua um bom pedao de terra tambm tinha o seu engenho. Portanto, conheo muito bem essa rotina de perto, pois com ela convivi em infncia. Alis, vrias foram as oportunidades em que me referi aos engenhos do meu av em minhas crnicas e livros. Por que era uma rotina no mnimo curiosa at mesmo para quem do meio..

No caso particular do meu av e seu engenho, ao contrrio do que muitos possam pensar, os preparativos se iniciavam em Janeiro de cada ano partir da seleo e treinamento workshop dos bois e composio de seus respectivos pares com os quais iriam conviver por longos seis meses. Tinha de existir uma qumica entre as parelhas e esta qumica se aferia desde a sintonia dos olhares passando pela arrancada ao mesmo tempo em obedincia ordem do tocador at a manuteno do mesmo ritmo de puxamento nova ordem de parada ou break para um lanche ou caf dos dignos colaboradores ruminantes, bem como dos humanos que no ruminam, mas tambm so filhos de Deus e no so de ferro, pois saco vazio no para em p. Soma-se aos preparativos dos bois s cangas em madeira leve e macia que o meu av talhava com toda maestria e carinho para no machuca-los. Relhos e ferres ou qualquer efeito coercitivo no existiam ali. Todos trabalhavam ordeira e prazerosamente sem imposio alguma por que todos ali tinham conhecimento e conscincia plena de suas importncias e tarefas que coroariam com xitos a busca obstinada da excelncia no final da jornada.

As atribuies hierrquicas desenvolvidas pelos seres humanos dentro de um engenho em plena produo algo hoje impensvel e seguramente difcil de acreditar razo pela qual me poupo de me aprofundar em sua narrativa pela complexidade que incansavelmente j expliquei ou pelo menos tentei explicar em crnicas antigussimas e mais recentemente em meu livro O Brejo das Almas em Crnicas. Para lhe refrescar um pouco as ideias as atividades interativas (por que em um engenho de verdade no existe ningum trabalhando s, isoladamente) lembram, e muito, o trabalho de formiguinhas em seus habitat.

Enquanto no canavial um caboclo corta a cana o outro a transporta para o carro de bois onde outro caboclo depois de acomoda-las ordena aos bois para que puxem o carro at o engenho aonde outros bois esperam para triturar a cana convertendo-a em bagao. Chegando ao engenho outro caboclo (o singular que utilizo uma mera licena potica por que em um grande engenho tudo superlativo. Tudo no plural) limpa a cana e leva at as moendas que aps mo-las subtrai-lhes, exausto, determinado lquido dos deuses que ainda em sua fase primitiva recebe o nome nada pomposo de garapa o qual, felizmente, ostenta por pouqussimo tempo ou somente enquanto percorre dentro do cocho a distncia entre s moendas e o tacho de bronze fumegante pelo fogo nos fundilhos. Dali, ela, a garapa, vai passar por vrias mutaes e metamorfoses de acordo com a determinao do dono do engenho que fica muito difcil imaginar que o produto final no qual resultou tudo aquilo foi garapa algum dia.

uma caminhada escalonada e progressiva a que a garapa empreende desde que sai da cana e a cada ponto por ela atingido um produto pronto e acabado. De posse de uma cuia escumadeira ou espumadeira, com a qual se retira a espuma, quem determina o ponto certo e a qual produto o mesmo corresponde uma cabocla ou caboclo, no meu tempo era cabocla fmea que recebia o nome de viradeira de garapa, em aluso ao vai-e-vem frentico de sua enxada de madeira que revirava a garapa transformando-a em estado slido sem queimar ou endurecer precocemente o que seria uma perda total da taxada.

O ponto que mais me atraia na taxada e que eu esperava ansiosamente era o segundo ponto. Voc sabe qual o segundo ponto da garapa? No?

Pois exatamente o ponto onde a garapa atingiu o estado semisslido que aquele onde se faz a puxa e os doces antes de ela endurecer o corao nas formas de madeira que a transformam em rapadura que como todos sabem, doce, mas no mole. Poderia discorrer longamente sobre s mil e uma utilidades da cana e seus derivados, bem como nominar cada etapa de seus produtos. Mas fatalmente eu no poderia faz-lo sem chegar mardita que me reservo o direito de me abster pelo fato de jamais ter ingerido lcool e no vou aqui fazer apologia ou propaganda de algo do qual no sei o gosto. Fazer cachaa eu sei. Beber cachaa, no.

Sinceramente, no sei se em meu Brejo das Almas ainda h engenhos. Se existem certo que no so como descrevi. possvel que assim como as mutaes e metamorfoses pelas quais passam a cana na confeco de seus produtos, os engenhos brejeiros hoje no devem ter o menor resqucio do que foram antes. Perderam status. Suas moendas outrora barulhentas emudeceram. No cantam mais. Gostaria muito que em minha prxima ida ao Brejo das Almas algum local me apresentasse a um engenho para que eu o compare com a imagem do que restou no fundo de minhas reminiscncias.

E tenho dito!

*Enoque Alves Rodrigues Brejeiro de nascimento.


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Por Enoque Alves - 1/11/2014 09:05:29
O BREJO DAS ALMAS E AS SECAS DA MINHA INFNCIA

*Enoque Alves Rodrigues

O perodo de escassez de chuvas que atualmente assola grande parte do Brasil onde se destacam por ordem de intensidade os Estados de So Paulo e Minas Gerais me transporta ao querido torro natal de Brejo das Almas dos meus tempos de menino, quando, munidos de garrafas com gua e guiados por dona L (Maria de Lurdes), saiamos da Vila Vieira, antiga Lagoa, em novenas interminveis onde, depois de passarmos pelo Centro do Brejo e largo da Matriz, seguamos em direo ao morro da Caixa Dagua onde depositvamos aquelas garrafas contendo o mais precioso lquido juntamente com as nossas esperanas de que a entidade responsvel pela torneira que faz chover nos atenderia. Quanto mais o Homem l de cima aquecia o seu maarico mais ns rezvamos aqui em baixo. Tempos difceis queles onde o sol no dava trguas ardendo sem d e piedade no lombo do caboclo.

Graciliano Ramos dizia que as secas se diferem uma da outra apenas pela sua durao por que todas as secas so iguais por afetar diretamente o que o sertanejo tem de mais sagrado: a roa, o sustento e a dignidade.

A seca que estamos vivendo nos dias atuais em Minas e em So Paulo alm de ser uma das mais longas em quase 80 anos sem duvida alguma a mais grave e prejudicial por que afeta todos os setores da economia, impactando, invariavelmente, na conta de todos que alm de ter de conviver com a falta dagua para suprir necessidades bsicas de sobrevivncia ter de arcar com os aumentos escorchantes dos produtos que certamente iro reduzir o feijo na mesa do pobre e a gua que o rico esbanjava lavando seus carres. Foi-se o tempo em que as secas as quais se referia Graciliano castigava s o sertanejo. Naquela poca o homem nascia, vivia e morria no campo onde produzia safras que consumia e vendia o seu excedente aos pequenos e grandes centros urbanos. Hoje no. Com o xodo rural que aos poucos foi tirando o homem do campo devido absoluta falta de oportunidades de l seguir produzindo, empurrou-o para a cidade com a cabea cheia de esperana de dias melhores que na maioria das vezes no passa de uma v iluso ou utopia, pois as barreiras com as quais o sertanejo que no foi preparado para viver na cidade ter de enfrentar superaro, e muito, as que dificuldades que ele, outrora, galhardamente driblava no cultivo da terra seca.

No entrarei no mrito da crise do desabastecimento de gua de So Paulo ou do nvel do Cantareira. Vivo em So Paulo, mas sequer sei onde fica essa joa. Isso, no entanto pouco importa. O que importa que independente da gravidade destas estiagens faltou gesto e sobrou incompetncia do Governo. Faltou conscincia e sobrou desperdcio do povo. Mas, nem mesmo isso me interessa j que no escrevo sobre So Paulo.

Voltando para o meu Brejo das Almas, vejo o esforo hercleo que as autoridades esto fazendo para amenizar o impacto desta terrvel seca na vida de seus cidados muncipes. Os rios principais que banham a cidade de Francisco S esto minguando. Queira Deus no desapaream completamente. Crregos que antes corriam o ano todo agora esto secos. H partes que sequer se consegue acreditar ter existido gua algum dia. Lagoas e Brejos que do nome ao meu rinco querido se esturricaram h muitssimo tempo.

Materialmente diramos que a situao desesperadora e que beira a calamidade no fosse f que ainda temos na Providencia Divina. Quando as aes humanas no tem muito que fazer, ou avanar, a alternativa mais sensata que se tem alm de seguir lutando com todas as foras, contar com a ajuda de Deus que a ningum despreza e no final acaba sempre fazendo o melhor, contemplando-nos com a graa das sonhadas chuvas. Isso j ocorreu com as novenas de Maria de Lurdes que narrei em uma de minhas crnicas antigas.

Sejamos perseverantes em nossos melhores propsitos, confiando, primeiro em Deus e depois naqueles que tem s mos os destinos do nosso Brejo das Almas. Teremos muito em breve gua farta. questo de tempo.

Enquanto isto no acontece, retorno-me, em sonhos, minha infncia Brejeira e vou solvendo, lentamente, os momentos felizes onde vejo s enchentes do rio So Domingos com suas guas barrentas que, qual avalanche, traz em seu leito, serra abaixo, troncos e toras, peixes e sapos que dispensa, violentamente, no rio verde grande. Ao norte da minha cidade vejo na elegncia dos seus bancos de areia o rio Gorutuba onde aproveito para descansar. Ainda ao norte correm piscosos os crregos do carrapato, sitio novo, ribeiro de cana brava, o crrego do pau preto, do brejo, mamonas, traadal e do quem-quem. J ao sul da beldade do norte de Minas onde nasci, observo caudalosos, rio boa vista, vaca brava, crrego dos patos, rio caititu (olha o capito Enas ai, gente!), o rio da prata e o crrego rico. Vejo ainda no caminho de Salinas a lagoa da barra. E o que dizer da lagoa das pedras e seus encantos?

Que tristeza que tudo isso no passa de um sonho. Que alegria por a seca ainda no me ter roubado o dom de sonhar. Quanta decepo ao acordar e constatar que o meu sonho no uma realidade. Quo incomensurvel a minha felicidade em saber que os meus olhos um dia presenciaram to maravilhosos acontecimentos. Pena que as minhas retinas de menino no reteram tudo aquilo. Via com naturalidade o infinito na finitude das coisas e tempos e imaginava que aquelas belezas jamais se acabariam.

Eu era feliz e no sabia!

E tenho dito.

*Enoque Alves Rodrigues nasceu no Brejo das Almas.


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Por Enoque Alves - 27/9/2014 09:40:57
FIGUEIRA E O BREJO DAS ALMAS




Figueira e o Brejo das Almas

*Enoque Alves Rodrigues

Quando no dia 30 de Outubro de 1672 o Sertanista Antnio Gonalves Figueira, Paulista nascido em Santos, filho de Maria Gonalves Figueira e de Manoel Afonso Gaia fez sua primeira viagem integrando a expedio das esmeraldas liderada por Ferno Dias Paes e Borba Gato rumo ao norte de Minas Gerais, aquela localidade nada mais era seno um amontoado de matas virgens onde apenas ndios e a pintada reinavam. Figueira tinha fama de grande caador e quando saia caa jamais voltava de mos abanando.

Nesta sua primeira viagem em uma expedio a qual ficaria eternamente gravada nos anais da histria em consequncia de vrios e inslitos episdios o grande Antnio Gonalves Figueira, nada mais era seno um simples ajudante de ordens de seu cunhado Matias Cardoso de Almeida, Tenente naquela expedio. As atribuies de um ajudante de ordens daqueles tempos se restringiam a preparar as montarias para mais graduados montarem alm de se responsabilizar pelos suprimentos da tropa incluindo ai as caadas com as quais a alimentava bem como da cozinha onde preparava o rango da moada.

Esta primeira expedio serviu-lhe muito mais como experincia do que no deveria fazer caso fosse o desejo lograr xito na busca das esmeraldas e outras pedras preciosas por que ao contrrio do que lhe ocorria quando saia caa voltou de mos abanando por que nenhuma pedrinha sequer conseguira colher. Na volpia em busca das verdinhas o Bandeirante Ferno desembestou-se pelos lados da Bahia enquanto que Figueira, seu cunhado Matias Cardoso retornaram a So Paulo para reestudarem novas tentativas que de fato viriam a efeito nos anos de 1.694 e 1698, quando, finalmente definiram um rumo certo: o norte de Minas Gerais ou especificamente em Itacambira ou mais especificamente ainda na Lagoa Vapabu onde segundo davam conta s ms lnguas o prprio Ferno, assim como havia passado e colhido algumas pedras assim como muito antes haviam feito Sebastio Tourinho e Antnio Dias Adorno.

S que tambm desta vez o trem no deu nada certo para eles por que na tal Jaba coberta por matas densas e fechadas bem como por vegetaes rasteiras idnticas rodeadas, pra variar, pelos montes claros que mais se pareciam com as torres gmeas de to iguais que eram acabaram por desorienta-los por que por mais que andassem acabavam saindo sempre no mesmo lugar. Aborrecidos e extremamente desapontados depois de darem sete voltas retornando sempre ao mesmo ponto de partida (hoje essa localidade se chama sete passagens), acabaram por abandonar a expedio das esmeraldas a qual ainda permaneceu por ali durante sete anos, tendo cada qual formado sua pequena expedio sendo que a do Figueira composta por 1000 homens ganhou os rumos do rio verde grande onde se acampou e a expedio de seu cunhado Matias retornou So Paulo margeando o rio grande passando por Miguelpolis at chegar ao vale do Paraba do Sul onde conseguiram umas pedrinhas chinfrins, mas reluzentes.

As coisas no estavam boas para os lados de Figueira. De Santos chegou-lhe a notcia levada que foi por um mensageiro no lombo de um burro que sua me havia morrido. Ele, perdido naquela vasta regio do norte de Minas no havia at ento conseguido nada de mais significativo seno vrios bornais de pedras que imaginava tratar-se de turmalina, um parente meio prximo da esmeralda. Havia ouro sim, metal preciosssimo que ele no muito interessado colhia. Os pataces saltavam-se das entranhas da terra qual mamona estalando em nosso agreste calorento. A fome do ouro com o qual saciavam a fome do maldito El Rei de Portugal j havia ainda no havia passado, mas a moda agora era mais para as esmeraldas e turmalinas. Por isto fazendo couro imensa expedio de Ferno Dias Paes Leme a de Figueira se denominava esmeraldinha.

Antnio Gonalves Figueira acabou dono de uma vasta faixa de terras subdividida em vrias fazendas denominadas de Jaba, Olhos Dgua e Colnia dos Montes Claros. Foi com a inteno de unir os Montes Claros regio do rio Gorotuba e de l at a Bahia, que ele aos treze dias do ms de outubro de 1704 organizou uma diminuta expedio composta de apenas vinte homens partindo em direo ao nordeste quando depois de percorrer vrios dias entre idas e vindas ou mais vindas que idas porque seguia se perdendo e voltando sempre ao mesmo lugar, caindo e se levantando, na histrica tarde do dia 2 de novembro daquele mesmo ano sem mais nem menos, inesperadamente, viu-se na barriga da serra do catuni, ao lado de uma linda mais singela lagoa que desaguava em um riacho com nascentes naquela mesma serra, cuja lagoa se denominava "das pedras" que ao contrrio do que ele pensava e buscava, no eram preciosas, mas pedra mesmo.

Por ser j tarde, dormiu por l onde tambm por ser dia de finados acabou por fincar um cruzeiro de madeira tosca ao p do qual ele juntamente com os seus vinte comandados rezou e que batizaram de "Cruz das Almas das Caatingas do Rio Verde", onde algum tempo depois construram uma pequenina Igreja onde depositaram a imagem de So Gonalo que veio se tornar patrono do lugar. E o resto da histria todos conhece. de domnio pblico.

O Capito Antnio Gonalves Figueira (outros historiadores utilizam "Figueiras") no era, efetivamente, o que podia se denominar de um destemido e inteligente Bandeirante, mas, convenhamos, justia lhe seja feita, no fossem suas trapalhadas, seus perdidos, sua falta de foco e ausncia total de bssola, jamais teria chegado um dia ao meu, ao nosso e ao seu Brejo das Almas querido. Qui, tivesse realizado outras descobertas em outras plagas l pelos lados da no menos querida Bahia. Mas, quis Deus que ele no fosse to longe e assim conseguiu, mesmo sem querer, querendo, dando-nos de presente o Brejo das Almas, ou Francisco S, "beldade do norte de Minas", que hoje cresce a cada dia, sonhando, feliz, a cada despertar, com a aproximao do dia em que real e definitivamente se cumpra mais um vaticnio daquele "Bandeirante trapalho" quando disse que o lugarejo se tornaria um comrcio prspero, no s pela sua posio geogrfica, como tambm pelas riquezas naturais de suas terras.

Que Deus o oua.

E tenho dito!

*O autor nasceu no Brejo das Almas


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Por Enoque Alves - 6/9/2014 21:33:29
parabns meu brejo das almas pelos seus 91 anos de emancipao

Brejo das Almas ou Francisco S, igual a ti outro no h...

*Enoque Alves Rodrigues

Elevado categoria de municpio com a denominao de Brejo das Almas, pela lei estadual n. 843, de 07-09-1923, desmembrado de Montes Claros e Gro Mogol. Sede no antigo distrito de Brejo das Almas. Constitudo do distrito sede. Instalado em 07-09-1924...

Amanh, domingo, 07/09/2014 o meu, o seu, o nosso Brejo das Almas ou Francisco S estar completando 91 anos de emancipao poltico administrativa. Tenho visto alguns folders falando em 90 anos. Acredito que se refiram ao ano de 07/09/1924 quando se instalou em definitivo a sede administrativa do Municpio e nesse caso estaremos comemorando realmente 90 anos de existncia da Cidade e 91 de sua emancipao.

Ao comemorarmos, festivamente uma data to importante para o calendrio de nossa terra e de nosso povo, no podemos nos esquecer daqueles que um dia lutaram e tombaram no sentido de que tudo isso que hoje vivenciamos se realizasse. Os grandes homens que hoje conduzem com eficincia os destinos deste nosso pujante Municpio rumo a excelncia em todos os seus aspectos, foram, de igual forma, precedidos por outros empreendedores contumazes que deixaram para todos ns, brejeiros, seus psteros, marcas indelveis de suas impolutas figuras. Sensveis que somos a tudo o que se encontra a nossa volta, no Brejo ou fora dele, no nos preciso seguir uma cronologia exata para nos depararmos com aqueles que deram os primeiros passos na construo de nosso Municpio para que ele se transformasse no que hoje . Certamente que indispensveis se fizeram as incontveis idas e vindas de muitos Joos de barro s Lagoas que antes existiam em busca da principal matria prima com a qual dariam incio edificao de um amontoado de pequeninas casas que se chamaria Brejo das Almas e depois Francisco S.

A histria do Brejo comeou em 1704. Engana-se quem pensa que a histria de um Municpio s se inicia quando ele atinge a sua emancipao. A emancipao apenas uma etapa no processo histrico de desenvolvimento poltico, cultural, social e econmico de um ncleo demogrfico e sua respectiva geografia.

Da chegada a estas plagas na tarde do dia 02/11/1704 acompanhado por vinte homens, de um Sertanista de nome Antnio, Paulista de Santos, filho de Maria Gonalves Figueira de quem herdou o sobrenome e de Manoel Afonso Gaia, remanescente da expedio de um certo Ferno, at o primeiro tremor no dedo indicador de um Coronel de nome Jacinto que acusaria, tempos depois, a presena do Parkinson, durante acirrada discusso na Cmara Municipal da bela MOC, cuja pauta era exatamente a aprovao do projeto de lei que emanciparia (07/09/23) o Brejo das Almas, ou Francisco S (17/12/38), muitas guas rolaram no Gorutuba e no So Domingos.

De 08/01/38 desencarne de Jacinto ao decreto lei 148 de 17/12/38 transcorreram-se onze meses. Promoveu a alterao toponmica do Municpio de So Gonalo do Brejo das Almas para Francisco S, ilustre Ministro de Viao, mas que ao contrrio do grande Jacinto, nada fizera pelo Brejo. Ao invs de aproveitarem o calor dos acontecimentos da perda irreparvel do grande Lder, oferecendo Cidade pela qual lutou e finalmente emancipou, o seu nome, deram a ela o nome de algum muito importante para o Brasil, mas insignificante para o Brejo.

Do incio da emancipao feminina em 1940 construo do Mariquinha Silveira que foi concebido nos anos 1950 onde foi criado o curso ginasial que preparava as mulheres para uma nova vida at ento restrita a lavoura e cuidar da casa, foram dois lustros. Da transformao e mudana de nome do Mariquinha Silveira para Tiburtino Pena na dcada de 1960 foi um pulo. Da implantao do curso do Magistrio no Tiburtino Pena em 1965 que capacitava as nossas deusas brejeiras a voos mais altos no campo do intelecto at a formao da primeira turma de normalistas em 1967 passaram-se dois anos somente. Do luto velado e permanente das vivas at a participao ainda que tmida do divino ser brejeiro (mulher) na poltica local foi uma eternidade. Pouco mais de uma dezena de nossas guerreiras chegaram Vereana. Em 2004 tivemos no Brejo a primeira candidata mulher a Prefeitura. Vrios partos de porco espinho se deram para que tudo isso se tornasse realidade. Barreiras e entraves at curiosos, pacientemente, superados, fundem a histria da emancipao da mulher brejeira com a do prprio Brejo. No, nenhum machismo: o mundo era assim e no sei se voc sabe, o nosso brejo querido parte integrante do mundo.

Das missas rezadas em latim nos ureos tempos do despojado Augusto a modernidade da igreja do abastado Silvestre, muitos badalos bateram. A centenria palmeira, postada ali, silenciosa, guisa de atalaia no me deixa mentir.

Da fartura do ouro branco (algodo e alho) dos meus tempos de menino s secas que esturricavam o solo sob o pipocar de mamonas e fretenes tristes das cigarras no se passou muito tempo. Somente 18 anos, mas que foram suficientes para me tangerem da vida cotidiana do Brejo que at hoje, seguramente, ainda lamenta a minha perda, no obstante no existir ali uma vivalma sequer que me conhea pessoalmente. Quanto a mim, ento, mesmo tendo conseguido tudo que quis mediante trabalho rduo, mas que me apraz, devo dizer, sem falso romantismo, que continuo escutando o gorjear dos pssaros brejeiros, o barulho de todos os rios que o banham, o cantar da juriti e das revoadas de suas maritacas, assim como do coaxar vespertino de meu igual cururu na Lagoa das Pedras de antanho.

Quantas eleies foram ganhas com a palavra dada e cumprida apenas com o fio do bigode? Do mesmo jeito quantas eleies foram perdidas por que algum deixou de cumprir promessas vazias feitas no af de iludir o povo, soberano em sua sabedoria?

Enquanto isso, na velha Cmara, de Jacinto a Rogrio, de Augusto a Gentil, de Francelino a Jacinto, o Teixeira, de Z de Deus a Euler, de Adalberto a Valda, de Z Nunes a Alineu, de Idalino a Ronaldo apenas para citar alguns, at os dias atuais quantos projetos, simples e polmicos foram aprovados ou deixados de aprovar debaixo de acaloradas discusses?

E na prefeitura do mestre Benfica? Quantos j se passaram? O que fizeram ou deixaram de fazer?

No So Dimas, quantas vidas foram salvas? Quantas pereceram? Se salvas, o estado se fazendo presente no amparo ao Cidado pagador de impostos. Se perdidas, aonde, Deus, se achava o estado? O que aconteceu? Por que diabos deixou que o Cidado Brejeiro morresse? Bem, fcil de explicar: Cidados morrem aqui e em qualquer lugar, at mesmo na Sua! Ok, parcialmente de acordo, mas voc vive na Sua ou no Brejo? Ento: por mim ningum morreria em parte alguma, mas se algum tem de morrer desamparado que no seja em meu Brejo, uai?

Acalmem se, por favor... Chega de urticrias... No empurrem... Vamos devagar por que eu tenho pressa. Mas ainda no acabei...

Dos dignssimos homens pblicos do passado sobre os quais falei acima ao mais vil e reles que constrangeu e decepcionou a nossa gente at o palanque comemorativo das atuais festividades onde desfilam conscincias imaculadamente lmpidas e comprometidas com as causas dos menos favorecidos, revezando-se em seus comedidos discursos onde no tem vez e voz as vaidades e promoes pessoais mais apenas s aluses ao que representa este dia 07 de setembro de 2014 para o nosso lugar, quanto tempo se passou? Muito, mas valeu a pena!

Portanto, regozijam-se Brejeiros. Saiam s ruas em desfile e brindem essa data. Temos muito que comemorar. Os tempos so outros. As mudanas que se faziam necessrias esto, aos poucos, se processando. Estejam certos que o amor filial que vocs demonstram querida me que se chama Brejo das Almas recproco e verdadeiro. A jovem e bem cuidada senhora de noventa anos, alegre e feliz, comovida e carinhosamente lhes agradecem.

E tenho dito.

*O autor nasceu no Brejo.


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Por Enoque Alves - 11/8/2014 20:36:47
EXEMPLOS DE UM BOM BREJEIRO PARTE III

*Enoque Alves Rodrigues

- Bom dia, irmo Laudelino...
- Deus seja louvado!
- Ontem, noite, escutei na Rdio Nacional do Rio de Janeiro que o homem desceu na Lua...
- Mentira... Deus no daria tanto poder e inteligncia ao homem!
- Foi a Rdio quem disse...
- A Rdio mentiu!
- Acredito que neste ano faremos uma farta colheita...
- Isso sim, verdade... Deus seja louvado!
- O senhor precisa se juntar a ns durante s refeies. H sempre uma cadeira para o senhor...
- No posso. No sou digno de tanta reverncia. J lhes dou muito trabalho. Basta as minhas limitaes fsicas causadas pela velhice que no me permitem colaborar com vossa pessoa e famlia nos muitos afazeres da casa...
- No se preocupe irmo. Deus j nos deu mais que o suficiente que a sade para que possamos trabalhar com fervor. De nossa parte no nos nenhum esforo ou favor ampara-lo. Ficaremos agradecidos se pudermos suprir vossas necessidades. Quero que saiba que tudo que temos tambm lhe pertence...
Pronto... A sorte estava lanada, por que a simples citao do nome do Criador por parte de Liberato, meu av, j era a senha de acesso a todos os segredos que levavam aqueles dois senhores de barbas brancas a interminveis conversas que, via de regra, varavam noites. No obstante as elevadas culturas de ambos, amealhadas na grande universidade da vida, alm de professarem a mesma doutrina, raramente seus pontos de vista se convergiam. Convencionaram entre si, por quais critrios eu jamais soube, s iriam dormir quando finalmente chegassem a um acordo. Enquanto isso no ocorria o cu era o limite. Eu, criana ainda, admirador confesso do meu av, ficava ali, de plateia, observando tudo aquilo e, na maioria das vezes, torcendo para que eles jamais se entendessem para que eu pudesse solver um pouquinho mais do conhecimento de cada um. s vezes eu apostava comigo mesmo... Quem afinal cederia? Quem concordaria com quem? De quem seria a palavra final? Frustro-me confessar, cinquenta anos depois, que eu dificilmente acertava. Os caras eram foda mesmo, e quando um j se considerava vencedor ou detentor da palavra final que encerraria a celeuma, o outro, inesperadamente, levantava uma questo de ordem qualquer e, bblia em punho, com o indicador apontando captulo e versculo que sustentavam suas afirmativas na dita cuja, comeava tudo de novo. Enquanto eu cochilava, dormia e acordava o embate corria solto, principalmente nas noites de sextas-feiras por que, como adventistas, no trabalhavam aos sbados, ou seja, o meu av no trabalhava aos sbados j que Laudelino, como j disse, nunca trabalhava por suas limitaes. Era exatamente assim: cada qual se munia de sua bblia e toda e qualquer discusso, dvidas e acertos eram elucidados mediante as claras letras do livro sagrado. Fora dele no havia conversa. O diabo que como acontece ainda em dias atuais, cada um a interpreta sua maneira o que seria at aceitvel, porque difcil e complicado se torna quando um quer convencer o outro de que certa e inquestionvel a sua interpretao. Ai o bicho pega mesmo.
Naquela noite a coisa parecia que ia ferver. Aqueles dois senhores do bem se miravam, de soslaio, como se fossem fulminar o outro.
O tema era festa das cabanas.. Se voc no ou nunca foi adventista quatrocento no vai saber do que estou falando. Isso vem do Velho Testamento. coisa antiga, mas que era costume daquela poca j longnqua. Tambm no vou te explicar por entender subjetivo. O mineirismo proposital.
Pois , Laudelino tentava convencer Liberato, meu av a respeito da origem ou de como, quando e onde comeou a primeira festa das cabanas. Dizia Laudelino que foi Abrao no Egito, um bilho de anos antes de Cristo. J Liberato afirmava categoricamente que quem celebrou essa p pela primeira vez foi Moiss, rumo terra prometida, e que o fez para comemorar as farturas, etc., que data e local jamais poderiam ser as mencionadas por Laudelino por que o tal de Moiss nunca antes pisara aquelas terras. J de inicio se percebia que aquela noite seria longa. Que o tema seria demasiadamente polmico e que os dois debatedores no estariam dispostos a cederem. Que no abririam mo de suas minucias em beneficio do outro. Quando minha Dindinha (av) percebia isto, corria cozinha e preparava chs, biscoitos, gua e leite que deixava sobre a mesa disposio do marido Liberato e do irmo Laudelino que, envolvidos nas acaloradas discusses nunca tomavam conhecimento daqueles mimos.
Cinco horas da manh. De tanto molharem o dedo para folhear a bblia estavam com a boca seca. Mesmo assim no se entregavam. No se deixavam convencer. Os argumentos eram inconsistentes no entendimento de ambos.
Esgotado apesar de curioso para assistir aquele final, acabei dormindo. Ao me despertar s 10 horas vi que o meu av repousava sobre um velho catre que ficava na sala no obstante ser este mobilirio prprio de dormitrio, enquanto que o irmo Laudelino dormia, a sono profundo, sobre duas cadeiras guisa de cama. Frustrado e mais que desiludido por ter perdido o ultimo ato perguntei ao meu av quem havia vencido. E ele, para minha surpresa e felicidade tranquilizou-me: No se preocupe Noquinho. A peleja ainda no terminou. Combinamos apenas uma trgua a fim de descansarmos um pouco para, quem sabe, liquidarmos esse assunto hoje noite... O irmo Laudelino muito sabido, mas um pouco cabea dura!.
- Perdo, meu Deus!... Exclamou meu av, dando trs tapinhas na boca. Eu no queria dizer isto!

* O autor Brejeiro de nascimento.


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Por Enoque Alves - 13/7/2014 12:28:17
FRANCISCO S E AS REDES SOCIAIS EM SUA DIVULGAO

*Enoque Alves Rodrigues

De 2004 at 2009 mantive dois blogs hospedados em sites da Editora Abril, aqui em So Paulo, hoje desativados. No primeiro, denominado Isto Espiritismo, repercutia, sem proselitismos, a Doutrina Esprita disseminada por Kardec, na Frana, em 1854. J no outro blog, Gente, Causos e Coisas do Brejo, divulgava Francisco S, o querido Brejo das Almas. Nele escrevia minhas crnicas quinzenais, hoje vertidas para o livro, O Brejo das Almas em Crnicas..

Quando em 2009 a Abril extinguiu aqueles sites aps t-los mantido por quase cinco anos no ar, jaziam, no registrador de visitas do blog Gente, Causos e Coisas do Brejo, para minha total surpresa e decepo, apenas e to somente a bagatela de 212 acessos. Uma ninharia, suficiente para desmotivar qualquer mortal que se prope a escrever algo. Pois, o mnimo que algum que se atreve a escrever alguma coisa, despretensiosamente, espera, que outros leem e, se possvel, comentem o que se escreveu. Alis, entendo que faz parte de uma boa educao, manifestarmos atravs de um simples recado ou comentrio, toda vez que acessarmos a pgina de algum. uma maneira de dizermos: Ol, estive aqui. Visitei sua pgina rapidamente. Um abrao. Fui!.

No caso em tela, seria muito de minha parte desejar que algum comentasse, visto que ningum lia, porque ningum acessava. O pior, no entanto, j havia ocorrido. Em 2006, criei no Orkut duas comunidades que ainda existem: Al Brejeiro! e Francisco S, Meu Amor!. Pois ... Fiasco total. At hoje o nico acesso que consta l o meu prprio. Para a pergunta que postei: voc conhece Francisco S? Nenhuma resposta. Ou melhor, uma resposta. A minha: conheo, sim, senhor. E da, qual o problema, cara plida? Triste, no! Mas a realidade. Minha filha, que naquele tempo frequentava o Orkut, tinha em sua pgina, inmeros adicionados, enquanto eu no tinha um sequer em minhas pginas comunidades.

- Filha, quando que voc vai prestigiar o papai com sua visita a uma de minhas pginas no Orkut?

- Pai, me desculpe, mas com esses ttulos estranhos vai ser muito difcil algum se aventurar. Acho que estas pginas no tero nenhum outro acesso seno o do senhor! Dito e feito. Ainda bem que eu no escrevi mais nada l. Alias, nem eu sei hoje o que l se encontra. Nunca mais entrei naquela joa. S atualizo a minha pgina pessoal no Orkut por que no posso desativa-la devido ter l adicionados alguns amigos. Que o Orkut com sua morte anunciada para agosto ou setembro de 2014 se encarregue de extingui-las.

Em maio de 2009 ao visitar meus pais em Burarama, passei, anonimamente, um dia e uma noite no Brejo. Ao retornar para So Paulo iniciei pelo site, City Brasil, alguns relatos de pouca relevncia sobre Francisco S. Hoje este blog se encontra com quase 340 mil acessos. Alm dos outros blogs que mantenho alusivos ao Brejo, criados na mesma poca, todos eles muito bem frequentados e comentados.

Mesmo com todas as postagens as quais me referi no inicio destas mal traadas linhas, em 2008, se voc jogasse no Google Francisco S, o resultado da pesquisa trazia um certo Francisco S Carneiro, que at hoje no sei quem . Pois, por no se tratar do meu Francisco S, Cidadezinha que se achava perdida nos rinces das Gerais, terra abenoada por Deus que me viu nascer, nenhum outro interesse teria eu em pesquisar ou procurar saber a quem se referia. Por certo, pelo simples fato de esse senhor ostentar o mesmo nome do Ministro da Viao que d nome ao nosso lugar, j deve ser um grande motivo para fruir de toda felicidade e sucesso. Por favor, no me chamem de bairrista, porque eu sou.

No velho Orkut que hoje agoniza, passaram a criar, aqui e acol, algumas comunidades alusivas ao Brejo das Almas. Nada disso, no entanto, foi suficiente para romper as barreiras virtuais que separavam o nosso Brejo das Almas ou Francisco S do mundo incomensurvel do WWW (World Wide Web), que em portugus significa "Rede de alcance mundial". A coisa no engatava ou talvez porque o Brejo no queria ser alcanado ou quem sabe, ainda, algum brejeiro, sem querer dividi-lo com o mundo, havia enterrado uma cabea de jumento aos ps do cruzeiro.

Hoje, no entanto, graas aos esforos e dedicao de todo o nosso povo, a coisa mudou radicalmente. Se voc digitar Francisco S, receber de volta uma grande enxurrada de referncias sobre a nossa Cidade. Com o advento do facebook e twitter, ento, as comunicaes ganharam muito mais velocidade. Ferramentas poderosssimas que entre suas incontveis funes colocam vrios indivduos online, repercutindo, ao mesmo tempo assuntos, s vezes de pouca importncia aparente, mas que, l no fundo, ao se analisar melhor, se constata, surpreendentemente, que a principal misso dos idealizadores de tais ferramentas est sendo cumprida ao p da letra: aglutinar pessoas, aproximando-as cada vez mais uma das outras. Transportando-as para as diversas partes do Orbe sem que precisem tirar um s p do cho. De deslumbramento comedido, uma vez que encaro tudo na vida com naturalidade, deparo-me hoje com as facilidades que no existiam antanho. No Oriente Mdio abro um simples computador de mo em meio a uma rua qualquer de Bagd e de l meus olhos veem a desfilarem-se no canto direito da pequena tela, tops ou curtas mensagens me informando que algum, em um ponto qualquer do Planeta, curtiu ou comentou o meu link. Que h algum querendo me adicionar a fim de ter-me como seu novo amigo. Com dois cliques sobre um link e em timos de segundos estou dentro do Brejo. Volto para o facebook e os tops continuam me informando: Que o Brejo agora tem um Centro de Memrias. Que voltou a produzir alho como antes. Que as onas do Catun voltaram a atacar rs. Que l em Capivara a dita cuja que d nome ao povoado foi extinta. Que no morro no h mais mocs. Que dos dois riachos s ficou um. Que o uivo dos ventos que varriam as ruas do Brejo emudeceu. Que as guas do Gorutuba e So Domingos esto secando. Que Lagoa Seca transbordou-se. Que a Vaca Morta acaba de ressuscitar, etc. Com o deslizar do mouse sou remetido a fotos antigas dos Padres Augusto, Silvestre e Salustiano, da Casa Viena, do Mercado Velho, do Cel. Tito, de Feliciano, filho de Lauro, de Denilson criana, de Karla Celene, neta de Edith e Antonio, de Wanderlino, em tarde de autgrafos na bela MOC, etc. Com mais dois cliques vejo e ouo um conterrneo vereador, ao vivo e em cores, aos berros, em acalorado discurso na Cmara Brejeira, em defesa de Muncipes menos favorecidos. Dois cliques mais e sou transportado para o mais completo e bem elaborado jornal regional. Trata-se de O Jornal de Francisco S, do amigo Flvio Leo. Aqui, sem que seja necessrio que eu d qualquer clique, mas apenas com a barra de rolagem, vejo-me, como que por encanto, literalmente no Paraiso. Em meio a beldades, formosas mulheres, com olhares ternos e inocentes de quem acaba de deixar a adolescncia, dignas representantes da mais pura beleza brejeira. Estou extasiado. No... No vou mais navegar... Navegar no mais preciso. Quem gostava de navegar era o Cabral e ns sabemos aonde ele foi parar. Perdeu-se pelos caminhos tortuosos das ndias e acabou dando aqui. Quanto a mim, cheguei, finalmente, ao meu Porto Seguro que este cu e estou rodeado por anjos e divas sob intensos cafuns. Daqui no saio. Daqui ningum me tira. No mais desperdiarei o meu precioso tempo com agenda apertada, compromissos inadiveis, clculos matemticos precisos e outras preocupaes naturais de vocs terrqueos. E que o sol da minha vida e razo maior do meu existir, a dona Teresa, no me leia. Amm!

Voltando realidade atual podemos afirmar com toda convico que mesmo a passos lentos, ciberneticamente falando, Francisco S, o nosso Brejo das Almas, hoje conhecido no Mundo. Quanto aos mritos, so de todos ns, seus filhos, que sempre nos orgulhamos em levar adiante a sua divulgao.

Valeu peixe!

*O autor nasceu em Francisco S, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


78292
Por Enoque Alves - 8/7/2014 15:28:08
Exemplos de Um Bom Brejeiro Parte II

*Enoque Alves Rodrigues

Quando Laudelino, o forasteiro, finalizou o culto que ele por iniciativa prpria no obstante ser um recm-chegado quelas paragens celebrou, o meu saudoso av, sbio e tranquilo como sempre, reuniu-se com a filharada informando a todos que por motivos alheios a sua vontade naquele dia ele no faria o culto matinal. Que todos deveriam permanecer atentos para novas recomendaes. Que teria de avaliar melhor as circunstncias que se apresentavam naquele momento para depois fazer o seu juzo de valor e comunicao oficial a respeito dos prximos passos. Que ele, enquanto condutor daquela famlia, se retiraria por algumas horas quando retornaria com a deciso que todos aguardavam.
Lembro-me como se fosse hoje do olhar de minha tia Nira, primognita de meu av a quem idolatrava. Corpo vergado e mos sobrepostas em posio de ternura e reverncia a figura imaculada do pai, aproximou-se do mesmo, e delicadamente disse-lhe:

- Perdoe-me, meu pai, se lhe pareo inoportuna, mas, por favor, se me permite gostaria de vos fazer uma pergunta. possvel?

- Claro, minha filha, como no? Do que se trata?

- Jamais deixamos de ter o culto matinal antes de nos dirigirmos ao trabalho. No consigo entender por quais razes vamos interromper as tradies de nossa doutrina apenas por que um estranho sobre o qual jamais escutamos falar fez aqui, sem a vossa autorizao e consentimento, um culto onde pregou para si mesmo sem a presena sequer de uma vivalma.

- Minha filha, - respondeu-lhe meu av -, o irmo Laudelino, imbudo das melhores intenes fez seu culto onde estava aparentemente s aos nossos olhos. No decorrer desse culto percebi que ele ao passar a palavra para alguns irmos invisveis darem seus testemunhos, ele prprio permanecia em silncio olhando atentamente para algo que eu no conseguia ver, mas que ele certamente os via e ouvia, devido eloquncia com que ele os aparteava, assim como os agradecia por to importantes palavras. Com fundamento nos ensinamentos de Deus e na doutrina que professamos a qual eu sempre lhes transmiti, no devemos acreditar em coisas que no estejam inteiramente ao alcance de nossas vistas. por isso que vou analisar para ver que deciso tomar a respeito desse nosso irmo. Espere com pacincia. Permanea vigilante...
Ao meio dia em ponto o meu av retornou ao casaro da fazenda. Olhar tranquilo e sereno. Feio suavssima que no deixava dvida quanto segurana e firmeza da deciso que tomara.

Com palavras simples, mas, comedidas, proferidas em um s tom, baixas e pausadas como o costume arraigado em nossas tradies Mineiras, pediu que minha santa Dindinha, (av) sua adorada esposa, lhe desse um pedao de cuscuz acompanhado de um bule de alumnio cheio de caf de fedegoso (os adventistas daqueles tempos no tomavam caf por entend-lo txico). De posse daquelas iguarias dirigiu-se ao casebre adjacente onde estava Laudelino a pouco mais de vinte e quatro horas aonde, como se velhos amigos fossem, conversaram na mais perfeita harmonia que se assemelhava a um dilogo de anjos. Por ser eu criana, extremamente apegado ao meu av, nenhuma restrio fez quanto a minha presena ali.

Liberato, o meu av, aps saudar Laudelino, o forasteiro, ofereceu-lhe o caf com cuscuz. Este, agradecido, desculpou-se com meu av por no poder aceitar os alimentos informando que se achava em jejum por uma graa obtida. Diante disso o meu av, calmamente, comeou a falar-lhe sobre o assunto que o levara at aquele local. Eu, pasmo, s observava. Nada podia falar. At por que eu nada entendia.

- Gostei muito do culto que o irmo fez hoje de manh!

- Deus seja louvado, - respondeu Laudelino. - Observamos vossa presena. Os irmos estavam muito felizes com a acolhida que nos destes.

- um prazer t-los em nossa casa!

- Ento, eu posso continuar recebendo os irmos nos cultos que eu realizar aqui?

- Pode. Claro. Como no? Como eu j vos disse, fique a vontade!

- Apenas precisamos combinar uma coisa: Refere-se aos horrios dos cultos. Como eu saio para trabalhar com meus filhos todos os dias s seis horas da manh, gostaria claro, se o irmo concordar, que eu realizasse o meu culto para os meus familiares s cinco horas com a durao de trinta minutos, pois vou necessitar de mais trinta minutos para o desjejum... Pode ser? Depois disto vossa pessoa poder realizar o vosso culto na hora que melhor lhe aprouver, inclusive ter melhor horrio para receber e conversar com vossos irmos!.

- Laudelino no era um sujeito comum. Ele era um ser de luz de marca maior. Chegou aqueles cafunds com uma misso muito especial. Mesmo tendo depois se revelado a pessoa que ele realmente era e que jazia natural e humildemente por debaixo daquela sofrida carcaa, foi difcil ao velho Laudelino suportar tamanha carga de simplicidade, desprendimento, tolerncia, cordialidade e fraternal demonstrao inequvoca de amor ao prximo de um matuto como o meu av que jamais antes sara de sua fazenda a no ser para ir ao Centro do Brejo das Almas, ou Francisco S, onde vendia suas colheitas.

Meio desconcertado, Laudelino, sinnimo de todas essas virtudes s restou exclamar:

- Meu Deus! O que isto, meu irmo?

- Como possvel o senhor me pedir licena para demandar o que vosso? O forasteiro aqui sou eu! Cheguei s suas terras sem avisar. Mesmo assim fui recebido. Fiz um culto onde recebi os meus irmos s cinco da manh acordando a todos e mesmo assim o senhor vem at mim com todo esse respeito e solicitude?

Ao passo que meu av lhe respondeu:

- No sou o verdadeiro dono dessas terras ou dessa fazenda. Apenas possuo os ttulos por que cheguei primeiro e as comprei de outro que tambm no era o dono como dono no foram nenhum dos que por aqui passaram. O verdadeiro Dono disto aqui o Dono do Mundo. Deus. Sendo assim, ainda que fosse da minha vontade eu no poderia negar a ningum o direito a um pouso por curto ou prolongado que seja!

Laudelino agradeceu e a partir dali uma grande parceria se formou.

Nos prximos captulos dessa verdica histria vamos encontrar esses dois gigantes do bem se debatendo entre si no campo das ideias.

E quais eram essas ideias?

Como o Cristo de verdade deve se comportar para tornar a vida de seu semelhante um pouco melhor.

At a prxima, Brejeiros. Fraternal abrao.

* O autor Brejeiro de nascimento.


78016
Por Enoque Alves - 24/5/2014 09:52:28
Exemplos de Bons Brejeiros Parte I

*Enoque Alves Rodrigues

Quando criana passava minhas frias Escolares na Fazenda Terra Branca, no Municpio do Brejo das Almas ou Francisco S, prximo ao morro da masseira, de propriedade de meu saudoso av Liberato ou Joo Albrio Rodrigues.

Adventista, vegetariano e Sabatista, denominao esta atribuda aqueles que guardam o Sbado. Lembro-me que o casaro daquela Fazenda que ficava ao norte de Minas Gerais era todo rodeado de pequeninas casas onde residiam alguns colaboradores serviais alm de outros parentes, prximos ou distantes, que meu av socorria, levando-os para morar ali, onde participavam dos cultos assim como de toda liberdade na casa como se familiares tambm fossem. Naquela fazenda cortada por caudaloso rio, alm da criao de gado leiteiro mantinha o cultivo de todo tipo de cultura, alm de um grande canavial que quando era tempo da colheita o Engenho de madeira puxado por duas trelas de bois gemia dia e noite meses a fio, na fabricao de rapadura, melado e puxa. Que gostoso.

Minha diverso era cavalgar sobre um velho pangar que de vez em quando cismava e me atirava ao cho saindo em desabalada carreira, deixando-me sozinho naquelas quebradas no mais completo abandono.

Certa manh quando o meu av tirava o leite das vacas vi, ao longe, descendo a serra por uma picada que ficava em frente Fazenda, trpego e cansado, um senhor alto, de idade avanada, com barbas brancas, que ao postar-se diante de ns apresentou-se:

- Bom dia, eu sou o Laudelino...

- Que o Senhor esteja nesta casa! Saudou-nos.

- Amm, assim seja irmo. Seja bem-vindo em nome de Jesus! Respondeu-lhe o meu av.

Lembro-me, que jamais saia de perto do meu av, que eu estava com uma cuia tomando o leite quentinho que ele acabava de tirar, misturado com farinha de milho e rapadura raspada. O meu av no conhecia Laudelino, mas ao escutar sua saudao de chegada foi logo dizendo para mim: no se assuste Noquinho, um irmo da Igreja.

- Preciso de um poiso por esta noite. Necessito descansar para seguir viagem!

- um prazer, em nome de Deus, recebe-lo, irmo, em nossa humilde casa. Sinta-se a vontade!

- Amm!

A famlia que o meu av constituiu era numerosa. Era composta por ele, minha av, sete filhas mulheres, sendo uma casada poca (tia Cota) e seis solteiras, alm de trs homens sendo o meu pai o mais velho.

Os adventistas daqueles tempos eram bem mais rgidos por que tinham toda a sua Doutrina fundamentada no Velho Testamento. A denominao seguida por meu av e sua famlia era a do (movimento de reformas que depois passou a chamar-se da completa reforma.). O meu av, j velho, ao levantar-se todos os dias, passava em frente aos dormitrios de todas as filhas e filhos batendo nas portas, e antes de sair para o batente duro realizava um culto matinal s 6 horas onde todos tinham de participar. Ele sempre se postava na cabeceira da mesa e aps entoar hinos punha-se a leitura da Bblia. Apenas ele como o chefe daquela famlia tinha aquela primazia. A ningum mais, nem mesmo ao filho mais velho era permitido assumir a posio de destaque do meu av na direo do culto e na cabeceira da mesa. Naquela manh, por volta das cinco horas, no entanto, algo de muito inusitado estava acontecendo naquela jurisdio disciplinada de quartel.. Pois antes que meu querido av se levantasse, j podia escutar l fora cnticos de louvores e algum a tilintar uma velha enxada convidando os moradores daquela imensa casa a acompanha-lo no culto que faria. Era o velho Laudelino, o forasteiro, recm- chegado quelas plagas. Observador que sempre fui, Recordo-me, ainda hoje das feies de meu av naquele episdio inesperado. Seus aposentos ficavam na parte de cima da casa e da janela pode observar esta cena: Laudelino, que tinha a mesma idade (73) anos e feio de meu av, inclusive a mesma barba longa e branca, prpria dos adventistas de antanho, havia montado uma mesa na frente da casa sobre a qual tinha sua Bblia e na cabeceira assentou-se iniciando ali o culto. Em meio ao culto Laudelino, como se estivesse rodeado de uma multido de pessoas presentes, passava a palavra para alguns que depois de darem seus respectivos testemunhos devolviam-na ao dirigente Laudelino que agora, ou seja, quarenta minutos depois finalizava o culto. Enquanto isto o meu av, calmo como sempre foi, assistia a tudo aquilo de sua janela, tranquilo e sereno e, passivamente, como era de seu costume, sorrindo, deslizando a mo pela sua bem cuidada barba e a cada refro de Glria a Deus de Laudelino l embaixo meu av respondia l de cima em sua janela: Aleluia, amm, irmo!

Curioso, passei a matutar em meu cantinho.

Para quem, diabos, Laudelino estava pregando? Quem eram aqueles seres invisveis a quem ele concedia a palavra? Por que eu no os via? Eram eles realmente verdadeiros? De carne e osso?

E agora? O que aconteceria depois de Laudelino terminar o culto? O meu av faria outro culto ou validaria o culto de Laudelino?

De onde veio Laudelino? Quem era ele? O que pretendia ele ali naquela localidade? Foi enviado por algum? Continuaria por l?

Quem, finalmente, se revelaria por debaixo daquela velha carcaa? Uma pessoa de boa ou m ndole? Por quanto tempo o meu amado av o toleraria?

A que se dedicaria ali? Sim, por que no obstante ele ter a mesma idade de meu av, em termos de condicionamento e fora fsica no o assemelhava em nada. Estava demasiado gasto e at mesmo para dar um passo manquitolava.

Trabalhador incansvel que sempre foi o meu av, ser que ele o manteria ali em sua fazenda sem condies para o trabalho?

o que veremos no desenrolar dessa verdica histria de minha infncia.

At a prxima, Brejeiros. Fraternal abrao.

* O autor Brejeiro de nascimento.



77801
Por Enoque Alves - 18/4/2014 20:05:01
FELIZ PSCOA, BREJEIROS - O BREJO DAS ALMAS EM CRNICAS EST CHEGANDO!

*Enoque Alves Rodrigues

Feliz Pscoa, Brejeiros.

Neste momento muito especial em que todos ns estamos com os coraes voltados para o Smbolo Maior da Pscoa, Jesus, quero desejar a todos vocs, Brejeiro ou no, mas frequentador deste meu BLOG toda felicidade do Mundo. Que todas as suas expectativas se cumpram. Que a verdadeira simbologia da Pscoa se materialize em vossa vida. Que a paz, sade e prosperidade jamais lhes faltem.

O Brejo das Almas Em Crnicas.

O meu livro O Brejo das Almas em Crnicas composto de 302 pginas onde esto elencadas quarenta e seis histrias do antigo Brejo das Almas e de seus personagens que marcaram poca, ser lanado aqui em So Paulo no prximo ms de Junho/2014.

No ano passado eu havia solicitado Municipalidade do Brejo a gentileza de me enviar lista com indicaes de nomes de instituies pblicas, como escolas, bibliotecas e outras entidades de interesse do Municpio para que eu encaminhasse, gratuitamente, alguns exemplares do meu livro O Brejo das Almas em Crnicas.. Acompanhei a evoluo deste meu pedido at a sua terceirizao, encaminhado que foi a outro rgo para que me atendesse. Mesmo no tendo recebido lista com as indicaes dos nomes e endereos para envios, prometo ao meu povo que quando for a Minas passarei no Brejo para distribuir, graciosamente, alguns exemplares diretamente a quem encontrar pelas ruas.

O Brejo e os antigos personagens que fizeram a sua histria a qual muito nos orgulha e enaltece enquanto Brejeiros, no obstante somente alguns fragmentos dela terem sido repassados realmente de pai para filho, so muito lindos e no podemos deixar de forma alguma que tudo isto morra algum dia. O tempo, nem sempre, senhor absoluto da razo, no pode jamais apagar o que h de bom em nossas memrias a respeito de nossa Terra, assim como de sua gente antiga que muito sofreu, vivendo e escrevendo a sua histria de maneira simples, muitas vezes, despretensiosa, no intuito de deixa-la gravada com marcas indelveis a posteridade atual e vindoura.

Em virtude de todas as crnicas relatadas neste livro serem inteiramente inditas, to logo ele seja publicado voltarei a atualizar este BLOG semanalmente como sempre fiz cuja interrupo foi necessria devido ao grande acmulo de trabalho na rea de minhas atividades, conciliado com a reviso de dois livros sendo o prprio O Brejo das Almas em Crnicas e o outro de temtica Esprita que ser distribudo gratuitamente.

Um forte abrao para todos vocs, Brejeiros!

E vamos em frente...

*Enoque Alves Rodrigues nasceu no Brejo.


76785
Por Enoque Alves - 7/1/2014 21:38:58
BREJO DAS ALMAS - 76 ANOS SEM JACINTO


BREJO DAS ALMAS - 76 ANOS SEM JACINTO


*Enoque Alves Rodrigues


Brejo das Almas, 17h30m do dia 8 de Janeiro de 1938. Com quase 67 anos, falecia, depois de padecer por doze anos do mal de Parkinson, no Brejo das Almas, ou Francisco S, distante 480 quilmetros da Capital Belo Horizonte, ao norte de Minas Gerais, Jacinto Alves da Silveira. Portanto, brejeiros, amanh, quarta-feira, oito de Janeiro de 2014, o nosso Brejo completa 76 anos sem o seu fundador, ou principal responsvel por sua emancipao politico-administrativa.

A Parkinson idioptica, ou seja, uma enfermidade primria de causa obscura. H deteriorao e morte celular dos neurnios produtores de dopamina. , por isso, uma doena degenerativa do sistema nervoso central, com incio geralmente aps os 50 anos de idade. uma das patologias neurolgicas mais frequentes visto que sua prevalncia situa-se entre 80 e 160 casos por cem mil habitantes, acometendo, aproximadamente, 1% dos indivduos acima de 65 anos de idade. Apesar do muito que j se pesquisaram, decorridos quase duzentos anos do descobrimento desta gravssima doena por James Parkinson, pouco ou quase nada se sabe sobre suas causas.


O fato que, deve-se a ela, todas as consequncias de doze anos de sofrimentos que vitimaram o grande e insubstituvel benfeitor de nossa Cidade. Tudo comeou quando ainda vereador em Montes Claros, no momento em que lutava pela aprovao de mais um projeto que beneficiaria o Brejo. Ali ele sentiu as primeiras dores no dedo indicador da mo direita, que insistia em no obedecer aos seus comandos. Seu colega de partido, Antnio Ferreira de Oliveira, o Niquinho Acar, ou Farmacutico, quem conta com todos os detalhes, o inicio desse duradouro tormento, que, como j mencionei, doze anos depois ceifaria a vida do nosso mais ilustre Brejeiro.


Jacinto Alves da Silveira foi, at hoje, o nico capaz de reunir todos os predicados que habilitam qualquer individuo a afirmar ter vivido a vida em toda a sua plenitude na prtica do bem. Descendente de famlias de Ouro Preto, assim como os Pena, Oliveira, Dias, Xavier, entre outras, esta ltima pertencente genealogia do grande Mrtir da Inconfidncia, o Tiradentes, Jacinto, um dos muitos filhos do velho Fazendeiro Jos Alves da Silveira, nasceu no Brejo, l pelos idos de 1871, quando o Brejo sequer sonhava em ter as feies de hoje. Ao contrrio, assemelhava-se, muito mais, ao longnquo dois de novembro de 1704, quando no passava de uma vasta mata s margens dos rios Verde Grande, So Domingos e Gorutuba, onde Antnio Gonalves Figueira, dono de vrias fazendas na regio, fincou pela primeira vez, ao lado da Lagoa das Pedras, o imenso cruzeiro que marcaria para sempre, no tempo e no espao, o inicio de uma nova era, de uma promissora civilizao e de uma progressista Cidade, como o prprio Bandeirante profetizara. Jacinto, ao contrrio de seus outros irmos que eram todos Fazendeiros, desde a infncia, apesar de rstico, j se revelava muito inteligente, quando lia, escrevia e realizava clculos difceis at mesmo para quem tinha a mais elevada cultura. Era, desde aqueles tempos, um iluminado, na mais clara e lmpida definio do termo.


Bonito, com 1,80 de altura, bigodes aparados e bem fornidos, cabelos cortados escovinha, trajando-se sempre de brim-cqui, o belo jovem Jacinto Silveira juntamente com outros pees, percorria, no lombo do cavalo, por estradas de cho batido a longa distncia de 270 quilmetros conduzindo grandes manadas de gados de corte que eram vendidas na cidade de Curralinho, hoje, Corinto, situada ao norte de Minas Gerais. Com 24 anos conheceu e casou-se com a normalista Maria Luiza de Arajo, na velha Matriz de Montes Claros, no dia 16 de Novembro de 1895. Maria Luiza foi durante toda a vida, sua fiel e inseparvel companheira, a qual foi responsvel pela conduo dos destinos do povo brejeiro no campo da educao e cultura, enquanto Jacinto preparava esse mesmo povo na poltica e principalmente para a emancipao administrativa do Brejo, que ocorreria em 1923/24. Foi o primeiro presidente da primeira legislatura municipal brejeira, 1924/1930, que era composta pelos seguintes vereadores: Padre Augusto Prudncio da Silva, Francisco Fernandes de Oliveira, Jos Dias Pereira Zeca, Joo de Deus Dias de Farias e Rogrio da Costa Negro, este ltimo, um grande comerciante do ramo de tecidos.


Lutador incansvel pelos direitos de seu povo, ntegro, transparente, correto em todas as suas atitudes, honesto at a medula, numa poca em que a mosca varejeira sequer sonhava sobrevoar o mundo da poltica, Jacinto Silveira conduzia os destinos do povo Brejeiro pelos caminhos da retido e do porvir, assim como Moiss do Egito conduzia seu povo rumo Terra Prometida. Jamais perdeu uma s eleio. O Brejeiro daqueles tempos sabia reconhecer os valores inalienveis daquele homem e o tinha como a um verdadeiro Lder. E como tal se comportava: respeitador e cerimonioso, de falar pausado, olhava sempre nos olhos do interlocutor e no o interrompia quando o outro se pronunciava. Firme e assertivo, sempre expressou o seu pensamento. Nunca se utilizou de meias palavras. Era homem de posies claras e definidas. Benevolente e despojado, servia a todos com amor sem pedir nada em troca. Disciplinado, sabia ser enrgico sem ser jactante. Muitos foram os Governadores de Estado que utilizaram o prestigio de Jacinto. A palavra dele era uma ordem e nela todo e qualquer Brejeiro acreditava cegamente por que Jacinto nunca deixou de cumpri-la.


Rico, dono de vrias fazendas de gado e cultivo, casas comerciais e muitas outras fontes de renda, Jacinto Alves da Silveira, homem que durante toda a existncia sempre teve a casa cheia de amigos e correligionrios, que sem nenhum apego s coisas materiais, ajudava, com recursos pessoais a todos, brejeiros ou no; bancava, do prprio bolso, inmeros candidatos em campanhas eleitorais carssimas. Depois de ter custeado a emancipao do Brejo das Almas, tendo inclusive doado prdios de sua propriedade para comporem a Sede Administrativa e o conjunto arquitetnico do Municpio, condio esta indispensvel a sua homologao, j no final da vida, corrodo pela enfermidade degenerativa, ainda era obrigado a arrastar-se de sua casa at a Prefeitura, onde dava expedientes, deixando-nos o belo exemplo de que no trabalho que nos realizamos e enobrecemos. Morreu, no entanto, pobre, mas digno e praticamente s, tendo a seu lado apenas os familiares.


No sem motivo que um de seus filhos, o tambm Coronel Geraldo Tito Silveira, assim se expressa em um de seus lindos libelos, referindo-se as indiferenas das quais fora vitima o pai: Nos ureos tempos de sua vida abastada, quando ele plantava as sementes de uma pequena fortuna, depois esbanjada nos ardores da poltica, feita somente para o bem-estar de outrem, sua casa solarenga vivia repleta de amigos. At ento, no se via pela estrada real, que ia dar Bahia, uma s pousada ou hospedaria, de modo que os forasteiros que por ali passavam procuravam a casa do Coronel Jacinto, onde recebiam todo o conforto, gratuitamente. Muitas dessas pessoas eram acometidas de terrveis pestes inclusive febre brava!.


E arremata o grande escritor do Norte de Minas, Geraldo Tito Silveira, agora lamentando mais uma grande injustia com a qual brindaram o pai. Alis, muito j falei sobre tal injustia que espero um dia, qui nessa atual encarnao ver corrigida: Como corolrio da ingratido dos homens, mudaram o nome de Brejo das Almas, no para perpetuar o nome de Jacinto Silveira, na terra que engrandecera, mas para honrar o nome de outro Brasileiro, Ilustre, verdade, mas que nada fizera por ela.. Refere-se ao Doutor Francisco S, (1862-1936), nascido na fazenda Brejo de Santo Andr, que naqueles tempos pertencia ao Municpio de Gro Mogol e que foi Ministro da Viao e levou a Estrada de Ferro Central do Brasil at Montes Claros, que muito lhe deve.


No sei, at porque de h muito no vivo mais no Brejo e no participo de seu dia-a-dia, se a Sociedade Brejalmina ou Brejalmense, movida por nobres sentimentos de gratido, ou, qui, polticos locais, se lembraro de promover neste dia 8 de Janeiro, alguma cerimnia, por mais simples que seja, ainda que um singelo minuto de silncio, quele que foi, e ser, o primeiro e mais importante Brejeiro. O maior de todos, porque deu tudo de si, at a prpria vida, para que o Brejo das Almas ou Francisco S figurasse no mapa de Minas e do Brasil, como o Municpio importante e promissor que .


Depois de permanecer longo tempo na erraticidade, acha-se, atualmente, no meio de ns. No dentro da poltica que, convenhamos, mudou muito, e para pior. Servidor nato e dedicado que jamais fugiu luta, no obstante toda a ingratido que recebeu, acreditem cticos de planto: Se hoje se realizassem uma chamada oral convocando homens de bem a colaborarem com qualquer causa que tivesse por objetivo o bem comum, a justia social, a luta contra as desigualdades dos menos favorecidos, algum, digno, decente, probo e humano em quem, todos ns pudssemos nos espelhar, ao bradarem o nome Jacinto Alves da Silveira! Com toda certeza ouviramos, prontamente, em algum lugar do Brasil, a voz firme, forte e determinada do Coronel e grande Lder: Presente... Eis-me aqui!.


E tenho dito


*O autor nasceu em Francisco S, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.



ALGUNS FRAGMENTOS ALUSIVOS A JACINTO SILVEIRA CRNICAS PUBLICADAS

*Enoque Alves Rodrigues




Que Jacinto Luz era sogro de Jos Alves da Silveira, grandes fazendeiros no Brejo das Almas de antigamente, sendo este ltimo pai de Jacinto Alves da Silveira, principal responsvel pela fundao e emancipao do Brejo das Almas, hoje Francisco S?....

Naquele tempo, Jacinto que era seu compadre, dava expediente na Prefeitura. A farmcia de Frana ficava exatamente no trajeto, que Jacinto fazia trs vezes ao dia, pois almoava em casa. Numa dessas passagens, Frana, desesperado, chamou-o:

- Compadre!

- Pois no. Respondeu-lhe o Coronel Jacinto, sempre educado, cordial e solcito.

- J no sei mais o que fazer compadre. No posso mais aceitar porco, galinha e mantimentos como forma de pagamento. Os meus cercados esto cheios. Se eu continuar assim vou quebrar. Mas tambm no posso deixar o povo sem remdio. O senhor precisa me ajudar!

Jacinto, homem prtico, de raciocnio rpido, desses que em frao de segundos cria, amadurece e executa uma ideia, ali mesmo, sobre o balco da farmcia, pegou sua pena e num papel timbrado escreveu em letras garrafais: Com o nico objetivo de zelar e preservar a valiosa sade do povo brejeiro, com o intuito exclusivo de evitar propagao de doenas e pestes eventuais, inerentes s espcies sunas e ovinas, porcos e penosas, probo, a partir de hoje, qualquer forma de pagamento de remdios mediante tais modalidades.

Depois de assinar, entregou o papel para Frana com a recomendao: Aqui est compadre, a soluo para o seu problema. Pegue isso e cole na frente da farmcia. Quando algum chegar com porcos e galinhas, basta o senhor mostrar o cartaz. Como a maioria no sabe ler, diga que o papel lhe probe de vender remdios para receber de outra forma que no seja em dinheiro vivo....


Quantos, porventura, de nossos conterrneos saberiam definir o quanto representou o nome gravado naquela velha placa para o Brejo das Almas? O certo que o Padre Augusto Prudncio da Silva, sobre o qual muito j escrevi neste mesmo espao foi, juntamente com Jacinto Silveira, um dos maiores benemritos do antigo Brejo das Almas....


Alto, magro e esguio. Vestido do mais puro brim, cqui, calado com botas de couro, canos longos, com chapu panam cabea, olhar tranquilo e falar manso. Sentado estava no solar de seu casaro de onde observava todo o Brejo das Almas, reduzido, naquele tempo, a um pequeno amontoado de casas. Ao avistar Marcolino, elegantemente se expressou:

- Bom dia, meu amigo. Como vai o senhor? Porventura, h algo que eu possa fazer para lhe ajudar?

- Sabe o que coronel! Eu vim aqui para lhe vender o meu voto. Quanto que Merc est pagando?

- Vender, o que, meu filho? Por favor, seja mais especifico. No lhe entendi!

- Ento, coronel, o senhor sabe que todo eleitor aqui vende o voto e que aqui no Brejo qualquer candidato s se elege se comprar votos, j que no tem voto de cabresto para todo o mundo.

Aquele candidato olhou para Marcolino com piedade. Aps fitar-lhe de alto a baixo, respondeu-lhe educadamente.

- Creio que o amigo esteja enganado. O voto deve ser dado e no vendido. Voto no tem preo, voto tem consequncia. Alis, voc nem precisa conhecer a pessoa para votar nela. O que voc tem que conhecer o seu plano de governo. No faa de seu voto moeda de troca seno os candidatos vo fazer de voc massa de manobra e posso lhe garantir que esta ciranda perversa no benfica nem para voc tampouco para Democracia que todos ns um dia almejamos. No vote, jamais, em quem se prope a comprar o seu voto. Ele no o merece....

Democracia? De que diabos aquele coronel visionrio estava falando em plena dcada de 1920 quando a maioria das questinculas era resolvida bala ou sorrateiramente?

Impossvel seria mesmo entender, quanto mais explicar, no fosse aquele candidato o Coronel Jacinto Alves da Silveira que, segundo os anais da histria, jamais perdeu uma eleio das muitas que disputou.


E o nosso fundador, Seu Jacinto. Voc j leu alguma coisa sobre ele?....


Certa vez se encontravam na casa do Padre Augusto, no Brejo das Almas, o Dr. Honorato Alves, Camilo Prates, Alfredo S, Jacinto Silveira, Antonio Ferreira, Francelino Dias...


Depois de longos minutos neste diapaso coube a Jacinto intervir.

- Compadres, por favor, parem com isso! Os senhores ainda no perceberam que este Lucas dos Infernos est tirando sarro de todos ns? O que ele lhes manda fazer, jamais conseguiro. Ningum capaz de fazer isso. Foi bem mais fcil para mim, apesar de sabermos o quanto me foi difcil, (o Coronel Jacinto, como bom Mineiro, de quando em vez tambm se dava ao luxo de colocar em prtica o seu Mineirismo), emancipar o Brejo das Almas. Este negro no quer contar histria coisssima nenhuma!


At mesmo o Coronel Jacinto Silveira, meio sisudo, por natureza, recebia com sorrisos os seus gracejos....


Assim sendo, personagens, cuja vida detalhei em suas mincias como, por exemplo, o Padre Augusto Prudncio da Silva, Jacinto Alves da Silveira, Geraldo Tito, Feliciano Oliveira, entre outros, no sero abordados...


Aqui estamos diante do tmulo do ilustre Brasileiro e acima de tudo, Brejeiro, Jacinto Alves da Silveira, que por toda a sua vida....


Ainda solteiro, Jacinto conduzia grandes boiadas que eram vendidas em Curralinho, hoje, Corinto....


Dos muitos filhos do velho Z Alves Jacinto foi o nico a inclinar para o campo do intelecto e, menino ainda, j dominava o alfabeto e tabuada....


Ali foi celebrado o enlace matrimonial de Jacinto Alves da Silveira com Maria Luiza de Arajo, que....


No obstante ter sacrificado a prpria vida pelo Brejo das Almas, Jacinto Silveira pouca ou quase nenhuma homenagem recebeu em vida....


A esposa de Jacinto Silveira, dona Maria Luiza, tinha uma cultura refinada e muito alm de seu tempo. ela foi a primeira normalista do Brejo das Almas....


Mantendo as mesmas tradies de injustias com que regalaram o marido Jacinto, Maria Luiza, mesmo tendo sido a primeira Normalista do Brejo, no teve a primeira Escola do lugar nominada em sua homenagem....


Nem mesmo na concesso do Cartrio do Brejo se dignaram a destina-lo a esposa de Jacinto, agregando-o a outra famlia, tambm merecedora, claro, mas sua tradio e amor ao Brejo sequer se aproximavam da tradio dos Silveira....

*O autor nasceu em Francisco S, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


76290
Por Enoque Alves - 15/10/2013 10:00:55
O BREJO ERA ASSIM... DE TUDO UM POUCO

*Enoque Alves Rodrigues

O povoado:

Em 1830 o povoado de So Gonalo do Brejo das Almas florescia em torno de diminuta capela deste santo padroeiro. Ao contrrio do que possa parecer povoao do Brejo das Almas no se deu em torno do cruzeiro fincado ali pelo Bandeirante Antnio Figueira, cruz esta que deu a primeira denominao do lugar de Cruz das Almas das Caatingas do Rio Verde. Todas as casas mais antigas foram construdas na Rua das Aroeiras e no Largo da Matriz. Elevado categoria de distrito do Municpio de Gro Mogol, foras politicas daquele lugarejo comearam a se movimentar junto assembleia da provncia no sentido de que o mesmo fosse anexado ao Municpio de Montes Claros poca dotado de melhor infraestrutura cuja efetivao veio a ocorrer em cinco de Outubro de 1870.

Emancipao:

Atravs da Lei 843, de sete de setembro de 1923 depois de rdua batalha, finalmente conseguiam emancipar aquele outrora pequeno distrito e exatamente um ano depois eram empossados na Cmara Municipal do Brejo das Almas, hoje Francisco S, a primeira legislatura que daria os primeiros passos rumo ao desenvolvimento social, econmico e poltico do Municpio.

Primeira Escola:

A primeira Escola com instruo mxima at o curso primrio funcionava em prdio precrio que assim como todos os demais foi doado por Jacinto, criada em 1923, tinha inicialmente como professoras as normalistas a prpria dona Maria Luiza, esposa de Jacinto Silveira, dona Augusta Guimares Atade e como interina dona Maria Augusta Dias. Naqueles tempos somente alguns abastados fazendeiros possuam linhas telefnicas com as quais se conectavam com o mundo limitado a sua volta, entre eles, figuravam-se, Francelino Dias, Altino Soares Pereira, Jos Dias Pereira e mais uns trs alm deles.

Um Professor Arrojado:

Algum tempo depois ingressou naquela escola um professor arrojado de nome Jos Maria Fernandes ao qual foi facultado implantar sua metodologia de ensino que veio revolucionar as infantis cabeas dos Brejeirinhos. O mtodo era simples. Ele queria somente ensinar os seus alunos a pensar. Inusitada e impensadamente para ns em dias atuais comeou por abolir o uso do lpis e do caderno. Ele escrevia no quadro negro e o aluno tinha dez minutos para ler e decorar os textos, assim como as fraes aritmticas. Ao fim de cada chamada ia selecionando os que respondiam corretamente enquanto que aos pobres coitados que errava ele entregava a cada um uma enxada com ordens expressas para utilizar todo o tempo do recreio carpindo ao redor da escola e quando no se tinha mais o que carpir ali mandava o infeliz carpir as erva na Rua das Aroeiras onde ficava o Grupo. Quando a tarefa de carpir no era executava integralmente ele fazia uso da palmatria e ai meu nego, o pau comia literalmente. Toda ao da molecada era supervisionada pelo Inspetor Escolar Mateus Alves, um crioulo de quase dois metros de altura que era sombra de cada aluno, relatando ao mestre Jos Maria todas as estripulias. Quando por fim Jos Maria Fernandes devido a envolvimento com o lcool foi substitudo pelo Professor Manuel Jos Veloso, ou Neco Surdo em 1924, os alunos assim como os seus pais fizeram uma festa. At mesmo os pais se incomodavam com os mtodos primitivos de Jos Maria, enquanto que Neco Surdo, figura tranquila totalmente oposta ao antecessor era querido por todos.

Lagoa das Pedras:

A denominao de Lagoa das Pedras atribuda a um veio de pedras calcrias de grosso porte que se encontrava ao lado Sul, na antiga estrada de Boa Vista para o Areal rumo a serra do Catuni a qual margeia em direo ao Norte prosseguindo muito alm. Para se atravessar esse veio calcrio, que formava lajedos, lutava-se com muitas dificuldades, principalmente se fosse a cavalo, pois era muito escorregadio e somente os cavalos ferrados conseguiam manter-se de p, em equilbrio.
Somente depois de se erguerem ali muitas caieiras em tempos remotos onde arrebentaram as pedras para produzirem cal as pedras mais salientes foram removidas o que tornou possvel o trfego de caminhes e outros veculos motorizados. Esta sem duvida alguma a razo do nome Lagoa das Pedras, hoje inexistente nos moldes anteriormente vistos e que muita gente atraia s suas margens. No passa de lenda a verso de que os primeiros moradores do Brejo se agrupavam em torno do cruzeiro erguido pelo Frei Clemente cabeceira da Lagoa das Pedras. Tampouco a povoao do Brejo comeou ali.

Igreja Matriz do Brejo:

uma incgnita at mesmo nos dias de hoje a atribuio direta e definitiva do principal responsvel pela construo da Igreja Matriz do Brejo das Almas ou Francisco S. Restam apenas especulaes que do conta de que a mesma foi erguida pelo povo numa faixa de dois quilmetros quadrados de terra que foi doada pelo Sargento Mor Jernimo Xavier ao So Gonalo. Outra verso d conta de que a construo desta Igreja foi feita pelo prprio Sargento Mor. Mais verossmil se que assim podemos chamar, a narrativa de que a construo da Matriz se deve ao Major Antnio Gonalves da Silva que motivado por sua esposa, ao erguer um casaro no Arraial do Brejo das Almas aproveitou o ensejo e construiu a Igreja Matriz. Nada no entanto confirma nenhuma dessas verses. O certo que esta Igreja a primeira do Brejo, pois a ela o Padre Augusto Prudncio da Silva que faleceu em 1931 se referia como bicentenria. Havia livros e farta documentao que era guardada no poro que dava acesso ao altar mor entrando pela sacristia esquerda onde seguramente constava o registro de nascimento e batistrio de nossa primeira igreja. Todos estes livros e documentos, entretanto, foram queimados propositadamente pelo Padre Salustiano Fernandes dos Anjos, o Padre Sal, que sucedeu o Padre Augusto. certo, no entanto, que a concluso daquela pequena capela, hoje nossa Igreja Matriz se deu no ano de 1768. No compulsar de alguns livros podemos encontrar um tal de Joaquim Benedito do Amaral, natural da antiga Serro Frio, colaborando com a construo da Matriz na condio de Mestre de Obras, no ano de 1764 o qual veio a falecer exatamente no ano de sua inaugurao, em 1768. Essa ultima verso era sustentada pelo Deputado e ex-prefeito do Brejo Feliciano Oliveira. Repito que nenhuma dessas verses teve sua veracidade confirmada. Muito j pesquisei nesse sentido e hoje tudo que sei. Apesar de sua m fama o Padre sal foi responsvel por importante reforma na Matriz no que tange a parte outrora ladrilhada enquanto que seu antecessor o Padre Augusto com a mo de obra do Carpinteiro Antnio Carapina responde pelos altares mores, abboda e assoalhos de madeira l pelos idos de 1914-1915. Ali existiam muitas sepulturas o que indica ter sido aquele local o antigo cemitrio do lugar. Durante as escavaes daquela rea nas administraes do Dr. Paulo Cerqueira e do Dr. Joo Bawden no sentido de nivelar a praa muitas ossadas humanas foram encontradas.

E tenho dito.

*O autor nasceu no Brejo das Almas.


76033
Por Enoque Alves - 5/9/2013 20:44:31
BREJO DAS ALMAS - NOVENTA ANOS DE EMANCIPAO

*Enoque Alves Rodrigues

Recebi do amigo Dr. Charles Luiz, convite que muito me honrou para participar dos festejos comemorativos pelos noventa anos de emancipao poltico administrativa de nossa Cidade de Francisco S ou Brejo das Almas. No entanto, compromissos profissionais impossibilitam minha presena ao evento. Por este motivo, fisicamente distante, envio minha Cidade e ao meu povo Brejeiro, as mais sinceras e cordiais felicitaes seguidas de algumas singelas palavras.

Ao comemorarmos, festivamente uma data to importante para o calendrio de nossa terra e de nosso povo, no podemos nos esquecer daqueles que um dia lutaram e muitas vezes tombaram no sentido de que tudo isso que hoje vivenciamos se realizasse. Os grandes homens que hoje conduzem com eficincia os destinos deste nosso pujante Municpio rumo a excelncia em todos os seus aspectos, foram, de igual forma, precedidos por outros empreendedores contumazes que deixaram para todos ns, brejeiros, seus psteros, obras magnificas, indissociveis de suas impolutas figuras. Sensveis que somos a tudo o que se encontra a nossa volta, no brejo ou fora dele, no nos preciso seguir uma cronologia exata para nos depararmos com aqueles que deram os primeiros passos na construo de nosso Municpio para que ele se transformasse no que hoje . Certamente que indispensveis se fizeram as incontveis idas e vindas de muitos Joos de barro s Lagoas que antes existiam em busca da principal matria prima com a qual dariam incio edificao de um amontoado de pequeninas casas que se chamaria Brejo das Almas e depois Francisco S.

A histria do Brejo comeou em 1704. Engana-se quem pensa que a histria de um Municpio s se inicia quando ele atinge a sua emancipao. A emancipao apenas uma etapa no processo histrico de desenvolvimento poltico, cultural, social e econmico de um ncleo demogrfico e sua respectiva geografia.

Da chegada a estas plagas na tarde do dia 02/11/1704 acompanhado por vinte homens, de um Sertanista de nome Antnio, Paulista de Santos, filho de Maria Gonalves Figueira de quem herdou o sobrenome e de Manoel Afonso Gaia, remanescente da expedio de um certo Ferno, at o primeiro tremor no dedo indicador de um Coronel de nome Jacinto que acusaria, tempos depois, a presena do Parkinson, durante acirrada discusso na Cmara Municipal da bela MOC, cuja pauta era exatamente a aprovao do projeto de lei que emanciparia (07/09/23) o Brejo das Almas, ou Francisco S (17/12/38), muitas guas rolaram no Gorutuba e no So Domingos.

De 08/01/38 desencarne de Jacinto ao decreto lei 148 de 17/12/38 transcorreram-se onze meses. Promoveu a alterao toponmica do Municpio de So Gonalo do Brejo das Almas para Francisco S, ilustre Ministro de Viao, mas que ao contrrio do grande Jacinto, nada fizera pelo Brejo. Ao invs de aproveitarem o calor dos acontecimentos da perda irreparvel do grande Lder, oferecendo Cidade pela qual lutou e finalmente emancipou, o seu nome, deram a ela o nome de algum muito importante para o Brasil, mas insignificante para o Brejo.

Do inicio da emancipao feminina em 1940 construo do Mariquinha Silveira que foi concebido nos anos 1950 onde foi criado o curso ginasial que preparava as mulheres para uma nova vida at ento restrita a lavoura e cuidar da casa, foram dois lustros. Da transformao e mudana de nome do Mariquinha Silveira para Tiburtino Pena na dcada de 1960 foi um pulo. Da implantao do curso do Magistrio no Tiburtino Pena em 1965 que capacitava as nossas deusas brejeiras a voos mais altos no campo do intelecto at a formao da primeira turma de normalistas em 1967 passaram-se dois anos somente. Do luto velado e permanente das vivas at a participao ainda que tmida do divino ser brejeiro (mulher) na poltica local foi uma eternidade. Pouco mais de uma dezena de nossas guerreiras chegaram Vereana. Em 2004 tivemos no Brejo a primeira candidata mulher Prefeitura. Vrios partos de porco espinho se deram para que tudo isso se tornasse realidade. Barreiras e entraves at curiosos, pacientemente, superados, fundem a histria da emancipao da mulher brejeira com a do prprio Brejo. No, nenhum machismo: o mundo era assim e no sei se voc sabe, o nosso brejo querido parte integrante do mundo.

Das missas rezadas em latim nos ureos tempos do despojado Augusto modernidade da igreja do abastado Silvestre, muitos badalos bateram. A centenria palmeira, postada ali, silenciosa, a guisa de atalaia no me deixa mentir.

Da fartura do ouro branco (algodo e alho) dos meus tempos de menino s secas que esturricavam o solo sob o pipocar de mamonas e fretenes tristes das cigarras no se passou muito tempo. Somente 18 anos, mas que foram suficientes para me tangerem da vida cotidiana do Brejo que at hoje, seguramente, ainda lamenta a minha perda, no obstante no existir ali uma vivalma sequer que me conhea pessoalmente. Quanto a mim, ento, mesmo tendo conseguido tudo que quis mediante trabalho rduo, mas que me apraz, devo dizer, sem falso romantismo, que continuo escutando o gorjear dos pssaros brejeiros, o barulho de todos os rios que o banham, o cantar da juriti e das revoadas de suas maritacas, assim como do coaxar vespertino de meu igual cururu na Lagoa das Pedras de antanho.

Quantas eleies foram ganhas com a palavra dada e cumprida apenas com o fio do bigode? Do mesmo jeito quantas eleies foram perdidas por que algum deixou de cumprir promessas vazias feitas no af de iludir o povo, soberano em sua sabedoria?

Enquanto isso, na velha Cmara, de Jacinto a Rogrio, de Augusto a Gentil, de Francelino a Jacinto, o Teixeira, de Z de Deus a Euler, de Adalberto a Valda, de Z Nunes a Alineu, de Idalino a Ronaldo apenas para citar alguns, at os dias atuais quantos projetos, simples e polmicos foram aprovados ou deixados de aprovar debaixo de acaloradas discusses?

E na prefeitura do mestre Benfica? Quantos j se passaram? O que fizeram ou deixaram de fazer?

E no So Dimas, quantas vidas foram salvas? Quantas pereceram? Se salvas, o estado se fazendo presente no amparo ao Cidado pagador de impostos. Se perdidas, aonde, Deus, se achava o estado? O que aconteceu? Por que diabos deixou que o Cidado Brejeiro morresse? Bem, fcil de explicar: Cidados morrem aqui e em qualquer lugar, at mesmo na Sua! Ok, parcialmente de acordo, mas voc vive na Sua ou no Brejo? Ento: por mim ningum morreria em parte alguma, mas se algum tem de morrer desamparado que no seja em meu Brejo, uai?

Acalmem se, por favor... Chega de urticrias... No empurrem... Vamos devagar por que eu tenho pressa. Mas ainda no acabei...

Dos dignssimos homens pblicos do passado sobre os quais falei acima ao mais vil e reles que constrangeu e decepcionou a nossa gente at o palanque comemorativo das atuais festividades onde desfilam conscincias imaculadamente lmpidas e comprometidas com as causas dos menos favorecidos, revezando-se em seus comedidos discursos onde no tem vez e voz as vaidades e promoes pessoais mais apenas s aluses ao que representa este dia 07 de setembro de 2013 para o nosso lugar, quanto tempo se passou? Muito, mas valeu a pena!

Portanto, regozijam-se Brejeiros. Saiam s ruas em desfile e brindem essa data. Temos muito que comemorar. Os tempos so outros. As mudanas que se faziam necessrias esto, aos poucos, se processando. Estejam certos que o amor filial que vocs demonstram querida me que se chama Brejo das Almas recproco e verdadeiro. A jovem e bem cuidada senhora de noventa anos, alegre e feliz, comovida e carinhosamente lhes agradecem.

E tenho dito.

*O autor nasceu no Brejo.


75892
Por Enoque Alves - 2/8/2013 20:04:55
HISTRIA BREJEIRA I INCIO DO SCULO XX

*Enoque Alves Rodrigues

O deputado Camilo Prates visitava seu Compadre e fiel correligionrio, o coronel Olmpio Dias em sua residncia de Brejo das Almas, ou Francisco S, que se preparava para mais uma eleio. A agitao era geral e comcios pipocavam por todos os lados. As duas nicas foras polticas que ditavam a ordem naquela pequena localidade e que, portanto, traavam os destinos do povo brejeiro era exatamente o Coronel Olmpio Dias apoiado pelo deputado Camilo Prates e o Coronel Jacinto Silveira que por sua vez tinha o apoio do deputado Doutor Honorato Jos Alves cuja base eleitoral, assim como a base eleitoral de Camilo Prates, ficava em Montes Claros.
Ao contrrio do que ocorre hoje em muitas regies do Brasil dito civilizado, onde adversrios polticos so tambm ferrenhos inimigos no campo pessoal, aqueles dois baluartes da poltica brejeira eram, antes de tudo, grandes amigos, ou melhor, eram compadres. Divergiam apenas e to somente em suas ideologias poltico-partidria. Suas diferenas ficavam ali. No mais eram cordiais, respeitadores e afetuosos no trato mtuo. Frequentava um a casa do outro onde o assunto com certeza no era poltica, por que naquelas ocasies tratavam apenas de amenidades, pois tambm no era costume falar mal da vida alheia.
Entretanto, nos dias de eleies postavam-se cada qual em um lado da entrada da nica seco eleitoral existente e observavam o eleitor desde a sua chegada seco at a sada, de maneira que finalizada a votao j se sabia de antemo quem havia sido o eleito. Hoje isso ilegal no obstante sabermos que ainda campeiam ilcitas e grosseiras artimanhas, apesar do grande advento ciberntico eleitoral onde se realizam apuraes de milhes de sufrgios em algumas horas. Somos pioneiros nesta tecnologia a qual exportamos para Pases econmica e socialmente desenvolvidos, mas que quase nada avanaram nesta direo.
Bem, voltemos visita de Camilo a Olmpio no Brejo das Almas naquela tarde quente outonal. Antes quero ressaltar que a distncia de dez lguas ou sessenta quilmetros que separam Montes Claros onde vivia o Doutor Camilo do centro do Brejo onde residia o Coronel Olmpio ainda era percorrida no lombo de cavalo. Somente depois de muito tempo que o Dr. Camilo adquiriu seu primeiro possante: um fordeco de bigodes.
Aps passar pela Fazenda na encosta do morro do moc adentrou, por fim, o lugarejo. Parou na fazendinha de S Jacinta uma anci de setenta anos que tinha algumas vacas leiteiras. L bebeu gua e trocou alguns dedinhos de prosa com a dona da casa. Passou pelo Largo do Comrcio e na Farmcia de Francelino, tomou uma pitada de bicarbonato e rumou finalmente para o casaro que se localizava prximo ao antigo mercado onde o anfitrio j o esperava no alpendre. Efetuados os formais cumprimentos seguiram-se para a espaosa sala de visitas para falarem do assunto do momento. Eleies.
- Como andam as eleies no Brejo, compadre? Indagou Camilo Prates a Olmpio Dias.
- Vai bem, compadre. Mas os eleitores esto muito ariscos. J no querem mais votar seno mediante alguns agrados!
- Mais isso no est certo... Todo Cidado tem de exercer o seu dever de votar espontaneamente!
- Pois , compadre, aqui por estas bandas, as coisas ainda no mudaram nada. Imagine o senhor que na eleio passada alm de ter de amargar a derrota ainda perdi quase duzentas cabeas de porcos!
- Mas, o que foi isso?
- Epidemia?
- No... Foi voto mesmo. Comprei... Paguei mais no levei. O infeliz do eleitor ao invs de me entregar o voto, acabou votando no compadre jacinto que nem pagou nada... Foi s na lbia!
- Mas compadre, isso no existe. Enquanto houver algum que se prope pagar haver sempre algum pronto para vender.
- Vamos mudar isso?
- Vamos!
Naquela noite grande palanque estava montado no centro do Brejo. O comcio, como o prprio nome diz, comia solto e com ele brejeiros homens que votavam e brejeiras mulheres que ainda no votavam, mas l estavam, saboreavam os apetitosos comes e bebes sendo que os comes compreendiam-se robustos espetos de carne de boi atravessados sobre serpenteante valeta que se perdia de vista. Quanto aos bebes, entendam-se, se possvel, a mais pura e destilada aguardente acompanhada de bebida adocicada denominada Cinzano de um tal de Francesco que pelo nome devia ser Italiano.
L pelas nove horas da noite antes que aquela bomba ou coquetel comeasse a explodir, quando o respeitvel pblico presente teria, certamente, dificuldades em reter na cachola algum fragmento do discurso e por consequncia no se lembrar do compromisso do voto que firmariam com Olmpio, este, acompanhado de Camilo e mais de uma dezena de candidatos regionais subiram ao palanque.
Enquanto isto, em pequena roda, conversava animadamente, Nezinho Pena, Joo Caixeiro, Patrcio Pena e Estelito, todos comerciantes, alm do escrivo de paz Pedro Ferreira.
- Desejo, - iniciou Olmpio seu discurso - agradecer a todos vocs pela massiva votao no pleito anterior, mas que no foi suficiente para me eleger, devido alguns que mesmo tendo empenhado sua palavra de votar na minha pessoa na hora h acabaram por votar no outro candidato...
Muito bem... isso a... Temos de votar bem para melhorar o Brejo das Almas. Vamos escolher o homem certo para gerir bem essa joa! Respondeu ao fundo um grupinho de comisseiros etlicos contumazes, enquanto Olmpio prosseguia...
- Estou certo que desta vez ser diferente, por que espero que todos aqueles que aqui esto desfrutando deste saboroso churrasco regado com o que h de mais puro em termos de bebida votaro em mim. Este momento maravilhoso permanecer gravado em suas memrias inclusive no momento do grande sufrgio... Vocs se recordaro, certamente, do meu nome na boca da urna, pois estou certo que ningum por estes lados foi capaz de lhes proporcionar to inesquecvel regalia.
Muito bem... isso ai... Temos de votar bem para melhorar o Brejo das Almas. Vamos....
Olmpio escutava aquele grupinho que se manifestava sem uma palma sequer. Mesmo assim sua verve e eloquncia se afloravam cada vez mais dando ao seu discurso inusitado e desproporcional entusiasmo.
Enquanto Olmpio divagava em sua tentativa de empolgar a massa, Nezinho Pena interveio.
- Coronel Olmpio...
- Pois no!
- O senhor no est notando algo errado?
- No... No estou!
E utilizando-se de palavras firmes e rspidas, prprias dos coronis de antanho, inquiriu.
- Como que eu vou saber diabo, se voc no me explicar?
- Pois , coronel... O senhor no entendeu... O povo est dizendo que vai escolher o homem certo para gerir bem o Brejo. S que o povo no disse que esse homem certo vai ser o senhor!.
- Puta merda, caralho, mesmo!
Agora foi a vez de Camilo Prates intervir, jogando uma p de cal nos sonhos de Olmpio.
- T vendo? No o que eu lhe disse, compadre? Esse povo no se deixa vender por nada. Poltica no se faz assim. Vai dar Jacinto de novo!
E deu Jacinto!
...
Por vezes, ou quase sempre, o melhor atalho fazer a coisa certa. Quanto ao resto... Bem, o resto voc deixa pra l.
E tenho dito!
*O autor Brejeiro.


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Por Enoque Alves - 29/6/2013 10:07:16
BREJO DAS ALMAS GESTES E ANALOGIAS



*Enoque Alves Rodrigues

Prximo a completar trezentos e nove anos de sua fundao, Francisco S, ou Brejo das Almas, um dos oitenta e seis Municpios do Estado das Alterosas a fazer parte do Polgono da Seca, passa atualmente por um verdadeiro choque de gesto. O Executivo que assumiu os destinos do Municpio no dia 01/01/2013, segundo informam-me fontes imparciais e fidedignas, est transformando a Cidade e seu entorno, num imenso Canteiro de Obras. A continuar nesse ritmo (e tudo indica que os homens de boa vontade, incluindo os Nobres Vereadores que compem o Legislativo Municipal, no recuaro), quando chegarmos ao fim deste mandato em 2016, bradaremos, orgulhosamente, aos quatro cantos do Brasil a nossa felicidade de sermos Brejeiros. Particularmente, sempre fui um eterno otimista no que se refere divulgao do que h de bom na terra me que me serviu de bero. Mas sempre ressaltei tambm, ter cincia das mazelas primrias vivenciadas pelos meus conterrneos locais assim como, quando se fez necessrio, desci o pau em quem de direito.

Francisco S, Brejo das Almas, ou ainda Beldade do Norte de Minas como carinhosamente a chamo, em dias atuais pode se considerar Altaneira pela administrao que tem. Confiante, caminha a passos largos rumo ao progresso, com flego de camelo no deserto. impossvel no atingir metas, consideradas inalcanveis e utpicas, pelas gestes pfias e inexpressivas que antecederam a atual, que muitos danos causaram ao errio.

Diro alguns, esse velho est ficando caduco. Como pode exprimir comentrios to positivos a uma administrao que mal acaba de comear? Que conhecimento e autoridade tem esse sujeito, que sempre viveu fora do Brejo para falar isso agora?

Pois ...

exatamente por ter passado quarenta e dois anos de minha vida fora do Brejo, por conhecer vrios Pases e incontveis localidades mundo afora que tenho as prerrogativas que me creditam, sem falsa modstia, parmetros comparativos. Ou voc daqueles que compara sem parmetro? Para se valorizar o Cu necessrio que voc antes tenha estado no inferno.

Apaixonado por minha terra, mas cauteloso s interpretaes dos que me leem jamais proferi aluses que no fossem fundamentadas em fatos. Provas inquestionveis disto esto nas parcas e comedidas referncias aos bons Prefeitos que passaram pelo Brejo e que nele deixaram suas marcas indelveis. Se voc, brejeiro ou no, pegar as duas mil crnicas que escrevi at hoje sobre Francisco S, ou Brejo das Almas, encontrar apenas doze referncias positivas de administraes passadas bem sucedidas onde o chefe do Executivo Municipal absteve-se de interesses pessoais em prol dos interesses da Cidade e de seus Cidados. Quando isso ocorre, as realizaes aparecem. Saltam aos olhos. o que se v agora.

Mas nem preciso ser brejeiro para se apaixonar pelo Brejo. Temos vrios exemplos. Um deles so o Jornalista e Poeta, Mrio Casassanta, nascido em 1898, em Camanducaia, MG, que to bem soube descrever as belezas de nossa terra em sua famosa crnica de 1933.

Falando no incio da dcada de 1930, feliz, refiro-me, mais uma vez, a incomparvel, mas que seguramente ser superada pela administrao atual, que foi a gesto do grande Mdico Prefeito o Doutor Paulo Cerqueira Rodrigues Pereira, que desde o incio de sua administrao frente Prefeitura Brejalmina, em Maro de 1931 at o final dela, promoveu uma real revoluo visual na Cidadezinha, principalmente no que tange a sua topografia, realizando inmeros nivelamentos que compreendiam demolies, escavaes e terraplenagem de suas ruas e praas.

Diante dessas doces reminiscncias que no vivi, pergunto: com quais medidas mensuraramos a eficincia, dedicao, lisura, devoo e desapego a qualquer resqucio de interesse pessoal em pleno exerccio de suas atividades na conduo dos destinos do Brejo das Almas, de um Prefeito do quilate do Doutor Arthur Jardim de Castro Gomes? Ele amava tanto a nossa terra que foi capaz de descrever fielmente toda a sua beleza. Qual Salomo, no auge de sua sabedoria, o Doutor Arthur Jardim dissertou em seu Relatrio-Manografia, a titulo de prestao de contas no final de sua bem-sucedida gesto, desde a espcie e grupo familiar de um simples pssaro Sofr, cultura, agricultura, pecuria, rios, crregos e serras, altitudes, longitudes, flores e frutos, etc., at a variedade de matas densas, serrados, Catanduvas e vegetaes rasteiras que cobrem nosso rinco paraso. http://enoquerodrigues-earodrigues.blogspot.com.br/2012/06/francisco-sa-mg-riquezas-naturais-i.html

Por consequncia natural sou instado a somar a estes relevantes exemplos de administraes ilibadas que deram certo e que tiveram sua frente, no menos exemplares homens pblicos, alis, hoje em dia, desgraadamente, uma espcie em extino, quando vemos em sua grande maioria, lobos travestidos de cordeiros se locupletando e se deixando locupletar das benesses do Estado, em detrimento dos menos favorecidos, que ainda os aplaudem, por que no me lembrar, tambm, como exemplos a serem seguidos, ainda sem sair do meu quadrado brejeiro de 2.759,393 quilmetros, dos nossos antepassados, ntegros em suas respectivas honras, honestidades e vontades de fazer e realizar, de um Feliciano Oliveira, Enas Mineiro, Eurico Penna e mais uma meia dzia (em cujo rol, dada a sua magnitude no incluo o incomparvel Jacinto) e por motivos bvios, ao contrrio, no posso inserir, evidentemente, gesto finda em 31/12/12 e outras igualmente nefastas.

Deixando a profundidade de lado, como diria Belchior, Cruz das Almas das Caatingas do Rio Verde, sua primeira denominao em 1704, ou Francisco S, hoje se encontra em mos do preparado Denilson Silveira, a quem no conheo pessoalmente, mas apenas, e isto me basta, a robusta biografia de homem simples e impoluto, comprometido com as causas brejeiras, engajado aos clamores de todas as classes sociais, moldado na essncia do puro e trrido barro do brejo, cujos ideais, formao, carter, princpios, honestidade, aspiraes, anseios e transparncias, se fundem aos da prpria terra. Assessorado por uma pliade da melhor estirpe de destemidos e probos homens pblicos do naipe de um Doutor Charles Luiz, entre outros, desprovidos de quaisquer vaidades pessoais, mas, motivados pelo prazer de oferecer a Cidade o seu melhor, aos poucos esto dando cara nova ao velho Brejo.

Cabe a voc, morador local acreditar e colaborar no que lhe for possvel a fim de que no futuro voc possa bater no peito e gritar participei da gesto que deu ao Brejo o lugar de destaque que ele merece!.

Quanto a mim, enquanto vivo for, seguirei fazendo minha parte.

...

Por vezes, melhor arregaar as mangas e somar esforos para dividir o bolo do sucesso, do que ficar de lado, torcendo contra, para ser engolido pela lombriga do fracasso.

E tenho dito.

*O autor nasceu em Francisco S, Brejo das Almas.

Leiam essa crnica tambm em outros sites e mdias.


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Por Enoque Alves - 30/5/2013 12:13:00
CENAS BREJEIRAS 10 FINAL - NAN PRAXEDES

*Enoque Alves Rodrigues

Contempornea de S Antonina que tinha seu Sitio bem na entrada de Francisco S ou Brejo das Almas, Nan Praxedes era uma senhora de idade j avanada. Morena, alta, enviuvou cedo de Non que contava quarenta anos quando faleceu de amarelo. Como herana deixou-lhe aquela fazenda denominada barriguda que se localizava a beira da antiga estrada de Cana Brava ou especificamente na baixa da migrada, no municpio do Brejo. Tinha ela o jeito das matronas da poca, quando, a mulher, divino ser, no conseguia revelar sua feminilidade a no ser na conduo austera dos destinos do lar, e da famlia. Eram comuns as dificuldades que a mulher tinha naqueles tempos quando se via de repente s. Nan, muito pelo contrrio, depois de perder Non arregaou s mangas e foi luta. Com dois filhos j adultos, Deda e Durval que a ajudavam nos trabalhos da fazenda, no demorou muito e aquele amontoado de torres ressecados ganhou uma nova viso panormica de um verde indescritvel.

Tudo que Nan plantava, independente da poca, vingava. Ela, que ao lado de Non, tinham seis vaquinhas sofridas que nem crias davam juntamente com aquele pobre e fraco genrico de reprodutor que at mesmo para comer o colonio seco tinha que encostar-se nos barrancos, agora possua uma grande manada de gado. Vacas leiteiras, bois de corte, bezerrinhos mamando, desmamando, nascendo, etc. No chiqueiro a porcada s reproduzia e Nan feliz progredia. O paiol abarrotado de milho, feijo, algodo e outras culturas. A peonada na roa se desdobrava para dar conta de tanto trabalho. O arado no parava um minuto sequer. A terra frtil reclamava o lanar da semente para em pouco tempo, leal, faceira e orgulhosa, devolver a Nan o resultado multiplicado milhares de vezes.

Carretas saiam da bela MOC e de outros confins e se aportavam diante da fazenda Barriguda para retirar produtos comprados a peso de ouro. Mas o que era aquilo? Enquanto a seca castigava quase todas as regies, consumindo stios e fazendas, a barriguda jamais sentia qualquer revs. Seguia produzindo de tudo e em grandes quantidades...

Enquanto isso Manoel Flor, ou Man Ful, vizinho e proprietrio da fazenda Pau Dalho que fazia divisa com a fazenda de Nan, desolado e com inveja observava todo aquele movimento. Tentava buscar, inutilmente, em suas lembranas, algo parecido ou prximo de todo aquele sucesso. De tanto retroagir, eis que se achou no dia de seu prprio nascimento. Na mesma fazenda setenta e trs anos antes onde se viu chorando de fome. Aquilo no era vida! Como foi possvel ter passado todo aquele tempo sem que ele sequer sasse do lugar? O que teria acontecido de to grave que o impediu de crescer? Ser que ele tinha caminhado para trs? Sim por que aquela fazenda ele havia herdado do pai e como j mencionei, mesmo fazendeiro, ele sempre viveu em dificuldades.
O que mais o corroa, de inveja e de dio, era ver aquela mulher prosperar. Como podia ser aquilo? Quando o marido vivia as terras deles que eram divididas por um pequeno afluente do Qum-Qum no produziam nada e agora... Bem, ele continuava no produzindo, mas, e Nan...

Aquela mulher agora era assim que ele se referia a sua vizinha e amiga de infncia -, estava lhe tirando o sono. Prximo, pensava ele, estava o dia em que todos mangariam dele... Deixou-se vencer por uma mulher... Nan, imbatvel... Nan, sortuda... Por que ser que s Nan colhia? Por que ser que ele no conseguia colher? Por que ser... Por que ser?

Manoel se questionava, mas sem se preocupar em procurar as verdadeiras razes de sua desgraa. prprio dos fracos e derrotados de nascena buscar no sucesso dos outros o motivo de seu insucesso ao invs de ir luta.

A vegetao seca e rasteira h muitos anos havia invadido aquela sua imensa fazenda, no obstante, privilegiada pela Natureza que a brindou com dois olhos dagua onde nascia o afluente do caudaloso Qum-Qum. Touceiras de quiaa esturricada rangiam ao sopro do vento de agosto. A caarema deitava e rolava a vontade em seus ninhos em copas de arbustos miserveis, a guisa de cupins. Alis, pasmem brejeiros, aquele infeliz ser, em sua inabalvel inrcia atribua parte de sua desdita ao primeiro surgimento da ftida Caarema que segundo afirmava, foi a partir dali que a chuva sumiu de vez. Ela era de mau agouro! Mentira. No era nada disso. Se assim fosse a fazenda de Nan tambm no produziria.

A Natureza prdiga para com os que trabalham. Que no tm medo de trampo. Para aqueles que morrem de p. Mas, tambm, sabe ser implacvel para com os preguiosos, insolentes e fteis que desejam passar pela vida sem viv-la. Sem deixar uma marca por mais simples que seja.

A terra tambm assim. Quando no cultivada pelo menos de vez em quando, revolta-se contra a desdia e abandono do agricultor. Ela empaca. Fica estril e ai, meu nego, no produz porra nenhuma. Nem quiaa ou ervas daninhas brotam mais. Por que seria diferente com Man Ful?

Pois ...

Um belo dia, quando a voz da conscincia se lembrou dele, pediu-lhe que fosse imediatamente luta. Que sasse a semear sem mais perda de tempo. Velho, reumtico por que as juntas haviam se enferrujado durante o longevo tempo de ociosidade e obsolescncia, 72 janeiros no espinhao, todo torto, l foi o infeliz se reconciliar com aquela que j no lhe suportava mais o peso do corpo esqueltico. Com uma m vontade dos diabos deu ali a primeira enxadada. Sentou-se para descansar.

Ele estava cansado de no fazer nada e o corpo agora s queria sossego.

- O senhor vai semear este ano, seu Man?

- Sei no, uai! Estou pensando o que vou fazer desta terra improdutiva. Aqui no se produz mais nada, s!

- Mas como que o senhor sabe? Quando foi que o senhor a cultivou pela ultima vez?

- Sei no, uai, mas me parece que j faz uns trinta anos, mais ou menos!

- Sendo assim, fica difcil!

- Eu acho que vou vender essas terras... Mais quem vai comprar isso?

- Eu compro suas terras, seu Man! Bota ai o seu preo. Considere-se que estamos negociando uma terra improdutiva!

- Man arregalou os olhos. Aquilo era uma visagem. Aquela proposta no era verdadeira. Mesmo assim, entre aturdido e desconfiado, ps o preo.

- O interlocutor que s queria trabalhar e produzir no pensou nem um segundo. Fechou o negcio ali mesmo. Em cartrio no Centro do Brejo registrou-se a escritura onde Man recebeu sua bolada. No Centro do mesmo Brejo das Almas, cinco anos depois, Man mendigava para sobreviver sem um centavo sequer nos bolsos.

Fazer o que se essa foi vida que ele pediu pra Deus!

Enquanto isso a fazenda barriguda, que teve seu tamanho triplicado com esta aquisio feita por ningum menos que Nan, s prosperava.

...

Por vezes, ou quase sempre, no preciso muita fora para converter pedra bruta em ouro fino. Um pouquinho de vontade j suficiente.

E tenho dito!

*O autor nasceu no Brejo das Almas, MG.


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Por Enoque Alves - 27/4/2013 19:25:54
CENAS BREJEIRAS 9 CREUZO

*Enoque Alves Rodrigues

Nascida em So Geraldo, poca, diminuta comunidade pertencente ao Municpio de Francisco S ou Brejo das Almas, ao norte das Gerais, Creuza Maria dos Santos, ou Creuzo, codinome alusivo ao seu porte avantajado, desde muito cedo batalhava pela prpria subsistncia. Aquele divino ser dava um duro dos diabos nas fazendas adjacentes vendendo dias de servio assim como ns, marmanjos. Responsvel pela cozinha, ela realizava verdadeiros milagres na criao de apetitosas gamelas que ela prpria se encarregava de levar at as frentes de trabalho onde ns, pees roceiros depois de cansativa manh de labuta no cabo da foice, entre, cascavis e teis, famintos e famlicos, as detonvamos. Se voc for um bem nascido que jamais pisou em bosta de vaca no vai saber do que estou falando. Talvez voc nunca tenha visto uma gamela. Bem, se voc ainda no a conhece, permita-me apresenta-la ainda que extemporaneamente. Ao contrrio do que muitos pensam as atribuies de uma gamela iam muito alm de um reles e tosco utenslio de cozinha. No entendeu? Explico: Era ao redor de uma gamela onde era servida a mesma refeio para todos, que ns nos juntvamos, cada qual com uma colher para, respeitando o sagrado espao pertencente ao outro, almoarmos. , portanto, a gamela, de madeira ou de barro, (eu preferia s de madeira), o mais nobre e importante invento da humanidade at hoje. Capaz de promover a ordem e costumes elementares de educao e honestidade (ningum se apoderava do mais carnudo pedao que no fosse seu, no obstante estar ali debaixo de seus olhos), a gamela ainda consolidava o que hoje se considera a maior das utopias que a paz e unio entre os povos alm de aglutinar em torno de si todas as espcies. Ao redor de uma boa gamela os inimigos se confraternizavam. No existiam desiguais. Ali, todas as diferenas se ajustavam. Todos os prumos se alinhavam. Os contrrios se atraiam. E todos os feios eram bonitos. Era, portanto, incomensurvel o poder da gamela. Igualdade para todos, devia ser o lema do gameleiro.

Agora que voc j sabe o que uma gamela, vamos falar um pouco sobre Creuzo, a deusa negra que ilustra esta minha crnica brejeira de Maio-13.

Pele preta, alta, gorda e magra. Mineirismo parte, so estes alguns traos fisionmicos de Creuzo que por si s, nenhuma atrao despertaria ao mais simples dos mortais. Culta, falante e sensvel. Mudou alguma coisa? Claro, agora, podemos conversar!

Enquanto conseguiu driblar a necessidade, ela estudou na mesma Escolinha que este que vos fala. Lembram-se da Escolinha de uma porta s? Pois , foi l. Quando, juntos, conseguimos decifrar a primeira palavra que Florisbela Martins escreveu no quadro negro, estrangeiro que nos colocaria no rol dos alfabetizados, a vida lhe desferiu um grande golpe. Perdeu a me. Tinha nove anos. Grande foi batalha travada pelo senhor Alfredo, seu pai, no sentido de protelar o mximo a sada de Creuzo da Escola. Destarte, foi vencido, e por isso no demorou muito para que Alfredo optasse por levar Creuzo para o trabalho onde, infante ainda, especializou-se na divina arte de cozinhar.

Vencios, Rosalino, Juca, Idalino, Senhorzo, Saturnino, Pompilio e muitos outros fazendeiros regionais tiveram, sem que o soubessem, a honra de t-la, um dia, pilotando um fogo de lenha em suas respectivas fazendas. Mas foi por pouco tempo, por que no demorou muito e Bimbim, um parente distante de meu querido av, encantado com seus dotes culinrios a sequestrou, tirando-a da cozinha das fazendas. Agora ela podia ser encontrada dando expediente na cozinha da Penso da Dona Quinor, no Centro do Brejo, onde ficou durante algum tempo.

Alvissareiras foram as noticias que recebi do amigo Bad aqui em So Paulo, dez anos depois, a respeito de Creuzo. Informava o conterrneo recm-chegado que Creuzo j no estava mais no Brejo. Que deixara o emprego na Penso. Que ela havia se casado e agora possua um luxuoso e muito bem movimentado Restaurante em Bairro nobre de Belo Horizonte, ou melhor, no Pampulha, prximo ao Aeroporto.

No fim daquele ano visitei minha tia Tat que residia em BH no Jardim Laguna. Como sempre gostei de prestigiar a garra do ser humano principalmente enaltecendo o sucesso daqueles que vieram de baixo, no fosse sempre assim e eu no teria hoje tantas histrias para contar, aproveitei para dar um pulo at o Pampulha. Eu no tinha o endereo, mas tinha o nome. Bar e Restaurante Flor da Pampulha. No foi difcil encontra-lo. Com trs indagaes eis-me de fronte ao mesmo. Tudo que Bad me relatou de luxo e badalao e que em alguns momentos cheguei a duvidar, foi pouco.

Logo na entrada havia um tapete vermelho sob toldo esverdeado em forma de espiral que comeava na calada e terminava na grande e emoldurada porta de entrada onde clientes em fila indiana transitavam em trajes elegantes de executivos enquanto as damas ostentavam pulseiras e colares de ouro e vestidos longos. Intrigado, eu, que nas fazendas brejeiras sempre comi das gameladas de Creuzo vestido impecavelmente de minha nica cala arranca toco toda remendada e camisa confeccionada de saco alvejado de algodo, calado de alpargatas de couro cru feitas pelo meu saudoso av, no conseguia imaginar as razes, daquela pompa toda de uma aristocracia fria e burra que vivia em uma Metrpole idem, apenas para se alimentar. O que ser que aquela gente comeria? Que prato Creuzo prepararia de to especial e apetitoso para agradar tanto o paladar exigente e refinado daqueles gr-finos? Em que local encontraria Creuzo dentro daquele mausolu de mrmore, granito importados e porcelanas chinesas? Como ela se comportaria ao ver-me ali? Ser que me reconheceria? Falaria comigo ou fingiria que nunca me viu? O que eu lhe diria?

Bem, eu havia ido ali no para satisfazer minha curiosidade, mas para motivar-me com a constatao de que nada impossvel para os que trabalham.

No entanto, brejeiros, meus diletos conterrneos, vocs concordam que eram muitas as dvidas que eu tinha? Como dirimi-las durante aquele curto espao de tempo que ali permaneci? Sim, por que desde cedo eu aprendi que em nenhuma circunstncia se deve avanar quando se tem mais que uma dvida. E eu tinha vrias. Avanaria assim mesmo?

No. De forma alguma. Aquele gesto poderia causar constrangimentos desnecessrios a ela e a mim. No me aproximaria nem mais um milmetro.

Para no perder a viagem por que, afinal, do saco a embira, uai, aguardei do lado de fora pacientemente sada de algum servial. Quando finalmente isso ocorreu me aproximei, tmido, mas jeitoso.

- Por gentileza, mig (era assim que se chamava amigo naquele tempo em BH), poderia me dar uma informao?

- Claro. Como no?

- Voc trabalha aqui?

- Sim, trabalho!

- Quem o seu patro?

- No tenho patro... Tenho patroa... a dona Creuza!

- Creuza?

- Sim. Creuza!

- Creuza de que?

- Creuza Maria dos Santos... a minha patroa. E acrescentou tremenda gente fina. E saber que veio do nada... E o pior, nasceu num tal de So Geraldo no Municpio de um lugar esquisito que tem dois nomes, Brejo das Almas e Francisco S, que, alis, ningum conhece... Parece que fica l no norte. E olhando pelos lados como se no desejasse que ningum mais alm de mim o escutasse, baixou o tom da voz e aos meus ouvidos sussurrou: eu acho que quem nasce no brejo sapo, mais a dona Creuza to boa que nem parece ter nascido l!.

Maldio... Por mil demnios. Outra vez aquela histria de sapo nas minhas orelhas! Ser que aquele infeliz me conhecia? Sabia, porventura, que eu era brejeiro?

Eu j estava convencido. Nem precisava de tantos detalhes. Agradecido, retirei-me, sem entrar.

- Muito obrigado, mig!, pelas informaes.

- Sempre s ordens... Num tem importncia... At logo... Deus te crie. Respondeu-me, cerimonioso, o servial.

...

Por vezes, quando no se tem o que dizer ou garrafas vazias para quebrar, sair Francesa a melhor das estratgias.

E tenho dito!

*O autor nasceu em Francisco S, Brejo das Almas, Minas Gerais.

1. Voc que l minha coluna nos jornais e blogs visite-a tambm em minha pgina no Citybrasil e seja um dos quase 180 mil acessos: http://www.citybrazil.com.br/mg/franciscosa/usuario.php?id_cadastro=7585


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Por Enoque Alves - 29/3/2013 16:46:47
CENAS BREJEIRAS 8 CARMINA DE POES & HILRIO FERRADOR.

*Enoque Alves Rodrigues

Carmina Abadia Ferreira nasceu na comunidade Quilombola de Poes, no distrito de Cana Brava, municpio de Francisco S, ao norte de Minas Gerais, distante a pouco mais de trinta quilmetros do centro de Francisco S ou Brejo das Almas, numa poca muito difcil onde a fome campeava solta por aquelas bandas. Sua estirpe descendia de escravos da famlia S, pois seus pais haviam servido os pais de Francisco e Alfredo, grandes estadistas locais, tendo o primeiro sido Ministro de Viao e Obras Pblicas alm de emprestar seu nome a minha cidade.

L, aquele divino ser, trabalhava duro na roa ou especificamente na antiga fazenda Poo Joo de Deus, no quase infrutfero cultivo de abbora, andu, fava, milho e feijo. Criana ainda mourejava debaixo de sol escaldante de rachar mamonas, mediante pfia remunerao. Ela ajudava os pais Juraci e Quitria no sustento dos oito irmos menores. A vida ali era foda mesmo e o temido bicho da fome que faz o estambo roncar j no assustava a mais ningum. De to presente no cotidiano daquelas criaturas, j no lhes causava nenhum espanto. A fome quando amide, perde o temor do faminto que por no ver outra soluo acaba por familiarizar-se com ela. Jovem ainda contraiu npcias com Hilrio J, tambm descendente de escravos, s que vindos da Bahia.

Naquela comunidade no havia nenhuma diverso a no ser o trabalho e as festas anual do Senhor Bom Jesus, de Nossa Senhora Aparecida e Nossa Senhora do Desterro que ocorriam nos meses de Julho, Maio e Dezembro, respectivamente. A f que remove montanhas tinha que existir. E existia mesmo em toda a sua plenitude. Sem ela no tinha como se viver ali. A Religio que predominava naquele meu torro era a Catlica Romana da qual faziam parte grandes ncleos inclusive Carmina e todos os seus familiares.

Depois de enfrentarem grandes dificuldades eis que decidiram mudar para o centro de Francisco S, ou Brejo das Almas. Fundamentaram esta deciso ao fato de que os dois filhos que estavam crescendo deveriam ter a oportunidade que eles, os pais, no tiveram, de estudarem para que assim pudessem ser algum na vida. Conseguiram alugar um casebre na Rua Sete de Setembro no centro do Brejo. Matricularam os dois infantes em escola tambm no centro. Enquanto Carmina cuidava das crianas e passava roupas em casas de senhoras da sociedade brejeira, Hilrio que desejava a todo custo fugir da roa, agora se dedicava ao oficio de ferrar cavalos tornando-se exmio especialista. Ningum dominava melhor que Hilrio esta nobre arte que ao contrrio do que muitos pensam, no nada fcil. Ele trabalhava com os melhores cravos e ferraduras que, segundo diziam, eram os fabricados em Salinas de onde tambm vinha cachaa que ele mantinha em um corote de carvalho com a qual brindava sua cativa freguesia com uma cuiada, pois a mardita era ofertada em uma cuia a guisa de copo. Sua banca, na verdade, um caixote de madeira, ao lado de um tronco onde amarrava os biches, ficava defronte a antiga Viena. Isto era sagrado. Sempre que ele finalizava a tarefa de ferrar as animlias estendia, graciosamente, uma pequena cuia de cachaa ao cliente em forma de agradecimento. Depois disso, com uma bucha vegetal, dava um brilho nos cascos do rincho que saia de l com os pisantes nos trinques, alm de levar uma tosada na crina. Hilrio era deveras caprichoso e tinha mesmo que progredir. Em pouco tempo sua fama correu os mais longnquos rinces de onde fazendeiros mandavam atravs de seus capatazes, suas belas montarias para que Hilrio as ferrasse. Havia at ferraduras douradas que de longe reluziam. Enquanto ambos, Hilrio e a batalhadora Carmina progrediam, criavam e educavam os dois filhos no caminho do bem.

Quando o Brejo ficou pequeno para os meninos Carmina e Hilrio no pensaram duas vezes. Mandaram-nos estudar em Montes Claros que naquela poca no tinha a pujana de hoje e, por isso, dentro de algum tempo, tambm ficou pequena para os dois carinhas que, motivados at a medula pelos pais, filhos de escravos, no pararam mais de estudar enquanto trabalhavam. O Cu era o limite para eles. Nada os deteria. Ser?

No. Voc que h muito tempo me l j est, assim como eu, literalmente, careca de saber, que quando eu insiro uma interrogao no verbo conjugado ser, alguma surpresa est por vir. Geralmente com este verbo interrogativo eu prenuncio o epilogo de alguma crnica. Mas desta vez voc no acertou. Pela primeira vez consegui no ser previsvel.

Ano de 1980. Rua Florncio de Abreu em So Paulo. Aos que no conhecem esta rua informo que a mesma, naquele tempo, era inteiramente ocupada por casas comerciais onde s se vendiam ferramentas. Eu trabalhava numa grande Construtora aqui em SAMPA e cabia a mim o setor de suprimentos da empresa. Foi por isso que naquele dia l estava eu com uma prancheta mo a percorrer a Florncio realizando comparativas de preos para uma grande aquisio ferramental. Como sempre fazia, desci mencionada rua analisando preos do lado mpar at prximo Rua 25 de Maro. Ao subir a Florncio cheguei at uma loja onde a denominao grafada em sua placa remeteu-me h um passado muitssimo distante. L estava escrito Casa de Ferramentas Ferreira & Ferrador.. At ai, nada mais natural. Tratar-se-ia seguramente de alguma das muitas coincidncias que acontecem vida afora. Nenhuma curiosidade tinha eu a despertar neste particular. Mas eu estava ali fazendo o meu trabalho que era pesquisar preos, por isso tinha que entrar. E entrei...

Predominantemente habitada por brancos, em sua maioria, descendentes de Europeus, os dois senhores que a primeira vista percebi tratar-se dos gestores daquele grande estabelecimento, destoavam-se, e muito, destes esteretipos. Eles eram pretos. Um muito alto enquanto o outro era de estatura mediana. Ao me verem designaram um de seus balconistas para me atender. Enquanto eu era atendido, o senhor alto, passou-me, singelamente, uma xcara de caf muito doce e ralo. No tinha mais dvidas.

- O Ferreira & Ferrador que do nome a vossa loja, porventura, so de Minas?

- No. No so de Minas. Respondeu-me o senhor alto, entre sorrisos. So do Brejo das Almas!

- O senhor o Hilrio Ferrador, marido da dona Carmina?

- No. Somos seus filhos. Nossos pais j no trabalham mais. Eles j trabalharam muito para nos sustentar. Eles vivem conosco aqui em So Paulo para onde viemos concluir os nossos estudos. Aqui nos formamos. Eu sou o Hilrio Filho e me formei em direito enquanto que o meu irmo, o Carmino, Contador. Foram os nossos pais os fundadores desta loja. O Ferreira homenagem a minha me enquanto que o Ferrador homenageia o meu pai, que venceu na vida e nos educou ferrando cavalos.

Foi por isto que utilizei um & comercial ao invs da vogal E no titulo desta minha verdica crnica de Abril.

Eita mundinho pequeno demais da conta, s!

...

Por vezes, ou quase sempre, no h limites para os que perseveram no trabalho digno.

E tenho dito.

*O autor nasceu em Francisco S, Brejo das Almas, MG.
Visitem meu site e leiam todas as crnicas sobre o Brejo das Almas.
http://enoquerodrigues-earodrigues.blogspot.com.br/


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Por Enoque Alves - 2/3/2013 10:22:26
CENAS BREJEIRAS 7 MARIANA PERES

*Enoque Alves Rodrigues

Ela estava decidida. No ficaria nem mais um minuto ali. Dificuldades extemporneas sua rotina e a atual decepo amorosa a estavam escorraando de sua linda e querida Lagoinha, pequena comunidade pertencente ao Municpio de Brejo das Almas ou Francisco S, ao norte de Minas Gerais, onde nascera. Nenhuma oportunidade de estudos tivera. Mariana Peres tinha as mozinhas calejadas pela lide pesada na lavoura de onde tirava o sustento prprio e de sua prole constituda com Juca Peres composta de oito boquinhas nervosas.

Juca, caboclo forte e destemido, pau pra toda obra, sempre pronto a ir luta em busca de dias melhores agora estava desmotivado e j no se dedicava ao trabalho e a famlia com a mesma intensidade de antes. Autoestimas pfias aproximavam aquele brejeiro da inrcia total. De repente ele que era um batalhador incansvel comeou a encostar o corpo. Foi em uma de suas muitas idas ao centro de Francisco S que aquela mudana inesperada se apoderou dele. Agora, levantava-se de manh e ao invs de ir para a roa, j com o mato a invadir as plantaes, o fazia pelos caminhos dos botecos brejeiros, ou especificamente no humilde, mas sempre badalado p na cova aonde se enturmava com outros desocupados bebuns. L ele passava todo o dia lamentando a sina e degustando as detonam fgado de ento. Ali ele marcava o ponto. Era, por mais incrvel que parea, naquele paraso s avessa que ele encontrava o sossego almejado.

No adianta buscar no campo da psicologia uma explicao lgica e racional que permita definir com clareza necessria o que se passa na mente humana. Tampouco, nem mesmo Sigmund, conseguiu entender os motivos capazes de arrebatar algum de uma vida simples e pacata, mas digna e cheia de sonhos e perspectivas, atirando-o ao mais triste e tenebroso atoleiro de dvidas e incertezas. Ocorre que o nosso crebro habitado por vrios mundos, sendo quase todos eles impenetrveis. Pois . Imaginemos ento que as ideias de nosso amigo e conterrneo Juca Peres, de Lagoinha, estavam uma verdadeira quiaa assim como na quiaa estavam suas roas que reclamavam sua presena, pois h muito tempo no viam o fio da enxada, nem ouviam o seu tilintar contra as pedras na defesa das viosas floradas sem as quais vargem alguma vingaria, comprometendo, assim, quaisquer quesitos relacionados colheita e fartura. Juca havia mergulhado de cabea na bebida e ociosidade e agora no conseguia sair do marasmo que tornou sua existncia. Alis, na verdade, no saia por que nenhuma fora de vontade tinha. Entregou-se inteiramente ao vicio e agora via escapar por entre os dedos eventuais oportunidades que a vida, porventura, lhe havia reservado. No h, no modesto raciocnio deste escriba, nada que antes tenha sido arquitetado por qualquer plano, impassvel aos nossos prprios desejos de mudar ou transformar. A vontade que nos impulsiona a seguir adiante a mesma que nos leva a mudar aquilo que est nossa volta, adequando-o ao nosso modus vivendi. Mais Juca no queria sair do lamaal. Fazer o que?

Por conta destes motivos vemos agora Mariana lamentando a sorte que ela no escolheu. Estava, aquele divino ser, entre a cruz e a caldeirinha. Mas ela tinha de fazer alguma coisa. E fez.

Ao retornar certo dia de mais uma bebedeira Juca encontrou a casa vazia. Mariana foi embora com as crianas. Mudou-se para Gro Mogol distante aproximadamente setenta e seis quilmetros do Brejo. Juca at que a procurou durante alguns dias, mas depois desistiu de vez. Ai foi que a coisa entornou mesmo. Juca afundava cada vez mais na bebida pela qual trocou seu Sitio com todas as roas e algumas cabeas de gado. Depois de beber tudo que tinha tornou-se indigente. Morador de rua. Elegeu como seu point a escada, de apenas trs degraus, da antiga Igreja de So Gonalo, no centro do Brejo. A todos quantos ali transitavam mendigava uma moeda para, segundo dizia, comprar um po para matar a fome.

Compadecido do deplorvel estado de Juca, certa ocasio o grande Feliciano Oliveira, cujos pais eram donos de fazendas na regio, convidou-o para colaborar com os mesmos nas tarefas dirias da fazenda e em troca receberia um soldo a cada fim de ms.

Quem de longe observasse veria, por certo, o segundo personagem desta verdica histria ocorrida no Brejo das Almas no inicio da dcada de 1960, se esvaindo em lgrimas, procurando, improficuamente, l no fundo de seu limitado vocabulrio palavras de gratido quela mo salvadora. No dia seguinte Juca amanhecia na fazenda dos pais de Feliciano, dedicando-lhes toda a sua longa existncia no rduo trabalho no mais voltando ao vicio da bebida. Foi eternamente grato a Feliciano a quem jamais decepcionou.

Enquanto isso, em Gro Mogol, Mariana refazia sua vida. Contraiu novas npcias e a prole s fez aumentar. Com quarenta anos era me de doze filhos. Quase todos, exceto um, Djalma, o mais velho, viviam com ela. Firmino Ferreira, seu atual esposo era um sujeito de posses e no deixava que nada faltasse a Mariana e aos meninos. Mariana estava muito feliz. Pudera, ela no se acomodou. Correu atrs da prpria felicidade e agora em idade madura a alcanava. Que bom. Finalmente, depois de vrios trancos, a vida agora lhe sorria.

Ser?

Residiam na Rua Alfredo Colares no Centro de Gro Mogol. Manh de uma primavera de pouco verde. Era outubro de 1961. Saudosa de sua Lagoinha, l estava ela a visitar parentes. De l se dirigiu ao velho Centro do Brejo das Almas. s quinze horas encontramos aqueles delicados pezinhos, antes rachados, a palmilharem as ruas adjacentes empoeiradas. Passou em frente Igreja Matriz e continuou sua caminhada que, no entanto, foi interrompida abruptamente. Ao chegar diante da Igreja de So Gonalo, ao fixar seu olhar em algo, na realidade, um farrapo em forma de gente que se encontrava estirado sobre o ltimo degrau do solo sagrado, atnita, no conseguia acreditar no que via. Por alguns instantes permaneceu esttica. Teimava em no aceitar o que o destino cruel lhe reservara. Prostrado ali, beira de um coma alcolico, no mesmssimo lugar onde antes, num passado distante, se encontrava o pai Juca, l estava seu filho mais velho Djalma. Todas as tentativas empreendidas por aquela me desesperada resultaram-se infrutferas, pois desta vez o maldito vicio conseguiu vencer, ceifando, trs meses depois, a vida do jovem Djalma.

Carma? Coincidncia? Premeditao? Estava escrito? E, nesse caso, como ficaria a irremovvel vontade de mudar as coisas da qual falei logo atrs?

Uai, s, quantas perguntas difceis de responder! Se nem Sigmund as responderia, por que eu? Por via das dvidas... Bem, no vou entrar nessa... Prefiro no ter opinio formada a esse respeito... Fao meus os seus pensamentos, comentrios e interpretaes, mesmo no sabendo quais so... Caititu fora de manada papo pra ona.

...

Por vezes, quando no conseguimos identificar de pronto origem de certas provas que a vida nos impe, o melhor mesmo aceita-las, sem questionamentos.

Um forte abrao, brejeiros. At ms que vem!

E tenho dito!

*O autor nasceu em Francisco S, Brejo das Almas, MG.


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Por Enoque Alves - 2/2/2013 15:16:49
CENAS BREJEIRAS 6 ANA LUCLIA DO TABUAL

*Enoque Alves Rodrigues

Ana Luclia. Era esse o nome de minha primeira professora no curso primrio l no povoado de So Geraldo.

Ela era natural de Tabual, lugarejo pertencente ao Municpio de Brejo das Almas ou Francisco S, ao norte de Minas Gerais. Filha de Joaquim Silva e de dona Maria Garcia, foi designada pela Prefeitura do Brejo para lecionar na pequena So Geraldo, cuja escola tinha minha me como diretora.

Uma vez em So Geraldo, Ana Luclia, ficava hospedada em casa de dona Dazinha, tambm professora, esposa de seu Lau, aougueiro.

De 1959 a 1960 Ana Luclia foi minha professora e por que no dizer tambm, a diva que povoava o meu ilimitado mundo de fantasias, fomentando-o com sonhos bons mais irrealizveis. Sweet memories..

Naquele tempo de saudosa lembrana, Ana Luclia no possua mais que 17 anos. No entanto, inobstante tratar-se apenas de uma adolescente, todos ns em sinal de respeito e reverncia natural para caracterizar a posio hierrquica que ela mantinha sobre ns, seus pupilos, a tratvamos por dona, numa poca abenoada onde o professor era tido como um segundo pai ou uma segunda me, pois os cupins do desequilbrio, indisciplina e desamor ainda no haviam corrodo as bases slidas da sagrada famlia como ocorre nos dias atuais, quando no mais se mantm o menor respeito por aqueles que nos ensinam as primeiras letras assim como os primeiros passos pelos caminhos da vida.

Em meus tempos de infante escolar, que no foram, de forma alguma, os tempos da palmatria, a nica referncia travessura cometida por um aluno na sala de aula era surrealista, pois servia apenas como elemento figurativo para ilustrar uma das estrofes da msica, a meu ver, de pssimo gosto, capeta em forma de guri,, cantada pelos Incrveis. Bem, para cantar aquilo, tinham que ser mesmo incrveis: crescendo o menino, pra escola entrou, de cara feia logo a professora olhou. No meio da aula, num teco fatal, mandou um coleguinha logo pro Hospital... Conheci um capeta em forma de guri.... Lembram-se?

Antes de sentarmos para fazermos as nossas lies, guiados pelas suaves mos da pequena grande mestra, tnhamos de rezar o Pai Nosso e cantar o hino nacional, assim como tambm fazamos em nossa sada. ramos orientados a sermos solidrios e a tratarmos uns aos outros com respeito e cordialidade. Recebamos ali, entremeados com o b--b e tabuada, noes de religio, amor a Deus, ao nosso semelhante e Ptria, embasamentos singelos, mas fundamentais que nos preparavam para sermos bons cidados no futuro. A minha primeira escola s tinha uma porta que era a mesma de entrada e sada. No tinha carteira ou banco escolar que eram improvisados, mas, sem quaisquer jactncias, seria at covardia de minha parte comparar o aprendizado que recebi ali com o de outras escolas que frequentei mundo fora. Frondosas em seus interiores e frontispcios e imponentes em seus currculos, mas nenhuma to rica e prdiga em ensinamentos como foi minha primeira escolinha. Pois .

E o que vemos hoje? Vamos analisar?

Lares desestruturados com pais truculentos, xucros e negligentes que brindam seus filhos, desajustados desde o nascimento, com pssimos e abominveis exemplos. No bojo paternalista de um genrico de governo quinto-mundista veio s creches e vrias aes sociais que, dado ao baixo nvel sociocultural do Brasileiro, tornaram-se fomentadoras da preguia e paternidade irresponsvel. muito fcil e gostoso fazer filhos para o estado, ou seja, para ns, contribuintes responsveis criarmos. Eles deixam, na maioria das vezes, toda a educao infantil, inclusive aquela da qual eles, os pais, no deveriam jamais se abdicar por lhes serem atribuies intransferveis por dever constitucional, por conta dos professores que no final, ainda so cobrados pelos pais inescrupulosos e insolentes, quando algo no sai muito bem para o seu capetinha. O termo no sair muito bem aqui utilizado significa dizer, quando os professores em pleno exerccio de suas prerrogativas na cruel arte de ensinar, acabam por contrariar as vontades do capetinha birrento, entojado e mal criado. H casos extremos aqui em So Paulo que certamente no se diferem das demais regies Brasileiras, aonde alunos, capetinhas e capetes, chegam mesmo a agredir fisicamente seus professores sob o beneplcito dos pais bundes, e de um risvel cdigo penal bichado, ultrapassado desde o seu nascedouro em 1940, desprovido de efeitos reais coercitivos que beiram o ridculo e que nenhuma autoridade exerce sobre eles. o fim do mundo. Definitivamente eu no seria um bom professor. Talvez seja por isso que Deus no me deu esse dom apesar de vir de famlia onde todos exercem com muita honra, orgulho, galhardia e dignidade esta nobre arte.

Vamos sair dessa zona de turbulncia que muito me aborrece e voltemos docilidade de dona Ana Luclia, de Tabual, personagem de minha crnica deste ms.

Geralmente, conforme deixei entender nas entrelinhas, naquela idade todos ns, garotos, estaramos preocupados em identificar outro atributo: a beleza fsica, por exemplo. Dona Ana Luclia era demasiado linda, verdade, mais a pujana de sua beleza intelectual conseguia sobrepor lindeza material e isso nos prendia a todos. Quando abria a boca para falar, nossas atenes eram, imediatamente, arrebatadas para a sua graciosa e eloquente didtica. Educada, paciente, cordial, enrgica, sorridente, determinada e assertiva. Eram predicados inerentes quele divino ser, deusa de rara sabedoria e beleza.

Antes de chegarem s frias escolares daquele fim de ano, todos ns, seus pequeninos alunos fomos tomados por sensaes cujas causas desconhecamos. Flutuvamos entre o bom e o ruim. Nos intervalos recreativos conversvamos entre ns ansiosos por encontrar no outro a explicao que aguava nossas curiosidades rumo ao desconhecido. Por mais que tentssemos, no conseguamos imaginar o que estaria por acontecer. A merenda base de triguilha (trigo in natura) com leite em p parecia-nos insossa. As palavras doces de dona Ana Luclia, tambm pareciam no serem mais as mesmas. Soavam agora meio que sem sentido. Criana assim. Um osis de curiosidade, mas nenhuma criana foi feita para conviver com curiosidade. Ns no ramos diferentes. Algo estava por acontecer, disso tnhamos certeza. Uai, o que seria?.

Duas semanas antes das esperadas frias, a noticia comeou a correr trazida que foi por dona Dazinha de seu Lau: dona Ana Luclia, a linda e inteligente professorinha no mais continuaria conosco no prximo ano. O seu saber e todas as suas demais virtudes intelectuais haviam atravessado as fronteiras limitadas da querida So Geraldo. Agora, o prefeito do Brejo julgava importante designa-la para ir cuidar de outras mentes em formao preparando-as para o porvir. Por certo ele entendeu que ns l em So Geraldo j havamos atingido o estgio necessrio aos desafios que a vida nos traria. Ela foi promovida e depois transferida para Porteirinha, a pedido do prefeito de l, de onde jamais tivemos noticias. Nos primeiros dias do seguinte ano letivo nos sentamos meio que rfos, mas depois o furaco do saber e ensinar de nome dona Florisbela Martins, (a quem dedico flor animada que cintila e enfeita o introito desta minha crnica), obedecendo como a um co de guarda, aos comandos da dona Nazir, preencheu, imediatamente, a altura, os espaos deixados por dona Ana Luclia. Dali possvel que no tenha sado nenhum grande vulto exponencial que pudesse revolucionar o podre mundo da politica, das belas artes ou do saber, ou qui, com alguma notoriedade relevante em outros patamares da vida. Mas de uma coisa estejam certos e convictos: De l saram cidados ntegros e cnscios de seus direitos e deveres sociais e acima de tudo, exemplares pais de famlia que sabem que a verdadeira educao e disciplina comeam em casa e que a escola, com seus professores mal remunerados por um Governo hipcrita, inepto e capenga, preocupado apenas com suas avaliaes pfias e tendenciosas, salas de aulas sucateadas e imundas, caindo aos pedaos, milagrosamente apenas as complementam.

Ou eu estou errado.

Desculpe-me, dona Ana Luclia, onde quer que a senhora esteja. Mas, neste finalzinho de minha crnica no me foi possvel segurar a onda. Sbrio, comedido e educadamente, claro, pois foi assim que minha santa mezinha, a senhora e o mundo me ensinaram.

...

Por vezes, necessrio se faz cutucar o gigante que dorme deitado eternamente em bero esplndido para ver se ele acorda para cuspir, uai.

E tenho dito!

*O autor nasceu em Brejo das Almas, Francisco S, MG.


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Por Enoque Alves - 6/1/2013 22:16:01
Brejo das Almas faz 75 anos sem o seu fundador

*Enoque Alves Rodrigues

Brejo das Almas, 17h30m do dia 8 de Janeiro de 1938. Com quase 67 anos, falecia, depois de padecer por doze anos do mal de Parkinson, no Brejo das Almas, ou Francisco S, distante 480 quilmetros da Capital Belo Horizonte, ao norte de Minas Gerais, Jacinto Alves da Silveira. Portanto, brejeiros, depois de amanh, tera-feira, oito de Janeiro de 2013, o nosso Brejo completar 75 anos sem o seu fundador.
A Parkinson idioptica, ou seja, uma enfermidade primria de causa obscura. H deteriorao e morte celular dos neurnios produtores de dopamina. , por isso, uma doena degenerativa do sistema nervoso central, com incio geralmente aps os 50 anos de idade. uma das patologias neurolgicas mais frequentes visto que sua prevalncia situa-se entre 80 e 160 casos por cem mil habitantes, acometendo, aproximadamente, 1% dos indivduos acima de 65 anos de idade. Apesar do muito que j se pesquisaram, decorridos quase duzentos anos do descobrimento desta gravssima doena por James Parkinson, pouco ou quase nada se sabe sobre suas causas.
O fato que, deve-se a ela, todas as consequncias de doze anos de sofrimentos que vitimaram o grande e insubstituvel benfeitor de nossa Cidade. Tudo comeou quando ainda vereador em Montes Claros, no momento em que lutava pela aprovao de mais um projeto que beneficiaria o Brejo. Ali ele sentiu as primeiras dores no dedo indicador da mo direita, que insistia em no obedecer aos seus comandos. Seu colega de partido, Antnio Ferreira de Oliveira, o Niquinho Acar, ou Farmacutico, quem conta com todos os detalhes, o inicio desse duradouro tormento, que, como j mencionei, doze anos depois ceifaria a vida do nosso mais ilustre Brejeiro.
Jacinto Alves da Silveira foi, at hoje, o nico capaz de reunir todos os predicados que habilitam qualquer individuo a afirmar ter vivido a vida em toda a sua plenitude na prtica do bem. Descendente de famlias de Ouro Preto, assim como os Pena, Oliveira, Dias, Xavier, entre outras, esta ltima pertencente genealogia do grande Mrtir da Inconfidncia, o Tiradentes, Jacinto, um dos muitos filhos do velho Fazendeiro Jos Alves da Silveira, nasceu no Brejo, l pelos idos de 1871, quando o Brejo sequer sonhava em ter as feies de hoje. Ao contrrio, assemelhava-se, muito mais, ao longnquo dois de novembro de 1704, quando no passava de uma vasta mata s margens dos rios Verde Grande, So Domingos e Gorutuba, onde Antonio Gonalves Figueira, dono de vrias fazendas na regio, fincou pela primeira vez, ao lado da Lagoa das Pedras, o imenso cruzeiro que marcaria para sempre, no tempo e no espao, o inicio de uma nova era, de uma promissora civilizao e de uma progressista Cidade, como o prprio Bandeirante profetizara. Jacinto, ao contrrio de seus outros irmos que eram todos Fazendeiros, desde a infncia, apesar de rstico, j se revelava muito inteligente, quando lia, escrevia e realizava clculos difceis at mesmo para quem tinha a mais elevada cultura. Era, desde aqueles tempos, um iluminado, na mais clara e lmpida definio do termo.
Bonito, com 1,80 de altura, bigodes aparados e bem fornidos, cabelos cortados escovinha, trajando-se sempre de brim cqui, o belo jovem Jacinto Silveira juntamente com outros pees, percorria, no lombo do cavalo, por estradas de cho batido a longa distncia de 270 quilmetros conduzindo grandes manadas de gados de corte que eram vendidas na cidade de Curralinho, hoje, Corinto, situada ao norte de Minas Gerais. Com 24 anos conheceu e casou-se com a normalista Maria Luiza de Arajo, na velha Matriz de Montes Claros, no dia 16 de Novembro de 1895. Maria Luiza foi durante toda a vida, sua fiel e inseparvel companheira, a qual foi responsvel pela conduo dos destinos do povo brejeiro no campo da educao e cultura, enquanto Jacinto preparava esse mesmo povo na poltica e principalmente para a emancipao administrativa do Brejo, que ocorreria em 1923/24. Foi o primeiro presidente da primeira legislatura municipal brejeira, 1924/1930, que era composta pelos seguintes vereadores: Padre Augusto Prudncio da Silva, Francisco Fernandes de Oliveira, Jos Dias Pereira Zeca, Joo de Deus Dias de Farias e Rogrio da Costa Negro, este ltimo, um grande comerciante do ramo de tecidos.
Lutador incansvel pelos direitos de seu povo, ntegro, transparente, correto em todas as suas atitudes, honesto at a medula, numa poca em que a mosca varejeira sequer sonhava sobrevoar o mundo da poltica, Jacinto Silveira conduzia os destinos do povo Brejeiro pelos caminhos da retido e do porvir, assim como Moiss do Egito conduzia seu povo rumo Terra Prometida. Jamais perdeu uma s eleio. O Brejeiro daqueles tempos sabia reconhecer os valores inalienveis daquele homem e o tinha como a um verdadeiro Lder. E como tal se comportava: respeitador e cerimonioso, de falar pausado, olhava sempre nos olhos do interlocutor e no o interrompia quando o outro se pronunciava. Firme e assertivo, sempre expressou o seu pensamento. Nunca se utilizou de meias palavras. Era homem de posies claras e definidas. Benevolente e despojado, servia a todos com amor sem pedir nada em troca. Disciplinado, sabia ser enrgico sem ser jactante. Muitos foram os Governadores de Estado que utilizaram o prestigio de Jacinto. A palavra dele era uma ordem e nela todo e qualquer Brejeiro acreditava cegamente por que Jacinto nunca deixou de cumpri-la.
Rico, dono de vrias fazendas de gado e cultivo, casas comerciais e muitas outras fontes de renda, Jacinto Alves da Silveira, homem que durante toda a existncia sempre teve a casa cheia de amigos e correligionrios, que sem nenhum apego s coisas materiais, ajudava, com recursos pessoais a todos, brejeiros ou no; bancava, do prprio bolso, inmeros candidatos em campanhas eleitorais carssimas. Depois de ter custeado a emancipao do Brejo das Almas, tendo inclusive doado prdios de sua propriedade para comporem a Sede Administrativa e o conjunto arquitetnico do Municpio, condio esta indispensvel a sua homologao, j no final da vida, corrodo pela enfermidade degenerativa, ainda era obrigado a arrastar-se de sua casa at a Prefeitura, onde dava expedientes, deixando-nos o belo exemplo de que no trabalho que nos realizamos e enobrecemos. Morreu, no entanto, pobre, mas digno e praticamente s, tendo a seu lado apenas os familiares.
No sem motivo que um de seus filhos, o tambm Coronel Geraldo Tito Silveira, assim se expressa em um de seus lindos libelos, referindo-se as indiferenas das quais fora vitima o pai: Nos ureos tempos de sua vida abastada, quando ele plantava as sementes de uma pequena fortuna, depois esbanjada nos ardores da poltica, feita somente para o bem-estar de outrem, sua casa solarenga vivia repleta de amigos. At ento, no se via pela estrada real, que ia dar Bahia, uma s pousada ou hospedaria, de modo que os forasteiros que por ali passavam procuravam a casa do Coronel Jacinto, onde recebiam todo o conforto, gratuitamente. Muitas dessas pessoas eram acometidas de terrveis pestes inclusive febre brava!.
E arremata o grande escritor do Norte de Minas. Geraldo Tito Silveira, agora lamentando mais uma grande injustia com a qual brindaram o pai. Alis, muito j falei sobre tal injustia que espero um dia, qui nessa atual encarnao ver corrigida: Como corolrio da ingratido dos homens, mudaram o nome de Brejo das Almas, no para perpetuar o nome de Jacinto Silveira, na terra que engrandecera, mas para honrar o nome de outro Brasileiro, Ilustre, verdade, mas que nada fizera por ela.. Refere-se ao Doutor Francisco S, (1862-1936), nascido na fazenda Brejo de Santo Andr, que naqueles tempos pertencia ao Municpio de Gro Mogol e que foi Ministro da Viao e levou a Estrada de Ferro Central do Brasil at Montes Claros, que muito lhe deve.
No sei, at porque de h muito no vivo mais no Brejo e no participo de seu dia-a-dia, se a Sociedade Brejalmina ou Brejalmense, movida por nobres sentimentos de gratido, ou, qui, polticos locais, se lembraro de promover neste dia 8 de Janeiro, alguma cerimnia, por mais simples que seja, ainda que um singelo minuto de silncio, quele que foi, e ser, o primeiro e mais importante Brejeiro. O maior de todos, porque deu tudo de si, at a prpria vida, para que o Brejo das Almas ou Francisco S figurasse no mapa de Minas e do Brasil, como o Municpio importante e promissor que .
Depois de permanecer longo tempo na erraticidade, acha-se, atualmente, no meio de ns. No dentro da poltica que, convenhamos, mudou muito, e para pior. Servidor nato e dedicado que jamais fugiu luta, no obstante toda a ingratido que recebeu, acreditem cticos de planto: Se hoje se realizassem uma chamada oral convocando homens de bem a colaborarem com qualquer causa que tivesse por objetivo o bem comum, a justia social, a luta contra as desigualdades dos menos favorecidos, algum, digno, decente, probo e humano em quem, todos ns pudssemos nos espelhar, ao bradarem o nome Jacinto Alves da Silveira! Com toda certeza ouviramos, prontamente, em algum lugar do Brasil, a voz firme, forte e determinada do Coronel e grande Lder: Presente... Eis-me aqui!.
E tenho dito
*O autor nasceu em Francisco S, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.
ALGUNS FRAGMENTOS ALUSIVOS A JACINTO SILVEIRA CRNICAS DE 2012.
*Enoque Alves Rodrigues
1.

Que Jacinto Luz era sogro de Jos Alves da Silveira, grandes fazendeiros no Brejo das Almas de antigamente, sendo este ltimo pai de Jacinto Alves da Silveira, principal responsvel pela fundao e emancipao do Brejo das Almas, hoje Francisco S?....
2 2.
Naquele tempo, Jacinto que era seu compadre, dava expediente na Prefeitura. A farmcia de Frana ficava exatamente no trajeto, que Jacinto fazia trs vezes ao dia, pois almoava em casa. Numa dessas passagens, Frana, desesperado, chamou-o:
- Compadre!
- Pois no. Respondeu-lhe o Coronel Jacinto, sempre educado, cordial e solcito.
- J no sei mais o que fazer compadre. No posso mais aceitar porco, galinha e mantimentos como forma de pagamento. Os meus cercados esto cheios. Se eu continuar assim vou quebrar. Mas tambm no posso deixar o povo sem remdio. O senhor precisa me ajudar!
Jacinto, homem prtico, de raciocnio rpido, desses que em frao de segundos cria, amadurece e executa uma ideia, ali mesmo, sobre o balco da farmcia, pegou sua pena e num papel timbrado escreveu em letras garrafais: Com o nico objetivo de zelar e preservar a valiosa sade do povo brejeiro, com o intuito exclusivo de evitar propagao de doenas e pestes eventuais, inerentes s espcies sunas e ovinas, porcos e penosas, probo, a partir de hoje, qualquer forma de pagamento de remdios mediante tais modalidades.
Depois de assinar, entregou o papel para Frana com a recomendao: Aqui est compadre, a soluo para o seu problema. Pegue isso e cole na frente da farmcia. Quando algum chegar com porcos e galinhas, basta o senhor mostrar o cartaz. Como a maioria no sabe ler, diga que o papel lhe probe de vender remdios para receber de outra forma que no seja em dinheiro vivo....
3.
Quantos, porventura, de nossos conterrneos saberiam definir o quanto representou o nome gravado naquela velha placa para o Brejo das Almas? O certo que o Padre Augusto Prudncio da Silva, sobre o qual muito j escrevi neste mesmo espao foi, juntamente com Jacinto Silveira, um dos maiores benemritos do antigo Brejo das Almas....
4.
Alto, magro e esguio. Vestido do mais puro brim, cqui, calado com botas de couro, canos longos, com chapu panam cabea, olhar tranquilo e falar manso. Sentado estava no solar de seu casaro de onde observava todo o Brejo das Almas, reduzido, naquele tempo, a um pequeno amontoado de casas. Ao avistar Marcolino, elegantemente se expressou:
- Bom dia, meu amigo. Como vai o senhor? Porventura, h algo que eu possa fazer para lhe ajudar?
- Sabe o que coronel! Eu vim aqui para lhe vender o meu voto. Quanto que Merc est pagando?
- Vender, o que, meu filho? Por favor, seja mais especifico. No lhe entendi!
- Ento, coronel, o senhor sabe que todo eleitor aqui vende o voto e que aqui no Brejo qualquer candidato s se elege se comprar votos, j que no tem voto de cabresto para todo o mundo.
Aquele candidato olhou para Marcolino com piedade. Aps fitar-lhe de alto a baixo, respondeu-lhe educadamente.
- Creio que o amigo esteja enganado. O voto deve ser dado e no vendido. Voto no tem preo, voto tem consequncia. Alis, voc nem precisa conhecer a pessoa para votar nela. O que voc tem que conhecer o seu plano de governo. No faa de seu voto moeda de troca seno os candidatos vo fazer de voc massa de manobra e posso lhe garantir que esta ciranda perversa no benfica nem para voc tampouco para Democracia que todos ns um dia almejamos. No vote, jamais, em quem se prope a comprar o seu voto. Ele no o merece....
Democracia? De que diabos aquele coronel visionrio estava falando em plena dcada de 1920 quando a maioria das questinculas era resolvida bala ou sorrateiramente?
Impossvel seria mesmo entender, quanto mais explicar, no fosse aquele candidato o Coronel Jacinto Alves da Silveira que, segundo os anais da histria, jamais perdeu uma eleio das muitas que disputou.
5.
E o nosso fundador, Seu Jacinto. Voc j leu alguma coisa sobre ele?....
6.
Certa vez se encontravam na casa do Padre Augusto, no Brejo das Almas, o Dr. Honorato Alves, Camilo Prates, Alfredo S, Jacinto Silveira, Antonio Ferreira, Francelino Dias...
7.
Depois de longos minutos neste diapaso coube a Jacinto intervir.
- Compadres, por favor, parem com isso! Os senhores ainda no perceberam que este Lucas dos Infernos est tirando sarro de todos ns? O que ele lhes manda fazer, jamais conseguiro. Ningum capaz de fazer isso. Foi bem mais fcil para mim, apesar de sabermos o quanto me foi difcil, (o Coronel Jacinto, como bom Mineiro, de quando em vez tambm se dava ao luxo de colocar em prtica o seu Mineirismo), emancipar o Brejo das Almas. Este negro no quer contar histria coisssima nenhuma!
8.
At mesmo o Coronel Jacinto Silveira, meio sisudo, por natureza, recebia com sorrisos os seus gracejos....
9.
Assim sendo, personagens, cuja vida detalhei em suas minucias como, por exemplo, o Padre Augusto Prudncio da Silva, Jacinto Alves da Silveira, Geraldo Tito, Feliciano Oliveira, entre outros, no sero abordados...
10.
Aqui estamos diante do tmulo do ilustre Brasileiro e acima de tudo, Brejeiro, Jacinto Alves da Silveira, que por toda a sua vida....
11.
Ainda solteiro, Jacinto conduzia grandes boiadas que eram vendidas em Curralinho, hoje, Corinto....
12.
Dos muitos filhos do velho Z Alves jacinto foi o nico a inclinar para o campo do intelecto e, menino ainda, j dominava o alfabeto e tabuada....
13.
Ali foi celebrado o enlace matrimonial de Jacinto Alves da Silveira com Maria Luiza de Araujo, que....
14.
No obstante ter sacrificado a prpria vida pelo Brejo das Almas, Jacinto Silveira pouca ou quase nenhuma homenagem recebeu em vida....
15.
A esposa de Jacinto Silveira, dona Maria Luiza, tinha uma cultura refinadssima e muito alm de seu tempo. ela foi a primeira normalista do Brejo das Almas....
16.
Mantendo as mesmas tradies de injustias com que regalaram o marido Jacinto, Maria Luiza, mesmo tendo sido a primeira Normalista do Brejo, no teve a primeira Escola do lugar nominada em sua homenagem....
17.
Nem mesmo na concesso do Cartrio do Brejo se dignaram a destina-lo a esposa de Jacinto, agregando-o a outra famlia, tambm merecedora, claro, mas sua tradio e amor ao Brejo sequer se aproximavam da tradio dos Silveira....
*O autor nasceu em Francisco S, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


74176
Por Enoque Alves - 1/1/2013 11:07:56
CENAS BREJEIRAS 5 NEIDE DO ANGICO

*Enoque Alves Rodrigues

Neide Francisca vivia na digna comunidade do Angico, localizada nas imediaes do Brejo das Almas, ou Francisco S, quando a seca e a fome castigavam o norte de Minas Gerais. Ali ela cresceu, casou-se e constituiu sua numerosa famlia ao lado do marido Antonio Donato ou Toni Donato.

Vida dura e Severina. Trabalhavam no campo. Quando as crianas nasciam parteira ia logo dizendo: Hehm, to lisinho e parrudinho. Daqui a pouco vai crescer engrossar o cangote e calejar a mo no cabo da enxada. Vai tirar muita roa do mato!.

O pai, todo entusiasmado, ouvia aquilo e ficava feliz. Claro, no existiria, ainda que o filho vivesse cem anos, alternativa que no fosse o cabo da enxada. Invariavelmente era este o destino do mal nascido. Alis, minto. Havia outras opes sim: o cabo da foice, do machado, da picareta e dos cambes. Voc escolhia onde queria se especializar. Eu, por exemplo, um gnio para a poca apesar da idade tenra, doutorei-me na arte de bater cambes. Os caras traziam montanhas de feijo, claro, quando havia boa safra, e eu detonava. Fui mestre nessa arte assim como tambm fui um exmio retratista. S que nessa honrosa profisso no prosperei muito, ou melhor, nada, pois apesar de eu ser o degas, em quase todas as fotos degolava o distinto e ilustre fotografado, deixando-o sem cabea. Eu no conseguia enquadrar o sujeito como fazem os fotgrafos de verdade. At hoje sou um fracasso. Dificilmente consigo tirar uma foto de algum de corpo inteiro. Sempre falta alguma parte.
Neide do Angico e Toni tiveram nove filhos, mas trs morreram de ttano umbilical ou mal de sete dias. Em todos os partos que foram feitos pela mesma parteira, esta profetizava o destino do recm-nascido com a mesma e surrada cantilena. Quando foi para nascer o ultimo, a quem deram em pia batismal o nome de Levi, ao escutar a voz da velha parteira em mais um agouro, Neide do Angico interrompeu-a e vaticinou categrica: Negativo, o meu ultimo filho no vai provar do cabo da enxada, no... Ele vai ser doutor, vai curar muita gente e vai ser muito rico. Ele vai salvar muitas vidas. Ele vai nos ajudar!.

Aquilo era um verdadeiro delrio numa poca em que por mais que voc ralasse, o mximo que voc conseguia era no morrer de fome. Imaginem, ento, quantos triunfariam na arte de Hipcrates? Quase zero. Apenas filhos de fazendeiros chegavam l. Assim mesmo, a maioria, quando conseguia, se especializava em medicina veterinria que era para cuidar dos bois do paizo.

Quando a tirinha de folha de bananeira com a qual a parteira amarrou o cordo umbilical de Levi comeou a secar, Toni Donato, o pai, j queria leva-lo para a roa. A me, a guerreira, Neide, atropelou-o:

-Negativo, j falei que esse menino vai ser Mdico.

-Uai, s, mas Mdico de que? Desde quando pobre tem filho Mdico? Eu preciso do menino na lavoura para aumentar a produo e vanc sabe disso, resmungou Toni!

-Medicina... Medicina... Medicina. Levi vai ser Mdico e no se fala mais nisso!

Neide estava determinada que o filho caula ao contrrio dos demais irmos que eram analfabetos, estudaria Medicina. Ela s no sabia de que jeito. Com quais recursos, por exemplo.

Com oito anos o nosso amiguinho ainda estava analfabeto. Foi aos nove anos que Neide, finalmente, se tocou.

-Diabos, essa criana alm de no estar estudando, tambm no trabalha. Desse jeito no vai dar certo. Toni est com a razo. Tenho que fazer alguma coisa.

Neide, coitada, esperava que a to prometida Escola fosse inaugurada em seu Angico para que o menino comeasse a estudar. Mas estava difcil. Politico entrava e saia e nada de se construir a Escola. Foi assim que ela procurou dona Idazinha, senhora culta e muito bem instruda na arte do b--b e tabuada. Pronto. Era s o que faltava. Em pouqussimo tempo Levi j dominava o alfabeto assim como as quatro operaes aritmticas. No angico no tinha mais espao para o garoto. Neide, a me, pela primeira vez dava sinais de cansao. J no sabia mais o que fazer. Toni estava irredutvel. Queria o menino na roa. Continuariam no Angico. No sairiam de l para nenhum outro lugar. Afinal, dizia ele, ningum precisa estudar.

Joo estava em campanha eleitoral. Ele tinha suas bases em Montes Claros que naqueles tempos era dono do Brejo. Tudo se decidia l. Joo j havia sido Prefeito de Montes Claros, mas ele queria mais, por isso tinha que engolir poeira. Assim sendo inesperadamente acabou baixando no Angico, em casa de Neide e Toni. Bebeu gua do pote, comeu biju e pediu voto. Neide sequer sabia quem ele era. Mas ela estava desesperada e j quase incrdula quanto ao cumprimento da prpria profecia. Quando algum est se afogando qualquer raizinha pode ser a salvao. E era: Ela interpretou a visita daquele forasteiro a sua humilde casa como um aviso dos Cus. Um enviado de Deus. Sem saber com quem estava falando, mas de saco cheio com tantas promessas no cumpridas por velhas e felpudas raposas para a construo da Escola que nunca saia, Neide, aquele divino ser, foi curta e grossa.

Apontando para o raqutico pirralho, cujo nariz escorria, disse ao desconhecido Politico:

-O senhor est vendo aquele magrelinho ali? Pois , ele meu filho! Tem dez anos e nunca foi Escola. O nome dele Levi. Vira e mexe vem gente aqui igual ao senhor pedir voto prometendo escola pra todo mundo. Eles ganham e somem e ns continuamos sem Escola. Quando o Levi nasceu eu falei que ele ia ser Mdico. Mas como, se at agora no iniciou nem o curso primrio? Por isso s voto em quem o transformar em Mdico. Se o senhor fizer dele um Mdico ter o meu voto.

Aquele cidado, paciente, observou aquela senhora com piedade. Apesar de ele prprio se originar de famlia simples, no conseguia entender de onde vinham tanta simplicidade e convico.

-A senhora no precisa votar em mim. Mas eu tenho a obrigao e aqui lhe dou a minha palavra, de transformar o Levi, seu filho, em Mdico. Basta que a senhora me autorize leva-lo para Montes Claros. Estou autorizado?

-Est. Pode levar!

Muitos anos depois Levi era Mdico. Seu consultrio ficava ao lado do consultrio de seu benfeitor e agora padrinho. Trouxe todos os familiares do Angico para Montes Claros.

O sujeito que estava no Angico pedindo votos. Que ouviu as splicas daquela rude senhora. Que chamou a si a responsabilidade de tornar aquela pobre criana um grande e respeitado Mdico, era ningum menos que o Doutor Joo Jos Alves, um dos mais importantes Mdicos que o norte de Minas Gerais j produziu e que, portanto, dispensa aqui quaisquer outras apresentaes. Alis, muito j escrevi sobre ele. O cara era to fudido que mesmo em vida, tinha uma praa em sua justa homenagem que ainda existe no centro de Montes Claros, onde se localizavam sua casa e consultrio.

Pode?

Em tempo: ele se elegeu naquela campanha. Foi prefeito da bela MOC pela segunda vez.

...

Por vezes, dizia Albert Einstein, no meio da dificuldade que se encontra a oportunidade.

E tenho dito!

timo 2013 pranis.

Postado s 11 horas do dia 01 de Janeiro de 2013

*O autor nasceu em Francisco S, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


73736
Por Enoque Alves - 10/12/2012 21:14:51
Feliz natal e um prspero 2013, brejeiros!

**Enoque Alves Rodrigues

Al, Brejeiros. Al meu povo!

i nis aqui traviz!

Por mais um ano estivemos juntos e separados. Juntos, por que ficamos, atravs de minhas crnicas, que so postadas neste Blog inteiramente dedicado ao Brejo das Almas ou Francisco S e seu povo, meus diletos conterrneos, que sempre me prestigiaram concedendo-me a honra e privilgio de lerem aquilo que despretensiosamente escrevo. A internet, nesse sentido nos ajunta de maneira inequvoca ao ponto de nos sentirmos uma s pessoa, mesmo estando eu aqui em So Paulo h mais de 1000 quilmetros de distancia e vocs ai em meu Brejo das Almas querido.
Separados porque mesmo sendo o meu desejo, nem sempre consigo escrever-lhes com a frequncia e assiduidade que gostaria. Principalmente neste ano de 2012 que se finda, devido eu ter abraado outras atividades que, confesso-lhes, esto consumindo muito do meu j escasso tempo.
Foi muito bom contar com vocs durante mais este ano. Espero poder continuar sendo digno de suas atenes e credibilidades no prximo ano de 2013. certo que no tenho a pretenso de agradar a todo mundo. Assim sendo talvez seja possvel que os meus escritos mesmo sendo referentes a pocas remotas e extemporneas aos dias atuais, tenham em algum momento desagradado alguns ou at mesmo frustrado. Mas isso para mim no tem a menor importncia. O importante, na verdade, a conscincia tranquila de que o que me motiva est sendo cumprido, ou seja, compartilhar com muitos de vocs que no tiveram oportunidades de tomar conhecimento a respeito de fatos de h muito ocorridos em nosso Brejo, que o tenham agora atravs destas crnicas, at porque a maioria de minhas narrativas no se encontra ainda registrada nos anais da histria. Elas foram passadas pelo boca a boca, de pai para filho e divulga-las, hoje, possibilita que estes fatos no venham morrer um dia ou cair no esquecimento, deixando os nossos psteros rfos.
Desejo a todos vocs meus conterrneos os mais puros e sinceros votos de um Feliz Natal e um ano de 2013 cheios de Paz e muitas realizaes, em vossas vidas pessoais ou profissionais.
Lembrando sempre que querer poder. Desde que voc v luta e acredite em voc, prprio. Mas no se esquea de que do Cu no cai nada. Alis, aqui em So Paulo, atualmente, nem chuva est caindo.
No tirarei frias neste fim de ano. Portanto o nosso prximo encontro ocorrer somente na primeira semana de Janeiro/2013 em minha primeira crnica de mencionado ano.
Um forte abrao!

*O autor nasceu em Francisco S, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


73690
Por Enoque Alves - 1/12/2012 11:24:42
Cenas brejeiras 4 - Cleonice

*Enoque Alves Rodrigues

Ela nasceu no Catuni num tempo em que o ouro branco, algodo e alho imperavam. Ainda criana veio com os pais para o centro do Brejo das Almas, Francisco S. Residiam, ela, a me, o pai e dois irmos menores Rua Lauro Oliveira, prximo ao Grupo Donato dos Santos. Foi matriculada no Mariquinha Silveira onde desde ento passou a estudar com todo afinco. Parente distante de dona Daza, senhora influente e bem situada na sociedade Brejalmina de ento, no demorou muito para que a pequena Cleonice Rodrigues Pereira, a Clo, ainda no curso primrio, despontasse para a intelectualidade, em cujo campo, surpreendentemente, trafegava com grande desenvoltura que impressionava os mais sbios brejeiros daqueles tempos. Ela discorria com total naturalidade sobre os mais variados temas.
Alm de dota-la de singular inteligncia, a me natureza tambm fora prdiga com Clo no item formosura. maneira que ela crescia, seus dotes femininos acentuavam-se. Adolescente ainda, ela se transformou numa deusa de rara beleza. Em todas as paradas de sete de Setembro, a segurar a flmula do Mariquinha, durante muitos anos, l estava Clo sempre bonita, alegre e vibrante. Mancebo algum se achava altura da beleza e inteligncia daquela beldade. Por isso ningum se atrevia a dirigir-lhe qualquer gracejo por mais simples e despretensioso que fosse. A beleza dela ao invs de atrair, afugentava. Rapazes de famlias ricas e tradicionais de Francisco S se acanhavam. Bem que eles queriam se aproximar. No quesito beleza exterior at que eles se achavam arrumadinhos e no deixavam tanto a desejar, mesmo muito aqum da beleza de Clo. Mas o problema mesmo estava no contedo. Na beleza das ideias. Ai sim, eles tremiam nas bases qual varas-verdes. Pulavam midos e recuavam de todo e qualquer intento. Clo era mesmo poderosa e eles, coitados, no tinham garrafas vazias para quebrar. Eram quase bonitos, mas xucros. No tinham chances. Ser?
Casa Viena, assim como Casa Branca e Costa Negro, liderou o comrcio de Francisco S durante dcadas. Ali Cleonice empregou-se na condio de balconista. A notcia correu clere qual rastilho de plvora. Brejeiros que faziam compras na Viena difundiam a boa nova numa frentica propaganda boca-a-boca, a outros brejeiros de vrias localidades, cujos comentrios no se referiam a chegada de novidades da Capital, nem a preos e qualidades dos produtos que, diga-se de passagem, eram bons e imbatveis. O que eles propagandeavam eram as curvas sinuosas da balconista que os atendera. Eles no falavam da inteligncia porque no af de observarem a beleza externa, sequer se atinham a esse tpico, para eles, desprezvel.
Em pouco tempo, as vendas que j no eram poucas triplicaram. Brejeiros vinham de todas as partes. Eles chegavam e ao invs de fazerem seus pedidos paravam diante de Clo e permaneciam estticos por alguns minutos. Indagados por ela o que desejam?, mineiramente, titubeavam, respondendo-a:
-No sei... Parece que eu vim aqui comprar alguma coisa da qual no me lembro! Depois, disfaradamente, pediam um produto qualquer e saiam.
Numa manh quente outonal, a cidadezinha de Brejo das Almas, terra dos meus encantos, amanheceu triste. No demorou muito para que os falatrios comeassem a tomar conta do lugar. A bela da Casa Viena sumira. Muitos acorreram Rua Lauro Oliveira. Os portes de madeira rstica do velho casaro onde ela morava, jaziam silentes e adormecidos. Os laranjais que outrora, ali existiam cujo perfume das floradas insistia em competir-se, inutilmente, com o perfume natural da diva, apesar do vento que varria as ruas, no tremulavam mais. As maritacas comumente barulhentas em suas algazarras agora mal se entreolhavam. Pintassilgos, sabis, pssaros-pretos e beija-flores estavam entristecidos. A velha paineira, testemunha ocular e privilegiada daquela beleza agora rangia, chorosa. Pudera a fada, cuja presena radiante lhes alumiava os desejos de seguirem em frente, no mais se encontrava.
Rua doutor Santos, em frente ao nmero 127, em Montes Claros. Naquela poca neste nmero ficava uma pequena loja que depois se fez grande. Parece-me que a mesma se denominava Geraldino Boutique. No tenho certeza, sou brejeiro e apesar de o Brejo das Almas se encontrarem a apenas dez lguas de distncia de Montes Claros, posso dizer que pouco ou quase nada conheo da bela MOC.
Eu descia mencionada rua. Por alguns instantes pensei estar sonhando. No poderia ser verdade. No era Cleonice...
Era Cleonice, sim. Mais bonita impossvel. Mais simples bem isso eu no poderia saber. Mesmo menino, eu tambm fazia parte do rol dos que tinham medo de se aproximarem dela. No por eu ser feio, pois conforme meu pai me dizia, eu era muito bonito devido parecer com ele. Mas eu no estava certo se a minha inteligncia a alcanaria. Eu tambm no era nenhum garoto papo firme e que eu saiba, o Roberto, jamais falou de mim. Foi assim que ao avista-la do outro lado, timidamente parei. Atravessei a rua e estendendo lhe a mo em cumprimento, cheio de simpatia, tagarelei:
-Ol, Clo, como vai? Tudo bem? Voc sumiu do Brejo! O que fazes em Montes Claros? Todos ns sentimos sua falta. Voc est morando por aqui? E seus pais, como esto?
Ao contrrio do que eu imaginava em minha pobre ignorncia que envergonharia a mais infeliz e reles das criaturas, aquele divino ser, simplesmente, retribuiu-me o aperto de mo e aps abrir-me um largo sorriso, calma e educadamente, como se fossemos velhos amigos, passou a responder o meu sofrvel questionrio. Falou-me que estava muito bem. Que havia sado do Brejo temporariamente apenas para acompanhar os pais que estavam em Montes Claros a trabalho. Que ela estava fazendo curso de especializao. Que tambm sentia muitas saudades do Brejo e de sua gente. Que voltaria em definitivo no prximo ano, etc.
Enquanto ela falava, eu pensava: Meu Deus, como Clo era simples! Mesmo farta em tudo, era de uma singeleza sem tamanho. Quo precipitados fomos por no termos nos aproximado dela antes! Por quais razes havamos nos subestimado tanto ao ponto de nos privarmos do convvio de uma pessoa to sbia e iluminada? Quantas vezes deixamos de avanar alguns degraus na escada dolorosa da vida e do saber apenas por imaginarmos que os nossos sentimentos no seriam correspondidos?
Enquanto conflitava com o meu eu, Clo, como se estivesse lendo os meus previsveis pensamentos, se despedia, com esta afirmativa.
-Foi muito bom falar com voc. Alis, pensando bem, a gente jamais se falou. Eu tinha vontade de conversar com voc, mas sou muito tmida e aguardava iniciativa sua nesse sentido. Tambm no entendo porque os jovens do Brejo me evitam tanto. Eles praticamente me isolam.
Diabos, isso j era covardia. Eu no estava ouvindo aquilo!
Informada de que, assim como ela, todos ns ramos igualmente tmidos e o pior, que sua beleza e inteligncia nos assustavam, sorriu e acrescentou:
Assim fica difcil. Vocs no se aproximam por acharem que sou mais bonita e inteligente que vocs e eu, de minha parte, no me aproximava por pensar que vocs fosse um bando de metidos. Desse jeito viveramos cem anos no Brejo sem nos falarmos e depois, morreramos todos com a certeza plena de que as nossas piores e mutuas impresses eram verdadeiras. Como? Se jamais nos falamos!
...
Por vezes, diziam os antigos, se voc quer conhecer e se fazer conhecido, ento, fala Man.
E tenho dito!
*O autor nasceu em Francisco S, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.

Aos meus leitores:
partir de outubro/12 postarei somente uma crnica por ms. Entre as inmeras atividades difceis de conciliar, tambm estou colaborando ativamente com uma revista de grande circulao nacional e internacional voltada divulgao do espiritismo.
Abraos.
Enoque.


73480
Por Enoque Alves - 10/11/2012 21:53:34
CENAS BREJEIRAS 3 DONA LURDES

*Enoque Alves Rodrigues

Aquela dcada transcorria celeremente. Estranho, por aquelas bandas, naqueles tempos, se utilizar de qualquer palavra relacionada pressa ou agitao. Mas em meu caso particular, no. Realmente o tempo que antes no passava, agora voava. Estava preocupado com o servio militar e com a possibilidade de alar voos mais altos. E o pior: com medo de estar vivendo um sonho de caro, com asas de cera. Aproximava-se a cada dia, o temido momento em que eu teria que despedir dos familiares, do meu povo e da minha terra. O cordo umbilical tinha que ser cortado. As perspectivas, naquela ocasio, no eram favorveis a um jovem com a cabea cheia de sonhos a serem realizados, custe o que custasse. Desde muito cedo aprendi que do Cu s cai chuva e de quando em vez algum canivete. Nada mais. Alis, pensando melhor, a chuva nem cai do Cu, mas de uma nuvem qualquer que na verdade se forma na terra. Quanto ao canivete. Bem, essa j outra histria. Entenda-o como elemento decorativo ou licena potica. Sendo assim, estamos entendidos que do Cu no cai nada. Por isso eu tinha que ir luta.

Ela vivia nos arrabaldes do Brejo das Almas, ou Francisco S, em companhia de seu digno esposo Eduardo, ou Duia. Particularmente, jamais o chamei pelo apelido. Talvez pelo fato de o Duia compor-se a um adjetivo que fazia aluso a cor da pele, ou qui diferena etria no me facultasse tal liberdade.

Esclarecida, inteligente, sensvel e altrusta acima da mdia. Prendada, dedicada, cordial, amor ao prximo e devotamento religioso que a aproximava dos espritos mais elevados, dona Lurdes ainda possua o dom da premonio. Muitas pessoas se consultavam com ela. A todos tinha uma palavra de conforto e de coragem para seguir adiante. Dedicava-se tambm a expulsar quebrantos e mau-olhado ou olho gordo.

-Pois Dona Lurdes, a Naninha est com um fastio terrvel e no t comendo nada!

-Se preocupa no, Carmem, respondia. D a ela um ch de sabugueiro que tiro e queda.

Outra, desesperada, recorria quela alminha bondosa:

-O meu problema, Dona Lurdes, que o meu marido Ded sumiu faz trs dias. J o procurei por toda parte e no o encontrei. Eu acho que alguma coisa de muito ruim aconteceu com ele.

-Ih, minha filha, seu marido est muito bem demais da conta, s. Quem no vai ficar bem vai ser voc depois de saber aonde que ele est. Dizia isso e apontava o dedinho para os rumos de uma famosa casa noturna que existia no Brejo das Almas de antigamente, cujo denominativo fazia aluso ao nico satlite natural da terra. Ali, a casta boemia brejeira em surdina e solapa marcava o ponto.

Outras vezes tinha ela o recesso sacrossanto do lar interrompido por mooilas desesperadas por se acharem balzaquianas devido ainda no ter surgido em suas vidas o prncipe brejeiro encantado. Elas chegavam e j iam intimando Dona Lurdes, como se fosse, aquele divino ser, responsvel pelos seus respectivos insucessos no amor.

-E ento, dona Lurdes... Como que eu fico? J passou o dia de Santo Antonio, j fiz todas as rezas, mandingas e simpatias e at agora no caiu nenhum bem-querer nos meus braos. O que mais eu devo fazer? A solido est me consumindo toda. Assim no pode... Assim no d!

Diante de situaes extremas como esta aquela boa senhora, com a simplicidade que lhe era peculiar, fitava a amiguinha consulente, de alto a baixo e no final disparava:

-Voc j ouviu falar em maquiagem? Batom, p de arroz, esmalte, por exemplo... J experimentou usar uns paninhos melhores? E este pisantinho de dedos, j pensou trocar? Voc alguma vez saiu para danar? Conhecer pessoas, ou daquelas que ficam enfurnadas em casa!

Como naqueles tempos muitas dessas novidades no faziam parte do cotidiano de beldades brejeiras, minhas conterrneas, recatadas por natureza, a resposta negativa era mais que previsvel. Ai dona Lurdes arrematava:

-Ento, voc tem que acabar com essa mania de jogar tudo nas costas do santo. Ele tem outros afazeres. O santo s ajuda quem se ajuda. Se voc no fizer a sua parte, vai morrer seca. Voc tem que ir luta. Correr atrs. Cobra que no anda no engole sapo, menina!

Certa feita o quem-quem transbordou. Ao baixarem as guas, as vazantes ficaram cobertas de peixes. Informada, por quem nunca se soube, pois este rio fica distante da cidade, ao norte de Francisco S, e antes que algum empreendesse a colheita dos curimbas que se debatiam no lodo, dona Lurdes, taxativa, foi logo adiantando:

-Negativo. Ningum vai comer isso. Eles esto envenenados e imprprios para o consumo humano. Vivalma alguma, diante daquele assertivo aviso se atreveu a por a mo naquelas bocas protrteis.

Eduardo Duia andava de um lado para outro. Algo de srio o preocupava. Ele no era dado a crendices. Muito inteligente preferia resolver as coisas sua maneira, privilegiando sempre o lado material.

-Duia! Ela assim o chamava.

-Fala Lurdes, respondeu-lhe Eduardo.

-Enquanto voc no aprender a rezar direito, isso ai que voc est querendo fazer no vai dar certo!

-E o que que eu estou querendo fazer, mulher?

-Voc sabe!

Passada uma semana, Eduardo Duia puxava de uma perna. A bela montaria, brava e arredia, pela qual trocara seu manso cavalinho sem que dona Lurdes soubesse, o atirara ao cho na primeira pernada.

Movido pela curiosidade, quando eu estava para sair do Brejo fui ter com ela. Naquele dia falei com ambos. Nas poucas vezes que l estive sempre fui recebido com carinho. Ao me despedir ouvi de dona Lurdes esse comentrio, dirigindo-se a Eduardo.

-Esse menino dificilmente vem aqui. Alis, se bem me lembro, vi-o umas duas ou trs vezes. Dessa vez ele veio aqui para me perguntar alguma coisa, mas se acanhou. Mais eu sei o que ele ia me perguntar. E olhando para mim acenava e dizia:

-V com Deus, menino. Vai dar tudo certo na sua vida. Siga em frente. Basta voc acreditar.

o que tenho feito at hoje. E no tenho do que reclamar. Claro, depois de ter ralado muito na vida.

...

Por vezes, ou quase sempre, assim como o navegar, acreditar tambm preciso.

E tenho dito!

*O autor nasceu em Francisco S, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.

Aos meus leitores:
partir de outubro/12 postarei somente uma crnica por ms.
Abraos.


73204
Por Enoque Alves - 12/10/2012 14:08:21
CENAS BREJEIRAS 2 - ASPSIA


CENAS BREJEIRAS 2 ASPSIA

*Enoque Alves Rodrigues

Outrora, divertia-me observando o transitar de pessoas pelas ruas do Brejo das Almas ou Francisco S. O principal ponto de aglomerao, para onde todos se convergiam, ainda hoje existe em forma de Alameda com seus calades.

As jardineiras, carroas, charretes e carros de bois que vinham de Salinas, Gro Mogol, Taiobeiras e outras cidades da regio tinham como ponto final a Alameda, ou precisamente, em frente Penso da Dona Quin. Durante as minhas frias escolares era para l que eu tambm ia com o objetivo de apreciar aquela movimentao toda. Sentava-me na soleira da porta da Penso da dona Quin, uma senhora forte, de meia idade, cujas instalaes ficavam em um antigo casaro. Dali, daquele point, nada, absolutamente nada, me escapava s vistas.

Foi assim, quase do nada, que numa manh de sol de rachar mamona, sem querer, observei que do outro lado da Alameda acabava de apear, era assim que falvamos na poca, de uma empoeirada Jardineira, uma jovem muito bem vestida. Trazia numa das mos uma mala de fibra enquanto com a outra, agarrava-se a uma frasqueira de couro cru. Entre os dedos tinha um diminuto pedao de papel. Aps atravessar o pequeno trajeto parou minha frente, indagando-me:

-Menino, voc sabe onde que fica a Penso da Dona Quin?

-Sei, sim, dona. aqui! Respondi, levantando-me da soleira a fim de facilitar-lhe a passagem.

-Uai, disse-me surpresa, quanta coincidncia! Como que eu vim perguntar exatamente no endereo onde vou ficar?

-Fcil, dona, respondi-lhe, como o ponto final das Jardineiras aqui, seria mais difcil no encontrar.
Olhou-me, fixamente, e, esboando um sorriso, depois de pensar um pouco, apresentou-se.

-Meu nome Aspsia. Sou Normalista e venho de Taiobeiras para participar de um estgio no Eliseu. Eu vou me hospedar aqui na Penso da dona Quin. Voc trabalha aqui? Voc conhece o Eliseu? Voc do Brejo?

Meu Deus, quantas perguntas eu tinha que responder. Bem, do alto da timidez que sempre me foi peculiar, principalmente no trato com estranhos, passei a responder.

-No. Eu no trabalho aqui. Venho nesse local para ver a chegada das Jardineiras. Conheo o Eliseu Laborne. Ele fica na Mariquinha Silveira. Sim, sou Brejeiro.

Daquele dia em diante Aspsia passou a fazer parte integrante da vida brejeira. Alis, como se revelaria posteriormente, se adaptou a tal ponto que parecia ter nascido no Brejo. Concluiu o estgio em trinta dias, fim dos quais escreveu famlia informando sua desistncia do magistrio e que optaria por algo ligado sade, que ficaria em definitivo no Brejo, etc.

Tempos depois podia ser vista dando expediente no So Dimas. Continuava, no entanto, hospedada na Penso da dona Quin.

Alegre, sorriso fcil, brincalhona e responsvel. Exercia, com dedicao e zelo, o novo e digno oficio que agora abraava. Ela se destacava em tudo. Como simples auxiliar de enfermagem prestou vestibular no qual foi aprovada para Medicina. Agora o Brejo encolhera para ela. Era demasiado pequeno para lhe proporcionar to grandes sonhos. Sonhos estes que naqueles tempos nem mesmo a bela MOC seria capaz de realizar. Ela queria muito mais. Tinha que ganhar o mundo.

Em prantos convulsivos, abraada a dona Quin, vemos agora, aquele divino ser, com um dos pezinhos delicados apoiado sobre a soleira, se debulhando em lgrimas e palavras de gratido, quela benfeitora que apesar do pouco tempo de convvio, dizia considerar como se fosse sua me. Iria estudar Medicina na Capital das Alterosas.

-Adeus, dona Quin, muito obrigado por tudo!

-Adeus, Aspsia, v se aparece um dia por aqui, menina! Respondeu-lhe, dona Quin.

Em instantes surgia a Jardineira que a levaria at Montes Claros de onde tomaria o trem de ferro com destino a Belo Horizonte. Lembro-me que havia uma fila to grande de Jardineiras que a obrigou a embarcar alguns metros antes do ponto, exatamente em frente onde hoje a Moda Brasil.

Quis o destino, assim como o fez em sua chegada, que tambm em sua sada, marcas indelveis fossem gravadas em nossos recnditos. Pois, ao passar por mim, pequeno pirralho, sem mais nem menos, assim pensvamos, depois de acalantar-me, com respeitoso abrao, disse-me: Para voc, menino, eu digo um at breve. certo que nos veremos bem antes do que imaginamos.

Naquele momento no me ative aos significados daquelas palavras. Teriam algum sentido?

Ser?

Treze anos depois era chegada a hora do sapinho aqui ganhar o Mundo. O Brejo, quem diria, tambm ficou pequeno para mim.

Usina hidreltrica de Volta Grande. Divisa de Minas com So Paulo. Era aquele o maior empreendimento da Construtora Mendes Junior naquele ano. No dia 31 de Maio a Mendes recrutaria mais 200 pees de obra. Eu era um deles. Depois de termos passado uma semana aguardando a vez de fazermos os testes admissionais, eis que somos encaminhados para os exames mdicos. Por se tratar de muita gente, o Setor de Recursos Humanos optou por dividir aquela multido em vrios grupos. Como era impossvel examinar a todos ali, mandaram dois grupos de dez pessoas para Uberaba, no Triangulo Mineiro. Em um deles estava eu.

Quando o caminho da Mendes estacionou defronte ao nmero 342 da Rua So Benedito onde faramos os exames, demorei a aceitar o que os meus olhos castanhos insistiam em me dizer. Por alguns instantes cheguei a pensar tratar-se de uma viso. Mas no era: o pomposo nome que aquela bem elaborada placa ostentava no me deixava dvida alguma. Ali estava escrito:

Doutora Aspsia Modesto de Medeiros Fonseca Clnica Geral e Cirrgica.

Era ela, com o sorriso aberto e espontneo de sempre, que fazia tremer os deuses, e com a mesma simplicidade dos velhos tempos brejeiros.

Maktub!

Alis, em Uberaba, vrios outros fenmenos se revelariam para mim que no cabem aqui comentar.

...

Por vezes, ou quase sempre, na singeleza das entrelinhas que se encontram as mais importantes revelaes.

E tenho dito!

*O autor nasceu em Francisco S, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


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Por Enoque Alves - 5/10/2012 20:48:58

CENAS BREJEIRAS 1 GERMANA

*Enoque Alves Rodrigues

Pernas curtas e arqueadas. Andar lento e trpego. Olhar disperso como se nenhum interesse demonstrasse a sua volta. Sol quente e escaldante no obstante estar ela, como sempre, munida de seu inseparvel guarda-chuva. Andava, assim, displicente, pelas caladas da Praa Rogrio da Costa Negro, em Francisco S, Brejo das Almas.

-Germana!

-Oi, pode falar!

-Lembra-se de mim?

-No, respondeu-me, secamente. como poderia eu me lembrar de voc se jamais te vi?

-Uai, s, como no? Sou o Noquinho, neto do seu Liberato, aquele velhinho de barbas brancas que se parece a um papai Noel. Voc no se lembra de meu av?

-No. No me lembro. Porque haveria de me lembrar?

Aquele dilogo se parecia mais a uma conversa de bbados. Germana, no sei por quais razes insistia em no querer se lembrar de nada. Teria, por acaso cado e batido com a cabea? Estaria, porventura, acometida de alguma sbita amnsia? Bebeu? Sei l!

Bem, cabia a mim, j que fui eu quem comeou a conversa, procurar as melhores formas de faz-la recordar dos meus tempos de menino, quando ela, j beirando os cinquenta, frequentava a fazenda Terra Branca, de meu av, prximo de Cana Brava e Vaca Morta. Assim sendo, com a finalidade de tornar-me mais visvel, por imaginar que talvez tivesse com algum problema de viso prprio da idade, acerquei-me um pouco mais dela. Olhei-a nos olhos, j meio turvos pelos muitos janeiros e, insistentemente, voltei a me apresentar:

-E ento, Germana. Sou o neto do senhor Liberato e dona Justina a quem voc visitava na poca das moagens de cana no ms de Julho. Voc se lembra da tia Cota?

-Cota, o que? De que diabos voc est falando, homem?

Caramba. Que coisa chata. Aquela alminha que me fora to importante em infncia, quando ela me embalava com suas lindas e antigas histrias de um Brejo das Almas envolto em pocas perdidas sculos afora, agora estava ali, diante de mim, com sua mente relutante em reconhecer-me. Bem, sendo assim no tomaria mais o seu tempo.

Despedi-me com brejeiras reverncias naturais que dispensamos aqueles que tiveram o privilgio de avanarem na idade longeva. Quando eu ia me afastando lembrei-me de um velho apelido de infncia. A maneira que caminhava olhava para trs. Como Germana continuava parada, no mesmo lugar, me observando, pensei: porque no voltar e me apresentar melhor? Porque no me dar uma segunda chance? E se ela me desse um esculacho? Sim, porque antigamente ela era boazinha, tranquila, mas de vez em quando embravecia. Depois quem me garantiria que ela no mudou de temperamento depois de tanto tempo?

Voltar ou no voltar? Retornar ou seguir em frente?

Retornei!

Germana continuava esttica me olhando. Ao ver que eu volvia em sua direo, fitou-me mais atentamente.

No lhe dei nenhuma outra chance. Ela tinha que se lembrar de mim. No se surpreendam: chato assim mesmo. Quando encasqueta com uma coisa no h nada que o faa recuar. Acerquei-me muito dela ao ponto de lhe sentir o calor da respirao. Levemente lhe afaguei o rosto com uma mo em cada lado. Suavemente puxei de sua cabea que se aproximou ainda mais de meu rosto. Agora eu tinha que finalizar o trabalho. Era agora ou nunca. Como em meu dicionrio no existe a palavra nunca, ento, era agora.

-Germana!

-Eu! Outra vez voc? Mais o que que voc quer de mim, homem de Deus?

-Diabos, Germana. Como pode voc no se recordar de mim? Voc foi to importante em minha vida. A minha av a tinha como sua irm. Deixava-me com voc que cantava para eu dormir, balanando a rede que ficava pendurada entre aqueles dois ps de frutos do conde, lembra-se?

-No!

Tencionava no utilizar a ltima cartada. No mencionaria o apelido de infncia. No queimaria o ltimo cartucho. Mas, brejeiros, acreditem, no teve jeito.

Como Germana permanecia indiferente a minha insignificante figura e por no estar nem ai para o Bonifcio, tive que apelar.

Esbugalhei os olhos, enchi e murchei as bochechas, repetidamente, assim como faz aquele vertebrado da classe dos anfbios que habitam os brejos. Fixei mais o meu olhar ao dela e me esforando o mximo para parecer-me, cada vez mais com o danadinho, emiti o coaxar caracterstico do mesmo, seguido da fulminante e infalvel apresentao.

-Germana, sua diaba. Eu sou o sapo!

Nem bem fechei a boca e j pude escutar sua estridente e gostosa gargalhada.

-Sapo?

-Eu j sabia tolinho. S estava fingindo para fora-lo a falar o seu apelido com o qual ns nos divertamos muito quando voc era menino. Por alguns instantes cheguei a pensar que devido voc ter virado engenheiro l em Sun Paulo, que voc no fosse se lembrar de seu apelido que ainda para ns, seu segundo nome. Alis, para mim o seu primeiro nome, por que eu nem sabia que seu nome era Noquinho.

Corrigida, de que Noquinho no era o meu nome, mas o diminutivo de Enoque, meu nome verdadeiro, reagiu, sarcasticamente.

-Piorou. Este sim que eu no conheo mesmo. Jamais escutei dizer que seu nome era Enoque. Quem diabos lhe colocou esse trem? feio demais da conta, s! Sempre lhe conheci por sapo e como sapo que vamos sentar ali e conversar. Eu quero que voc me fale como andam seu Liberato e a dona Justina seus avs.

Informada que os meus avs j no se encontravam mais conosco no plano visvel, ponderou:

- isso mesmo, sapo, as pessoas boas morrem tudo. E o pior que quem devia morrer, de to ruim que no morre. Sabe quem tambm morreu? Dito isto me passou um longo relato dos que haviam partido do Brejo. Dava os nomes, datas, doena ou motivos da morte com uma facilidade e preciso to impressionantes como se referisse a uma trivialidade qualquer de momento.

E eu que cheguei a pensar que Germana estivesse meio lel da cuca!

Aps uma hora de prosa, despedimo-nos.

-Fique com Deus, Germana! Disse-lhe eu.

-V com Deus, sapo. Que Jesus te acompanhe menino, respondeu-me.

-Amm!

...

Por vezes, que importncia tem nosso nome de batismo aos que nos embalaram os sonhos?

E tenho dito!

*O autor nasceu em Francisco S, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.



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Por Enoque Alves - 29/9/2012 10:12:29
CASOS DO BREJO V CAMPANHAS ELEITORAIS

*Enoque Alves Rodrigues

difcil entender onde se localiza a essncia dos milagres dentro dos pleitos eleitorais. Dispem do poder de aglutinar em torno de si todas as foras ainda que em estado de letargia e obsolescncia. Diria at que os pleitos eleitorais promovem milagres inimaginveis. Almas que, em eleies anteriores foram banidas da vida publica e lanadas, pelo poder do voto, ao temido fogo do inferno, ressurgem, inesperadamente, das cinzas, qual fnix, coradas e faceiras. Impressiona-me, particularmente, a fora de renascimento de alguns. Mas, sinceramente, o que mais me surpreende a maneira fcil que chega a beirar a inocncia com que pessoas simples se deixam influenciar por seus iguais inclusive em nvel intelectual. Promessas vazias inseridas em oratrias sofrveis, desprovidas de quaisquer contedos so lanadas, boca afora, aos pobres ouvidos do infeliz Cidado, como se exequveis fossem. Estes, atordoados, correm de um lado para outro, ou, de um comcio para outro, qual barata tonta, como aquele personagem da mitologia grega que, desesperado em busca da verdade, munia-se de uma lmpada, e saia buscando-a por toda parte, sem, contudo, encontra-la.

Talvez a melhor maneira de entendermos a eficcia de to grande capacidade de renascimento desses imortais, esteja mesmo na fico dos pasteles como as sries, duro de matar. Mas ater-nos-emos ao que h de bom nas eleies por que a funo desta coluna trazer informao e entretenimento aos poucos que ainda a leem, devido maioria se achar exatamente envolvida atualmente com este tema, campanhas eleitorais, sem tempo para ler as bestagens que ainda insisto em escrever. Falemos de coisas dceis e amenas, ento.

Um dos muitos pontos decisivos das eleies so as campanhas eleitorais que so capazes de mobilizar multides de pessoas, fomentar o consumo e injetar recursos no comrcio, revolucionando toda a vida das cidades, por mais pacatas que sejam. No fossem pelas circunstncias j destacadas acima, de alguns, que, uma vez eleitos, divorciam-se dos planos de governo que eles prprios elaboraram e que foram responsveis pelo xito obtido nas urnas, dir-se-ia que existem muito mais de positivo em eleies alm do que supe nossa v filosofia. Deixemos de lado o troca-troca, a compra de votos, o voto de cabresto, o fogo cruzado entre candidatos que nestas ocasies se esquecem de comezinhos sentimentos de fraternidade, e mais recentemente, a lei da ficha limpa. Recordo-me de uma histria que um senhor de barbas brancas que nasceu e viveu no Brejo das Almas onde faleceu com 92 anos me contava.

Dizia-me ele:

Naqueles tempos o voto de cabresto imperava no Brejo. Todos os camaradas eram conduzidos pelos seus senhores geralmente donos de fazendas na regio, para votarem na seco eleitoral que ficava no centro da cidadezinha. O voto tinha que ser dado ao candidato previamente escolhido pelo patro. As duas nicas foras politicas exponenciais disputavam as eleies naquele ano. Os dois candidatos eram coronis com cabedal eleitoral garimpado depois de muitos anos de labuta e bons servios prestados comunidade.

Marcolino de Poes no tinha patro. Ele no trabalhava para ningum. Ele era dono de seu prprio passe. Votava em quem queria. Bem, sendo assim, venderia bem o seu voto. Espere ai! No, ele no se contentaria em vender o voto para um s candidato. Ganharia um pouco mais. Venderia seu voto para os dois candidatos. Ele s teria outra oportunidade daquela dali a quatro anos. Ele era esperto. Sendo assim, procurou o primeiro candidato.

- Merc ainda est comprando voto?

- Sim, estou. Porque, voc quer me vender o seu?

- Quero. Quanto que Merc paga?

- So duas galinhas e uma porca!

- Fechado. O meu voto ser seu. Como fao para entrega-lo?

- Fcil. No dia da eleio eu estarei l, na boca da urna, pronto para receb-lo.

- E quando que o senhor vai me pagar?

- Quando eu me eleger, claro! Respondeu-lhe seco, o mandachuva.

- E se Merc no ganhar? No se eleger?

- Bem, voc j est perguntando demais. Isso ai j outra histria que no da sua conta. Isso um jogo e eu no jogo para perder. Voc vai ou no vai me vender o seu voto?

- Espere ai, lembrou-se Marcolino. E se o outro candidato tambm pensar igual ao senhor? E se ele tambm no jogar para perder? Como que eu fico? Vou ficar na mo do calango?

Mineiro matuta. Brejeiro pensa e matuta ao mesmo tempo. Assim sendo, fechou com aquele candidato. Matutou. Pensou. Pensou. Matutou e decidiu. Iria se garantir com o outro candidato. Assim se aquele danado com quem ele se comprometeu primeiro perdesse ele no ficaria chupando o dedo.

Foi com a lngua de fora e esbaforido que ele, aps utilizar-se de vrios atalhos no caminho, chegou, finalmente, a casa do segundo candidato.

Alto, magro e esguio. Vestido do mais puro brim, cqui, calado com botas de couro, canos longos, com chapu panam cabea, olhar tranquilo e falar manso. Sentado estava no solar de seu casaro de onde observava todo o Brejo das Almas, reduzido, naquele tempo, a um pequeno amontoado de casas. Ao avistar Marcolino, elegantemente se expressou:

- Bom dia, meu amigo. Como vai o senhor? Porventura, h algo que eu possa fazer para lhe ajudar?

- Sabe o que coronel! Eu vim aqui para lhe vender o meu voto. Quanto que Merc est pagando?

- Vender, o que, meu filho? Por favor, seja mais especifico. No lhe entendi!

- Ento, coronel, o senhor sabe que todo eleitor aqui vende o voto e que por aqui qualquer candidato s se elege se comprar votos, j que no tem voto de cabresto para todo o mundo.

Aquele candidato olhou para Marcolino com piedade. Aps fitar-lhe de alto a baixo, respondeu-lhe educadamente.

- Creio que o amigo esteja enganado. O voto deve ser dado e no vendido. Voto no tem preo, voto tem consequncia. Alis, voc nem precisa conhecer a pessoa para votar nela. O que voc tem que conhecer o seu plano de governo. No faa de seu voto moeda de troca seno os candidatos vo fazer de voc massa de manobra e posso lhe garantir que esta ciranda perversa no benfica nem para voc tampouco para Democracia que todos ns um dia almejamos. No vote, jamais, em quem se prope a comprar o seu voto. Ele no o merece.

Democracia? De que diabos aquele coronel visionrio estava falando em plena dcada de 1920 quando a maioria das questinculas era resolvida bala ou sorrateiramente?

Impossvel seria mesmo entender, quanto mais explicar, no fosse aquele candidato o Coronel Jacinto Alves da Silveira que, segundo os anais da histria, jamais perdeu uma eleio das muitas que disputou.

...

Por vezes, ou quase sempre, no preciso se afastar dos caminhos da retido para se lograr xitos nas urnas. Basta que voc tenha um bom plano de governo. De preferncia e se possvel, exequvel. Porque chapu de trouxa marreta.

E tenho dito!

*O autor nasceu no Brejo das Almas. Atua h mais de 41 anos na rea de Engenharia. Publicou o livro Liderana Conquistada. Colunista, Palestrante Motivacional, Historiador e Divulgador voluntrio de Francisco S, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


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Por Enoque Alves - 22/9/2012 10:00:04
CASOS DO BREJO IV MARIA DE LURDES

*Enoque Alves Rodrigues

O perodo de estiagens que atualmente assola grande parte do Brasil, inclusive So Paulo, antes denominada, terra da garoa, remete-me aos longnquos tempos de minha infncia no Brejo das Almas, ou Francisco S. Quando, cansados de sonhar com a negritude dos cmulos que eram cada vez mais empurrados pelo vento para localidades mais distantes, punham-nos a pensar, no quanto seramos felizes, se fossemos agraciados pela me natura com alguns pinguinhos de chuva. Ainda que fosse apenas para sentirmos o cheirinho de relva molhada que por si s, era-nos mais que suficiente para que cravssemos no cho a primeira enxadada dando inicio a mais uma tenebrosa aventura que, j sabamos todos, antecipadamente, no que ia dar. isso mesmo: no final, as sementes que lanvamos ao solo com as quais deixvamos de matar a fome dos barrigudinhos eram devoradas, sem d e piedade pela dona terra que nada fizera por merec-las. a vida, meu nego, que passava lenta e inexorvel, por aquelas bandas sofridas.

Avanando um pouco mais no tempo e no espao, ainda sou capaz de me confrontar com cenas que no faz muito tempo, integravam o cotidiano da gente brejeira, simples, ordeira e pacata: as novenas e penitncias aos santos protetores do sertanejo e da lavoura.

Poderia desfilar aqui neste despretensioso espao, que ocupo com prazer, sem receber um centavo em troca, vrios brejeiros que se destacaram na arte de fazer chover, ou, na arte de encherem os sacos dos santos, que, l de cima, na maioria das vezes, permaneciam alheios s splicas e clamores. Eles nem tomavam conhecimento do nosso padecer. Chuva que era bom mesmo, necas. Mas hoje me aterei apenas a um desses personagens. Prende-se esta minha predileo, a sua quase contemporaneidade, pois possvel que muitos dos que ainda habitam no Brejo das Almas o tenham conhecido, ou, qui, at mesmo com ele, ou melhor, com ela, convivido.

Poderosa, voz possante e determinada. Levantava-se de manh depois de uma noite mal dormida povoada de preocupaes com a insensibilidade dos santos que no mandaram a chuva no dia anterior, e j ia logo olhando para o cu. Se seus olhinhos vislumbrassem, em algum ponto do infinito uma sombra de nuvem, ela retornava para o seu canto e esperava um pouco mais para ver se a nuvem se aproximava. Quando isso no acontecia, aquele ser maravilhoso, incontinenti, colocava sobre sua cabea um litro com gua e saia batendo de porta em porta, em busca dos demais moradores que tinham de sair de suas casas j com um litro com gua na cabea e eram quase obrigados a acompanha-la em orao em mais uma novena que invariavelmente terminava aos ps do Cristo Redentor, no morro da caixa dagua. Lembram-se?

Seu nome? Maria de Lurdes. Sobrenome? Nunca soube. No obstante todo o Brejo conhec-la como L Doida, vou me abster por questes de princpios, do ato de empregar aqui este pejorativo tratamento, at porque de doida mesmo, aquele divino ser no tinha nada.

Moravam na Vila Vieira, antiga Lagoa, ali mesmo, onde o Brejo das Almas nasceu. Dali, eles, sempre com L frente, saiam em novena e penitncia. maneira que avanavam pelas ruas do Brejo, aquela procisso ia aumentando. Depois, faziam uma pequena pausa no Largo da Matriz de onde seguiam rumo ao morro da caixa dagua onde o Cristo, com os braos abertos para receb-los, os aguardava com compaixo. Sob aquele olhar piedoso e manso, os penitentes em prantos e preces puxados por Maria de Lurdes, deixavam em seus ps, tristes lamentos e o mais importante, a certeza plena de que a chuva viria, ainda que tardia. Depositavam, ali, todas as suas esperanas em dias melhores, quando o sol, de preferncia depois da chuva, brilharia para todos.

Naquele ano a seca estava esturricando o meu Brejo. Maarico ligado 24 horas l em cima. A impresso que se tinha era que os santos de Maria de Lurdes haviam virado as costas para aquela cidadezinha onde orgulhosamente nasci. O diabo que quanto mais se rezava mais as nuvens se afastavam. Barrigas roncavam qual tambor de couro de boi velho e os caras do alto nem tchum. Brejeiros atnitos no sabiam mais a que santo recorrer. Desesperanados, j no queriam mais acompanhar Maria de Lurdes nas novenas. Ela que at ento gozava de grande credibilidade junto aos brejeiros na arte de representa-los aos santos de sua devoo que sempre a atendiam, agora estava prestes a se desmoralizar. No. Ela no se desmoralizaria, jamais. Sempre fora fiel. Faria o possvel e at mesmo o impossvel para dar uma resposta quela gente.

Numa noite do ms de agosto, sozinha, subiu at o Cristo. Falariam cara a cara. O que conversaram nunca se soube. Segredo de confessionrio no se revela a ningum. O certo que Maria desceu do morro, renovada. No dia seguinte com sua vasilha dagua cabea foi, uma vez mais, de porta em porta. Batia, e s vezes saa at quatro moradores com litros de gua na cabea. Foi a maior mobilizao popular de penitentes que o Brejo das Almas j teve.

Passearam pelas ruas do Brejo e depois, como sempre faziam, dirigiram-se para o Cristo no morro da caixa dagua. Ele estava l como sempre com seu olhar benevolente. Cu lmpido e azulado. Prostraram-se. Rezaram vrios teros e Ave Marias. Derramaram aos ps magnnimos daquela esttua, a gua barrenta que traziam em seus humildes vasilhames. Maria, em prantos, mirava o rosto do Cristo e murmurava palavras desconexas e incompreensveis pobre mente humana. Uma vez mais, somente ela e Ele sabiam o que disseram, por que Ele a atendeu. No se falaram em portugus. Tampouco em aramaico. Falaram e se entenderam com a voz do corao. O linguajar cifrado que ambos utilizaram naquela estranha comunicao, Brejeiros, agora, alegres e felizes, s entenderiam no dia seguinte, que depois de um ano seco, amanhecia, finalmente, com chuvas torrenciais que se prolongaram durante toda aquela estao que foi a de maior fartura que o meu Brejo querido j viu.

...

Por vezes, ou quase sempre, a f que remove montanhas, acredite, a mesma que faz chover.

E tenho dito!

*O autor nasceu no Brejo das Almas. Atua h mais de 41 anos na rea de Engenharia. Publicou o livro Liderana Conquistada. Colunista, Palestrante Motivacional, Historiador e Divulgador voluntrio de Francisco S, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.

Se voc Brejeiro e deseja participar da seleo das melhores crnicas que sero inseridas no meu prximo livro O Brejo das Almas em Crnicas entre nos meus blogs e escolha. Ao final envie-me o titulo da crnica pelo e-mail: [email protected]


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Por Enoque Alves - 15/9/2012 10:13:47
Casos do Brejo III - Messias Pre-Final

*Enoque Alves Rodrigues

A princpio, como vinha dizendo, Messias Antonio Dias, ou Messias Pre, estava fechado consigo mesmo que faria vistas grossas e passaria por cima daquele alforje sem toca-lo. Conteria todo e qualquer impulso que o conduzisse a curiosidade nefasta de abri-lo. No revelaria a ningum os segredos daquela descoberta. Por isso, conhecedor de seus desejos mais profundos e sabendo que no conseguiria, caso ali permanecesse, controlar suas vontades, afastou-se por alguns metros do local. Quando j se achava prximo ao casaro da fazenda de Antonio Miranda e Edite, virou-se em direo aquele achado e viu que ao redor do mesmo se encontravam dois sujeitos altos e fardados. Ao cruzarem os olhares, em gestos, chamaram-no.
Uma vez mais as mesmas dvidas e incertezas do inicio se apoderaram dele. Novamente aquela ingnua e pura mente brejeira se deixava mergulhar no mundo das nebulosas.
Voltar, ou no voltar. Eis a questo!
No. No voltaria. Ele era um sujeito de palavra e valeria a primeira deciso. Aqueles dois guardas-mores que ficassem com o que houvesse naquele bendito alforje. Fosse o que fosse.
Continuou morro abaixo. Cruzou a pinguela que ali existia sobre crrego. Ganhou finalmente a estrada, hoje rua, pela qual se entra no Brejo das Almas, Francisco S, os que procedem de Montes Claros. J longe, no se conteve. Voltou a olhar para cima e pode verificar que um dos guardas continuava sinalizando para ele. Agora, apontava para o alforje, olhava em sua direo e esfregava o dedo polegar ao indicador, naquele gesto mundialmente conhecido que significa grana, bufunfa ou dinheiro.
Se para um bom entendedor meia palavra basta, para ele, os insistentes gestos dos porta-vozes do Bandeirante Jernimo, diziam tudo. Em seu entendimento, e ele era bom entendedor, fora ele o escolhido pelo dito cujo para ser o fiel destinatrio daquele tesouro. Qualquer brejeiro menos ganancioso, portador de mediano QI teria feito a si mesmo, antes de retornar ao cume do morro do moc, as seguintes indagaes: por quais razes seria eu o escolhido por este cara a quem jamais vi mais magro? O que foi que eu fiz para merecer tamanha distino? Ser que no est havendo algum engano? Eram perguntas bsicas que ele deveria ter feito. Mas no o fez. Ter tido l seus motivos: muitos bacuris para sustentar, renda parca e outras adversidades naturais da vida, levaram-no a se sentir o dono da cocada preta. Aquela preciosa encomenda era para ser dele sim. E tem mais: era macho o suficiente para retornar l e pegar aquele quinho que era seu de direito.
Mesmo determinado a retornar, relutou. Titubeou. Bambeou mas no caiu. o mineirismo se manifestando. Por alguns instantes uma sensao de medo e arrepios apoderaram-se dele. Mas ele estava decidido a voltar. E voltou...
Recebido de bom grado pelos dois senhores uniformizados, que lhe sorriam. Na sequncia abriram-lhe os braos e falaram em arcaico portugus: ns sabamos que voc viria buscar o que teu. O bandeirante Jernimo que tambm era dono destas terras e que segue sendo nosso patro jamais se esqueceu de quem o ajudou a conquista-las. Ele era um homem muito justo. Ele nos disse que no consegue descansar enquanto no lhe entregarmos a sua parte. Ele diz que no aguenta mais lhe ver sonhar com este tesouro. Foi por isso que ele nos mandou aqui.
Finalizadas estas palavras de gratido, agacharam-se. Ergueram do cho o alforje e passaram as mos de Messias Pre, que, feliz, tremia.
Antes que Messias o abrisse, ouviu dos emissrios do Bandeirante um sonoro Noooo. Voc no est autorizado pelo chefe a abrir isso agora. Somente quando voc chegar a Igreja. E tem que abri-lo na frente de muita gente. Tambm se faz necessrio que um padre esteja presente.
Uai, s, que recomendao mais doida aquela? Porque tudo aquilo? Agora todos iam saber que ele era rico. No lhe deixariam em paz. Parentes jamais dantes vistos com certeza agora apareceriam. Filas quilomtricas se formariam em frente a sua porta pedindo dinheiro emprestado. Bem. Fazer o que? Era o preo que ele tinha que pagar.
Despediu-se daqueles dois, agora, amigos, e rumou para o Largo da Matriz. No trajeto ele entrava em cada boteco e convidava os bebuns que em procisso, seguiam-no. Argumentava que tinha em mos o tesouro do Bandeirante Jernimo e a misso de s abri-lo na Igreja Matriz, na frente do padre. O que ele no sabia era que o padre que ali estava era Sal, ou, Salustiano Fernandes dos Anjos, tido como rspido e de poucas palavras, que no levava desaforos para casa, ou melhor, para a igreja. O padre, ao ver aquela multido de bbados com Messias frente, que ostentava s mos o alforje, a guisa de bandeira de santo, voltou-se para dentro e consultou a folhinha. Salustiano no era brejeiro, portanto, ainda no estava afeito aos costumes do lugar. Ao constatar que aquele ms no era setembro, quando se homenageia boa parte dos santos do brejo, lanou mo de um velho cabo de enxada e postou-se frente porta. Depois de confirmar que no se tratava de mais uma coluna de bandoleiros, muito comum naqueles tempos, ficou no aguardo dos acontecimentos.
Messias arriou o alforje ao cho e chamou o padre. Relatou-lhe as circunstncias que o levaram at ali. Depois de transmitir-lhe as palavras que ouvira dos emissrios do Bandeirante, alou do cho o alforje. Abriu-o, finalmente.
O que tinha dentro do alforje? Voc quer mesmo saber? Jura que no vai ficar decepcionado com o final desta histria? Ela me foi contada pelo meu av, um ancio adventista que jamais mentiu na vida, cujo nome era Liberato.
Jurou?
Ento l vai...
Esterco. Sim, esterco de boi ou vaca. Sei l! Voc sabe o que esterco? isso mesmo. aquela coisa seca. S que dentro do alforje havia tambm uma carta. E o que dizia a missiva?
Quase dois sculos me separam de vocs. Todo esse tempo o sono dos justos me tem sido difcil conciliar. Talvez por ter me preocupado tanto em ajuntar tesouro na terra. Por isso pretendia dividi-lo com vocs. Mas a vossa cobia falou mais alto. O ouro em pedra, quando almejado com trabalho e humildade, com o passar do tempo vira ouro em p. Mas se for desejado pela cobia, ganncia, intriga, hipocrisia, ociosidade e mortes, se transforma nisso a que vocs agora tem em mos. Rezem bastante meus filhos e depois vo trabalhar para ver se conseguem alguma coisa. Deixem-me em paz, por favor, amm.
Sal, num misto de frustrao e nervosismo, pois l no fundo tambm tinha interesses por uma daquelas supostas moedinhas de ouro para arrumar o telhado da igreja, volveu-se porta adentro de l no mais saindo.
Quanto aos bbados, com Messias Pre frente... Eles foram cantar em outras freguesias. Para os bbados est tudo sempre muito bem. Eles no se decepcionam nunca. Desiluses so prprias dos sbrios, avessos etlicos. Resumindo: frustraes so coisas de loucos.
...
Por vezes, se algum achado no lhe pertence, o melhor mesmo passar por cima e seguir adiante.
E tenho dito!

*Enoque Alves Rodrigues, que vive em So Paulo, brejeiro de nascimento e convico. Atua h mais de 41 anos na rea de Engenharia. autor do livro Liderana Conquistada, temtica simples sobre otimismo, liderana e motivao, cuja primeira edio j se encontra esgotada http://livraria.livreexpressao.com.br/catalog/product/view/id/82/s/lideranca-conquistada/ Colunista, Palestrante Motivacional, Historiador e Divulgador voluntrio de Francisco S, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


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Por Enoque Alves - 20/8/2012 20:36:22
CASOS DO BREJO III MESSIAS PRE

Enoque Alves Rodrigues

No Brejo das Almas de antigamente no h quem no o tenha conhecido. Na verdade ele pouco ia ao Centro do Brejo. Ocupava a maior parte de seu tempo caando pres no morro do moc. Vivia, praticamente, no topo do morro. Descia todas as tardes em direo antiga fazenda de Antonio Miranda por onde saia para bebericar alguns pileques nos bares da regio.

Messias Antonio Dias, assim se chamava. A alcunha de Messias Pre foi-lhe dada devido a esta prtica de caar pres. No entanto, ele era um caador meio que s avessas, pois ao invs de caar estes pequenos animais, pertencentes ao grupo dos roedores, para se alimentar, ele apenas os caava por mero prazer. Ele se realizava ao v-los cair em suas inofensivas armadilhas. Uma vez presos e imobilizados ele, curiosamente, amarrava uma pequenina fita em uma das patinhas do pre e o soltava de volta Natureza. Antes ele tinha o cuidado de registrar em uma folha de caderno a data e o nmero do bichinho. Assim caso houvesse alguma repetio de o mesmo vir a cair em sua armadilha ele o soltava imediatamente, porque no mais necessitava ser recenseado. A sua sensao estava na primeira vez. Nada mais.

Redundante seria me estender sobre a lenda que, segundo a qual, h no morro do moc um rico tesouro, enterrado que foi por Jernimo Xavier de Souza. Sobre o dito cujo, muitos historiadores interessantes, de renome e projeo nacional j discorreram. Houve, inclusive, vrias corridas caa do mesmo que, no entanto, resultaram-se infrutferas. Talvez no tenha chegado ainda o tempo necessrio para esta revelao ou qui, o espirito deste Bandeirante, parente prximo de Joaquim Jos, j tenha encontrado o repouso suficiente que o tornou indiferente s necessidades materiais mais comezinhas de pobres brejeiros, que nada desejariam, seno uma pequena parte deste imenso quinho, cada dia mais distante.

Bem, antes que voc me pergunte: E o que teria o pobre do Messias Pre a ver com isso? Pois, . Vamos, ento, partir para o quase eplogo desta despretensiosa crnica e no final voc entender que, ao contrrio do que imaginava, ele, Messias Pre, tinha sim, muito a ver com tudo isso, pois esta histria no existiria no fosse ele seu principal personagem.

A tarde caia faceira e preguiosa por aqueles recnditos de meu Deus. O astro rei acabava de se ausentar do Orbe, partindo para iluminar os mundos intangveis aos nossos olhos e limitadas divagaes. O claro da lua cheia j cintilava nas guas do So Domingos. Messias houvera tido um dia muito cansativo e enfadonho. A caa e identificao de seus pres fora muito produtiva. Agora ele estava se preparando para descer o morro. Sairia em frente ao antigo casaro da sede da fazenda de Antonio Miranda e dona Edite e dali, ganharia as imediaes. Era o que ele imaginava. Mas no foi exatamente isso o que ocorreu.

De soslaio, visualizou algo que a primeira vista no conseguiu identificar, mas que reluzia. Brilhava um brilho azulado que resplandecia at as copas dos mais altos e frondosos arbustos. Curioso, apesar de comedido, aproximou-se um pouco daquele estranho objeto. A distncia no era grande. Mas, mesmo assim, por estar um pouco escuro, no lhe permitiu definir do que se tratava realmente. Aproximou-se um pouco mais... Mais... Mais... E, zs... L estava um grande, e encardido alforje em couro de um boi que seguramente fora sacrificado centenas de anos antes daquela descoberta. Estava aquele alforje, ainda, sujo da terra vermelha do Brejo das Almas, ou Francisco S, igual a ti, outro no h. Isso s j era motivo mais que primordial para levar a mais iluminada das mentes a navegar por mares prdigos e alvissareiros onde patacas de ouro cunhadas nos tempos do Imprio tilintavam as vistas do caboclo.

Inebriado, extasiado. So sinnimos, no importa. Era assim que ele estava. Contemplava tudo aquilo, mas no acreditava no que seus olhos viam. Estaria ele experimentando o fenmeno da segunda-vista ou dupla-vista que se trata de um efeito de emancipao da alma o qual se manifesta quando nos achamos acordados, cuja finalidade nos fazer ver coisas ausentes como se presentes estivessem? Seria ele, Messias Pre, clarividente? Bem, se nem ele sabia possuir este dom quem dir, eu que, nem l estava e que, somente hoje, oitenta anos depois, me atrevo a fazer este misero relato.

A curiosidade que matou o gato, por certo, pensava ele, no o mataria. necessidade que fez o sapo pular, dele no se apoderaria. Fechara, consigo prprio, que independente do que houvesse naquele alforje, ele no tomaria conhecimento. Abdicado estava, segundo ele, de todo e qualquer desejo que o levasse a por a mo naquela coisa.

Voc ai que me l, procure controlar tambm a sua curiosidade e espere os prximos captulos por que s darei o final desta histria aps eu retornar do Brejo das Almas para onde viajo nesta semana para comemorar o aniversrio de minha me. No avanarei nesse caso, um milmetro sequer, antes disso.

...

Por vezes, ou quase sempre, saber esperar com pacincia e resignao tambm uma das grandes virtudes.

E tenho dito!

Enoque Alves Rodrigues, que vive em So Paulo, brejeiro de nascimento e convico. Atua h mais de 41 anos na rea de Engenharia. autor do livro Liderana Conquistada, temtica simples sobre otimismo, liderana e motivao, cuja primeira edio j se encontra esgotada. Colunista, Palestrante Motivacional, Historiador e Divulgador voluntrio de Francisco S, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil
.

Se voc Brejeiro e deseja participar da seleo de minhas melhores crnicas que sero inseridas no meu prximo livro O Brejo das Almas em Crnicas entre nos meus blogs e escolha. Ao final envie-me o titulo da crnica pelo e-mail: [email protected]




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Por Enoque Alves - 11/8/2012 14:49:43
Casos do brejo II - Juarez de Quadros

Enoque Alves Rodrigues

Morro da Masseira - Francisco S, MG
Definitivamente ele estava com o burro na sombra. Nasceu numa famlia onde criar e vender gado de corte era tradio centenria. Assim como seu tio que vivia nababescamente, j em idade avanada, na bela Curralinho dos tempos antigos, ele tambm se enveredou pelos caminhos da fazenda. Depois de muita labuta e escorreges em bosta de vaca, agora ele estava colhendo os frutos que havia plantado na juventude. Deitado eternamente em bero esplndido. Ao som do mar no, porque Minas, assim como o Brejo das Almas onde ele nasceu, no tem mar. Porque se o tivesse, certamente que o acolheria. De mais a mais, usufrua de todas as regalias ou benesses. Claro que eu sei que esta estrofe se refere a nossa Ptria Me Gentil e que se trata de uma exaltao ao nosso gigantismo e pujana. Ele era merecedor do que possua. Venceu na vida sem se utilizar de atalhos. Tampouco sombra do tio rico. Ele correu atrs. Foi luta. Ele conseguiu.

Juarez Dias de Quadros era este o seu nome, no obstante ter feito todos os seus estudos na Capital Mineira, onde se formou em medicina, jamais quis exercer esta profisso. Alis, no Brejo das Almas ou Francisco S, quase ningum sabia que ele era mdico. Importante salientar que este sobrenome Dias de Quadros no tem nenhuma ramificao familiar com homnima atual. O dele descendia do Par.
Ao seu retorno para o Brejo das Almas, seu tio Olacyr o presenteou com uma imensa fazenda. Foi por isso que antes de prestar o juramento de Hipcrates, a inclinao para com as coisas da terra j estava em seu sangue.
Casou-se com Vanda. Nunca tiveram filhos. Com isso, tempos depois, ricos, estavam agora, Juarez e Vanda, sozinhos no casaro daquela fazenda em cujo frontispcio se achava uma cabea empalada de boi, acima da qual se lia em letras garrafais: Fazenda Pau Preto propriedade de Juarez e Vanda 1932.
Velhos e alquebrados. Tiveram o privilegio de avanar na vida e na idade. Ningum vive sem envelhecer. Mas eles eram felizes. Plenamente? Bem! Talvez. Quem sabe. Eram. Claro, no lhes faltava nada. Esperem um pouco, sem mineirismo: Juarez e Vanda eram felizes porque tinham tudo? Ou porque no lhes faltava nada! Particularmente, se eu pudesse, no sairia da zona de conforto. Eu ficaria, por certo, com as duas alternativas. Mas sabemos que h momentos na vida em que temos que decidir. Temos que optar...
Pois , meus conterrneos Brejeiros, eles se achavam felizes exatamente porque na concepo deles, no lhes faltava nada. Mas eles no tinham mais a doce sensao de levantar todos os dias de manh e sair em busca de algo. Uai, sendo assim eles no tinham tudo. Mas tambm haviam passado quase todos os anos de suas vidas levantando-se de madrugada para conseguirem amealhar patrimnio que pudesse sustenta-los pelo resto da existncia. E agora colhiam os frutos.

Bem, no demorou muito e o implacvel senhor da razo mandou-lhes a fatura. O burro, conforme eu disse na introduo, estava realmente na sombra. Tudo que Juarez e Vanda desejavam conquistar os deuses lhes deram em dobro. Vocs j perceberam que alguns que parecem nem ter trabalhado tanto conseguem enriquecer com muito mais facilidades que outros que ralaram a vida toda? Eles venceram, verdade, eu j disse. Mas o carn agora chegava e tinha que ser quitado. Vinha com juros e correes.

Comeou com uma dorzinha nas costas de Juarez. Algum tempo depois Vanda reclamava da mesma dor que baixou para as pernas. Transcorridos dois dias, Juarez tambm passou a reclamar da dita cuja nas pernas, que endureceram. As de Vanda, tambm. Agora passavam os dias sentados, um ao lado do outro, cada qual numa bela e bem tranada cadeira em vime. O rico patrimnio, dores e endurecimento nas articulaes, somados com a falta de necessidades materiais, eram agora motivos, ou melhor, justificativas, mais que suficientes para manter aqueles dois pombinhos no cio. No se mexiam. Tambm no precisavam. Serviais zelosos que se esmeravam aos seus cuidados dias e noites, anos a fio, estavam ali, para servi-los.

Foi oportuna e indispensvel interveno de pequena Pliade que l de cima os observava.
Dizia um deles que parecia ser o lder:

- O que so aqueles dois pontinhos escuros e imveis, l embaixo, no Brejo das Almas, ao p do morro da masseira?

- No saberia informar-lhe, Senhor. Da altitude em que nos encontramos muito difcil distinguir alguma coisa!
- V l, ento. Certifique-se do que se trata e venha me contar. No possvel: H 10 anos, 9 meses, 25 dias, 6 horas, 33 minutos e 28 segundos que no consigo registrar em meus apontamentos um minuto sequer de trabalho daqueles dois. Mal consigo sentir a vibrao dos elos que os unem a ns e que so alimentados pela fora do trabalho. A continuarem assim, em pouqussimo tempo, os elos vo se romper, e ai, eu no poderei fazer mais nada.
Foi assustadora a chegada do anjo quelas paragens. Com o dedo em riste apontava para Juarez e Vanda, esbravejando:

- Quem diabos vocs pensam ser? Quem foi que lhes autorizou a parar de trabalhar? Qual foi o tonto que lhes disse que vocs j esto com a vida ganha? Vocs no sabem que um ano trabalhado aqui embaixo representa somente uma hora de estadia l em cima? Mexam-se, seus preguiosos. Vocs esto se enferrujando e daqui a pouco no vamos mais conseguir ver vocs. O chefe mandou dizer que se vocs no se movimentarem. No forem luta e no trabalharem para seguirem contando pontos, ele vai puxar vocs!

Ai, brejeiro, no teve jeito. Quando a gua bate na bunda neguinho pula. Todos querem o Paraiso, mas ningum quer morrer. Saltaram da cadeira e retomaram a luta. Bater o ponto era preciso.

...

Por vezes, quando pensamos que temos a vida ganha que mais necessitamos trabalhar. Os apontadores do alm no do moleza. Eles no dormem nunca.

E tenho dito!

Enoque Alves Rodrigues, que vive em So Paulo, brejeiro de nascimento e convico. Atua h mais de 41 anos na rea de Engenharia. autor do livro Liderana Conquistada temtica simples sobre otimismo, liderana e motivao, cuja primeira edio j se encontra esgotada. Colunista, Palestrante Motivacional, Historiador e Divulgador voluntrio de Francisco S, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.

Se voc Brejeiro e deseja participar da seleo de minhas melhores crnicas que sero inseridas no meu prximo livro O Brejo das Almas em Crnicas entre nos meus blogs e escolha. Ao final envie-me o titulo da crnica pelo e-mail: [email protected]


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Por Enoque Alves - 4/8/2012 18:52:21
CASOS DO BREJO I - NALDINHO E MABL: GEOGRAFIA E HIDROGRAFIA

CASOS DO BREJO I NALDINHO E MABL: GEOGRAFIA E HIDROGRAFIA

Enoque Alves Rodrigues

No. No podia ser. Aquilo no era verdade. Bem, poderia at ser real. Verdadeiro. Desde que no fosse com ele. Por acaso ele no havia se preparado a vida toda para ser um exemplar pai de famlia? Um timo professor? Optara, desde a mais tenra idade pelo sacerdcio do ensinar e agora estava ali, ouvindo aquilo. Fora, durante toda a vida um estudante aplicado. Orgulho maior de todos os seus professores que se gabavam ao chama-lo a lousa para dissertar sobre os mais variados temas. Ele deixava qualquer um de boca aberta. A sua inteligncia era o que se podia classificar como privilegiada. Tinha, com toda certeza um QI de trs dgitos.

Brejeiro, nascido na Praa Jacinto Silveira, num lindo casaro onde hoje se localiza um Hotel, Agnaldo Francisco da Conceio, ou Naldinho, parecia biblioteca ambulante. Era a cultura em ebulio. Transpirava o saber por todos os poros.

Menino, ainda, conheceu Maria Isabel Dias ou Mabel nos ureos tempos de Mariquinhas. Lindos dias. Nas namoraes veladas dos dois celibatrios, onde um se assentava em uma ponta do banco e o outro na outra, o assunto que, pelas circunstancias naturais, tinha que versar sobre as coisas do corao, quando menos se esperava, debandava pelos campos da cincia, da astrologia, da geografia brejeira e da bacia hidrogrfica que banha aqueles rinces. Era engraado de ver. Ele, por fora do hbito, Inseria, sem querer, entre as temticas do emocional, as friezas medonhas e cansativas das cincias e coisas. Estes temas no se coadunam entre si. Era mais ou menos assim:

- Naldinho, temos que marcar logo o noivado. A me que est na ponta daquele banco e o pai que est na outra ponta esto me pressionando.

- Pois , Mabel, voc sabia que o rio So Domingos que nasce aqui na serra do Catuni, desagua no rio Verde Grande? E que o rio Verde Grande divide o nosso municpio de Brejo das Almas do municpio de Montes Claros? Que a rede hidrogrfica do Brejo das Almas muito pobre devido maioria de seus crregos secarem quando no chove? Imagine voc, uma coisa, Mabel, como que pode isso? Temos tantos crregos, veja: do lado norte temos o crrego do carrapato, o sitio novo, o ribeiro de cana brava, o crrego pau preto, o do brejo, o mamonas, o traadal e o rio quem-quem que passa na fazenda Terra Branca do seu Liberato. Sem falar do grande rio gorutuba com suas belssimas praias de areias que banham o povoado do Catuni. J do lado Sul, ns temos outro monto de crregos, como, o rio boa vista, vaca brava, o crrego dos patos, o rio caititu, o rio da prata e o crrego rico. E as nossas lagoas? Voc j imaginou quantas so? Mouras, da barra, da prata, das pedras, lagoa nova. E a lagoa do tabual... E mesmo assim, tudo isso seco... J imaginou?

- Ento, Naldinho, o que voc me diz do nosso casamento?

- Interessante mesmo Mabel, no a nossa hidrografia, mas sim, a nossa geografia. Veja: voc sabia que o nosso municpio se situa na bacia do rio So Francisco? Que o nosso vasto territrio fica no vale mdio do verde grande? Que somos limtrofes, ao norte com Gro Mogol. Ao sul com Montes Claros e Capito Enas. Ao leste com o municpio de Juramento e a oeste com Janaba? Que estamos distantes de Belo Horizonte 480 quilmetros? Que a nossa rea territorial compe-se de 2.749.393 quilmetros quadrados? Que a nossa densidade demogrfica gira em torno de 9.5 habitantes por quilmetro quadrado, sendo 49,5% de homens e 50,5% de mulheres? Voc sabia que o nosso municpio de Brejo das Almas seria maior hoje no fossem as duas grandes mutilaes que ele sofreu para dar a luz aos municpios de Janaba e Capito Enas? Sabia que o nosso municpio tem vida prpria e habitado por um povo laborioso, pacato, de hbitos simples e hospitaleiro o que muito dignificam as nossas origens? E o que voc me diz, Mabel, de nossa altitude de 667 metros acima do nvel do mar? E sobre as nossas coordenadas geogrficas de 162700 de altitude sul e de 432800 de longitude WGr? E o nosso fundador, Seu Jacinto. Voc j leu alguma coisa sobre ele? E os nossos ancestrais? Voc j imaginou como o Bandeirante Antonio Gonalves Figueira conseguiu chegar por nossas terras?

Bem, convenhamos que o papo firme do amigo Agnaldo, que, alis, no possua em nenhuma parte de seu bojo uma pitada sequer de romantismo, destoava, inteiramente, do que a bela brejeira Mabel queria ouvir. Se ele tivesse ao menos falado das matas, dos pssaros e principalmente das flores silvestres que cercam e ainda perfumam a minha terra, poderia ter recebido um desconto. Mas desta vez a sua mente iluminada o trara. Ele no falou das flores. E, por no ter ele falado das flores estava agora ali, no veneno, literalmente no brejo.

Era exatamente por isso que ele agora se amaldioava. Maldizia a sua sina. No acreditava no que lhe reservara o destino. Lamentava, conforme o encontramos na introduo destas mal traadas linhas. Levara um tremendo p no traseiro que o deixou desnorteado. Desiludido, abandonou numa esquina qualquer do Brejo o sonho de ser professor. Casar, constituir famlia e viver uma vida simples, mas, tranquila e sossegada, a beira do rio. Rio? No! Isso no... Foi exatamente por falar tanto em rios, crregos, lagoas, altitudes, longitudes, densidades, extenses territoriais e o diabo a quatro, era que ele agora estava ali, sozinho. Sem o amor de Mabel. Ele teria que viver em algum lugar que no fosse o Brejo das Almas, e, de preferncia, onde no existisse nada que o fizesse recordar da dor da perda de sua Mabel. Pensou. Repensou. Matutou. Ruminou e no chegou a nenhuma concluso. Bem... Chegou, sim. A de que na terra ou em qualquer lugar sobre ela, no existiria nada que o fizesse olvidar aquela desiluso. Num misto de fraqueza, coragem e covardia, tomou a pior e mais abominvel das decises. Encontramo-lo, agora, vagando sem rumo pela crosta sem poder subir ou descer. L no h elevador nem ascensorista. Coitado, percebeu, tardiamente, que nem mesmo aquele seu tresloucado gesto de bravura conseguira liberta-lo do peso da culpa pela perda daquela paixo transitria. Muitssimos anos depois, em idade avanada, partiu do Brejo a bela Mabel em direo ao Infinito. No. No se encontraram. Eles transitam por vibraes diferentes cuja distancia, um do outro, nenhuma medida astronmica conseguiria mesurar. Enquanto isso, aqui em baixo, no velho campo santo do Brejo das Almas, ou Francisco S, at bem pouco tempo atrs, por coincidncia ou obra do destino, seus corpos jaziam, quase numa mesma cova, um ao lado do outro. Foram colocados ali, involuntariamente. Ser?

...

Por vezes, ou quase sempre, nem tudo que est junto na terra significa que esteja tambm junto no Cu.

E tenho dito!

Enoque Alves Rodrigues, que vive em So Paulo, brejeiro de nascimento e convico. Atua h mais de 41 anos na rea de Engenharia. autor do livro Liderana Conquistada temtica simples sobre otimismo, liderana e motivao, cuja primeira edio j se encontra esgotada. Colunista, Palestrante Motivacional, Historiador e Divulgador voluntrio de Francisco S, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.

Se voc Brejeiro e deseja participar da seleo de minhas melhores crnicas que sero inseridas no meu prximo livro O Brejo das Almas em Crnicas entre nestes sites e escolha. Ao final envie-me o titulo da crnica pelo e-mail: [email protected]


72325
Por Enoque Alves - 28/7/2012 20:38:17
ISTO FRANCISCO S III - POVO

Enoque Alves Rodrigues

francisco s - rua do mercado
Composta por raas, cores e credos miscigenados, localizada no antigo polgono da seca no norte das Minas Gerais, Francisco S, ou Brejo das Almas o que podemos classificar como uma verdadeira prola de rara beleza, onde as abbadas celestes se encontram. Nos campos, paisagens naturais sem igual predominam em toda a extenso de seu vasto territrio. Rios, florestas, cascatas e principalmente suas lagoas e brejos incontveis que, inclusive justificam seu toponmico, cobrem suas terras frteis, deixando-as perfumadas pelo orvalho que emana das flores primaveris a cada amanhecer. Gama infinita de pssaros, de vrias espcies, em barulhentas estripulias cantam, festejando todos os entardeceres. Isto Francisco S, o meu Brejo das Almas querido.

No permetro urbano, ou na cidade, e em sua periferia, casas e casebres exibem em suas janelas e vidraas, pequenos vasos pintados cal onde azaleias brancas, rosas e lilases debutam suas formosuras enchendo os olhos dos passantes e viajores. Isto Francisco S, o meu Brejo das Almas querido. No centro nevrlgico, brejeiros transitam por suas ruas num vai e vem sem fim. Olhares fitos e ternos que vo do confivel ao desconfivel em hiatos curtos e longos em emaranhados que levam do tudo ao nada e do nada ao tudo, em timos de segundos aonde todos se conduzem ou se fazem conduzirem pela ausncia plena de qualquer planejamento, mandando s favas as complicaes que a vida urbana impe aos homens que habitam os centros das grandes metrpoles ao redor do mundo. No Brejo das Almas temos todos ns, as mesmas desenvolturas e graus elevados de civilidade que permeiam os mais belos e pomposos perfis e personalidades de nossos iguais mundo afora. Nada, absolutamente nada, possuem alm do que ns possumos. H, no entanto, muitos fatores que ns brejeiros temos que, certamente, no se inserem nas personalidades de nossos iguais que habitam outras plagas: a simplicidade que beira a ingenuidade. O falar manso e pausado. O cumprimento caloroso. O trato com o fio do bigode. O Mineirismo que a maneira de dizermos tudo sem nos comprometermos com nada, mas que o interlocutor entende claramente e no final das contas d tudo certo. O nosso semblante alegre e saudvel. A nossa aparncia fsica misturada com o preto, branco, ndio, mestio, mulato e outras raas e etnias que nos tornam parecidos com qualquer um. Transitamos em igualdade de condies e semelhana por todas e quaisquer sociedades sem corrermos o risco de sermos taxados como diferentes ou apontados como estranhos. Desigual. Somos, assim, virtuosos e gigantes pela prpria Natureza. Ns brejeiros estamos intrinsecamente fundidos ao barro da terra me que nos serviu de bero. Tambm pudera. O imparcial e desapegado introito, prembulo ou introduo destas mal traadas linhas nos indicam, j em seu inicio, que no teramos como ser de outra forma. O lindo e o belo s podem surgir de origem congnita e semelhante. , ento, por isso que somos assim.

possvel que existam em meio ao povo Brejeiro alguns que no se vejam enquadrados nestes perfis de personalidade e carter. Talvez, quem sabe, se possa atribuir esta no percepo busca incansvel do dia a dia por condies de vida melhores a que todos ns estamos sujeitos. No importa. Tendo ou no a conscincia do que se expe, fato inquestionvel que, queiramos ou no, somos exatamente desse jeito. Ou seja, somos bonitos, belos, feios, pretos, brancos, inteligentes, burros, etc. A massa com a qual fomos moldados esta. Viram, pelos vrios porqus, que s temos motivos para nos orgulharmos cada vez mais de nossa simplicidade de ser? Uai, mas esta terminologia de se orgulhar de ser simples no nos remete a deselegncia, ou falta de polidez, comedimento e brandura, que nos recomenda evitar sempre as referncias pessoais e endeusamentos abominveis ao mundo dito civilizado? Sim. verdade! Mas no podemos ficar aqui enclausurados matutando sobre todas estas nossas belezas apenas com os nossos botes. H momentos que necessrio se faz nos manifestarmos sobre este ou aquele tema, mesmo sendo ns prprios o foco como no caso em tela. A nossa terra, o nosso bero, as nossas razes, so motivos inquestionveis das alegrias e entusiasmos que nos aprazem. Isto Francisco S, o meu Brejo das Almas querido. Isto ser brejeiro autntico, vivendo ou no no Brejo. Ser Brejeiro no consiste somente em ter nascido no Brejo, dormir e acordar nele. Nada disso: ser brejeiro , antes de tudo, estado de espirito. , sim, sairmos do Brejo sem que o Brejo saia de ns. mantermos imaculadamente inclumes, os nossos costumes. preservarmos e sermos fiis as nossas tradies por onde quer que andemos.
Ludgero (Lud) era um brejeiro autntico. Ele sabia de tudo isso e muito mais. Mas ele preferia viver na moita como caititu, por conta do Bonifcio. De dia manguaava. De noite dormia. Ele morava num Sitio, no Catuni, naquele tempo um diminuto povoado ainda vinculado ao Brejo. Foi assim que ao ver-se frente a frente com as primeiras contraes de Antonia (Tonha) que esperava Maria (Lia), desesperou-se. Passou a perna no carrlo (cavalo) e se mandou para o Centro do Brejo em busca de remdios. O doutor da Farmcia de nome Francelino, (Frana) estava postado diante de sua Botica. Conhecia Lud de longa data e sabia que o amigo, em consequncia dos vrios gors que consumira durante toda a vida, no batia bem da cuca. Foi por isso que antes mesmo que Ludgero apeasse do carrlo Frana foi logo indagando:

- Qual o motivo de tanta pressa, Lud? Porque esporeia desesperadamente o mansinho?

- No tenho muito tempo a perder, Frana. A Tonha no est bem da barriga. O escaldado de ontem a noite com leite e farinha de mandioca parece que lhe travou os intestinos. Est empanzinada. Com a barriga dura!

- Aqui est, respondeu-lhe o sempre prestativo Frana, que durante muitos anos foi considerado o melhor Mdico do Brejo sem que tivesse diploma de Medicina- s voc lhe dar isto!

Entregou-lhe uma garrafinha branca com leo de rcino que na verdade se tratava de um potente laxante da famlia dos denominados tiro e queda. Felizmente no foi necessrio ministrar. Ludgero, de longe, antes de chegar frente primeira porteira j escutava os berros de Lia que acabava de nascer. Adentrou, e, surpreso, com os olhos esbugalhados de susto, observou que Tonha, deitada e feliz, amamentava Lia, que faminta, sugava-lhe os seios. Ainda atordoado deu um abrao na patroa, chutou a esqulida cadela pulguinha que lambia o rostinho angelical de Lia, pegou no colo o belo rebento e, na sequncia, cheio de entusiasmo, guisa de comemorao pela nova vida que ali pulsava, confundiu com chora Rita o lquido da garrafinha que trazia mo entornando-o, goela abaixo, de uma s vez.

Ai, meu nego, no teve jeito. Foi s correr para o abrao. Como naqueles memorveis tempos a casinha ficava distante do caso imaginemos que pelo menos, naquela primeira noite, o nosso amigo no teve muito o que comemorar.

...

Por vezes, bom festejarmos as ddivas que a vida, de quando em vez, nos oferece, com moderado entusiasmo. Ir com muita sede ao pote no pode ser um bom negcio.

E tenho dito.

Enoque Alves Rodrigues, que vive em So Paulo, brejeiro de nascimento e convico. Atua h mais de 41 anos na rea de Engenharia. autor do livro Liderana Conquistada temtica simples sobre otimismo, liderana e motivao, cuja primeira edio j se encontra esgotada. Colunista, Palestrante Motivacional, Historiador e Divulgador voluntrio de Francisco S, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


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Por Enoque Alves - 24/6/2012 12:07:14
FRANCISCO S, MG - RIQUEZAS NATURAIS I - SERRAS

FRANCISCO S, MG - RIQUEZAS NATURAIS I SERRAS.
Enoque Alves Rodrigues

Muitas foram, at aqui, s vezes em que ressaltei em minhas crnicas semanais as belezas naturais de minha Terra. Desnecessrio seria utilizar-me de um bairrismo exacerbado para afirmar sem quaisquer dvidas ser o meu bero natal, no obstante seu tamanho diminuto em termos populacional, um dos mais belos e virtuosos de todo o nosso Estado de Minas Gerais. Enquanto sua densidade demogrfica se estima hoje em pouco menos de 30 mil almas, sua extenso territorial hoje ainda muito grande, apesar de ter sido infinitamente maior algumas dezenas de anos atrs quando o Municpio de Brejo das Almas ou Francisco S, devido seu tamanho foi fracionado, dando vida a outros grandes Municpios. Hoje estes Municpios dispem de uma infraestrutura igual a de Francisco S e suas respectivas rendas per captas, saneamento bsico e condies de vida se assemelham e equiparam inteiramente aos mesmos do Brejo das Almas.

No entanto, sem delongas, cedemos nossas terras para que fossem criados estes Municpios, belos, tambm bom ressaltar, mas a Matriz onde se encontra a Terra-me destes Municpios, ou seja, o pedao de cho que corresponde a Francisco S, , queiram ou no, o mais bonito, pois o que rene as mais lindas e importantes paisagens de nossa regio. Sem egosmo, abrimos mo de vasta faixa de nosso territrio. Mas, com galhardia, abraamos o que nele havia de mais belo e destes, jamais abriremos mo. Dentro do nosso Municpio de Francisco S ou Brejo das Almas h ainda nascentes de importantes rios que banham, alm do nosso, outros Municpios, alm de muitas outras pequenas nascentes que do vida a crregos e riachos tambm importantes. Sem mencionar aqui pela simples redundncia, das inmeras lagoas, lagos e brejos que ainda hoje persistem como se estivessem permanentemente martelando aos nossos ouvidos suas existncias a fim de que no nos esqueamos, jamais, das nossas origens. De nossa toponmia. De que assim como a nossa terra, somos belos.

Falar o que de nossa fauna e de nossa flora? Bem, sobre isso eu j falei h alguns milhares de crnicas atrs. Que elas so as mais lindas do Planeta? Voc, brejeiro, que assim como eu ai nasceu, mas ao contrrio de mim, ainda vive no Brejo, sabia que na fauna do Brejo das Almas h espcies de animais e pssaros que no existem em nenhuma outra parte do Mundo? Que nossa flora riqussima em plantas medicinais que s nascem e crescem ai no Brejo? Pois . Baba baby.

A ttulo de ilustrao do tema que discorro acima, me apropriarei, em toda a sua ntegra, da obra prima em que consiste o Relatrio-Manografia escrito pelo eminente ex-prefeito Dr. Arthur Jardim de Castro Gomes, quando de sua prestao de contas, ao deixar a Prefeitura do Municpio de Brejo das Almas, depois de ter trabalhado dias e noites incansavelmente, e exercido com retido de carter, lisura, abnegao e esmero, sua bela e transparente gesto frente aos destinos do Municpio em pocas hoje remotas. Alis, sem querer pender-me para este lado, que, algumas vezes, frustrado, cutuco, o nosso Municpio assim como a maioria dos Municpios Brasileiros em dias atuais ressentem da falta de polticos do quilate do Dr. Arthur Jardim de Castro Gomes. Os psteros qui premidos por consequncias e circunstancias que no existiam sua poca ou quem sabe, pelas muitas facilidades que hoje existem em apropriarem-se do que no os pertence, no conseguiram imitar em igualdade de carter aquele grande homem.

Diz o Dr. Arthur Jardim de Castro Gomes em seu lindo e imparcial libelo:

A Serra do Catuni um planalto que desce bruscamente, na vertente ocidental, que a do Verde Grande, de 900 1000 metros de altitude mdia, 700 650 na base da elevao e a menos, j na baixada. Visto da, seu corte do firmamento dado por linhas retas niveladas e rentes como uma amplssima cremalheira. Esse perfil inesperado que a torna singular para o visitante habituado ao tumulturio levantamento de cmoros, pncaros, e agulhas das cordilheiras litorneas e das regies sul-central.

Quem segue pela estrada de Salinas, e galga a encosta, tem no cimo a surpresa de um tabuleiro que se desdobra para o nascente, em suas ondulaes, e onde farfalham as elegantes palmeiras de Catol, batidas pelo vento constante e vivificador do Nordeste... Mas, tambm anunciador da seca que, amide, crassa nossa linda e paisagstica regio. O Brejo das Almas ou Francisco S, igual a ti, outro no h, nada mais seno um pequeno torro, encantador e aprazvel, encravado no Norte das Minas Gerais, quase j na divisa com os sertes da Bahia.
Os contrafortes desta serrania nunca se estendem a mais de uma a duas lguas de seu flanco, para o poente, e no tem ramificaes muito longas no sentido Leste-Oeste.

As maiores so as de Vaca Brava, Campo Alegre e Barra. Estes contrafortes parecem partir de um centro de impulso situado na profundidade da terra, sob a massa dos Gerais, rumo aproximado ESE, originando as elevaes de Sete Passagens, Pilatos, Morro do Trigo e a serie de montes das cabeceiras do Boa Vista e outros.

Estas elevaes secundrias alcanam uma profundidade para o poente de 18 a 30 quilmetros, em altitudes crescentes.
Pela maior parte constituem-se de argila e calcrios em lajedos, xistos, cascalhos rolados e com arestas, bancos normais de quartzo leitoso; e, bombeando cada vez mais o dorso, separando os baixos, em que correm rios temporrios, transformam-se depois em chapadas e tabuleiros cobertos de carrascos ou de catandubas, como diz o nativo, e at de caatingas mais frteis que sobem das baixas.

Os imponentes e de beleza sem igual, contrafortes da Barra, Brejo, Carrapato, Sitio Novo, Masseira, Cana Brava, Santo Andr, de SW para NE, so ramificaes que no se estendem muito.
Esse carter pode ser dado a todos os serros que se erguem esparsos a maior ou menor distncia, dentro do vale, e cujo maior lance no sentido aproximado da corrente do Rio Verde Grande, OSO para NNE.
A maioria desses serros termina com a Serra do Catuni, em linhas de cumeadas niveladas e extensas, ficando o seu perfil, no fundo vastssimo da paisagem descortinados das elevaes, como uma sucesso infinita de planaltos e cavaleiros dos vales.

Puxando aqui um pouco a sardinha para a minha brasa, pois sou pequeno e carente de afagos em meu ego infantil, lembro-me de duas crnicas que escrevi h muito tempo: A beleza da fauna Brejeira e A beleza da flora Brejeira, que faro parte do meu prximo livro O Brejo das Almas em Crnicas que sair pela Editora Livre Expresso. Sinceramente meus queridos conterrneos: se hoje eu decidisse parar de escrever, o simples fato de eu ter escrito estas duas crnicas j me deixaria intelectualmente realizado. Palmilhei grande parte do cho brejeiro onde tive contato direto com suas belezas naturais que me deram o embasamento necessrio para escrev-las.

E tenho dito.

Enoque Alves Rodrigues, que vive em So Paulo, brejeiro de nascimento e convico. Atua h mais de 41 anos na rea de Engenharia. autor do livro Liderana Conquistada temtica simples sobre otimismo, liderana e motivao, cuja primeira edio j est quase esgotada. Colunista, Historiador e divulgador voluntrio de Francisco S, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil. Caso queiram, sigam-me no twetter: @enoqueal


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Por Enoque Alves - 9/6/2012 12:19:08
A fnix brejeira IV - Pascomiro

Enoque Alves Rodrigues

Ele caminhava pelas empoeiradas ruas do pequeno povoado de Brejo das Almas, HOJE Francisco S, quando no havia ainda nenhuma rua asfaltada. Subia no sentido de quem vai para Montes Claros. Mas ateno, s no sentido, ou melhor, na direo da bela MOC, porque na verdade, ele andava sem destino. Se no tinha ele um paradeiro pr-definido, porque razo teria um destino?
Primeiro acho importante informar que o amigo que est sendo retratado hoje neste limitado pedao de papel eletrnico, nada tinha de especial que o colocasse na condio de diferente de todos e quaisquer locais. Tampouco frua de alguma outra posio que o destacasse de seus iguais. Assim sendo, Pascomiro, era como qualquer um, resguardadas as devidas propores que, alis, eram muitas. Seno vejamos:
No tinha ele nenhuma profisso que pudesse lhe auferir alguns trocados no sentido de suprir-lhe as necessidades mais precrias ou amenizar um pouco a fome que o atormentava. No gostava de trabalhar. Pascomiro fugia do trabalho como o diabo da cruz. Mas ele gostava de se vestir bem e, porque no dizer, de comer do bom e do melhor. Bebia da melhor cana segundo os paus dagua de planto, dignos e implacveis conhecedores do verdadeiro nctar dos deuses dos alambiques. Por minha vez, jamais bebi algo que no fosse gua, suco, caldo de cana, caf ou leite. Portanto, no sei que gosto tem uma cachaa. Nem duas. Mas respeito nossos amigos beberres. Eles, assim como eu, no so ou jamais seremos perfeitos.
Pascomiro andava naqueles tempos l no Brejo de todas as Almas em companhia de um andarilho de nome Elias, que a maioria acreditava ser o profeta. Eles eram, muitas vezes, amparados por Christiano Carlos Xavier de Souza, parente muito prximo do mais importante vulto da Inconfidncia Mineira, o Mrtir do Lago da Lampadoza, no Rio de Janeiro, de nome Joaquim Jos da Silva Xavier, o Tiradentes.
Pascomiro tinha uma maneira muito peculiar de conseguir que as pessoas lhe dessem algo para comer sem que fosse necessrio sequer que ele abrisse a boca: fingia-se de mudo. Quando, raramente, algum corao renitente no muito adepto do repartir o po, endurecia, ele fingia-se de manco. E assim ia levando a vida. Na crise econmica que o Brasil atravessava, o meu, o teu, o nosso Brejo das Almas foi atingido em cheio. A fome grassava aquela pobre localidade, na verdade, um pequeno torro existente nas extremidades do Estado das Alterosas em meio ao caminho para a velha Bahia de todos os Santos, ou simplesmente, Bahia para os ntimos de onde provm minha santa me.
O tempo fechou para muita gente boa. Para gente ruim, tambm. De fome, cachorro s conseguia latir encostado na parede. O rei do terreiro, sua majestade, o galo, no cantava. Chorava. Ele estava, deveras, preocupado com a subsistncia de sua prole numerosa de pintinhos, desprotegidos. As formigas j no tinham folhas, sequer secas, para transportarem para suas moradas escuras. As cigarras, que so, por costume e compleio fsica, constitudas da mais pura alegria, sequer davam algum ar de graa. Sorrir do que? Cantar pra que? Se tudo ao redor era destruio, misria e dor? O Joo de Barro agora no tinha casa. Construi-la com o que? Se no tinha gua no havia barro, principal matria prima indispensvel ao grande e inigualvel arquiteto da floresta, agora esturricada.
Bem, se toda esta fauna que foi concebida pela me natureza com a mais pura blindagem a quase toda e qualquer adversidade estava penando, imaginem os simples humanos. Pascomiro, coitado, no poderia fugir regra. E ele estava padecendo sem d e piedade. Fingir-se de mudo e de manco agora no era nada. Nenhuma sensibilidade causava aos vazios bolsos Brejeiros, agora, preocupados tambm com a prpria barriga. A crise o co, endurece tudo. Na crise, o que todos querem mesmo sobreviver j que viver impossvel. Quanto aos outros, bem, os outros que se virem eles no so quadrados. Pascomiro tambm era filho de Deus. Ele tambm tinha que sobreviver. Para isso tinha que comer. Aps tentar vrias artimanhas. Utilizar-se de inmeros expedientes, infrutiferamente, agora daria a cartada final. Fingiria de morto. Bem, isso seria infalvel. Puxa vida, porque ele no pensou nisso antes? Diabo!
Na barriga do moc, morro onde hoje se encontra o Cristo, quase todo repaginado, prximo a fazenda de Miranda, conseguiu uma rede. Mais adiante, algumas velas. Dirigiu-se com aquilo at o antigo largo da Matriz. L chegando acendeu as velas. Cobriu-se com a rede. Um dos poucos transeuntes que se atrevia sair de casa naquela hora o viu naquele estado de batrquio morto. Assustado bateu em outras portas e de repente pequena multido se formou ao redor de Pascomiro. Penalizados, decidiam, ali, naquele momento, que fim daria ao morto. Uns diziam: coitado, morreu de fome. Ao passo que outros respondiam. Pois , este o mendigo Pascomiro. Quantas vezes me pediu algo para comer e eu, perverso, no lhe dei? Alguns mais catlicos falavam: agora no adianta se lamentar. Tudo que antes existia para ele j no existe mais. Defunto no precisa comer. Necessita de cova. Vamos, imediatamente, leva-lo para o cemitrio antes que seja demasiado tarde. Dito isto, juntaram a rede. Quatro marmanjos, com as caras cheias de pinga (vocs ai j notaram que por mais difcil que seja a situao nunca falta pinga? E que sempre tem algum para pagar uma dose de pinga para outro algum ao invs de lhe oferecer um pedao de po?), cataram, cada qual uma ponta da rede e, guisa de forquilhas, iam levando aquela draga velha para dispensar no antigo campo santo. Mas como santo Onofre, o protetor dos bbados no estava de planto para os quatro que carregavam, mas para Pascomiro, estes tropearam nas prprias pernas e caram, levando ao cho aquela tralha que rolou por pequena ribanceira e por fim caiu numa das muitas lagoas que existiam em Francisco S, onde segundo a Lenda, eram desovados os corpos de garimpeiros aps terem sido acharcados de seus patus cheios de ouro. No deu outra. O morto Pascomiro que de morto mesmo no tinha nada alm da preguia, bateu com as fuas exatamente num destes estufados patus. Daquele dia em diante acabou-se a pobreza. Mandou a misria para as cucias e foi viver da maneira que mais gostava. Sem fazer nada.
...
Por vezes, diziam os mais antigos, a sorte s existe para aqueles que no acreditam nela.
E tenho dito!

(Enoque Alves Rodrigues, que vive em So Paulo, brejeiro de nascimento e convico. Atua h mais de 41 anos na rea de Engenharia. autor do livro Liderana Conquistada que j se encontra nas melhores Livrarias do Brasil e pode ser pedido diretamente pelo e-mail: [email protected] ou pelo telefone da Livraria SN Station, (11) 2221-0703. Colunista, Historiador e divulgador voluntrio de Francisco S, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.)


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Por Enoque Alves - 2/6/2012 14:38:49
A fnix brejeira III - Margot do boteco

Enoque Alves Rodrigues

Na primeira crnica que escrevi na srie A Fnix Brejeira que teve como personagem principal Manezim Vaqueiro cuja notoriedade obteve da noite para ao lanar-se lagoa das pedras para salvar uma criana e, ao ser ovacionado pelo gesto, passou um sabo nos riquinhos que no tomaram tal atitude, etc. Conduzido por marmanjos em procisso que o dispensaram na casa de Margot, na verdade, um ftido boteco com ares e fama de inferninho, que se localizava na beira da estrada de quem saia do Francisco S ou Brejo das Almas com destino Salinas e adjacncias, etc. possvel que alguns hoje velhinhos que naquele tempo j eram hominhos se lembrem daquele point onde muitos caminhantes e boiadeiros paravam para descanso e outras diverses. Mas claro que no tenho aqui a pretenso de que algum conterrneo se apresente como frequentador de mencionado site, ainda que em pocas to distantes. Pois, eu prprio, s estou tendo a coragem de declarar ter conhecido aquele lugar, de passagem, porque naqueles tempos eu era apenas uma criana, sem maldade e sem testosterona. Viram como eu me sa bem? Isto posto vamos Margot.
Brejeira, digna, esbelta, 50 anos. Tivera, em infncia, uma vida farta, quando o pai, Jlio, dono de uma pequena propriedade onde cultivava alho e algodo, culturas em ascenso na poca, no deixava que nada faltasse. Muito bonita e cortejada pelos bons partidos do Brejo, nossa beldade estudou nas melhores Escolas de l, tendo inclusive realizado um priplo por importantes Colgios da bela MOC, de onde retornou com um lindo canudo de Normalista. No Brejo, quando todos pensavam que nossa musa fosse buscar uma Instituio para lecionar, ou se dedicar a carreira para a qual se preparou, ao quadrar o lindo traseiro nos bancos escolares, eis que a deusa se envereda por caminhos que julgava mais fceis, mas que de fcil mesmo, como ela confirmaria depois, tardiamente, no tinham nada. Quase todas as jovens que so levadas a estes sendeiros o fazem depois de terem passado por alguma desiluso amorosa ou ento, por necessidades que no conseguiram, de outra maneira, suprir. A beldade a qual me refiro hoje no se originava de nenhuma destas vertentes. Ou seja, foi, na verdade por mera curiosidade. Gostou, aderiu, agregou. Permaneceu assim, enquanto a Natureza no lhe mandava a fatura. Quando, por fim, o carn chegou nossa Margot, na verdade, Margarida Maria de Jesus, j se encontrava com a idade de 45 anos e terrivelmente ferrada pelas marcas implacveis e indelveis do senhor da razo. O tempo foda mesmo. No perdoa ningum.
No tendo outras condies at porque no houvera poupado para usufruir de uma velhice amparada, no lhe restou alternativa seno abrir aquele boteco numa afastada regio. Em pouco tempo Margot estava no fundo do poo. O negcio no prosperava. A clientela no aparecia. No tinha filhos. Os parentes de h muito a abandonaram. s vezes amanhecia sem ter o que comer. Mas Margot era grande. Margot no se entregava. Ao invs de lamentar, sorria. No era nenhum sorriso fingido, mas espontneo, franco e resplandecente. Ao invs de chorar, cantava. No era um canto triste, mas alegre. Ao invs de xingar, rezava. Mas ela no rezava da boca pra fora, mas com a f dos iluminados que acreditam e confiam. Se o corpo, agora trpego e trmulo reclamava de cansao, trabalhava. Mas trabalhava com afinco e dedicao plena de que um dia, tempos melhores viriam. No, no trabalhava no que voc est pensando. Desta profisso houvera de h muito, se aposentado.
Verncio, Salineiro, vivo, fazendeiro, tocava sua boiada juntamente com mais trs vaqueiros com destino aos Frigorficos de Montes Claros. Com sede e fome pararam naquele boteco. Nada havia alm de gua.
Os olhares se cruzaram. A paixo foi fulminante. De repente toda aquela beleza da juventude que se achava apenas adormecida l no interior de nossa beldade, ressurgiu. Uma vez bonita sempre bonita. Alis, no h ningum feio. Existem apenas aqueles sofridos que no sabem sorrir. A conta fechou positivamente por aqueles lados. Deu empate. Verncio no queria mais sair dali. A todo custo conseguiram convenc-lo de que ele havia sado de Salinas para vender uma boiada em Montes Claros. Seguiu viagem somente depois de Margot lhe prometer que lhe esperaria naquele mesmo prefixo. Naquele mesmo lugar ou se preferir, naquele mesmo ponto. E assim foi.
Verncio retornou com as burras cheias de gaita. Margot fechou o negcio para sempre. Foi viver com o primeiro marido de toda a sua vida de 50 anos em uma bela fazenda que se localizava quase na entrada de Salinas a qual muitos com certeza conheceram. Trinta e cinco anos depois l estavam os dois pombinhos firmes no batente. Margot Frua, agora, no pice da vida, do conforto que todos que a conheceram antes, unnimes, no acreditavam. Ela era grande. Ela era o mximo. Ela deu a volta por cima sem se utilizar de atalhos. Singulares virtudes que somente aqueles, como Margot, que receberam na testa, ao nascer, o carimbo dos bravos e vencedores conseguem atingir.
...
Por vezes, dizia Plato, na velha Atenas, 347 anos antes do Cara, no existe barreira intransponvel para o ser humano que pensa, luta e acredita.
Tomou?
E tenho dito!

(Enoque Alves Rodrigues, que vive em So Paulo, brejeiro de nascimento e convico. Atua h mais de 41 anos na rea de Engenharia. autor do livro Liderana Conquistada que j se encontra nas melhores Livrarias do Brasil e pode ser pedido diretamente pelo e-mail: [email protected] ou pelo telefone da Livraria SN Station, (11) 2221-0703. Colunista, Historiador e divulgador voluntrio de Francisco S, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.)


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Por Enoque Alves - 27/5/2012 10:54:57
A FNIX BREJEIRA II - JESUINO DO QUILOMBO

A FNIX BREJEIRA II JESUINO DO QUILOMBO

Enoque Alves Rodrigues

Ele surgiu em pleno centro da Cidade de Francisco S ou Brejo das Almas como se por encanto. Alis, surgiu como todos eles surgem. Aparentemente do nada. muito mais natural do que possamos imaginar, que a maioria daqueles que muitas vezes encontramos a trilhar um caminho inslito como se andarilhos fossem, receberam na verdade alguma misso especial a qual ns, desprovidos de um conhecimento que ainda se encontra a milhes de anos luz de distncia, ignoramos inteiramente. Estvamos em meio dcada de 1950. Caminhava, vagarosamente, manquitolando pelas ruas empoeiradas do Brejo. Trazia s costas um sujo saco de estopa onde podia se constatar o volume de algo em seu interior. Silencioso, jamais abriu a boca para pedir alguma coisa para algum. Apenas caminhava. Depois de percorrer todas as poucas ruas do Brejo daqueles tempos, sentava-se em frente igreja e l ficava observando a paisagem. Depois de muito observar, fixava seu olhar em algum ponto do firmamento e dormia.

O apelido de Jesuno do Quilombo, ele recebeu de algum engraadinho talvez pelo fato de sua aparncia fsica com o grande Zumbi dos Palmares pela tez preta, cabelos pixaim, alto e magro. A princpio, muitos acreditavam que o quilombo que trazia como sobrenome fosse por ser ele oriundo de uma respeitvel comunidade, quela poca, pequeno reduto desta nobre raa, cuja comunidade se localiza ainda hoje no Municpio de Francisco S. No entanto, como se comprovariam depois, ele sequer a conhecia. No demorou muito e sua verdadeira procedncia foi descoberta, por acaso, pelo renomado poeta, jornalista e escritor Brejeiro de inquestionvel expresso literria no norte de Minas Gerais, Olyntho da Silveira.

Jesuno do Quilombo era na verdade Gotardo Apolinrio de Souza e descendia de escravos de senhores de engenhos na Bahia, ou precisamente nas imediaes de Vitria da Conquista. Ele chegou ao Brejo das Almas trazido por uma coluna de bandoleiros que lhe retiraram do convvio familiar, passando a explora-lo na condio de cozinheiro. No Brejo, aquele bando de sanguinrios que estava sempre fugindo da Policia, escolhia os lugares estrategicamente afastados do centro da Cidade para que assim pudesse pinotear a qualquer momento, caso tivesse que recuar de algum confronto eventual com os meganhas. por isso que ningum no centro do Brejo das Almas conhecia ou sequer antes houvera tido qualquer contato com Jesuno do Quilombo.

Quando naquela clida madrugada de Setembro o tempo fechou para os lados daquele bando cercado que foi por duas frentes federais que vinham de Montes Claros e de Monte Azul, surpreendido, no lhe restou nenhuma alternativa seno a da fuga vergonhosa e humilhante. Na correria acabou ficando sem seu cozinheiro que por possuir a perna esquerda mais curta que a direita, razo de seu manquitolar, no foi possvel acompanhar sua turma. Como ele era apenas um cozinheiro, que nenhum mal houvera causado a qualquer local, no foi difcil a sua acolhida. A cidadezinha pacata de ento, acabou por adota-lo como filho. E que filho amoroso ele era.

Numa poca em que os servios de limpeza pblica no Brejo capengavam, aquela alma, munida de galhos da velha palmeira que ainda hoje tremula em frente Igreja Matriz, na Praa Jacinto Alves da Silveira, varria, graciosamente, todas as ruas por onde passava. Antes, ele tinha o cuidado de jogar gua para apagar a poeira. Era por isso que, cansado, depois de finalizar suas tarefas de varries do dia ele se dirigia para as escadarias da igreja para descansar e dormir.

Educado, Digno e nobre, quando algum brejeiro inadvertido lhe estendia uma moeda ele que na maior parte do tempo ficava silente, falava: por favor, meu senhor, guarde-a. Eu nada fiz por merec-la. Mas eu poderei at aceita-la. Desde que o senhor me oferea algum trabalho de limpeza ou cozinha para fazer. Os meus superiores no me permitem receber nada sem o devido esforo. Sem entender, o interlocutor, bom samaritano, lhe perguntava: mas a quais senhores voc se refere? Sempre o vejo ai, sozinho? Ele assim respondia apontando para o Alto: Eles esto L em Cima. Acham-se fora do alcance de nossas vistas mais muito prximo do nosso corao!

Na gangorra da politica brejeira, Enas, o Capito, agora era Prefeito. Feliciano era seu vice. Poucos anos antes o jogo era inverso. O primeiro era vice do segundo. Entendeu? No? Nem eu. Desvira tudo que voc entende. D no mesmo!

O que importa que o Prefeito Enas, cujo corao de to grande no cabia no peito, naquele dia ao sair da Prefeitura em direo a Fazenda Burarama, ao passar em frente s escadarias da Matriz viu, de soslaio, Jesuno do Quilombo, que voltava com seu galho de palmeira em punho, de mais um priplo de varrio pelas ruas do Brejo. Enas, a quem nada passava despercebido, apeou. Aproximou-se de Jesuno e passou-lhe a mo em cumprimento.

- Como vai, meu amigo!

- Bem. E o senhor?

- Bem, tambm! Voc Brejeiro?

- No senhor. Sou Baiano!

- O que fazes com este ramo de palmeira na mo? Quis saber o Prefeito Enas Mineiro.

- o meu instrumento de trabalho. Com ele eu fao a limpeza das ruas desta Cidade, que esto, diga-se de passagem, um verdadeiro lixo. Alis, toda esta Cidade est uma porqueira s que d gosto. At parece que no tem Prefeito!

O Capito, no perdia o rebolado jamais. Com simpatia e ternura, fitou Jesuno de alto a baixo. Mesmo no sendo Mineiro alm do sobrenome, sabia matutar e medir as palavras antes de proferi-las, prprio daqueles, que assim como eu, nasceram nas Alterosas. Foi a que aps pensar bastante, abriu os braos e um grande sorriso, e se apresentou:

- Pois , meu amigo. Muito prazer! Talvez voc ainda no saiba, mas sou eu o Prefeito desta Cidade que se chama Francisco S. Quero lhe informar que estou me empenhando o mximo para torna-la a mais limpa possvel e com a sua ajuda, vamos conseguir!

- E por que que o senhor acha que eu estou lhe falando assim? Vossa Merc pensa que eu que sempre me mantive calado falaria isso para qualquer um? Eu sou pobre e sujinho de roupa mais limpinho de corao. por isso que eu s falo com o dono dos porcos. O senhor tem que convocar todo mundo para me ajudar a fazer a limpeza seno daqui a pouco as cobras vo sair dos brejos e vo invadir as casas. muito trabalho para uma pessoa s... O senhor no acha?

A partir daquele dia instituiu-se em definitivo o servio de limpeza pblica na Cidade.

...

Por vezes, a chacoalhada vem de onde menos se espera. De pessoas que seriam inimaginveis, no tivessem boca.

Enoque Alves Rodrigues, que vive em So Paulo, brejeiro de nascimento e convico. Atua h 41 anos na rea de Engenharia. autor do livro Liderana Conquistada que j se encontra nas melhores Livrarias de So Paulo e poder ser pedido diretamente pelo e-mail: [email protected] . Colunista, Historiador e divulgador voluntrio de Francisco S, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


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Por Enoque Alves - 19/5/2012 11:24:37
ASSIM ERA FRANCISCO S FREDO DE TONHA

Enoque Alves Rodrigues

Ele residia num antigo casaro velho feito com adobe com fachada em cor verde musgo que ficava a trs casas depois da casa da Dona Quino, na alameda central, em Francisco S, ou Brejo das Almas, em cujo frontispcio se lia penso. Ali ele vivia em companhia de Antnia Claudina Ferreira, a Tonha, e seis bacuris todos eles fora da Escola, apesar de se acharem em idade escolar.

Alfredo Dias Severino, 40 anos, agricultor, nascido no Cear, mas radicado desde criancinha no Brejo, tinha que dar um duro dos diabos para poder sustentar sua grande famlia. Tonha cuidava das crianas, da casa e da horta, enquanto Fredo trabalhava nas fazendas da regio na condio de camarada. A alcunha de Fredo era alusiva ao seu tamanho de 2,05 metros, uma aberrao para a poca quando o raquitismo corria solto impedindo que at mesmo os ricos e bem nutridos ultrapassassem a altura de 1 metro e 60 centmetros. Naqueles cafunds de meu Deus onde orgulhosamente nasci, quando, ao traarem o perfil de algum, se mencionasse estatura mediana, entender-se-ia que o individuo em referncia possua menos de 1 metro e 60 centmetros de altura. Era esta a nossa mdia. Um pouco mais que isso j era considerado alto. Hoje a estatura mediana para homens de 1 metro e 70 centmetros.

Alfredo, alm de alto, era muito forte. Era como vamos ver mais adiante, um costa larga. Tremendo p de boi na arte de trabalhar e produzir consumia, com a mesma voracidade em que detonava os eitos de roados, duas imensas gamelas de comida no almoo e uma no jantar, esta regada a cachaa. A merenda que era servida s duas da tarde tinha que ser composta de uma rapadura e duas cuias de farinha s para ele. A sua produo diria era superior produo de dois homens juntos. Mas para contrata-lo o Fazendeiro ou meeiro tinha que ter bala na agulha, ou melhor, tinha que ter rango na panela, seno a mquina no girava.

Foi durante uma colheita de algodo na fazenda de Rosalino que ficava prximo a fazenda de meu av, Liberato, que tive a oportunidade de conhecer, pessoalmente, aquela figura. Sua fama eu j conhecia de longa data. Por isso, quando o capataz de Rosalino, de nome Juca, nos informou que Fredo ia trabalhar com eles na colheita daquela safra de algodo, minha curiosidade ficou mais aguada.

Manh de Segunda Feira. O ano era 1961. Atravessei a pinguela do afluente do quem-quem e, de longe, j pude visualizar do outro lado, o algodoal de Rosalino. Aproximei-me. Era verdade. L estava ele, o gigante, em meio a uma roda de outros camaradas tomando caf e palestrando antes de iniciar o batente. Parei-me meio surpreso e pus-me a observa-lo. Mos longas, mas proporcionais ao corpanzil. Aguardei o inicio das atividades do grandalho. Desejava ver tambm como os outros pequenos mortais se comportariam. Queria tambm, se possvel, no final do dia, assistir as pesagens das colheitas. Fazer as comparaes apesar de nada daquilo me dizer respeito, etc.

Sete horas. Aps o tilintar de uma velha enxada a guisa de sirene, assim como so dadas as largadas para as corridas, eis que todos saem cada qual em seu eito de algodo, com sacos amarrados cintura enquanto os dedos geis, em frenticos movimentos, estraalham os capuchos, lanando-os aos sacos. Depois de sumirem de vista entre os eitos ou ruas, eis que, num passe de mgica, l esto todos eles, exceto alguns retardatrios, assim como o so nas retas de chegada das corridas, quando nem todos chegam ao mesmo tempo, fazendo a curva de volta, ganhando minha direo. Fredo, para minha decepo, se achava entre os retardatrios. Pensei comigo: esse cara no de nada. literalmente um bundo. S tem tamanho e fama. Foi tudo propaganda enganosa.

Ledo engano. Aquele mestio, brutamontes s estava mesmo esquentando os motores. Quando o relgio assinalou oito horas, o pau quebrou. Como se estivesse enlouquecido, o cara, entre um assovio e outro, deu uma chacoalhada nos quadris, endireitou o espinhao e comeou a cantar. maneira que ia cantando avanava sobre os eitos como se a melodia ditasse seu ritmo. Com uma s mozada colhia vrios capuchos de algodo e socava-os no saco. Enquanto os outros enchiam um saco ele j havia enchido dois. De longe, com um assovio seguido de um olhar estranho, entre, engraado e diablico, gritou para o balanceiro:

- Tadeu, seu cabrunco da mulsta, ampria ai o meu espcio prchimo da balncia pra mim coloc os saco, apusqu hoje eu t cum co e cum a gota serena e v tir seis arroba!

Caramba. Aquilo no era possvel. Principalmente se partirmos do pressuposto de que dificilmente algum consegue colher mais que 45 quilos ou trs arrobas de algodo por dia.

Retornei para a Sede da Fazenda de meu av e tarde quando iam iniciar as pesagens, regressei. Subi sobre um mouro que ficava prximo da balana, em meio montanha de sacos de algodo, e, mais uma vez, pus-me a observar.

O balanceiro Tadeu, ao lado do capataz Juca, com uma velha caderneta onde fazia a contabilidade, sentado na sela de seu cavalo sobre o qual se viam duas grandes bruacas de couro abarrotadas de notas de cruzeiros, numa poca abenoada em que ningum roubava ningum no s por medo dos efeitos coercitivos da lei dos homens, mas principalmente por temerem a Lei de Deus e o tridente do diabo, no transgredindo um dos mandamentos onde est escrito, no furtars, ia chamando os pees um por um, por seus respectivos nomes seguidos do total da apanha e do valor correspondente ao pagamento da diria.

- Jazo do Brejo, duas arrobas, 20 cruzeiros. Felisbino de Vaca Brava, duas arrobas e meia, 25 cruzeiros. Elpdio do Mangal, uma arroba e meia, 15 cruzeiros. Jac de Salinas, trs arrobas, 30 cruzeiros. Manoel de Taiobeiras, duas arrobas, 20 cruzeiros. Gervsio de Cana Brava, duas arrobas e meia, 25 cruzeiros. Daniel do Catuni, trs arrobas, 30 cruzeiros. Geninho de Orion, uma arroba, 10 cruzeiros, etc.

Ao chegar vez da pesagem da colheita do giganto, o capataz pigarreou, estufou o peitoral, empostou a voz, e, como se fosse proferir um longo discurso, mandou:

- Alfredo, de Tonha, pai de seis filhos, Cearense cabra da peste, que mora no Brejo, dois metros e cinco de altura, costas largas, que come duas gamelas de comida no almoo, uma rapadura com duas cuias de farinha na merenda e uma gamela de angu com um litro de cachaa na janta, grande p de boi para trabalhar, seis arrobas, 60 cruzeiros.

Com apresentao to rica em pormenores como esta no me restaram mais nenhuma dvida de que Fredo era realmente imbatvel.

...

As pessoas, por vezes, pecam pelo excesso de detalhes que nem sempre nos interessam.

E tenho dito!

Enoque Alves Rodrigues, que vive em So Paulo, brejeiro de nascimento e convico. Atua h 40 anos na rea de Engenharia. Escritor, com dois livros a serem lanados, (Liderana Conquistada que ser lanado agora em maio/12 e Brejo das Almas em Crnicas), Colunista, Historiador e divulgador voluntrio de Francisco S, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


71279
Por Enoque Alves - 12/5/2012 11:39:56

ASSIM ERA FRANCISCO S JARDIM PBLICO MUNICIPAL

Enoque Alves Rodrigues

Quando a 31 de Janeiro do ano de 1969 o Prefeito Eurico Penna da Silveira inaugurou na Praa Jacinto Silveira, em frente igreja matriz do Brejo das Almas ou Francisco S, igual a ti, outro no h, o Jardim Pblico Municipal, poucos Brejalminos acreditavam que aquele projeto havia finalmente se materializado, deixando em definitivo o papel.

Concebido na prancheta daquele a quem poderamos chamar de o Niemayer do Brejo, o Dr. Arthur Jardim de Castro Gomes, parte integrante e indissolvel da vida de Francisco S desde os primrdios, onde exerceu com fervor, transparncia, dedicao e galhardia, os mais diversos cargos pblicos, inclusive o de Prefeito em gestes coroadas de xitos e muitas realizaes com avanos em todas as reas administrativas do municpio os quais hoje fica difcil pontuar.

A execuo da obra do Jardim Pblico Municipal ficou a cargo de Antonio Plcido que muito se desdobrou para que o cronograma fosse cumprido dentro do curtssimo prazo estipulado por Eurico.
Muitos brejeiros ho de lembrar, pois, afinal, no faz tanto tempo assim. Em 31/01/1969 eu tinha dezesseis anos incompletos e l estava em meio quase totalidade da populao do Brejo naquela praa, em frente aquele monumental e gigantesco amontoado de concreto. Todos queriam assistir ao rompimento da fita inaugural e presenciar aquele feito indito e indescritvel.

Um pouco antes do discurso de Eurico Penna a praa j estava tomada pela multido vida por ouvi-lo. Todos se acotovelavam em busca do melhor ngulo onde pudessem observa-lo e escuta-lo sem se perder nenhum detalhe. Baixinho poca, no me restou nenhuma alternativa seno me atracar ao tronco liso da centenria palmeira que ainda hoje insiste em manter-se de p no mesmo lugar, de onde, enquanto a cacunda aguentava, podia visualizar toda a cerimnia que transcorria animada e na mais perfeita ordem. Depois das bnos do Padre que proferiu nas escadarias da Matriz uma breve homilia, deu-se, de fato, o inicio dos trabalhos. Eurico iniciou seu discurso ressaltando os feitos que havia realizado at ento e as aes que ainda restavam por tomar frente Prefeitura Brejeira. Enfatizou a importncia daquela obra do Jardim Pblico para os muncipes de Francisco S.

No tronco da palmeira, em pensamento, tentava eu entender a quais importncias Eurico se referiam. O que haveria de to relevante numa obra de um pequeno e diminuto jardim onde nem flores existiam? O que, de positivo, agregaria a vida de todos ns, Brejeiros? Seria ou no aquele discurso exagerado e tendencioso que no passava de um monte de falcias desprovidas de qualquer cunho de verdade?

Enquanto eu me via perdido no mundo emaranhado das interrogaes, eis que Eurico j se achava finalizando sua fala. Se eu tivesse tido o dom da pacincia e sido menos precipitado, certamente que nenhuma daquelas duvidas e questionamentos teriam povoado a minha mente. Involuntariamente, mas como se tivesse lendo o meu pensamento, o grande Prefeito Eurico Penna da Silveira, sim, este Silveira pertence mesma linhagem e estirpe do cara. O maior de todos, passou a justificar:

possvel que algum conterrneo que aqui se encontra neste momento maravilhoso esteja tentando entender qual seria a importncia desse simples jardim pblico para o Brejo. Qui esteja imaginando tambm que este monumento ter como sua nica incumbncia segurar a placa que nele se encontra ostentando o meu nome, etc. No entanto, quero dizer que ele muito representar para todos ns hoje e para os psteros. Durante muito tempo este projeto do Dr. Jardim ficou engavetado porque os meus antecessores no queriam correr o risco de passar por tais questionamentos. As minhas explicaes so simples. Tudo que pudermos fazer, por pequenino que possa parecer, para embelezar a paisagem urbana da nossa cidade, ela vai nos agradecer. E, tirando do bolso da camisa duas fotos em branco e preto acenou-as para a multido: veja aqui em minha mo o antes, onde esta praa se acha sem o jardim, e o depois, onde ela j aparece munida do seu jardim. ou no incontestvel a diferena? Vocs reconheceriam esta praa se aqui no estivessem?
No. Respondemos todos.

...

Por vezes, dizia um certo politico mineiro de nome Jos Maria Alkmin, nascido em 11/06/1901, em Bocaiuva. Lembram-se dele? Em poltica o que importa a verso e no os fatos. No caso em tela que acabo de descrever, esta mxima foi pras cucias, pois, fato e verso, coadunavam-se. Contra fatos no h argumentos e os fatos estavam ali, em nossa frente, em mos de Eurico, consolidado incontestavelmente por duas trmulas, distorcidas e meio desfocadas fotos que muito representavam.

E tenho dito!

Enoque Alves Rodrigues, que vive em So Paulo, brejeiro de nascimento e convico. Atua h 40 anos na rea de Engenharia. Escritor, com dois livros a serem lanados, (Liderana Conquistada que ser lanado agora em maio/12 e Brejo das Almas em Crnicas), Colunista, Historiador e divulgador voluntrio de Francisco S, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


71227
Por Enoque Alves - 5/5/2012 11:42:35
Assim era Francisco S O prdio da Prefeitura

Enoque Alves Rodrigues

Rua do Mercado do Brejo das Almas
Quando no ms de Janeiro do ano de 1949 o Prefeito Feliciano Oliveira juntamente com seu vice, o Paraibano, visionrio e empreendedor, Capito Enas Mineiro de Souza inauguraram o prdio onde ainda hoje se encontra instalada a Prefeitura do Municpio de Francisco S, construdo pelo Engenheiro Francisco Benfica Veloso, de Montes Claros, era esta a composio da Cmara de Vereadores: Antonio Brito de Oliveira, Antonio Silveira, Gentil Dias de Faria, Oscar Ferreira Porto, Felinto Jos Pereira, Donato dos Santos Silva, Francelino Dias, Osmani Barbosa, Joo de Deus Dias, Sebastio Almrio Borges e Osvaldo Rodrigues Vasconcelos.
Poderia ocupar-me ainda que com rpidas pinceladas, do resgate de maneira sucinta das biografias ou pelo menos, parte destas, da vida politica e pessoal dos personagens que muito dignificaram mencionada Legislatura. No entanto, mesmo tendo este pequeno e reles genrico de escriba esmiuado, criteriosamente, registros histricos que do conta do que foram e realizaram suas Excelncias, poupo-me de quaisquer outras aluses pois no teria como faz-las sem que me enveredasse pela seara politica que, como todos sabem, por no dispor do domnio do conhecimento, abstenho-me de comentar.
Debrucei-me sobre muitas pginas amareladas pelo tempo, j corrodas por traas, em precrio acervo, apenas e to somente para satisfazer a minha prpria curiosidade. Nada, alm disso. Esta curiosidade jazia em minha memria desde os meus tempos de infante quando ouvia os mais antigos brejeiros dizerem ter sido at ento, aquela Legislatura, a mais perfeita e atuante. Segundo diziam, a que mais projetos de lei apresentou e aprovou para o desenvolvimento da pacata Francisco S. Finalizadas todas as analises profundas, clculos complicadssimos, noites insones, comparaes estatsticas em termos de relevncia e realizaes com outras Legislaturas, etc., restou-me, como fato consumado, apenas e to somente a grande decepo. A de que a mui propalada, elogiada e difundida como tendo sido a melhor e mais atuante Legislatura de Francisco S, nada teve em seu todo que a tornasse diferente das demais. possvel que o prdio da Prefeitura entregue e inaugurado naquela Legislatura seja um dos principais destinatrios de tanto destaque. Qui tais concluses ocorram em minha mente insana por ser eu desprovido do elementar conhecimento do assunto, analfabeto politico e incapaz de saber distinguir o que so os grandes feitos. J falei para vocs que o meu forte est na engenharia. Nada mais.
Assim sendo, prefiro navegar na zona de conforto. Atenho-me, portanto, a assuntos frvolos, menos complexos. Como se falava no Brejo das Almas dos meus tempos: caititu fora de manada papo pra ona!
Na equipe fixa do Engenheiro Benfica, em sua maioria composta por brejeiros locais, havia cinco pees que eram apelidados pelos nativos do brejo de estrangeiros. Recebiam esta denominao todos aqueles que no eram nascidos no Lugar. Independente de ser curta ou longa a distncia que separava suas localidades de origem de Francisco S. Levemos em considerao que as distncias de antanho eram muito mais longas que as de hoje. Os meios de transporte que em dias atuais rompem e tragam em fraes de horas as mais longas distncias, naqueles tempos praticamente inexistiam. Gedeo, pedreiro, preto, alto, magro, era de Quem-Quem. Valdecir, carpinteiro, branco, baixinho e barrigudo, era de Pai Pedro, j Aquiles, servente, moreno, alto e magro, vinha de Caarema. Manoel, pedreiro, preto, baixo e magro, provinha de Taiobeiras, enquanto que Jurandir, tez e compleio fsica idnticas, era de Janaba. Improvisaram um alojamento com caibros cobertos com lona bem no fundo da construo, onde os estrangeiros residiam. Ali, todos eles, assim como eu um dia ao chegar aqui em So Paulo, queimavam a lata no preparo do rango, cujo ponto culinrio exato do tempero, jamais se obtinha. noite, beritavam nos bares do velho centro ou iam marcar o ponto na mais famosa ZBM de ento. Rezavam para que a construo da obra nunca chegasse ao fim. Tinham o Brejo das Almas como seus portos seguros onde alm da liberdade, colhiam o fruto sagrado inerente remunerao do trabalho com o qual proporcionavam confortos as suas famlias distantes.
Mas como tudo nesta vida um dia se acaba, com a construo do prdio da Prefeitura de Francisco S, no foi diferente. Aps alguns atrasos no cronograma, eis que chega o grande dia da final. Nenhum peo que havia trabalhado naquela obra queria acreditar. Ns obreiros somos assim. Envolvemo-nos de tal forma com as construes, que acabamos criando laos afetivos e quase sempre acabamos por trata-las como se fossem filhos, irmos, pai, me, esposa, etc. Esquecemo-nos de que elas no nos pertencem. E que, na maioria das vezes, sequer podemos voltar a colocar os nossos ps sobre aquilo que um dia, com sangue, suor e muito sacrifcio construmos ou ajudamos a construir. a vida meu nego. Quantas vezes me vi parado diante de um arranha-cu qualquer que ajudei a construir em So Paulo? E o pior: quantas vezes guardas impecavelmente fardados saram de suas guaritas para me perguntar: o senhor deseja alguma coisa? No. No desejo nada. Apenas observar esta porra que eu fiz. Ah, foi o senhor, parabns!
Bem, sem maiores delongas, o fato que agora estavam todos ali, vestidos de suas melhores roupas, desnudados de suas botas, calas arranca-toco, camisas surradas e chapus de palha que foram durante muito tempo suas fardas, diante do palanque de Feliciano e Enas que rodeados da mais alta estirpe Brejeira, faziam os seus respectivos discursos de inaugurao. A cada intervalo fontico eram os ilustres oradores ovacionados pela plateia com salvas de palmas sempre iniciadas em pontos estratgicos por puxa sacos previamente designados para aquela funo. Em grupo, isolados dos demais participantes, aqueles cinco pees apenas olhavam com tristeza. No acompanhavam as palmas. No moviam um msculo. Estavam estticos. Cumpriam apenas uma formalidade a qual exigia que naquela festa se fizessem presentes o Engenheiro e os colaboradores diretos da obra. Fisicamente seus corpinhos estavam ali. Mas os espritos vagavam por outras plagas, talvez onde pudessem continuar no sacrossanto dever do trabalho e colher os frutos auferidos.
Como nada escapava aos olhos de Feliciano e Enas, no demorou muito para que ambos notassem a averso daqueles pees em participarem do evento. Notaram tambm a tristeza que traziam estampada nos olhares. Foi do vice o Capito Enas a iniciativa:
- Benfica! Gritou ele o nome do Engenheiro da obra em meio multido.
- Pois no, seu Capito. Em que posso atend-lo?
- Pea para que aqueles cinco funcionrios seus que esto ali agrupados venham at o palanque!
- Disse-lhe o Capito Enas apontando para o grupo de pees.
Em instantes estavam todos os meus iguais ps de barro diante do Capito Enas Mineiro de Souza, nordestino porreta, cabra da peste, que em seu tradicional linguajar foi curto e grosso.
- Meus filhos, esperamos tanto por este momento para que hoje, juntos, estivssemos todos ns aqui cheios de alegrias e entusiasmos comemorando o fim desta to esperada obra e vejo no olhar docis indisfarada tristeza. Ao que se deve isto? Que mal os aflige? festa!
Ns pees, -sim porque na obra, do tapume para dentro, do engenheiro ao servente, somos todos pees- no temos malicia. Assim, unssonos responderam.
- que ns no queramos que a obra terminasse. No temos nenhum outro lugar onde possamos trabalhar para continuar sustentando as nossas famlias. Por isso no temos agora nenhum motivo para sorrirmos ou sermos felizes. O trmino da obra cobre de xito os vossos propsitos e eliminam os vossos problemas. exatamente a que iniciam os nossos. Quem agora vai pagar os nossos salrios? Sem salrio no h soluo!
Raposa velha da politica mineira, Feliciano ignorava a cena ao seu redor enquanto Enas, tambm felpudo, mas prtico e poderoso, se desvencilhava honrosamente da turba.
- E quem foi que falou aqui que vocs vo ficar sem trabalho? Vocs conhecem o caititu?
- No, senhor, responderam os pees, s na panela!
- E o morro do Sap, ocis conhecem?
- No. No conhecemos!
- Diabos. Ocis no conhecem nada. Assim fica difcil de ajudar!
- E a Fazenda Burarama. Vocs conhecem?
Responderam todos em uma s voz.
- Conhecemos claro. Esta a gente conhece!
- Diabos. At que em fim vocs me ajudaram a encontrar uma soluo para o problema de vocs. Amanh, quero que todos amanheam em minha Fazenda. Tenho l, por toda a vida, muito trabalho para vocs e suas famlias.
Estas famlias cujos sobrenomes preservo por serem influentes na progressista Cidade que desde o inicio da dcada de 1960 leva o nome deste grande Brasileiro, foram as primeiras a povoa-la.
...
Por vezes, ou quase sempre, na inocncia dos nossos propsitos que encontramos as maiores solues.
E tenho dito!

Enoque Alves Rodrigues, que vive em So Paulo, brejeiro de nascimento e convico. Atua h 40 anos na rea de Engenharia. Escritor, com dois livros a serem lanados, (Liderana Conquistada e Brejo das Almas em Crnicas), Colunista, Historiador e divulgador voluntrio de Francisco S, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


71196
Por Enoque Alves - 29/4/2012 13:14:49
VOC SABIA? JACINTO LUZ, Z ALVES E MASSEIRA!


Brejo das Almas ou Francisco S, igual a ti outro no h...

- VOC SABIA?

Enoque Alves Rodrigues

CAPITULO XXXI JACINTO E Z ALVES

Que Jacinto Luz era sogro de Jos Alves da Silveira, grandes fazendeiros no Brejo das Almas de antigamente, sendo este ltimo pai de Jacinto Alves da Silveira, principal responsvel pela fundao e emancipao do Brejo das Almas, hoje Francisco S?
Que o passatempo predileto de Jacinto Luz, sogro de Z Alves, era a caa de veados? Que ele, munido de uma velha espingarda daquelas que se carregava pela boca, mas que nunca falhava, passava longas noites espreita dos passos cautelosos do mateiro, pendurado numa forquilha de aroeira que se denominava espera? Que mencionada espera ficava na copa da mais alta e frondosa rvore que, possivelmente ainda existe e que se localiza exatamente na antiga Estrada de Cana Brava, na mata conhecida por Baixa da Migrada?
Pergunta: voc, porventura tambm conhece ou conheceu a mata da Baixa da Migrada na antiga estrada de Cana Brava?

Pois ...


- VOC SABIA?

Enoque Alves Rodrigues

CAPITULO XXXII MORRO DA MESSEIRA

Que o Morro da Masseira observado em sua total amplitude por uma distncia que cobre vrias lguas?
Que durante toda a dcada de 1950/1960 uma grande e resplandecente bola de fogo se levantava do Morro do Moc, na Fazenda de Antonio Miranda, em altas horas da noite, a qual depois de dar uma volta de 360 sobre a Cidade de Francisco S, ou Brejo das Almas, ou vice-versa, durante 60 minutos, ganhava os rumos do Morro da Masseira onde finalmente depois de estrondoso barulho se desintegrava?
Que todos, assustados, ao v-la em voo rasante pela Cidade diziam tratar-se do tesouro que o Bandeirante Antonio Figueira havia enterrado no Morro do Moc e que ela estava se mudando devido s maldies causadas pela cobia do povo brejeiro na caa ao tesouro?
Perguntas: voc sabe por que o Morro da Masseira tem esse nome? Voc acha que pelo seu formato? Quem foi que primeiro o chamou de Masseira?

Com a palavra os no brejeiros.

Pois ...


71103
Por Enoque Alves - 21/4/2012 11:20:38
VENDAS & VENDEIROS DO BREJO ANTIGO ESTELITO

Enoque Alves Rodrigues

Continuando com a srie Vendas & Vendeiros cumpre-me hoje realizar breve dissertao sobre Estelito de Oliveira Pena que, como j mencionei em outras crnicas, era negociante do ramo de secos e molhados cujo estabelecimento comercial se localizava ao lado da loja de Joo Caixeiro, atrs da Igreja Matriz do Brejo das Almas ou Francisco S, igual a ti, outro no h, como diria Niquinho.

Estelito era irmo de S Carrinho ou Carlos de Oliveira Pena, grande personalidade politica alm de bem sucedido comerciante do Brejo das Almas de antigamente, sobre quem dediquei minha penltima crnica. No obstante os laos consanguneos que os unia, eram diferentes em tudo. Compleio fsica avantajada, falante, Estelito, no que o outro no o fosse, era um tremendo boa praa. Enquanto Carlos era formal, de falar pouco e pausado, medindo sempre as palavras, quieto e circunspecto, Estelito era um tremendo espoleta. De falar alto e rpido, contava uma mentira atrs da outra em rodas de amigos que se juntavam frente de seu estabelecimento para, sentados em tamboretes ou de ccoras, em posio de sentido, ouvi-las atentamente em xtase profundo mesmo sendo sabedores de que nada daquilo era verdadeiro. Era uma poca desprovida de qualquer maldade, onde a inocncia dos adultos beirava pureza das crianas e os coraes transbordavam de amor. Voc no acredita? Problema seu. O Mundo j foi assim.

Para quem, assim como Estelito, mantinha um comrcio muito bem abastecido, imaginar-se-ia que sua dedicao no sentido de que os estoques fossem o mais breve possvel desovados seria mais que bvio. No entanto, acreditem, no era o que ocorria.

Era muito comum e naturalmente natural (desculpem-me pelo proposital pleonasmo), alguns fregueses sarem de suas casas para ir at a venda de Estelito comprar determinada mercadoria da qual era a necessidade inadivel e, l chegando, envolverem-se em meio roda de outros brejeiros que ali se achavam despreocupadamente, sem terem o que fazer seno ouvir as anedotas de Estelito. Acabavam por se esquecer do que foram comprar. Acontecia tambm de algum chegar, passar pela rodinha, entrar no armazm e no tendo ali ningum para lhe atender, dar meia volta e integrar-se a rodinha sendo mais um ouvinte. Quando Estelito estava em sua roda de amigos, contando l seus causos, as coisas relacionadas ao comercio ficavam em segundo plano. Estelito, no fosse tradio de sua famlia no ramo do comrcio, estava muito mais para um exmio contador de histrias que para vendeiro. Sua venda era por ele utilizada como trampolim para deliciar-se naquela arte de contar histrias mirabolantes cuja fantasia sua mente prodigiosa se encarregava de alimentar.

No entrarei aqui no mrito do que seria o certo ou errado. Tambm no vou falar dos homricos canos que Estelito levava. Tudo para ele era diverso. Por certo que at mesmo os prejuzos que alguns caloteiros de planto lhe causavam, aps receberem dele um pequeno trato, acrescidos de muitas hiprboles, se transformavam em histrias ou quase anedotas que beiravam o inverossmil. Ele era assim. Saber conviver com as pessoas, aceitando-as do jeito que elas so tambm uma grande virtude. No h neste mundo de meu Deus um declogo onde se encontre registrado que algum seja exatamente igual ao outro at porque quem de ns poderia, em s conscincia bater no peito e afirmar que estamos certos e que algum est errado? Quais so os parmetros que dispomos que nos permitam fazermos estas afirmativas com assertividades? Nenhum. Voltamos, ento, ao amigo Estelito.

Bulhufas para o que pensavam dele quanto a sua reputao de sujeito negligente com o prprio negcio e de mentiroso de carteirinha. Nada daquilo importava. Ele queria mesmo era rosetar... E rosetava. A vida naquele tempo, em nosso Brejo de todas as almas j era demasiado dura, tristemente triste (olha aqui mais um pleonasmo) e bucolicamente buclica (mais um pleonasmo). As horas no passavam naquele fim de mundo. Pareciam serem todas as horas mortas. A fome do sorrir igual ou pior que a fome do comer e do saber. Sendo assim necessrio se faz que haja sempre algum para alegrar o ambiente. E havia... Alis, muito prdiga foi aquela poca. Podemos dizer que jamais o Brejo das Almas produziu tantos contadores de causos como naqueles tempos. Juca Brinco, Geraldino Fogueteiro, Manl de Vov (no confundir com homnimo mais atual), Elpdio Rodrigues, Joaquim Cansano, Matheus do Catuni, Belizrio, Jacinto Luz, Osrio Silveira e Ludgero, apenas para citar alguns famosos.

prprio, e muito natural aos amantes contumazes do inverossmil prtica de contradies que muitas vezes se assemelham a piadas ou chistes. H hiprboles que na maioria das vezes chegam a aproximar a narrativa do mais completo e absoluto ridculo no fosse a inocncia e o desproposito do narrador. Geralmente o mentiroso muito meticuloso e pouco ou quase nada cuidadoso. Com o intuito de no ser pilhado na mentira chega at mesmo citar lugares inexistentes ou demasiadamente longe onde, de preferncia, nenhum dos presentes tenham sequer sonhado um dia por os ps. No havendo a contraprova no h como se desmascarar. Costumam se referir tambm a pessoas mortas, principalmente aquelas que jazem e habitam a mais tempo o mundo dito invisvel.

- Foi l na Cidade de Corrozinho, iniciava Estelito mais uma de suas histrias mirabolantes.

- Mas aonde que fica esse lugar, Estelito?

- Sei l. Procure voc no mapa. Eu s conto a histria... Se voc quer conferir voc vai ter que ir l!

- Mas ir l onde? Se ningum conhece esse lugar? Da outra vez que voc o citou e eu fiquei o dia todo procurando no mapa e no achei nada.

- O mapa onde voc procurou pertence ao Planeta Terra?

- Sim, claro. Pertence. Porque?

- L voc no vai achar mesmo seu tonto. Procure no mapa da terra do nunca!

- T, bom.

Estelito, alis, no estava de tudo errado no. O nus da prova, segundo o Direito Brasileiro no sempre de quem acusa? Caberia ento a quem nele no acreditasse a prova de que estaria mentindo. No assim que a coisa funciona? Perguntemos ento aos senhores doutores da lei. Data Vnia, no assim, Excelncias? Dessa forma quem dele estivesse duvidando que corresse atrs das evidncias no sentido de desmascara-lo. Mas quando se ouviam dele a que seria a p de cal quando se antecipava ao interlocutor: no adianta voc procurar provas para me desmentir por que voc no vai achar porra nenhuma. Ai a nica alternativa que restava ao infeliz ouvinte era mesmo fingir que acreditava.

Festas juninas. Aqui e ali alguns extemporneos cantops. Sentados ao redor de uma grande fogueira que antes se acendia ali no obstante ser l o centro comercial do lugarejo.

- Voc se lembra, Manl, quantas pessoas tinha na procisso da sexta feira da paixo do ano de 1900?

- No. No me lembro. At porque neste ano sequer ramos nascidos.

- Trinta mil!

- Que lorota essa, Estelito! Respondeu-lhe, Manl. Se somarmos hoje toda a populao do Brejo a qual composta pelas famlias Pena, Silveira, Dias, Costa, Pereira, Ferreira, Oliveira e alguns Silva, Santos, Souza e Rodrigues, no teremos nem 4 mil pessoas. O que dir trinta mil. Alis, eu acho que o Brejo das Almas jamais ter um dia uma populao de trinta mil almas.

Boca mardita! Decorridos hoje quase oitenta anos desde que Manl, no af de contrapor-se ao exagerado Estelito, proferiu esta infeliz profecia, a menos que o prximo senso demogrfico do IBGE nos prove o contrrio, a populao brejeira continua estagnada dentro da faixa intransponvel dos 30 mil. Os deuses milagrosos responsveis pelo poder da procriao e por levar adiante, aos quatro cantos do Orbe, as palavras Sacrossantas do Divino Criador, quando diz crescei-vos e multiplicai sobre a face da Terra desde ento, as esqueceram. Ao invs disso, seguem, risca, a profecia do pecador Manl. Pelo menos toramos para que o Brejo no encolha. Isto j estaria de bom tamanho. Pois se depender de brejeiros ausentes assim como eu que s retornam a terra me, a passeio, a cada ano, daqui a pouco, das 30 mil pessoas da procisso de Estelito do ano de 1900 no sobrar mais ningum.

...

Por vezes, diz o ditado popular, onde s se tira e no pe, a tendncia natural acabar. Deus, por favor, salve o meu Brejo. Amm!

E tenho dito!

Enoque Alves Rodrigues, que vive em So Paulo, brejeiro de nascimento e convico. Atua h 40 anos na rea de Engenharia. Escritor, com dois livros a serem lanados, (Liderana Conquistada e Brejo das Almas em Crnicas), Colunista, Historiador e divulgador voluntrio de Francisco S, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


71035
Por Enoque Alves - 14/4/2012 21:50:02
A minha cronica deste fim de semana uma velha reprise. Estou finalizando vrios projetos em minha rea profissional o que tem consumido muito do meu tempo. Breve voltarei com coisas novas.

SAUDADE BREJEIRA - FELICIANO E MONTALVO - REPRISE

SAUDADE BREJEIRA - REPRISE

Enoque Alves Rodrigues

Bem em frente Igreja Matriz localizada na Praa Jacinto Alves da Silveira, em pleno centro de Francisco S, conversavam Feliciano Oliveira e Montalvo, ambos, candidatos aos pleitos eleitorais de um ano qualquer, bem no inicio dos anos 1960.
O primeiro, meio alto e esguio, tez parda, careca, vestindo terno azul marinho com listras de giz, gravata borboleta - apesar do calor de deserto do Brejo das Almas de ento -, e calado com um par de botas de couro com canos longos que iam at os joelhos.

J o segundo personagem, baixo, loiro, olhos claros, barriga saliente, cala de brim azul batido, camisa branca amarrotada, igualmente calando botas de canos longos, num estilo bonacho, ensaiavam o discurso que fariam, logo mais, em um comcio qualquer, l no povoado de So Geraldo.

Eram velhas raposas da poltica do norte de minas, sendo o primeiro candidato deputado federal e o outro a deputado estadual.

Dentro da Igreja aonde ambos se encontravam defronte, o Padre Silvestre, naquele momento, j se preparava para mais uma homilia. Fiis assomavam-se praa, tocados em seus recnditos pela f que remove montanhas.

O Padre Silvestre, para quem no o conheceu, era um senhor alto, loiro, olhos azuis e, acreditem, muito sistemtico. Diziam at que ele neste ultimo quesito conseguia superar, e muito, at mesmo o padre Salu, que todo brejeiro antigo s de ouvir falar o nome, tremia. O Padre Salu, sobre cuja personalidade difcil, j discorri neste espao, realmente no era uma boa ovelha. Ranzinza, chegava muitas vezes ao extremo de expulsar as beatas de frente de seu confessionrio a chutes. A molecada fugia dele.
Pois bem, o Padre Silvestre, a quem conheci de perto, no tinha, com toda certeza o temperamento do Padre Salu. Ao contrrio, era dcil, tranqilo, falar manso e um corao bondoso. Tratava a todos com amor e elevado esprito de solidariedade. Mas ento, onde que os dois padres se pareciam tanto? Pois no, os dois se assemelhavam devido ao fato de detestarem poltica.

Achavam. Achavam? No, tinham certeza, assim como a temos ns hoje, que na poltica brasileira se escondem as maiores mentiras. Que o fator que fomenta a poltica a mentira. E, claro, como Cristos, e sendo a mentira um dos sete pecados capitais, eles, assim como todo e qualquer cidado de bem, tinham mais que abomina-la. At ai, nenhum problema, no fossem os extremos.

Os dois grandes expoentes da poltica mineira palestravam descontrada e discretamente, j no meio da pequena multido que se formava na praa. Ambos tinham o ntido desejo, mineiramente disfarado, de maneira que os brejeiros se ajuntassem todos, os dois candidatos, meteriam a mo em um bornal que traziam mo e... zs... de l sacariam um santinho com suas fotos e nmeros e entregariam aos pretensos eleitores.
Mas o Padre era mesmo terrvel. Aquellos ojos verdes de mirada serena, enxergavam mais que pirilampos do Mangal. distancia e de relance, observava a ao dos dois, tambm, mineiramente. Fingia no v-los. Os dois, por incrvel que possa parecer, eram tambm amigos do padre Silvestre. Comungavam, ali. Mas o problema que estavam fazendo poltica no lugar errado. No territrio do Padre. Era local sagrado. E isso ele no tolerava.

No demorou muito e Feliciano puxou do bornal o primeiro santinho para entregar ao fiel eleitor. Tentou entregar, mas no conseguiu. Ao esticar a mo, pasmem. Assim como num passe de mgica, adivinhem de quem foi a mo que estava estendida para receber o santinho da mo de Feliciano Oliveira?
Sim. Foi ela mesma. Ao vivo e a cores: A mo do Padre Silvestre ali estava a tomar da mo de Feliciano o tal santinho.

No contente, confiscou-lhe, sob os olhares surpresos dos fieis brejeiros, o bornal, cheio de santinhos.

Sem reagir, Feliciano, polido como sempre, mas tambm surpreso, apenas sorria...
Enquanto a Montalvo, evaporou-se em meio multido.

Pairam-me mente, at hoje: jamais consegui entender como e de que maneira o Padre conseguiu levar a efeito toda esta ao, sem, sequer, proferir uma nica palavra. Eu estava muito prximo e posso afirmar que ele no moveu os lbios.
Foram muito engraadas e hilariantes as justificativas que os dois candidatos, algum tempo depois ao desembarcarem de uma velha Rural Willys j no povoado de So Geraldo, davam aos seus eleitores:

- Olha pessoal. Viemos aqui falar com vocs, na condio de vossos leais e prestativos amigos de todas as horas. E todos ns sabemos muito bem que para se lembrar do rosto e da fisionomia de um amigo de verdade, aquele velho amigo que s nos faz bem, no se precisa de fotos. As nossas fotos, com toda certeza, j esto l dentro da memria de todos vocs, nossos amigos. Mas para que no corram o risco de nos esquecerem, uma vez que a pinguinha do brejo que ns lhes oferecemos j est fazendo l em vossas ideias, os seus efeitos, lhes informamos que o meu nome FELICIANO OLIVEIRA. Eu sou o mais altinho e careca. Enquanto este aqui que est ao meu lado, baixinho e barrigudo, o MONTALVO. Obrigado meus queridos amigos e correligionrios e at a vitria nas urnas, se Deus assim o permitir!

...

Por vezes, quando no se tem a certeza necessria, melhor abrir o jogo, sem delongas.

Enoque Alves Rodrigues, que vive em So Paulo, brejeiro de nascimento e convico. Atua h 40 anos na rea de Engenharia. Escritor, com dois livros a serem lanados, (Liderana Conquistada e Brejo das Almas em Crnicas), Colunista, Historiador e divulgador voluntrio de Francisco S, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


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Por Enoque Alves - 31/3/2012 20:16:29
ASSIM ERA FRANCISCO S - TONICO LOPES

Enoque Alves Rodrigues

Durante muitos anos o nico acesso que qualquer ser vivente teria que utilizar para atravessar o Rio Verde Grande, na estrada que liga Montes Claros ao Brejo das Almas, ou Francisco S, era pela Fazenda de Tonico Lopes. Havia ali um ponto onde as guas eram baixas propiciando a passagem sem quaisquer dificuldades, de manadas de gado, alm de servir de pouso de curta temporada para muitos vaqueiros e, nos tempos das colunas, de bandoleiros a caminho do Serto.

Grande fazendeiro, Tonico Lopes era muito influente naquela localidade em tempos hoje j muito distantes. O Rio Verde atravessava ao meio toda a extenso de suas vastas e frteis terras, onde ele alm de cultivar vrias culturas como arroz, milho, feijo, algodo, cana de acar, alho e outras, ainda se dedicava a criao de gado de engorda com a qual abastecia os frigorficos de toda a regio.

Casado com Lindalva com quem tinha quatro filhos labutava aquele grande brasileiro de sol a sol no sentido de prosperar a cada dia. Dotado de ndole impecvel e corao bondoso, colaborava com todos os transeuntes em passagem por suas terras. Nos perodos de chuva as cheias invadiam grande parte da Fazenda cuja Sede ficava no alto de um pequeno morro. O casaro da Sede funcionava naquelas ocasies como a uma verdadeira arca de No porque todos os viajores surpreendidos pela elevao das guas no conseguiam seguir viagem e l permaneciam at que as guas baixassem. Tonico Lopes a todos socorria sem pedir nada em troca.

Premido pelas circunstncias, contemporneo das maiores e mais importantes foras politicas regionais, no demorou muito e aquele sinuoso e ngreme caminho passou a receber as benfeitorias necessrias a sua adequao em prol dos transeuntes para que pudessem utiliza-lo sem riscos ou traumas.

Agora aquele msero genrico de ponte estava finalmente de cara nova. A coisa ficou muito bonita. Empedraram grande parte da estradinha que levava Sede e tudo agora estava s mil maravilhas. Tudo dentro dos conformes. Tudo na paz do Senhor.
Ser?

As coisas e as pessoas esto em constantes modificaes. O que no est melhorando, est piorando. A vida no esttica, dinmica. E ela gira em torno de si prpria numa velocidade assustadora que impossvel ao nosso crebro e raciocnio acompanhar. A, como no conseguimos acompanhar, surgem a nossa frente, inicialmente pequenos hiatos que, medida que no os ocupamos inteiramente, vo se avolumando e, de repente, em frao de segundos nos vimos diante dos mais difceis e intransponveis obstculos j que estamos falando aqui de estradas, pontes, acessos, passagem, etc.

oportuno e de salutar importncia ressaltar que segundo estimativas confiveis feitas por quem entende realmente do riscado, aproximadamente 95% dos nossos dissabores so atribudos a ns mesmos, principalmente por nossas incertezas. Quando na maioria das vezes pensamos termos certeza de alguma coisa, partimos para a ao precipitada, exatamente no momento mais inoportuno possvel, quando o cavalo selado da vida de h muito j passou, ou sequer se aproximou ainda de ns, e assim, ao nos jogarmos, camos, inevitavelmente, com os fundilhos no cho. Essas reaes adversas acontecem, exatamente porque quase sempre, as nossas aes e atitudes so tomadas em cima dos nossos prprios egosmos e de interesses mesquinhos. No conseguimos pensar por muito tempo no coletivo. J que deitamos, dormimos e acordamos com o nosso eu interior, claro est que mais fcil pensarmos em ns mesmos. Quanto aos outros? Bem... Isto j uma outra histria. No comigo... Assovie... Olhe para os lados. Disfara que l vem gente. Os outros no so da nossa conta. Eles que se virem. Farinha pouca, meu piro primeiro. No assim?

Ele comeou a crescer os olhos. A mente dele, antes bem articulada, agora se achava em pandarecos. Pudera, deitava e no dormia. Qualquer coisa dava-lhe nos nervos. Agora a movimentao por suas terras era muito mais intensa. Ele precisava fazer alguma coisa. Tinha que tirar proveito daquela situao. Aquela agitao por suas terras poderia lhe render muitos dividendos. Mas como comear? At ali jamais houvera lucrado um centavo sequer com isso. Puxa vida ele no havia pensado naquilo! Como foi capaz de ser to tonto durante todo aquele tempo? Quanto dinheiro ele teria arrecadado se tivesse cobrado antes? No, no cobraria nada. Teria que ficar como estava. No lhe parecia justo cobrar de algum que estava apenas em transito por sua fazenda at porque no havia outro acesso. No se prevaleceria disso agora. Bem... Pelo menos, por enquanto. Talvez um dia, quem sabe. Estas indefinies por si s j so mais que suficientes para indicar que o caboclo est balanando. Que os dois diabinhos um do bem e o outro do mal (uai, existe diabo bom?) esto pelejando entre si l dentro do coit do peo. Quando assim basta um pequeno empurrozinho que o sujeito capota. Pois foi o que aconteceu.

Jos Maquinista. Esse brejeiro foi o primeiro a dirigir um veiculo por aquela regio. Era um FORD de bigodes. Ele no era o dono, era chofer e s vezes conduzia tambm o Ministro Francisco S. Chegou ao anoitecer no casaro da sede da fazenda de Tonico Lopes naquela tarde chuvosa depois de haver atravessado o rio verde. Ele trazia em sua companhia um cunhado seu de nome Raimundo que vinha da Capital. Pernoitaram por l. Na manh seguinte o acesso que permitia a passagem para o outro lado do rio verde aonde o viajante podia continuar sua jornada rumo ao Brejo das Almas e regio, se encontrava com uma cancela e, ao lado da dita cuja uma placa com letras de forma e erros gramaticais sofrveis onde se lia: PERDAGI DE UM CRUZERO PUR CABEA TANTO BOI CUMA GENTE. CARRO E CARROA UM E MEIO CRUZERO. Dois capatazes completavam o cenrio buclico de bornal nas mos, cobrando ou pelo menos tentando cobrar, daquela gente, pelo simples acesso para o outro lado. Utilizavam uma termologia estranha que at ento ningum por aquelas bandas ouvira dizer: Pedgio. Dessa forma conclui-se que a mesma tenha vindo da Capital trazida que fora por Raimundo, cunhado de Z Maquinista.

Mas como a necessidade que faz o sapo pular, no demorou muito e os transeuntes conseguiram encontrar alternativa mais trabalhosa porque tinham que dar uma grande volta para atravessar para o outro lado, mas menos onerosa, pois no tinham que pagar nada. Precavidos, colocaram outra placa desvio a 500 metros. Agora todos passavam por ali. Enquanto no pedgio, ningum ia. Maior fiasco. A coisa miou. O tiro saiu pela culatra. A esperteza, como dizia Tancredo Neves, acabou engolindo o esperto. Pouco tempo depois a cobrana foi extinta. Tardiamente, algum de bom censo veio lhe alertar que aquilo no valia a pena. Que era muito mais fcil para ele continuar sendo bom. Que cobrar dos outros para que transitassem por alguns metros sobre suas terras no era a melhor prtica a ser adotada. Que era infinitamente muito mais valioso continuar ouvindo dos passantes o Deus lhe pague. Deus lhe ajude. Deus te abenoe, ou na pior das hipteses, um muito obrigado. Dinheiro nenhum no mundo conseguiria substituir estas simples e fludicas palavrinhas mgicas que brotavam do corao eternamente agradecido daqueles andantes.

...

Por vezes, prefervel deixar como est para ver como que fica. Se voc no tiver certeza sobre que passo dar, que caminho seguir, plantar-se ao cho o melhor negcio. E reze para que os ventos no o balancem.

E tenho dito!

Enoque Alves Rodrigues, que vive em So Paulo, brejeiro de nascimento e convico. Atua h 40 anos na rea de Engenharia. Escritor, com dois livros a serem lanados, (Liderana Conquistada e Brejo das Almas em Crnicas), Colunista, Historiador e divulgador voluntrio de Francisco S, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


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Por Enoque Alves - 24/3/2012 13:23:23
Assim era Francisco S - Lucas do inferno

Enoque Alves Rodrigues

Criado no seio das tradicionais famlias Prates e S, de onde provem o Deputado Camilo Prates e os irmos Francisco e Alfredo S, respectivamente, Lucas dos Infernos, escravo que fora l na Fazenda Brejo de Santo Andr, Municpio de Brejo das Almas, hoje Francisco S, depois de ter servido ambas as famlias por mais de 40 anos, vivia, finalmente, seus dias de glria. Passava a maior parte do tempo em companhia de seu Camilinho como era chamado carinhosamente o Deputado Camilo Prates, que como recompensa pelo muito que o velho escravo Lucas fizera por sua famlia, como prova de gratido, no permitia que ele trabalhasse mais. Aonde o Dr. Camilo ia, levava seu fiel escudeiro Lucas, um preto alto, magro, de olhos esbugalhados e faces largas. O que mais o destacava dos outros serviais era a sua presena de espirito e seu astral sempre elevado at as nuvens. Exmio contador de causos, brincalho, prestimoso, a todos conquistava com seu largo sorriso. No havia quem no gostasse de Lucas dos Infernos. Sua alegria em qualquer parte onde ele estivesse contagiava a todos. No entanto, cortava uma cana dos diabos e, nem mesmo os efeitos etlicos conseguia mudar sua personalidade. Alias foi num desses porres homricos que ele recebeu o aditivo dos infernos no nome. Dizia ele em mais uma de suas histrias, essa segundo afirmava, verdica, que aps se embriagar teve sonhos assustadores onde de repente se achou em meio ao inferno junto com vrios asseclas de Lcifer. Depois de ele ter passado por poucas e boas l nas profundas quando os capetas iam, finalmente, fechar os portes para mant-lo encarcerado l para todo o sempre, ele, assim como num passe de mgica, se despertou daquele tenebroso pesadelo. Foi a partir deste dia que ele teve o seu sobrenome dos Santos, substitudo por dos infernos.
Lucas nasceu na Fazenda dos pais de Francisco e Alfredo S em uma poca em que a escravido se achava em plena evidncia no Brasil. Ricos e poderosos, porm, os pais de Francisco e Alfredo jamais foram de dispensar quaisquer maus tratos aos escravos sob suas responsabilidades. Foi por isso que mesmo depois de abolida a escravido no Brasil, a 13 de Maio do ano de 1888, por Sua Alteza, a Princesa Isabel Cristina Micaela e mais um milho de nomes, quase todos os escravos que serviam os pais de Francisco e Alfredo preferiram continuar com eles. Assim sendo certo que Lucas dos Infernos embalou, em infncia, os sonhos destes dois irmos, grandes estadistas, orgulho maior do norte das Alterosas.
Servido e lealdade. Era este o binmio sobre o qual durante toda a vida repousava as relaes de Lucas dos Infernos para com seus patres ou senhores. Tanto em Brejo de Santo Andr, em casa dos pais de Francisco e Alfredo, como em Montes Claros em casa do Deputado Camilo Prates ou no Brejo das Almas, em companhia deste em casa do Padre Augusto, pois muitas vezes Seu Camilinho o cedia para ficar uma temporada com o Padre Augusto no Brejo das Almas, vrias foram s oportunidades que o preto Lucas teve de provar aos seus senhores o quanto lhes era fiel. O orgulho que tinha em servi-los era indescritvel. Por isso que ele agora em idade avanada colhia os louros que amealhou durante muitos anos de dedicao e esmero.
Ele se levantava todos os dias l pelas 8 horas da manh. Depois de dar umas voltas pelo Centro do Brejo onde, entre um causo e outro, manguaava nos muitos botecos, retornava ao meio dia para almoar. Puxava uma palha at s 14 horas e voltava ao Centro para continuar bebericando. s 19 horas aps passar pela velha Matriz onde se ajoelhava e rezava aos ps do cruzeiro, regressava para casa. O Padre Augusto no se incomodava por este hbito. Isso era irrelevante ou sem muita importncia. Lucas no incomodava ningum. Bastava abrir a boca para contar suas histrias e piadas para que todos cassem na gargalhada. Isto sim, era o que mais importava. O resto no tinha peso algum.
Naqueles tempos longnquos era prtica comum ao dono da casa quando recebia visitas importantes, convidar algum de seus serviais para contar-lhes algumas histrias ou piadas desde que desprovidas de duplo sentido ou qualquer grau pejorativo. Tais procedimentos, acreditem, retratavam o alto nvel intelectual e financeiro com os quais o dono da casa era aquinhoado.
Certa vez se encontravam na casa do Padre Augusto, no Brejo das Almas, o Dr. Honorato Alves, Camilo Prates, Alfredo S, Jacinto Silveira, Antonio Ferreira, Francelino Dias, o prprio Padre Augusto e o famoso Jornalista Mrio Cassassanta que poca escrevia uma matria para um Jornal do Rio de Janeiro sobre o Brejo das Almas. Na grande sala de estar, sentados confortavelmente em bancos de couro depois de terem se esbaldado com o angu de fub com molho de quiabo e brotinhos de feijo de corda, que Wenceslau sabia preparar como ningum, l pelas tantas chamaram o negro, velho escravo aposentado para contar suas anedotas. Entrou todo faceiro e gracioso. Sentou-se em meio roda de visitantes e ps se a olhar nos olhos do Dr. Camilo e do Dr. Alfredo. Estava espera de um sinal de ambos para que pudesse iniciar. O sinal no vinha. Por certo que nem o Dr. Camilo tampouco o Dr. Alfredo foram avisados por Lucas dos Infernos dessa sua nova mania. Depois de algum tempo de trocas de olhares sem que o sinal fosse enviado, o Dr. Camilo vendo que a plateia j se achava inquieta, perguntou-lhe:
- E ento, Lucas. No vai comear? At quando voc vai nos deixar aqui sedentos por ouvir suas belas histrias, menino?
- No posso senhor, respondeu Lucas levando as duas mos cabea. S poderei comear quando o senhor e o doutor Alfredo me autorizarem. Para tanto basta que cada um pisque seu olho esquerdo, ao mesmo tempo, simultaneamente. Dito isto, estufou o peitoral pra frente, esticou o longo pescoo e arregalou os dois olhes sobre ambos em busca do impossvel que no veio, pois por mais que os Doutores Camilo Prates e Alfredo S tentassem, no conseguiam sintonizar suas piscadelas. Quando um fechava o olho para piscar, o outro abria, e vice-versa. Depois de longos minutos neste diapaso coube a Jacinto intervir.
- Compadres, por favor, parem com isso! Os senhores ainda no perceberam que este Lucas dos Infernos est tirando sarro de todos ns? O que ele lhes manda fazer, jamais conseguiro. Ningum capaz de fazer isso. Foi bem mais fcil para mim, apesar de sabermos o quanto me foi difcil, (o Coronel Jacinto, como bom Mineiro, de quando em vez tambm se dava ao luxo de colocar em prtica o seu Mineirismo), emancipar o Brejo das Almas. Este negro no quer contar histria coisssima nenhuma!
Sbias palavras. No fosse isso e ambos estariam at hoje piscando um para o outro. Claro, se no tivessem, h muito tempo, partido para o Andar de Cima. Antes que Jacinto fechasse a boca encerrando seu comentrio, Lucas dos Infernos j soltava sua diablica e sarcstica gargalhada seguida da frase que ele sempre utilizava nestas ocasies: Peguei vocs, outra vez, seus espertos!
Em um inesperado efeito domin, todos os presentes, ao mesmo tempo, no mesmo minuto, no mesmo segundo, na mesma frao de milsimo, em tempo real, simultaneamente, sei l mais o que, caram no riso.
- Uai, s, diro alguns, porque razo todos eles conseguiram rir ao mesmo tempo, fazendo com facilidade o que certamente seria o mais difcil?
- A resposta veio do prprio sbio Lucas dos Infernos ainda no meio da roda de visitantes ilustres.
- Todos e no somente dois conseguiram fazer o mais difcil por que ningum lhes disse o que teria que ser feito. necessrio dar ao homem liberdade para pensar e agir, acertar e errar, sem que outros lhes digam o que se deve ou no fazer. para isso que cada um tem a sua cabea!
...
Por vezes, revelar o segredo poder no ser uma boa atitude. Oculta-lo talvez seja o melhor atalho para se chegar ao xito. Urge ensinar o ser humano a acertar.
E tenho dito!

Enoque Alves Rodrigues, que vive em So Paulo, brejeiro de nascimento e convico. Atua h 40 anos na rea de Engenharia. Escritor, com dois livros a serem lanados, (Liderana Conquistada e Brejo das Almas em Crnicas), Colunista, Historiador e divulgador voluntrio de Francisco S, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


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Por Enoque Alves - 17/3/2012 13:38:21
ASSIM ERA FRANCISCO S WENCESLAU, O MANDINGUEIRO II

Enoque Alves Rodrigues

Difcil, para no dizer impossvel, contar a histria de Wenceslau Bispo dos Santos, O azar em um s captulo. Ainda bem que preveni vocs quanto a merecida continuidade, pois seria uma pena resumi-la em uma s parte. Acredito que o pouco que contei em crnica anterior no faria justia ao muito que significou aquela lmpida alma para aquelas setenta e quatro crianas carentes, que foram resgatadas das ruas do Brejo, pelo Padre Augusto Prudncio da Silva, em situao de miserabilidade extrema.
Apenas para lembrar, Azar surgiu naquele pequeno Orfanato que ficava na antiga Rua do Padre ou Rua da Amargura esta ltima denominao atribuda tristeza e melancolia da qual era a mesma acometida durante a semana santa, como que por encanto. Jamais se soube ao certo quem foi que o enviou. Alis, esta era uma preocupao do Padre Augusto, que, no entanto, s perdurou at ele conseguir ler e decifrar, inteiramente, tudo que se passava na cachola de Wenceslau. Finalizados os seus estudos, analises e concluses, resultaram indiscutivelmente positivas as boas intenes e aes de Azar. Foi a partir daquele voto de confiana do Padre, o qual Azar jamais burlou que ele foi investido nas funes de colaborador direto do Padre Augusto, dedicando-se, de corpo e alma a cuidar daqueles menores necessitados. Se algo nos surge no caminho para nos fustigar, certo est que removeremos Cus e Terra no sentido de detectarmos o mais rapidamente possvel a origem do mal que nos aflige para eliminarmos antes que nos elimine. J com relao s ddivas ou acontecimentos positivos que de quando em vez nos brotam no caminho, no temos as mesmas preocupaes. Elas vm e vo sem que ns sequer nos demos ao trabalho de dar uma espiadela no que tange ao seu nascedouro e quais foram os percursos que elas tiveram que percorrer para chegarem at ns. Somos falhos, sim senhor, mas devo dizer que esse procedimento natural a todos ns humanos. Portanto no chega a ser um erro ou desvio de conduta. Talvez a explicao se prenda ao fato de nos subestimarmos, julgando-nos, em funo de nossos dbitos contrados com o pretrito, no merecedores de qualquer ddiva. Bestagens. Ningum recebe do Alto ou de quem quer que seja nada alm do que realmente merece. Ou, ento, o pior, por nos acharmos excessivamente merecedores acabamos por no darmos a ateno devida a estas ddivas. os Cus no fizeram mais que sua obrigao!
Mas o Padre Augusto, como j disse em vrias oportunidades, era incomensuravelmente espiritualizado. Se poca estivesse em voga a termologia catlico espirita o Padre Augusto a ela se enquadraria sem delongas. Ele sabia de tudo. Por isso no tinha porque investigar. Ele possua o dom da clarividncia. Voltemos ao Wenceslau, o Azar.
Ao compulsar os anais da histria de Brejo das Almas, hoje Francisco S, minha beldade do norte de Minas, (Nossa, h quanto tempo no a chamo assim), voc ir constatar inmeras invases da pequena Cidade por tropas de bandoleiros que se intitulavam legalistas que agiam em nome do Governo, sob cuja gide praticavam as piores atrocidades. Eram violentadores, ladres e arruaceiros mal cheirosos que a ningum respeitava. Aonde eles chegavam o pnico estava instalado. Invadiam as roas, criaes de gados, porcos e galinhas. Entravam em casas residenciais e comerciais, levavam tudo o que queriam e ningum podia dizer nada. S de v-los de longe j dava medo.
A mais temida coluna de bandoleiros que adentrou Brejo das Almas teve como chefe Rotilio de Souza Manduca que se autodenominava Coronel e Patriota Supremo. Isso aconteceu precisamente no dia 18 de Fevereiro de 1926. Aquele sujeito juntamente com sua tropa, formada por mil tranqueiras da pior espcie, permaneceram na Cidade por exatos 52 dias. Semearam o terror. Quando finalmente levantaram acampamento, rastros de destruio eram evidentes por se assemelharem s devastaes vulcnicas. Mas antes de irem embora tiveram que passar pelo constrangimento de serem peitados pelo negro Azar que os humilhou publicamente. Azar era um tipo de guardio do Padre Augusto, apesar deste jamais necessitar disso, pois o Padre tambm no era de mandar recados e sabia se virar sozinho.
Ao lado da casa do Padre havia um grande mangueiro onde ele mantinha seus animais de montaria pastando, alm de algumas vaquinhas que abasteciam com o leite, o bucho de seus pequenos internos e uns porquinhos de engorda para a extrao de banha, carne e torresmos, porque ningum de ferro. Manduca, j no final de sua estada no Brejo, no tendo mais a quem acharcar, cismou de mexer com as coisas do Padre. Primeiro mandou que um de seus homens amarrasse um cavalo no cruzeiro que ficava em frente Igreja. O Padre que naquele momento rezava missa interrompeu a homilia e, aos berros ordenou que o capanga tirasse imediatamente o cavalo do cruzeiro. Este retrucou dizendo que s recebia ordens de seu superior Manduca. O Padre que tinha uma fora estranha no olhar observou-o com ternura. Alguns segundos depois o pobre jaguno comeou a tremer e a se borrar. Rabo entre as pernas desatou o n do cabresto no cruzeiro e deu no p com sua animlia. Chegando ao acampamento que ficava em frente ao mercado velho, inteirou Manduca do ocorrido. Este, de propsito foi pessoalmente at o mangueiro do Padre e, l chegando, juntou duas vaquinhas, quatro leites e a mula de estimao do Padre. Quando j estava de sada com os produtos do roubo, antes de ganhar a porteira, deu de cara com o negro Wenceslau, o Azar.
- Deixe estes animais ai, disse-lhe Azar, porque eles no lhe pertencem. Eles so propriedade do Padre e ningum vai levar na mo grande.
- Sou Coronel, respondeu-lhe, Manduca, trabalho para o Governo em beneficio do Cidado. Tudo que estiver a minha frente eu posso utilizar. Eu vou levar, sim, e no ser um negro como voc que me ir impedir!
- Bem, retrucou Wenceslau, voc pode ser Coronel l pra suas negras. Aqui neste solo sagrado voc no passa de um p rapado. V embora enquanto h tempo.
- Quem voc pensa ser, disse-lhe Manduca, para me falar desse jeito?
- V simbora, voltou a dizer Azar, que o melhor que voc tem a fazer!
- Voc no vai? Bem, eu lhe avisei.
- Mas voc me avisou do que seu negro safaaa...
No conseguiu finalizar a frase. Um quase inaudvel assovio de Azar foi mais que suficiente para que nuvens de maribondos vidos por picarem sangue ruim, cassem sobre Manduca, que quanto mais tentava se proteger mais era atacado. No lhe restou alternativa seno implorar ao bom Azar para que fizesse que os maribondos parassem de ferra-lo. Azar aps obter de Manduca a palavra de que jamais voltaria a incomoda-los ordenou, com outro assovio, que os maribondos o deixassem. Humilhado, mas covarde, Manduca retirou-se ameaando retornar para finalizar seu intento em outra oportunidade.
"Azar ouviu-o atentamente e no final foi claro: No haver outra oportunidade seu bandoleiro besta. Voc no entendeu o que eu lhe disse que isso aqui solo sagrado por ser terra do Padre? Seus ps sujos no podem pisar mais aqui.
Dois dias depois Manduca, em companhia de trinta de seus melhores jagunos, retornou ao mangueiro do Padre em calada sorrateira. Vinham pisando em algodo para no levantarem suspeitas. Pretendiam levar todos os animais do Padre. J estava acessa uma grande fogueira no acampamento para assarem os porquinhos. No tiveram tempo. Outra vergonhosa derrota agora os esperava. Entraram todos no mangueiro. De onde surgiu tanto lamaal jamais se soube. O que se via e at soava engraado, era aquele bando de marmanjos tentando se equilibrar sobre as pernas, que se achavam enterradas no barro at a altura dos joelhos.
Sobre a porteira, confundindo-se com um preto mouro, Wenceslau ou Azar observava. E maneira que a turba tentava sair do barro mais se afundava. Quando isso acontecia, Azar soltava grandes gargalhadas a guisa de gozao. O negro era perverso quando queria. No contente em somente ele apreciar aquela cena deprimente para quem, como Manduca, se dizia autoridade, foi at o Largo da Matriz onde convidou os presentes a irem assistir aquele dantesco espetculo. Todos viram. Mas ningum acreditou. Aquilo no era possvel. Amedrontados tentaram segurar o riso. Mais Azar foi implacvel: Suas pulgas, no trouxe vocs aqui para chorar, mas para sorrir. A menos que estejam com pena deles. Pronto: era tudo que faltava. Sarcsticas gargalhadas foram ouvidas durante toda a madrugada. No satisfeitos, subiram sobre a cerca e de l, qual plateia no Coliseu Romano, dos tempos de Nero, atiavam: Vamos, seus bocs. Queremos ver quem de vocs vai sair primeiro desta merda! Outros, diziam, cuidado, no vo se misturar!
De manh, ao se levantar, o Padre Augusto, j velho e meio surdo, custou a entender de onde partia aquela algazarra. Levantou-se e se dirigiu at o mangueiro. L estavam todos, cansados e esbaforidos. Enterrados agora at a cintura. Ao avistarem o Padre foram logo dizendo: Tire-nos daqui, tire-nos daqui. Sua Reverendssima, piedosamente apenas observava. Depois de algum tempo, mineiramente, lhes indagou: Por favor, meus filhos, quem foi que os colocou em meio a tanto barro e bosta de vaca? Como que vocs foram parar ai? Porventura, disse-lhes o Padre, entre sorrisos, estavam vocs praticando alguma estripulia? Eu no acreditaria devido serem vocs bastante crescidinhos.
Todos, desesperadamente, responderam a uma s voz, apontando para Azar: Foi ele. Foi este preto dos demnios que nos colocou aqui neste inferno!
- Ento, disse-lhes o Padre, se foi ele que os colocou ai, ele que os tire. Eu tambm, assim como um de vocs me disse outro dia, no sou empregado dele e de ningum. Eu s trabalho para Deus!
Dito isto juntou a batina e se retirou.
Agora, por favor, amantssimos conterrneos, brejeiros do meu corao, povo meu, no perguntem a este quase sexagenrio, cabea branca, o que Manduca teve que prometer desta vez a Wenceslau, para que os liberasse. O que posso lhes informar que na manh daquele mesmo dia todo aquele exrcito de sujos era visto a caminho da Bahia. Derrotados, apontavam suas armas para o alto e disparavam. Vitoriosos, agora felizes e aliviados, os Brejeiros, l atrs, respondiam com sonoras gargalhadas e fogos de artifcios.
...
Por vezes, ou quase sempre, a prudncia nos recomenda que no ha fracos nem fortes diante das estratgias do sobrenatural. O importante saber achar o ponto G do equilbrio.
E tenho dito!

Enoque Alves Rodrigues, que vive em So Paulo, brejeiro de nascimento e convico. Atua h 40 anos na rea de Engenharia. Escritor, com dois livros a serem lanados, (Liderana Conquistada e Brejo das Almas em Crnicas), Colunista, Historiador e divulgador voluntrio de Francisco S, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


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Por Enoque Alves - 10/3/2012 17:17:34
ASSIM ERA FRANCISCO S PADRE SAL E TIBRCIO

Enoque Alves Rodrigues

SERRA DO CATUNI - BREJO DAS ALMAS
Quando em 17 de Maro do ano de 1931, acometido por um cncer na garganta, o Padre Augusto falecia no Brejo das Almas, preocupaes e incertezas se apossaram das famlias Brejalminas. Todas as atenes agora pairavam sobre uma dvida muito sria, mas oportuna, pelo fato de que o Padre, que ora perdiam, era muito querido no lugarejo. Todos o adoravam. Ele fazia por merecer.

Quem seria o seu substituto?

Por muito tempo esta pergunta permaneceu no ar. As beatas, que j no sabiam mais o que fazer, sequer conseguiam dormir. No dava mais para levar adiante, at o seu final, novenas e teros. Alm de terem que conviver com a ausncia do Padre Augusto, ainda se sentiam desamparadas pela falta de um condutor dos destinos dos catlicos da regio. Algum tempo depois, soavam-se as trombetas anunciando a chegada de um novo Proco para os servios eclesisticos junto aos pecadores de Maria. Curiosos, todos, indistintamente, acorreram-se a velha Matriz para se certificarem da boa nova. Sim. Era verdade! L estava ele, robusto, o senhor Padre, vestido com sua batina de gala. Estrearia com ela a primeira missa na calorosa tarde outonal daquele mesmo dia.

Apesar de vir da diocese de Salinas, distante a poucos quilmetros de Francisco S ou Brejo das Almas, ningum no Brejo o conhecia. Sequer antes ouviram falar seu nome. Logo o inevitvel passou a acontecer. O povo, acostumado com a forma carinhosa do Padre Augusto que permaneceu frente da Igreja do Brejo por trinta e cinco anos, passou a fazer comparaes. No frigir dos ovos resultava como liquido e certo que aquele Padre que agora substitua o Padre Augusto, diferia deste como a gua do vinho. Nada, absolutamente nada tinham em comum.

Salustiano Fernandes dos Anjos, ou Padre Sal, era este o nome do sucessor do Padre Augusto. Enquanto um era dado a longas conversas, preocupando sempre em ouvir atentamente o interlocutor para, no final, oferecer seus prstimos que sempre eram acompanhados por palavras de carinho, motivao e ternura, o outro era rspido. De poucas palavras. No era muito de ouvir. Chegava mesmo a interromper aos berros, fiis em confisso. As missas j no tinham mais o nimo de outrora e o povo comeou a se debandar. A Igreja, aos poucos, foi se esvaziando e os casamentos e batizados se escassearam. Os jovens continuavam com vontade de se casar, ter filhos, batiza-los, etc. No entanto, quando imaginavam a cara de bravo do Padre Sal, perdiam a vontade, neste caso, literalmente, perdiam o teso. Questionava as moas e os mancebos quanto a seus respectivos celibatos numa poca em que vrios tabus existiam sobre este tema, que no era tratado nem mesmo no seio da famlia. Quando nas cerimonias de batismos ao perguntar aos pais que nome dariam ao filho, se este nome no fosse de seu agrado ele simplesmente o substitua por outro. Caso houvesse recusa dos pais ao novo nome, encerrava ali mesmo a cerimnia, deixando o anjinho pago. O padre Sal era muito materialista. No era mau, tanto que era Padre. Era demasiado criterioso e entendia que com estes pequenos exageros, estaria zelando melhor de seu rebanho.

O fim no justifica os meios. Mas possvel que o fato de o Padre Sal, ao contrrio do Padre Augusto, vir de camadas sociais mais abastadas, o tenha influenciado para que ele fosse desse jeito. Passava a impresso de que no gostava de pobre. Que apenas o tolerava por fora de um oficio que pouco se parecia com uma vocao. Mas no fundo como eu j disse, ele era boa gente. Era do bem, indubitavelmente, desde que no comparado ao antecessor. Ai no tinha jeito mesmo. O outro ganhava de goleada.

Tibrcio Procpio Soares, ele colaborava com o Padre Sal nos trabalhos da Igreja. Funcionava como ajudante de ordens e Sacristo, destes que muitas vezes se esquecem, at mesmo de tocar os sinos. Tibrcio era nascido em Gro Mogol. De l foi para Salinas onde trabalhou nas Fazendas dos pais do Padre Sal. Das fazendas passou a colaborar com o Padre nos trabalhos da Igreja. Foi por isso que ao ser transferido para a Freguesia do Brejo das Almas, sim, quando o Padre Sal chegou ao Brejo, o Brejo ainda no era Francisco S, pois s veio receber esta denominao em 1938, levou consigo seu ajudante e fiel escudeiro, Tibrcio.

Vejam vocs as coincidncias. No foi, creiam-me, propsito meu. Na semana passada me achava aqui, neste mesmo horrio e prefixo escrevendo sobre um ajudante de ordens de outro Padre. Nesse caso, o Wenceslau, ou Azar, que surgiu como por encanto e trabalhava com o Padre Augusto, cuja aluso, fiz acima. J que, sem querer, comparamos os costumes daquelas duas figuras exponenciais da vida religiosa do Brejo, por que no traaramos analogias entre seus dois serviais? No vou, no entanto, cansar vocs relembrando algumas faanhas do bom Azar. Voltarei a ele em outras oportunidades. Fixemos, agora, em Tibrcio.

Vinte e seis anos, alto, mulato, semblante fechado, jamais sorria. Passava por todos nas ruas sem sequer cumprimentar. Mirava a todos com o olhar severo de uma Madre Superiora. De cima para baixo. Encrenqueiro dos mais temidos. Mentiroso de nascena e carteirinha. Garganteador. Nem ele mesmo acreditava no que falava. Somente o Padre lhe dava crdito. Certa vez arrumou um fuzu na ZBM que ficava prximo ao Centro. Desentendeu-se com um tal de Calixto de Vaca Brava. Chegaram s vias de fato. Rolaram pelo cho. Ele tinha dois metros e meio de altura. Calixto tinha trs. Os cinquenta centmetros a mais fez a diferena. Levou uma tremenda sova. Chegou a Igreja todo ralado. Indagado pelo Padre Sal, foi logo dizendo: Estava participando da novena ao So Gonalo e ao passar defronte a uma casa suspeita fui atacado por um tal de Calixto.

- D-me, disse-lhe o Padre, o nome completo desse facnora que eu vou amaldioa-lo agora mesmo! Que mal poderia fazer voc, este santo homem, a ele para que agisse dessa maneira? No se agride assim um homem de Deus.

O Padre Sal era assim: o que pertencia a ele era valorizado ao extremo ainda que pouco ou quase nenhum valor tivesse. O simples fato de fruir do convvio e confiana dele j era motivo mais que suficiente para que tivesse dele total proteo. Uma pena que somente Tibrcio tinha esta primazia e deferncia.

A aspereza e o jeito rstico de ser, destarte, haver tido uma boa educao de bero, s vezes arrebatavam o Padre Sal aos mais tenebrosos pensamentos e comentrios. Dizia, por exemplo, em seus devaneios, ao se referir ao cncer na garganta que ceifara a vida do Padre Augusto, seu antecessor, que o Padre s morreu de doena ruim porque era muito bom para os outros. Dando assim uma falsa conotao de que os Cus no pertencem aos justos e bons.

Algum tempo depois, retornando de uma pescaria, sentiu uma pequena fisgada na perna esquerda. Depois veio uma dorzinha de cabea chata que no passava nunca. Da a pouco o estomago comeava a dar voltas. Comia, mas as substncias dos alimentos no se retinham no organismo. Bebia um copo de gua, por pequeno que fosse e se achava como se tivesse engolido um elefante inteiro. Nesse entrementes o humor que j era ruim, piorou. No tinha Niquinho, nem Francelino, o Frana os doutores da farmcia do Brejo, assim como no tinha tambm o Dr. Joo Jos Alves, na bela MOC.
Procurou, ento, os mdicos da Capital das Alterosas Belzonte que foram taxativos e implacveis no diagnstico: Cncer em estgio avanado e irreversvel nos intestinos!

Aps longo padecer, agora era a vez de Salustiano Fernandes dos Anjos, o Padre Sal, acompanhar o seu antecessor na longa viagem rumo ao Cosmos. Igualando-se a ele, pelo menos neste quesito, onde todos ns somos iguais perante as Leis Infinitas que Regem o Universo. Seu espirito, finalmente, pode comprovar meio decepcionado, que a morte no o fim e que viver no nenhum privilgio. Que no existem diferenas entre mortos e vivos seno a simples e s vezes chocante e assustadora troca de vestimenta. Sim, porque mesmo que voc no creia, saiba que quem escolhe os modelitos que pretende vestir l em cima somos ns mesmos, enquanto aqui no cho.

Quanto a Tibrcio, por algum tempo, ainda continuou no Brejo. Mas depois retornou para Salinas de onde ningum mais teve noticias.

...
Continuo com aquele certo William.

Por vezes, dizia ele, h muito mais coisas entre o Cu e a Terra alm do que supe nossa v filosofia.

E tenho dito!

Enoque Alves Rodrigues, que vive em So Paulo, brejeiro de nascimento e convico. Atua h 40 anos na rea de Engenharia. Escritor, com dois livros a serem lanados, (Liderana Conquistada e Brejo das Almas em Crnicas), Colunista, Historiador e divulgador voluntrio de Francisco S, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


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Por Enoque Alves - 3/3/2012 18:16:40
ASSIM ERA FRANCISCO S - WENCESLAU, O MANDINGUEIRO

Enoque Alves Rodrigues

Quando em 1914 o pequeno Orfanato particular que era mantido pelo Padre Augusto Prudncio da Silva, em Francisco S, Brejo das Almas, atingiu a marca de 74 (setenta e quatro) pequeninos abandonados prpria sorte e que agora encontravam guarida no seio daquele corao misericordioso, coincidentemente ou no, sem que se soubessem ao certo de onde veio, brotou, ali, na antiga Rua da Amargura ou Rua do Padre, ou especificamente naquele simples Orfanato, um negro alto, feio, de pele spera e olhos vermelhos esbugalhados, de andar ziguezagueante. A princpio aquela imagem aparentemente sinistra e ameaadora, causou um verdadeiro rebulio a todos. O prprio Padre Augusto, que nada temia, at porque como de conhecimento de todos, mantinha relaes muito estreitas com o mundo invisvel, se assustou. Sua Reverendssima na verdade no gostava de surpresas. Por isso indagava a si mesmo: Quem quer que tenha enviado aquele negro sua porta teria por obrigao avisa-lo antes. Sim, por que o negro Wenceslau chegou at a casa do Padre com endereo certo. Viram-no, inicialmente, em frente ao velho mercado com um pequeno e amarelado pedao de papel mo. Ali notaram que algum apontava para a direo da Rua da Amargura. No haveria dvida, aquela apario repentina tratava-se de uma encomenda. De um presente. Bem, se se tratava de um presente que no fosse de gregos. No haveria outra forma de saber seno perguntando. A curiosidade que matou o gato agora atazanava a vida do Padre. Ele queria saber de onde viera o negro Wenceslau, mas no queria constrang-lo com perguntas e indagaes inoportunas, at porque ele tinha isso como principio. Ajudava a todos sem sequer perguntar de onde veio ou quem foi que o abandonou. O Padre Augusto sobre quem tive o privilgio de dedicar vrias crnicas era exatamente assim. Um santo na terra, diziam todos que o conheciam. Fazia tudo em beneficio dos menos favorecidos, muitas vezes em detrimento de si prprio. Quando a Igreja de Roma no era a potncia econmica que hoje, ele deixava de comer para repassar o seu po a uma boca mais necessitada e esfomeada. O Padre Augusto era incondicionalmente comprometido com as massas desfavorecidas pela sorte. Era, guardadas as devidas propores, um So Vicente Brejeiro.

Durante uma semana o Padre manteve-se calado. Apenas observava as atitudes do negro Wenceslau. Quanto mais o observava mais curioso ficava. Sim, porque o negro por possuir idade aproximada de dezoito anos era mantido apartado dos pequenos onde a faixa etria atingia os 14 anos. Ele dormia numa pequena edcula nos fundos.

Wenceslau levantava-se de seu catre e j catava uma vassoura. Punha-se a varrer todo aquele casaro. Quando terminava a varrio, corria de espanador e pano em punhos a limpar os mveis rsticos. Terminada esta tarefa ia at a cozinha oferecer seus prstimos no preparo da comida. Quando tudo estava pronto, pegava os pratos que estavam sobre as mesas diante de cada menino e servia-os. Depois disso servia o Padre que tinha como hbito alimentar, primeiro se servir de um bom e fundo prato de sopas de legumes para s depois passar ao prato principal. Somente aps servir a todos que o negro Wenceslau se servia. Mesmo assim, pegava o seu pratinho e se dirigia a um dos cantos da sala. Nestas ocasies era sempre repreendido pelo Padre que se levantava de seu lugar mesa, geralmente na cabeceira e, de braos dados com o negro Wenceslau, levava-o at a outra cabeceira da mesa, onde fazia questo de que ele de assentasse, aps lhe aplicar pequeno sermo: Este lugar seu por direito. Voc no aqui escravo de ningum. Se voc tem o trabalho de se dedicar a tudo e se esmerar para que tudo saia bem, voc tem tambm o direito e a obrigao de usufruir.

No demorou muito e Wenceslau ganhou as graas de todas as crianas. Frua, agora, de toda a confiana do Padre Augusto que, j meio cansado e alquebrado pelos anos, cuidava daqueles pequenos com certa dificuldade. Dotava-os de conforto alimentar pfio, que as sobras parcas da descapitalizada gente Brejeira permitiam. No tinha mais pique para fazer gracinhas. At porque isso no era o seu forte. Mas o negro no. Ele estava em plena flor da idade. Com todo o gs e cheio de vontade de animar aquele Orfanato com cara de velrio. O Padre sentia que faltava alguma coisa para aquelas crianas. O Padre sabia que ningum vive s de comida, bebida e estudo. Faltava alegria. Faltava motivao. Faltava entusiasmo. Wenceslau fez uma careta. A molecada caiu na gargalhada. O Padre franziu a testa. Wenceslau recolheu-se. No dia seguinte Wenceslau puxou as duas orelhas de um dos moleques. Balbuciou alguma coisa aos ouvidos e com trejeitos smios, com uma careta assustadora comeou a grunhir. Todos caram na gargalhada, inclusive o Padre. Pronto, o sorriso do Padre era a senha que Wenceslau queria. Era a assinatura da autorizao que ele necessitava para daquele dia em diante tornar a vida daquele pequeno Orfanato a mais alegre possvel. Definitivamente, lanava-se ali, naquele momento, os prdromos de uma nova era. A era da alegria.

Wenceslau Bispo dos Santos, ou azar. Era esse o seu nome e apelido. Veio na verdade de Taiobeiras, na regio. No conheceu os pais. Vivia com uma av que ao falecer, levou-o a perambular pelas estradas que davam no Brejo. O azar que ele fazia questo de incorporar ao seu nome, segundo ele prprio informava, era porque no tivera a sorte de conhecer os pais que segundo lhe dissera a av, morreram de paludismo. Ele era feio de doer. Nem precisava fazer caretas. Mas era um verdadeiro templo de simpatias e cordialidades. Fazia graa com tudo. Brincava com todos sem jamais ser grosseiro. Tinha uma piada para cada menino. Visitantes do Padre eram alvos de suas brincadeiras. At mesmo o Coronel Jacinto Silveira, meio sisudo, por natureza, recebia com sorrisos os seus gracejos. Era ele especializado na arte da mandinga inocente. No entanto ele s as realizava a pedido dos internos quando o Padre Augusto no estava por perto.

Certa vez todos os meninos se acercaram da mesa, pois Azar ou Wenceslau, ia fazer o nmero do ovo. Consistia no seguinte: ele deixava um ovo na cabeceira da mesa e se assentava na outra cabeceira de onde, gesticulando com as duas mos e proferindo frases aparentemente desconexas, ordenava que o ovo rolasse at ele. O ovo que a primeira vista se achava imvel, de repente comeava a mover-se e dali a instantes estava na outra ponta da mesa. Nas mos de Azar.

De outra feita tentou repetir a faanha. Toda a petizada ao redor da mesa. Azar tomou seu lugar costumeiro na cabeceira. Na outra cabeceira estava o ovo. Azar iniciou seu ritual com palavras incompreensveis aos mortais. Contorcia todo em jeitos e trejeitos. Fazia diablicas caretas. Acenava para o ovo. Em habitual gesto de chamamento para si num abrir e fechar de mos e o ovo, nada! Permanecia inerte. Mortinho da silva. Por mais que ele se esforava, o ovo no se movia. Os pequenos infantes j se desesperavam. Sedentos estavam para verem uma vez mais aquele ovo, qual morena faceira, partir em direo aos braos do feio Wenceslau e finalmente pousar em suas grossas mos. Lamento informa-los mais desta vez a coisa, literalmente, no rolou. Ovo parado no tem graa. Empacou qual jumento baiano. Ningum o faria mover-se. Total decepo.

Foi quando o pobre do Azar levantou a cabea. De soslaio visualizou em meio a multido de moleques dois enormes olhos azuis. Percebeu tambm que o rosto ao qual pertenciam aqueles grandes olhos era de h muito, dele conhecido. Fixou-se um pouco mais e constatou vasta cabeleira branca guisa de vu. Era sim. Era ele mesmo. Era o Padre Augusto, o dindinho como o chamavam. Ele estava ali presenciando a cena. No devia...

Num misto de assustado, envergonhado, decepcionado e constrangido, Azar que jamais antes houvera pronunciado qualquer palavra destoante de sua vida simples de matuto agora afinado at a medula com as cousas dos santos evangelhos, no conseguiu se segurar. Fixando o olhar vermelho no Padre entre a molecada, comeou a se justificar aos gritos.

- Diabo! Capeta! Inferno! Agora eu descobri porque este maldito ovo no me obedece. porque S Padre est ai no meio de vocs, diabos! Na frente dele o ovo no anda. O ovo s anda quando ele no est por perto!

O Padre olhou-o com piedade e brandura. Depois de lhe sorrir, agora foi sua vez de lhe tirar uma casquinha. Pois , meu bom Azar, eu s estava querendo lhe ajudar.

- Desculpe S Padre, mais eu no sei que diabo o senhor tem nos olhos que no permite que o ovo ande.

- Engano seu, meu querido, disse-lhe o Padre, sente-se no seu lugar e chame o ovo, novamente!

Assim foi feito. O ovo sem maiores delongas andou. Caiu nas mos do negro Wenceslau, o Azar. Agora com os olhos mais esbugalhados que nunca. Assustadssimo. Em vias de sair correndo.

- Cruz Credo... Por mil demnios. Esse Padre o capeta mesmo!

Para o Padre que s queria ajudar a emenda saiu pior que o soneto.

...

Por vezes, dizia um certo William, h muito mais coisas entre o Cu e a Terra alm do que supe nossa v filosofia.

E tenho dito!

Enoque Alves Rodrigues, brejeiro de nascimento e convico, que atua na rea de Engenharia, Escritor com dois livros a serem lanados, (Liderana Conquistada e Brejo das Almas em Crnicas), Colunista, Historiador e divulgador voluntrio de Francisco S, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


70516
Por Enoque Alves - 26/2/2012 09:12:16
ASSIM ERA FRANCISCO S MESSIAS, O BENZEDOR.

Enoque Alves Rodrigues

Ele no tinha do que reclamar. Estava, indubitavelmente, atravessando uma poca muito prspera e favorvel em sua vida. At ento tivera uma vidinha bem insossa. Apertada ao extremo onde at mesmo o bsico necessrio subsistncia lhe faltava. Agora, no. A vida finalmente lhe sorrira. Ele estava feliz. Efetivamente, pensava ele, esta era sua melhor fase. Cada enxadada era uma minhoca. E meditava: justo ele que at ali tudo o que fez em sua vida foi reclamar de tudo e de todos! Nada para ele estava bom. Sempre faltava alguma coisa. Mas sempre assim. Voc j percebeu que aqueles que menos fazem so os que mais reclamam da vida? Pois , ele era assim. Quando lhe sobrava um tempinho, entre uma reclamao e outra, vendia alguns dias de servios nas Fazendas das redondezas. Ser que algum l de Cima ouviu, por fim, suas reclamaes? o que veremos na seqncia.
Messias Dias Pereira, era esse seu nome, na realidade, pouco ou quase nada fizera para usufruir de todo aquele conforto. Mas, honesto como era, apenas no gostava muito do batente, nada de errado fizera que maculasse sua irrepreensvel conduta. Apesar do sobrenome, nenhum parentesco tinha com Zeca Guida.
Nascido em So Geraldo, criana ainda, descobriu que no tinha muito jeito com o cabo da enxada. Com os cambes de bater feijes, ento, nem pensar. Feijo mesmo ele s batia no prato e de preferncia bem cozido. Foi desastrosa a sua estria no oficio de batedor de feijes que teve como palco inicial as terras de Saturnino, ainda em So Geraldo. Quando ele punha a mo nos cambes, antes de ergu-los para arriar sobre a montanha de feijes, os camaradas batedores abriam a roda e, com medo de que os cambes fossem soltos sobre suas cabeas, afastavam-se, deixando-o sozinho o que tornava lide contraproducente. No demorava muito e o dono do trampo o dispensava. Foi assim, tambm, na fazenda de Zeca, em Cana Brava, j que ao mudar para o Centro do Brejo das Almas, ou Francisco S, ainda rapazinho, pouco ou quase nada fazia que se pudesse classificar como trabalho duro. Como j informei anteriormente, ele, de vez em quando laborava, levemente, em Fazendas adjacentes.
Coincidentemente ou no, entre idas e vindas a uma destas Fazendas, foi que sua vida comeou a mudar. Passou a ostentar alguns sinais de melhoria financeira. Naqueles longnquos tempos, assim como o ainda hoje, guardadas as devidas propores, entre elas, o aumento demogrfico e a evoluo cultural da gente Brejeira, no era necessrio que o individuo sasse muito dos trilhos para cair na boca do povo. Assim sendo, progredir, sem que se tivesse uma fonte de renda muito bem definida e, de preferncia, de conhecimento de todos, nem pensar. Cidade pequena aqui ou em qualquer parte do mundo sempre assim. Todos se conhecem. A maioria tem algum grau de parentesco mesmo que no o saiba. No conhecer procedncia e filiao de algum morador local era tido como tremenda falta de informao. No Brejo das Almas dos meus tempos os indivduos solteiros eram identificados pela filiao paterna ou materna. Eu, por exemplo, era conhecido como o Enoque da Dona Nazir do Grupo. O grupo aqui se referia ao vinculo de minha doce me ao Grupo Escolar onde era professora. Uma vez casados, ganhavam, imediatamente, uma nova identidade. Agora com o nome da esposa ou do marido. Hoje, se ainda no Brejo residisse, provavelmente seria esta a minha identidade: O Enoque da Teresa. isso mesmo, ao contrrio do nome da me do cabra que era precedido do dona, no era comum se utilizar o mesmo ao se referir esposa. Somente os casais antigos recebiam esta denominao seu fulano da dona sicrana e vice-versa. Passemos adiante.
Rezador era esta agora a lucrativa profisso de Messias. Mas rezador do que? De tudo! Rezava para expulsar das roas e fazendas, cobras, onas, gafanhotos, formigas, escorpies, carrapatos, lagartas, etc. Tirava quebrantos de criancinhas indefesas. Benzia plantaes inteiras, Juntava casais em processo de litgio, amansava burros e cavalos bravios, enfim, ele era o cara.
Certa vez estava ele enchendo o talo no P na Cova, aquele boteco que ficava bem em frente ao velho cemitrio. No demorou muito e eis que surge ali o Capataz que trabalhava na Fazenda de Elpdio, de nome Manoel da Conceio.
Eles no se conheciam. Jamais antes se viram. Mas quem foi que disse que bbado precisa se conhecer para se engatar uma boa conversa? Qualquer banalidade entre os amantes do pileque motivo mais que suficiente para vararem dias e noites. Falavam de tudo. Menos, claro, da vida alheia ou de temas complexos e relevantes dos quais no possuam o domnio do conhecimento. Eram exatamente 9 horas da manh quando aquelas duas almas, puras e imaculadas apesar do cheiro forte do suor do serto, causado pela brisa brejeira, misto de calor e poeira, se encontraram naquele genrico de bar. Comearam dialogando sobre porcos, galinhas, carros de bois, roas, secas, guas e, por fim, chegaram a morte da bezerra, literalmente.
O bom Manoel informava ao bondoso Messias, que j no agentava mais conviver com a morte de tanta rs na flor da idade. Que as onas no estavam dando trgua. Que era preciso que algum fizesse alguma coisa. Bem, mesmo ele no sabendo, estava falando com a pessoa certa. Messias, incontinenti, informou-lhe desta sua especialidade. Inclusive deu-lhe como referncia algumas fazendas onde houvera prestado seu trabalho eficaz. Esgotados todos os assuntos. No tendo mais sobre o que falar, despediram-se.
Dias depois, Elpdio, patro de Manoel da Conceio, mandou chamar Messias sua fazenda. Queria fechar com ele o valor para que expulsasse as onas. Mas antes queria uma prova. Messias valorou seu trabalho por cabea de ona expulsa. Elpdio aceitou, mas continuava querendo provas. No haveria problemas, a prova seria dada.
Rumaram todos para a porteira de entrada principal da fazenda. Messias pendurou-se no mouro enquanto que Elpdio e Manoel puseram-se sobre a cerca. Num estalar de dedos e ao pronunciar pintada um surgiu a primeira ona. Messias desceu, falou-lhe alguma coisa ao ouvido, a ona saiu e Messias voltou para o mouro. Pronto, a prova estava dada. Fecharam ali mesmo o negcio. Iniciou-se o processo e vrias onas foram expulsas. A manada agora vivia na paz do senhor, tranqila, serena e sem sobressaltos. Livre estava das onas ferozes. Ser?
Decorridos noventa dias Elpdio chama Messias de volta fazenda. Novilhas voltaram a aparecer mortas. As marcas registradas dos dentes de onas eram visveis. O que haveria acontecido? Pergunta Elpdio. simples, responde Messias, a reza vlida por noventa dias. Depois disso tem que ser revalidada. A cada revalidao eu vou ter que cobrar outra vez e assim, sucessivamente.
- Uai, s, indagou-lhe Elpdio, mais no tem como voc fazer este trabalho de uma s vez? Que diabo de reza esta que voc usa que tem prazo de validade? Deus no trabalha desse jeito. Tudo Dele definitivo. Depois tem mais uma coisa: Deus no cobra para fazer nada e voc me cobrou, e muito. H alguma coisa errada nisso ai que eu gostaria muito que voc me explicasse. Afinal, sua tralha, para que diabo de santo voc reza?
- Bem, respondeu-lhe Messias, voc quase acertou. S que no nenhum santo no senhor. Pode at ser que exista alguma coisa de errado. Mas quem foi que lhe disse que eu tenho alguma coisa a ver com Deus? Eu no trabalho com Ele e nem para Ele. O meu negcio aqui no com o Cara l de Cima, mas sim, com o cara l de baixo e voc sabe que ele no perdoa nada. Ele cobra por qualquer coisa. O que recebi de voc na primeira reza, repassei tudo para ele. O meu lucro est exatamente nas revalidaes. Se voc no revalidar, tanto eu quanto voc, ficaremos no prejuzo. Aquele diabo dos infernos assim mesmo, meu caro, no d ponto sem n. Ele nunca perde. S ganha.
...
Fazer o que!
Por vezes, ou quase sempre, melhor no procurarmos saber o nome do santo que realizou o milagre. Ele poder nos ser, deveras, demasiado frustrante e assustador.
E tenho dito.

Enoque Alves Rodrigues, brejeiro de nascimento e convico, que atua na rea de Engenharia, Escritor com dois livros a serem lanados, (Liderana Conquistada e Brejo das Almas em Crnicas), Colunista, Historiador e divulgador voluntrio de Francisco S, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


70477
Por Enoque Alves - 18/2/2012 20:42:41
ASSIM ERA FRANCISCO S VALDO, O ESPERTO

Enoque Alves Rodrigues

No. Definitivamente as coisas no andavam bem para o lado dele. Nada, absolutamente nada daquilo que tentava lhe saia bem. Se ele plantava, no chovia. Se no chovia, no vingava. Se no vingava, no colhia. Se no colhia, no comia. Se no comia, certamente que morreria. Aparentemente no haveria para ele uma honrosa e digna sada. Naquela pobre e oca cabea de cabaa brejeira, restava apenas e to somente, como liquido e certo, o final melanclico de um agonizante moribundo. Desculpem-me pela redundncia, mas foi, deveras, necessrio para deixar claro e patente o superlativo de desencontros e desatinos pelo qual passava aquela pobre e, para ele, insignificante vida.

Realmente, os mares de Minas no estavam mesmo para peixes. Bem, se os mares de Minas no estavam para peixes, os brejos de todas as almas bondosas, de minha querida e bem amada Francisco S, no estavam nem para sapos. Vrias foram as vezes em que este genrico de escriba se referiu aqui neste mesmo espao, sobre as muitas crises que se abatiam sobre o norte do estado de Minas Gerais, mais precisamente em Francisco S ou Brejo das Almas, terra que me serviu de entranha, onde permaneci at os 18 anos.

Parece fcil dissertar sobre crises ou dificuldades, preferencialmente depois de superadas. Vive-las, no entanto, no nada fcil. Alis, h que se ter muita esperana, fora de vontade, determinao e pacincia, para poder atravessar quaisquer crises com otimismo e dignidade inclumes e imaculados. Quando, ento, elas afetam diretamente o estmago ai a coisa torna-se mais difcil. mais ou menos como dizia o senhor Madruga do seriado Chaves: Quando a fome aperta, a verdade afrouxa. Recordo-me, de algumas delas, onde, ainda tenro, tive que interromper os estudos primrios para me embrenhar nas fazendas em busca de trabalho, enquanto a deusa de nossa casa, a santa de cabelos brancos por quem tive a graa de ser concebido, orgulho maior de meu existir, que hoje, queira o Divino Mestre, por muitssimo tempo ainda, vive em Burarama, se desdobrava dia e noite, na bela e gloriosa arte do ensinar. J o meu pai, que Deus o tenha no santo lugar que lhe merecido por direito, labutava com uma vendinha de secos & molhados. Quando no conseguia tirar mais nada dali, corria de picareta em punhos, a prestar trabalho duro na Estrada de Ferro para suprir as carncias da casa. Tempos duros, mas saudosos aqueles. Entendo, ainda hoje, que as dificuldades so as nicas maneiras de se fazer com que as pessoas provem quem realmente elas so e que fora do trabalho no h realizao.

Quem no se lembra, por exemplo, dos tempos da caa as gabirobas? O que so gabirobas? Pois , tratava-se de um pequenino fruto de colorao verde e amarelo que mais se parecia a uma pequena goiaba e que, surgiu ou foi, inesperadamente, descoberta, no serrado Mineiro em plena crise. Famlias inteiras embrenhavam-se nas matas ralas em busca daquela verdadeira ddiva da Natureza. Quantas boquinhas nervosas aquela abenoada frutinha acalmou. Voltemos ao Valdo.

Valdomiro Ferreira dos Santos. Era este o pomposo nome pelo qual respondia. Caboclo, brejeiro, queimado pelo sol escaldante do Serto de Cana Brava, era casado com Sebastiana, com quem tinha quatro filhos.

Morava no centro do Brejo, prximo ao velho Mercado, ou precisamente na Rua Padre Augusto. Quando no estava trabalhando em suas improdutivas roas, era facilmente encontrado dando banhos em minhocas no rio So Domingos. Muitas vezes, quando a aflio mais lhe atormentava, punha-se a sonhar com o rico tesouro do Bandeirante Jernimo Xavier de Souza, que segundo antiga lenda, se achava enterrado h sculos no morro do moc, sob uma grande pedra onde ficava a fazenda de Antonio Miranda. Pronto: cabea vazia, oficina do diabo. Falamos, ns, os antigos, ou melhor, os gastos. Pois . No demorou muito e Valdo que no tinha mais no que pensar, julgando-se desprovido de qualquer alternativa que o levasse a sair daquela pindaba com luta e denodo, passou, destarte, a divagar sobre futilidades.

Numa dessas divagaes, deitou-se e no conseguiu conciliar o sono. prprio do esprito no repousar enquanto no encontrar a paz necessria para faz-lo. Cochilou, o cachimbo no caiu. Pelo menos no fumava. Mas foi o suficiente para em sua viso ver-se frente a frente com o Sargento Mor, ou o Bandeirante Jernimo Xavier de Souza. Cobria-lhe o lombo vestimenta caracterstica dos que provem de Alm mar, da costa, ou, como queiram de Portugal. Valdo, surpreso com aquela inesperada apario, no teve sequer foras para abrir os olhos. Falar ou balbuciar alguma coisa, ento, nem pensar. Mas o bondoso Bandeirante, na condio de esprito, lia-lhe os pensamentos e assim poupou-lhe de maiores sacrifcios. Determinado e assertivo como qualquer bom Europeu foi direto ao ponto:

- Meu caro Valdo, h tempos que venho lhe observando. No consigo mais descansar de to aturdido que vivo com os seus queixumes e atribulaes. Traz-me aqui a vontade imensa de lhe ajudar. Por favor, meu amigo, pense ai, em trs desejos e fixe-se em um, e, se possvel me fale, que eu o realizarei, imediatamente. No quero v-lo sofrendo desse jeito.

Bem, qualquer brejeiro normal, habituado com a dureza da vida, amante incondicional do velho batente, ou como falamos aqui em So Paulo nos canteiros de obras, do trampocnscio de que sem rdua luta no h vitria, pediria chuva para que continuasse no trabalho sagrado de plantar e colher para se alimentar. Mais Valdo. Bem... Valdo, no. Ele queria muito mais. Ele no queria trabalhar. Ele no perderia de forma alguma aquela nica chance de ficar rico sem fazer fora. Assim sendo, num sacrifcio dos diabos, movido pela usura, buscou l no fundo do recndito, foras at ento, inimaginveis com as quais balbuciou seu mesquinho desejo:

- Uai, Coron. Os meu desejos o sinh bem o sabe. Eu queria que mec me dissesse adonde o sinh enterr o seu tisoro. Se pussive qui o sinh me trouxesse ele aqui apusqu eu tenho medo de artura e principarmente qui a preda adonde ele est escondido se role sobre mim. Num mesmo l no morro do moc qui ele est enterrado? Antes mesmo que Valdo fechasse a boca, j se ouvia o fantasma do Bandeirante Jernimo esbravejando num dialeto Lusitano de quem veio da Ilha da Madeira, nos tempos das Caravelas:

- Ora, pois, pois. isso que vuc me pedes, seu curalho? Eu psei que vuc fosse me pedirr chuva para cuntinuarr laburando em suas roas e com suor de rousto, sustentar sua fumlia e vuc me vens pedirr ouro? V trabalhar vagabuundo... Vuc acha que eu sai daquele curalho de inferrno para vir aqui lhe dar muleza? Ns somos de uma raa trabalhadora, curalho e no aceitamos nada fcil. Eu quueria lhe ofrecer trabalho, curalho. Mas vuc s queres bua vida. Se queres muleza, seu gajo do curalho, filho de uma concumbina, vais sentarse no pudim, ou peidar na gua pra fuzer bulinha, curalho. Ora, pois, pois. Dito isto, virou fumaa. P de traque. Evaporou-se.

Boca porca a do Portuga. Mas foi a forma ideal que aquela boa alma encontrou para chacoalhar Valdomiro e tira-lo do marasmo da ociosidade. Da preguia. Da inrcia.

...

Por vezes, dizia Confcio, imprescindvel se faz jamais negligenciarmos com os nossos pensamentos. Eles so o espelho de ns.

E tenho dito!

Enoque Alves Rodrigues, brejeiro de nascimento e convico, que atua na rea de Engenharia, Escritor com dois livros a serem lanados, (Liderana Conquistada e Brejo das Almas em Crnicas), Colunista, Historiador e divulgador voluntrio de Francisco S, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


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Por Enoque Alves - 11/2/2012 11:01:42
VENDAS & VENDEIROS DO BREJO ANTIGO S CARRINHO

Enoque Alves Rodrigues

No inicio do sculo passado podia se contar nos dedos as poucas casas comerciais que existiam no Brejo das Almas, hoje Francisco S, beldade do norte de Minas. Alis, somando-se com as casas residenciais, no passava, naquela poca, de um diminuto amontoado de pequeninos casebres aglomerados em torno do antigo Largo da Matriz, o principal do lugar. Foi ali que se iniciou, de fato, a povoao da Cidade, que hoje se aproxima das 30 mil almas. Apenas um casaro em estilo colonial erguido no Largo da Matriz, se destacava. Era a residncia da principal fora politica da regio e pertencia ao cl Silveira, cujo chefe era o Coronel Jacinto Alves.
Bem no porto de entrada do lugarejo, para quem vinha de Montes Claros, ou precisamente no morro do moc, ficava a fazenda de Antonio Miranda. Seguindo um pouco mais adiante, se visualizava a casa velha de S Jacinta, que ficava dentro de um Stio, onde ela criava vacas leiteiras. Mais alguns passos e j se achava diante da primeira casa comercial, na verdade, um pequeno armazm de secos e molhados que pertencia a Nezinho Pena. Um pouco mais em frente e se via a lojinha de Juca Brinco e a casa de Pedro Ferreira, escrivo de paz. Mais para a esquerda, por detrs da Igreja Matriz, se localizava a loja de Joo Caixeiro. Seguindo por aquela travessa dava-se no velho Largo do Comrcio, onde se encontrava o centro comercial do pequeno distrito. Era ali que se concentravam as casas comerciais mais importantes. L se reuniam pequenos grupos de pessoas, em sua maioria, comerciantes, para discutirem os preos do alho, algodo, milho, feijo, cachaa, carne e outros produtos que comercializavam.
Para quem olhasse l de cima, da esquina do velho mercado, via-se a Farmcia de Francelino Dias, o Frana. Francelino, que havia estudado em Seminrio de Diamantina, alm de farmacutico, laborava, tambm, por fora de circunstncias, no oficio de Mdico, pois naqueles tempos no se havia ali, naquele torrozinho de meu Deus, nenhum profissional com curso superior, habilitado nas exatas. A Clnica de Frana ficava na prpria farmcia. Era ele um grande perito em clnica geral. Todos os brejeiros, do mais importante ao mais simples, passavam, obrigatoriamente, pelas avaliaes de Frana. rfo de pai, Frana agora tinha como padrasto o personagem de minha crnica de hoje, S Carrinho, ou Carlos de Oliveira Pena, cuja estirpe familiar e tradio, no comrcio e em vrios outros ramos de atividades, inclusive no da politica, ainda predominam em dias atuais.
Grande comerciante, s que no ramo de fazendas (tecidos) e armarinhos em geral, S Carrinho, apesar de ter obtido sucesso inquestionvel na arte de comerciar, no era l de fazer muita fora para isso. Falar pouco e pausado, prprio de ns, montanheses. Para inicio de conversa, abominava toda e qualquer propaganda que no fosse boca a boca. Dizia ele, com toda razo e propriedade, numa poca em que sequer se sonhava falar um dia em propaganda enganosa ou cdigo de defesa do consumidor, que, quando o produto bom no precisa falatrio para vend-lo. Que a propaganda mais eficiente e eficaz era aquela disseminada pelos clientes, em seu entorno, satisfeitos com os produtos adquiridos.
At ai, morreu neves. Talvez, quem sabe, teria eu que encerrar abruptamente este meu relato, pequeno, singelo e despretensioso, assim como o amontoado de casebres aos quais me referi l em cima, logo no inicio dessas mal traadas linhas, no fosse maneira, digamos, atpica e meio surreal, com que S Carrinho cultivava ou fidelizava sua clientela. Carrancudo e, na maioria das vezes, mal humorado, nenhum sorriso oferecia. S produto bom. A lei da oferta e da procura, por aquelas plagas sertanejas, aonde, em pocas um pouco mais atuais, os meus ps, outrora, rachados e descalos, pisaram, naqueles primrdios, hoje distantes, funcionava meio que s avessas. Imperava-se, quase sempre, somente a lei da procura. Significava dizer que voc tinha a necessidade de buscar e adquirir algum produto para atender sua subsistncia. Encontra-lo, no entanto, quando isso ocorria, era motivo de comemorao. Quem o possua para lhe vender, por qualquer que fosse o preo, estaria, pasmem, na verdade, lhe prestando um favor. Conseguiu entender? Sigamos em frente.
Pachorrento, mas sem jamais ser mal educado com ningum, apesar de no ser afvel. Correto e probo. Zeloso, impecvel e transparente em suas transaes. S Carrinho, por incrvel que parea, tinha que vender fiado. E vendia. Tornou-se adepto da caderneta, ou, melhor dizendo, do velho e venerabilssimo fiado. Postava-se no interior de sua loja e, vestido a carter, com camisa morim branco e cala tergal azul claro, mantinha ao pescoo, a guisa de gravata, uma fita mtrica. Sobre o balco, possua uma trena em madeira e, penduradas, prateleira central, duas velhas e reluzentes tesouras da marca mundial. Completando o cenrio, havia tambm, um no menos velho tamborete em couro cru, onde S Carrinho se assentava, passando ali, longas e preguiosas horas a enrolar seu inseparvel cigarrinho de palha que pitava com prazer, enquanto lia O Lpis ou cochilava entre uma tragada e outra. Por fora do hbito, nem bem terminava de fumar um cigarro e j estava a enrolar outro, enquanto aguardava a clientela chegar. s vezes ali permanecia, horas e horas, por inteiras e modorrentas tardes, sem que uma vivalma surgisse. Eram comuns os seguintes dilogos entre S Carrinho e sua clientela:
- Apis , S Carrin dizia-lhe um enforcado justificando atraso de pagamento de um fiado qualquer -, num truxe hoje o dinhero de mec! Mais eu picisava renov o meu crediro. Os minino e a Maria to picisano de ropa e as roa acuma o sinh sabe, num deu nada nessa coita.
- Tem problema no, Joaquim respondia assertivo -, voc j me provou que bom pagador e se no me traz o dinheiro hoje, com certeza me trar amanh ou quando tiver. Pode levar o que precisa que eu debito pra voc.
Mas nem sempre era assim. S Carrinho sabia, como ningum, identificar um caloteiro a quilmetros de distncia. Alis, dizia ele, que o homem traz escrito na testa o que . Ele tinha verdadeira ojeriza pelos que no honravam seus compromissos. E nem precisava que fosse com ele. Se ele soubesse que algum deu algum calote na praa j ficava puto da vida. Para que o individuo casse em seu conceito e fosse jogado na vala comum dos mal pagadores no era preciso fazer muito. Bastava que o infeliz deixasse de dar uma satisfao antes de a dvida vencer. Ai o bicho pegava para o lado do caboclo.
- E ai, Man, quando que voc vai me pagar sua continha? No adianta se agachar do outro lado da rua, porque eu estou te vendo!
- Uai, S Carrinho, eu nem tinha visto o senhor. Eu s estava indo at a venda do Estelito (de Oliveira Pena, irmo de S Carrinho, que tambm tinha um comrcio), para depois passar ai para trocar dois dedinhos de prosa com o senhor.
- Dedinho de prosa no vai adiantar nada, Diabo! O seu tempo para justificar de h muito j passou. Quanto ao prazo de pagar, nem se fala. Aqui comigo voc j est com a falncia decretada. Pode ser que aquela besta do Estelito ainda lhe fie alguma coisa. Ele no leva nada a srio mesmo!
Estelito, bem diferente de S Carrinho, era muito brincalho e costumava contar vantagens em rodas de amigos, onde s vezes exagerava proferindo inocentes mentiras, numa poca abenoada, onde todos eram felizes e no sabiam, pois a humanidade ainda no tinha por costume falar mal da vida alheia ou desejar a mulher do prximo.
Em paralelo as atividades de grande comerciante, S Carrinho ou Carlos de Oliveira Pena, foi Vereador e primeiro Vice Presidente da Cmara Municipal do Brejo das Almas. Amigo incondicional e grande correligionrio do fundador, o Coronel Jacinto Silveira, alm de seu fiel cabo eleitoral. Nas suas rarssimas horas vagas, ainda laborava com toda disposio como Inspetor Escolar, indicado pelo Governo. Faleceu no Brejo, em idade avanada.
...
Por vezes, dizia Sneca, a vida, por mais longa que possa parecer, torna-se demasiado curta, se ocupada e preenchida com atividades uteis, em toda a sua essncia.
E tenho dito!

Enoque Alves Rodrigues, brejeiro de nascimento e convico, que atua na rea de Engenharia, Escritor com dois livros a serem lanados, (Liderana Conquistada e Brejo das Almas em Crnicas), Colunista, Historiador e divulgador voluntrio de Francisco S, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


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Por Enoque Alves - 7/1/2012 17:34:29
SOBRE O BREJO DAS ALMAS 74 ANOS SEM O FUNDADOR

Enoque Alves Rodrigues

Brejo das Almas, 17 horas e 30 minutos do dia 8 de Janeiro do ano de 1938. Falecia, depois de padecer por doze anos do mal de parkinson, o fundador e maior benemrito da Cidade de Brejo das Almas, ou Francisco S, localizada no norte de Minas, Jacinto Alves da Silveira. Portanto, amanh, Domingo, 8 de Janeiro de 2012, completar setenta e quatro anos de seu regresso Ptria Espiritual.

A doena de Parkinson idioptica, ou seja, uma doena primria de causa obscura. H degenerao e morte celular dos neurnios produtores de dopamina. , portanto, uma doena degenerativa do sistema nervoso central, com incio geralmente aps os 50 anos de idade. uma das doenas neurolgicas mais freqentes visto que sua prevalncia situa-se entre 80 e 160 casos por cem mil habitantes, acometendo, aproximadamente, 1% dos indivduos acima de 65 anos de idade. Apesar do muito que j se pesquisaram, decorridos quase duzentos anos do descobrimento desta gravssima enfermidade por James Parkinson, pouco ou quase nada se sabe sobre suas causas.

O fato que, deve-se a ela, todas as conseqncias que justificam doze anos de sofrimentos impetrados ao grande e at hoje insubstituvel benfeitor de Brejo das Almas. Tudo comeou quando ainda vereador em Montes Claros, quando lutava pela aprovao de mais um projeto que beneficiaria o Brejo, sentiu-se as primeiras dores no dedo indicador da mo direita, a qual insistia em no obedecer aos seus comandos. Seu colega de partido, o mesmo do Dr. Honorato Alves, Antonio Ferreira de Oliveira, o Niquinho Acar, ou Farmacutico, quem conta com todos os detalhes, o inicio desse verdadeiro tormento, que, como j mencionei, doze anos depois ceifaria a vida de quem tanto fez pelo Brejo.

Jacinto Alves da Silveira, sobre o qual muito j falei, foi, at hoje, o nico capaz de reunir todas as caractersticas que habilita qualquer individuo a afirmar ter vivido a vida em toda a sua plenitude. Descendente de famlias de Ouro Preto, assim como os Pena, Oliveira, Dias, Xavier, entre outras, esta ltima pertencente a genealogia do grande Mrtir da Inconfidncia, o Tiradentes, Jacinto, um dos muitos filhos do velho Fazendeiro Jos Alves da Silveira, nasceu no Brejo, l pelos idos de 1871, quando o Brejo sequer sonhava em ter as feies de hoje. Ao contrrio, assemelhava-se, muito mais, daquele dois de novembro de 1704, quando no passava de uma vasta mata s margens dos rios Verde Grande, So Domingos e Gorutuba, onde Antonio Gonalves Figueira fincou pela primeira vez, ao lado da Lagoa das Pedras, o imenso cruzeiro que marcaria para sempre, no tempo e no espao, o inicio de uma nova era, de uma promissora civilizao e de uma progressiva Cidade. Jacinto, ao contrrio de seus outros irmos que eram todos Fazendeiros, desde a idade tenra, apesar de rstico, j despontava para as coisas da intelectualidade, quando lia, escrevia e realizava clculos difceis at mesmo para quem tinha a mais polida cultura. Era, portanto, desde aqueles tempos, um iluminado, na mais clara e lmpida definio do termo.

Bonito, com um metro e oitenta de altura, bigodes bem fornidos, cabelos cortados a escovinha, trajando-se sempre de brim cque, o belo mancebo Jacinto Silveira conduzia, juntamente com outros pees, grandes manadas de gados que eram vendidas na cidade de Curralinho, hoje, Corinto, no norte de Minas Gerais. Jovem ainda conheceu e casou-se com a normalista Maria Luiza de Arajo, na velha Matriz de Montes Claros, no dia 16 de Novembro de 1895. Maria Luiza foi durante toda a vida, sua fiel e inseparvel companheira, a qual seria responsvel pela conduo dos destinos do povo brejeiro no campo da educao e cultura, enquanto Jacinto preparava esse mesmo povo na poltica e principalmente para a sua emancipao administrativa do Brejo, que ocorreria em 1923/24. A Cmara compunha-se dos seguintes vereadores: Padre Augusto Prudncio da Silva, Francisco Fernandes de Oliveira, Jos Dias Pereira Zeca, Joo de Deus Dias de Farias e Rogrio da Costa Negro, este ltimo, um grande comerciante do ramo de tecidos.

Lutador, pelos direitos de seu povo, probo, ntegro, transparente, correto em todas as suas atitudes, honesto at a medula, numa poca em que a mosca varejeira sequer sonhava sobrevoar o mundo da poltica, Jacinto Silveira conduzia os destinos do povo Brejeiro pelos caminhos da retido, assim como Moiss do Egito conduzia seu povo rumo Terra Prometida. Jamais perdeu uma s eleio. O Brejeiro daqueles tempos sabia reconhecer os valores incontestveis de Jacinto e o tinha como a um verdadeiro Lder. E como tal se comportava: jamais deixou de falar o que pensava. Nunca se utilizou de meias palavras. Era homem de posies definidas. No era de ficar sobre o muro. Educao casta e polida sabia ser enrgico no tempo certo. Muitos foram os Governadores de Estado que se utilizaram do prestigio de Jacinto junto aos Brejeiros.

Rico, dono de muitas fazendas de gado e cultivo, casas comerciais e muitas outras fontes de renda, Jacinto Alves da Silveira, homem que durante toda a existncia sempre teve a casa cheia de amigos e correligionrios, que sem nenhum apego s coisas materiais, ajudava, com recursos prprios a todo e qualquer Brejeiro; bancava, do prprio bolso, vrios candidatos em campanhas eleitorais carssimas. Depois de ter custeado com recursos prprios a emancipao do Brejo das Almas, tendo inclusive doado prdios para comporem o conjunto arquitetnico do Municpio, condio esta indispensvel a sua homologao, j no final da vida, corrodo pela enfermidade degenerativa, ainda era obrigado a arrastar-se de sua casa at a Prefeitura, onde dava expedientes, deixando-nos o exemplo o qual sigo at hoje, de que no trabalho onde nos enobrecemos e dignificamos. Morreu, no entanto, pobre e praticamente s, tendo a seu lado apenas alguns familiares.

No sem motivo que um de seus filhos, o tambm Coronel Geraldo Tito Silveira, assim se expressa em um de seus lindos libelos, referindo-se as injustias das quais fora vitima o pai: Nos ureos tempos de sua vida abastada, quando ele plantava as sementes de uma pequena fortuna, depois esbanjada nos ardores da poltica, feita somente para o bem-estar de outrem, sua casa solarenga vivia repleta de amigos. At ento, no se via pela estrada real, que ia dar Bahia, uma s pousada ou hospedaria, de modo que os forasteiros que por ali passavam procuravam a casa do Coronel Jacinto, onde recebiam todo o conforto, gratuitamente. Muitas dessas pessoas eram acometidas de terrveis doenas inclusive febre brava!

E arremata o grande escritor do norte de Minas, Geraldo Tito Silveira, agora, lamentando a grande injustia da qual foi vtima o pai, Jacinto Alves da Silveira. Alis, muito j falei sobre tal injustia que talvez, um dia, ainda nesta minha atual encarnao, veja corrigida: Como corolrio da ingratido dos homens, mudaram o nome de Brejo das Almas, no para perpetuar o nome de Jacinto Silveira, na terra que engrandecera, mas para honrar o nome de outro Brasileiro, ilustre, verdade, mas que nada fizera por ela. Refere-se ao Dr. Francisco S, nascido no Municpio, na fazenda Brejo de Santo Andr, que foi Ministro da Viao e levou a estrada de ferro central do Brasil at Montes Claros, que muito lhe deve.

No sei, at porque de h muito no vivo mais no Brejo e no participo de seu dia-a-dia, se a Sociedade Brejeira, movida por nobres sentimentos de gratido, ou, qui, polticos locais, se lembraro de promover neste dia 8 de Janeiro, alguma cerimnia, por mais simples que seja, ainda que um singelo minuto de silncio, quele que foi, e ser, o primeiro e mais importante Brejeiro. O maior de todos, porque deu tudo de si, at a prpria vida, coisa que hoje no vejo ningum fazer, para que o Brejo das Almas ou Francisco S, figurasse, no mapa de Minas e no Mapa do Brasil, como um dos progressivos Municpios Brasileiros.

Depois de permanecer longo tempo na erraticidade, acha-se, atualmente, no meio de ns. No dentro da poltica que, convenhamos, mudou muito, e para pior, desde os seus tempos. Servidor incansvel e dedicado que jamais fugiu luta, no obstante toda a ingratido com a qual lhe brindaram, acreditem cticos de planto, em uma coisa: Se hoje se realizasse uma chamada geral convocando homens de bem a colaborarem com qualquer causa que tivesse por objetivo o bem comum, a justia social, a luta contra as desigualdades dos menos favorecidos, algum para expurgar e limpar a corrupo e tudo o que h de podre no mundo da poltica, ao se pronunciar o nome Jacinto Alves da Silveira! Com toda certeza ouviramos, prontamente, em algum lugar do Brasil, a voz firme, forte e determinada do Coronel: Presente. Eis-me aqui!

E tenho dito!

Enoque Alves Rodrigues, brejeiro de nascimento e convico, que atua na rea de Engenharia, Escritor com dois livros a serem lanados, (Liderana Conquistada e Brejo das Almas em Crnicas), Colunista, Historiador e divulgador voluntrio de Francisco S, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil. Visitem meu blog: Pra variar, sobre Francisco S: http://enoquerodrigues-earodrigues.blogspot.com/ http://www.facebook.com/profile.php?v=info&edit_info=all&ref=nur


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Por Enoque Alves - 24/12/2011 17:19:15
BOAS FESTAS. FELIZ NATAL E TIMO 2012

Enoque Alves Rodrigues

Durante este ano de 2011 fru, quase que semanalmente, do privilgio de conviver com vocs, meus amigos e conterrneos que muito me honraram com suas valiosas visitas aos meus blogs, ao MontesClaros.com e ao City-Brasil, que utilizo, regularmente, para divulgar Francisco S, ou Brejo das Almas, minha Cidade de nascimento. Sempre procurei deixar claro e definido o amor que nutro pelo Brejo e sua gente, mesmo sabendo que o Brejo no nenhum Paraso na Terra. Que o Brejo, assim como qualquer outra Cidade em fase de desenvolvimento, est exposto a todas e quaisquer mazelas sejam elas de ordem natural ou administrativa, predominando, evidentemente, a segunda. muito fcil, bom e maravilhoso, -diro alguns que possuem o vezo de achar que tudo est ruim mas que nada fazem para que as coisas melhorem e que sabem que de h muito no vivo no Brejo-, amar o inferno, se visto e observado de longe, ou de preferncia, do Cu. A estes eu recomendo a seguinte frase:

No perguntem o que o Brejo pode fazer por vocs, mas o que vocs podem fazer pelo Brejo, diria John Kennedy, certamente, se brejeiro fosse. Mesmo longe, procurei a vida inteira colaborar, ainda que singelamente, com a divulgao deste meu pequeno torro.

Agora, com alvissareiras esperanas renovadas pela aproximao de mais um ano, que seguramente nada ir me acrescentar se eu no continuar indo luta. Por ter sido durante toda a vida um osso duro de roer. Um duro na queda. Um sujeito de tutano que jamais fugiu do pau e das origens. Que, motivado, determinado e disposto vinte e quatro horas, levanta de madrugada todos os dias e, cantando, dirige-se ao trabalho, em busca de resultados enquanto muitos ainda dormem e reclamam da vida. Que mesmo nos momentos mais difceis e espinhosos, com os ps doloridos e com a mente em frangalhos, mas sempre firme e com Deus frente, foi luta sorrindo enquanto muitos tombavam chorando sem sequer sarem do lugar. Que mesmo hoje, realizado, cultiva hbitos simples de um matuto brejeiro que conseguiu, galhardamente, que a vida lhe proporcionasse algum conforto. Que, bia fria em infncia, vendendo dias de trabalho nas muitas Fazendas do Brejo, comeu, com colher de pau, angu de fub com molho de feijo de corda e quiabo na mesma gamela compartilhada com outros camaradas enquanto o suor do rosto respingava sobre aquele abenoado sustento. Que enquanto peo, dormia em pores de obras em construo, com cheiro de creolina, com a mesma f, perseverana, coragem, e confiana de que dias melhores viriam. Finalmente, como profissional de sucesso, conquistou, com humildade, o respeito de muitos em todas as reas por onde trafegou, trafega e milita. Que tem em seu diminuto rol de amigos, somente pessoas sinceras e leais, vinculadas ao bem comum e comprometidas at a medula com os mais puros, slidos e elevados princpios morais da verdadeira tica e ilibada conduta, etc. Esse cara, do qual sou f de carteirinha, que possui o RG de n M-215.967 (sendo o M de Minas), de quem falo com muito orgulho, sem rodeios ou falsa modstia, por incrvel que possa lhes parecer, sou eu prprio. Estranho, no! Nem tanto. As referncias que fao a minha pessoa no tem o sentido ftil do endeusamento fcil ou autopromoo gratuita e deselegante. Tenho plena conscincia de minha pequenez e do quanto ainda tenho que evoluir no sentido de atingir a magnitude de um simples grozinho de areia. A lisonja que endereo a mim, cuja histria de vida conheo de cor e salteado e que hoje de domnio pblico, tem apenas e to somente a finalidade de afirmar que QUERER PODER. No importam as dificuldades que a vida coloca em nosso caminho. O que conta mesmo a nossa capacidade, criatividade, determinao e vontade prpria de transp-las. Ningum nasce, vive ou morre fraco. Todos ns, salvo aqueles que vieram cumprir misses especficas, nascemos em igualdade de condies, munidos de todas as nossas potencialidades as quais nos cabem estar sempre exercitando no sentido de que no se adormeam, no se enferrujem e no nos transformem em parasitas. Ao Mestre do Madeiro, Governador Supremo do Orbe Terrestre, no foi dado nenhum milmetro de QI (Quociente de Inteligncia) alm do que ns, seus iguais, fomos dotados. Ele apenas os utilizava de maneira sbia e raciocinada. Nada mais que disso. Mesmo assim, quantos prodgios Ele operou. Esta minha mensagem, que a principio lhe pareceu estranha ou arrogante por me referir a mim, na primeira pessoa, na verdade, meu caro amigo, ela todinha para voc. Jamais pense em desistir de seus ideais. No desperdice seu tempo atirando por todos os lados. Se ao invs de voc ter mil projetos mirabolantes e inexeqveis em sua mente, tenha apenas um, desde que seja passvel de execuo. Pare e pense. Por mais simples que algum trabalho lhe parea, no o inicie sem que antes trace uma meta estabelecendo inicio, meio e fim. No estabelea para voc ou os outros prazos os quais no vo conseguir cumprir. Isso pode te levar ao descrdito. O homem tem que ter e honrar a palavra. Lute, mas lute com todas as suas foras. No se deixe derrotar pela acomodao. O mundo, as oportunidades e os sucessos, pertencem aqueles que lutaram. V em frente. No conduza sua vida olhando no retrovisor. Viva um dia de cada vez. No tenha medo de nada. No se preocupe em querer agradar a algum. Seja natural. No perca seu tempo com aquilo que no lhe v d retorno. Caso o critiquem, no responda com tergiversaes. Seja objetivo. V direto ao ponto. Analise se as criticas so realmente fundadas e, caso positivo, faa sua correo e procure, independente do carter de quem o criticou dar o verdadeiro feedback embasado-o na mais pura realidade. Procure no deixar nada sem resposta. No mintas, jamais. Se voc mentir uma vez ser obrigado a mentir sempre. A mentira o mais grave desvio de conduta do qual dificilmente o mentiroso consegue se livrar.

Ao finalizar esta minha milionsima, cansativa e redundante declarao de amor ao Brejo e ao meu povo. Por faltarem-me palavras mais apropriadas, o que seria, creio, compreensvel por vocs que me toleram a tanto tempo, se se considerarmos que j estamos no final do ano, onde muitos neurnios tive que queimar para chegar at aqui e que somente a partir de hoje entro em frias para fazer a devida reposio de carga das j cansadas mas ainda recarregveis baterias, lano mo da seguinte estrofe de uma das milhares de prolas do rei Roberto:

Nunca se esquea, nenhum segundo. Que eu tenho o amor, maior do Mundo. Como grande, o meu amor, por voc!

Brejeiros, no chorem. Ano que vem tem mais bestagens. Eu voltareeeeeeeeei!

Feliz Natal e um Ano de 2012 repleto de amor, paz e muitas realizaes na vida de todos vocs meus amigos e conterrneos.

Int!

Enoque Alves Rodrigues, brejeiro de nascimento e convico, que atua na rea de Engenharia, Escritor com dois livros a serem lanados, (Liderana Conquistada e Brejo das Almas em Crnicas), Colunista, Historiador e divulgador voluntrio de Francisco S, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil. Visitem meu blog: Pra variar, sobre Francisco S: http://enoquerodrigues-earodrigues.blogspot.com/ http://www.facebook.com/profile.php?v=info&edit_info=all&ref=nur


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Por Enoque Alves - 10/12/2011 09:20:11
SOBRE O BREJO DAS ALMAS SIMPLCIO, O MASCATE.

Enoque Alves Rodrigues

Longos anos se passaram desde que o Bandeirante Antonio Gonalves Figueira e toda a sua comitiva se aportaram, em um triste e melanclico dia de finados, nas antigas plagas de So Gonalo. Ali, naquela ocasio como de conhecimento de todos, segundo nos relatam historiadores, fincaram-se um velho cruzeiro, confeccionado em madeira tosca, ao redor do qual se iniciou a povoao daquelas terras, que mais tarde se transformariam em freguesia e muitos anos depois, em Cidade, a qual chamaria de Brejo das Almas e depois, Francisco S, em justa homenagem ao grande Ministro da Viao e Obras Pblicas, nascido na Fazenda Brejo de Santo Andr, nas imediaes.
Transcorridos mais de dois sculos desse evento, o progresso ainda capengava e insistia em no atingir aquelas bandas. Mesmo depois de o grande estadista levar at Montes Claros a ferrovia que revolucionaria todo o Norte Mineiro, o Brejo das Almas, qui por no fazer parte daquele promissor circuito frreo, ou por situar-se a considervel distncia de Montes Claros, ao qual fora, outrora, vinculado, pouco se desenvolvia. Os transportes de mercadorias eram feitos de maneira precria, sobre burros, carroas e carros de bois. No entrarei nos detalhes da histria devido eu prprio j t-la contado vrias vezes, at por que no este o objetivo desta crnica. Abro esse parntese somente para informar aos jovens mancebos e lembrar aos velhos ancios que no faz muito tempo, os confortos que hoje usufrumos, simplesmente inexistiam. Mesmo pairando, nos dias atuais, algumas sequelas rudimentares sobre os nossos costumes, nada nos remete aqueles tempos. O grande e inesquecvel Geraldo Tito Silveira, a quem tive o privilgio de conhecer, em uma de suas valiosssimas obras, relata com riqueza de pormenores, o que ocorreu na Cidadezinha do Brejo das Almas quando a ela adentrou o primeiro veiculo a combusto: um velho FORD de bigodes. Foi um Deus nos acuda. Houve mesmo at quem o amaldioasse dizendo que aquilo era coisa do diabo. Matronas que se achavam debruadas nas janelas ao v-lo faziam o sinal da cruz e fechavam-nas, imediatamente. Crianas que estavam brincando nos terreiros eram empurradas para dentro de casa. Alguns mais afoitos, geralmente os mais usados, ou melhor, os mais velhos, organizavam procisses e saiam atrs do veiculo, onde o motorista a caminho de Salinas ou Gro Mogol, quase morria de medo da turba em fria. Restava ao pobre do chofer contra-atacar com rezas brabas implorando ao So Cristvo, protetor daquela reduzidssima espcie, para que o FORDECO no abrisse o bico antes de galgar subidas ngremes ou sem que primeiro se atravessasse a curva da morte. Mas quem foi que disse que os santos esto sempre de planto e a nossa disposio para nos atender sempre que deles necessitamos? Ledo engano: na maioria das vezes os biches que cuspiam fogo no conseguiam atravessar nem mesmo a mais insignificante lombada natural e antes de atingir as subidas mais importantes, empacavam-se, qual jumento ruim, e ai, no tinha jeito, a turma enfurecida partia pro pau, at que uma providencial interveno de alguma autoridade local relevante a acalmasse.
No de hoje que as relaes humanas entre iguais e coisas so de amor e dio. Ama-se na mesma proporo em que se odeia e vice-versa. Assim, enquanto o Brejeiro no se familiarizava com aquela novidade, at mesmo pela falta de informao, esconjurava o dia em que o alemo Karl Benz, criou o primeiro automvel em uma tarde de outono de 1885 que foi patenteado neste mesmo ano e no ano seguinte 1886, fundou a Mercedes. Quando, finalmente, os pesades conseguiram romper aquele impacto inicial do medo, quando os brejeiros passaram a conviver com alguma assiduidade com aquelas geringonas, apaixonaram-se, perdidamente. Cada um, mesmo no sabendo com quais meios e recursos, queria, a todo o custo, comprar uma daquelas mquinas. Os pais de Alfredo e Francisco no foram os primeiros, como alguns afirmam, a ter um carro em suas garagens no Brejo; at porque, naquele tempo, a fazenda onde eles viviam em criana, no pertencia ao Municpio do Brejo das Almas. Darcy, fazendeiro e poltico regional influente, foi quem teve esta primazia. H, no entanto, controvrsias, as quais respeito e no discuto, at porque me levariam do nada a lugar algum.
Chega de carros e vamos voltar para a realidade do inicio destas mal traadas linhas. Simplcio, era esse o seu nome, vivia de mascatear. Morava na Vila Vieira, prximo a Lagoa, onde deixava seus animais pastando. No lombo do burro varava dias e noites, dando um duro dos demnios, para no final do ms levar alguma merreca pra casa. A vida de caixeiro viajante ou mascate naquele tempo no era fcil. Com seus dois burros, sendo um para montaria e o outro para cargas, comprava em armarinhos de Montes Claros, botes, agulhas, linhas, dedal, elsticos, anguas, combinaes, vus, batons, esmaltes, lixas, espelhos, perfumes e cosmticos baratos, pentes e quando o dinheiro dava, algumas peas de tecidos como morim e tergal. Embrenhava-se nos sertes de Minas e, quando menos esperava, involuntariamente, estava em Monte Azul, l no extremo, prestes a atravessar a ponte para o Estado da Bahia. cho, meu nego. Ele tinha uma forma natural e muito peculiar de cultivar a clientela e fazer negcios. Ao chegar s paragens, procurava uma sombra onde amarrava os burros, geralmente em frente Igreja. Com uma enorme cabaa aberta ao fundo, com pequena fenda frente onde punha a boca, gritava aos quatro ventos, num portugus sofrvel que faria Cames mover-se no tmulo: Al povo de Sun Gerardo, Simprisso Mascatero cheg trazeno procis as nuvidade deretamente da cedade princesa do norte... Nis tem de tudo um poco. Nis tem buto pra mui butu ropa, pano pra mui faz vistido pra cubri as vregonha. Nis tem burracha pra sigur cirla de home e de mui... Cumbinao pra mui potreg os peito. Vio pra cubri cabea de mui crente. Batom pra dex mui cuns beio vremeio quinm carmim. Pente pra mui pinti cabelo. Lixa pra mui lix unha. P de arroiz, gua de chero, tarco e prefumo pra mui fic bunita e cheroza e num lev chifro. Nis tem tamm ismarte pra mui pint unha das mo e dos p... Agia, e retroze pra mui custur ropa e dedr pra mui num fur os dedim. Simplcio era uma figura. Ele falava assim mesmo e todos o entendiam, porque, era esse o dialeto do lugar. L em So Geraldo, naquele tempo um pequenino povoado, Simplcio quando chegava, amarrava seus burros debaixo de um grande p de umbu que ficava exatamente aonde? Dou-lhe uma. Dou-lhe duas e dou-lhe trs: quase dentro do Cemitrio! E porque eu sei disso? Por que a nossa casa, assim como a pequena Escola onde minha me lecionava, distavam apenas alguns passos do dito cujo. Simplcio amarrava os burros l, que ficavam sozinhos pastando e ia vender suas mercadorias em frente a pequenina Igreja. A, ns, moleques aproveitvamos para fazer a festa. S pra sacanear, enquanto Simplcio anunciava suas bugigangas, ns, capetas em forma de guri como dizia a msica, desamarrvamos os animais e depois de caminharmos com eles por centenas de metros dentro da mata, finalmente os amarrvamos em outra rvore, bem longe, onde jamais as vistas de Simplcio alcanariam. Retornvamos para as proximidades do p de umbu e escondamos atrs das moitas, afim de que pudssemos nos esbaldar, bem de perto, com o desespero e xingamentos de Simplcio. Aps esperarmos, pacientemente, por vrias longas horas, l vinha o pobre do infeliz. Simplcio, ainda distante, notou que os burros no estavam mais l: Oh, Meu sinh Jisuis, onde est meus burro? Ser que eles se asortaram da pranta? Mais diabo, num impussive, apusqu eu amarrei eles cun fora. Isso num tem cabimento apusqu sino eles tamm se asortava das otras arve nos otro lug. Capeta, apusqu isso s acuntece aqui em Sun Gerardo? Ser qui arguma mardio desse sumutro? d, agora qui t vno qui isso acunteceu a muincho tempo apusqu os bichim nem tivro tempo de cag aqui. Sno anssim eles vai t longe. Oh meu bum jisuis, oc qui tamm and num jumentim cum seus pai me ajuda a encontr os meu! Antes que maiores aflies se apoderassem de Simplcio, surgamos como se tivssemos brotado do nada e, de maneira natural e dissimulada, nos apresentvamos para ajudar: Seu Simplcio, o senhor est procurando pelos seus burros? T, sim, misra, apusqu, ocis viu? Sim, ns vimos. Estvamos caando pre e deparamos com eles debaixo de uma rvore h um quilmetro daqui! Antonce vamo faz o siguinte, ocis me leva l pra iu traz eles de vorta! Sabe, seu Simplcio, respondamos todos, procurando valorizar o prprio passe, bem que ns gostaramos muito de ajudar, mas temos que nos preparar para irmos Escola! Diabo docis cum esse nigo de iscola. Quanto mais istudia mais burro fica. Vamo cumigo l nos burro qui quando nis vort cum eles eu v d uma grujeta procis e ai o ganhame de todos nis, apusqu amanh eu tenho qui amanhec, niguci e drumi em Caarema!
Era tudo que queramos ouvir. Pegvamos na mo de Simplcio e, como se estivssemos praticando a primeira boa ao do dia, o levvamos at seus burros. Ele, agora feliz e reconfortado, abria aquele sorriso. Depois de nos dar alguns trocados, para comprarmos bolinhas de gude, ainda nos elogiava: Cuntinue anssim meus fio, cum esse curao bundoso e sem nima mardde. Num sem mutivo qui Jisuis, o fio do hme fal: Dichae qui vindi a mim os piquinino apusqu deles os reino do Cu!
!
Por certo, a mxima, exaltao grandiosa da pureza dos inocentes, proferida pelos Lbios Santos, Imaculados e Misericordiosos do Divino Mestre do Madeiro, O Filho de Maria e Jos, que por todos ns derramou Seu Precioso Sangue no Glgota, no se referia aqueles pobres diabinhos de So Geraldo. No fazamos jus a ela. Se Ele ali estivesse, certamente que dessa forma a proferiria: Pelo amor de Deus, afastai de Mim esses tenebrosos capetinhas, porque no so deles o Reino dos Cus!

Enoque Alves Rodrigues, brejeiro de nascimento e convico, que atua na rea de Engenharia, Escritor com dois livros a serem lanados, (Liderana Conquistada e Brejo das Almas em Crnicas), Colunista, Historiador e divulgador voluntrio de Francisco S, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil. Visitem meu blog: Pra variar, sobre Francisco S: http://enoquerodrigues-earodrigues.blogspot.com/ http://www.facebook.com/profile.php?v=info&edit_info=all&ref=nur


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Por Enoque Alves - 3/12/2011 19:07:10
AS JOIAS RARSSIMAS DO BREJO - INTRODUO

Enoque Alves Rodrigues

H algum tempo atrs finalizei a serie de crnicas As Joias Raras do Brejo, a qual foi iniciada com As Joias do Brejo, por onde desfilaram personagens que de uma forma ou de outra se destacaram cada qual a seu tempo e que muito realizaram ou ainda realizam, no sentido de tornar o nome de nossa querida Cidade de Francisco S, ou Brejo das Almas, conhecido no cenrio Nacional. A guisa de ilustrao, apenas para volver ao tema, quero ressaltar que no campo do empreendedorismo, solidariedade, autoridade, dedicao e respeito a sua gente, coloquei entre os ilustres personagens de As Joias do Brejo, como figura de maior destaque nesta rea em minha modesta concepo, o inesquecvel Zeca Guida ou o Zeca de Cana Brava, ou Jos Dias Pereira.

J nas Joias Raras do Brejo, no campo Literrio e Cultural, pela didtica simples, fiel e sintonizada com as coisas e pessoas da regio, com muitas das quais tive o privilgio de fruir em infncia do convvio, destaquei a grande e inigualvel, Karla Celene Campos. No entanto, mencionada srie foi iniciada com a Dona Yvonne Silveira, pelos atributos inquestionveis nesta e em todas as reas da Literatura, cuja magnitude robusta e resplandecente, dela assim como do seu esposo Olyntho, que tambm integra esta srie, a minha pequenez de matuto brejeiro de cabedal cultural insignificante, que mesmo tendo tido o privilgio de alisar bancos de importantes e renomadas escolas, no consegue mensurar. Eu diria que os atributos intelectuais com os quais a Dona Yvonne assim como Olyntho foram dotados, esto muito acima do que supe a minha v filosofia. muito para a cabea indouta de um sujeito de intelecto mediano e esclarecimentos parcos. Talvez, aps eu subir e descer por vrias vezes ou passar por umas trezentas reencarnaes, quem sabe estarei apto a definir com a clareza necessria e exatido de pensamento compatvel, a dimenso exata do carter, bondade e dedicao desses dois grandes e incansveis colaboradores a quem o Brejo tanto deve. Conjugo, para ambos, o verbo no tempo presente porque no h diferena de esfera para os que so bons e puros.

Fiz esse introito apenas para dizer que conforme eu havia prometido anteriormente, dividiria aquelas narrativas em trs etapas: As Joias do Brejo, As Joias Raras do Brejo e finalmente, As Joias Rarssimas do Brejo, esta ltima srie a que estarei levando a efeito no primeiro trimestre de 2012. Antes, porm, devo antecipar minhas justificativas, pois com a relativa certeza dos mortais, no conseguirei levar adiante a disciplina sequenciada. Atualmente me encontro envolvido com uma infinidade de grandes projetos que esto consumindo quase todo o tempo deste pobre quase ancio.

A prxima srie As Joias Rarssimas do Brejo ao contrrio das anteriores ser mais longa. No entanto, os episdios compostos por pessoas, locais histricos e fatos que tiveram grande relevncia para a vida da Cidade e de seus Cidados, sero mais curtos e sucintos, dentro do possvel, desde que isso no venha desvirtuar os objetivos do entendimento assertivo dos fatos narrados.
certo que devido at aqui eu ter retratado muito mais os fatos e pessoas do antigo Brejo das Almas ou Francisco S, dispenderei, desta vez muito mais tempo com os relatos das localidades histricas e importantes do Brejo e suas adjacncias desde a sua fundao, que propriamente com seus personagens. Assim sendo, personagens, cuja vida detalhei em suas minucias como, por exemplo, o Padre Augusto Prudncio da Silva, Jacinto Alves da Silveira, Geraldo Tito, Feliciano Oliveira, entre outros, no sero abordados. Talvez, apenas para fazer alguma correo biogrfica que porventura a histria no registra.
No terei nenhuma pretenso de monopolizar a verdade do que vier a relatar. Tampouco alimentarei a v iluso de que reunirei em torno de mim unanimidades que massageiem o meu ego. Ele j se encontra de h muito massageado pelos afagos de todos aqueles que me prestigiam com a leitura das bestagens que escrevo. Fao isso por puro prazer, pois entendo de muito bom grado dividirmos com os outros um pouquinho do conhecimento do qual somos portadores. Por outro lado, a fonte de onde tiro a minha subsistncia atravs do esforo incessante, est onde sempre esteve: Dentro da Engenharia. ela que me suga. por ela que dediquei todos os meus longos anos de estudos e aperfeioamentos que perduram at hoje. definitivamente ela que me proporciona a vidinha simples e pacata, mas muito digna que levo. Ou seja, escrevo estas bobagens pelo compromisso que tenho para com minha conscincia, minhas origens, minha Terra e minha gente. Por puro prazer, diria.

Falando em escrever, informo a muitos que tem me perguntado, que o meu primeiro livro Liderana Conquistada, que est sendo publicado pela Editora Livre Expresso, com data de lanamento a ser definida, ao contrrio de quase tudo que escrevo fora da Engenharia, no sobre o Brejo das Almas. H somente uma foto area do Brejo em sua contracapa com a legenda foto de Francisco S, ou Brejo das Almas, Cidade de nascimento do autor. A temtica sobre liderana, otimismo e motivao no trabalho e traz em seu contedo uma srie de episdios por mim vivenciados dentro dos canteiros de Obras desde o inicio de minha carreira. No entanto, alegrem-se, brejeiros, pois o prximo livro que estarei publicando, O Brejo das Almas em Crnicas como o prprio ttulo j sugere, todinho sobre o Brejo das Almas, claro: L desfilaro uma coletnea de crnicas inclusive inditas que escrevi at aqui sobre esta minha Cidade. O lanamento, no entanto para o ano que vem. Toda a renda e direitos autorais deste livro eu estarei revertendo para instituies localizadas no Brejo. Por isso, como no vivo no Brejo, no sei, sinceramente, hoje quais instituio seriam agraciadas. Assim sendo, quando estivermos prximos do lanamento, farei uma simples e rpida consulta aos brejeiros locais para me indicarem as instituies as quais, antes de eu definir o direcionamento dos recursos, estarei visitando.

Aproveito este espao para informar ao Mathias e Clia Dantas, meus conterrneos que hoje vivem em Montes Claros, que lhes enviei via correio, apontamentos que disponho sobre Joo Catulino Andrade. Ficaria muito pesado o envio por e-mail. Caso necessitem de mais algum dado complementar, estou disposio. Claro, desde que me dem o prazo necessrio para que eu faa os levantamentos em minha biblioteca. Como vocs sabem, devido minha exigidade de tempo preciso que me avisem com muita antecedncia. Lembrando que ultimamente, o grande senhor da razo no me tem sido um bom aliado. Falta-me tempo para quase tudo. Como procuro ser pontual com minhas coisas, prefiro muitas vezes no assumir compromissos que podero levar-me ao no cumprimento no tempo exigido. Realmente, como vocs disseram, no h quase nada disponvel para consultas na internet a respeito dos principais vultos de nossa Cidade. Entendam que isso assim mesmo. como a crnica que escrevi trs semanas atrs A importncia da Mdia Eletrnica na Divulgao de Francisco S: http://enoquerodrigues-earodrigues.blogspot.com/2011/11/importancia-da-midia-eletronica-na.html. Aos poucos, graas a iniciativas de obstinados brejeiros que respiram ou j respiraram um dia os ares dessa nossa terra, faro com que ela seja conhecida muito alm do que imaginamos, em pouco tempo. No bojo desse rompimento de limites fronteirios, viro os nomes que um dia por ela lutaram, tombaram, levantaram e seguiram adiante, tornando-a no que hoje . A histria prodiga em justia tardia. A NET veio em boa hora para agilizar esse processo.

Geraldo Magela, Antnia, Carlos e Dilermando, obrigado pelas palavras de elogios a minha humilde pessoa. Estejam certos de que no sou merecedor. Acho que vocs as enderearam a pessoa errada. Quanto s informaes que me solicitam sobre a Doutrina, desculpem-me, mas no posso lhes passar nesse espao. Esse blog eu o utilizo somente para divulgar o Brejo e todo o material postado aqui tambm enviado para divulgao em minha coluna no MontesClaros.com, cujos critrios jornalsticos no contemplam mencionada temtica. No entanto informo que mantenho h dez anos um site pelo qual divulgo a Doutrina, inclusive resultados de vrias pesquisas que realizei sobre o tema. L vocs podero encontrar vasto material. Tenho tambm um blog com esta finalidade o qual podero acessar e deixar vossos comentrios e perguntas que terei o imenso prazer em responder, claro, se eu souber. Se eu no souber, perguntarei aos Universitrios e lhes transmitirei a resposta Deles. Agora, rezem, porque se eles tambm no tiverem as respostas que vocs esperam, no nos restar outra alternativa, seno a de aguardarmos com muuuuiiiiiiita paciiiiiiiincia o nosso graaaaande momeeeento que espero, seja daqui h muiiiiitos aaaaaanos, para vermos, realmente como essa coisa toda funciona l em cima. Eu, como Mineiro cansado e Brejeiro tranquilo confesso a vocs que no tenho pressa alguma. Aqui em baixo t bo demais da conta, s e tudo indica que se eu continuar trabalhando do jeito que trabalho, qual jumento Celestino, a tendncia natural isso tudo melhorar e a, meu nego, subir pra que? Mas nem cantando. E Que os amantssimos Confrades de Doutrina e companheiros de ideal que comigo militam h quase quarenta anos me entendam e perdoem. Que assim seja! Rsrsrsrsrs.

At parece!

Enoque Alves Rodrigues, brejeiro de nascimento e convico, que atua na rea de Engenharia, Escritor com dois livros a serem lanados, (Liderana Conquistada e Brejo das Almas em Crnicas), Colunista, Historiador e divulgador voluntrio de Francisco S, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil. Visitem meu blog: Pra variar, sobre Francisco S: http://enoquerodrigues-earodrigues.blogspot.com/ http://www.facebook.com/profile.php?v=info&edit_info=all&ref=nur


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Por Enoque Alves - 26/11/2011 19:52:16
SOBRE O BREJO DAS ALMAS O COMRCIO DE ANTIGAMENTE

Enoque Alves Rodrigues


Desnecessrio seria recorrer as quase duas mil crnicas que escrevi at hoje sobre o Brejo das Almas, para me certificar de que j me referi, parcialmente, por mais de uma vez, ao tema que d titulo a minha crnica deste final de semana. Porm, no obstante reunir modesto cabedal de conhecimentos sobre isso, jamais fiz uma aluso mais profunda e compatvel com a importncia que o assunto requer e merece. Assim sendo, futuramente entrarei nesse tema, pormenorizadamente, com citaes nominais dos comerciantes e seus respectivos perfis, endereos de seus comrcios, ramo de atividade e muitas outras particularidades comerciais do Brejo das Almas de antigamente. Com isso, muitos sabero que at chegar a Casa Viena, Casa Branca e Costa Negro, de saudosa memria, para no citar os atuais, a distncia percorrida foi muito grande.

difcil at mesmo para alguns moradores do Brejo atual, diante da grande efervescncia do comrcio local, acreditar que no faz tanto tempo, o escambo era uma das principais moedas de troca no Brejo das Almas. O meu av, por exemplo, que viveu quase cem anos, muitas vezes teve que recorrer a esta modalidade, praticada pelos antigos Egpcios e todo o mundo civilizado h alguns milnios antes do nascimento do Crucificado. A numismtica inexistia. No haviam moedas cunhadas com valores monetrios predefinidos, seno o dar um bem em troca do outro. Mesmo aps a inveno da moeda na Ldia, um territrio da regio ocidental da sia Menor, hoje pertencente Turquia, no Sculo VII, a. C., esses costumes permaneceram arraigados nas entranhas da humanidade. No Brejo, ento, no era diferente.

Quando o Brejo se achava em crise, e isso acontecia com frequncia ou sempre que as secas grassavam os sertes do Norte de Minas, o povo ficava inteiramente descapitalizado. Nesse caso, o jeito mesmo, meu nego, era munir-se de uma cuia do mantimento que dispunha em casa e sair pelas ruas rezando e implorando ao So Gonalo para encontrar algum que no o tivesse. Ou melhor, que tivesse outro diferente do seu, para que houvesse o mutuo interesse da troca por necessidade. a lei da oferta e da procura s que de uma forma meio as avessas, entendeu?

Pois , se o Cidado Brejeiro estava sem capital, ou seja, sem dinheiro, sem grana, no tinha como azeitar a mquina que girava e fazia girar em torno de si todas as coisas e o comrcio de antanho. Ai a gritaria era geral. O desespero tomava conta de todos, inclusive dos comerciantes. Tinham que desovar os seus estoques de qualquer jeito para fugirem de uma perda total, pois os carunchos, famintos, no perdoavam nada, vinham detonando tudo que encontravam pela frente.

Frana tinha um comrcio cujo ramo de atividade passava a milhes de anos luz de distncia dos famosos secos e molhados. Dos comestveis. Dos mastigveis. Dos sossegam lombrigas e protozorios. O querido Frana militava no ramo dos bebveis. No, bebum, no era aguardente, no. Frana vendia remdios como injees, comprimidos, xaropes, garrafadas, rui barbo e bicarbonato para o estmago, etc., serve pra voc? Ele tinha uma farmcia que ficava na esquina do antigo Largo da Matriz, bem prximo de onde hoje se localiza a agncia do Banco do Brasil. Nos fundos da farmcia, Frana, curiosamente, mandou construir dois inusitados cercados, sendo um com tela de arame e o outro s com madeira. O primeiro logo ganhou ares de galinheiro, j o segundo, como no podia deixar de ser, transformara-se em um grande e luxuoso chiqueiro. Esses compartimentos eram utilizados a guisa de cofre. Sim, era l que Frana guardava as frias do dia, semanas, meses e anos.

Cenas que hoje deixariam qualquer um estupefato, sem nada entender ou at mesmo sair correndo, ali, sem quaisquer surpresas ou constrangimentos, aconteciam, naturalmente. Raciocine comigo: suponhamos que voc esteja dentro de uma farmcia e de repente entra algum com uma galinha, um porco debaixo do brao ou um bornal com milho, feijo ou arroz. Coloca aquilo sobre o balco, puxa do bolso de trs uma receita em papel amassado e vai logo dizendo para o Farmacutico: Mec tem esse rumdio ai pra ieu? Diante da resposta positiva, lhe pergunta: Isto custa quantas galinhas?... Quantos porcos?... Ou quantos quilos de feijo? Pois , os que me conhecem sabem perfeitamente que no tenho o vezo da hiprbole. Por isso, creiam-me, sinceramente, que era mais ou menos isso que acontecia no Brejo das Almas de ento.

Frana era um timo sujeito, mas agora andava meio chateado com sua clientela que, por no ter feito uma previdncia que lhes propiciasse um pouco de tranquilidade na doena, vivia agora abarrotando seus cercados com todo tipo de animal. O ruim de tudo isso era que aquele tipo de moeda, o pobre Frana, por mais que tentasse, no conseguia repassar aos seus fornecedores de Montes Claros. Para os caras dos laboratrios, porco, galinha, feijo, arroz, milho e outras guloseimas mais, s interessavam mesmo depois de cozidos, e no prato. Preferencialmente, se possvel, por que ningum de ferro, na boquinha. S aceitavam o pagamento em dinheiro ou ento em notas promissrias com juros altssimos.

Necessidade que faz o sapo pular ou ento, quando a gua bate na bunda neguinho pula, so ditos da sabedoria popular. Mas cuidado, pense mais e fale o mnimo possvel. No se esquea de que a lngua o chicote da bunda, diro outros. Frana pensou... Frana refletiu. Frana tinha que tomar uma providncia urgente seno a falncia seria inevitvel. Mas ele, bondoso, no queria chocar a freguesia. Ele precisava dela. Depois, como ficaria o remedin pra combater o paludismo do brejerin com a pancinha cheia de bichin? No, definitivamente ele no cometeria uma atrocidade dessas. Brasileiro pensa. Mineiro matuta. Brejeiro pensa e matuta, ao mesmo tempo. Tinha que haver uma sada... Havia.

Naquele tempo, Jacinto que era seu compadre, dava expediente na Prefeitura. A farmcia de Frana ficava exatamente no trajeto, que Jacinto fazia trs vezes ao dia, pois almoava em casa. Numa dessas passagens, Frana, desesperado, chamou-o:

- Compadre!

- Pois no. Respondeu-lhe o Coronel Jacinto, sempre educado, cordial e solcito.

- J no sei mais o que fazer compadre. No posso mais aceitar porco, galinha e mantimentos como forma de pagamento. Os meus cercados esto cheios. Se eu continuar assim vou quebrar. Mas tambm no posso deixar o povo sem remdio. O senhor precisa me ajudar!

Jacinto, homem prtico, de raciocnio rpido, desses que em frao de segundos cria, amadurece e executa uma idia, ali mesmo, sobre o balco da farmcia, pegou sua pena e num papel timbrado escreveu em letras garrafais: Com o nico objetivo de zelar e preservar a valiosa sade do povo brejeiro, com o intuito exclusivo de evitar propagao de doenas e pestes eventuais, inerentes s espcies sunas e ovinas, porcos e penosas, probo, a partir de hoje, qualquer forma de pagamento de remdios mediante tais modalidades.

Depois de assinar, entregou o papel para Frana com a recomendao: Aqui est compadre, a soluo para o seu problema. Pegue isso e cole na frente da farmcia. Quando algum chegar com porcos e galinhas, basta o senhor mostrar o cartaz. Como a maioria no sabe ler, diga que o papel lhe probe de vender remdios para receber de outra forma que no seja em dinheiro vivo.

...

Por vezes diz a sabedoria popular, quem tem padrinho no morre pago.

Enoque Alves Rodrigues, brejeiro de nascimento e convico, que atua na rea de Engenharia, Escritor com dois livros a serem lanados, (Liderana Conquistada e Brejo das Almas em Crnicas), Colunista, Historiador e divulgador voluntrio de Francisco S, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil. Visitem meu blog: Pra variar, sobre Francisco S: http://enoquerodrigues-earodrigues.blogspot.com/ http://www.facebook.com/profile.php?v=info&edit_info=all&ref=nur


69630
Por Enoque Alves - 19/11/2011 16:59:18
SOBRE O BREJO DAS ALMAS PERGUNTAS E RESPOSTAS

Enoque Alves Rodrigues

"AONDE LIBERDADE O SOPRO EXPANDES, EU QUIZERA VOAR, CONDOR DOS ANDES."

Tenho sido indagado com freqncia a respeito do paradeiro de alguns personagens por mim elencados neste espao desde os idos de 2004, quando ainda publicava no extinto site da Abril, minhas crnicas semanais sob o titulo gente, causos e coisas do brejo. Confesso no dispor hoje da menor noo de onde alguns deles se encontram. quase certo que a maioria assim como eu, j se mudou do Brejo ou, quem sabe, j esto no andar de cima o que no significa absolutamente que a minha permanncia, ainda neste plano, seja por hora extra.

Ainda que alguns menos avisados insistam, ou qui, propositadamente, pelo simples dom da retrica fcil ou para polemizar, sou nascido e registrado no Brejo, mas l vivi por pouco tempo. No obstante os fortes laos que me prendem a terra me que me serviu de bero na atual encarnao e que orgulhosamente divulgo h muito tempo, no tenho hoje no Brejo, pelo menos que eu saiba, nenhuma relao de parentesco. Fisicamente, como j disse por mais de uma vez, ningum l me conhece. Ando pelas ruas do Brejo das Almas sem ser notado. Alis, h sensao mais gostosa do que voc ser tratado como estranho em sua prpria terra? Voc j teve alguma vez o seu momento de esprito invisvel? Pois ! Voc v, mede, observa e aprecia todos que esto a sua volta e eles o ignoram inteiramente. No lhe vem ou pelo menos, fingem que no esto nem ai pra voc. Quando voc os fita nos olhos, eles, simultaneamente, desviam o olhar para o nada dando a impresso ser o nada mais importante que voc. Isso geralmente ocorre com pessoas simples e naturais, cuja presena, no meu caso, no desperta qualquer interesse ou curiosidade aos demais. No que eu no me ache bonito, claro, sou muito lindo, os outros que insistem em no me notar. Pacincia! Rsrsrsrs.

Saudoso dos meus familiares que vivem em Burarama e do Brejo querido, aproveitando uma rara folga de agenda, estive recentemente no Brejo. Desta vez, ao contrrio das vezes anteriores, estava tudo limpinho e arrumado. Chamou-me a ateno especialmente a quantidade de reformas prediais. Bacana.

Entro numa Padaria, na Alameda, peo um caf com leite e po, que me so servidos em um copo de vidro, desses onde costumam servir a mardita aos bebuns. Sigo um pouco adiante, saio da Alameda e entro numa Quitanda, onde, segundo as ms lnguas, so vendidos os mais saborosos e bem preparados pezinhos de queijo do Brejo. Compro um pacote deles; ainda esto quentinhos. Sou tomado por um arrependimento repentino: Diabos, se eu tivesse esperado alguns segundos mais, poderia agora estar saboreando estes pezinhos de queijo com o caf com leite que acabei de tomar l na Padaria. Passo diante da Igreja do Padroeiro. Fico ali parado por algum tempo imaginando como foi difcil aos caros colegas de pocas remotas, projetar e construir este templo. Verdadeira obra arquitetnica. Pesquisas me levaram a conhecer tanto sobre a histria desta igreja, de sua fundao at o acabamento, assim como o pessoal efetivo envolvido em sua construo, atas, inaugurao, primeira missa, nome do padre que a celebrou, etc. No entanto, tudo isso insuficiente para conter minha admirao e encantamento por ela, toda vez que em sua frente me posto. como se fosse a primeira vez. Mais adiante, deparo-me com a esttua de Feliciano. Meu Deus, estou ficando velho! Conheci esse cara em vida. Fui, em infncia, a vrios comcios dele s para ouvir o seu lindo palavreado e comer churrasco de espeto de valeta. So aqueles espetos que eram assados sobre uma enorme vala aberta no cho, onde deitavam brasas incandescentes. Como falava bem este homem a quem o Brejo tanto deve. Conhecedor dos mais comezinhos anseios populares, domnio completo do vernculo de Luiz Vaz, o Cames, articulao impecvel, dico e tonalidade de voz que beiravam a perfeio, aquele cara inflamava as massas com seus discursos inesquecveis. Agora, restava ali, a minha frente, apenas e to somente, um reduzido amontoado de pedras e bronzes em cuja cabea alguns pssaros atrevidos, diria, talvez por no terem sido informados do quo importante foi nosso Feliciano em vida, insistem em utilizar sua bela careca guisa de aeroporto ou banheiro pblico. a vida que passa lenta e silenciosa por aquelas plagas e por todo o canto, nos conduzindo, inexoravelmente, ao grande dia em que talvez, quem sabe, se fizermos um pouquinho do que ele fez, teremos tambm uma esttua em nossa justa homenagem, para a alegria da posteridade e, principalmente, dos passarinhos brejeiros que ganharo mais um aeroporto.

Cansado, mas com a alma confortada, aps caminhar por quase todas as ruas e avenidas do Brejo, visitar, solitariamente, as mesmas localidades dos tempos de infncia, deixo-o do mesmo jeito em que cheguei: Calado. Silencioso. Meditabundo. Tenho por costume no deixar que minha humilde presena interfira na vida pacata da Cidade e seus locais. Mesmo quando a visito acompanhado por algum, procuro manter a discrio. Ciente de que, em muitas situaes da vida, basta apenas uma simples palavra minha para fazer com que as coisas fluam, no Brejo das Almas, ou prximo dele, na casa da minha santa mezinha l em Burarama, recolho-me inteiramente a minha verdadeira insignificncia. Ali me sinto criana outra vez. Inclusive, dou-me o direito de fruir da mesma inocncia imaculada dos quase pueris.

Voltando a falar dos personagens dos quais tive conhecimento dos respectivos paradeiros, lembro-me de Maria Quitria, claro, como poderia eu esquecer? Mudou-se do Brejo para Curvelo, onde se casou. De l foi para Porteirinha, onde vive. Quanto ao Bad, como todos sabem, ele me encontrou aqui em So Paulo em 1973, por coincidncia, na mesma empresa. Casou-se com uma Paranaense, Dalva. Tem trs filhos e j se encontra aposentado cuidando de sua empresa de prestao de servios no bairro da Mooca, alis, meu vizinho. Mateus, Bicalho, Conceio Formosa e Anto, retornaram para Taiobeiras e Salinas de onde no tive mais noticias. Geraldino Fogueteiro I, Demstenes e Manezim Vaqueiro, at onde eu soube, foram para Januria. Quanto aos demais, Zezim Tocador e seu Vazamundo, Francelino do Areal, Feliciano Sanso, Z Rodrigues, Mateus Gordo, Geraldinho Mazzaropi, Maninho do Moc, Manl de Vov, Neuzo, Cludio Laga Seca, Demtrius, Gedeo, Almeida, Maria Boco, Roberto Carlos do Mato, Tininho, Chuteira, Pascomiro, Galdino, Joo Pretinho, Geraldo Magela, Boneca Preta, Man Pezim, Katissia e muitos outros, permaneceram no Brejo. Cabe, portanto, aos meus queridos conterrneos locais nos informar de seus paradeiros. Outros que porventura no se encontram relacionados aqui, das duas, uma: ou a minha mente j cansada no conseguiu recordar ou, por motivos bvios, os excluiram da lista fsica dos vivos, em reverncia aos seus familiares, mantendo-os eternamente na lista indelvel do corao.

E tenho dito!

Enoque Alves Rodrigues, brejeiro de nascimento e convico, que atua na rea de Engenharia, Escritor com dois livros a serem lanados, (Liderana Conquistada e Brejo das Almas em Crnicas), Colunista, Historiador e divulgador voluntrio de Francisco S, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil. Visitem meu blog: Pra variar, sobre Francisco S: http://enoquerodrigues-earodrigues.blogspot.com/ http://www.facebook.com/profile.php?v=info&edit_info=all&ref=nur


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Por Enoque Alves - 12/11/2011 23:13:43
A IMPORTNCIA DA MDIA ELETRNICA NA DIVULGAO DE FRANCISCO S

Enoque Alves Rodrigues

De 2004 at 2009 mantive dois blogs hospedados em importantes sites da Editora Abril, aqui em So Paulo, hoje desativados. No primeiro, denominado isto espiritismo, fazia a divulgao, sem proselitismos, da Doutrina disseminada por Kardec, na Frana, em 1854. Ali postava fotos, resultados de pesquisas realizadas por companheiros do caminho, como materializaes, psicografias, passes medinicos, palestras, etc., alm de relatar experincias adquiridas no curto convvio que tive com Chico Xavier, em Uberaba, no comeo dos anos 70, quando eu trabalhava na Mendes Jr., na construo da Usina Hidreltrica de Volta Grande, na divisa de So Paulo com Minas. J no outro blog, gente, causos e coisas do brejo, cuidava da divulgao de Francisco S, o querido Brejo das Almas. Naquele blog, escrevia minhas crnicas quinzenais, hoje vertidas para um livro, (Brejo das Almas em Crnicas), cujo original ser publicado no prximo ano de 2012 e oferecido graciosamente s Bibliotecas do Norte de Minas, principalmente, a todos os rgos Pblicos de minha Cidade de nascimento, a fim de se resgatar coisas e casos que de a muito julgvamos perdidos no tempo e no espao. Postava tambm fotos e fragmentos de livros e jornais antigos, de uma poca que de to remota, fica at difcil acreditarmos ter existido. Todo esse acervo e muito mais que consegui garimpar de l para c, repousa, amarelado, em minha Biblioteca particular, onde a traa e o cupim no tem vez nem razo.
Quando em 2009 a Abril extinguiu aqueles sites aps t-los mantido por quase cinco anos no ar, jaziam, no registrador de visitas do blog do brejo, para minha total surpresa e decepo, apenas e to somente a bagatela de 212 acessos. Uma ninharia, suficiente para desmotivar qualquer mortal que se prope escrever algo. Pois, o mnimo que algum, tonto como eu, que se atreve a escrever alguma coisa sem qualquer outra pretenso, espera, que outros leem e, se possvel, comentem o que se escreveu. Alis, entendo que faz parte de uma boa educao, manifestarmos atravs de um simples recado ou comentrio, toda vez que acessarmos a pgina de algum. uma maneira de dizermos: Ol, estive aqui. Visitei sua pgina rapidamente. Um abrao. Fui!
No caso em tela, seria muito de minha parte desejar que algum comentasse, visto que ningum lia, porque ningum acessava. O pior, no entanto, j havia ocorrido: Em 2006, criei no Orkut duas comunidades que ainda existem: Al Brejeiros e Francisco S, meu amor!. Pois ... Fiasco total. At hoje o nico acesso que consta l o meu prprio. Para a pergunta que postei: voc conhece Francisco S? Nenhuma resposta. Ou melhor, uma resposta. A minha: conheo, sim, senhor. E da, qual o problema, cara plida? Triste, no! Mas a realidade. Minha filha, que naquele tempo frequentava o Orkut tinha em sua pgina milhares de adicionados, enquanto eu no tinha nenhum sequer em minhas pginas comunidades.
- Filha, quando que voc vai prestigiar o papai com sua visita a uma de minhas pginas no Orkut?
- Ah, velho, me desculpe, mas com esses ttulos estranhos vai ser muito difcil de algum se aventurar. Acho que estas pginas no tero nenhum outro acesso seno o do senhor! Dito e feito: ainda bem que eu no escrevi mais nada l. Alias, nem eu sei hoje o que l se encontra. Nunca mais entrei naquela joa. S atualizo a minha pgina pessoal no Orkut por que no posso desativa-la devido ter l adicionados amigos caros, em sua maioria, familiares.
Em maio de 2009 ao visitar meus pais em Burarama, passei um dia e uma noite no Brejo. Ao retornar para So Paulo reiniciei em outro site, City Brasil, alguns relatos de pouca ou quase nenhuma relevncia. No entanto, hoje, esse blog se encontra com quase 115 mil acessos. Alm dos outros blogs que mantenho, sempre se referindo ao Brejo, criados na mesma poca, todos eles muito bem frequentados.
Mesmo com todas aquelas postagens as quais me referi no inicio destas mal traadas linhas, em 2008, se voc jogasse no Google Francisco S, o resultado da pesquisa trazia um certo Francisco S Carneiro, que at hoje no sei quem . Pois, por no se tratar do meu Francisco S, Cidadezinha que se achava perdida nos rinces das Gerais, terra abenoada por Deus que me viu nascer, nenhum outro interesse teria eu em pesquisar ou procurar saber a quem se referia. Por certo, pelo simples fato de esse senhor ostentar o mesmo nome do Ministro da Viao que d nome ao nosso lugar, j deve ser um grande motivo para fruir de toda felicidade e sucesso. Por favor, no me chamem de bairrista, porque eu sou.
No velho, e assim como eu, quase aposentado orkut, passaram a criar, aqui e acol, algumas comunidades alusivas ao Brejo das Almas. Nada disso, no entanto, foi suficiente para romper as barreiras Cibernticas que separavam o nosso Brejo das Almas ou Francisco S, igual a ti, outro no h, como diria Niquinho e Corinto, do mundo incomensurvel do WWW (World Wide Web), que em portugus significa "Rede de alcance mundial". A coisa no engatava. No dava liga. O Brejo no queria aparecer ou quem sabe, algum brejeiro, sem querer dividi-lo com o mundo, enterrou uma cabea de jumento aos ps do cruzeiro.
Hoje, no entanto, graas aos esforos e dedicao de todo o nosso povo, a coisa mudou radicalmente. Se voc digitar Francisco S, receber de volta uma grande enxurrada de referncias sobre a nossa Cidade. Com o advento do facebook, ento, as comunicaes ganharam muito mais velocidade. Ferramenta poderosssima que entre suas incontveis funes possui tambm a de colocar vrios indivduos online, repercutindo, ao mesmo tempo e em tempo real, assuntos de grande, mdia ou de quase nenhuma relevncia aparente, mas que, l no fundo, ao se analisar melhor, se constatar, fortuita e alvissareiramente que a principal misso dos idealizadores desta ferramenta, misso esta de importncia indiscutvel, est sendo cumprida ao p da letra: aglutinar pessoas, aproximando-as cada vez mais uma das outras. Transportando-as para as diversas partes do Globo sem que precisem tirar um s p do cho. De deslumbramento difcil, uma vez que encaro quase tudo nesta puta vida com naturalidade, at porque o fato de eu ser Espirita h quarenta anos no me torna diferente de ningum, vejo-me hoje deslumbrado com as facilidades que no existiam antanho. No Oriente Mdio a quase doze mil quilmetros de distncia da Cidade de So Paulo, onde vivo, abro um simples computador de mo em meio a uma rua qualquer de Bagd e de l meus olhos veem a desfilarem-se no canto direito da pequena tela, tops ou curtas mensagens me informando que algum, em um ponto qualquer do Planeta, curtiu ou comentou o meu link. Que h algum querendo me adicionar a fim de ter-me como seu novo amigo. Dou um clique sobre um link e em timos de segundos estou no site da Prefeitura do Brejo, onde posso acompanhar todas as aes do amigo Z, em benefcio da gente Brejeira. Entro no link histria da cidade e vejo l no final, o meu humilde nome. Volto para o facebook e os tops continuam me informando: Que o nosso Brejo agora tem um Centro de Memrias e que estou sendo convidado a participar da cerimnia de inaugurao. Que o Brejo voltou a produzir alho como antes. Que as onas do Catun voltaram a atacar rs. Que l em Capivara a dita cuja que d nome ao povoado foi extinta. Que l no morro no h mais mocs. Que os dois riachos j no tem mais os encantos de outrora. Que os ventos que uivavam e varriam as ruas do Brejo das Almas hoje j no uivam mais. Que as guas do Gorutuba e So Domingos esto secando, etc. Com o simples deslizar do mouse sou remetido a fotos antigas das Praas Jacinto Silveira e Rogrio da Costa Negro, do Mercado Velho, do Padre Augusto, de Geraldo Tito e Olyntho, de Feliciano, de dona Mariquinhas, de Denilson pequeno, de Roberto do buteco, de Wanderlino, em tarde de autgrafos de um de seus livros de crnicas e poesias, na linda MOC, do Alex sander com sua humildade, lealdade e sede do saber e dos quase dois mil amigos virtuais que frequentam minha pgina. Com dois cliques sobre um link, vejo e ouo o conterrneo Tassio, ao vivo e em cores, aos berros, em acalorado discurso na Cmara Brejeira de Vereadores, em defesa dos Muncipes. Mais um clique sobre um link e sou transportado para o mais completo e bem elaborado jornal regional. Trata-se de o Jornal de Francisco S, do meu amigo Flvio Leo. Aqui, sem que seja necessrio que eu d nenhum outro clique, mas apenas com a barra de rolagem, vejo-me, como que por encanto, literalmente no Paraiso. Cercado agora por lindas beldades, belas e formosas mulheres, com olhares ternos e imaculados de quem acaba de deixar a adolescncia, dignas representantes da mais pura beleza brejeira, estou extasiado. No... No vou navegar mais... Navegar no mais preciso. Quem gostava de navegar era o Cabral e ns sabemos no que deu. Para mim chega! O meu destino final aqui. Agenda apertada. Compromissos inadiveis. Agitao de So Paulo e Bagd. Poluio. Buzinas nas minhas orelhas. Dez mil projetos de Engenharia iniciando. Vinte mil finalizando. Definitivamente, estou mandando tudo isso s favas. Eu quero mais ficar neste cu, acompanhado por essas deusas, at a morte chegar. E que a dona Teresa, sol que h mais de trs dcadas ilumina a minha vida, razo maior do meu existir, a mais bonita de todas as deusas, no me leia. Amm!
Voltando realidade, para finalizar, pergunto: Valeu a pena termos vivenciado aquele engatinhar sofrvel desta nova era em prol do conforto que usufrumos nos dias atuais?
A resposta soa-me aos ouvidos na voz do Excelentssimo Senhor Doutor Deputado Federal Romrio de Souza Faria, vulgo, baixinho.
- Valeu, peixe!

Enoque Alves Rodrigues, brejeiro de nascimento e convico, que atua na rea de Engenharia, Escritor com dois livros a serem lanados, (Liderana Conquistada e Brejo das Almas em Crnicas), Colunista, Historiador e divulgador voluntrio de Francisco S, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil. Visitem meu blog: Pra variar, sobre Francisco S: http://enoquerodrigues-earodrigues.blogspot.com/ http://www.facebook.com/profile.php?v=info&edit_info=all&ref=nur


69505
Por Enoque Alves - 5/11/2011 18:31:09
GENTE DO BREJO - MARIA BOCO

Enoque Alves Rodrigues

De repente, ela surgiu como se estivesse brotando do nada. Eles sempre surgem assim: de onde menos se espera!

Todos ns meninos, prximos a entrarmos na adolescncia, estvamos em frente ao velho Cemitrio do Brejo das Almas, ou Francisco S, em um dia de finados, no aguardo de outros moleques que se integrariam a nossa turma para juntos, acompanharmos a procisso dos mortos.

- Qual o seu nome?

- Maria!

- Mas, Maria do que?

- Maria Boco!

- Uai, estranho, mas esse mesmo o seu nome?

- !

Perguntada, de onde vinha, respondeu-nos: do p na cova. Referia-se ao antigo e famoso boteco com este nome que existia naquela melanclica, triste e silente localidade onde apenas aqueles que partiram deste mundo rumo ao Mundo Maior, a quem devemos sempre reverenciar, reinavam. Na realidade, conforme soubemos depois, Maria de Nazar, era esse o seu verdadeiro nome, no provinha do p na cova, apenas deu uma passadinha por l para molhar as palavras, e no houvera brotado do nada, no, senhor. Nasceu, assim como todos ns nascemos, de um pai e de uma me e sua localidade de nascimento era o povoado do Caititu, meio distante de onde se achava agora. Tivera, no entanto, ainda em infncia, alguma desdita, reservada que lhe fora pelo destino implacvel ao qual no nos cabe questionar, que culminou em lapsos de memrias intermitentes que muitas vezes no a permitiam sequer saber onde estava. Trazia consigo, alm do sujo bornal, em seu recndito longnquo, traumas desencadeados talvez por alguma disfuno no processo alimentar, pois tinha como hbito no levar nenhum alimento boca sem que antes o tivesse cheirado. Muitas vezes, em minhas curiosidades de quase infante, vi-a desprezar aps haver recebido de algum, saborosos e apetitosos petiscos. Alguma coisa, por certo, por razes que desconhecamos, no cara bem ao seu olfato sensvel. Quando isso acontecia, de o alimento no passar pelo crivo do olfato, de nada adiantava o paladar aguar o mundo das ascariddas l embaixo. Maria cismou com o rango, no tinha mesmo para ningum. A s restava mesmo aos parasitas, chafurdarem-se em seus respectivos infernos astrais, onde permaneciam hibernados, at quando aquele divino ser, criado a imagem e semelhana de Deus, assim como ns, finalmente decidisse ser menos exigente para com o po nosso de cada dia.

No sei se devo reivindicar para mim a primazia de t-la visto antes de todos. Tampouco saberia definir o que isso viria acrescentar hoje, ao meu ego e personalidade ainda em duvidosa e inacabvel formao, apesar de meus quase sessentinha.

O certo que do impacto daquele nosso primeiro encontro, ou seja, de ns, moleques do bem, educados dentro dos mais rgidos princpios doutrinrios, at vermos Maria enturmada com mais de uma dezena de outros de seus iguais em expiaes e provas em busca do burilamento espiritual neste Mundo de Meu Deus, foi um pulo. Ainda hoje seria capaz de citar todos os nomes daqueles que alguns do Brejo, inadvertidamente insistiam em chamar de doidinhos.

Retornando a Francis, (j perceberam que a maioria de ns nascidos no Brejo, involuntariamente ou no, ainda hoje nos relutamos em aceitar um gentlico que no nosso, no utilizamos a pronuncia completa e correta de Francisco S?), depois de cinco anos em So Paulo, fui at um brejeiro ausente l nos arrabaldes de onde se comeava o Brejo. Saudoso, queria logo rever os amiguinhos, assim os chamava, os quais sempre se reuniam em torno de mim, as algazarras diante de algum lar em festa. Encostado ao batente da porta da casa de Feliciano, juntamente com Z Rodrigues, Mateus Gordo, Maninho do Moc, Manl, Cludio Lagoa Seca, Demtrius, Gideo, Almeida e outros, tentava, inutilmente, identificar em meio aquela turma que danava animadamente uns com os outros, um sequer, daqueles muitos que havia conhecido em tempos no to distantes assim. Ledo engano: Cad Maria Boco, Roberto Carlos do Mato, Tininho, Chuteira, Pascomiro, Galdino, Joo Pretinho, Geraldo Magela, Boneca Preta, Man Pezim, Katissia... Cad todo o mundo, p!

- Acalme-se, Noquinho. Essa gente assim mesmo. Quando uns vem, outros vo e quando uns vo outros vem... Aqueles que conhecemos em nossos tempos de meninos j se foram... Para substitui-los Mandaram estes que ai esto. Se voc fixar melhor os seus olhos ternos nos semblantes de cada um deles, ver que so iguaizinhos aos que se foram. No h a menor diferena. Voc no tem motivo algum para deixar de amar estes tambm. Basta que voc os olhe com os olhos do Esprito, tontinho. Cresa e aparea moleque e no se esquea jamais de que as aparncias fsicas no passam de um mero e insignificante detalhe!

Ai, ai,ai,ai,ai...Diria minha Santa e bela mezinha l em Burarama.

Pra ser sincero, essa doeu!

...

Por vezes, e principalmente quando tentamos burlar o que veem os nossos olhos, a voz da nossa conscincia berra aos nossos tmpanos.

Enoque Alves Rodrigues, brejeiro de nascimento e convico, que atua na rea de Engenharia, Escritor com dois livros a serem lanados, (Liderana Conquistada e Brejo das Almas em Crnicas), Colunista, Historiador e divulgador voluntrio de Francisco S, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil. Visitem meu blog: Pra variar, sobre Francisco S: http://enoquerodrigues-earodrigues.blogspot.com/ http://www.facebook.com/profile.php?v=info&edit_info=all&ref=nur


69427
Por Enoque Alves - 29/10/2011 18:15:26
GENTE DO BREJO - GERALDO MAZZAROPI

Enoque Alves Rodrigues

Durante muitos anos, quando a precariedade das comunicaes imperava nas pequenas cidades do norte de Minas, a Prefeitura Municipal de Francisco S, ou melhor, do querido Brejo das Almas, tomou a iniciativa de criar seu prprio sistema de som. Uma velha Kombi caindo aos pedaos, de cor daltnica, sim, por que Cristo algum conseguia distinguir qual era a cor da danada, de to suja que se apresentava, era utilizada nesse servio. Alguns, quando chovia, arriscavam em afirmar meio, mineiramente, que a cor da Kombi era branca, devido pingos de chuva mais afoitos terem conseguido remover o encardido que existia sobre o teto externo. Outros, numa iluso de tica iminente, talvez sugestionados pela predominncia da cor da terra Brejeira, teimavam em dizer que a cor da Kombi era vermelha. Alguns mais inadvertidos ou com algumas doses de cana na cuca juravam que a cor daquela Kombi era amarela, lils, azul, verde, etc. Na verdade, nenhum Brejeiro em pleno gozo de suas faculdades mentais possua assertividades suficientes para tais afirmaes. Instados a definir com exatido aquela cor, apropriavam-se de palavras desconexas de nosso peculiar mineirismo, que quando falamos tudo sem dizermos nada, a fim de no penhorarmos nossa palavra com afirmaes das quais no temos a convico plena, e mandavam:

- Noquinho, posso lhe afirmar com toda certeza do mundo que a cor desta Kombi da Prefeitura vermelha, mas olhando melhor, me parece que azul, cinza, roxa, rosa, sei l...

- Uai, s, mas assim voc no est afirmando nada. Qual a cor da Kombi, afinal? Bem... Deixa pra l...

Completando a parafernlia da qual vinha falando, instalaram-se um potente alto falante sobre o teto da Kombi e, dentro da dita cuja, um locutor com voz semelhante a do grande cone do Cine Comdia Brasileiro, o saudoso Amcio Mazzaropi, nascido aqui em So Paulo, no bairro do Brs, mas que passou quase toda a sua vida na Cidade de Taubat, rasgava o verbo. Tendo como fundo musical a toada melosa e porque no dizer machista denominada empreitada perigosa (Quem tem mulher que namora, quem tem burro empacador. Quem tem a roa no mato, me chama que jeito eu dou... Eu tiro a roa do mato e sua lavoura melhora. E o burro empacador eu corto ele na espora e a mulher namoradeira passo o couro e mando embora...), composta pelo quase conterrneo, o Montesclarense Tio Carreiro, que formava dupla com Pardinho, ouviam-se: Al brejeiros, aqui vos fala Geraldo Mazzaropi. Por iniciativa do Excelentssimo Senhor Prefeito de Francisco S, tenho a honra de convidar voc e dignssima famlia, para os festejos comemorativos pelo aniversrio de nossa bem administrada cidade...

Geraldinho Mazzaropi, assim o chamvamos, alm da entonao da voz que, como j disse, que era idntica a do velho Mazza, tinha tambm todos os jeitos e trejeitos do Jeca de Taubat: ndegas propositadamente estufadas para trs, pernas lnguidas e andar meio ziguezagueante como se fosse um frango dgua. Os Brejeirinhos, ao v-lo, logo se acercavam dele, que sempre solicito, lhes dizia: qual a historinha de Jeca que vocs querem ouvir hoje?

- Sabem aonde o Jeca pegou aquele peixo?

- No!

- Perguntem pro homem do Emulso.

- Ahhhhh!

Referia-se ao Emulso Scott em cuja embalagem havia um homem com um peixe s costas.

Domingo s 20 horas tem espetculo no majestoso Cine e Teatro Mineiro... No percam o duelo do sculo: O grandalho Joo Vine (no conseguia pronunciar John Wayne) vai enfrentar o sela de prata Juliano Gema (Giuliano Gemma). Vai ser tiro para todos os lados. Vamos l para ver quem vai vencer. Brejeiros, faam suas apostas...

Pronto, a sorte estava lanada. Nas escolas, bares e alamedas, Brejalminos confabulavam-se e no final deixavam seus palpites sobre quem supunham seria o vencedor do duelo. Mal conseguamos esperar pelo domingo. Cheios de entusiasmos, acorramos todos ao velho Cine Mineiro. Sentvamos quase sempre nas primeiras fileiras para no perdermos nenhum lance. Expectativa... Adrenalina a mil... Atnitos e eufricos... Espera difcil. O filme no comeava. Murmrio geral. Brejeiros inquietos:

- Uai, s, mas cad esse trem de filme que no comea?

- Sei l... Uai... Espere um pouco... Aquele que est l atrs com um carretel de filme nas mos no o Geraldinho Mazzaropi?

- Ih... ele mesmo!

- Deu crepe... O to anunciado e esperado filme enroscou todo antes mesmo de ter comeado. Enquanto isso, Geraldinho, que era um faz de tudo, agora estava com um dos lados do carretel em uma das mos, enquanto com o dedo puxava a ponta da fita cinematogrfica, na tentativa de endireita-la dentro do carretel para que no houvesse cortes ou comprometimento da imagem. Mesmo com todo esse esforo, tais aes resultavam-se, quase sempre, ineficazes, pois do comeo ao fim do filme, pouca coisa se aproveitava. Cortes longos e intermitentes muitas vezes, de cenas inteiras, impediam que at mesmo as mais frteis das imaginaes concatenassem idias ou tivessem a mais simples e msera noo de como seria realmente o enredo do filme e seu final. Entretanto, frustraes tenebrosas ainda estavam por vir.

Aps passarmos longas horas assentados, com os quartos doloridos e a bexiga sobrecarregada reclamando pelo xixizinho bsico e imediato, eis que surge, afinal, para a alegria de todos e felicidade geral da nao brejeira, o to esperado fim do filme e o duelo de tits, finalmente ia comear.

De um lado, Wyane com seu inseparvel cigarro em um dos cantos da boca e com duas tremendas pistolas em cada coldre. Do outro lado, Gemma, equipado igualzinho a Wyane. Ao lado de cada um deles, suas montarias. Ao fundo, vrios casares de madeira com alpendres, onde mooilas se achavam debruadas para assistirem o espetculo de horror. Em um barzinho de araque, vrios bebuns observam. Em frente Igrejinha, tambm de araque, o Padre e o Sacristo faziam o sinal da cruz. L no front os dois homens fitam-se com dio nos olhos. Do algumas voltas como se estivessem estudando um ao outro. Olhar tenso. Wayne, de tanta raiva, treme os msculos da face e cerra os dentes, rompendo em dois o cigarro, cujo pedao, vai ao cho. Gemma, tambm treme todo, da cabea aos ps. Acometido de mortal ojeriza pelo desafeto Wayne, comea a piscar um dos olhos. No entendamos nada. Perdemos as principais cenas do filme. Meu Deus, quais foram os motivos que levaram aqueles dois homens ao pice da ignorncia humana? Porque se odiavam tanto?

Numa sintonia de fazer inveja a perfeio da Me Natureza, sacaram de uma s vez suas respectivas pistolas e abriram fogo um contra o outro. Baixadas a fumaa das saraivadas de tiros e a poeira levantada pelo tropel das montarias, agora, jaziam, ali, inertes, dois corpos estendidos no cho. Morreram-se os dois.

Para nossa decepo, pelo menos daquela vez, ou enquanto os dedinhos geis de Geraldinho Mazzaropi tivessem foras para seguir rebobinando aquela maldita fita, no houve ganhadores. Todos perderam. Inclusive ns.

Deu empate!

Enoque Alves Rodrigues, brejeiro de nascimento e convico, que atua na rea de Engenharia, Escritor com dois livros a serem lanados, (Liderana Conquistada e Brejo das Almas em Crnicas), Colunista, Historiador e divulgador voluntrio de Francisco S, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil. Visitem meu blog: Pra variar, sobre Francisco S: http://enoquerodrigues-earodrigues.blogspot.com/ http://www.facebook.com/profile.php?v=info&edit_info=all&ref=nur


69304
Por Enoque Alves - 15/10/2011 22:05:00
FRUSTRAES NATURAIS FRANCELINO DO AREAL

Enoque Alves Rodrigues

Alguns mais antigos devem ter ouvido falar ou talvez conhecido o meu personagem da crnica de hoje. Francelino do Areal, cujo sobrenome vinha da denominao da Fazenda Areal, de sua propriedade que ficava no Municpio de Francisco S. Ali Francelino cultivava alho, arroz, feijo, algodo, milho, e outras culturas. Criava tambm gados de corte, que vendia para um hoje inexistente Frigorfico que ficava no bairro Malhada Santos Reis, em Montes Claros. Festeiro contumaz, Francelino era devoto de Nossa Senhora e de todos os santos, principalmente de So Gonalo, Padroeiro do lugar. Todas as festas do Brejo das Almas de ento, tinham-no como seu principal idealizador. J na vspera ouviam-se ao longe os foguetrios. As bandeiras dos santos saiam do Largo da Igreja Matriz sempre com Francelino a frente rezando um bendito o fruto entre as mulheres e pedindo para que os marmanjos devotos abrissem alas para que o Santo pudesse passar. Sai da frente bando de bebuns que o Santo precisa passar, dizia. Aos renitentes que insistiam em no abrir espao, empurravam com uma velha bengala. Depois de dar toda uma volta em torno do velho centro, paravam, finalmente, em frente a Igrejinha de So Gonalo e l ficavam discursando. Aps destacar todas as virtudes do Santo homenageado, iam todos encher a cara nos bares. Sujeito de palavra, forte e destemido que veio do nada, fizera, graas ao seu elevado esprito de luta, alguma fortuna, que, no entanto, devido as muitas desavenas familiares, numa das quais chegou a levar uma facada na barriga que deixou seus intestinos a mostra, comeou a virar p. Desgostoso, vendeu a Fazenda Areal com tudo que tinha e rumou-se com a famlia para Gro Mogol, onde comprou outra fazenda esta bem pequenina, de nome Trs Capes de onde no mais se teve noticias. No me lembro ter feito antes alguma aluso ao grande Francelino. Caboclo brejeiro que dentro de sua simplicidade cultivava hbitos muito salutares, quando se tratava de se obter bons resultados. Empreendedor convicto, daqueles que passam s 24 horas do dia pensando em como se ganhar mais dinheiro, Francelino era, sua maneira, um o Midas do brejo. Vrias eram as abrangncias de seus empreendimentos que alcanavam muitos ramos de atividades. Quase analfabeto, mal escrevia, punha nos bolsos muitos doutores das letras que queimavam pestanas e se contorciam todos para ganharem alguns parcos vintns.
Ligeiro e astuto nos negcios. Mas cordial e generoso com os menos favorecidos. Cauteloso ao extremo, quando algum caboclo se dirigia a ele no sentido de lhe pedir algo fiado ou emprestado, ouvia sempre a mesma cantilena: num v lhe fiar ou emprest nada. Vorte pr sua casa e veja com a Creuza o que ocis necessita. Eu lhe darei de graa. Se eu te emprest, oc num vai ter cuma me pagar. Oc meu amigo e ai a nossa amizade vai pro brejo que num das armas.
Era um motivador nato. Do alto de sua rstica eloqncia salientava sempre que todos deviam ser como ele que nascera pobre e hoje tinha mais que o suficiente para viver. Que assim como ele, quando se luta em busca de objetivos, eles acabam dando as caras. Contava aos roceiros embrenhados nos eitos de suas roas, vrias anedotas que beiravam o inverossmil. Era dado pesca. Naqueles tempos, hoje to longnquos, os rios, Verde, So Domingos, Gorutuba, Quem- Quem e at mesmo alguns crregos meio abusados, eram prdigos na oferta de peixes. Havia grandes e importantes espcies de peixes nestes rios, enquanto que nos crregos abusados havia desde a trara at o bagre, que, alias, davam um bom caldo.
No entanto especialmente naquele ano as coisas no estavam muito boas para Francelino. O ano foi de pouca chuva e a lavoura, quase todas as culturas, principalmente as de arroz, feijo e milho, perderam-se no cho de deserto. Corria-se a enxada no cho seco e era s poeira vermelha que levantava. Era de chorar. Francelino, no entanto, no se abalava, ou pelo menos nada demonstrava. Por outro lado, metera-se na Poltica onde patrocinava amigos correligionrios aos pleitos Prefeitura, Cmara de Vereadores de Francisco S e outras cidadezinhas. Mas para tudo h um limite e o limite da tranqilidade de Francelino chegou exatamente quando ele enviou uma grande manada de gado para determinado frigorfico, em Montes Claros. O negocio havia sido fechado por ele com o dono daquele frigorfico, de tradicional famlia da velha MOC, h muito tempo. L chegando, com toda a boiada em frente ao frigorfico, o capataz de Francelino foi informado pelo dono do frigorfico, conhecedor dos costumes do caboclo, que teria que voltar com a boiada para Francisco S porque seu frigorfico no estava vendendo nada. Que a crise o estava devorando aos poucos. E arrematava: Esta maldita crise no est deixando mais nem um pouquinho de dinheiro para o pobre comprar carne.
Como naquela poca telefone era artigo de luxo at mesmo para certos ricos, o capataz sem saber o que fazer, mas receoso de volver com a boiada sem um prvio aviso ao seu patro, permaneceu em Montes Claros, designando um peo de sua comitiva para ser o portador daquela triste mensagem. Depois de uma eternidade, o brejeiro finalmente chegou a Fazenda do Areal. Do alpendre do casaro Francelino o avistou ao longe. Logo deduziu que aquele retorno extemporneo e solitrio no lhe traria bons fluidos. Que havia algo de podre no reino da Dinamarca. Que a porca havia torcido o rabo e que no tinha quem o endireitasse. Ou que algum havia rodo a corda e agora cabia a ele consertar.
Ainda no alpendre, j deu um grito:
- Mateus, Mateus, oc?
- ieu, sim, meu prato!, respondeu-lhe o pobre vaqueiro, assustado.
- E por que diabos oc t aqui s? Adonde t Juca com o dinheiro dos boi?
- Antonces, meu prato, sobre isso qui eu quero fal e mec num me deja. O cabra l do figurifi de Monte Craro fal pro Juca qui num tem ful de abroba (notas de 1000 cruzeiros da poca) pr pag o gado de mec, apusqu uma tar de crise teve por l e cumeu todo o frigurifi dele. Que o probe num tem dinhero pra compr carne apusqu a mardita crise cumeu tamm o dinhero. Seno assim, meu prato, mi qui nis num vai l. muito pirigoso. Eu insisti cum Juca pr num fic l e traz o gado de vorta. Mais ele temoso Cuma jumento e me obrig a vim fal cum mec.
Educado, comedido e resignado, Francelino entendeu de pronto o que havia acontecido. Calmamente esperou que o peo finalizasse sua fala. Chamou-o para dentro de casa. Ofereceu-lhe gua e comida e no final lhe disse:
- Bem, oc j feiz a sua parte. J foi l e vort e a crise nun te enguliu. Mais eu tenho l os meus gado e os meus peo. Vou l resgat eles. Fica ai com a Edna, minha mui rezano pr qui eu ainda encontre eles l Vico. Tumara que a crise nun tenha cumido eles tamm!
Pegou seu jeep e rumou-se caminho de Montes Claros com a conscincia plena de que ali chegando teria que renegociar ainda que em suaves prestaes a sua boiada com o dono do frigorfico. Que as mars dos mares de Minas realmente no estavam para peixes e que caititu fora de manada papo pra ona. Ele tinha que entender. Precisava aderir. Tinha que se recompor. A crise quando vem no poupa ningum. Engole tudo e ai, meu ngo, salve-se quem puder.
...
Por vezes, ou quase sempre, quando a coisa est feia melhor deixar como est para ver depois como que fica.

Enoque Alves Rodrigues, brejeiro de nascimento e convico, que atua na rea de Engenharia, Escritor com dois livros a serem lanados, (Liderana Conquistada e Brejo das Almas em Crnicas), Colunista, Historiador e divulgador voluntrio de Francisco S, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil. Visitem meu blog: Pra variar, sobre Francisco S: http://enoquerodrigues-earodrigues.blogspot.com/ http://www.facebook.com/profile.php?v=info&edit_info=all&ref=nur


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Por Enoque Alves - 24/9/2011 14:29:43
A FNIX BREJEIRA MANEZIN VAQUEIRO

Enoque Alves Rodrigues

Na dcada de 1960, mesmo com a crise, as visitas aos principais pontos tursticos mais importantes do Velho Brejo das Almas, ou Francisco S, beldade do norte de Minas, fervilhavam-se. Uma das atraes tursticas mais visitadas era a antiga e histrica Lagoa das Pedras. Para l, convergiam-se multides, vindas de quase todas as localidades e se aportavam s suas margens, onde passavam dias e noites se divertindo com a gama infinita de lazer que ali existia.
guas claras e cristalinas onde se via, nitidamente, vrias espcies de peixes, hoje inexistentes, nadando ao fundo. Ovinos, bovinos, caprinos, sunos e outras criaturas do mundo animal domesticado, misturavam-se a outros animais, do mundo racional civilizado, cada qual consumindo, engolindo inteiro, mastigando e ruminando, de acordo com o que determinam suas respectivas cadeias alimentares.
Canoas a remo, barquinhos com e sem motores, transportavam os homens de coragem at o meio da lagoa, cuja profundidade, diziam no ter fim. As mulheres com suas crianas de colo palestravam sentadas beira da Lagoa com seus pezinhos delicados levemente mergulhados na gua rasa, enquanto que seus pimpolhos, mais crescidinhos, cavalgavam sobre pneis nativos ou brincavam de tourear algum bezerrinho recentemente desmamado. Os mais traquinas brincavam de caar com bodoque, juritis, pombas amargosas, codornas, rolinhas e outras avezinhas silvestres.
Famlias abastadas de Montes Claros, Gro Mogol, Salinas e at mesmo de Belzonte, Capital das Alterosas, faziam dali seu habitat natural. Muitas chegavam ao ponto de fixarem suas residncias naquelas imediaes e de l no arredavam p de forma alguma. Usufruam dos confortos que a grana lhes proporcionava naquele Rinco Paraiso, enquanto que muitos de ns, Brejeiros autnticos, nascidos nos arrabaldes ou com os dois ps cravados num brejo qualquer de l, apenas nos conformvamos em v-los se divertirem. Era tudo que nos restava. Naqueles tempos assim como hoje, amanh e para todo o sempre, amm, a nata do leite jamais se deixou misturar com o soro. O mximo que ns, soros, conseguamos, era como j disse, observar, discretamente, a nata em sua diverso.
- Uai, e a quem pertencia a Lagoa das Pedras?
- A ns, Brejeiros, uai!
Tambm amos l, claro. Mas somente quando no se achavam os ricos. Sim, porque eles nos olhavam com desdm. Agiam em relao a ns que no fruamos de seus status quo como se fossemos Cidados de segunda classe. Desprezavam-nos em nosso prprio territrio. Nada podamos fazer. Eles aportavam riquezas ao errio de Francisco S. Eles faziam a mquina pesada da Administrao Municipal girar, ao passo que ns, povinhos simples, apenas produzamos algumas migalhas que em nada impactavam de relevante.
possvel que muitos dos meus conterrneos que neste momento se encontram lendo as bestagens que escreve esse reles genrico de escritor, se lembrem, com saudades daquelas tardes e manhs domingueiras beira da Lagoa das Pedras.
Manezin Vaqueiro era um desses pobres brejeiros, sem eira nem beira, que se contentava apenas em ver a nata bem sucedida se divertir. Timidez prpria dos que no souberam nascer, vivia embrenhado nas matas adjacentes a Lagoa das Pedras, observando, sorrateiro, a pompa de seus desiguais. Os homens remavam enquanto sorriam deixando mostra o ouro que cobria seus dentes bem tratados, que reluziam sob os reflexos lampejantes do Astro Rei naquela manh primaveril.
De repente, grita uma voz de mulher:
- Socorro. O Marquinho est se afogando... Tirem-no da gua, pelo amor de Deus! maneira que a mulher no obtinha resposta ao seu pedido de socorro, a criana se afundava e eram mais fortes e desesperadores os seus gritos de aflio.
Ao notar que nenhum daqueles bem nascidos, bundas moles se manifestavam, Manezin Vaqueiro perdeu a timidez. Num gesto de bravura, coragem e destemor, imbudo do mais puro e elevado sentimento de amor ao prximo e solidariedade, independente de condio social, com habilidade e destreza peculiares a todos ns que nascemos na barranca do rio, jogou-se, de corpo e alma, nesta altura mais alma que corpo, nas guas profundas da Lagoa, s saindo de l, minutos depois, com a criana quase desfalecida em seus frgeis braos. Foi aplaudido por todos que ali estavam pela sua coragem. Mas, matuto que matuto, principalmente o brejeiro, no se deixa influenciar por endeusamentos fteis.
Ser?
sua maneira, frente ao mulherio, carimbou, ali mesmo, a sua lio de moral, passando um tremendo sabo nos bundas moles que no tiveram coragem de lanarem-se ao rio.
- Ocis uns riquin de merda qui num tem corage, porra nima e qui borra as bota a cada peido... muito fci fic ai si divertindo inquanto o minino afoga... De nada adianta ter esses barrigo cheio de cumida boa si nu curao de preda num tem nada. Ni um poquin de am siqu... Eu divia era de cutuc ocis cumia vara de tocagado pr v se ocs se acorda... A cabea docis cuma a cabea de bagre, s tem b...
Antes que Manezin completasse a frase, os ricos bundas moles corados de vergonha, no af de sufocarem aquela descompostura matuta, na maior cara de pau, alaram-no do cho e enquanto caminhavam com ele nos braos, gritavam, em uma s voz, a plenos pulmes, este refro, alis, prprio dos habitantes do Sudeste quando em aniversrio.
- E pr Manezin, nada? Ao passo que outros gaiatos respondiam.
- Tudo!
- E, ento, como que ?
- !
- pique... pique... pique... pique... pique. hora... hora... hora... hora... hora. Ra... Tim... Bum... Manezin... Manezin... Manezin... Manezin.
Num misto de frustrao pelo abafo de suas palavras agora inaudveis aos ouvidos humanos, mas sentindo-se como se fosse a Fnix Brejeira que renascia das cinzas nos braos daqueles marmanjos vestidos do mais puro tergal, Manezim, agora, apenas sorria. Um sorriso amarelo e desdentado, verdade, mas era um sorriso.
No demorou muito para que os riquin bundas moles encontrassem o primeiro infernin mais prximo aonde dispensaram aquela tralha. Antes, no entanto, tiveram o cuidado de efetuar o pagamento antecipado de vrias garrafas de Chora Rita. Ao sarem dali, deixaram ordens expressas e implacveis Margot, dona daquele ftido boteco de beira de estrada: Segure esse tonto ai, Margot. Faa-o beber quantas garrafas de pinga forem necessrias. No deixe que esse encosto v Lagoa encher o nosso saco. No queremos que esse estorvo perturbe o nosso merecido sossego. Estamos cansados de no fazer nada. Ns precisamos nos divertir.
...
Por vezes, no sem motivo que o velho adgio popular nos diz que quando a esmola muito grande o santo deve desconfiar.
Enoque Alves Rodrigues, brejeiro de nascimento e convico, que atua na rea de Engenharia, Escritor com dois livros a serem lanados, (Liderana Conquistada e Brejo das Almas em Crnicas), Colunista, Historiador e divulgador voluntrio de Francisco S, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil. Visitem meu blog: Pra variar, sobre Francisco S: http://enoquerodrigues-earodrigues.blogspot.com/ http://www.facebook.com/profile.php?v=info&edit_info=all&ref=nur


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Por Enoque Alves - 6/9/2011 21:42:56
SER BREJEIRO ... SUPERAR OBSTCULOS COM GALHARDIA

Enoque Alves Rodrigues

Maro de 1964. O dia 31 que marcaria, literalmente, a ferro e fogo a vida de todos ns Brasileiros, se avizinhava. Falsos sentimentos de amor eterno pela Ptria Amada, Salve, Salve, enrustidos por detrs de vaidades pessoais e interesses mesquinhos e individualistas, levavam foras deletrias a aglutinarem-se em noites caladas, debaixo de sombras sorrateiras. Na marra, desiguais apeariam outros desiguais do Poder, lanando os menos favorecidos nos mais profundos e tenebrosos precipcios durante 20 anos. No vale a pena detalhar aqui as consequncias nefastas deste tresloucado gesto, que todos ns ainda hoje tentamos esquecer.
O certo que, muito antes desse episdio, as coisas j no andavam muito bem pelas plagas que eu, quase infante, palmilhava com ps descalos. Alis, as mars dos mares de Minas j no estavam mais para peixes h muito tempo. Crises de seca e fome grassavam o Pas de ponta a ponta. Numa dessas pontas, estava eu, um pirralho de onze anos, estvamos ns, e estava ele, o velho Brejo de todas as Almas, l na pontinha das Gerais, se debatendo todo para saciar os desejos mais sublimes e elementares de seus filhos. A vida flua difcil e lentamente. Por mais que se trabalhasse, claro, quando havia trabalho, a coisa no saia do lugar.
No fosse a velha mxima que diz que no h nada que de to ruim no possa piorar, poderamos at afirmar que os efeitos desastrosos da Revoluo, foram apenas mais uma ferida no corpanzil de um lazarento. Mas as coisas no so to simples assim.
Dejanir de Cana Brava tinha plena conscincia disso. Casado com Francisca, pai de seis filhos pequenos, labutava de sol a sol para conseguir o sustento parco daquela prole numerosa. Tivera ele todos os trinta anos de sua curta existncia, forjados na bigorna cruel das mais difceis necessidades de uma vida miseravelmente Severina. Vendia o almoo para comprar a janta. Trabalhava nas roas de Zeca. Quando a lide no campo escasseava, recorria-se ao Gorutuba, de onde sempre voltava com alguns peixes. Agradecido, dizia sempre: Meu Deus... O Gorutuba jamais me deixou na mo. O que ser de mim se algum dia isso acontecer?
Bem, como o Brejeiro aqui j mencionou nestas mal traadas linhas, as mars dos mares de Minas no estavam mesmo para peixes. Sendo assim, o Gorutuba, coitado, no estava nem mesmo para sapo. A seca atazanava a vida de todos ns matutos do Norte de Minas. Eu, apesar de poca contar apenas 11 anos, j no tinha mais cobras para puxar o rabo (roas para carpir) com uma velha enxada l na Fazenda do seu Vencios, onde defendia alguns trocados. Vem da a minha obstinao pelo trabalho, fora do qual no vejo nenhuma outra forma de se realizar na vida. Mergulhei-me, ento, na funo de retratista. Com uma velha cmera kodac e rolos de filmes branco e preto, tentava realar a sofrvel beleza brejeira de meus iguais, que apesar de serem feios de doer, como eu, queriam mesmo era ficar bem e bonitos na fita. Distantes estvamos dos tempos atuais das cmeras de ltima gerao e do photoshop que hoje, num passe de mgica, transforma gordos em magros, pretos em brancos, feios em bonitos e canhes oxidados pelo tempo, em reluzentes e turbinados boengs, alis, difceis de pilotar. o progresso meu chapa.

A verdade, sem maiores delongas, que o que o nosso amigo Dejanir mais temia, aconteceu. O rio Gorutuba comeou a dar sinais de cansao. O peixe que antes oferecia a Dejanir em abundncia, agora no mais aparecia. Com o seu velho anzol com vara de bambu, e uma minhoca ponta, ele ficava horas a fio sentado sobre um toco naquele barranco, espera que um pintado, uma gorda trara ou na pior das hipteses, um bagre enlameado surgissem. Mas, nada. Quando o desespero apertava, ele tentava se tranquilizar acedendo um cigarrinho de palha. Mas permanecia sempre plantado no mesmo lugar como se um arbusto fosse. maneira que as horas avanavam ele se descabelava. E em suas lamentaes amaldioava a tudo e a todos. Em seus queixumes olvidava-se que naquele mesmo lugar, no mesmo rio, houvera tirado durante todo o ano o seu sustento. E resmungava: Capeta, que diabo est acontecendo com estes peixes? Antes eles vinham aqui aos montes e agora, nenhum! Ser que deu veneno na cabeceira deste maldito rio? Cruz, credo...
Mergulhado em sua prpria inrcia e muito mais preocupado com suas desgracncias, sequer lhe ocorreu em algum instante mudar de lugar. No havia notado que a pouco menos de cem metros de distncia dele, Anto do Catuni, precavido, prudente e motivado, calmamente retirava peixes e mais peixes do mesmo rio que ele segundos atrs amaldioara. De soslaio, entre uma baforada e outra, viu-o. Ps-se esttico. Nada conseguia entender. Em suas divagaes inferiores s conseguia concatenar isso: Desgraa, como possvel que Anto to perto de mim consiga pegar tantos peixes em to pouco tempo, enquanto que eu que estou aqui o dia todo no consigo pegar nem uma piabinha?
Ai no teve jeito. A voz da conscincia que at ento se achava adormecida l no fundo da cachola do caboclo brejeiro, no se conteve. Perdeu a pacincia e compostura. Aos berros, esbravejou: Vai trabalhar, vagabundo! Saia dessa inrcia intil! Quem voc pensa que ? Durante o ano todo voc ficou ai sentado neste toco, e o rio, generoso, empurrou os peixes at voc para que voc os pescasse. Voc no entanto se acomodou de tal forma que hoje no quer nem se dar ao trabalho de caminhar menos de cem metros para busca-los. por isso que ns, digo, eu, que sou o seu Anjo da Guarda, que recebi a triste misso do Cara l de Cima para lhe carregar nas costas, seu estrupcio, e Ele Prprio, decidimos que a partir de hoje, se voc quiser levar algum peixe para casa ter que correr atrs. Voc tem que sair da. Esse toco j no lhe agenta mais, cara. Voc precisa caminhar um pouco e emagrecer, rapaz... Feio... Molenga...Careca... Barrigudo... Preguioso... Te manca, meu... Cobra que no anda no engole sapo, s!
Convenhamos que o vocabulrio chulo, prprio de ns, simples mortais, utilizado pelo Anjo da Guarda de Dejanir, estava h milhes de anos luz de distncia do que se pratica nas esferas Angelicais mais elevadas. No entanto, foram as palavras certas no momento mais que oportuno. Foi a sacudida que Dejanir necessitava para, daquele dia em diante, seguir em frente, ir luta com coragem, determinao e galhardia.
...
Por vezes, quando at mesmo o nosso Anjo da Guarda perde as estribeiras, porque a coisa entortou de vez e ai, meu nego, mexa-se. V em frente, seno jacar te abraa.
Enoque Alves Rodrigues, Brejeiro de nascimento e convico, que atua na rea de Engenharia h quarenta anos, cronista, escritor com dois livros em fase de lanamento, historiador e divulgador voluntrio de Francisco S, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil. Contatos: [email protected]; [email protected]. Visitem meu blog: http://enoquerodrigues-earodriguesblogspot.com; http://www.facebook.com/profile.php?v=info&edit_info=all&ref=nur#!/profile.php?id=100000392634518


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Por Enoque Alves - 27/8/2011 20:16:52
PLANTAS MEDICINAIS - OS RAIZEIROS DO VELHO BREJO DAS ALMAS

Enoque Alves Rodrigues

So infinitamente incontveis os historiadores que tem nos presenteado com seus relatos, por sinal, ricos em pormenores, a respeito da flora medicinal que existia nos serrados do velho Brejo das Almas de antanho que, contrariando a ordem da Natureza, cobria como se verde tapete fosse, rida terra que me serviu de bero. Eu prprio, sem qualquer pretenso de incluir-me no rol de importantes, mas mantendo a prudncia peculiar, j discorri vrias vezes sobre esse tema que em muitos ainda exerce grande fascnio.
H, no entanto, vrias crendices populares que o nosso matuto brejeiro sempre procurou preservar no decorrer dos muitos anos ou sculos. Refiro-me a comprovao da eficcia de cura atribuda a determinada erva ou raiz. Alis, ao vermos nos dias atuais a alquimia resultante das grandes descobertas no campo da indstria qumica prevalecer em quase todas as essncias, h que nos perguntarmos: at onde devemos crer na capacidade de cura creditada pelos nossos antepassados, a esta ou aquela plantinha? Ser que a raiz que se encontra curtida com cachaa de alambique dentro daquela branca garrafa tem realmente algum poder de cura ou est l apenas devido ao seu sabor amargo ou para causar um bom efeito visual induzindo o pinguo a consumir mais? So indagaes que com toda certeza habitam o imaginrio de grande parte da populao, pau dagua ou no.
Contrariando minha mezinha, a santa de cabelos brancos, razo de meu existir, que acaba de completar setenta e seis aninhos e vive l em Burarama, que certamente me diria: Noquinho, cuidado com certas afirmaes. Lembre-se que cautela e caldo de galinha no fazem mal a ningum, atrevo-me a dizer que os efeitos dessas garrafadas na maioria das vezes, so muito mais psicolgicos, ou placebo que reais. Mas isso no importa. O que conta mesmo que no h razes e garrafadas sem os raizeiros, que as preparam e que intitulam a crnica de hoje.
Certo est que as razes e os raizeiros fazem parte da vida de Francisco S, o nosso querido Brejo das Almas, desde os tempos de sua fundao. Em 1704, quando o fazendeiro Antonio Gonalves Figueira deixou suas fazendas Jaba, Olhos Dagua e Colnia Montes Claros com destino ao Gorutuba, onde chegaria a dois de Novembro, incorporaram-se em sua pequena expedio de pouco mais de 20 pessoas, vrios raizeiros, sendo o mais famoso deles Getlio Santos Soares. Quando construram a primeira Capela do Brejo, a So Gonalo, em 1768, ao inaugura-la, estavam todos cansados e esbaforidos. Devido ao calor, forte indisposio intestinal tomou conta da plebe. Foram todos salvos por garrafadas e mais garrafadas de malva com fedegoso e semente de aroeira.
Anto do Catuni, Geraldo da Marvina, de Lagoa Seca, Rosendo, de So Geraldo, Manuel Pereira, de Poes, Bicalho, do final da Rua Montes Claros, Zezim, tocador, da Padre Augusto, Genivaldo, do Moc, Z Cludio, de Vaca Morta e muitos outros, so alguns dos raizeiros que se encarregavam de abastecer os muitos botecos do Brejo com suas garrafadas milagrosas. No entanto, para quem desejasse saborear todas as garrafadas produzidas por estes verdadeiros alquimistas em uma s parte, sem que se fizesse necessrio caminhar muito, bastava apenas ir at o velho p na cova, sugestivo nome de um prottipo de bar, que como o nome indica, ficava exatamente no alto, quase dentro do cemitrio de Francisco S. Tambm j muito falei a respeito dos bares do Brejo. Estica o Brao, Rola Moa, do Almeida, D Pena, Moa Branca, Roubaram meu Gato, Corta Volta, Rola Pote, Alma Penada, Fura Fronha, S Cinco, Boca do Inferno, cuja denominao atribuda a sua localizao que ficava no antigo beco que dava, ou melhor, que levava o transeunte bomio procura do sexo fcil, aonde belas mulheres maculadas e iludidas por promessas fceis, ainda em idade juvenil, vendiam o sexo, na penumbra de abajur lils do no menos famoso Rancho da Lua, onde Margot, a cafetina, imperava. Isso apenas para citar alguns botecos mais recentes em minha memria quase anci.
As poucas farmcias da poca viviam s moscas, enquanto que os bares com suas garrafadas no tinham do que reclamar. Qualquer pequena dor de cabea, de barriga, do peito, das pernas, lombrigas, impotncia sexual, etc., era motivo mais que suficiente para que o matuto brejeiro recorresse ao bar mais prximo. Chegava, informava ao dono do bar o seu suposto diagnstico e depois de alguns segundos l vinha o caboclo com uma lmpida garrafa em uma mo e com um copo baboso na outra, dizendo: aqui est a soluo para a sua doena. Toma um gole que tiro e queda!
O doente pegava o copo e antes de solver em um s trago o precioso liquido, dava o primeiro gole para o santo e... tchan, tchan, tchan, tchan... Entornava tudo de uma s vez e em poucos instantes dizia-se curado. No. No ia embora. Ao contrrio, ficava l bebendo mais e enchendo o saco, at cair, fazendo a festa da cachorrada que lambia-lhe os lbios, solvendo os sabores malficos da aguardente. Enquanto isso, a patroa brejeira que ficara em casa preocupada com os queixumes do bebum, no restava outra alternativa seno o difcil priplo pelas escuras ruas do Brejo, em busca do infeliz em um dos muitos bares, cuja misso quase impossvel, mas que protegida pela deusa que ampara e sustenta todas as deusas do sexo feminino, principalmente as nossas mulheres brejeiras, acabava por lograr xito em seu intento. L estava o maldito estirado frente do bar. Chamava-lhe pelo nome. Nenhum sinal de vida. Estava quase em coma alcolico. Ai a grande herona do lar, com a ajuda de alguns outros bebuns que ainda estavam de p, mesmo tropeando nas prprias pernas, punham-no em posio vertical, jogava-o nas costas e l se iam, trpegos, esposa e pau dagua caminho do lar aconchegante.
...
Por vezes, no h cruz mais pesada e difcil de carregar, que um bbado s costas.
Enoque Alves Rodrigues, brejeiro de nascimento e convico, que atua na rea de Engenharia, Escritor com dois livros a serem lanados, Colunista, Historiador e divulgador voluntrio de Francisco S, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil. Visitem meu blog: Pra variar, sobre Francisco S: http://enoquerodrigues-earodrigues.blogspot.com/


68503
Por Enoque Alves - 14/8/2011 19:52:05
DEVANEIOS DE UM BREJEIRO AUSENTE ANDANDO PELAS RUAS DO BREJO

Enoque Alves Rodrigues

A imaginao a mais poderosa aeronave que nos transporta em frao de segundos de um ponto ao outro do Universo, sem que tenhamos movido sequer um dos ps do local em que nos encontramos. Atravs de suas poderosas asas voamos para os mais longnquos lugares, principalmente para onde se detm os nossos laos e recordaes da infncia indelvel.
Foi assim que de repente me pus a vagar, de maneira dispersa e sem destino definido, pelas ruas, avenidas e praas de meu querido Brejo das Almas, Francisco S, beldade do norte de minas.
Vi-me defronte Drogaria Unio, prximo ao Banco do Brasil, na Praa Jacinto Silveira, de onde iniciei minha caminhada. Parei um pouco em frente Igreja Matriz e observava a movimentao dos fieis que saiam de mais uma missa. Ganhei a Alameda Montes Claros e fui seguindo. Vi a antiga casa onde antes era a Penso da Dona Quino, cuja frente servia de ponto para os nibus que vinham da regio de Salinas, Taiobeiras, Gro Mogol, etc.
Mercearia Alameda, Casa Lotrica Lotefrasa, Minas Bahia Consultoria, at a Farmcia Mineira na mesma Alameda. Sem mais nem menos, vi-me, desta vez diante do Mercado Compre Sempre, na Rua Sete de Setembro, com suas salincias ngremes, Joo de Frana Corretor de Imveis, Diocese de Montes Claros, Fantstico Mveis, Casa Quincas, etc. Saio na Rua Marechal Floriano Peixoto. O Bar do Ronaldo, Casa Rocha, Comercial Moreira, Varejo do Hlio, Mercearia Dois Irmos, Mercearia So Luiz, etc. Agora estou na Rua Padre Augusto, diante da Funerria Avelar cruz credo-, Mercearia So Jos. Sigo por ela: Sol e Mar, Varejo da Economia. Paro um pouco e antes de virar a direita para sair em frente ao Mercado Municipal, ponho-me a pensar... Quantos, porventura, de nossos conterrneos saberiam definir o quanto representou o nome gravado naquela velha placa para o Brejo das Almas? O certo que o Padre Augusto Prudncio da Silva, sobre o qual muito j escrevi neste mesmo espao foi, juntamente com Jacinto Silveira, um dos maiores benemritos do antigo Brejo das Almas.
Ao invs de entrar direita, retorno esquerda, pegando a Avenida Getlio Vargas. Passo em frente Igreja de So Gonalo. Observo, agora, os prdios da Prefeitura e da Cmara Municipal. Subo, trpego, as escadarias da Cmara e posso observar em seu interior. Na portaria uma gorda senhora com uma prancheta mo. Sequer nota minha insignificante presena. Adentro os interiores. Fotos antigas e amareladas pelo tempo de Legislaturas de h muito passadas. Sento-me numa das cadeiras do Plenrio de onde vejo a Nobre edilidade debruada sobre projeto de grande interesse e relevncia para os muncipes brejeiros. Depois de acirrada discusso, aprovaram-no por maioria absoluta. Saio de l feliz e convicto de que o meu povo a minha gente, os meus queridos iguais, esto sendo muito bem representados. Que, sem duvida alguma, os seus anseios e suas necessidades mais prementes e comezinhas esto sendo, aos poucos atendidos.
De igual modo, entro no prdio da Prefeitura. Feinho, claro, assim como o da Cmara, faltam algumas reformas. Nenhum obstculo. Alias esta uma das grandes vantagens de viver e morar em pequenas localidades. Os acessos so livres. Se voc for um local, conhecer a todos e todos o conhecem. Mas se voc no for local, acaba passando despercebido. Agora estou defronte ao Gabinete do Prefeito. Posso v-lo com sua bela pena a sancionar o Projeto de Lei que momentos antes tivera eu o privilgio de ver sendo discutido e aprovado na Cmara de Vereadores. Sem quaisquer delongas, o grande chefe do Poder Executivo Brejeiro, homem de grande sensibilidade poltica e elevado esprito pblico, comprometido em mitigar facilidades que beneficiem seu povo, com uma s canetada enquanto eu piscava, zs... Com um s risco, com o seco e assertivo cumpre-se dos magistrados, libera toda aquela papelada Secretaria para que seja registrada nos anais.
xtase incomensurvel mesclado com prazer e sentimentos de um pequenez pessimista e abstrata, invadiu meu ser. Pensei comigo: Que coisa feia... Por que razo eu imaginava que as celeridades para com as decises e aprovaes de coisas que beneficiam realmente o povo no aconteciam? O que me levou a subestimar algo to transparente e cristalino? Sei l...
O certo que a felicidade sobrepunha os questionamentos de inferioridades de minha reles pessoa. Poderia ali mesmo encerrar aquele priplo pelas ruas do Brejo. Mesmo assim continuei caminhando sem rumo. Correios, Espao Rural, Asilo So Vicente, Funasa, Construpena, etc. Na Praa Duque de Caxias, vejo o antigo casaro que pertencia a Rogrio da Costa Negro, Casa Prado, Hidrogs, Farmcia Nossa Senhora das Graas, Humberto Ruas e Cia, etc. Na Olimpio Dias, Banco Ita, Tribunal de Justia de Minas, Sindicato dos Trabalhadores Rurais, Kenya Criaes, etc. Na Alfredo S, Policia Rodoviria e Cartrios de Protestos e do Primeiro Oficio. Na Francelino Dias, Rdio Razes e outras. Na Rua Capito Enas, O Instituto Municipal de Previdncia. Na Lauro Oliveira, o prdio da Escola Estadual Donato dos Santos, Tiburtino Pena, a Augusta e Representvel Loja. Na Zeca Guida, o Instituto Mineiro. O Caf Cometa da Rua Sargento Mor. Na Rua Belo Horizonte a Secretaria Municipal de Sade. Na Jos Patrcio Silveira, o Sindicato Rural de Francisco S. A Doce Magia Modas, da Rua Tremendal. O Colgio Pirmide, na Rua Minas Gerais. Na Travessa do Rosrio, o Sacolo Brejeiro. O Hospital So Dimas e oTribunal Regional Eleitoral na Rua Joo Catulino. O Centro de Sade da Praa Rogrio da Costa Negro. Hotel Avenida, da Avenida Padre Silvestre. Depois de muito caminhar me vejo frente do Hotel Amaralina, onde, supostamente estou hospedado. Na mesma praa de onde iniciei a minha caminhada. O corpo pede repouso. Observo, de soslaio, do outro lado da Praa dois conterrneos ao lado de um boizinho sofrvel, com uma selinha ao lombo e com uma garrafa pet a servir-lhe de penico.
Uai, eu no havia dito, supostamente?
Pois !
Todo esse transe de felicidade mpar seria muita areia para o caminhozinho deste pobre mortal. Eis que na calada da noite, no demorou muito e a inveno de Alexandre Graham Bell, toca...
Ao tira-lo do gancho, antes mesmo que eu falasse al, uma voz feminina que de pronto identifiquei comeou.
Dr. a Luzinete...
Oi, Luzinete, qual o problema?
Desculpe-me, doutor, pelo adiantado da hora... Mas eu estou te ligando para avisar que aquele treinamento que o senhor ia dar para o pessoal da Obra de Candeias, na Bahia, foi antecipado para hoje.
Luzinete, sua demnia, mas eu no lhe disse que no queria ser incomodado quando estivesse em minha terra? Voc, por acaso, no sabe que eu estou aqui em Francisco S? Desmarque essa joa, imediatamente...
Desculpe-me, doutor, mas acho que o senhor est enganado, pois eu estou ligando para o telefone fixo de sua residncia daqui de So Paulo. Assim sendo, o senhor se encontra aqui em SAMPA e no l no seu Brejo das Almas. E ainda me comeu o toco... Acorde pr realidade, doutor...
...
Por vezes, sem que saibamos, o maior dos pesadelos est em nosso prprio despertar!!!
Enoque Alves Rodrigues, brejeiro de nascimento e convico, que atua na rea de Engenharia, Colunista, Historiador e divulgador voluntrio de Francisco S, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil. Visitem meu blog: Pra variar, sobre Francisco S:
http://enoquerodrigues-earodrigues.blogspot.com/
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68423
Por Enoque Alves - 5/8/2011 22:09:18
SER BREJEIRO ...AMAR O BREJO SOBRE TODAS AS COISAS...

Enoque Alves Rodrigues

H algum tempo atrs li em minha pgina de relacionamentos face, aparte de um conterrneo ao outro que me sugeria escrever sobre determinado tema relacionado, como sempre, ao Brejo das Almas, do qual supunha ele deter eu o domnio do conhecimento.
Na breve missiva, o conterrneo que aparteava a quem agradeo de corao, do alto de sua inquestionvel sapincia, manifestava-se surpreso devido o outro ter sugerido a mim, que nem no Brejo vivo e no a ele, mencionado tema. Finalizava informando que sai do Brejo muito cedo e que, portanto, no poderia discorrer com natural propriedade tal assunto, etc.
Tenho por premissa me resguardar de comentar ou me envolver com temticas polemicas onde no consigo visualizar claramente o trinmio principio, meio e fim. que na rea de Engenharia onde atuo, lidamos muito com cincias exatas, cujo cume o resultado. Assim sendo, as coisas que no se enquadram neste perfil, julgamo-las, abstratas ou descartveis o suficiente a no nos permitir que debrucemos sobre elas para tomarmos aes que certamente nos levaro do nada a lugar algum.
No tenho nos dias atuais nenhum vinculo familiar, qualquer parentesco ou contato fsico com algum que vive no Brejo. Ando por suas ruas sem ser sequer notado. Ningum me conhece fisicamente. Os poucos, que l ficaram, com os quais convivia, j esto, certamente, no andar de cima. Devo aqui ressaltar que sou brejeiro de nascimento, por amor e convico. Apenas isso j bastaria para justificar esse meu inexplicvel apego terra que me serviu de bero. A incondicionalidade do amor que nutro pelo Brejo das Almas, sua gente e suas mazelas, est lastreada nas mesmas dificuldades que me obrigaram um dia a sair de l, e principalmente, pelos parmetros comparativos que pude estabelecer, diante de vrias localidades e povos que vim a conhecer aqui mesmo no Brasil e em outras partes ao redor do Mundo, como no Oriente Mdio, por exemplo. Em So Paulo, onde vivo, creio ter atingido o modesto pedestal pelo qual lutei e que a vida me reservou, durante longussimos anos de labuta.
Mas... E ento, no deveria eu nesse caso, amar muito mais a So Paulo que me acolheu, quando necessitava, dando-me guarida, aps haver, com seu corao hospitaleiro e cheio de bondade, me convertido atravs de seus costumes, sotaques diferenciados dos Italianos da Mooca, com suas pizzas e bracholas, em um de seus iguais?
No. Negativo!
Amo So Paulo assim como amaria qualquer outro lugar que tivesse me proporcionado constituir minha famlia, participar de seu crescimento e ainda por cima, depois de comer o po que o capeta amassou, chegar ao pice da vida com algum no bolso para me sustentar, sei l, por quanto tempo, sobre as j frgeis e tremulas pernas que s vezes insistem, como as mulas empacadeiras do meu Brejo querido, em no mais querer sair do lugar, carregando o peso de minha saliente barriga. a vida, meu ngo.
Amar, j dizia o Poeta, dar-se sem pedir nada em troca. O meu amor pelo Brejo das Almas, ou Francisco S, beldade do norte de Minas vem da. Desde que nasci at hoje, muitos anos se passaram desde que amassei pela ultima vez a bosta das vacas da Fazenda Terra Branca de propriedade de meu av, no Municpio do Brejo das Almas. Mesmo assim, ainda hoje meus pobres ps, ao palmilharem alguns importantes centros financeiros, palcios de convenes, centros empresariais e conferncias inerentes a minha atividade, conseguem tropear em algo de natureza mole e tonalidade verde e escorregadia, que no final, pasmo, as narinas que jamais me traem, constatam tratar-se da mesma bosta de vaca dos tempos de outrora.
O amor, meus queridos amigos e conterrneo algo que sobrepe o nosso querer. Ns no escolhemos o que ou quem vamos amar. Dessa forma, por me faltar argumentos dentro da objetividade, por no dispor de palavras suficientes que me permitam relatar com clareza, todas as causas, motivos e peculiaridades que canalizam o meu amor pelo Brejo das Almas, resta-me apenas me homiziar por detrs do meu mineirismo brejeiro, para lhes afirmar categoricamente, que somente o fato do Brejo ter produzido esse povo simples, lindo e maravilhoso onde eu, igual algum encontrei pelas diversas plagas percorridas, esse povo que transita pelas empoeiradas ruas do Brejo onde eu, muitas vezes, em viglia do esprito invisvel, tambm me encontro a caminhar, basta-me para seguir amando-o com todas as foras do meu ser, sem quaisquer outras justificativas. Assim o amor.
E tenho dito!

Enoque Alves Rodrigues, brejeiro de nascimento e convico, que atua na rea de Engenharia, Colunista, Historiador e divulgador voluntrio de Francisco S, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil. Visitem meu blog: Pra variar, sobre Francisco S: http://enoquerodrigues-earodrigues.blogspot.com/


68363
Por Enoque Alves - 30/7/2011 21:34:44
BELEZAS DE NOSSA TERRA - BREJO DAS ALMAS

Enoque Alves Rodrigues


Desde os mais longnquos primrdios, as belezas da terra que me serviu de bero, o Brejo das Almas, ou Francisco S, beldade do norte de Minas, so desfiladas em prosa e verso pelos mais diferentes Poetas e Escritores, amantes daquele abenoado torro. Sejam eles nascidos ou no, naquele recanto. O Itabirense Carlos Drummond de Andrade que o diga. Fascinado com as maravilhas de nossa terra, dedicou todo um livro, uma de suas principais Obras Primas, marco da Literatura Brasileira, ao nosso Brejo das Almas.
Encravada no denominado polgono da seca, l est ela desde Antonio Figueira, linda e faceira a produzir com a mesma lentido da vida mineira, os seus naturais encantos.
No Brejo, nascemos e vivemos entre vrios rebanhos bovinos, caprinos e sunos. Dormimos e acordamos sob o som de imensa orquestra regida por pssaros silvestres de todas as etnias que nos brindam com os seus mais diferentes cantos. O perfume inconfundvel das florzinhas agrestes que o vento em lufadas divinas insiste em brindar nossas casas, entrando por portas e janelas, a impregnarem seus interiores algo difcil de narrar. As suas ruas, estreitas, algumas empoeiradas, outras com pavimentaes precrias, cujo traado por vezes leva o nada a lugar algum, mas que seguiram a topografia natural do lugar, do- nos a sensao ntida de que o Brejo das Almas foi todo esculpido e moldado sob medida para o nosso deleite.
A beleza das guas paradas da antiga Lagoa das Pedras, que refletiam qual espelho, as imagens das rvores frondosas circundantes, dos bovinos sombra, deitados, depois de mitigada a sede, dos marrecos, dos ariris, e patos nadando sobre sua superfcie, na qual refletia o azul celeste do cu de sol claro, tudo isto, restam-me retidos no recndito, idelvel.
De onde surgiu a denominao Brejo das Almas?. No sabemos. Conheo todas elas. No entanto, nada disso importa. O certo que antigamente a simples enunciao do nome Brejo das Almas, causava aos que desconheciam o nosso lugar uma repentina fobia. Mesmo no sendo eu to velho assim, me lembro que houve tempos que os prprios brejeiros temiam ao ouvirem sua denominao. Nos dias de finados isso ficava mais patente. Em Montes Claros e outras Cidades adjacentes quando algum falava: vou dar um pulo no brejo fatalmente se ouvia com toda naturalidade: mas voc vai voltar? Cuidado, no v se afogar!. Depois... Ande com cuidado por que seno alguma alma penada vai lhe puxar as pernas!.
A este temor no escapou nem mesmo o grande professor, jornalista e poeta, nascido em 1898, em Camanducia, MG, Mrio Casassanta, em sua belssima crnica relatando seu regresso de uma excurso ao Norte de Minas em 1933, quando assim escreveu: Deixando Montes Claros, poucas horas depois, Brejo das Almas. Eu fazia de Brejo das Almas uma idia tenebrosa. Por que? Pelo nome? Pela distancia? No sei.
Para o Dr. Mrio Casassanta o nome de nossa querida terra se associa nossa memria as imagens do ermo dos pntanos e ao silncio do alem... Entretanto a sua viso de homem sensvel captou algo as belezas naturais de que somos dotados, e a sua capacidade de homem percuciente e de relevante cabedal de estudos, soube ver as nossas reais possibilidades." E deste modo finaliza sua crnica: Brejo das Almas d-me assim, longnqua e doirada de sol como a vi com a sua opulncia florestal, com o seu solo fecundo, com os seus rebanhos, com os seus laticnios, com a sua linda serra, com os seus engenhos, com o seu algodo, com a sua escola fecundssima, com a sua linhagem de Tiradentes, com a sua linhagem de homem de ideal Brejo das Almas d-me assim uma impresso perfeita e encantadora de como rica de aspectos e de como cheia de imprevistos a Civilizao de Minas Gerais.
H tambm os que acham excntrico o nosso antigo nome. Ns Brejeiros tambm pensamos diferente. Achamo-lo sugestivo e potico. Ele simplesmente lindo. Desculpem-me, pelo bairrismo.
O grande Brejeiro Olyntho Silveira, orgulho maior de nossa gente, assim como todos os Silveira, que ainda hoje, para nossa felicidade povoam nossa terra como guardies da honra, brindando-a com exemplos de probidade e lisura, no campo poltico, social e econmico, desencarnado em Montes Claros com quase cem anos, -de quem empresto aqui a maioria das palavras que utilizo hoje nesta crnica- dizia do alto de sua inigualvel sabedoria:
Eis o ideal para os nomes dos lugares sugerirem inteligncia uma suposio, criarem um estado dalma, desencadearem a delicada mquina da imaginao que, abalada, de roda em roda, acaba produzindo um sonho acordado. Maravilhoso poder de uma palavra, que logo entra a mexer em nossos arquivos cerebrais, alvoroando recordaes visuais, reconstituindo sonhos e perfumes que a muito se dissiparam, etc. Infelizmente j se tornaram raros e no tardaro em desaparecer as denominaes locais, assim ricas de sugestes, poesias e saudades... A rua dos Junquilhos, breve e modesta como a plantinha amiga da sombra sua madrinha, manter-se- quanto tempo reste de vida a um chefete poltico a quem alguns amigos pretendam prestar uma homenagem aps sua morte. Ser em breve a rua Coronel Filismino ou Praxedes, cuja memria alis nada ganhar.
Pois ... Isto posto, ficamos assim...
Em que pese o grande homem publico que foi o Dr. Francisco S, sobre quem eu, um reles genrico de escritor, especializado em engenharia, tanto escrevi, enaltecendo as inquestionveis virtudes das quais era possuidor, apenas empresta sua imaculada nomenclatura a nossa Cidade como mera marca de fantasia. O nome real recebido na pia batismal da localidade onde nasce o rio So Domingos, onde se encontra a Serra do Catuni, os dois riachos, o morro do moc, um pouco mais adiante o morro da maceira, a Igreja Matriz e a Igreja de So Gonalo, entre outras... O calado do centro por onde transitam desde a mais pura nata ao mais simples proletariado, meus iguais, e principalmente devido a infinidade de brejos que a compem, chama-se Brejo das Almas.
E tenho dito!
Enoque Alves Rodrigues, brejeiro de nascimento e convico, que atua na rea de Engenharia, Colunista, Historiador e divulgador voluntrio de Francisco S, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


68302
Por Enoque Alves - 23/7/2011 19:05:04
MINEIRISMO BREJEIRO - CHUVA FINA E TEMPESTADE

Enoque Alves Rodrigues

Quando em Maro de 1931 o mdico Dr. Paulo Cerqueira Rodrigues Pereira assumiu a Prefeitura da terra dos meus encantos, Brejo das Almas, na condio de seu primeiro Prefeito, iniciou-se um tremendo quebra-quebra na pacata Cidadezinha. No. No se tratava de nenhuma confuso ou levante de revoltosos refratrios nova administrao. J naqueles tempos assim como nos dias atuais, a paz que muitos anseiam em vrias partes do Mundo, sempre se fez presente naquele pedacinho de cu que quis a Divina Natureza me servisse de bero. Obras e mais obras pipocavam por todos os lados. O Dr. Paulo era na verdade um Mdico com esprito de Engenheiro. O homem era foda!
O antigo Largo da Matriz, hoje Praa Jacinto Silveira, assim como a maioria das casas, se achavam sobre grande elevao mais parecida com um morro em pleno centro. No teve jeito: o nivelamento das ruas e praas do velho Brejo das Almas era inevitvel.
Incontinenti, iniciaram-se os trabalhos, rduos por sinal. Naqueles tempos eram absolutamente desnecessrias as famosas tomadas de preos e licitaes. Claro, ningum roubava.
Assim sendo, todas as atividades inerentes ao corte do mato, poda da grama, retirada e recolocao de empedramentos nas ruas, escavaes, terraplenagens, movimentao de materiais, eram executados na base da enxada, foice, picareta e carroas puxadas por mulas. Os funcionrios pertenciam aos quadros efetivos da Prefeitura.
Formaram-se, ento, duas frentes de trabalho. Todas elas tinham seu front no prprio Largo da Matriz. Elas eram batizadas com os nomes de seus capatazes, ou seja, o cabo de turma. Esse indivduo era o responsvel por comandar o pessoal, realizar as medies das tarefas executadas que eram reportadas, implacavelmente, ao Ilustre Prefeito. Senhor alto, magro, olhos claros, que vestia-se, impecavelmente, pela mais pura gabardine e ternos cortados pelos melhores alfaiates de Montes Claros. Era nascido na regio e apesar de tudo, fazia da simplicidade a sua maneira de ser.
A primeira frente, uma barraca coberta com lona onde os pees guardavam seu ferramental, ficava logo atrs da Igreja, onde hoje o nmero 41, da Rua Padre Augusto. Esta era comandada pelo Salineiro Geraldo Salinas, cujo sobrenome fazia jus a sua terra de nascimento e tambm a cachaa de mesmo nome produzida na Cidade de Salinas, da qual era ele fiel adepto. Enquanto que a outra frente de trabalho ficava no final do Largo da Matriz, no exato lugar onde se encontra atualmente o Hotel Amaralina. Sua equipe, por sinal a mais produtiva, era composta por vrios indivduos entre eles, o baiano Z Mozinha, apelido que fazia aluso a sua deficincia fsica, por no possuir a Mo direita, que, no entanto, no o impedia de ser o rei da picareta. Era o melhor de todos. O carroceiro era o Jernimo pernas tortas, codinome este que indicava suas curtas pernas arqueadas guisa de uma torqus. Para completar o trio de aleijados, a prpria besta, encarregada de puxar a carroa tambm possua as patas dianteiras tortas, igual ao seu carroceiro. Qualquer incauto que observasse aquele trio fora de ao no daria um tosto furado por ele. No entanto, quando s 6 da manh ouvia-se o tilintar da pedra sobre a velha enxada pendurada em frente tenda, o trio se transformava e no tinha pra ningum. Eram metros e mais metros cbicos de terra escavados e puxados.
O Estelita Pena, alm de vendeiro, fora nomeado fiscal da Prefeitura. A ele cabia fiscalizar a todos e levar diretamente os reportes ao Prefeito Dr. Paulo.
Certa ocasio, a mais produtiva frente de trabalho, a frente da Rua do Padre, a do trio de aleijados, no contente com o ganhame e principalmente por ver que a outra frente da ponta do Largo que no produzia quase nada e, no entanto, ganhava igual, resolveu fazer corpo mole. Ou melhor, cozinhar o galo. S que o galo era muito velho. Sabendo disso, o Dr. Paulo recomendou ao Estelita Pena fechar o cerco sobre mencionado trio. As atenes do Fiscal foram redobradas para que o trio voltasse a dar a produo de antes.
Mas no teve jeito. Ai entrou em ao o mineirismo brejeiro. Os outrora senhores produtivos, incluindo ai a pobre besta, se transformaram em malandros, cheios de tretas e artimanhas que utilizavam para driblar as atenes do Fiscal Estelita. Combinaram, ento, Z Mozinha e Pernas Tortas, menos a besta que puxava a carroa, coitada, linguagem cifrada na qual se comunicavam com os demais trabalhadores. Ao Dr. Paulo Cerqueira, Prefeito, por ser exaltado e exigente, deram o apelido de tempestade. J para o Fiscal Estelita Pena, alcunharam-no de chuva fina. E assim passavam longas horas enrolando cigarros e mais cigarros de palha e bebericando uma cachacinha dentro de um corote, providencialmente escondido sob uma moita, sem que se ouvisse qualquer zumbido de picaretas a agredirem as pedras, nem o barulho natural das enxadas escavando a terra, ou das ps jogando-a sobre a carroa e nem a voz de comando do carroceiro Pernas Tortas besta: Vamos tortinha, lev mais essa terrinha. O Brejo pricisa de nis.
Parades estavam... Enquanto fumavam e bebiam, conversavam amenidades e, claro, sempre s espreitas, observando o movimento. A desdia definitivamente se abatera sobre aquela produtiva equipe.
Quando, no entanto, o Fiscal Estelita Pena surgia ao longe, percorrendo o caminho entre a Prefeitura e o Largo, hoje convertido em Alameda principal, por onde transitam os lindos pezinhos da mais pura beleza brejeira, meu povo, meus conterrneos, meus iguais, ouvia-se os gritos dos agora malandros
- Chuva Fina!. L vem chuva fina... Pronto. Era este o grito de guerra... As picaretas que at ento estavam imobilizadas subiam ao ar freneticamente e ao descerem-se retiniam sobre as pedras arrancando delas fascas de fogo como verdadeiros meteoros. A pobre mula, ou melhor, a besta, que at ento dormia o sono dos justos, atarantada, no conseguia entender porque agora era acordada com os gritos desesperados de seu carroceiro pernas tortas, que ainda lhe xingava: Vamos l, sua mula pernas tortas de uma figa, lev esta mardita terra, seno no fim do miz num sobra nada pr nis, diabos!
A cada apario do Prefeito seguiam-se no mesmo diapaso, s que a senha era outra: L vem a tempestade e ai o pau comia solto de novo.
...
Por vezes, muito tnue a linha que separa o trabalhador dedicado e comprometido com sua lide, do malandro imaginrio.

Enoque Alves Rodrigues, brejeiro de nascimento e convico, que atua na rea de Engenharia, Colunista, Historiador e divulgador voluntrio de Francisco S, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil. Visitem meu blog: Pra variar, sobre Francisco S: http://enoquerodrigues-earodrigues.blogspot.com/


68171
Por Enoque Alves - 8/7/2011 22:16:58
MINEIRISMO BREJEIRO - JUCA E SATURNINO

Enoque Alves Rodrigues

So Geraldo, 1960. A bela Florisbela, 18 anos, era minha Professora, tendo a Dona Ana Lucila, como substituta, enquanto que minha querida me, ser angelical, era Diretora daquele humilde, no entanto, importante, por ser o nico, Grupo Escolar. Diminuta casa de alvenaria de uma porta s, que ficava bem em frente ao cemitrio daquele outrora pequenino povoado de So Geraldo, que pertence ao Municpio de Francisco S, ou Brejo das Almas. Nossa casa ficava bem ao lado do Grupo Escolar, tendo como cenrio ao fundo, vasto e seco serrado onde de verde restava apenas um antigussimo p de umbu, em cujas copas e folhagens algumas maritacas tagarelavam, sem cessar. O sol ali era abrasador. Mamonas nativas estalavam ao longe demonstrando suas fragilidades diante do calor que se assemelhava a densidade do mesmo que se esvaia das fogueiras das inquisies onde os santos ardiam. A cigarra, incondicional amante da seca, inseria seu cantar a plenos pulmes, a cada intervalo de um pipocar e outro. Era a vida que flua por aquelas plagas, implacvel, mas preguiosamente...
Na sede do Municpio, Francisco S, Silveira, Oliveira e outros se sucediam. Em Cana Brava Zeca reinava absoluto, enquanto que em Burarama, Enas, j no final de sua linda e proba existncia, ainda dava as cartas como o dono do pedao e senhor absoluto. Muito fez em defesa de seu povo e de seu torro que hoje se denomina Capito Enas, a Cidade das avenidas, por suas vastas, planas e bem traadas ruas, cuja plancie, presente da Natureza, por concesso nica ou qui por descuido dos deuses, quele abenoado recanto localizado ao norte de Minas, estado que se encontra em quase seu todo, coberto por montanhas e elevaes, dai vindo o seu codinome alterosas.
Em So Geraldo, Juca e Saturnino ou Saturnino e Juca, conduziam os destinos polticos e econmicos daquela plebe proletria cuja subsistncia muitas vezes ou quase sempre, dependia de alguma ao por parte daqueles dois caciques que, cada qual a sua maneira, se desdobrava no intuito de atender os mais comezinhos reclamos e, por via de conseqncia natural, colher algum dividendo, quer ele poltico, social ou mesmo convertido num simples massagear de ego.
Logo na entrada do lugarejo ficava o casaro da fazenda de Saturnino, cuja densidade geogrfica ia at a metade do lugar. A partir dali entrava-se nos domnios de Juca, com sua grande e assobradada casa, dentro de um grande manguezal, localizados na sada do povoado de So Geraldo. Eles eram adversrios polticos, sendo um da antiga ARENA e o outro do MDB. Evidentemente que nas eleies eles faziam campanhas e Comcios fartos para os candidatos de suas respectivas predilees e assim, ganhava o candidato daquele que conseguia arregimentar aos tais comcios quantidade maior de pessoas.
Ser?
Nem sempre!
O certo que se voc fosse visto em Comcios de Saturnino no poderia nem pensar em dar as caras nos Comcios de Juca e, vice-versa. ai que entrava em cena a grande expertise ou jogo de cintura s avessas, do proleta brejeiro-geraldino seria esse o gentlico? Sei l, no importa! O fato que a barriga dos frgeis bacuris ainda em idade tenra, reclamava os teores calricos necessrios a uma subsistncia digna. No tinha conversa bonita, no. Era rango no prato e pronto! Nada mais interessava. E como dizia o senhor Madruga, personagem do seriado Chaves: quando a fome aperta a vergonha afrouxa. E afrouxava mesmo. O caboclo, para no perder a boquinha do churrasco fcil com cachaa, o fiado no vendeiro da esquina, a pea de tergal para cobrir as vergonhas da mulher, o emulso scott para expelir as solitrias das barriguinhas de mandi de enchente dos filhos, tinha mesmo que ir luta. Nem que para isso tivesse que gastar o seu autntico mineirismo. Quando algum era pilhado em Comcios adversrios, era comum ouvir-se o seguinte dilogo:
- Vi-o, ontem noite, no Comcio de Saturnino!
- Negativo. Jamais estive l. Era o meu irmo gmeo!...
- Uai, mais voc no o filho nico da dona Maria do seu Lalau do aougue?
- Sou! Por acaso voc no sabe que acabaram de adotar um irmo para mim l em casa?
- No. No sei. Tudo que sei que se o seu irmo adotado ele no pode ser nenhum gmeo seu. Portanto, no deveria parecer nada com voc!
- que voc no entende de gentica, s!
Uai, espere um pouco. Se voc esteve ontem no Comcio de Saturnino e viu o meu irmo gmeo, que diabos voc est fazendo aqui no Comcio de Juca?
- E quem foi que lhe disse que eu estive l?
- Uai, mas voc acabou de me dizer!
- Por acaso eu lhe falei que estive l, pessoalmente?
- No. Isso voc no falou. Voc s disse que havia me visto l. Nada mais!
- Ento, pronto. Est tudo explicado... J ouviu falar num negcio chamado esprito?
- J!
- Pois , seu boc, quem lhe viu ontem a noite, comendo churrasco e bebendo cachaa l no Comcio de Saturnino, foi o meu esprito, enquanto eu dormia!
- verdade, s. Acabo de me lembrar... finalizou o outro agora preocupado em ficar bem na fita: o sujeito feio, desdentado, faminto e barrigudo que o seu esprito viu l no comcio de Saturnino comendo churrasco e bebendo cachaa tambm no era eu no. Era o meu esprito, aquele sem-vergonha, que fica batendo pernas por ai enquanto eu durmo como um anjinho.
...

Por vezes, o melhor mesmo fingir-se de morto para no correr o risco de se perder a boquinha.
E tenho dito!

Enoque Alves Rodrigues, brejeiro de nascimento e convico, que atua na rea de Engenharia, Colunista, Historiador e divulgador voluntrio de Francisco S, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil. Visitem meu blog: Pra variar, sobre Francisco S: http://enoquerodrigues-earodrigues.blogspot.com/


68052
Por Enoque Alves - 25/6/2011 13:33:37
MINEIRISMO BREJEIRO MANL DE VOV

Enoque Alves Rodrigues

Antigo proprietrio de bar em Francisco S, Manl de Vov era muito conhecido e famoso devido ao esmero com que preparava suas garrafadas de pingas, nas quais adicionava desde razes de vegetais do serrado brejeiro at a bela cobrinha coral, que dava um tom colorido s garrafas, quase sempre brancas.
A cachaa era curtida com aquelas exticas misturas durante vrias semanas. Depois, eram servidas em doses generosas, aos tropeiros cansados que pairavam naquele bar confortvel, tendo a frente o manguezal do Clovo, com fartas pastagens verdejantes para suas montarias.
Ali era o que se poderia chamar de o paraso dos tropeiros. Enquanto l fora, os muares degustavam os brotos ainda em formao do legitimo capim colonio, dentro do bar de Manl de Vov, na verdade um barraco de madeiras que ficava bem na sada da Cidade, beira da estrada principal de acesso a todos os confins do norte de Minas Gerais, seus donos, os tropeiros, faziam a festa.
Manl de Vov, um senhor j de meia idade, moreno, alto, que possua somente um brao, no me lembro qual, era gil na alquimia das garrafadas alm de exmio cozinheiro, que preparava pratos saborosos que segundo a prpria freguesia comentava, tambm eram afrodisacos, quase sempre compostos por ovos de codorna e sarapatel, acompanhados de arroz branco, feijo de corda e farinha de mandioca. Era este o prato do dia, ou melhor, de todos os dias. Como sobremesa, casadinhos de queijos com marmelada que ficavam em um prato sobre o balco. Vinha gente de diversas regies, de todos os lados para saborear as famosas iguarias do Bar de Manl de Vov. Enquanto os muitos bares do Brejo das Almas se achavam s moscas, a espera de um msero fregus, amargando prejuzos pelas crises seguidas que naqueles tempos grassavam o Norte das Gerais, Manl no tinha do que se queixar. Seu bar vivia sempre cheio, todos os dias. O burburinho era intenso. Copos e mais copos de cachaa com cobras e razes eram servidos guisa de aperitivo enquanto a clientela mordiscava crocantes torresmos e pernas de galinha, no aguardo, sem nenhuma pressa, do rango principal que fumegava numa preta panela de ferro, sobre um fogo de lenha com fogo preguioso. Flores de aboboras como eram chamadas as antigas notas de um mil cruzeiros, quase inexistentes para as mos dos simples e mortais brejeiros, reluziam aos montes nas mos de Manl de Vov. Contava-as assim como se contavam centavos. Ele merecia o sucesso. Ele trabalhava. Mas todos tambm trabalhavam e no prosperavam. Manl, quem sabe, ao nascer, fora bafejado pela sorte. Ser?
O certo que Manl conhecia o caminho das pedras. Como bom comerciante tinha que agradar a todos; ainda que para isso, tivesse que praticar o mais puro e autentico mineirismo. Isso ocorria sempre que ele queria se esquivar de uma venda na base do fiado, sem se correr o risco de perder o fregus. Mas tambm sabia ser spero com os maus pagadores.
- Antonces, seu Manl... - Dizia um fregus no intuito de justificar o atraso de pagamento de um fiado para contrair novas dividas.
- Eu no me esqueci daquela continha que fiz com o senhor no ano passado...
- No se esqueceu, mais no pagou. Se queres beber e comer de novo, primeiro tem que pagar! No estou aqui para trabalhar de graa, no!
- Seu Manl, sorta ai um rabo de galo e um torremo, que eu lhe pago no dia 30 de fevereiro brincava um engraadinho.
- Trinta de fevereiro est muito longe. S lhe vendo se for para pagar no dia 28. Respondia, Manl, srio.
- Seu Manl... Sua cumida muito gostosa, mas o pisso a fora anda dizeno que oc est guardano sobras de cumida via pra vend pra nis outra vis. Isso divra?
- intriga da oposio, respondia Manl: Quem espalhou essa mentira foram os donos de bares do centro do Brejo, revoltados com o meu sucesso...
- Manl... Esse torresmo est muito pequeno. Voc vai acabar cortando o dedo da mo que voc no tem.
- Ento espera o bacuri crescer e virar porco. No fao milagres...
- Seo Manl... Os ovo de cadorna que o senhor me serviu est muito pequenos.
- V reclamar com o fiof da codorna ou ento coma ovos de galinha que so mais grandes!
- Mas ovo de galinha no d sustncia e l na casa da Salom, num tem cunversa. Eu tenho que chegar com os quatro pneus calibrados. Num posso pass vregonha.
- Isso j no problema meu, retrucava Manl. Se voc no tem como dar conta do recado, fique por aqui mesmo, comendo e bebendo, porque voc um bom pagador e o meu negcio vai agradecer!
Certa feita, munido da curiosidade peculiar aos adolescentes, estava eu a observar a agilidade e destreza com que Manl de Vov, apenas com um brao, cortava os queijos e marmeladas para fazer os apetitosos casadinhos.
No, aquilo no era possvel!
Ou era...
Seria iluso de tica ou estou bbado?
No...
Uai, mas eu jamais bebi em toda a minha vida!
Ento, o que era aquilo?
Ser que os meus lindos olhinhos esto me traindo?
Simples e elementar meu caro Enoque, diria a voz da minha conscincia: O querido amigo Manl, em sendo desprovido de um dos braos, no teria outra maneira mais eficaz, apesar de pouco ou quase nada higinica, de realizar a necessria tarefa da retirada dos resduos da marmelada da faca antes de cortar o queijo e vice-versa, seno com a prpria lngua. Que outra forma voc acha que ele teria para limpar a faca, bobinho?
O certo que daquele dia em diante jamais retornei ao bar do Manl de Vov para comer casadinhos.
...
Por vezes, melhor viver enganado que conhecer a verdade. como dizem os Espanhis: La verdad, duele
E tenho dito!
Enoque Alves Rodrigues, brejeiro de nascimento e convico, que atua na rea de Engenharia, Colunista, Historiador e divulgador voluntrio de Francisco S, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil. Visitem meu blog: Pra variar, sobre Francisco S: http://enoquerodrigues-earodrigues.blogspot.com/


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Por Enoque Alves - 4/6/2011 15:33:38
MINEIRISMO BREJEIRO COMCIOS

Enoque Alves Rodrigues

Quando a dois de dezembro de 1945, Eurico Gaspar Dutra se elegeu Presidente da Republica, o Tribunal Regional Eleitoral tratou logo de marcar as prximas eleies gerais no Brasil para o ano de 1947. No norte de Minas Gerais, assim como em todo o Pas, velhas e felpudas raposas famintas por voto, que at ento se achavam na toca no aguardo de que a poeira da Revoluo de 1930 baixasse, saam agora a campo em busca do eleitor incauto.
Em Francisco S, antigo Brejo das Almas, as foras polticas locais se articulavam e compunham-se. Feliciano, filho de Lauro, nascido na regio, foi lanado candidato a Prefeito, enquanto que o Paraibano Enas, dono da fazenda Burarama, que naqueles tempos se localizava no Municpio de Francisco S, entre os rios Quem-Quem, So Domingos e Verde, saiu como seu vice, com o apoio de Gentil Dias e Osmani Barbosa. Enquanto que a chapa de Jos Pereira de Aguiar e Francisco Versiani Atade, contou com o apoio de Joo de Deus Dias e outros companheiros.
Finalizadas todas as articulaes, costurados todos os acordos, fechada a chapa, era chegada a hora da ona beber gua. Era, o que imagino, para qualquer poltico, o momento mais difcil, ou seja, a correria atrs do voto. Tinham que possuir o alto poder de persuaso para que no final dos escrutnios no tivessem que amargar uma tenebrosa derrota e esperar mais quatro anos para comearem tudo de novo. este o circulo dos que militam nesta rea da Sociologia.
Qualquer Brejeiro, por mais jovem que seja, tem conhecimento da grande facilidade que tinha Feliciano Oliveira, com as palavras. Orador eloqente daqueles capazes de convencer o eleitor ou qualquer que fosse com poucas frases. Ele no se deixava levar pela retrica desprovida de contedo. Tampouco era dado a mentira ou promessas miraculosas que jamais se poderia cumprir. Mais que provado est o que afirmo, pela quantidade de vezes em que se elegeu Prefeito do Municpio e outros mandatos eletivos pela fora do sufrgio universal. O homem falava bonito e levava o eleitor matuto brejeiro ao delrio. Qualquer candidato que estivesse em inicio de carreira naquela poca queria ser um Feliciano.
Por outro lado, Enas, ou o Capito Enas Mineiro de Souza, era homem de poucas palavras e no muito afeito s letras. Tambm no dispunha do jogo de cintura necessrio em todas as atividades e principalmente na arte da poltica. Falava estritamente o necessrio e, acostumado a caserna dos senhores de engenhos de onde provinha, expressava-se na maioria das vezes com frases truncadas e nem sempre compreensveis. Bem humorado, afvel, sorridente, no entanto, o Capito possua um senso de humanidade e um corao bondoso que contrastavam com suas rudes palavras. Empreendedor contumaz, esse Paraibano arretado, Bandeirante do Norte das Gerais, era comprometido com o seu povo, com o Brejo e com sua Burarama, hoje Capito Enas, em sua justa homenagem.
Lagoa Seca. Comcio animado. Brejeiros brotavam de todos os rinces daquele que antes era um dos maiores Municpios das Alterosas. Cerveja quente e cachaa do Mangal sendo consumidas por todos, acompanhadas por carnes de bois que ardiam sobre os espetos atravessados em valetas ao cho, cobertas por braseiros reluzentes.
Filinto, Oscar e Idalino, sendo os dois primeiros em campanha eleitoral vereana, acompanhavam os discursos no meio da multido, animada, que a cada salva de palmas seguidas de muito bem! previamente ensaiados por puxa-sacos de planto, gritavam:
-Este o homem... Este nosso... Este da gente... deste homem que o Brejo precisa!
Hoje no sei, sinceramente como , mas naquele tempo, falavam-se primeiro os candidatos a cargos minoritrios, como vereadores, deputados estaduais, deputados federais, etc., sendo que os candidatos a cargos majoritrios faziam sempre o encerramento, fechando-o com a famosa chave de ouro. Todos falaram. Chegou a vez de Enas.
-Vocs sabem, por acaso, quantos mata-burros tem de Burarama at aqui?, indagou o Capito da multido, aquela altura no muito vida por tais informaes, no sentido de enfatizar, sem qualquer sombra de dvidas, seu vasto conhecimento de homem pblico sobre as coisas e mazelas do velho Brejo e sua gente.
- Sei, doze!, -respondeu Idalino, mais pr l do que pra c.
- E algum ai no palanque saberia me dizer por quais motivos, razes ou circunstncias os trilhos da estrada de ferro no chegaram e jamais chegaro ao Brejo? Perguntou o sbio Idalino, acrescentando: Me parece que algum cujas iniciais do prenome, nome e sobrenome so E, M e S usou de sua grande influncia para se beneficiar, fazendo com que os trilhos fossem desviados, cortando ao meio sua imensa fazenda cujo nome comea com BU!
No teve jeito. Feliciano tinha que intervir. O seu candidato a vice era pesado e difcil de carregar. Foi ai que aproveitando sua vez de falar, com toda a classe e verve que lhes eram peculiares, iniciou seu pronunciamento:
Obrigado, Idalino, pela clareza da sua pergunta. Enas e eu estamos aqui para falarmos dos problemas que afligem a nossa gente Brejeira. Estamos convictos de que somos os candidatos melhor preparados para corrigirmos distores existentes. Dem-nos o voto de vocs e vero que jamais nos furtaremos ao nosso compromisso. A estrada de ferro no chegou e talvez nunca chegar ao nosso Brejo. Isso no se deve a interveno humana, no. Ela no chegou porque Deus, o Todo Poderoso Criador do Universo no quis. Foi Ele quem fez o Brejo das Almas rodeado de montanhas intransponveis onde trilho algum passar. Certamente que se assim o fez foi para blindar-nos. Para nos proteger de alguma coisa. por isso que vocs tem que nos eleger...Ns conseguimos ler e interpretar com facilidade e desenvoltura, a cartilha do Criador.
Ganhou!
...
Por vezes, quando nos vemos em palpos de aranhas, onde as palavras que nos permitam virar o jogo, fogem de ns, a nica soluo plausvel mesmo, apelar aos Cus. Os Caras l de Cima so costas-grossas. Eles podem tudo!
E tenho dito!
Enoque Alves Rodrigues, Brejeiro de nascimento e convico, que atua na rea de Engenharia, Colunista, Historiador e divulgador voluntrio de Francisco S, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil. Visitem meu blog: Pra variar, sobre Francisco S: http://enoquerodrigues-earodrigues.blogspot.com/


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Por Enoque Alves - 29/5/2011 12:56:10
MINEIRISMO BREJEIRO CAMPANHAS ELEITORAIS

Enoque Alves Rodrigues

Segundo a definio de Derso Renault em seu livro Cho e Alma de Minas, ns mineiros somos pouco comunicativos. Devido a isso no conhecemos como devamos as caractersticas de nosso carter, de nosso ethos, da sermos muitas vezes misteriosos. J Tristo de Atade atribui a nossa personalidade s vezes duvidosa e indecisa, as limitaes geogrficas montanhosas de nosso estado. Diz ele: a montanha uma limitao do horizonte. Limitao geogrfica e psicolgica. A montanha o intimismo, a continuidade, a temperana. O instinto do homem mineiro no o mesmo que o instinto do homem do litoral. J Sylvio de Vasconcellos grande observador dos gestos e costumes do mineiro no trabalho diz o seguinte: o mineiro preza a palavra empenhada, por isso mesmo raramente a empenha. Negaceia por costume, contorna assuntos, fala por parfrases ou simula hipteses. Est sempre com o p atrs, desconfiado sempre, elogiando no prximo suas prprias qualidades ou desculpando seus defeitos. generoso quando suplicado e cruel quando ofendido. Esperto ao extremo ou ingnuo por convenincia. No aceita ou rejeita as coisas de pronto, etc. Cita inclusive este pequeno dialogo entre dois mineiros ao telefone.
- Espero voc s seis horas na Praa Sete.
- Est bem. Agora, se eu no for at as cinco e meia porque eu no fui.
Bem, cumpre-me aqui resumir o que estes grandes estudiosos dos costumes arraigados na personalidade montanhesa quiseram dizer ao nosso respeito. Falamos tudo sem falarmos nada. Utilizamos de palavras lindas e afirmativas sem nos comprometermos. Sinalizamos que estamos indo numa direo e, de repente, sem prvio aviso, mudamos de rumo, deixando quem nos est seguindo atarantado, tonto, embasbacado, surpreso, boquiaberto. A pensamos: uai, quem mandou me seguir? Eu nem disse para onde ia! No valorizamos os nossos gestos. Esquecemos muitas vezes que um gesto nosso vale por mil palavras. Fazer o que? Por mais que muitos conterrneos no concordem, somos assim! No entanto, como podem ver, isso no significa um desvio de personalidade, carter ou conduta. Isso se chama costume e o nosso carter foi moldado exatamente dentro destes conceitos. Ento, isso se chama simplicidade mineira, o nosso jeito mineiro de ser. Virtude, ento, e fim de papo.
Uai, por quais razes ento, os Brejeiros e polticos de antanho seriam diferentes? Eles tambm no so mineiros?
- So, uai!
- Ento...
1962. Campanha eleitoral a pleno vapor. O candidato Prefeitura do Brejo das Almas, Geraldo Tito e seu vice, Lenidas Ribeiro da Cruz, amassavam o barro vermelho da zona urbana e a bosta de vaca da zona rural, caa do voto precioso do eleitor, arisco e arredio.
- , de casa!. Gritava um candidato com voz rouca e botas sujas do caminhar dirio. Tem algum, a?
- Tem no, senhor! - respondia, l de dentro, um fiozinho de voz quase inaudvel, marcado pela fraqueza causada pela desnutrio do rango escasso.
- Quero falar com o meu amigo Demstenes!
- Mais o que que Merc quer falar com ele?
- Eu quero pedir voto!
- Desculpe, doutor, mais voto nis num tem mais no! Merc num cumpriu a promessa das dentaduras!
- Mais como no. Voc no a Maria, mulher do Demstenes?
- Sou sim senhor. Uai, o que isso tem a ver?. Quatro anos de vossa promessa e eu continuo aqui, com a boca murcha!
- Espere a, Maria, voc chegou a ir a Clinica do Euler tomar as medidas de sua boca para fazer as dentaduras?
- Acho que fui!
- Mas voc no tem certeza? Voc tinha que ter comparecido a Clinica, conforme est escrito no carto que lhe entreguei naquela poca.
- Uai, doutor, mas eu acho que estive l, sim senhor. Peguei uma fila grande dos diabos. No final dela, veio uma moa e me deu mais um carto no qual me mandou escrever o numero do meu candidato e colocar na urna. Foi o que eu fiz.
- E onde est agora o carto que lhe dei, Maria?, indagou-lhe o candidato, apreensivo.
Por alguns instantes, Maria de Demstenes que at ento, do alto de sua desconfiana falava com o candidato por trs da porta, sem sequer dar o ar da graa, surge frente do mesmo com um papel na mo, todo amarelado pelo tempo.
- Aqui est, doutor!
- Por mil demnios, Maria. Isto ai que voc trs mo a maldita cdula eleitoral que voc teria que ter colocado na urna para me eleger, diabo! Enquanto que o carto que voc colocou l dentro era o carto do Euler para lhe fazer as dentaduras. Agora no sou eu quem tem a culpa por voc estar com a boca assim. Sabe Maria, ou melhor, Mariazinha, minha querida e idolatrada correligionria, o fato que estou muito necessitado do seu voto, do Demstenes e dos meninos (quatro filhos adultos do casal) e desta vez, com os votos de vocs, estou certo que vou ganhar para fazer para voc, sua famlia e todos ns, um Brejo melhor!.
Afinou o discurso com a Maria. Passarinho no canta na muda, uai e levou as eleies. Depois de algumas tentativas o grande escritor mineiro Coronel Geraldo Tito Silveira, ganhou as eleies em Francisco S, Brejo das Almas. Renunciaria, no entanto, dois anos depois, pelos motivos que todos ns Brasileiros, que vivenciamos os anos dourados do chumbo-grosso, conhecemos.
Enquanto que para aquele mesmo exerccio de 1963-1966 eram eleitos para a Cmara Municipal do Brejo:
Jos de Deus Prado, Ivonlde Gaspar Oliveira, Euler Martins Moreira, Robson DArtagnam Campos, Vanderlei Oliveira Brito, Irineu Loureno Sampaio, Jos Antonio da Silveira, Antonio Augusto Dias, Osvaldo Rodrigues Vasconcelos, Jacinto Teixeira da Silva, Joaquim Soares de Jesus e Jorge Ribeiro Rocha.
E tenho dito!
Enoque Alves Rodrigues, brejeiro de nascimento e convico, que atua na rea de Engenharia, Colunista, Historiador e divulgador voluntrio de Francisco S, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil. Visitem meu blog: Pra variar, sobre Francisco S: http://enoquerodrigues-earodrigues.blogspot.com/


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Por Enoque Alves - 21/5/2011 20:26:37
AS JOIAS RARAS DO BREJO FINAL NIQUINHO

Enoque Alves Rodrigues

Previsvel demais ou repetitivo ao extremo. Qui ao tomar cincia sobre qual jia rara do brejo estarei escrevendo em minha crnica de hoje, o amigo leitor, sempre complacente para com esse humilde operrio especializado da engenharia, mas que de quando em vez se mete a besta a escrever alguma coisa, seja induzido a esses adjetivos. Devo, portanto, antecipar que tal concluso, caso ocorra, no corresponde realidade. Entendo como oportuno lembrar que mesmo no vivendo fisicamente no Brejo h muitos anos, jamais me distanciei desta terra boa que me serviu de bero. Alm do mais, de conhecimento de todos que passei dezoito lindos anos da minha no menos linda existncia, no Brejo das Almas e suas adjacncias. Como tudo que fao da vida viv-la intensamente, esses dezoito anos, acreditem, representam muitssimo para mim. Sem contar que sou um pesquisador nato e apaixonado por tudo que se refira ao Brejo. So, portanto, sem falsa modstia, relevantes os cabedais de conhecimentos que disponho sobre fatos, antigos e atuais ou pessoas que foram ou que vieram a ser importantes no cenrio brejeiro ou at mesmo, sadas do brejo, na vida Nacional.
-Chega de bestagem, Noquinho, meu filho! Diria minha santa mezinha l em Capito Enas. Para que toda essa introduo se a jia rara do brejo, nem voc? Limite-se a reportar os fatos e chega de rodeios e referncias pessoais. No foi assim que lhe ensinei menino!
-Est certo, uai, mas mesmo assim cabe aqui uma pequena explicao:
- que j me referi, ainda que superficialmente, por algumas vezes a esta jia rara do brejo. No entanto, jamais havia lhe dedicado uma crnica. Depois, como abri esta serie com sua filha, a Professora Yvonne Silveira, sobre a qual tambm fiz uma introduo, nada mais justo que dissertar um pouco e encerr-la com este personagem.
Brejo das Almas, ou Francisco S. Igual a ti, outro no h...
O autor da letra do nosso hino, que foi musicado por Conrinto Cunha, que alis, no me canso de ouvir, o qual escreveu em atendimento ao pedido de uma amiga sua, a Professora Maria de Jesus Sampaio j que at ento Francisco S no tinha seu prprio hino, a minha jia rara do brejo desta semana.
Antonio Ferreira de Oliveira, Niquinho, nasceu em Montes Claros. Formado em farmcia, ainda em sua cidade natal, enveredou-se pelos caminhos da Poltica. Tendo sido ali, ainda jovem, Vereador e Secretrio da Cmara Municipal. Foi, inclusive, contemporneo naquela edilidade de Jacinto Silveira e do Padre Augusto. Redigiu, enquanto secretrio na Cmara de Montes Claros, projeto de lei que culminaria na Lei Estadual 843, de 07/09/1923. Cuja Lei desmembrou o distrito de Brejo das Almas dos Municpios de Montes Claros e Gro Mogol, dando-o vida independente, elevado que fora a condio de Municpio, tendo sua sede prpria sido instalada em 07/09/1924, sob a denominao de Brejo das Almas que em 1938 se denominaria Francisco S.
Orador e poeta de inconfundvel eloqncia. Intelectual ativo e inconformado com as injustias sociais de seu tempo contra as quais lutava com velada bravura sem jamais perder a polidez e afabilidade. Escrivo de paz, farmacutico de profisso, marido exemplar que pacientemente cuidou de sua esposa enferma at seus ltimos momentos de lucidez e um timo pai de famlia de prole numerosa com oito filhos. Fisicamente alto, magro, tez clara, com bigodes, cabelos longos e corridos. ndole integra e sempre disposto a socorrer aqueles que dos seus prstimos necessitassem. Ainda que para isso tivesse que sacrificar a si prprio. Vivia para servir.
Foi com toda esta bagagem que numa ensolarada manh do ms janeiro do ano de 1929 adentrou as ruazinhas estreitas e empoeiradas do velho Brejo das Almas, o querido Niquinho. Fincou residncia no antigo Largo da Matriz, prximo a nica farmcia do lugarejo de propriedade de seu amigo Francelino Dias, o Frana, com quem viria a trabalhar at montar a sua prpria farmcia. O velho Largo da Matriz que ento desnivelado, passou, em 1931 por reformas de nivelamentos na gesto do Prefeito mdico, Dr. Paulo Cerqueira Rodrigues Pereira.
Antonio Ferreira de Oliveira, Niquinho, pode ser considerado um dos grandes expoentes do velho Brejo das Almas. Conseguiu, neste torrozinho de meu Deus, colocar em prtica todos os atributos com os quais a Divina Natureza o dotara. Exerceu todas as suas atividades sempre voltadas para a benevolncia e crescimento do Brejo e de sua gente. Mesmo assim conseguiu amealhar com toda a sua honestidade razovel patrimnio que, no entanto, no muito afeito as coisas materiais e, principalmente, -desculpem-me mas no posso nem devo trair a historia omitindo dela a veracidade de fatos ainda que tristes-, pelo vicio do alcoolismo que infelizmente adquiriu, veio a falecer desprovido de bens materiais em casa de Yvonne e Olyntho, amparado pela filha amada e pelo genro querido, com o mais puro e sublime amor, depois de padecer por dez anos da incurvel e tenebrosa enfermidade. No entanto levou consigo a maior riqueza. A certeza plena de que sempre que as necessidades brejeiras se manifestavam, l estava ele a postos para ameniz-las ou tentar combat-las.
Antonio Ferreira de Oliveira, Niquinho farmacutico, a jia rara do brejo desta semana, era na verdade em toda a sua essncia, um mitigador de problemas e dificuldades.
E tenho dito!
Enoque Alves Rodrigues, brejeiro de nascimento e convico, que atua na rea de Engenharia, Colunista, Historiador e divulgador voluntrio de Francisco S, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.Visitem meu novo blog: Pra variar, sobre Francisco S: http://enoquerodrigues-earodrigues.blogspot.com/http://www.facebook.com/home.php?email_confirmed=1&changed_login=1


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Por Enoque Alves - 15/5/2011 16:20:14
AS JOIAS RARAS DO BREJO III O PADRE SILVESTRE

Enoque Alves Rodrigues

Se o caro amigo leitor fizer parte dos quase cem mil que acessaram minha humilde pgina no CityBrasil, certamente j deve ter lido pelo menos umas trs crnicas que escrevi sobre o Padre Silvestre, antigo proco da minha, da sua, da nossa linda Cidade de Francisco S, o velho e querido Brejo das Almas.
Pois bem, naqueles tempos era comum que as crianas fossem batizadas somente aps ter alguma conscincia da vida. Fui, portanto, batizado pelo Padre Silvestre l em So Geraldo, Municpio de Francisco S, no ano de 1960, quando j tinha sete anos. Vrios foram os episdios que presenciei os quais tinham como protagonista o Padre Silvestre, a minha jia rara do brejo de hoje, cuja memria, no obstante os meus relatos nem sempre favorveis ao querido amigo, reverencio sempre. Era um amor de pessoa. Um santo na terra, a meu ver, claro.
Tipo fsico europeu, estatura mediana, pele rosada, olhos azuis, cabelos loiros, e com sotaque caracterstico dos deutschers, tribo alem de onde se originava. Falava fluentemente o alemo enquanto se expressava com extrema dificuldade em Portugus.
Fora as ocupaes que mantinha no clero, tendo sob sua responsabilidade toda a comunidade catlica brejeira, o Padre Silvestre Classen tambm era ligado s coisas da terra e mantinha algumas fazendas de cultivos naturais, alm da criao de porcos. Inovador na arte da irrigao, foi pioneiro e grande entusiasta da agricultura familiar, ensinando ao matuto brejeiro, vrias tcnicas aparentemente primitivas, mas de resultados economicamente positivos e incalculveis para o homem da terra de antanho. Na suinocultura incentivou grandes pesquisas que resultaram na mudana dos padres genticos da porcada que antes era considerada curraleira, ou seja, desprovida de qualquer pedegree. De repente o jeca brejeiro passou a conviver com marcas de porcos de palavras difceis como landrace e duroc e uma leva de outros denominativos difundidos pelo Padre visionrio e empreendedor. isso mesmo, o caipira do brejo no falava raa de porcos mas, marca, sim senhor.
Certa ocasio, Mudinho do Correio, levou at o Padre Silvestre, um envelope pardo de aspecto bonito e luxuoso, subscrito em letras bonitas e garrafais onde o remetente se apresentava como um certo doutor Castro, que mantinha, segundo ele, um laboratrio na Avenida do Contorno, em Belo Horizonte, Capital das Alterosas. Ao abrir o envelope, e principalmente depois de iniciar a leitura da missiva, o Padre arregalou seus grandes olhos azuis e por alguns instantes ficou esttico. Havia ali, certamente, algo que muito lhe interessava.
Estudioso, meticuloso e curioso extremado. O Padre Silvestre era daqueles que se necessrio fosse, varava noites analisando frmulas que viessem propiciar melhorias e facilidades a vida difcil do homem caipira e dele prprio. Agora andava as voltas com uma nova inveno sua a qual estava a divulgar nas redondezas. Tratava-se de uma engenhoca que consistia em cortar curvas de nveis dos rios quase secos da regio, receber as guas das chuvas escassas e encaminhar para as roas. Produziu tambm o primeiro espantalho de formigas que j vi na vida. Este sim era estranho e porque no dizer, at difcil de descrever: tratava-se de cabaas onde ele contornava toda a face, a imagem e semelhana de grandes tanajuras, com dois orifcios dianteiros e traseiros que captavam e liberavam o vento sob um som triste e melanclico, as quais colocava estrategicamente na porta do formigueiro. Segundo ele, quando as pequenas formigas davam de cara com as tanajuras gigantes, ainda na sada do formigueiro, com medo, retornavam imediatamente para dentro de seus habitat e de l no mais saiam para devorar suas plantaes. Quanto aos gafanhotos, ele vivia tambm s turras. No entanto, at o dia em que sai do Brejo, o placar era de dez para os gafanhotos e zero para o Padre. Ele no gostava de matar nada, por isso, fazia sempre o possvel para se livrar dos inimigos de suas plantaes sem derramamento de sangue. J contra os passarinhos, rolinhas, pombas amargosas, periquitos, pssaros pretos e outros glutes admiradores de suas safras de milho, ele utilizava-se do bom e velho espantalho. Aquele boneco feito de panos velhos.
Mas que noticia to importante havia naquele envelope para que o Padre Silvestre ficasse to entusiasmado? Sobre o que falava o tal doutor Castro?
Pois , uai, dizia a carta:
Prezado Padre, tenho a honra de comunicar a vossa Reverendssima, que o meu Laboratrio localizado na Avenida do Contorno, nmero 2144, em Belo Horizonte, acaba de realizar a grande descoberta que finalmente ir por fim a praga dos gafanhotos que tanto assolam as vossas plantaes. muito simples, caro Padre. Trata-se de uma frmula. No entanto para que eu possa vos enviar, necessrio que o Sr. me mande dois mil e duzentos cruzeiros para custear as despesas, etc., etc.. Essa quantia naqueles tempos era suficiente para se comprar vrias cabeas de gado.
Dois Meses depois, estava eu em frente loja da dona Bezinha, quando vejo o Mudinho do Correio com um envelope semelhante, passar em desabalada carreira em direo Igreja. Curioso, segui-o.
O Padre vivia impaciente e desconfiado. No obstante ter ele pago aquela imensa quantia antecipadamente, o bendito envelope com a frmula jamais chegava. Foi por isso que nem bem mudinho entrou na Igreja e o Padre j o interceptou. Arrancou de suas mos o envelope e ao ler o seu contedo, transformou-se. Mudinho e eu agora vamos um Padre transtornado, andando de um lado para o outro, puxando os cordes da batina em frente ao altar, a resmungar enquanto lia e relia o teor da carta em voz alta:
Prezado Padre, ainda no foi desta vez. O senhor precisa ter um pouquinho mais de pacincia com os gafanhotos. Eles tambm so filhos de Deus. Houve um revertrio muito grande na nossa frmula o qual estamos tentando corrigir. Um grande abrao para o senhor e fique com Jesus. Amm!
Ao longe, assustados, Mudinho do Correio e eu s ouvamos os berros do Padre num portugus sofrvel a dizer:
E voc, seu ladrne amardioado de una figa, fique com todos os diabros e que se queimem no fogo das profundas. Quanto a frmula que voc ia me mandar, ponha-a no... Bem, isso eu num posso diz... Que assim seja!

...

Por vezes, e principalmente quando so passados para trs, os santos tambm perdem a pacincia e compostura. E ai, salve-se quem puder, uai!

Enoque Alves Rodrigues, que atua na rea de Engenharia, Colunista, Historiador e divulgador voluntrio de Francisco S, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.
Visitem meu novo blog: Pra variar, sobre Francisco S: http://enoquerodrigues-earodrigues.blogspot.com/ http://www.citybrazil.com.br/mg/franciscosa/usuario.php?id_cadastro=7585




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Por Enoque Alves - 7/5/2011 16:52:09
AS JOIAS RARAS DO BREJO II KARLA

Enoque Alves Rodrigues

Em meados do ano passado, ao abrir minha caixa de mensagens de e-mails tive uma grata surpresa. Talvez por nos acharmos, na maioria das vezes, imbudos de sentimentos simples e comezinhos, nem sempre conseguimos imaginar o alcance daquilo que escrevemos e, principalmente, com quais pessoas e culturas estamos de certa forma travando conhecimento. Quando, no entanto, fatos fortuitos, ou inesperados nos surpreendem positivamente, isso para o nosso ego por mais simples que sejamos, funciona como um verdadeiro blsamo. Imaginemos, ento, se que somos capazes, a sensao que podemos sentir, ao constatarmos que mesmo sendo a nossa premissa ter todas as pessoas em um mesmo nvel de importncia, aquela pessoa que acaba de ler e manifestar-se, tambm de maneira simples, meiga e natural sobre os nossos escritos, , na verdade, um grande baluarte de cultura exponencial, um imenso cabedal de conhecimentos de usos e costumes de nosso povo, da nossa gente, e com lugar de destaque dentro da sociedade na qual se insere por pura competncia e pelos predicados simples j aludidos aqui, no mais alto e elevado patamar? A somos conduzidos involuntariamente, ao seguinte pensamento: puxa vida, como seria bom se eu tivesse essa pessoa como amiga!
Pois !
Karla Celene Campos, Montes-clarense de nascimento e Brejeira por convico e vivencia durante longos anos por aquelas plagas de So Gonalo, aonde os despertares raramente se repetem. Escritora com vrios livros publicados, Professora Universitria, Membro do Instituto Histrico e Geogrfico de Montes Claros, Jornalista de renome e projeo nacional, possuidora de vrios ttulos e trabalhos acadmicos de irrefutvel reconhecimento, era exatamente a pessoa que me escrevia.
Dizia Karla, ter lido, muito tempo depois de sua publicao no MontesClaros.com., uma crnica minha sob o titulo Fatos e Personagens do Antigo Brejo das Almas, onde eu fazia referncia a um certo casaro de cor rosa, que ficava exatamente na entrada do Brejo das Almas, a esquerda de quem chegava de Montes Claros. Com sua peculiar simplicidade de mulher brejeira, com elegncia impar, aps tecer elogios sinceros a minha saudade e apego pelo torro natal e salientar, com sua cordialidade e finura, que apesar de tudo, o nosso Brejo j no era mais o mesmo, como se estivesse a me preparar para receber a informao bombstica que na seqncia me daria, disse-me que na verdade, aquele casaro cor de rosa, que qui pela cor no muito usual de suas paredes externas, jamais me saiu da memria, pertencera, na realidade, aos seus avs, o Sr. Antonio Miranda e a Dona Edite. Meu Deus... Quanta coincidncia!
Conheci em minha adolescncia quase pueril, a Dona Edite. Senhora benfazeja do nosso lugar. Religiosa, corao bondoso e incomensurvel desapego s coisas materiais. De forte compleio fsica e olhar dcil e matriarcal. Todo brejeiro via naquela mulher cuja idade eu no consigo precisar, mas creio que poca se aproximava dos 60 anos, o Anjo da Guarda que todos gostariam de ter. De posses, no sei se por herana, atendia a todos com o leite tirado na hora de suas vaquinhas. Seu Sitio produzia frutas diversas em abundncia que tambm ofertava aos necessitados. Quanto ao seu marido, o Sr. Antonio, o vi poucas vezes, insuficientes, no entanto, para que ainda hoje, quase cinqenta anos depois, alguns resqucios de sua fisionomia me permanecessem retidos ainda na memria, quase senil.
- Senil?
- Mas isso no coisa de velho?
-, uai!
- Bem, ento, sendo assim mudemos de assunto rapidamente, se bem que ser velho uma grande ddiva e saber ser velho a maior das virtudes.
De l para c, tornamo-nos grandes amigos e passamos a trocar correspondncias apesar de hoje no serem to freqentes como gostaramos, devido a muitas labutas da querida amiga e conterrnea Karla, com suas inmeras ocupaes e minhas, como sempre, embrenhado h quase quarenta anos, tapume adentro numa obra de engenharia qualquer. Ou talvez, quem sabe, participando de um workshop qualquer, tentando ensinar o que no aprendi e aprender o que jamais me ensinaro. Coisas da vida!
Restam-me reminiscentes no recndito, dvidas cruis as quais por no possuir a elucidao adequada, aproprio-me de certo comodismo e at mesmo do meu nem sempre disfarvel mineirismo, para jogar a culpa nas costas do destino inslito, a seguinte indagao: como foi possvel a voc, destino tirano e selvagem, que dois conterrneos com tanta coisa em comum, como por exemplo, o seu amor incondicional pelo Brejo das Almas, Francisco S... Que quase na mesma poca, palmilhavam com seus pezinhos de anjos, suas ruas empoeiradas e cobertas por paraleleppedos extrados do morro do moc... Que certamente por inmeras vezes, quer na rua, na escola, na igreja do Padre Silvestre, no velho Cine Mineiro, ou quem sabe, na velha Praa da Matriz, ou melhor, na Praa de Jacinto, seus caminhos se cruzaram, no tenham tido em infncia, uma nica oportunidade de se encontrarem para poder trocar uns dedinhos de prosa?
Seria porque, naqueles tempos, hoje to longnquos, o seu, o meu, o nosso Brejo de todas as Almas era uma grande metrpole e depois, sei l, se encolheu? So respostas que nem mesmo o tempo, o grande senhor da razo ter. Tampouco me interessam nesta altura do campeonato. Antes tarde que nunca! O importante que hoje, por lapsos saudveis do prprio destino, acabei por conhecer Karla, afetuosa amiga, a quem aproveito aqui para agradecer de corao pelo lindo livro Os Bares no Fecham Nunca que amavelmente me enviou e que li, intensamente. Obrigado, Karlinha e desculpe-me se depois de tanto tempo do envio, somente agora lhe agradeo.
Karla Celene Campos, minha dileta amiga, cuja trajetria, lies de vida, desprendimento, simplicidade, humildade, lisura, coragem, f, determinao, senso de humanidade, inteligncia, beleza interior inigualvel, beleza exterior, idem, , orgulhosamente para mim, a minha jia rara do brejo de hoje, de amanh e de todo o sempre. Amem!
E tenho dito!
Enoque Alves Rodrigues, que atua na rea de Engenharia, Colunista, Historiador e divulgador voluntrio de Francisco S, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.
Visitem meu novo blog: Pra variar, sobre Francisco S: http://enoquerodrigues-earodrigues.blogspot.com/


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Por Enoque Alves - 30/4/2011 13:25:21
As joias raras do Brejo I - Dona Yvonne

Enoque Alves Rodrigues

possvel que antes mesmo que o amigo leitor inicie a leitura desta crnica j deva imaginar apenas pelo titulo, sobre qual prola do brejo estarei me referindo hoje. Tambm natural que uma pequena e v iluso se apodere do amigo, ao pensar que ao contrrio das prolas aqui mencionadas anteriormente, devido a minha prola de hoje ser algum na ativa com quase 100 anos de idade, de mltiplas atividades e expressivo destaque na mdia escrita, falada e televisada, e pelo fato de em conseqncia disso dispor de farto material ciberntico de magnitude astronmica e fcil pesquisa publica, que pouco ou quase nenhum trabalho tenha dado a este pobre operrio da Engenharia, que s vezes se mete a besta e ataca de cronista para escrever estas mal traadas linhas sobre esta grande Diva das Gerais.
Ledo engano! Nesse caso cumpre-me informar que tenho por principio s relatar fatos dos quais tive contato direto pessoalmente ou ento atravs de pessoas que considero fontes seguras. Sem maiores delongas, explico: No tenho o vezo de retratar algum fato ou personagem com base em informaes de internet. Mesmo sendo eu um velhinho plugado vinte e quatro horas no www. Estas facilidades, sinceramente, ainda hoje, no me apetecem. Elas so muito frias e sequer se aproximam da sensao de uma calorosa conversa ao p do ouvido ou qui, do xtase existente no compulsar de um algum livro com suas pginas amareladas pelo tempo, olvidado em uma instante qualquer, em parte indefinida do Globo.
Utilizo a internet apenas para realizar pesquisas inerentes a atualizao diria de minhas atividades no campo da engenharia. Assim mesmo, pasmem, quando no acredito muito em tais pesquisas via internet, recorro-me, quase sempre aos livros.
Bem, isto posto, chega de retrica, Noquinho, e vamos ao que interessa
Yvonne de Oliveira Silveira, Nasceu em Montes Claros em 30/12/1914. Ainda jovem transferiu-se juntamente com sua famlia para a pequena localidade de Brejo das Almas, hoje Francisco S, Minas Gerais. Ali chegando, enfrentou juntamente com o pai Antonio Ferreira de Oliveira, farmacutico, intelectual e poeta, inclusive ele o autor do hino a Francisco S, todas as dificuldades inerentes a uma vida pobre e Severina.
A me, pouco tempo depois por problemas de sade, retornaria a Montes Claros, onde ainda jovem faleceu.
A menina Yvonne agora na companhia de numerosos irmos ficava sob os cuidados do pai. No tinha tempo para chorar ou lamentar as desditas da vida. Ao contrario, arregaou as mangas e qui vem deste longnquo tempo as suas afinidades multifuncionais: aos 15 anos tornou-se professora na nica escola do Brejo das Almas de ento, onde tinha como diretora Gabriela Campos, vulgo Biela. Ali Yvonne lecionava para alunos do terceiro ano. Ajudava o pai Niquinho na Farmcia e ainda naquela poca passou a colaborar na condio de cronista para o jornal O Lpis, fundado pelo intelectual e fazendeiro Olyntho Silveira, filho de Jacinto e Maria Luisa, agora e durante inmeras dcadas, seu marido. A primeira crnica que Yvonne escreveu foi dedicada ao irmo Joo Hamilton, quando este partiu em direo Itlia compondo-se ao front das foras expedicionrias brasileiras naquele Pas. De l para c, a diva no parou mais. Brinda-nos ainda hoje, com singular lucidez, concedida pelo Cara l de cima apenas a alguns pouqussimos iluminados, com suas crnicas, contos, poesias e tudo quanto se possa imaginar de prazeroso e revigorador para o esprito e intelecto.
difcil falar de Yvonne de Oliveira Silveira sem se apaixonar. impossvel compreender como uma mulher aparentemente to frgil seja capaz de exercer ao mesmo tempo diversas atividades, todas elas ligadas direta ou indiretamente ao campo do saber e do intelecto, com o mesmo vigor fsico, dedicao e desprendimento da juventude. privilgio de poucos, caros leitores e motivo de grande orgulho para ns, simples mortais.
Licenciada em Letras pela Unimontes, Professora aposentada de Teoria da Literatura na Faculdade de Filosofia, Cincias e Letras do Norte de Minas, Presidente da Academia Montes-clarense de Letras por vrios mandatos, membro do Instituto Histrico e Geogrfico de Montes Claros, pertence a Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais, Jornalista, Cronista, Poetisa, Historiadora, ufa, faltou-me flego para continuar descrevendo as atividades da dona Yvonne como carinhosamente a chamamos.
sem duvida alguma um mito. Orgulho de todos ns Brasileiros e Montanheses do norte das Gerais.
Em Janeiro de 2008 tive a oportunidade de ler no Norte de Minas, uma linda crnica dedicada a dona Yvonne, pelo nosso amigo em comum Dr. Paulo Cesar Gonalves de Almeida, ento Reitor da Unimontes, cujo epilogo pego aqui emprestado para encerrar minha crnica de hoje, devido ao grande teor sintetizado em poucas palavras, mas de abrangncia relevante e incontestvel, bem como pela maneira fiel, isenta e irrefutvel com que descreve a nossa grande Diva Yvonne e o que ela representa para todos ns e principalmente para as geraes futuras.
Oxal, diz Paulo, estejamos ns a quem compete levar adiante esta histria altura da magnitude intelectual e da grandeza moral da nossa mestra Yvonne Silveira, para que possamos nos dedicar com carinho ao belo legado que ela nos tem transmitido. E qui, novos talentos surjam para percorrer a histria vindoura da Unimontes e da educao em Montes Claros e nas regies Norte, Nordeste e Vales do Jequitinhonha e Mucuri.
...
Jia rara como a dona Yvonne, de beleza e valor inestimveis, teria mesmo que ter passado pelo velho Brejo das Almas, hoje Francisco S, minha apaixonada terra. L recebeu ainda em idade tenra e quase pueril, os prdromos finais da raa ariana na terra e o lapidar do Ourives Maior do Universo, que certamente lhe assoprou aos frgeis ouvidinhos em formao estas sbias palavras: Vai, Yvonne, minha filha... Cresa e aparea para todo o mundo... Semeia sua inteligncia com humildade e simplicidade aos quatro cantos das Gerais...
Isto a nossa Yvonne de Oliveira Silveira. Oliveira de Antonio e Silveira de Olyntho. E tenho dito!

Enoque Alves Rodrigues, que atua na rea de Engenharia, Colunista, Historiador, escritor, e divulgador voluntrio de Francisco S, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


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Por Enoque Alves - 26/4/2011 21:09:57
OBRIGADO MEU POVO. AT BREVE MINHA GENTE. AMO VOCS!!!

Enoque Alves Rodrigues

Como de conhecimento de todos os meus leitores, depois de longo tempo, excepcionalmente no final de semana passado, deixei de publicar minha crnica semanal.
Os motivos, no entanto, so bvios e repousam felizes e placidamente sobre a agradvel e alvissareira justificativa da visita aos meus queridos familiares em Capito Enas e Montes Claros, que h algum tempo no os via. Como bom voltar aos braos daqueles que nos amam desde a mais tenra idade. O abrao caloroso e o sculo sagrado da mezinha adorada, a dona Nazir. O abrao sincero e o beijo carinhoso e fraternal de minhas no menos adorveis irms Tatinha, Neusinha, Narinha e Neidinha. O aperto de mo dos amigos, etc. Todos consternados e comovidos pelo passamento recente de meu pai, porm, firmes na f de cada um e confiantes em um porvir melhor.
O dedinho de prosa com os cunhados amados. A algazarra entre os sobrinhos queridos. At mesmo a visita a minha tiazinha Nira em seu leito de Hospital, so eternizados pela magnitude reminiscente. Fazer o que? No tenho culpa se o Cara l de Cima se faz presente em tudo.
As recordaes com sorrisos fceis e resplandecentes de nossas infncias em Orion, So Geraldo, Caarema e por fim, Capito Enas, so momentos que beiram a sublimidade das coisas. Ratificam, de maneira inquestionvel, a existncia de um Ser Supremo, cheio de bondade e complacncia e gravam com marcas indelveis no recndito de nosso ser, a importncia superlativa existente na simples arte de viver.
A sensao do encontro de todos eles, indistintamente, com minha filha a quem no haviam at ento tido a oportunidade de conhecer, algo indescritvel at mesmo aqueles que esto, de alguma forma, afeitos s letras.
Alias, creio ser este o verdadeiro pice da vida: quando no encontramos as palavras certas para definirmos tais momentos, ou ser que isso ocorre exatamente para nos conscientizar do quanto somos pequenos diante da grandeza do Cara.
No sei. Como eu j disse, sou pequeno e no tenho nenhuma obrigao de ter esta resposta para tudo!
No prximo final de semana voltarei com minhas crnicas. A srie ser composta de 5 captulos As Jias Raras do Brejo. Quanto ao livro Liderana Conquistada, de minha autoria, est em processo final de reviso. A capa j est aprovada. Ficou linda.
Estive por alguns instantes em Francisco S no dia 21/04/2011, conforme eu havia anunciado. Est muito linda a minha Cidade.
Visitem meu novo blog: Pra variar, sobre Francisco S: http://enoquerodrigues-earodrigues.blogspot.com/
Enoque Alves Rodrigues, que atua na rea de Engenharia, Colunista, Historiador e divulgador voluntrio de Francisco S, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


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Por Enoque Alves - 16/4/2011 14:46:04
AS JOIAS DO BREJO X LOL DO MANGAL

Enoque Alves Rodrigues

Durante muitos anos, ainda nos tempos do Coronel Jacinto Silveira, cuja residncia em forma de assobradado casaro ficava ao lado da Praa da Matriz, era possvel confrontar-se com um personagem atpico beleza natural da gente brejeira de antanho, que vez por outra freqentava aquela casa.
Moreno, Baixinho, barrigudo, pernas finas desproporcionais, vasta cabeleira e desdentado. Feio de doer... Assim era Lol do Mangal. O mangal, inserido a alcunha Lol, claro, era alusivo a localidade no municpio do Brejo das Almas, onde ele nasceu, viveu e tinha um Stio, herana de famlia.
O Mangal, celeiro de gente bonita, onde por muitssimos anos se produziu a melhor e mais saborosa cachaa do brejo ou qui das Minas Gerais, por certo quando do nascimento de Lol, ou Lodovico Lopes da Cunha, cujo nome de batismo quase ningum sabia, os deuses da formosura naquele instante se achavam em frias ou talvez, quem sabe, bbados.
Ser?
No!
Os deuses como sempre no tiram frias. Tampouco se embriagam. Eles estavam postos e muito atentos a tudo e a todos quando o velho Lol viu pela primeira vez a luz do sol.
Dotaram-no do que se pode imaginar do que h de mais puro a uma beleza interior matuta. Deram-no o dom do falar fcil com o qual arregimentava multides vidas por ouvir os seus causos que tinham quase sempre como cenrio a sua querida Mangal. Eram causos mas eram verdadeiros. Experincias vividas pelo prprio. Grandes lies de vida.
Uma dessas prolas ele contava numa roda de amigos em casa do coronel Jacinto.
Certa ocasio, quando sua esposa Conceio, grvida, se encontrava beira do So Domingos, colhendo alhos numa horta cultivada naquelas vazantes, ele a observava enquanto carregava com plvora a sua pequena espingarda com a qual caava juritis. Estavam na poca das secas e o So Domingos, no obstante sua nascente to prximo, se identificava apenas por um pequeno e insignificante filete de gua. Em frao de segundos ele teve ntida percepo de que algo de muito estranho e grave estaria por acontecer. Em instantes, pensou... Matutou e concluiu que o que aconteceria no seria com ele, mas com Conceio. Num timo de tempo, sem titubear, correu at a esposa e aos gritos de sai logo da porque est vindo um trem na sua direo e ele vai atropelar voc!. Conceio, surpresa e atordoada, at porque naquela regio jamais se passou ou passa trem algum, olhava para os altos da serra, sem nada entender. fato que est arraigado aos costumes de ns, mineiros e brejeiros, sim, senhor, tratarmos tudo como trem, principalmente aquilo que no est muito bem claro e definido em nossa cuca. Em momentos de desespero, como no caso em tela do nosso querido Lol, isso no poderia ser diferente. trem mesmo, s.
Com indescritvel solavanco e aos gritos de voc quer morrer mulher, sua fdp, Lol a todo custo, conseguiu retirar Conceio daquele local.
Naquele instante uma imensa pedra que havia se desprendido da serra, passava em velocidade meterica no mesmssimo lugar aonde segundos antes, Conceio de encontrava. Por muito pouco no conseguiriam levar a efeito a teoria de Isaac Newton que diz que dois corpos no podem ocupar o mesmo lugar no espao.
...
Por vezes, ou quase sempre, os deuses no podem dormir, nem mesmo se embriagarem, jamais!
Ainda que se trate da verdadeira gua que passarinho no bebe do Mangal.

As prximas crnicas sero sobre as jias raras do brejo. No percam!
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Enoque Alves Rodrigues, que atua na rea de Engenharia, Colunista, Historiador e divulgador voluntrio de Francisco S, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


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Por Enoque Alves - 9/4/2011 16:27:07
AS JOIAS DO BREJO IX LIBERATO & LAUDELINO

Enoque Alves Rodrigues

20 de Julho de 1969: O homem acaba de chegar lua... Este um pequeno passo para o homem mais um grande passo para a humanidade!, berrava a quase 400 mil quilmetros de altitude da terra, Neil Armstrong.
No Brasil daqueles tempos, as noticias chegavam com a agilidade de passos de tartaruga. J no meu Brejo das Almas querido, l nos cafunds das gerais, quando elas chegavam, vinham tambm em passos de tartarugas, s que de tartarugas preguiosas e sonolentas.
Por isso era muito natural que enquanto ns do Brejo estvamos nos deliciando com certas novidades que nos chegavam atravs do velho rdio de pilha, de marca "abc canarinho", quase todos os habitantes das demais partes do Planeta Terra j no se lembravam mais delas. Se perguntados, talvez at afirmassem que tal fato no tivesse jamais acontecido. O mundo era lindo e girava lentamente.
28 de Dezembro de 1969, ou seja, passados longos cinco mses aps o grande evento que pouco mudaria os destinos da humanidade no Orbe: Em Braslia, 19 horas... Comea aqui a voz do Brasil, falava um locutor qualquer.
Al amigos, aqui comea o seu reprter Esso..." -Gritava Heron Domingues -: Americanos no acreditam que o homem pisou Lua. Eram noticias simultneas apresentadas pelos principais jornais radiofnicos de ento, lembram-se, velhinhos?
Pronto: Este era o mote responsvel por lanar a grande discrdia entre dois senhores de barbas longas e brancas, que perduraria por semanas e que, assim como o so todas e quaisquer polmicas desprovidas de embasamentos necessrios s evidncias de veracidades mnimas, terminavam sem que se houvessem ganhadores.
Sentados no alpendre do casaro da Fazenda Terra Branca, limtrofe com Vaca Morta, no municpio de Francisco S, ou melhor, Brejo das Almas, os dois senhores naquele exato instante observavam l no firmamento, o principal satlite da terra. Conversavam amenidades at que ouviram a bombstica noticia j produzida acima.
Liberato, ou Joo Albrio Rodrigues, meu av e dono da fazenda, adventista at a medula, era adepto de que o homem realmente no teria capacidade para ir Lua. Sustentava sua tese com milhares de citaes Bblicas, todas elas atestando a incapacidade do homem, alis, incapacidade essa que muitas vezes reduziam as condies humanas total insanidade. Eu, pequeno ainda, mas estarrecido, s observava.
J o irmo Laudelino, assim o chamvamos -, tambm adventista, vivia na fazenda de meu av. Era velhinho e nada fazia. Ele, ao contrrio de meu av, afirmava aos quatro ventos que o homem havia, sim, pisado Lua. Que devido o homem ter sido feito a imagem e semelhana de Deus, o Prprio o dotara de muitos poderes e um desses poderes seria que o homem conhecesse de perto as maravilhas feitas pelo Criador, etc. Que se o homem tivesse cincia de suas reais potencialidades, com toda certeza seria capaz de produzir algo muito prximo do Criador. Que o meu av deveria se aprofundar mais a sua leitura e procurar interpretar melhor as escrituras, etc.
Enquanto ao meu av, ele replicava, dizendo que no, que apesar de ele ter que trabalhar muito para sustentar seus dez filhos, tambm conseguia tempo para ler muito. Que o importante, tambm no era somente ler, mas entender e interpretar. Que de forma alguma, Deus, concederia tanto poder ao homem. Que o homem s sabia fazer guerra e citava a segunda guerra mundial. Hitler, Mussolini e outros que, exceto Hitler, no frigir dos ovos, nem to blicos o foram, assim.
Varavam noites nesse diapaso. No se chegavam a nenhum acordo. Estavam definitivamente em lados opostos. Nenhum dos dois queria largar a rapadura. Dois duros no levantam muros. Ou ainda, dois bicudos no se beijam, assim falamos ns brejeiros.
Pois , havia entre eles, no entanto, um momento em que todas as diferenas se alinhavam. Todos os conflitos se dissipavam e todas as divergncias se convergiam. Esse momento sublime se verificava todos os dias, durante todos os longos anos em que o meu querido av viveu. Pontualmente s 5 horas da manh, ele saltava de seu catre de casal, com sua Bblia e Hinrio debaixo dos braos, junto com minha santa avozinha Justina de Jesus, a dindinha. Entoando os seus cnticos, passavam diante dos quartos onde as filhas dormiam. Ao ouvirem o som daquelas lindas melodias, levantavam-se todas e os seguiam em direo a sala da Fazenda, aonde grande mesa de madeira rstica, o altar da famlia, coberta por branca e lmpida toalha de algodo, j os esperavam. Ritualmente, ali, na cabeceira daquela mesa, sobre uma cadeira de madeira em forma de trono, o meu av se assentava e mesmo com toda a sua humildade, se sentia como se fosse um rei, dirigindo os cultos, onde todos em sinal de respeito e reverncia, silenciosamente, o ouviam. Ningum, nem mesmo o irmo Laudelino, se ousava a discordar do que ele dizia. Ou melhor, ali naquele pedao sagrado daquela imensa casa ele reinava absoluto. Vivalma alguma em s conscincia se atreveria a lhe encher o saco.
...
Por vezes, ou quase sempre, os reis so, infinitamente incontestveis.

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Enoque Alves Rodrigues, que atua na rea de Engenharia, Colunista, Escritor, Historiador e divulgador voluntrio de Francisco S, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


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Por Enoque Alves - 2/4/2011 14:44:50
AS JOIAS DO BREJO VIII RC DO MATO

Enoque Alves Rodrigues

Eu sou terrvel, e bom parar। Se desse jeito, me provocar. Voc no sabe, de onde eu venho. O que eu sou e o que tenho. Eu sou terrvel, vou lhe dizer. Que ponho mesmo, pra derreter...
Todos ns Brasileiros certamente j ouvimos esta musica gravada por Roberto Carlos Braga, em 1968, pelo menos umas quinhentas vezes. Brejo das Almas, ou Francisco S, igual a ti, outra no h। No, na crnica de hoje, veremos que pelo menos neste particular, o Brejo das Almas ou Francisco S igual a todas e quaisquer cidadezinhas encravadas em algum ponto do infinito deste imenso Brasil.
Refiro-me a aqueles nossos irmos que muitos que se dizem normais insistem em trata-los como se loucos fossem, que andam a vagar sem rumo, pelas ruas destas cidades, tendo como ponto de referncia para repousar seus esqulidos e desnutridos corpos, viadutos, pontes, marquises ou escadarias de uma igreja qualquer। Geralmente ningum, nem eles prprios, sabem de onde vieram, tampouco para onde pretendem ir. Eles parecem brotarem-se do nada e assim, ou seja, como se nada fossem, vivem merc da boa vontade alheia ou da crueldade de alguns.
O Brejo das Almas tinha e ainda tem os seus loucos। Recordo-me naqueles tempos de muitos, entre eles, Pascomiro, Maria Boco, Boneca Preta, Chuteira e, evidentemente, a minha jia do brejo, que homenageio na crnica de hoje: Roberto Carlos do Mato. No, no me perguntem qual era o seu nome de batismo, pois no saberia responder. Tudo o que sei, -e os queridos conterrneos e leitores que me acompanham sabem sempre procuro primar pela veracidade dos fatos que narro-, que ele era desprovido de qualquer semelhana fsica com o rei da jovem guarda. Era preto, meio alto, braos longos, magrrimo, feio, -bem o original tambm no bonito- e tinha, ao contrrio dos outros pseudo-retardados, uma ocupao: era coletor de lavagens para porcos. Ele ia de porta em porta, no Brejo das Almas de ento, com dois vasilhames s mos coletar restos mal-cheirosos de comida, sempre seguido, por nuvens densas de moscas, vidas por aqueles banquetes.
Deram-lhe a alcunha de Roberto Carlos porque ele conhecia de cor e salteado, todas as musicas do rei do i i, i, as quais cantava durante vinte e quatro horas por dia, todos os dias, todas as semanas e todos os anos। J o do Mato, claro, era uma aluso ao fato de ele ser e viver no Brejo das Almas cercado at hoje por densas matas.
Quando Roberto Carlos, o verdadeiro, lanava um novo long-play, os botecos e inferninhos da poca, os tocava naquelas mquinas onde um gaiato qualquer coloca uma ficha e escolhe a musica que quer ouvir। Nesse instante, o nosso Roberto Carlos do Mato se postava porta do estabelecimento e, com os ouvidos atentos e antenados, ouvia, absorvia, ruminava tais melodia e, pasmem, seus sabiches, no dia seguinte, na base da decoreba, j estava a nos alegrar cantarolando em toda parte musica e letra de RC. Para ser sincero com vocs, a letra da musica eu sou terrvel com a qual inicio esta crnica, assim como muitas outras, consegui aprender de tanto ouvir o nosso Roberto Carlos do Mato cantar.
Certa ocasio estava eu sentado na Praa Jacinto Silveira pensando na morte da bezerra ou sobre uma futilidade qualquer, quando a minha frente surgem todos os loucos do brejo tendo a frente Roberto Carlos do Mato, cantando a todo pulmo, acompanhado por Zezim Tocador। Quando menos esperava, eis que l estava eu, no meio deles, em algazarra, seguindo todos ns, cantando as musicas do Roberto, como em procisso, rumo ao velho cemitrio. At ai, nada de mais... Mas porque fomos cantar no cemitrio? E como que eu vou saber! Por acaso so coerentes as atitudes dos loucos? Eu era apenas mais um louco no meio daqueles muitos loucos do antigo Brejo, que de loucos mesmo, no tinham nada.
...
Por vezes, melhor nos fingirmos de loucos e surpreendermos com inteligncia inesperada, que nos fazermos de intelectuais e decepcionarmos com tolices inescrupulosas. Visitem meu novo blog. Pra variar, sobre Francisco S. http://enoquerodrigues-earodrigues.blogspot.com/
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67025
Por Enoque Alves - 27/3/2011 12:28:43
AS JOIAS DO BREJO VII DONA QUIN

Enoque Alves Rodrigues

possvel que muitos dos meus conterrneos do Brejo das Almas, Francisco S, beldade do norte de minas, ainda se lembrem da penso da dona Quin. Ela se localizava na hoje movimentada alameda principal, em cujas lojas transitam ainda hoje desde a mais pura nata brejeira plebe cada vez mais empobrecida, em busca de novidades e bens necessrios. Por ali, obrigatoriamente se movimenta desde o topo base da pirmide econmica e social do Brejo das Almas.
A verdade que este point, desde os mais longnquos e remotos tempos, sempre foi o mais agitado de Francisco S. Outrora, todos os nibus procedentes de Salinas, Taiobeiras, Gro Mogol com destino a Montes Claros passavam por ali. As linhas que tinham como ponto final o Brejo de todas as Almas, paravam exatamente em frente penso da dona Quin, onde os motoristas e passageiros pousavam em pernoite, no aguardo de partirem no dia seguinte em seus nibus em busca de seus destinos, sabe-se l Deus, aonde.
As distancias naquela poca eram indiscutivelmente muito mais longas do que o so hoje. A maioria fazia os percursos em lombo de cavalo, pois em muitas estradas devido a suas precrias condies de conservao, eram inacessveis a nibus ou qualquer outro elemento rodante. Predominavam, quando se queria observar um desses gigantes em movimento, aperfeioados que foram pelo americano Henry Ford, somente as famosas federais (estradas de terra batida e depois asfaltadas que rompiam os sertes, feitas pelo Governo Federal), ou, claro, os centros das cidades. Era muito divertido.
Falava eu, sobre a dona Quin, minha jia brejeira homenageada na crnica de hoje.
Mulher bonita, estatura mediana, tez meio parda (existe esta definio?). No importa. Comunicativa, tonalidade de voz alta (tipo italiano), mas pausado, prprio de ns mineiros. Vestia-se despojadamente, mas seus colares e pulseiras em ouro muitas vezes a assemelhavam as damas da elite do brejo daquela poca. No peito sempre a pulsar um lindo e bondoso corao. Tinha grande vocao para a caridade. Por isso, no exerccio de suas funes como dona daquela penso, objetivava sempre a colaborao antes dos lucros e dividendos financeiros auferidos, sob trabalho rduo.
Levantava-se s 4 horas da manh e j partia para a luta. Mesa posta com desjejum para os hspedes, rumava-se para o mercado velho onde fazia as compras dos gneros alimentcios, frutas, verduras, legumes, etc., sempre fresquinhos. Preparava, artesanalmente, o almoo que era servido pontualmente, s 11 horas. Tempero igual o da dona Quin, jamais vi ou saboreei. Talvez somente o tempero de minha santa avozinha, a dona Justina, que Deus a tenha em sua Santa Glria se equiparava ao tempero da dona Quin.
Qualquer pessoa que naqueles tempos passasse em frente a Penso era, fatalmente convidado, a apreciar, inaladamente, claro, os sabores daqueles que eram, sem duvidas, o mais fino tempero mineiro. J ao longe, ainda na Praa Jacinto Silveira, se sentia o cheiro dos feijes que, entre alhos, cebolas, coentros e outros cheiros verdes produzidos no cinturo verde que rodeavam a minha terra, bero querido da minha infncia, tilintavam dentro da panela de ferro ainda na primeira fervura.
A cada fritura de bifes, o brejo parava... O cidado, se enfermo, sarava, aleijados andavam e os cachorros, desesperadamente, latiam. Os transeuntes no tinham nenhuma outra escapatria seno pararem-se, com seus olfatos aguados em frente penso, no aguardo dos acontecimentos. Ou qui de um convite inesperado da dona, para entrarem e, de repente, saborearem alguns pequenos bocados daqueles manjares dos Deuses das Alterosas.
A dona Quin reinava absoluta na arte da cozinha. Ela era poderosa nesta arte milenar e tinha total conhecimento disso. Por isso, muitas foram s vezes que a vi prestar estas verdadeiras homenagens a algumas pessoas ali aglomeradas, quando preparava pequenas marmitas e ofereciam-nas.
Alis, jamais consegui entender por quais mistrios aquela bondosa senhora conseguia manter e levar adiante aquela penso. Ela tinha, desculpem-me se utilizo o verbo no passado ao referir-me a dona Quin. Fazem tantos anos que a vi, que no sei se ela ainda vive entre ns-, uma forma hoje muito rara e peculiar de controlar o seu negocio, cuja forma, hoje inexistente: Utilizava-se de uma velha caderneta para registrar nela o velho e impoluto fiado. Naqueles saudosos tempos, quando a mosca velhaca do capitalismo desumano e selvagem ainda no havia picado o homem, a palavra, uma vez dada, tinha muito mais peso e fora que qualquer documento escrito, assinado, carimbado e registrado. Lembro-me, e olha que eu s tenho 57 aninhos, do meu av vendendo e comprando gado, l na sua fazenda Terra Branca, perto de Cana-Brava. Era mais ou menos assim: traga aqueles garrotes que eu vi com o senhor ontem na sua fazenda que daqui a quatro meses, no dia X eu lhe pago. No dava outra!
Motoristas, cobradores, boiadeiros, tropeiros, carregadores do velho mercado, que ali faziam ponto, comiam, bebiam e dormiam. Tudo na base do fiado. No final do ms, ao receberem seus proventos, l estavam todos, em fila indiana, saudando os seus compromissos com aquela grande senhora, de bondade impar.
O casaro onde antes ficava a penso da dona Quin ainda resiste ao tempo. H dois anos quando em sua frente estive, permanecia forte e inabalvel, assim como um dia o fora a sua primeira dona. Belos tempos, aqueles...
...
Por vezes, a maior e mais perfeita lembrana que repousa em nosso recndito se faz presente nas coisas mais simples e naturais, possveis.
Enoque Alves Rodrigues, que atua na rea de Engenharia, Colunista, Historiador e divulgador voluntrio de Francisco S, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.
Queridos leitores: informo que estarei publicando minhas crnicas a Francisco S tambm neste blog: http://enoquerodrigues-earodrigues.blogspot.com/



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Por Enoque Alves - 20/3/2011 20:25:13
AS JOIAS DO BREJO VI ROGRIO DA COSTA NEGRO

Enoque Alves Rodrigues

Antes que algum conterrneo ou leitor pense que eu me esqueci de alguma das muitas jias produzidas pelo Brejo das Almas, devido ainda no t-las publicado nesta serie de crnicas, quero me antecipar informando que esta serie dividida por etapas. Ou seja, na primeira etapa esto elencadas as jias do brejo, na segunda, as jias raras do brejo e na terceira e ultima, as jias rarssimas do brejo. Independente da ordem de grandeza, saliento que todas as jias aqui relatadas, tiveram, resguardadas as devidas propores, importncia fundamental no cotidiano do velho Brejo das Almas. Todas elas, todos ns, inclusive este humilde operrio da engenharia a qual se dedica arduamente em tempo integral e que ainda busca tempo para, com todo o amor e orgulho falar de sua terra querida, somos todos indispensveis vida do Brejo das Almas. Vamos ento ao querido Rogrio da Costa Negro.
Quando aos 7 de setembro do ano de 1924 se instalou o Municpio de Brejo das Almas a sua Cmara Municipal se constitua de 8 vereadores. Um deles que depois viria a ser presidente da cmara era Rogrio da Costa Negro.
Nascido em Gro Mogol, no ano de 1889, filho de um rico portugus com uma criada, Rogrio jamais fora reconhecido pelo pai. Ainda jovem, com a me mudou-se para o Brejo das Almas. L chegando, com muita dificuldade, abriu um pequeno comrcio de uma porta s, onde colocava algumas peas de tecidos para vender. No demorou muito e graas dedicao e tino comercial de Rogrio, aquela pequenina loja de transformou em um grande conglomerado de empresas no ramo de tecidos recebendo o pomposo nome de Casa Branca & Costa Negro.
Rogrio da Costa Negro progredia a olhos vistos. Possua agora grandes fazendas de gado, plantaes de diversas culturas a perderem-se de vista. Jovem, rico, bonito e famoso, ainda exercia grande influencia na poltica do lugar, Rogrio no tinha do que reclamar.
A sorte sem dvida alguma o bafejara. A vida, com toda certeza lhe sorrira. Ser?
Ainda jovem, no ano de 1925 construiu um luxuoso casaro com grande e aclimatado jardim de inverno e janelas com vitrais azuis, na Praa Duque de Caxias. Era indiscutivelmente a melhor e mais bem projetada residncia do Brejo das Almas de ento. Muitas festas eram dadas naquele rico e imponente casaro.
Juiz de Paz, tinha ele o poder de mandar prender e soltar, presidente da cmara e outras atividades, Rogrio fazia sucesso junto ao universo feminino. Onde quer que chegasse causava o maior frisson. Sempre perfumado, roupas impecveis, sapatos lustrados, no tinha para mais ningum.
No demorou muito e Rogrio da Costa Negro conheceu e casou-se com Ismria com quem teve cinco filhos. Algum tempo depois no resistindo aos encantos de uma beldade de beleza brejeira estonteante, de nome Raimunda, no pensou duas vezes e com ela teve tambm cinco filhos.
Rogrio se auto-intitulava amante de mulheres, msicas e flores. Bomio at a medula, varava noites e madrugadas em boates onde, despojadamente, distribua gordas e polpudas gorjetas aos cantores e mulheres animadas. Saia da boate e se dirigia a sua linda residncia, sempre acompanhado por famosa orquestra da poca denominada turma do sereno. Rogrio chegava, subia aos seus aposentos ao som de sua msica preferida sonho azul e da janela ouvia os cantos embaixo e de l mesmo jogava para os cantores vrias cdulas de dinheiro. claro que ningum arredava p dali. A fonte era muito prdiga e inesgotvel.
Inseri propositadamente uma interrogao no final do pargrafo a vida com toda certeza lhe sorrira. Ser?
Pois . Tudo na vida se acaba. Com Rogrio no foi diferente. Diante dos obstculos naturais que a vida nos coloca, Rogrio acabou por derrapar em uma das muitas curvas da estrada. Com muitos filhos, agora casados, todos eles educados nas melhores escolas, gastos incontrolveis com futilidades, desperdcios infindveis, farras homricas, no demorou muito para que o slido patrimnio de Costa Negro comeasse a se esvair. A virar p, literalmente. Dali a falncia total foi um pulo. O golpe de misericrdia que culminou com a venda de suas fazendas de gado, plantaes, e da prpria loja de tecidos, foi dado por um de seus filhos que havia contrado grande divida, cabendo a Rogrio paga-la a fim de preservar o bom nome da famlia. Pouqussimo tempo depois, at mesmo o lindo casaro de estilo colonial onde ele vivia com a famlia, foi dividido em pequeninos cmodos que eram alugados para pequenos comerciantes.
Rogrio da Costa Negro agora era apenas um pobre velho trpego e alquebrado. De toda a sua imensa prole, somente Edinha, sua filha doente e solteira, restou para lhe fazer companhia. Rogrio, mesmo diante da situao de penria ainda mantinha o esprito elevado e a alma tranqila. Conservava toda a elegncia, brilho no olhar, coragem e determinao de seus agora longnquos tempos de juventude e grande riqueza.
No dia 20 de Novembro de 1977, numa bela manh primaveril, Rogrio da Costa Negro partiu desta vida em direo a uma melhor, onde, para os que assim como eu, acreditam, as riquezas conquistadas aqui na terra mediante o esforo dedicado ao amor ao prximo, a benevolncia, a tolerncia, a caridade e principalmente o desapego as coisas materiais, jamais se acabam. So eternas.
Comovida, a gente brejeira fez-se presente em peso para dar o ltimo adeus aquele que muito significou para o brejo. A multido que acompanhava o cortejo de Rogrio cantando sua msica preferida sonho azul era to grande que dava-se a impresso que nas casas do brejo no havia sobrado mais ningum. No sepultamento a comoo era geral e incontrolvel. Ao baixar o caixo ao fundo do tmulo, ptalas de rosas e aromticos perfumes eram lanados sobre o mesmo juntamente com lgrimas de gratido.
Rogrio, certamente, agradecido pelas ddivas que ele mais admirava em vida, sorria a todos, de algum ponto invisvel a olho nu do infinito.
...
Por vezes, a maior e mais perfeita riqueza que podemos conquistar no se retm nas mos, mas no mais alm.
Enoque Alves Rodrigues, que atua na rea de Engenharia, Colunista, Historiador e divulgador voluntrio de Francisco S, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.



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Por Enoque Alves - 12/3/2011 18:36:28
AS JIAS DO BREJO V BIMBIM DO MERCADO

Enoque Alves Rodrigues

Durante vrios anos, por mais de duas dcadas, ele chegava, sempre por volta das 6 horas da manh, sentava-se sobre um velho caixote de verduras e ali ficava por todo o dia, debaixo de chuva e sol. O que ele trazia no caixote para vender no mercado? Nada! Parecia tratar-se de mais um daqueles personagens que a vida de quando em vez trs baila para prosseguirem caminhando por ela, sem destino algum, sem eira nem beira, ou desprovidos de quaisquer perspectivas e objetivos de alguma relevncia. Esses indivduos que ns muitas vezes do alto de nossa ignorncia insistimos em chamar de loucos, tem, certamente, suas misses honrosas a cumprirem aqui na terra as quais ns, no estagio atual em que nos encontramos, as desconhecemos inteiramente.
A todos quantos entrassem naquele tempo no velho mercado de Francisco S, Brejo das Almas, beldade do norte de minas, era recebido por Bimbim, que sempre educado e cordial, ficava sempre postado porta de entrada, com um bom dia, boa tarde ou boa noite. Como ests? E a famlia, como vai?
Enquanto ele dialogava com as pessoas, o seu cachorro, um vira latas... uai, s, voc j viu algum desses belos seres desacompanhados de um ou mais cachorros?- de pelo marrom, com duas grandes pintas nas costelas, olhos grandes, sendo um vazado por alguma estripulia do passado distante, lambia as pernas do interlocutor, pernas estas devidamente protegidas por uma belssima cala boca de sinos a coqueluche da ocasio.
Antonio Maria da Silveira Pena, esse era o nome de Bimbim, que apesar de pomposo, principalmente no que diz respeito aos sobrenomes Silveira e Pena, posso afirmar, depois de ter realizado pesquisas genealgicas, que nenhum parentesco tinha ele com qualquer ramificao destas famlias tradicionais do Brejo das Almas que ostentam esses sobrenomes.
-Bimbim, de onde voc ? Perguntavam-no.
-Sei l, eu? Respondia sempre. Quando me dei por mim j estava no mundo e minha me no viveu o suficiente pra me contar!
-Voc conhece algum parente, Bimbim? - Perguntava-lhe outro mancebo curioso por saber as origens do personagem.
-Conheo no! E se existe num me foi apresentado!.
-Mais onde voc mora? Isso sim, voc com certeza sabe! -, dizia outro.
- claro que eu sei. Eu moro l no Catuni, bem na barriga da serra. l que eu tenho o meu rancho l no sitio, onde crio as minhas galinhas poedeiras, planto as minhas hortalias, cao pres e pesco os bagres do so domingos...
-Uai, espera um pouco. Ento voc um homem cheio de atividades!
-Sou!
-E com que tempo voc faz tudo isso, se passas a maior parte do dia aqui no mercado sentado nesse caixote?
-E o sitio, seu?
-E porque voc no traz verduras e ovos para vender aqui? Sim, porque a gente no lhe v vendendo nada. Esse caixote est sempre vazio. Alis, a noite, quando voc no est sentado nele, ele est sempre amarrado com uma corrente naquela rvore...
-Voc pergunta muito, respondeu Bimbim, aparentando algum desconforto diante daquele bombardeio tolo, de perguntas vazias e desconexas. Mesmo assim, do alto de sua educao, inteligncia e bondade, passou a comentar aqueles questionrios, elegantemente.
-Procuro aproveitar bem o tempo que Deus me deu. Concilio essas atividades as quais exero na maioria das vezes noite, com o prazer que sinto em ficar aqui sentado nesse caixote, falando, ouvindo e aprendendo com vocs. No obstante muitos de vocs ainda pensarem que eu sou um louco, creio que a vida tranqila e sossegada que levo me propicia algum equilbrio que de certa forma, me coloca em estgio distante dessa classificao.
Quanto ao caixote vazio e de possuir alguma coisa que eu poderia estar vendendo aqui, quero informar que no tenho tantas necessidades materiais assim. A maior necessidade que tenho hoje e que venho, para a minha felicidade, suprindo a algumas dcadas, a de estar aqui, fazendo amigos. Isso o que mais me conforta j que durante toda a minha vida, vivi s.
No que se refere sim, ele meu. Comprei-o ainda na adolescncia. L onde durmo e aqui onde falo que escolhi para passar a vida para depois morrer com dignidade. A importncia da vida, caro amigo, -dizia ele ao interlocutor mais prximo-, no est em ganhar dinheiro o tempo todo, mas em saber usufruir do tempo que a vida, muito curta por sinal, nos oferece. Muitas vezes o que pode parecer loucura ou esquisitice para muitos, como o fato de eu passar, horas a fio, sentado neste caixote, em frente a este mercado, para mim a maior das diverses e prazeres da vida. Ai voc me diz: Cada louco com a sua mania.
E eu lhe respondo:
Quem sabe!
...
Por vezes, as aparncias enganam. dizer: no julgues pelas aparncias. Nem sempre elas esto com a razo.
Enoque Alves Rodrigues, que atua na rea de Engenharia, Colunista, Historiador e divulgador voluntrio de Francisco S, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.



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Por Enoque Alves - 6/3/2011 11:45:42
AS JOIAS DO BREJO IV NIQUINHO FARMACUTICO

Enoque Alves Rodrigues

Durante muitos anos existiu na Praa da Matriz uma velha farmcia. Era a nica farmcia do Brejo. Ela se localizava exatamente numa esquina a direita de quem observasse do antigo mercado. Seu proprietrio era Francelino Dias, mais conhecido como Frana.
No entanto, com toda certeza, o farmacutico mais importante do velho brejo das almas, foi, sem duvida alguma, Antonio Ferreira de Oliveira, vulgo Niquinho. Homem simples e educado, polido no trato com seus semelhantes, exmio no manuseio de frmulas medicamentosas, alm de ser possuidor de vasto cabedal cultural que o permitia discorrer sobre todo e qualquer assunto no Brejo das Almas de ento.
Alto, magro, meio calvo, este gigante Brejeiro exerceu ali no brejo, vrias outras posies de destaque na vida cotidiana do lugarejo, alm de sua dedicada lide de farmacutico.
Uma de suas grandes proezas e prova cabal de indiscutvel inteligncia e amor a Francisco S, ou Brejo das Almas, foi o legado que nos deixou a todos, quando escreveu, a pedido da professora Maria de Jesus Sampaio, o hino a Francisco S, o qual, musicado que foi por Corinto Cunha, at hoje o hino de nossa cidade, sendo sem qualquer sobra de dvida, o que melhor a retrata, destaca e enaltece, perante os vrios povos.
-Brejo das Almas, ou Francisco S. Igual a ti, outra no h- o estribilho que mais nos orgulha em qualquer parte do Mundo. Mesmo hoje, quando sabemos que o nosso Brejo das Almas j no mais o mesmo, guindado que fora a condio de cidade mdia e progressista, que seguindo um processo natural dos centros urbanos, trouxe consigo tambm as mazelas que corroem os mais profundos sentimentos Cristos e humanitrios, principalmente daqueles menos favorecidos pela sorte, no conseguimos reter as nossas lgrimas nem controlar a nossa emoo, ao ouvirmos to lindo, maravilhoso e erudito hino. Nesse instante como que por encanto, vem-nos mente a imagem de Niquinho, o grande benfeitor do brejo.
Esposo da senhora Cndida Peres de Oliveira, pai de muitos filhos, entre eles aquela que viria mais tarde revelar ser a que mais dele herdara os traos fisionmicos e culturais, Yvonne de Oliveira Silveira, normalista desde a mais tenra idade, escritora, poetiza e outras mil atividades nas reas do intelecto, sendo inclusive presidente da academia montes-clarense de letras, etc., a qual ainda na adolescncia viria a esposar Olyntho da Silveira, tambm grande escritor e poeta, filho da terra e de Jacinto e Maria Luiza, alm de irmo do grande Geraldo Tito.
A vida difcil no poupa aqueles que dela tentam sobressair com fora e dignidade. Com Niquinho e sua prole no foi diferente. Muito sofreu para conseguir prover sua famlia do sustento necessrio e de uma educao esmerada. Logo cedo, para dificultar mais a sua luta, o destino abateu-se sobre a esposa da qual tivera que separar afim de que ela, em Montes Claros, seguisse tratamento de sade, enquanto Yvonne o fazia companhia no Brejo das Almas.
Niquinho, no obstante a inteligncia muito acima da mdia, era homem como todos ns. E como tal, possua, alm das grandes virtudes, fraquezas naturais a todos os homens e, evidentemente, estas fraquezas quase que o levaram a derrocada ainda na juventude. Muitos eram os traumas que a vida lhes trazia numa frao muito pequena de tempo. Muitas vezes sequer havia absorvido um golpe e l vinha outro mais forte ainda. Com isso, como disse, quase naufragou na bebida onde encontrava o falso consolo. A tempo, com a ajuda dos filhos e amigos conseguiu se livrar do vicio que no entanto, deixou-lhe algumas seqelas que viriam cobrar-lhe a fatura mais tarde e durante a velhice.
Por dez anos padecera de doena que viria a tirar-lhe a vida. No entanto, at mesmo nos momentos de dor que a enfermidade lhe imputava, jamais se lamentou da sorte. Nunca fez sequer qualquer lamentao ao seu destino cruel. Sofria calado, com fora, coragem, pacincia e resignao, virtudes estas prprias dos espritos intelectualmente elevados que, de alguma forma, j no mais pertencem a esse mundinho.
Em casa de Yvonne e Olyntho, que dedicados e incansveis lhes proporcionavam todo o conforto material e espiritual em todas as horas, veladamente, deixou esta vida partindo rumo a uma outra qui mais justa e menos cruel para com aqueles que a ela se dedicam com pureza de alma, ternura e muito amor ao prximo.
Assim foi, e ser Niquinho, cujo diminutivo muito pouco para definir o quo grande foi o gigante Brejeiro Antonio Ferreira de Oliveira.
E...
Por vezes, os gigantes tambm tombam numa esquina qualquer da vida para volverem-se, numa prxima, mais gigantes ainda.
Enoque Alves Rodrigues, que atua na rea de Engenharia, Colunista, Historiador e divulgador voluntrio de Francisco S, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


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Por Enoque Alves - 26/2/2011 12:41:52
As jias do Brejo III - Seu Quincas

Enoque Alves Rodrigues

Seu Quincas ao contrrio de todas as jias do brejo que sero aqui retratadas, no obstante ter se tornado um autentico brejeiro, no nascera no Brejo das Almas. Vivia ali h muito tempo aonde chegara ainda rapazinho, proveniente de Gro Mogol, sua terra natal.
Em Brejo das Almas, hoje Francisco S, beldade do norte de minas, Seu Quincas, ou melhor, Joaquim Dias de Oliveira Bicalho, -era este o seu nome de batismo- tornara-se fiscal da prefeitura, tendo ocupado esta funo por inmeras vezes a qual lhe rendia 20% sobre toda a taxa de arrecadao do municpio.
Exmio na arte de riscar a binga para acender seu cigarrinho de palha carregado pelos melhores fumos produzidos naquele torro de meu Deus, dedicava-se nas horas vagas que, diga-se de passagem, no eram poucas, ao curandeirismo e a de contador de histrias as quais invariavelmente o tinham, quase que sempre, como o protagonista ou personagem principal, que, como todo final de histrias de super-heris, estava ele sempre por cima.
Mas uma dessas histrias que ele contava e que certamente era verdadeira, ratificada que era pelo vicio que ele mantinha de tomar, entre uma conversa e outra, grandes pitadas de bicarbonato e tambm por dar nome aos bois, o colocava em uma posio no muito favorvel a dos super-heris. Pelo menos nesta histria ele no se saiu bem.
Ei-la:
Foi l em Gro Mogol, -dizia Seu Quincas-, quando eu era rapazinho. Morrera o Vigrio da Freguesia o Padre Jos Tiago. Um entra e sai dos diabos na casa do morto que era muito querido na cidade. Naqueles tempos era hbito e costume da Igreja de Roma que os defuntos padres fossem lavados com gua dos rios que depois de usada ficava guardada em um pote de barro por sete dias quando seria lanada de volta aos rios.
Cheguei casa paroquial onde o Padre estava sendo velado, tinindo de fome e sede. Morvamos nos arrabaldes de Gro Mogol. Visualizei, ao longe, uma preta velha, servial da casa, que em gestos de desespero, com as mos na cabea, entrava e saia da casa rezando, em prantos compulsivos.Chorava copiosamente e entre um soluo e outro, entre uma reza e outra, resmungava: Diabos, com tanta gente ruim pra morrer Deus me vai lev justo o s vigro. E adespois ainda dizem que Deus Justo. Home bom como s pade, nunca mais vai t na terra!
Cumprimentei-a que entretida com sua dor e lamentos, sequer notara ali a minha presena. Dirigi-me a uma sala grande onde, sobre uma mesa cercada por velas em castiais de ouro, jazia, frio e inerte, o corpo daquele que fora em vida, o benfeitor dos muitos fieis de ento. sua cabeceira, um outro padre celebrava as recomendaes de praxe, para que a alma do morto encontrasse l no alm o repouso merecido. Ao seu redor, uma multido de mulheres velhas com lenos pretos sobre as cabeas acompanhava o tero e ao final de cada ave-maria, respondiam em voz alta ameeem! Entre elas, naturalmente, muitas carpideiras, claro. Elas so partes integrantes de qualquer velrio e naquela poca no era diferente.
Enquanto isso, um grupo de homens alegres pela pinga do mogol palestravam num canto um pouco mais distante da cerimnia. Por mais que eu tenha forado marcar ali a minha presena, ningum me deu ateno. Estavam todos compenetrados. Enquanto isso a sede apertava e todos ns sabemos que quando a sede quer, ela consegue ser mais forte que a fome. Nesse nterim, cutuquei um daqueles gaiatos:
- Anc num sabe onde que eu acho gua pra beber?. Num agento mais de sede!
Antes mesmo de eu terminar a frase o gaiato, pau dgua, como se para se livrar logo de mim, apontou para um dos cantos onde pude visualizar um velho pote de barro que com certeza se encontrava o to precioso liquido que saciaria a minha sede. Mais que depressa fui at l. Um amassado e baboso copo de alumnio, no sei por que diabos, ali estava, ao lado do pote. Introduzi-o, desesperadamente, e s depois de haver ingerido vrios copos de gua, pude me ver livre daquela sede.
No contava com o tremendo revertrio que aquele meu inocente gesto, dali a alguns instantes me causaria.
Comecei a suar frio, enquanto a gua dava voltas no estmago. Parecia no ter descido. Tinha a sensao de um grande dilvio. O meu corpo ficou flcido. As pernas bambas e o meu crebro no conseguia emitir nenhum sinal de comando. Sem compreender quais eram os motivos daquela reao, fui me queixar com a mesma preta velha. Para que me desse ateno, tive que dar-lhe um belisco nas polpudas ndegas.
- Uai, sinhozinho. O que que tu quer de mim?
- De voc eu no quero nada!. S gostaria que me informasse o que que vocs colocaram naquela maldita gua que est naquele pote, ali! disse-lhe, apontando com o indicador para o pote.
- Apusqu oc est me preguntando isso? Por acaso oc num catlico e num cunhece os rito da santa madre igreja?. Naquele pote que oc est me apontando o pote que guarda as gua benta que lavaram o corpo de s pade Z Tiago. Ela est l para ser lanada no rio daqui a sete dias!
Antes que aquela preta velha conclusse aquela inesperada informao, meti os dois dedos na goela e em um s tranco expeli aquele maldito liquido do qual at hoje, como se por castigo, sinto ainda o gosto que s amenizado quando tomo bicarbonato...
E, num gesto mecnico, finalizava a frase metendo a mo no bornal de onde tirava mais uma pitada daquele p sagrado que por alguns instantes o fazia esquecer do triste episodio vivido em tempos longnquos em sua Gro Mogol.
...
Por vezes, a mesma gua que os outros julgam como benta para eles, pode nos causar os mais srios transtornos.
Enoque Alves Rodrigues, que atua na rea de Engenharia, Colunista, Historiador e divulgador voluntrio de Francisco S, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


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Por Enoque Alves - 24/2/2011 10:17:39
AS JOIAS DO BREJO II Z ALVES

Enoque Alves Rodrigues

Com vrias fazendas de gado e plantaes a perderem-se de vista que ocupavam quase todo o territrio do velho So Gonalo do Brejo das Almas, Z Alves foi, indubitvel e incontestavelmente, o grande patriarca do lugar. A pedra fundamental do velho brejo foi fincada com muita luta, denodo e bravura, por aquele vaqueiro matuto de falar pausado, mas firme e direto. Possua grandes manadas de gado as quais vendia, tornando-se o maior comerciante agropecurio de todo o norte das minas gerais.
Jos Alves da Silveira, sim esse seu nome completo de batismo, constituiu ali juntamente com dona Antoninha, sua dedicada e mui prendada esposa, numerosa famlia tendo todos os filhos, a exceo de um deles, seguido os passos do pai na lide de comprar e vender fazendas e gado de corte. Todos os filhos do velho Z Alves eram fazendeiros, apenas Jacinto Alves da Silveira, um de seus filhos que mais tarde se encarregaria de dedicar-se de corpo e alma ao desenvolvimento de Brejo das Almas, acumulava as atribuies de fazendeiro com a vida cultural, no obstante no ter obtido em toda a existncia mais que seis meses de instruo escolar. O resto da historia desse grande brejeiro todos conhecemos e ser, uma vez mais, tratada a parte, j que hoje estamos nos referindo ao seu pai.
Z Alves viajava diariamente para fechar negcios que culminavam sempre com a compra ou venda de novas manadas de gado. Grande tino voltado para esse tipo de comrcio, tornara o velho Z Alves o homem mais rico de todo o Brejo das Almas. Praticava tambm nas poucas horas vagas, a caa de veados, onas e outros animais de mdio porte, que abatia de cima de uma velha espera onde, com toda calma do mundo, permanecia horas e as vezes noites inteiras sobre uma arvore at que os infelizes surgissem para o fim, inexorvel.
Mineiro at a medula, caipira de formao e analfabeto por convico, travava em suas quase sempre bem-sucedidas negociaes, antes de tudo, uma verdadeira peleja com a Lngua Ptria, deixando muitas vezes seus dilogos quase incompreensveis aos seus interlocutores. Alm disso, o velho Z Alves era do tipo pavio curto. No se utilizava de meias palavras nem mesmo quando o nico interessado em fechar determinado negcio era ele prprio. Mesmo sendo mineiro, no aceitava o nosso mineirsmo. Ao contrrio, combatia-o, severamente. No aceitava desculpas ou qualquer justificativa. Tratou com ele tinha que cumprir.
Certa vez foi realizar uma grande venda de gado de corte l pelos lados de Ouro Preto, terra de seus ancestrais. Ao longe, ao v-lo surgir, o fazendeiro Nico da Rosa, para o qual Z Alves venderia a grande manada, abriu-lhe os braos gesto seguido de um grande sorriso colocando mostra a perfeita dentio matuta coberta do mais puro ouro das gerais, cujos dentes reluziam distancia, foi logo proferindo as palavras de boas vindas, pratica e costumes daquelas placas naquela poca.
- Ol, compadre Z. Sejas bem-vindo a minha humilde casa que muito pequena, mas ns aqui estamos com o corao grande e aberto para receb-lo!.
- Uai, cumpade Nico, que diabos isso de casa pequena e corao grande e aberto? Nis aqui viemo a nigocio e num vamo nem entra na sua casa e quanto ao seu corao, pode fech... Num deixa ele aberto no apusqu pode cri bichios e infram e nois aqui num mdico. Viemo cumo eu j disse, trabai e no cumercio de gado num tem lug pra frescruras. As trezentas cabea de boi oito contos de ris e num tem cunversa!
- Calma, compadre. Ns vamos negociar, com toda certeza... mas minha obrigao a qual exero de muito bom grado, fazer as honras da casa oferecendo hospedagem, gua e comida para o senhor e seus camaradas, at porque sabemos que a distancia entre o Brejo das Almas at Ouro Preto, onde estamos, muito longa.
Z Alves, com um p apoiado em uma trave da porteira, permanecia do lado de fora, enquanto o compadre Nico segurava a tramela do lado de dentro tencionando abrir-la.
A distana longa mesmo, cumpade, mais nois est aqui. Vamos antonces entr nas nigociao, apusque pelo qui t vendo num vai ser fcil. O sinh pensa qui falano bunito vai mi drob... mais eu num v ced. Esse gado que eu truxe foi todo ingordado com o melh capim colonio que j se produziu no brejo...
No tinha mesmo como engatar um dialogo que no dissertasse nica e to somente sobre a compra e a venda do gado. Assim sendo, no restou a Nico da Rosa outra alternativa seno partir para o ataque.
Mineiramente, passou a fazer disfarados comentrios no intuito de depreciar um pouco o produto para depois dar o bote e compra-lo por um valor menor.
- Pois , compadre, vejo que apesar da boa qualidade de seu capim colonio, seus bois, dessa vez no esto muito gordos como os da manada que eu lhe comprei na ultima vez.
- Antonces eu vou lev eles de vorta pro brejo pra engord mais e quando eles estour eu lhe trago!
- O que isso, compadre? S estou lhe dizendo que os bois desta vez no esto gordos como os anteriores... s isso!
- J entendi. Onc quer desvaloriz meu gado pr eu lhe vend a preo de banana. Por isso mesmo agora eu s lhe vendo os meus bois pelo drobo. Meno de dezesseis mir conto de ris eu num vendo proc. peg o larg!
No sei como terminou esta histria mas, c pr ns, a diferenas dos valores culturais e monetria para a venda da manada, entre ambos, era muito grande. possvel que nenhuma das partes tenha logrado xito.
...
Por vezes, como falamos no Brejo, dois duros no levantam muros. Ou ainda, dois bicudos no se beijam.
Enoque Alves Rodrigues, que atua na rea de Engenharia, Escritor, Colunista, Historiador e divulgador voluntrio de Francisco S, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.



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Por Enoque Alves - 5/2/2011 21:00:56
AS JIAS DO BREJO I - JOS DIAS PEREIRA

Enoque Alves Rodrigues

de conhecimento de todo e qualquer brejeiro o peso que tem, ainda hoje, o sobrenome Dias na poltica e, principalmente, no desenvolvimento scio econmico de Francisco S, como um todo. No preciso arriscar muito para afirmar que por muito pouco os Dias se equiparariam aos Silveira, claro, no fossem estes imbatveis e insuperveis. O certo que desde que Francisco S, ou Brejo das Almas se entende por gente, os cls Silveira e Dias sempre se revezaram em seu cotidiano. Chegavam mesmo, outrora, a fomentar animosidades em seus relacionamentos polticos sem qualquer prejuzo ao amistoso. Estas tradicionalssimas famlias conseguiam ser inimigas no mbito da poltica sem o ser no familiar. Casavam-se Dias com Silveira e vice-versa. As relaes entre estas jias do Brejo tinham que ser mantidas no mais alto nvel com o nico e mutuo objetivo de preservar o crescimento e projeo do lugar. Entre os muitos Dias que no obstante a minha ainda hoje tenra idade conheci, destacarei no episodio de hoje, sucintamente, j que seria impossvel relacionar todas as aes, predicados e virtudes do aludido, alguns feitos que j naquela longnqua poca demonstravam o quo visionrio, arrojado e empreendedor era o nosso cana-brava Jos Dias Pereira. No difcil falar desse caboclo apesar do pouco ou quase nada existir a seu respeito nos livros escritos e compulsados na regio. Mas assim mesmo, a histria costuma no fazer justia queles que mais realizaram, apesar de que, como se ver mais adiante, o personagem de hoje, nominar algumas ruas e instituies de ensino.
Matuto e inculto, porem educado, humano e sensvel. Assim era Jos Dias Pereira. Grande faro para os negcios acompanhado de imensa dedicao e desprendimento. Construiu com suas prprias mos, sem contar com herana alguma, todo o seu patrimnio que no era pouco. Dividiam suas rentveis atividades nos campos de fazendas de criar onde se achavam infestadas de bois de corte, plantaes a perderem de vista de cana de acar, algodo, alho, etc., casas comerciais diversificadas e muitas outras labutas que lhes auferiam merecidamente lucros astronmicos. Tudo dentro da mais pura e correta honestidade fator este do qual no abria mo.
O homenageado de hoje tinha l suas maneiras muito prprias, e at mesmo curiosas de colocar a sua mquina de fazer dinheiro para funcionar. O homenzarro parecia no dormir, jamais. No af de colaborar com o crescimento da regio, de sua gente e, claro, seu prprio, no media esforos. De madrugada, quando o galo ainda cantava e o astro rei sequer sonhava em dar as caras, ele j saltava da cama l em Cana Brava onde tinha o seu quartel general e de posse de uma velha e enferrujada enxada, ia de porta em porta acordar os homens da casa, previamente comprometidos com ele e sua lide. Era com prazer que se trabalhava para aquele caboclo, at porque naqueles tempos, por aquelas mseras plagas onde, com orgulho, nasci, no se havia outro meio de se ganhar a vida seno suando a camisa no calor causticante da terra vermelha. E aquele caboclo honrava o trato. Jamais passou a perna em quem quer que seja. Era difcil o despertar para o brejeiro de cana brava naqueles tempos... Qualquer desavisado que porventura pretendesse fazer corpo mole e seguir dormindo estava literalmente lascado. J ao longe se ouvia o tilintar da pedra na velha enxada seguido de fortes gritos enquanto a plebe j se reunia frente de seus casebres.
O matuto, homenageado, vinha l quase que sempre vestido com uma cala arranca toco, camisa feita de tecido de algodo semelhante ao que se usa no fabrico de sacos de acar, sobre a qual, invariavelmente, mantinha um velho e surrado jaleco de couro. Nos ps, um no menos velho e surrado par de botas de couro em cujas botas, pasmem, estivesse ele p ou cavalo, estavam sempre ornamentadas com reluzentes esporas com suas serrilhas afiadssimas. Sua maneira despojada e despreocupada de se vestir era imutvel. Suas vestimentas pareciam fundir-se sua prpria personalidade. Era uma figura.
Zeca Guida: Era esta a sua alcunha. O Zeca Guida de Canabrava ou seria a Canabrava do Guida?
Bem isso pouco importa. O que importa mesmo que no existia ali nenhum outro benfeitor com quem a gente necessitada pudesse contar. Era somente o Zeca Guida.
- Zeca, priciso cuoc me impresta uma frr de abrba pra envi ua receicha qui mi deu seo dot Joo Alve pr expurs bichios da barriga de Tonha.
Tem que traduzir: Zeca, necessito que voc me empreste uma nota de mil cruzeiros para poder aviar uma receita que foi dada pelo senhor doutor Joo Alves Antonia, para expelir vermes.
- Pois no, Carrim, (Carlinhos) manda a Tonha pass l em casa e peg com a Lia. Pede pr Tonha no esquec de alembr Lia pra ela no esquec de anot pra discont no fim do miz.
Outro, premido por suas necessidades tambm acorria ao benfeitor.
- Eu gostcharia muincho de vim trabai com o sinh, mais o ganhame aqui muincho poo!
- No tem importana, no, s. V entonce trabai cum Erpido. (Elpdio)
- Mais Erpido tamm paga poo!, - respondia o peo, desolado.
- Entonce vai lamb sabo de preda pr faz escuma. O entonce v esvazi a lagoa das preda cum caxa de fosco (esvaziar a lagoa das pedras com caixa de fscoro).
Enquanto isso, outro peo expressando-se em peculiar mineirismo, prprio de alguns de ns montanheses, tentava justificar sua possvel ausncia ao terreiro para ajudar a bater feijes. (vrias pessoas se reuniam ao redor de um monte de feijo cada qual com um cambo que consiste em dois pedaos de paus presos um ao outro por um relho de couro na ponta, utilizados para debulhar feijes).
- Ento, ficamos assim, seu Z (este falava bem). Eu estarei l s 6 horas... Mas se at as 5 horas eu no chegar porque eu no fui!
- No. Isso num t certo, respondia Zeca, desse jeicho s oc ganha e ainda banguna as minha idias. Vamo simprific isso: eu v te esper s at s 5 hora. Se at as 6 hora oc num cheg eu v imbora e oc num pricisa vim mais. Pode percurar otro patro pra trabai qui eu num v mais te servi.
Era a linguagem brejeira se alinhando para romper as barreiras do entendimento. Zeca Guida, no obstante ter sido homem de poucas letras, se expressava muito bem. No entanto, muitas eram as vezes em que ele tinha que se expressar na linguagem cabocla para se fazer entender melhor.
E...
Por vezes, dizia Sun Tsu, h momentos que a maior sabedoria parecer no saber nada.
Enoque Alves Rodrigues, que atua na rea de Engenharia, Escritor, Colunista, Historiador e divulgador voluntrio de Francisco S, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.





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