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montesclaros.com - Ano 23 - sexta-feira, 9 de junho de 2023


Raphael Reys    [email protected]
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Por Raphael Reys - 10/4/2012 09:17:22
A histria do menino pelau

Como at as pedras se encontram, estive no Quarteiro do Povo para dois dedos de prosa com a dupla dos setentes dessemelhantes de Moc City. Um, o lobo urbano Ronaldo Toffani, cobra mais do que criada na escola da vida. O outro, um exemplo de cidadania e de honradez, o pecuarista e cinfolo Geg Gomes.
Ronaldo, o mestre da ironia, cuca leve, dolce far niente (boa vida), p de pano estilo canastro de Roliude. Emrito dom Juan de alcovas tropicais, consolador de mal amadas e mal casadas, herdeiro natural e adepto da Lei de Gerson. Sempre vestido elegantemente. Como todo bom filho de Figueira, catlico de dia, macumbeiro noite.
Quando interage com algum interlocutor deixa transparecer na expresso, uma mfa!
Carrega no pescoo um patu feito em Nazar das Farinhas na Bahia e no bolso das calas bem talhadas uma reza de So Cipriano, fechando o corpo contra bala de namorado, noivo, amante fixo ou marido ciumento.
O outro, criador de gado da mais alta supimpitude, filho de famlia tradicional, mui digno executivo da Fazenda Larga onde a fartura tanta que colonio d mais alto que telhado de casa e caititus anda em bando e so abatidos de porrete. Mantm sempre na face um sorriso dcil e conciliador, que a sua marca registrada.
Embora tenha nascido em bero de ouro se comporta e se veste com parcimnia. Polido, discreto, cortez, profundamente religioso. Chega a ser um simplista.
Tete a tete comigo, esses dois ilustres montes-clarenses, to diferentes em personalidade o que refora o dito da cano portenha: cada qual com o seu cada qual. Ou, cada alma com a sua misso.
Se algum dia, as companhias cinematogrficas Metro Goldwin Mayer ou mesmo, como bem diria o saudoso Lezinho Lafet, a Vinte T Ag Centuri F Xis, viessem a Moc City fazer uma longa metragem sobre a nossa verve campesina teriam dificuldades estruturais para compor o elenco, tal o farturo de artistas...
Acontece que aqui s tem estrela, gal de primeira e para fazer papel de bandidos e demais coadjuvante teria que vir gente das cidades vizinhas. Exceo do Brejo das Almas que, como em nossa urbe, s tem cabeceira.
E para concluir a crnica ao bom estilo Withimiano, uma histria da mais pura poesia interiorana. Conta o nosso Geg Gomes, que no incio dos bons anos 50, quando ele ainda era um galalau, dona Yolanda, sua vizinha na rua Doutor Veloso lhe narrou histria do menino Pelau.
Acontece que o infante tinha um passarinho de estimao que veio a morrer de morte morrida. A cena final do filme tupiniquim o garoto com o pssaro em de cujus na mo e no maior choror. Outro menino, seu vizinho emptico, para consol-lo teria dito: Chora no Pelau que ele foi para o cu!.
O apelido Pelau dado pelo pai do curumim fora copiado de um personagem extrado das pginas de Cames.
E como diria o saudoso montes-clarense Deca Rocha:
- Ns aqui da roa, somos curraleiros, mas somos chiques!


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Por Raphael Reys - 2/4/2012 17:14:21
Novas rosas literrias no Jardim Acadmico

Boca da noite encantada sob a lmpida amplido da Chapada de Figueira. Mercrio na cspide do cu, inspirando as letras e Vnus, em sintonia, emanando as artes no Centro Cultural Hermes de Paula onde est sendo formada a Academia Feminina Montesclarense de Letras.Dia Nacional e Internacional da Poesia!Sero conduzidas aos portais internos do sacro colgio: Cludia Veloso Colem, Nayara Maciel do Carmo e Lara Arajo. Carmem Netto Vitrio, nomeada correspondente e a grande homenageada da noite solene, a educadora Isabel Rebelo, uma guerreira fundadora da Fafil, raiz e base de onde surgiu a nossa universidade.Jpiter e demais deuses, empticos, a tudo assistiam do Olimpo, enquanto a escritora Gloria Mameluque presidia a academia com as imortais, envergando a pelerine, emoldurada por uma rosa violeta e uma pena.A egrgora do ambiente combinava a fragrncia das colnias com o natural voil das acadmicas, enquanto Nancy Andrade discursava sobre a mulher atual, suas conquistas e liberdade de expresso. Lembrou a magia feminina dos Orixs.A escritora Maria Cmara encerrou os discursos e foi efusivamente aplaudida em sua fala.A cantora Ana Luiza brindou a todos, com espirais sonoras extradas do romantismo de Whitney Heppner, acompanhada pelo tecladista Tiago.Senhoras, meninas, mes, avs e bisavs, elegantemente vestidas. A escritora Mara Narciso, adornada em negro, combinando com os seus cabelos; Mrcia Yellow, sempre ao sabor do vento, com um coque blond; e Virgnia de Paula, meditativa, em um costume de seda estampada.Muitos abraos, beijos, congraamentos, comprimentos, sorrisos, lgrimas de contentamento, alegrias, clicadas pela mdia e pelas famlias das acadmicas e homenageadas presentes ao evento.E viva os que promovem a educao e a cultura dos nossos Montes Claros!


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Por Raphael Reys - 19/3/2012 14:08:35
A ESCOLA DO GIBI.

Nos bons anos 60 e parte dos 70, o bar do Haroldo, fincado na esquina das ruas Corra Machado e Melo Viana, no Bairro Morrinhos, era o point da rapaziada e da turma de capoeiras. Muita cachaa curraleira, cerveja casco verde e os famosos Pfs e tira gostos de galinha caipira. Alm do caprichado tempero, o molho e as mandingas do citado mestre cuca, sempre atraram muitos clientes.
L no bar, a galera pulava e se assanhava como uma farndola de diabretes, quando havia jogo de futebol entre Cruzeiro e Atltico. As turmas de torcedores rivais se peiteavam, mostrando faixas e cartazes com slogans alusivos contenda, cantando refres provocativos. Era o maior au!
Dentre os personagens mais animados, se destacava o Tipuka. Tipo extico, conversa arrastada, mos tortas, corpo torto, parecendo cavalo de umbanda incorporado na Escora. A bem da verdade, era cobra criada, um servente de pedreiro da turma do mestre de obras Roberto Pimenta, o maior 171 do pedao. Esse criou fama como o mais esperto de Moc City. Dava uma de menino de creche para poder sobreviver.
Bem prximo dali e no passeio em frente ao Cine Ypiranga, trabalhava uma grande turma de engraxates com suas caixas caractersticas. Dentre muitos, Geraldo dos Beios, Nego T, Luiz Pinguelo, Joo Finin, Artur Cego, Carlai, e o memorvel Nau Faquir, morto tragicamente no mundo do crime.
Como ferramentas de trabalho, pastas Nugett, escovas, flanelas e a tinta Fenomenal, usada para mudar a cor dos sapatos.
Por qualquer alegria ou fraco motivo baixava o santo na rapaziada. A todos enchiam a cara, engrossando a turma dos torcedores do Atltico, no Bar Destak da carnavalesca Dona Linda e os cruzeirenses, no Bar do Haroldo.
A galera daqui sempre foi muito criativa, unida, e como a alfabetizao no chegou para todos os moradores da comunidade, apesar do progresso da nossa urbe, nasceu entre os frequentadores dos bares e do cinema, uma escola diferenciada. A Escola do Gibi!
A alfabetizao era feita atravs do manuseio de revistas em quadrinhos e pela leitura dos que eram alfabetizados, com a memorizao das falas dos personagens, textos e imagens pelos demais, surgindo, ento, entre os aficionados por revistas em quadrinhos, os alunos do Gibi.
Clubes idnticos, onde ocorria a troca de revistas e o aprendizado somente da leitura, funcionavam tambm porta dos cines Ftima, Lafet e Coronel Ribeiro.
Como a didtica ministrada porta do cine se dava com os participantes em p na calada, desenvolveu-se somente a leitura e no a escrita. Nessa galera, figuravam alfaiates, aprendizes, serventes de pedreiro, operrios, mestres de obra e servio, arteses.
Nessa fase a bela professora Estelita Cardoso moradora da rua Melo Viana, matriculou uma boa parte da galera na distante Escola Vila Telma. Funcionava numa tapera com paredes de adobe, coberta de folhas de coqueiro a luz de gs e o sacrifcio era irem a p noite com quase uma hora de percurso. Conseguiu alfabetizar centenas de jovens do Bairro Morrinhos e adjacncias. A diretora do educandrio coberto de palha era Maria da Glria Xavier.
Todo sacrifcio em prol da educao dos jovens da comunidade! Aperfeioaram a leitura, aprenderam a escrita, matemtica, geografia, histria e os primeiros rudimentos de Moral e Cvica.
Dentre muitos, Pacu, Pipiu, Lika Alfaiate, Cludio, Aroldin, Liano, Marquinho Kiko, Z Maria, Eustquio Perneta, Padea, Hildebrando de Zefira, Zeca de Dona Linda, carregando o botijo na bicicleta cargueira. L estavam, alm de muitos outros no citados, trados pela memria e a nossa lembrana.


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Por Raphael Reys - 13/3/2012 17:50:26
UM PODEROSO OLHAR FEMININO.

Na mostra Olhar Feminino aberta no Centro Cultural de Montes Claros, tanto a aura reinante era da mais pura suavidade, como as obras expostas pelas artistas plsticas convidadas viajavam com o anjo difano de Felicidade Silveira, o cubismo de Eunice Ferreira, o tom colonial de Feli Lopes, a intensa tierra siena em pigmentos naturais da bela Mrcia Prates ao gato Ne Blue de Guilemina Lcia.
Zebras estilizadas entre a Medusa com cabelos de Anay Kondra de Adriana Freitas. Em prece, o Povorello de Angela Maia ao painel Mulheres Poderosas do anjo urbano Conceio Melo. Tudo clicado e iluminado pelo spot, organizado pela competente diretora Rita Maluf, vestida em um rendo branco com seus olhos de mistrio, potencializados por uma sombra violeta.
Silvana Mameluque, toda sex appel, vestida para matar; Mrcia Prates, em seda com motivos orientais e Maiza Rodrigues, a grande homenageada da noite, representando a mulher guerreira do Norte de Minas. Foi aplaudida e ganhou um enorme buqu de flores.
Mrcia Yellow, felizmente voltou ao seu charme original, deixando a roupagem de A Estrela Sobe! Desfilava pelo salo em verdadeiro glamour. Uma tentao! Belezura PO, para a sustentabilidade das almas presentes.
No ar, a mistura harmnica das fragrncias emanadas pelas colnias francesas, ao som doce de um violino que emitia espiral sonora de valsas dolentes. Agradveis ao forno alqumico dos coraes presentes.
Dado ao flagelo dos moto-assaltantes entregues ao insano jogo de rollerball pelas nossas ruas, notava-se a ausncia de jias nas beldades...
Uma noite de puro romantismo, sentimentos entre amplexos, sculos e flertes trocados entre os presentes. Uma verdadeira nouvelle vague. A mais pura extenso sensorial...
Como a noite era de magia e com as almas femininas doando compaixo, encharquei-me de ternuras. Realizei o sonho em abraar e beijar os cabelos de Felicidade Patrocnio, uma alma em enlevo. Mrcia Yellow clicou o momento. Dei um abrao acochado e beijei os olhos inflamados da jornalista Sara Par. Matei a vontade!
Das elegantes senhoras que estavam acompanhadas pelos respectivos maridos, beijei elegantemente as mos. O que vale a inteno.
Fui para os braos de Morfeu, o deus do sono, com a minha pobre e carente alma entre feliz e atormentada. Sonhei estar na Riviera Francesa em um enlace com a Brigitte Bardot! Quem no pode, pode sonhar!


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Por Raphael Reys - 6/3/2012 09:29:46
PURA CURRALEIRAGEM!

Z Amorim contava um causo com sua verve em dramatizar pequenas tragdias do cotidiano, quando Toninho Rebello que participava da conversa o interpelou: Porque os Amorins so todos assim conversadores e espirituosos? Z respondeu, na bucha: Porque somos cpia do nosso pai, Pedro Montes Claros..
A bem da verdade, os Amorins so como mala de mascate. Vivem de tampa aberta e se enquadram no dito de Maria Clia: o modus vivendi de cavalgar sem arreio.
Apaixonado por fitas de faroeste, Z chegou ao cine Montes Claros trazendo na garupa da moto BSA Lazinho Pimenta, para assistirem ao longa metragem Era Uma Vez no Oeste. Silncio na platia, Jac botou o rolo para correr.
Na cena de abertura, o cowboy chegou a San Juan de La Puente, no Novo Mxico, como se no quisesses nada e tocando uma gaita harmnica de boca, no bom estilo romntico. Desceu na plataforma, consertou o chapu e deu uma cubada nos paus mandados do chefo que traziam os embornais de milho 44.
Desceu atento com uma bruaca de couro sobre o seu trax, ocultando o Colt 44, de olho nos trs bandidos na plataforma que o esperavam montados em seus cavalos, para envi-lo cidade dos ps juntos a mando do bandido local.
O pistoleiro quebra faca do chefo adiantou a montaria e foi logo aplicando o maior ag, temendo que a vtima desconfiasse de algo, pelo fato de no terem trazido um cavalo sobressalente para transport-lo.
- Na pressa, ns esquecemos de trazer o seu cavalo, companheiro. Mais na frente tem um bom de sela.
Como todo artista, o cowboy foi logo respondendo: No precisava, pois j j vo sobrar dois!.
Sacou o Colt e meteu um peteleco bem no meio da testa de cada um dos bandidos!
Nessa altura do filme, Z Amorim j suando a gola da camisa Volta ao Mundo, deu um pulo da cadeira e cheio de alegria gritou com sua voz de trovo: ita caboclo! J vou embora, Lazinho. Com a morte desses trs F.D. P., pra mim o filme j valeu o que paguei!...


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Por Raphael Reys - 28/2/2012 15:58:40
RUBENS, O COMANDANTE ROXO.

Embora a aparente nobreza do nome, o nosso heri torto, quase nada tinha em virtudes. Baixote, tampa de binga, branco cadavrico, pintado como surubim. Os cabelos eram revoltos e a mirada de sampaku. Olhos de peixe morto.
Criado nas sarjetas e becos da metrpole. Ex-policial civil, ex-informante e outras escusas atividades de corredor. Terminava sempre expurgado das funes, dado a sua verve bandida. Morvamos prximos. A maioria dos demais vizinhos o evitavam.
Quando policial era um mestre em forjar flagrantes para incriminar algum. Visado por muitos, usava um tresoito vela, nmero de srie raspado. Por ndole, era vingativo e dado a maldades, embora fosse chegado a poucos que o tratavam com considerao e ateno.
Da a nossa ligao ter sido cordial. Quando nos encontrvamos, trocvamos sempre dois dedos de prosa!
Ele era cobra das ruas, sabia das coisas, conhecia todo tipo de malandragem, um 171 urbano. Quando algum planejava executar algum crime de vingana contra um desafeto, consultava-lhe. Ele armava o modus operandi da ao criminosa, sugeria a rota de fuga, forjava o libi.
Por aderncia crmica, casou-se com uma cria das sarjetas. Ex-garota de programa, com longa ficha criminal e histrica exgeno. Agressiva e ousada. Foram morar com duas velhotas solteironas, tias da sua cara metade. Essas viviam de aposentadorias e aluguis de imveis localizados no centro da cidade.
Quando os dois estavam de cara cheia, proclamavam em alto e bom som, esperarem o dia em que as tias otrias batessem a caoleta. Eles ainda iam se dar bem!
Boca da noite, formava-se prximo a sua residncia um ajuntamento de usurios e nefitos da cannabis. Era a reunio da Santa Federao dos Diambeiros. O produto visado para consumo especial, um alcalide originrio do chamado Tringulo da Maldita e conhecido como diamba roxa.
Quando ia pintar algum lote no pedao, o Rubens era contratado para organizar e monitorar um grupo de at vinte utentes. Vestia a roupagem de comandante do barco da meia-noite. Traava a logstica do roteiro a ser seguido. Uma jornada arrepiante.
Formada a equipe, ele dava as palavras de ordem. Usava a avenida que beirava o Rio Parnaba, do lado maranhense, na vizinha cidade de Timon. Iniciava a rota quase sempre s 22 h. Como bom condutor, campeava o gado humano do cabeote trincado.
Como a droga dessa espcie produzia no usurio um efeito que durava em torno de oito horas, ele cuidava para que ningum se desgarrasse da trupe. Era o arcano da noite de fantasias.
Seis da matina, todos com o guengo j arejado, faziam a reentrada na capital pela ponte de ferro.
Ao bom estilo delivery, o capito da nau dos insensatos, entregava cada um dos seus comandados de porta em porta.


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Por Raphael Reys - 21/2/2012 19:19:19
CAF DA DAMIANA

O cmodo feito de adobe, coberto com rsticas e velhas telhas, em oposio s estruturas de alvenaria da modernidade. Fincado com o costado do Mercado do Cajueiro, rua So Joo, centro da Capital, em Teresina (PI). Mais parecia uma cmara de retificao dos Hades.
No lance interior e posto no vo central, havia uma mesa de madeira com cadeiras de metalon enroladas em espaguete de plstico. Onde se tomava as cinco da matina o cafezinho fumegante, uma boa dose de cachaa Mangueira com tira-gosto de siriguela, acompanhados com a mstica dos dois dedos de prosa.
esquerda, penducavam trs surradas redes nordestinas que serviam de cama para a trade de habitantes. A lder Damiana, sua irm gmea uni vitelina Cosmiana e o ancio seu Firmo. direita, um fumarento e improvisado fogo de lenha produzindo chamas e picums pendentes do teto. Um tambor de metal de 200 litros era o reservatrio da gua trazida do logradouro em potes, postos na rdia.
Tbuas sobre caixotes serviam de armrio e guarda-roupas. Quem do beco, assimila as configuraes do beco.
Chegadas metrpole nos idos da migrao dos anos 40, oriundas do interior campesino, com suas roupagens de inocncia e subserviente religiosidade, logo encontraram os arcanos das esquinas e quebradas da urbe panificadora. Foram logo induzidas a um lupanar da extica rua Paissandu.
Como tinham o temperamento recluso, assustadas fugiram da vida noturna. Montaram uma cobertura de palha em um lote vazio, chumbaram latas de 18 litros com barro e forjaram um fogo. Toscos bancos de madeira serviam de mesa e assento. Ganhavam a vida vendendo prato feito, pinga, refrigerantes e cervejas, postos em tambor com gelo e serragem.
Afetivas e cuidadosas com a nova clientela de mecnicos, operrios braais, pessoal do cas do rio Parnaba prximo, mariposas, cafetes, gente da fauna local. Logo algum instalou energia eltrica e comerciantes doaram uma geladeira alem.
Nos anos 90, na segunda morada nos Cajueiros, j h quarenta longos anos atendiam a feirantes, vizinhos, passantes e funcionrios da Secretaria de Segurana Pblica, vindos da Praa Saraiva.
Desde cedo j dava para saber, em primeira mo, das tragdias e desatinos da noite. Assim, vamos o nascer do inclemente sol dos trpicos escutando o trinado dos galos de campina em um viveiro prximo.


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Por Raphael Reys - 17/2/2012 10:07:03
DENO, ROUXINOL E AMARELO.

Batizado Loureno, Deno nasceu nas guas de maro, abenoado por So Jos e sob a proteo das almas ciganas. Um king curraleiro, filho do gnio da humanidade.
Cedo ainda, recebeu de sua av, a velha Belmira Rezadeira, benzees, contra-mandingas e as artes do catimb. A matriarca era filha de escravos livres, nascida no final da era dos oito, na Cachoeira do Jaguar. Bahia de todos os Orixs.
Intuitivo, logo percebeu que os animais domsticos falavam a sua prpria maneira. Bastava para isso, assuntar a sua linguagem corporal e a expresso dos olhos, janelas da alma.
Tinha o Amarelo, um co mestio de estimao que vivia na larga, a rolar na beira de currais e a lambuzar-se de lama nos crregos. Passava horas deitado no cho de terra batida da cozinha, na casa do patro, a escutar o pipoco das brasas e as chamas da madeira que queimava no fogo de lenha.
Vivia espreitando o gato manhoso que se aquecia nas cinzas do borralho e a escutar os dois dedos de prosa das comadres e compadres, sempre de caneca esmaltada na mo esperando um gole de caf modo no pilo e adoado com rapadura. Amarelo aprendera a sentir as intenes dos humanos pela janela dos seus olhos.
Deno era alma liberta das coisas e peias do mundo. Vivia mergulhado em seu universo interior. O barro do qual foi constitudo, fora avivado pelo vento doce do astro Taunay.
Sabia fazer reza catimbozeira, ficar oculto de algum, passar em chuva sem se molhar. Afugentava cobras, escorpies e marimbondos. Quando desafiado por algum menino desafeto rezava no pisado. O dito tropicava e batia as fuas no cho.
Assobiava e cachorro bravo vinha de mansinho lamber o couro das suas alpercatas.
Rouxinol, seu burrico branco, quase albino, mais parecia um unicrnio tupiniquim.
Aos onze anos, viajando pelas escarpas da Serra da Jaguatirica, em noite de chuva pesada, caiu em uma enorme fenda entre os paredes das rochas. O Cavaleiro da Lana Negra viera busc-lo. Ele havia terminado a sua misso na terra.
Com ele caram Rouxinol e Amarelo, que tambm estava na garupa. Bem que no dia anterior tivera um pressgio. Perdera a sua medalha de So Jos e o corao pediu-lhe que adiasse a viagem.
Deno, Rouxinol e Amarelo foram-se ajuntar boa alma da Belmira Rezadeira que cantava ponto na Roda de Aruanda, no Orculo de Oxal.


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Por Raphael Reys - 8/2/2012 08:09:38
O HERI DO BAIRRO SO JOS OU OS GUERREIOS DE AGAMENON

Nos nossos Montes Claros tem de tudo, no mnimo uma verso diferenciada dos fatos. Cidade plo, com populao constituda na sua maioria de gente oriunda de outras cidades do Norte de Minas, muitos vieram para construir o futuro, estudar em nossas escolas, faculdades, conseguir trabalho nas nossas indstrias e comrcio.
Como o mundo composto, tambm aqui chegaram alguns para fazer e falar de guerra. Falo de dois cidados que se apresentavam como ex-combatentes.
Um deles, pequeno proprietrio rural no municpio, movido pela alma da cachaa ingerida, pinta e porte de artista italiano, topete de gal, corpo musculoso. O outro, um magro amarelo por puro exerccio de bazfia, medroso e sensvel, construiu uma torre de marfim para nela se abrigar, defendendo-se dos males da vida.
O primeiro, no incio dos anos 80 a pinga curraleira levou para os Quintos dos Hades; o segundo mui digno profissional liberal, hoje j aos 93 anos, balanando na sua rede de varanda no Bairro So Jos vive contando as suas notveis faanhas na Segunda Grande Guerra Mundial.
O ex-combatente com pinta de artista (o primeiro citado), j saudoso, nos anos 70 frequentava restaurante de minha propriedade na Praa da Catedral (centro comercial). Quando chegava, a galera que bebia, fazia uma rodinha em volta, para sugar sua verve. Ele abria a caixa de ferramentas... Tome bala, tome baionetada em traseiro de comedor de chucrute!...
Caa dentro da bocada das trincheiras e matava adoidado os Hans e Fritz do Fhrer!
Como j havia adquirido habilidade na arte da narrativa, imitava teatralmente o som do matraquear das metralhadoras, o pipoco dos obuses e o ricochete das balas. Os aficionados faziam perguntas pertinentes para potencializar a ao. Dava gosto v-lo narrando.
Um dia chegou um chato de galocha, desses funcionrios de cartrio que vive com a cara cheia, invejoso com o sucesso do nosso guerreiro e o ameaou de processo por se apresentar, falsamente, como um herico ex-combatente. O heri sumiu do mapa.
O outro heri/agamenon de guerra, oriundo da campesina Pedra Azul, continua vivo entre ns e zangado, relatava que, como ardoroso combatente, mudava rumos de batalhas. No curso da guerra, no teatro de operaes, foi incorporado a um submarino da Marinha de Tio San, como operador de periscpio e, posteriormente, artilheiro de torpedos. Os seus disparos foram to certeiros que fez um enorme estrago na armada de Hitler. Segundo ele, a Gestapo, a terrvel polcia alem, seletivamente negociou atravs da Cruz Vermelha a libertao de duzentos prisioneiros aliados em troca dele, o Porreta Artilheiro Montes-clarense Roedor de Pequi, para que, simplesmente fosse mandado de volta terra do fruto amarelo, da Viriatinha, dos falsos ricos que andam de pernas abertas e da semntica libidinosa!
Complementada a negociao, e feita a troca, equilibrou-se a ao da Marinha do Eixo e a dos Aliados no palco das operaes martimas, e s assim a guerra no ficou pau a pau nos oceanos...
Ele ainda est por aqui entre ns, dando o seu passeio de leve no bairro, tranquilamente na sua cadeira de balano lubrificando o seu mosqueto Mauser de estimao, afiando a baioneta matadeira de alemo, contando os buracos de bala no seu capacete de ao e mostrando a lista de baixas produzidas graas a sua incrvel pontaria, alm dos nomes dos navios abatidos pelos torpedos por ele lanados. Por conta da sua competncia incomum, sempre acerta na mosca e, at hoje, estando no quintal da sua casa, para manter a forma, vez por outra abate um gavio que ousa fazer um rasante nos cus do Bairro So Jos...


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Por Raphael Reys - 2/2/2012 07:35:03
BOALIDADE

Reminiscncias extradas da nossa memria seletiva, a qual foi condicionada por manipulaes do marketing religioso; versando sobre os fatos geradores da morte e crucificao de Jesus o Cristo, e que retornam a minha mente estimulada pelos sentimentos despertados, pelo perodo da Semana Santa.
Os registros iniciaticos dos Essnios relatam que: o mal compreendido e impopular Judas Iscariotes era na verdade um guerrilheiro, e membro atuante da contra resistncia Judia. Um Maqui! Infiltrou-se aos seguidores de Jesus imaginando ser o mestre amado, um pretenso poltico com o objetivo de ser mesmo o rei dos Judeus.
Isso ocorreria com a queda das forcas de ocupao. Mas ao saber que, o mestre e o seu reino no eram deste mundo, fez o que faria qualquer quinta coluna: Partiu para a eliminao do empecilho, via delao. O que deu para a arvore deu tambm para o machado!
Idem, Idem, para Barrabs chefe da Contra-resitncia do brao armado e retaliador dos Judeus. Um Robim Wood de ento, que aps uma reunio ultima com os lideres Judeus, e informados do reino dos cus, ficou decepcionado. Foi usado no julgamento, estrategicamente. Visavam desestimular os seguidores de Jesus. Os romanos sabedores dos fatos estratgicos, o eliminaram.
Fizeram como fazem as autoridades polticas dominantes de qualquer tempo da historia. Manipulam os fatos e as informaes.
Ainda retrocedidos no tempo, e j nos Montes Claros de 1940, quando o nosso popular Leonel Beiro, que na poca chefiava a turma conhecida como, os Quebra Pau, unidade paramilitar montada para garantir a segurana da cidade, durante o perodo da Segunda Grande Guerra patrocinou a seguinte cena cmica.
A unidade, tornada ento retaliadora caava pelas ruas da cidade, de forma subjetiva (impulsionados pelo efeito da cachaa ingerida em demasia) e, impunemente, estrangeiros, quaisquer que fossem aqui residentes, ou mesmo de passagem, para interrog-los, j que certamente eram espies e entreg-los, a autoridade imaginaria e supostas.
Armados de faco, porretes e garruchas, os da patrulha, a portas do Hotel So Jose exigiam a descida de um hospede estrangeiro residente na casa. Era um caixeiro viajante de origem judia, que informado dos fatos, desceu ate a porta de peito aberto. E aqui vai o dialogo travado entre ele e Leonel Beiro:
Leonel (apontando garrucha) Tje preso!
Judeu - (sem entender, por estarem queles homens bbados) Por qu?
Leonel Caamos os inimigos dos Aliados!
Judeu - (pondo a mo no corao) Eu sou judeu e os meus patrcios esto sendo caados pelos Nazistas, os senhores deveriam ter vindo aqui para me prestar solidariedade. Nos tambm somos aliados!
Gaiato bbado (enquanto Leonel baixava a 380`) Foram os judeus que mataram Jesus!
Leonel (apontando novamente a garrucha) Tje preso!
Judeu - (estupefato) Mas isso foi h 1940 anos.
Leonel (garrucha em riste) No interessa, estou recebendo a queixa agora! Portanto acompanhe-me em nome da lei!
Este dilogo, que veio a fazer parte do folclore Montes-clarense, e por si s explica os efeitos do preconceito induzido mente por vias subliminares.


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Por Raphael Reys - 27/1/2012 09:19:11
ASSOVIANDO BOLERO

Cowan, 1979. Z Amorim, ento diretor da indstria cermica andava de um lado para outro no ptio, arrancando os fios dos cabelos, cheio de preocupaes. O forno contnuo estava parado h quinze dias. Produo zero, caixa em vermelho!
Uma engrenagem vital para o funcionamento do forno estava quebrada. A Retifica Unio avaliou o estrago e sugeriu enviar a mesma para So Paulo, onde havia mais recursos.
O Z andando pra l e pra c, no ptio da Cowan, quando recebe a visita de Tico Lopes, notando a cena de sofrimento procura ampara o amigo desolado.
Toma a cena e fala: calma, Z! D tempo ao tempo. Tudo vai se resolver. J que o prejuzo inevitvel relaxa e toma uma Viriatinha vai comer uma farofa de galinha caipira na Zinha, a em frente. Muda de ares e vai dar tudo certo!
Z, moralmente severo, olha acusatoriamente para o Tico, aquelas alturas meio hippie, vestindo calas jeans rasgadas e sentencia ao bom estilo Amorim-Curraleiro:
Eu no sei como voc no endoida seu F.D.P! Andando para cima e para baixo com essa bolsa de couro de homossexual pendurada tiracolo e cheia de fitinhas frescas. Cordozinhos atravessados e babilaques. Cabelo iii... e cheirando vodka.
Completando a sentena amorinciana o Z concli: Tem trinta e cinco pees h quinze dias assoviando bolero no ptio! Eu to lascado! E voc desfilando com essa bolsa viadeira!...
Tico leva o Z para passear no Mercado Municipal, visando desanuviar a cabea do homem de negcios. O Z sai procura de laranja flor, sua paixo. Logo depara com um bruaqueiro rebuando a beirada de um saco de aniagem cheio das laranjas.
Por cima do monte ensacado, trs laranjas descascadas e com o tampo superior cortado e pendente. Z arranca os tampos e, com avidez, suga as laranjas uma a uma deixando s a bucha. Ato seguinte cospe teatralmente os caroos retidos na sua boca, um a um, numa pontaria certeira, os lanando na lata de lixo.
O Tico pergunta trs vezes: T doce? Na quarta vez que pergunta, o Z responde: s falta uma mo de cinza e um tacho de cobre seu F.D.P!...


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Por Raphael Reys - 23/1/2012 13:53:26
CALA RASGADA

Diz Homero na Oitava Ilada que: Os deuses tecem infortnios para que s futuras geraes no falte o que contar!
Para que os negcios da Cermica Cowan andassem nos conformes, a empresria dona Clia Machado nomeou o mui digno Z Amorim gerente geral e deu-lhe a necessria carta branca para ele segurar as rdeas na cabeceira.
Mo de ferro, severo ao extremo embora de fino trato e at mesmo amvel com as pessoas, o Z no admitia nada fora dos eixos.
Certa tarde quente e com a baixada refrescada pelos ventos de agosto, uma forte rajada bateu abruptamente a porta do gabinete do Z travando a fechadura, tendo a chave cada do lado de dentro da sala estando o Z do lado de fora supervisionando a empresa.
Foi, nesta hora, chamado urgente pelo Tonim da Cowan, que informava estar patroa j nervosa, querendo, insistente e impacientemente falar com ele.
Como o aparelho telefnico de baquelita ficava dentro da sala do Z Amorim, Tonim, preocupado com o nervo da enfezadssima patroa, aulou o nosso Amorim que aflito, esbaforido, inventou de saltar pela alta janela para resolver a situao emergencial. Desajeitado, como sempre, e com o esforo inusitado, rompeu a costura dos fundilhos da cala, tornando explicitamente visvel a sua branca cueca da marca Torre.
Ao telefone, madame instruiu o Z para esper-la porta principal da cermica, pois logo mais passaria apressadamente de carro pela avenida, rumo ao Parque de Exposies e precisa falar-lhe. Que o Z a aguardasse de pronto, no ponto combinado como sem falta!
Estando com os fundilhos mostra o Z pregou o traseiro na cadeira do seu gabinete evitando o ridculo ao se levantar, e instruiu o Tonin receber e convencer a patroa a entrar, e diante do seu momentneo impedimento se dirigir at o seu gabinete.
Z Amorim sentadssimo na cadeira, eis que chega dona Clia que se postou em p, no centro da sala. Tonim e Fernando Cezar Amaral, de voyeurs, s assuntando, doidos para ver no que ia dar de hilrio. Estranhando que o seu gerente, sempre educado e solicito no a recebesse condignamente, no oferecendo nem ao menos uma cadeira para sua chefa tomar assento, ela chamou o Z no cur.
- Veja Z! Voc est estranho hoje! Plido, suando em bicas e com o traseiro pregado direto nessa cadeira! No me recebeu porta, como de costume, no me convidou para tomar assento e nem ofereceu a gua gelada e o cafezinho na bandeja de prata! Deu para ser mal educado, agora? Est andando com ms companhias? Nem de longe demonstra um comportamento que se espera de um filho de Pedro Montes Claros, um saudoso cavalheiro!
Tonim e Fernando se deliciavam com sorrisos irnicos pelo sufoco do amigo, o Z, mesmo com o traseiro desapetrechado. Suava frio, dona Clia no ia embora e o vento de agosto insistia em entrar pelos fundos da sua cala de linho S120 branco, feita pelo alfaiate J.Pandu (o Craque da Elegncia), ameaando expor vista e galhofa o cueco boto de presso!
No houve jeito! O Z teve que relatar o ocorrido e a patroa enviou o seu motorista at a casa do Z na Rua Altino de Freitas, no centro, para trazer uma cala reserva.
Essa nova pea, mais adequada, pois de tropical ingls, confeccionada pelo famoso Jerry Ronaldo, o Agulha de Ouro Frufru.


70127
Por Raphael Reys - 20/1/2012 10:31:34
CHOFER DE PRAA

Em meados de 1950, falava-se em chofer de praa e a profisso conferia status, j que o nmero de veculos em circulao pela urbe era reduzido e os profissionais de praa botavam banca!
O povo era pouco desenvolvido e andar de carro considerado quase viver uma aventura! Da, alguns chofers se tornaram verdadeiros don Juans. O fato se dava porque algumas senhoras casadas tradas, para se vingar dos maridos procuravam um chofer para faz-lo, dado mobilidade que o veculo conferia alm do natural e conveniente libi de tratar-se de uma passageira...
Predominavam os veculos importados, verdadeiras relquias do romantismo. Packard, com Elpdio Dourado, Ford Sedan, com David e Mrio, Oldsmobile com Geraldo Colares e Osvaldo Preto e Chevrolet, com Z Antnio.
Um Buick, com Jaime Estopa Suja e Jlio Antonio. O Ford Cup 46 de luxo, com Leopoldo. Depois veio G Sanfoneiro com seu Ford Preto e a paixo pela msica Asa Branca, cantada por Luiz Gonzaga.
Levando os nossos passageiros a passeio, sempre bem vestidos, dispunhamos, ainda, de Joo Brejeiro, com um Mercury, Lev Cheiroso e seu Sedan Chevrolet Passeio, alm de Marquinhos, Pedro Vieira, Hlio de Rocha, Z de Juca.
Havia, tambm, Jos Antnio, pai de Pedro Cantinflas, Zezinho Preto, Lev, Mrio Nortista, Ferreirinha com suas clicas de matar e Isauro, sempre muito alegre, que colecionava guarda-chuvas esquecidos e cantava Ave Maria em vez de buzina.
Alguns dirigiam caminhes, como o L -16, o V- 8 e o Bulldog.
Logo chegou a modernidade e Mariano era instrutor de direo, profisso que exerceu por cinqenta anos. A vieram os Aero Willys, as Rural Willys, Os Galaxies, os Simca Chambords, as Pick Ups, e os Renault Dauphines, apelidados de leite Glria, pois desmanchavam sem bater... Seguiram-se os Gordinis e seus 40 HP de emoo, poca em que a populao j tinha acesso a financiamentos e o chofer de praa passou a ser conhecido apenasmente como motorista de txi.
Dentre os instrutores de direo, destacavam-se ainda Alcebades e Moacir.
Quem conservava no capricho um carro romntico era Jair Amintas e sua Baratinha Alem. Dominguinhos Braga tinha um Impala, Oscar Gabriel o Cadillac Rabo de Peixe, Lev Daltro um Simca Chambord e Romeu o seu luxuoso Willys Itamaraty.
Aos demais chofers do passado, que no citamos por lapso de memria, ou por falta de espao, recebam aqui as nossas desculpas com carinhosa homenagem.


70110
Por Raphael Reys - 16/1/2012 09:11:24
171 DO VENTO QUENTE

O pastel, essa guloseima fantstica, nos foi trazido a este rinco tropical pelos nossos irmos portugueses, nos primrdios do sculo XVIII. Os espertos japoneses tomaram por conta mstica e se travestiram de chineses, criando, assim, um marketing para o produto.
Pastel tem de todo tipo, tamanho e sabor! Aqui nos Montes Claros, cidade plo do Norte de Minas na atualidade globalizada, o mais famoso o pastel curraleiro do Caf Galo, do empresrio e lobista Jadir Rodrigues.
O saudoso ex-alcide, Maro Ribeiro era um viciado em pastel. Quando estava no point, saboreava para mais de vinte, tomando cafezinho com leite!
A iguaria servida com todos os tipos de recheio, tamanhos, feitos com diversas modalidades de leos e frituras. Tem aquele grando, especial para enganar gulosos seletivos. Esse, o pastel 171, s tem tamanho e nenhuma qualidade.
Na minha infncia, as famlias serviam o pastelo. Assado ao forno em uma grande forma de alumnio e recheado com a mais autntica galinha caipira. Adorvamos e comamos de dar tristeza...
Como o matuto tido como cabra esperto e cheio de treitas, conforme a sabedoria popular enquanto enrola o cigarro de palha, pensa em como enganar um otrio boteniqueiro, no antigo Mercado Municipal, onde hoje se situa o Shopping Popular. L, o capiau aplicava na clientela.
Um deles, colocou um cartaz na entrada do seu bar. O reclame dizia que encontrasse recheio no pastel, ganhava um prmio em dinheiro, na hora, de 200 duzentos cruzeiros!
Como a populao dos anos 50 era ordeira, a palavra de um homem tinha o seu valor e fio de bigode servia de aval. Os inocentes, futuros logrados, faziam fila para degustar a iguaria recheada de vento quente.
O esperto comerciante, cujo nome omitirei, pois os familiares ainda vivos apresentam comportamento agressivo, encheu por muito tempo os bolsos de grana e a populao a pana de vento quente!
Como diz o dito popular que castigo pega malandro o pasteleiro passou a encher o pand de cachaa branquinha no ambiente de trabalho. E essa marvada no perdoa! Botou guenga por conta e passou a pagar rodadas de bebidas para amigos diletantes de copo e de cruz. A grana que entrava era tanta que chegou a se candidatar a cargo letivo
Morreu doido, bbado, asilado, pescoo descascando e ps inchados. Sozinho em uma cama nos fundos da sua nova espelunca!


70083
Por Raphael Reys - 10/1/2012 17:49:10
ALTA VELOCIDADE

Transcorria o ano de 1976 nos folclricos Montes Claros. Terminada a construo da BR 135, ainda sem a camada asfltica, e os acidentes se sucediam; dada poeira que se fazia, provocada pelo trnsito constante de veculos, indo e vindo rumo Capital. A imprudncia imperava, na emoo em se usar o novo.
Walduck preparara uma viagem a Belo Horizonte em uma caminhonete importada. O motorista escolhido fora Lincol Mesquita, conhecido corredor e maluco por emoes. Na ocasio insistiram em levar o Z Amorim, com o restante da turma para que a viagem e a estada na Capital fossem agradveis e divertidas.
Z recusava-se a ir, alegando que no viajava com doido no volante. A turma, entretanto j combinara em no ceder, e acabaram por lev-lo, mesmo contra a sua vontade, j que sabia do risco que se fazia numa viagem daquelas. Referindo-se a Linco, disse: Esse homem um horror! Um perigo para a vida de um pai de famlia! Amorim desconhecia que Lincol j houvera alterado o velocmetro do carro, para que na leitura, mostrasse uma velocidade superior a real, tudo no intuito de provocar medo no Z, que temia por correrias em estradas de terra.
Logo que saram da cidade, o velocmetro marcou cem quilmetros. Todos olhavam disfaradamente, e notaram j os primeiros sinais de contrao facial do Z. - Cento e vinte - algum falou, j provocando: Olha, Walduck, a velocidade desse carro, possvel isto numa estrada desta? . Os dedos do Z j penetravam no estofamento do banco, se agarrando. Cento e quarenta Veja Walduck, que absurdo este rapaz correndo! Walduck respondeu, - Eu j botei mais do que isto, e no aconteceu nada. O suor escorria pela testa do nosso saudoso Z, ensopando a camisa. Os seus ps, torcidos. Mordia os lbios! Mas permanecia calado! Cento e sessenta, disse algum - Este carro vai capotar. Walduck respondeu Eu, j botei cento e oitenta, e o bicho agentou!
As provocaes continuavam e o Z, glido de terror, suava as bicas, mas permanecia calado, evitando provocar os presentes, e os mesmos por inconseqncia, incentivarem ainda mais correria.
Veio a provocao final! - Walduck falou... Bota duzentos Linco que eu garanto! Se tiver problemas, eu aparo o cavaco! O Z explodiu!... - Manda botar trezentos, carroceiro! J estou vendo a manchete no Jornal do compadre Jair Oliveira. Empresrio morre na estrada que ajudou a construir! . Corpo de comerciante encontrado a cento e trinta metros do local do sinistro. Viva reconhece o cadver do marido, pela arcada dentria. . . Demais ocupantes, viram mingau.
Logo a seguir, tiveram que parar o carro. Ningum mais se agentou de tanto rir.
O resto da estada em Belo Horizonte foi uma tragicomdia. No conseguiram fazer nada. Era s lembrar do Z e rolar de rir...


70044
Por Raphael Reys - 4/1/2012 13:17:08
BICICLETA SUECA FAIADRA

Florianpolis, Ponte Pnsil, 1973. Linco Mesquita, ferido gravemente por disparo de arma de fogo de grosso calibre, em incidente de rua. Operado, por sorte, por uma equipe de especialistas que coincidentemente ministravam um Congresso Internacional de Cirurgia e Reconstituio na cidade.
O paciente em estado crtico, mas j teimosamente sentado cama. Ney Mesquita, seu pai, emocional como era, estava em depresso. Encorujado e chorando a um canto do quarto. Inconsolvel!
Recebe a visita inesperada de uma turma de montes-clarenses pesos pesado. Walduck Wanderley levou um magote de notvagos objetivando dar apoio moral e curraleiro ao amigo Ney. Dentre outros, o cavaleiro da verve Z Amorim, Dcio Cabeludo, Mamoeiro, Tio do Banco, Z Paraso, citando apenas os cabeceiras.
Por milagre de Deus, a turma compareceu sbria, em respeito gravidade do quadro apresentado. Sentados, decentemente, ao lado do convalescente pitombado, quando uma tremenda loura, a Miss Santa Catarina, namorada da feliz vtima, deu entrada no quarto vestindo uma curtssima mini-saia. Modelo Mary Quant, o chique da poca!
Moda quente que expunha as suas calibradas coxas. A todo o momento abaixava-se, para limpar a secreo que saia do nariz do namorado, ocasio em que deixava mostra a calcinha, vista dos demais.
Exibia o seu volumoso traseiro modelo Deustschland, o que era apreciado com gosto pelo esquadro de raparigueiros presentes. Ney, alheio cena ertica, chorava copiosamente, quando Z Amorim o chamou a um canto da sala, mas ainda ao alcance dos ouvidos atentos de Walduck.
Buscando consolar o depressivo, o nosso Z, filsofo da vida e psiclogo das fatalidades do cotidiano, falou: para de chorar Ney! Esse fiduma gua do seu filho no vai morrer no! Ele tem o corpo fechado! Deixa de chorar e aprecie o panorama dessa bunda branca sua frente, caboclo! Se esse cara tivesse que morrer, j tinha morrido. Bala dundun mata na hora.
Continuou a terapia de consolao, mantendo a mo sobre o ombro do choroso pai da vtima: Desanuvia a cabea homem! Quando voc chegar a Montes Claros compra uma bicicleta sueca faiadra, daquelas com problema na corrente e na catraca.
Concluiu as observaes falando: toda vez que voc lembrar da pitombada que esse animal levou e do panorama dessa bunda branca, suba a ladeira do Alto So Joo com a bicicleta chiando rock... catrak...vupt...catrak...corrot...catrakt! Escorregando o pedal, faindo e voc suando frio!
Respirou teatralmente como um ator de estdio curraleiro e concluiu a seo de psicologia aplicada, suspirando fundo abrindo os braos espaosamente e sentenciando: quando voc chegar ao Parque de Exposies, j ter esquecido a pitombada deste fiduma gua presepeiro. Vai se lembrar somente do panorama desse traseiro alemo, que est balanando pra l, e pra c!


69943
Por Raphael Reys - 26/12/2011 08:30:21
TBUA DE PIRULITO

Transcorria o ano de 1956, e o saudoso comerciante, o popular Z Amorim, o mais notvel e elegante da estirpe Amorim, resolveu fazer parte da turma de rapazes que aquela poca usava possantes e grandes motos importadas.
Da galera de ento, Heber Rgo e o prprio Z, Carrim e Luiz Benhur, Sargento Moura do TG 87, Jos Maria Relojoeiro, Jlio e Waldim. Cavaleiros da terra de Figueira que usavam motos BSA, ROYAL, e JAWA,
Z como era caprichoso, desmontou a sua moto e mandou cromar as partes metlicas na oficina Niquelagem de Joo. Aproveitou e mandou dar acabamento nos puxadores e esquadrias das janelas da sua casa paterna.
Terminada a empreitada e estando tudo nos trinques, encomendou ao Baiano Branco oxidar o seu Colt Cavalinho 38, ficando, assim, como rezava a moda masculina da poca do Romantismo.
Passado trinta dias e depois de seis idas e vindas empresa niqueladora, o Baiano, entregue ao doce ofcio de tomar todas as cachaas Viriatinhas que encontrasse, enrolava o Z, dizendo: volta amanh que estar pronta e no enche o saco!
Numa tarde ensolarada de um dia de co, Z entrou na niquelagem pisando alto, suando as bicas, com o colarinho da camisa Volta ao Mundo ensopado e a jugular prestes a estourar e falou: volto amanh s 16 horas seu gamb. Se o revlver no estiver pronto, voc vai se ter comigo. Aps a sentena saiu batendo os ps no assoalho.
No dia e hora marcados, o Z entrou e, batendo com a mo no balco de encomendas disse: estou aqui caboclo! Cad meu pau de fogo oxidado! Baiano Branco que naquele dia havia extrapolado nas doses de cachaa, j com o pand cheio, respondeu: espera um pouco, seu apressadinho!
Sem que o Z o visse, levou as seis balas 38 no torno, extraiu as cabeas com um alicate, diminuiu consideravelmente a plvora da munio, apertou a entrada com uma fita, municiou a arma e, em seguida saindo ao salo falou, j apontando o trabuco carregado com balas de festim para o assustado Z: toma aqui seu apressadinho desaforado!
Disparou os seis tiros no apressado. O Z caiu esticado no salo, e enquanto os presentes gritavam: Baiano matou o Z Amorim! O Z s conseguiu balbuciar: Minha boca est embolando o cuspe!
O nosso heri quando viu que ainda no havia morrido, saiu s pressas em direo sua casa, entrou correndo e vista da me, abriu a camisa teatralmente arrancando os botes de madreprola e exclamou novamente: me fizeram de tbua de pirulito mame, olhe s a bagaceira!


69891
Por Raphael Reys - 19/12/2011 13:58:14
UM CLIMA DE CAVALO MANSO

3h30, finalmente saio do leito aps uma noite insone. Vagando com o fluxo do Euripo, em uma transio entre os atributos da mente de viglia e os atalhos do inconsciente freudiano. Cai sobre a nossa urbe uma chuvinha fina e curraleira.
A aura do esprito natalino cria corpo de fraternidade universal, nesse mundo de coraes partidos. Sopram os primeiros ventos benfazejos para aliviar as angstias dos entes humanos.
Plugado ao fone de ouvido, escuto Koko Taylor em um dueto com BB King em Someting You Got. As espirais do metal ferido comprimem o meu emocional e do um ritmo de cavalo manso. Tudo fica como dantes no Quartel de Abrantes!
Os arcanjos aproveitam o tempo de amor universal que paira sob a terra e emitem os seus mantras e sopram um vento suave com cheiro de flor de marcela. Como a vida bipolar; Lusbel, o Esplendoroso, um arcanjo decado e usando o seu livre arbtrio, planeja nos seus boqueires magnticos tomar de assalto o nosso planeta.
O Ebanon 636, Terra. Mundo experimental e de atualizaes das almas criadas. Inaugura mais uma faculdade para ensinar sofismas polticos e aprimorar a arte da heurstica. Visa com isso influenciar a mente dos mandatrios da banda podre que usam a mdia para lavagem cerebral dos ouvintes incautos.
A Festa do Pequi traz um pouco de alegria e incita os nossos sucos gstricos!
As hostes da abnegada Legio de Maria passaram a noite em misso socorrista. Amparavam os oprimidos, deprimidos, desamparados, carentes de amor e demais infelizes desse mundo globalizado. Todos eles so filhos do mesmo Deus.
O crack, barato sinttico, ameaa dominar o quengo mole dos humanos. Os Homens de Negro, na contraparte da fora, sorriem s bandeiras despregadas da escravido mental produzida pela mdia marrom. Estilo Macunama.
O Hades continua profundo e em crculos. L, no fundo profundo, tripudia no portal uma bandeira com os dizeres: o estandarte do inferno avana!


69863
Por Raphael Reys - 16/12/2011 10:12:30
UM CLIMA DE CAVALO MANSO

3h30, finalmente saio do leito aps uma noite insone. Vagando com o fluxo do Euripo, em uma transio entre os atributos da mente de viglia e os atalhos do inconsciente freudiano. Cai sobre a nossa urbe uma chuvinha fina e curraleira.
A aura do esprito natalino cria corpo de fraternidade universal, nesse mundo de coraes partidos. Sopram os primeiros ventos benfazejos para aliviar as angstias dos entes humanos.
Plugado ao fone de ouvido, escuto Koko Taylor em um dueto com BB King em Someting You Got. As espirais do metal ferido comprimem o meu emocional e do um ritmo de cavalo manso. Tudo fica como dantes no Quartel de Abrantes!
Os arcanjos aproveitam o tempo de amor universal que paira sob a terra e emitem os seus mantras e sopram um vento suave com cheiro de flor de marcela. Como a vida bipolar; Lusbel, o Esplendoroso, um arcanjo decado e usando o seu livre arbtrio, planeja nos seus boqueires magnticos tomar de assalto o nosso planeta.
O Ebanon 636, Terra. Mundo experimental e de atualizaes das almas criadas. Inaugura mais uma faculdade para ensinar sofismas polticos e aprimorar a arte da heurstica. Visa com isso influenciar a mente dos mandatrios da banda podre que usam a mdia para lavagem cerebral dos ouvintes incautos.
A Festa do Pequi traz um pouco de alegria e incita os nossos sucos gstricos!
As hostes da abnegada Legio de Maria passaram a noite em misso socorrista. Amparavam os oprimidos, deprimidos, desamparados, carentes de amor e demais infelizes desse mundo globalizado. Todos eles so filhos do mesmo Deus.
O crack, barato sinttico, ameaa dominar o quengo mole dos humanos. Os Homens de Negro, na contraparte da fora, sorriem s bandeiras despregadas da escravido mental produzida pela mdia marrom. Estilo Macunama.
O Hades continua profundo e em crculos. L, no fundo profundo, tripudia no portal uma bandeira com os dizeres: o estandarte do inferno avana!


69785
Por Raphael Reys - 7/12/2011 09:02:34
BALCO DO BAR DO CAPA V

Na manh de hoje se faz um clima romntico. Chuvinha fina, entremeada de um sol malemolengo, com o baticum frentico das motos, verdadeiros cavalos de ao urbano que estrepitam suas ferraduras em um curso frentico de Rolerball. Chegam os primeiros notvagos do dia neste outono ainda imprevisvel.
Z do Gs, bomio habitual, trs uma gamela com ovos cozidos. Quebra as primeiras doses de branquinha desdobrada e se espocam as borbulhas das louras espumantes e batizadas. A emoo como um barril sem fundo: jamais se encher.
Em espirais metlicas, Roberto Carlos canta os males do amor. A galera l e comenta os tablides dos peridicos com manchetes de corruptos, modelos femininas venda e muita tragdia de suburbanos e minorias raciais.
No trecho onde se situa o Bar do Capa, surge a primeira moradora de rua exalando bodum, lcool e desespero. So os arcanos e duendes da modernidade globalizada. O planeta gira doidamente, a lusitana roda em seu sincronismo dervixe e os arcanos negociam o nosso carma no Tribunal de Aragana!
A bebida inebria os sentimentos e expele supostamente os ratos que habitam os esgotos do nosso inconsciente freudiano.
De mo em mo circulam as primeiras notas de cinqenta reais recebidas na tarde anterior pelos pedreiros, mecnicos e demais oficiais artfice da prestao de servio. Compram po, leite, macarro, carne e tomam cachaa batizada.
Semblantes se descontraem. H um sofrer sem se dar conta e um dej vu oculto no inconsiderado. Celulares tocam em expressivas espirais metlicas irrompendo no inslito, enquanto trinados digitais imitam pssaros j quase extintos.
Chegam as entregas de mercadoria oriunda dos armazns de atacado em clima de cavalo morno. Avs passam carregando os netos para a escola e compram pacotes de alimentos industrializados.
Ninfetas com seus blue jeans e seus sonhos de trabalho e formao escolar passam pelo passeio.
Haroldo do Destak, chegado pela madrugada, vindo da Bahia de Todos os Orixs vem prestar cumprimentos a amigos de copo e de cruz. Avalia a bitola fsica de cada um dos presentes e nos brinda com a sua verve.
Espirais de fumaa, vindas de cigarros Paraguay trazem o cheiro da qumica mortal.
Bacana toma a sua segunda dose do dia e cochila no balco, pescando uma piaba no grande rio do sono.
Pelo fone de ouvido, amorteo a minha alma plstica com o som de Koko Taylor cantando All Your Love. Um doce e urbano lamento vestido com a alma negra do blues...


69714
Por Raphael Reys - 28/11/2011 09:46:56
BALCO DO BAR DO CAPA IV

No bar, com seu universo de puro encantamento, tudo e todos se planificam. Sexta feira de manh chuvosa, clima de final de semana, Z do Gs chega e diz para o jornalista Reginauro Silva, que clicava os personagens do pedao: Sonho com voc quase todos os dias!
Capa, atrs do balco, pergunta na bucha: E, por acaso, Reginauro marca de cachaa? Vaguim pega o maior porre, cambaleia penducando o equilbrio e os boteniqueiros o conduzem na sua bicicleta dando uma de transbebum. a Fraternidade das Santas Almas do Boteco...
A Rdio 93 FM toca Cabedal em Flor e os donos de cabeas de touro do pedao tomam mais uma das desdobradas P de Cova e Pra Preta, ambas fubuias dos alambiques de tronco com gamb do povoado de Ermidinha.
Danilim Pisca ingere a primeira do dia, estala os dedos e diz: Senti firmeza! Logo fica tonto e sai relando a pintura da parede. Rodolfo Reprter esquece o envelope no batente da porta e Edmilsom Peneiro d uma de enfermeiro fazendo um curativo com papel higinico e fita adesiva no Show de Gole, que caiu e relou o brao.
A galera do bar combina um amistoso de futebol no campo do Ferro, contra a galera do Bar do Preto do Joo, logo ali perto na Avenida Bomfim. Para reforar o plantel a turma do Preto contrata Z Gota, Soin, Z Pereba e Nilsinho Bagao.
O vidraceiro Tafarel surge com sua recente careca usando um bon com pastilhas de espelho. Todo translcido! Geraldo toma vrias fubuias, fica tonto, se abraa a uma garrafa de licor de pequi e sentencia: Vou beber dessa aqui agora!
Como o salo do boteco palco de vividas tragdias e comdias, Ro Besouro abre a sua caixa de ferramentas. Atormentado pelos males do amor, tirado a imitar Zez de Camargo canta a toda altura: o am!...
Emboramente o enlevo de tanto romantismo, R abre demais a boca, a dentadura lhe cai no cho e ainda empena a haste!
Assim, no h tatu que agente, n gente?...


69690
Por Raphael Reys - 25/11/2011 10:45:36
RITOS DE PASSAGEM... RELATRIO FINAL!

Como o canto do cisne mavioso e longo, vai a o relatrio final dos meus j badalado Ritos de Passagem.
O retrato na lpide de mrmore carrara ser um pop art feito pela blondi Letcia Laz.
A terapeuta Maristela Kosinski, que tem uma anja de guarda polaca, far o ensaio sobre a minha personalidade, ressaltando o trao emocional e a minha queda por mulheres de olhos mgicos. A poetisa Dris Arajo far um performance declamando os meus ritos.
O escritor e poeta Felippe Prates, o querido amigo do peito, meu guru e mestre/literato, um globtroter, com o seu grande corao de Rei Lear far a crnica daquele momento, recheada de emocionalidade e dando uma bronca! O jornalista Paulinho Narciso, olhar para o cenrio tupiniquim e dir, ao seu jeito: isso mesmo, esse menino?
Um bolacho de acetato com Roberto Carlos cantando Canzone per te. Para que possa me trazer a recordao daquela morena capricorniana que deflagrou as minhas emoes
A escritora Karla Celene com a sua graa e leveza danar no salo um pas de deux com a sua alma gmea Roberto, e o maestro Armnio Graa executando no piano de cauda O Bolero de Ravel.
s guenguenzagens postas dentro do caixo de quinta categoria, que, de tanto peso j corre o risco de soltar o fundo, se acrescente ainda uma reza catimb, de linha branca de Me Maria de Cod.
A presena do renegado Chiquinho Soldado, um paraibano acunhado, desertor das fileiras da PM, companheiro de viagens em servio pelas tantas quebradas do Maranho, Piau. Passamos e escapamos de trizidelas de estrada; alegrias bebendo cachaa Mangueira e tiquira, aplicando quiriquitas em bares e lupanares, danando forr, contando bravatas. Sorrindo a bandeira despregada!
Afinal, a alma serve mesmo para os vos dos andares da vida!
O mestre Luiz Federal do Cajueiro (se ainda estiver nesse mundo doido), com a sua verve de contador de causos e relatando as suas aventuras pela Terra de Iracema, regio onde as mulheres mantm acesa a libido mesmo depois dos sessenta na radiola.
A presena de uma lavadeira de roupas do Barra do Corda, no Maranho, gigantes de bano descendentes da Me frica, com seus olhos azuis, resultado da miscigenao de negro, ndio, franceses e holandeses. Um verdadeiro encanto extico e tropical na Terra de Macunama.
E por cima da fuleiragem, botem um balaio com cagaita, marmelada de cachorro, pan, gabiroba, ara, um tijolo de doce de buriti, outro de casca de laranja e uma caixa de fsforos cheia de carrapatos daqueles pequenos s para recordar da verve libidinosa do saudoso topgrafo Z Sales (o devagar) e suas invenes erticas.
Ele despejava os carrapatos na sua pele e pedia a parceira para catar um por um.


69648
Por Raphael Reys - 21/11/2011 11:00:29
171 PSSARO PRETO

Padre D`Ontonho, cabelos alourados j grisalhos, pinta de artista italiano, era filho de me baiana de Nazar da Farinha e pai marinheiro alemo escorraado, desses que deixavam um filho em cada porto.
D`Ontonho, fora criado nas cercanias do Mercado Modelo, cenrio farto de aprendizado de 171, chavetas e contra-chavetas urbanas.
Quando novo de batina, era o terror das alcovas das suburbanas mal amadas. Como deitava e rolava nos lenis, criou m fama. O Senhor Bispo o transferia de urbe para urbe, visando lhe dar canseira. Terminou indo, em definitivo, para o povoado de Amargosa, um interior bravo.
Logo que criou corpo, tirou da caixa de ferramentas o 171 emprestado. Diariamente aplicava a dois fieis, ovelhas selecionadas abastadas, a igual quantia de cinquenta cruzeiros em cada um. Na mais pura giriguitazem baiana!
Na hora do golpe, chegava na presso, com a bblia debaixo do brao e ia logo aplicando o bate seco: Compadre! O senhor tem duas de cinqenta para trocar por uma de cem? Na ocasio da aplicao do ag levava a mo cheia de anis ao bolso, para que a vtima presumisse que l estava o dinheiro.
O pato trazia as duas clulas de cinquenta, ele apanhava uma s e dizia: Olha! Mudei de idia. No vou mais precisar trocar! Vou levar s esta perna e, logo amanh, te devolvo!
Amarrava no rabo do veado e adeus, neca de pitibiribas!...
Com essa operao, amealhava diariamente em torno de cem reais, direto para a sua poupana, lhe rendendo uns trs mil reais por ms.
Posudo e metido a juiz, dava uma de conciliador entre partes adversas. Aplicava a lei do perdo para ambos e cobrava do devedor, ou do autor, uma quantia por ter evitado demanda judicial!
Man de Juca, enrolado por um rabo de saia campesino e estando cado de bolso, aplicou em uma rs de um vizinho. Vendeu o produto do furto para o aougueiro e gastou a grana em presentes e adulos para sua prenda.
Como a noite tem mil olhos e mil ouvidos, o mal feito caiu na boca pequena. D`Ontonho chamou o malfeitor na igreja e exigiu que o mesmo se declarasse culpado perante todos os fieis presentes, inclusive o fazendeiro lesado. Alegou que, assim feito, Deus o perdoaria, alm da urbe e do lesado.
Na missa de domingo, na hora do sermo, Man j pronto para fazer a sua confisso, de esguelha viu o cabo e os trs soldados do destacamento local entrando sorrateiramente paisana. Logo sacou que o padre havia vendido a sua rendio para puxar o saco do fazendeiro.
Acontece que no banco sua frente estavam sentadas trs crianas do cabelo alourado. Ergueu a voz e disse, bem claro: Gente, o padre DOntonho me pediu que eu fizesse uma confisso em pblico, e em seu nome e que s assim ele seria perdoado. Esses meninos galegos aqui na minha frente so filhos dele!
Armada a confuso, enquanto o pau comia na igreja de D`Ontonho, Man deu no p, gramando o beco!


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Por Raphael Reys - 15/11/2011 10:21:53
RITOS DE PASSAGEM... COMPLEMENTO

Dado exiguidade de espao na minha crnica Ritos de Passagem, publicada recentemente na mdia local, em que trato do meu projetado e alegre funeral, redigi este complemento.
Naquela oportunidade, pretendo ser clicado pela suave Silvana Mameluque, pois s ela sabe tirar um pedao das almas dos que so focados. Ento, j serei um de cujus e o meu espectro emocional estar vagando alhures em frente ao portal de Dite, nos Hades, bradando: vs que aqui estais, perdei todas as esperanas!
Que se acrescente ao fundo do atade, transformado em pequena biblioteca funrea/ambulante, o monumental Grande Gatsby. As cartas do Apstolo Paulo s comunidades, um exemplar do Zend Avesta, o Livro Tibetano dos Mortos (que ser apenasmente o meu GPS na jornada zinftica) e Inocncia, de Taunay.
Transcries de poemas de Florisbela Spanka; o Vestido de Noiva, do anjo pornogrfico Nelson Rodrigues. Uma Kata curta de samurai da dinastia Odo (estive encarnado na poca, por l).
O meu Radar de Stimo, do Povo Jaguar. A almofada do Sekinah do Orculo, onde, de joelhos e sob a presso da ponta da espada do Hierofante apontada contra o meu peito proferi o juramento de honra e recebi o meu nome inicitico a palavra de passe da Legio de Benefactor.
O clip que os Equitumans implantaram na minha arcada dentria e a bala 44 amassada no boto de ao da jaqueta do blue jeans, posto ali graas intuio de minha me saudosa e que desviou a trajetria do impacto do que seria a minha morte fsica. A fantasia transparente de Bruxinha Malvada que aquela blond boazuda usou na nossa primeira noite de luxrias tropicais...
Como sou epidrmico e sensvel, um acetato de Mercedes Soza cantando Volver a los dezessete. Um dvd de Ernesto Borgaine interpretado em 11 Minutos. Gerinha Portugus narrando as sua valentias e bazfias. Presentes ao extico e libertrio evento, quero o sorriso doce e a aura de encantamento da artista plstica Felicidade Patrocnio.
O compositor e roqueiro Eltomar Santoro, cheio de gor, abraado ao nosso poeta urbano Aroldo Pereira, mestre e mentor do Psiu Potico, cantando a saga das Damas do Bonfim, a nova verso do pico dos lupanares. Uma garrafa de Jack Daniels, uma gua tnica de quinino com limo curraleiro e cubos de gelo de cco verde...
De Teresina, capital do Piau, viro Gda de Federal e Carimb Maluco, mestres benzefalas e Capites da Guarda do Congo, para fazerem a percusso de Aquarela Brasileira. Eles aparam qualquer cavaco no coro do tambor. E que tragam na bagagem Jean Cantor, um bebum que comps a msica enredo da Escola de Samba Unidos da So Joo, onde foi homenageado como O Mineiro do Cajueiro.
Reinaldo Sanchez tirando espirais sonoras em blues de um pedao de cano galvanizado, preso concha de uma das mos.
E para marcar a lembrana da primeira peruca de touro que recebi de uma namorada no calor dos meus dezessete anos, na Fazenda Cabeceiras a msica de Lenon e Llian que, desolado, cantei sob a tenda da amplido:
Rasgue as minhas cartas e/no me procure mais/assim ser melhor meu bem/o retrato que lhe dei/a inda tens eu sei/mas se quiser... devolva me/deixe me sozinho/por que assim/eu viverei em paz...
Nada como recordar um infortnio...
Gravada a fogo na lpide de mrmore Carrara, a transcrio do e-mail que a minha musa me enviou enchendo-me de prazer... Psciano considere-se um homem de sorte. Voc acertou o meu lado doce de mulher e de luxria...
Isso dito, sacramentou-se ad perpetum o meu savoir faire et vivre com a difcil alma das mulheres e seus interiores, plenos de desconhecidos e surpreendentes oceanos de pura magia!



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Por Raphael Reys - 11/11/2011 07:58:08
OS MGICOS OLHOS E AS CORES DE CONCEIO MELO

Serafins do Quarto Cu de Beatrice espargiam prana sobre as alegres cores da mostra da artstica plstica, no Centro Cultural Hermes de Paula. Pura feminilidade, ventos em Astro Taunay, tons que lembram a mstica de Matisse. A mestra vestia um quase transparente negro com variaes de verde folha.
Um arrepio! Um luxo sobre aquele manequim escultural, um contentamento e os mistrios de mulher revelados nas suas telas.
Ela, como uma deidade do Olimpo, com a sua doce alma refletida atravs dos seus bonitos olhos. Um universo translcido em fractais. Deus-Pai em sua onipotncia, ao criar as mulheres belas e as artistas no seu Nicho de Nodim, na fronteira de Manifesto com o Imanifesto, s vezes exagera e propicia uma overdose. E viva o delrio dos urbanos!
Os presentes e eu, um vil mortal de alma bandida sorvendo o instante embriagador proporcionado pelo Joy de Vivre da musa sagitariana e sua mostra de arte.
Um magnetismo no salo de eventos com lindas mulheres enviadas pelos arcanos da arte, elegantes senhoras, celebridades, higt soaite e a gerao po com cocada enchendo tudo de vitalidade. Um colrio para os olhos e um descanso para nossos coraes.
Dos orculos de Mercrio, veio jornalista Angelina Antunes, um sonho de morena, a aura de encanto de Silvana Mameluque que clicava tudo, tirando um pedao das nossas almas. Luiz Carlos Novaes, senhora e filha, de chapu e sem suspensrios.
Do portal das artes plsticas no Norte de Minas foram enviados Carlos Muniz, Felicidade Patrocnio (risonha e lmpida), Afonso Belo - de suspensrios e chapu mafioso- e outros cones. Belezuras PO se fizeram presentes.
Dona Yvone Silveira, presidenta da Academia Montes-Clarense de Letras, a matriarca e hierofante de todos ns. Os escritores Petrnio Braz e senhora, Mara Narciso e filho com sua aura de bem com a vida, Karla Celene e a sua alma gmea, Roberto. Outros mais estiveram an passant.
O elegante jornalista Joo Jorge e o seu sorriso de pura bondade distribuindo alegria para todos e apresentando a mostra. Presente tambm o decano dos jornalistas montes-clarenses, Magnus Medeiros e a sua nobreza de corao.
O escritor e poeta Aroldo Pereira, mentor do Psiu Potico e o compositor e roqueiro Eltomar Santoro, o mestre que cantou a saga das Damas do Bonfim.
O salo fervilhava de colecionadores, donos de galeria de arte, compradores. Tudo o que a Conceio Melo produz vira ouro.
Durante a notvel mostra da artista, os Cus de Yemanj deram um banho de fina chuva benfazeja na terra de Figueira o que potencializou a doura do evento.
Fui clicado tte-a-tte com o rosto coladinho face de beleza clssica da artista e prximo as janelas translcidas, portal de um oceano onde quem ousar mergulhar, far uma viagem sem volta.
E viva essa diva dos olhos mgicos!


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Por Raphael Reys - 3/11/2011 09:06:07
TERCEIRO ALMOO CURRRALEIRO

Com o Restaurante La Traviata em tarde de glamour, a Praa Savassi, sofrendo reformas e uma romntica e fina poeira nos fazendo dar espirros. Nossos coraes fibrilando em frenesi e a juno da galera da Repblica do Pequisto e as feras urbanizadas das Alterosas.
Santos anjos campesinos de barro torpe e filhos do drago que cospem fogo! Na egrgora da descontrao 9/16 PO, Coronel Tininho com sua doce Carine, o casal 20, Chico Ornellas e Raquel com seu panam. Cynthia Bernis, a sardenta dos mgicos olhos azuis, paramentada pelo gostoso do pequi, Eduardo Lima e pelo seu ex Ademir Fialho. Ela chegou escorrendo gotculas de chuva pelo seu pescoo venuziano.
Paulinho Priquitinho, o sumido, elegantemente vestido, o escritor Leonardo Campos, o melhor especialista em louras poposudas da terra de Figueira. Os jornalistas Tio Martins do Hoje em Dia com a Genoveva Ruisdias, velhos amigos do Gatos e Gatas.
A Mulher ao Avesso, a escritora Cludio Cardoso com seu olhar magntico e sua doura, assim como Leonardo, autografando suas obras. O chame explosivo da musa Vera Rita, com o seu sorriso capricorniano de rasgar a alma. Ela tem overdose de paixo pela vida e pelo amor. En Passan, e com sua mirada de fada tropical, Cludia, irm de Murilo Antunes.
Ausentes de corpo, porm presentes em esprito Mary Alckmin, Tomm Maia. Quase chegaram Waldemar Euzbio com Renata Pelatti, Murilo no foi avisado e o escritor Augusto Bala Doce, molhando os seus documentos ntimos nas salgadas guas da Bahia de Todos os Santos.
Das montanhas geladas da Cortina Dmpezzo na Itlia e em espirais sonoras pelo telefone, Fernanda Belotti com seu sorriso que cura todos os males.
O scothc rolou, o Romozinho da Savassi foi liberado e a galera picou o pau. Dois dedos de literatura, cultura! Camos na larga do mundo e falamos at da vida alheia que da conta de Raimunda e todo mundo. Falamos de alcovas e mesmo de sexo explcito. Na mesa tinha trs especialistas prticos...
Falei da beleza do texto da escritora Mara Narciso. Sorrimos bandeira despregada, libertamos os bichos que estavam escondidos nos pores do inconsciente quixotesco. Fluram narrativas impublicveis.
Deu coceira na libido da roa e a foram relatados velhos amores. Corpos se buscavam em amplexos e sculos midos de puro contentamento. Rolaram qumicas de novos amores, todo mundo abraou e beijou todo mundo. Uma puta fraternidade dos roedores de pequi e os bichos urbanos.
Recebi o selinho mais desejado da minha vida e sa pisando em ovos! Posto que o amor, apesar de ser infinito chama. O prximo ser no fim de novembro.
Quero morrer doce!


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Por Raphael Reys - 27/10/2011 08:40:00
RITOS DE PASSAGEM

Quando eu finalmente deixar este mundo bipolar, concluda em parte, ou em seu todo a minha misso, quero de sentinela no velrio uma comitiva de amigos diletantes e lindas mulheres...
Paulinho Relojoeiro, o globtrotter do Quarteiro, com seu indefectvel rgo eletrnico de quinta categoria executando a sua composio maior Li, Li, Li, na verso ingls e cantando com voz amacarronada, S para ironizar a dita morte to temida...
O notvel escritor Augusto Vieira Neto, vindo das Alterosas, suando muito, a relatar a nossa ltima farra na noite belo-horizontina. As noitadas de tango que curtimos na Boate Papillon, com as Mariposas da Noite. E que deposite no atade uma garrafa de Viriatinha, das antigas...
Presente Tico Lopes, o venervel mestre benzefala, imitando respectivamente, Z Amorim e Joanir Maurcio, dobrado sob peso do trabuco na cintura. E que fale tambm de Daro Cabeludo e comande um lundu com a participao de todos os presentes...
Um cco de Zezinho da Viola, Samys Dave Junior sapateando a operata Porgy and Bess, Virgnia de Paula, uma bruxa charmosa, a relatar e lamentar que eu era um ser trgico e infantil... O poeta Felippe Prates, gentil, alardeando as minhas qualidades literrias...
Quero um carto com uma mancha do batom carmesim da jornalista Genoveva Ruys e que esteja apenas escrito... Ele era lacnico! Uma lingerie negra de algum que no direi o nome, puro encantamento, de quem mereci e a mim me dedicou um enorme carinho, enchendo a minha pobre alma de absoluto contentamento!...
Estarei usando uma camisa Prist listrada, um Sumer de linho S120 branco, sapato Sacatamachia de verniz e no bolso um leno de organdi, tocado pela fragncia do perfume Amariage, de Givenchy, usado por Letcia. Insisto, que haja, na ocasio, a presena de vrias lindas e charmosas mulheres...
Os olhos azuis de Cynthia Bernis, a expresso magntica e embriagadora de Cludia Cardoso, a misteriosa mirada de Denise, as fantsticas janelas da alma de Conceio Melo e de Mrcia Prates...
Flavo Andrade na cabeceira da mesa de comando da Rdio www.pequi.net, executando a trilha sonora das exquias em espirais metlicas. O solo da bateria de Sinatra em Homem do Brao de Ouro, Ray Charles cantando a sua verso de Eleanor Rugby, o lbum Sgts. Peper, Cauby Peixoto, interpretando, teatralmente, Conceio e Nelson Gonalves em A Camisola do Dia... Koko Taylor em seu canto do cisne em Old Scholl, Chet Baker encantando com These Foolish Things. Waldemar Euzbio solando Malquen, Geraldo Maurcio, o Nenzo no seu pinho, em Garota de Ipanena e outras bossas do Beco das Garrafas...
E ao baixar campa, que se oua um solo no metal de Mardem Barros, em Sumertime...
Dentro do atade, confeccionado em tbua de caixote apanhado em porta de loja, vrios objetos: um isqueiro Romson, uma carteira de cigarros Columbia, o meu Colt Cavalnho 38, o cordo de So Francisco e o patu de Sete Ns da Roda de Aruanda, do gong de Me Meninha do Cantois, ou um amuleto benzido por Didi, Af de Ofonj...
Forrando o fundo do dito Palet de Madeira, quero a trilogia de Plato, o Germinal de Zola, os Manuscritos das Leis de Nodim, O Caminho do Meio, de Lo Tse, A Cidade de Nove Portas, de Sidharta, Gautama, o Git de Vhyasa. As Estncias de Dzian, de Blavastsky, O Deserto dos Trtaros, de Buzzate, As Folhas da Relva, de Whitman...
E ao singrar o Letes, a bordo do barco de Caronte, quero ler os ensaios de Lampedusa sobre os Stean of Consciense de Joyce e, de quebra, o seu Leopardo...
Poemas de Tagore, O Corvo de Baudelaire e a epopia Navio Negreiro de Castro Alves; O.Henry, Jack London, as Vinhas da Ira, de Steinberg, o Amrica, de Kafka, as fbulas de Esopo, as narrativas de Kipling...
Por fim, quero uma cpia da Carta do Apstolo Paulo a Rufo, bispo de Tortosa em que ele relata o trecho de uma confisso feita ao Criador : Senhor! A minha alma voltou-se para o cho!...
Deixo este mundo de manifestaes e, embora seja uma alma/instrumento, busquei to somente a Sustentabilidade...


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Por Raphael Reys - 18/10/2011 10:17:26
BALCO DO BAR DO CAPA III

Domingo chuvoso, sete da matina no Bar do Capa. Seis notvagos junto ao balco curtem o som do lbum Ao Vivo com Tatu, de Pena Branca e Branca e Tatu. Degustam, dignamente, uma cachaa curraleira com rusar, que Fogueteiro trouxe das barrancas do Velho Chico.
Ele tenta negociar cem garrafas do produto com o proprietrio do extico balco, que, em decorrncia da experimentao, j quebrou a ficha, tomou muitas e conversa abobrinha. Clientes soltam foguetes para comemorar a gua mandada por So Pedro.
A msica caipira flui em espirais sonoras, violando os coraes, formando uma egrgora de alegria e descontrao. Aps a segunda dose tomada, regurgitam o retrogsto da marvada PO. Sou convidado a sentir o oroma da boa pinga. Arrepio os pelos do brao e sinto defluxos s carradas!
Um apaixonado platnico toma a sua cana caprichada. Estala os dedos, corre gua nos olhos. Vai at a porta da lanchonete prxima para sacar o bumbum gelatinoso da garonete gostosona passante. No balco, formam-se por similaridade de sentimentos compartilhados entre o boteniqueiro e o notvago Cloves, a dupla Cebolinha e Capa.
A galera sorri s bandeiras despregadas, ao me ver redigir essa crnica no bar, nessa manh de Baco Tupiniquim. Um brio penduca o equilbrio no batente do trio do bar/orculo. Olha para a tenda da amplido nevoada desse domingo e, assim como Calderon de La Barca, se faz a famosa pergunta: Es la vida, um sueo?!
Entram as primeiras senhoras que compram o indefectvel pacote de macarro para o almoo domingueiro em famlia. A Comunidade Teraputica do Bar do Capa, j excitada pelo lcool, pulula no salo, como uma farndola de diabretes.
Batem os ps no piso do salo e as mos, sincronizadamente, no rtmo da msica! A alegria flagrante!
Luizim Cacete chega. Vira uma dose caprichada, medida na risca do copo americano. Passantes com suas sombrinhas multicoloridas cruzam o passeio com destino missa dominical. Enquanto a Turma da Cebolinha Verde j curte a quarta dose...
H um generalizado gosto de cabo de quarda-chuva nas bocas. Corre a notcia de um striking na orla fluvial do rio Vieira e um velho brio aparece no janelo do casaro colonial. Declama com toda nfase as primeiras estrofes do pico Navio Negreiro, de Castro Alves.
O mundo gira, a Lusitana roda. H, no ar, h um sofrer sem se dar conta, um padecer sem se entender o por qu....
Um rato travestido no inconsciente coletivo da galera mostra a sua roupagem de Drago da Maldade Contra O Santo Bebum.


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Por Raphael Reys - 7/10/2011 19:04:59
JOANIR

1957. A terra de Figueira comemorava o seu Centenrio e como uma das atraes principais houve apresentao do sanfoneiro Sivuca. A propaganda do evento artstico chegou at o nosso Joanir Maurcio, pintor, caador de mocs, sanfoneiro dos bons, seresteiro.
Ao receber a notcia do evento e por no conhecer o artista contratado, Joanir, consertando o chapu Ramenzon XXX na cabea ao estilo cowboy, desconsiderou. Torceu o nariz e falou: Quem? Sivuca! Mais qu!
Em cima do seu cavalo alazo, corpo torto pelo peso do Smith and Wesson 38, reafirmou a sua superioridade de sanfoneiro sobre o tal de Sivuca.
Ao interlocutor que ressalvava as qualidades do artista visitante disse: sou mais eu! Alm de sanfoneiro sou desenhista, pintor, caador dos bons e marceneiro. De um pedao qualquer de madeira bruta fao um sanfoneiro marca Sivuca, com um p de bode na mo!
J ia rompendo quando voltou e completou o seu raciocnio: debaixo da minha sanfona de oito baixos eu respeito somente Luiz Gonzaga e olhe l!
Dona Estela, sua esposa, que assistia ao dilogo, deu-lhe um ingresso para o show, caso ele resolvesse ir ver o tal de Sivuca.
No dia do espetculo, boca da noite Joanir j tomava a sua Viriatinha quando deu a sapituca de ver o tal de sanfoneiro falado. O cu tinha cara de chuva e Joanir montou no seu fiel alazo, vestiu a capa Colonial trs Coqueiros, calou a sua bota Agab, consertou o pau de fogo no currio e partiu.
Andando no seu pisad manso, caracterstico dos Mauricio, chegou ao Cine Montes Claros onde j acontecia o show perto do encerramento do mesmo. Tomou, sorrateiramente ao seu modo, o rumo dos fundos do palco, levantou discretamente uma beirada da cortina e se pasmou.
Sivuca, encerrando o show e para delrio da platia que o aplaudia de p, tocava no teclado da oito baixos os nomes das pessoas que eram lanados pela platia. Dedilhava como os diabos e fazia a sanfona falar o que quisesse.A galera pulava como uma farndola de diabretes!...
Acabrunhado com o que viu, Joanir botou a sua sanfona no saco e gramou o beco de volta para casa.
Ao chegar em casa, apanhou a sua oito baixos, botou em cima de um velho pilo de madeira no quintal, tacou querosene no instrumento e ato seguinte efetuou seis disparos certeiros.
O fogaru torrou a sanfona que chiava emitindo sons fantasmagricos e desarmnicos.
Em seguida, o nosso Joanir tirou o chapu em sinal de respeito ao sanfoneiro nordestino e encerrou a a sua carreira de tocador de oito baixos tupiniquim...



69072
Por Raphael Reys - 1/10/2011 14:39:32
BALCO DO BAR DO CAPA II

Uma velhinha, vinda de Gro Mogol para exames mdicos, apanha o moto-taxi do Geraldo Dures, que tomava uma crua no balco. Rodou hospitais e laboratrios. Ao retornar ao ponto, agradeceu e foi saindo de fininho.
Geraldo, que estava doido para tomar uma gelada com o polpudo pagamento daquela corrida, foi logo dizendo: Olha o pagamento, minha senhora! A anci, esperta, aplicou o 171 urbano. Mostrou a sua carteira de passe livre e disse: Tenho mais de 65 anos! No pago transporte, moo!
J Virgilo, um notvago posudo e malhado chega ao bar com as mangas da camisa arregaadas para exibir os seus volumosos bceps e dar uma sugesta na galera que habitualmente toma umas no balco. Fez pose, tomou duas e ao sair porta, levou o maior susto.
A malandragem de planto nas proximidades no respeitou a exibio e, carteando marra, surrupiaram a sua bicicleta modelo 1967.
Na verdade, aqui no Bairro Morrinhos prevalece mxima que lei das ruas: Malandro malandro, Man Man.
Z do Gs um freqentador do Bar do Capa. Ao longo do dia chega de tempos em tempos, pede uma branquinha e se justifica: Bota essa, Sorin, que para eu varrer o quintal! E toma outras para se barbear, almoar, espantar a tristeza, esperar a patroa chegar e mais outra antes de dormir...
J o Bacana chega ao bar, sempre de mansinho. Pede uma dose da cachaa conhecida como Chorona. Na segunda lapada j est s lgrimas. Joo do caminho, conhecido como Trovo Azul, chegou, bebeu vrias e viajou at a localidade de Mandacaru.
Foi dar uma de zagueiro contratado, astro da pelada da roa. Mas, logo cometeu uma infrao grave. O rbitro curraleiro que apitava a partida aplicou-lhe o competente carto amarelo. Inflamado pela mstica da alma da cachaa ingerida, Trovo tomou os cartes do juiz e lhe deu um vermelho. Em seguida, ainda botou Sua Senhoria para correr, ameaando-o de lhe enfiar os cartes no forever!...
Sorin, o cabeludo gerente do balco do Capa, vez por outra d uma sapituca. Para manter o moral no pedao, fala grosso. Abre os braos teatralmente e d conselhos para os notvagos, pra Deus, Raimunda e todo mundo!
Como sortudo, vez por outra abocanha um terno no jogo do bicho e fica estribado.


69023
Por Raphael Reys - 26/9/2011 16:46:15
FRINGE BENEFITS

Ser cronista padecer de prazer e de surpresas no paraso terrestre. Curtir o puro contentamento em ter como colegas de ofcio o diletante e magnfico amigo Augusto Vieira Netto, nosso to querido Bala Doce, o premiado jornalista Alberto Sena Batista, o gentleman e globetrotter Felippe Prates, sempre vigilante, candente nas broncas e nos elogios que, como o poeta Virglio, me guia nos Hades do orculo de Mercrio.
ser lido todas as manhs por Tininho Silva, o sensorial bluzeiro de bem com a vida, o inteligente Geraldo Prates, pelos olhos verdes de pecado de Mrcia Prates, ter como webmaster da Repblica do Pequisto o competente Rogrio Borges. Haja corao!
Ser cronista sofrer de encantamento em escrever de parceria com a doce beletrista Virgnia de Paula, curtindo a sombra e os duendes irlandeses de um final de tarde na ramada do seu romntico casaro, palco de notveis e inesquecveis acontecenas de ontem e de hoje. admirar os olhos de Virginia, que ficam ainda mais lindos quando brilham de alegria, emboramente neles sempre presentes um leve, charmoso e fugidio trao de ironia que a deixa, de culos, simplesmente encantadora. dela me despedir beijando as suas mos macias, delicadas, a evolar um leve trao de Nuit de Noel!
estar na redao do jornal e ter a coragem de mirar no fundo dos olhos fatais da editora Jersia Arruda e poder suplicar pelos seus abraos. poder ter o carinho da poetiza Dris Arajo e a satisfao de ler diariamente os textos inteligentes e precisos da escritora Mara Narciso. Ela escreve sem medo e com o corao aberto!
Ser cronista abrir a caixa de mensagens bem cedo e se deliciar com um recado da escritora Cludia Cardoso, reclamando por no ter lido uma postagem minha no facebook, como caf da manh! Cludia me faz contar os minutos que levo redigindo o texto enquanto escuto, nos fones de ouvido, Ray Charles cantando Alone In The City.
contar, nas clidas manhs, com o corao leonino e inflamado da jornalista Genoveva Ruiz a me enviar um beijo...
Saber que, um dia, poderei ver de perto os olhos lindos de Maristela Kosinvsky, de Letcia e, ao contempl-los, aplaudi-los, enquanto ainda encarnado nesse delicioso mundo de provas e expiaes; o talento e a beleza de Raquel Cruzo, que l os meus mal alinhavados textos e me d a maior fora.
Ser cronista ter como nova amiga leitora, a leveza blondi e o sorriso angelical de Vanessa Leite que ir ler esse postado!
Poder contar, enquanto cantam os galos, com a curtio nos meus escritos da beleza morena de Ana Paula!
E ainda tem gente que considera esse mundo ruim e doido.
Ser doido ser cronista e se deliciar com toda a maravilhosa verve do dia a dia. Certamente, o profissional da crnica quando bate o pacau, parte dessa para uma pior, pois o melhor est aqui!
PS - Ser cronista acreditar naquele trecho de uma rumba caribenha, que fala sobre os instrumentais para se alcanar a felicidade: uma escalera grande, outra chiquita!
Nco, nco, Papai do Cu! Deixa eu ficar nesse mundo doido...


68986
Por Raphael Reys - 22/9/2011 14:29:59
NAS RUAS DA VIDA

Algum chegou a dizer que quem vive nas ruas tem a sua liberdade, em um mundo aparentemente sem cancelas, mas tambm sofre os castigos que lhe so inerentes. E quando o corretivo chega, o cidado chia que nem roda de carro de boi...
A escritora Helena Parente afirma que a rua e aqueles que nela habitam, so dirigidos pelo governo ou pelo destino. carma ou dharma. Fica por conta dos encontros que lhe reservam o destino e o inusitado.
A alma se delicia com o prazer proporcionado pela liberdade e sofre com os augrios da dor, pois a existncia e tudo que a faz so bipolares em constituio.
A literatura cria um universo prprio, vestindo esses aventureiros com roupagens romanescas e nos fazendo at invejar suas trajetrias e aventuras pelas diversas quebradas da vida. No fundo da alma, todos ns temos esse lado imponderado, bandido, de destino incerto, fugidio.
o que nos sobrou de atvico das heranas trazidas da vivncia nas savanas. O andante das vias uma alma filha da luxria e escrava do prazer. O lcool leva-o a julgar-se absoluto e por ser um voyeur, busca compreender as almas em suas manifestaes.
O peregrino um psicanalista do absurdo. Um faz de tudo que no se apega a coisa alguma.
A vida das alamedas um mundo de paixes, medos, obsesses. O imprevisto e o inslito esperam em cada esquina ou encruzilhada. So movimentos, contrastes, luz e sombra. noite, surgem os seus arcanos e mistrios desconhecidos. As paredes tm ouvidos e na escurido mil olhos observam.
Por estar fisicamente exposto ser quase sempre julgado pela subjetividade dos que o apreciam. O nmade das ruas v o lado explcito e sofre a ao dos que passam centrados na suposta normalidade.
Quem vive ao Deus dar, sente o gozo do momento e a relaxao que se segue s superaes das armadilhas vencidas. O existir pelas ruas e pela noite um exerccio pleno de oposies ao racional. Suores, excessos, delrios e uma corrida cega. Procura-se o lado mgico e o impossvel.
A jornada do aventureiro um prolongamento doentio, vazio. A busca da morbidez adequada aos que vivem da e pela sarjeta.
Esse andante inesperado tem, entretanto, um lado superior, genial, pois com suas empatias e emocionalidades absorve e perdoa os males do mundo. bem da verdade, vive buscando entender a alma e os seus propsitos e, como se fora o nico ser vivente, ou sobrevivente, faz parte de um mundo repleto de contempladores.
Vive cada dia como se fosse o ltimo e busca uma entropia em que todos e tudo se fundiro em um s instante do incondicional.
A vida, para ele, nada mais se no um pensamento mgico e fugaz.


68872
Por Raphael Reys - 15/9/2011 08:22:30
NA VIA HARMNICA

Um jovem casal de funqueiros trafega pela avenida abraadinhos e borbulhando como champagne em taa flute. Vo inexoralvemente dar nos costados do Lago Lesis. Reinaldo Sanchez faz uma concha com as mos. Sopra o duto e imita o som do corneto na pera.
A maestrina Clarisse Sarmento solfeja um trecho de uma ria de Puccini. Geraldo Maurcio Nenzo, abre a caixa de reminiscncias e sola no pinho Doralice. No etreo, bem acima de nossas cabeas, Walmor de Paula, repousando no Terceiro Cu de Beatrice, imita Noel Rosa. Canta Conversa de Botequim, enquanto s geis mos do estengrafo Julio Prates garante a percusso batendo com os dedos no tablado da mesa do bar.
H uma extenso sensria entre a conscincia manifesta e os desejos que ficaram irredutivelmente fixados na memria, num clima de fad-aut, um desfazer em emoes sublimadas, uma angstia em perceber que a qualquer momento pode se dissolver.
Chet Baker arranha um bolacho de acetato dos anos 50 sob o cu de Dallas e um instrumentista mrbido dedilha, ao piano, Eleonor Rubby. Duas almas gmeas se encontram nos Jardins de Nayades. Entrelaam-se, bailam e terminam por volitar sob um bosque de azalias.
Na Avenida Coronel Prates, Virgnia de Paula repousa a sua suave cabea pensante num travesseiro de alvas plumas de ganso; logo, apenasmente, sonha estar transfixando a via demarcada da Abbey Road. O pndulo de ao carbono do Big Ben, penduca o equilbrio entre a direita e o levemente dextro-convexo.
No tanque do jardim, numa colnia, h um cardume de trutas multicoloridas. Produzem um feito caleidoscpio na minha retina. Pito um cigarro turco e bebo uma gua tnica com limo e gelo. Na mesa da birosca de luxo, notvagos diletantes degustam uma garrafa de Santa Rosa. Tira-gosto: torresmo de papada de porca curraleira e lingia no palito com cobertura de povolone.
A escritora Mara Narciso surge como uma brisa suave. Veste um blue jeans, sapatilha de lona china chique. Est radiante! Os seus olhos brilham refletindo a sua alma sensvel.
Lembra uma adolescente em domingo de sol.


68784
Por Raphael Reys - 8/9/2011 14:33:41
TOM

Rebento da terceira gerao dos Amorim, eis que nos chega verve de Marco Antonio, o Tom Amorim. Baixote, tampa de binga, rechonchudo ( um gluto), mais parece um lutador de sum. Esperto que nem coelho joga nas dez e bate com vara de duas pontas! Cobra criada no burburinho da nossa urbe.
Elegante, posudo, como o seu tio Bem Pau Vi, traja sempre um bom terno e carrega uma vistosa valise de couro, tipo capito de indstria. Andar apressado, gestos sbitos, olhar atento.
Teatral e tragicmico! um descendente do patriarca Pedro Montes Claros.
Rompante e decidido, no despacha para o bispo. Tem a resposta sempre na ponta da lngua e a sua missa de corpo presente. Do seu av, s no herdou o gosto de cavalgar em cavalos de raa pelas nossas ruas de antanho, caladas em paraleleppedos.
Por onde anda, Tom Amorim reconhecido e festejado. Conhece todo mundo. Quando chega, se bem recebido, abre a sua caixa de ferramentas e conta uma histria engraada, imitando o seu saudoso tio Sinval.
Se a galera o trata com alguma gozao ou disfarada ironia, retruca a carta na hora. Em cima do pedido! Manda o interlocutor para os Quintos do rebro de Dante!
Abaixo, um dilogo de sua me, dona Dinha Amorim e Quintiliano Maia, em visita casa do nosso heri:
- ita Quintiliano! J cansei de pedir a esse povo do Lancho para no servir tanto sanduche para o Marco Antonio!
- Mas, por qu, gente?
- Ora, ele no tem bitola para comer tanto!


68746
Por Raphael Reys - 5/9/2011 08:23:32
AINDA FALANDO DOS ANJOS

Falando dos anjos, Verssimo disse: antigamente era mais fcil. Os anjos apareciam para as pessoas e lhes diziam o que fazer; ou o que ia lhes acontecer. Hoje, o anjo da anunciao no passaria do interfone do prdio. Quem ?
Eu sou o anjo do Senhor e...
Quem?
Um anjo do Senhor e trago...
No daqui no.
Greeley disse-nos que, no outono, h quatro tipos de anjo: um padre, um psiquiatra, um policial e um amante. Pois foi um desses anjos que segurou o incndio da escola Nossa Senhora da Graas, em Chicago, em 1958. Michelle McBride, uma sobrevivente, afianou que tambm um deles a inspirou a escrever o livro O Fogo No Morrer.
Esses santos anjos criados pelo Senhor so assim. Quando menos se espera, l esto eles, de novo. Encontrei, certa vez, um pedao de papel escrito a lpis na Praa da Matriz. Continha uma orao dirigida a So Miguel, este um arcanjo e pedia que o mesmo nos defendesse na batalha contra o demnio, que nada mais do que Luzbel, o esplendoroso, um arcanjo decado, um ser celeste que, ao exercer o seu livre arbtrio, contestou a existncia do Pai, d para imaginar. Uma criatura contestando o seu criador. Pois foi assim!
Imagine s o troar da dita batalha, na imensido do cosmo.
Nobres senhores e senhoras, Ana Maria achava que o seu anjo era mulher, mas, ao escrever um poema, disse assim:
- Prncipe de Vnus, me envolva nas solitrias noites de revolta/Prncipe de Vnus me acompanhe...
Uma questo de sintonia.
Jos Martinho de Melo relata que Felipe Semmelweis, o descobridor da assepsia, era um anjo disfarado, pois impediu que a febre puerperal proliferasse, obstando a vinda de mais almas ao mundo de Deus, em misso.
Ontem, dormi pensando no anjo de guarda de Gisele Bunchen, que fez o que fez por ela, e ainda a levou ao Xingu, para receber um descarrego atravs da pajelana. Veja bem como so eles.
Aqui nos Montes Claros, Olindina, minha saudosa sogra, me disse que viu e conversou com um anjo, que parecia com sua av, e que retornou em sonho e lhe ensinou onde encontrar Paulo Pereira, o seu irmo perdido em l938, no interior da Bahia, na grande migrao, e que esse mesmo anjo lhe ensinou a voar quando estivesse dormindo.
Meu amigo Felippe Prates (hoje residindo na Barra da Tijuca) tem um anjo que adora um porre de scoth. Gosta, tambm, de uma boa cachacinha Santa Rosa, na garrafa arrolhada e de uma noite de tango em um lupanar, desde que a parceira seja capricorniana morena e dos olhos verdes!
J o escritor e notvago Augusto Vieira Neto, o Bala Doce, ou Bala Brando, como se diz no facebook, piloto noturno com milhares de horas de vos pelos caminhos diletantes de Baco e Vnus, tem um anjo de guarda que atleticano!
Comenta-se nos bastidores musicais do Norte de Minas, que Tico Lopes j h muito tem acesso ao seu anjo guardio, um Deimon, recebendo do mesmo, instrues sempre precisas, de como bater na pele do tambor.
Eu, particularmente. s vezes, fao uma tremenda confuso na minha cabea latina. Fico sem saber se ns somos sombras e eles os originais, ou se somos verdadeiros e eles, imaginrios.
Em 1976, dormitei debaixo de uma marquise, no Jardim Baccachere, em Curitiba. Num fim de tarde chuvosa, percebi a presena do meu anjo de guarda. Perguntei-lhe, ento, assim como o fez tambm Calderon de La Barca:
- Es la vida, suen?
E, na mesma ocasio, solicitei que ele me instrusse na decodificao do Shefer Yethzherar, o livro da criao, que contm os segredos da Cabala e, consequentemente, a teoria da mecnica do cosmo.
Encerrando a crnica, relato o que disse o anjo da guarda ao poeta Guilherme de Almeida;
- E quando o homem, resgatado da cegueira, puder ver Deus num simples gro de argila errante, ter nascido neste instante a mineralogia derradeira...


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Por Raphael Reys - 27/8/2011 19:49:56
NOIR.DOC... SOB A PROTEO DOS ANJOS

Mais um entardecer imprescindvel de puro encantamento nos Montes Claros, chapada do Arraial das Formigas, pisada por Gonalves Figueira. O mundo gira globalizado, as lan houses, esto entupetadas de gente navegando no virtual. Surgem os notvagos com seus amigos diletantes.
Nivaldo Tip Top, no seu bar, prepara uma cheirosa carne de sol, servida com feijo tropeiro, mandioca da Lagoinha e farinha Morro Alto. Beto Rocha toma uma loura estupidamente gelada com amigos na mesa externa. Per Novais, Denarte Dvila e Nazareno Dias devoram um grande prato de lingia no balco interno, quebrando uma Viriatinha corada.
Augusto Vieira Neto, o Bala Doce, narra para Reinine, uma histria do poeta Cndido Canela, seu pai. Na mesa, Virgnia de Paula e Mrcia Yellow, que fotografa tudo.
Seresteiros amadores acompanham em coro o Grupo de Seresta Joo Chaves, que encanta e enleva no salo trreo do Automvel Clube em noite de lanamentos e recordaes mgicas, to caras e to gratas nossa lembrana...
Muitos dos presentes destramelam suas almas e choram na pura emoo.
Dona Fina de Paula, emboramente os seus mais que 90 anos, firme e inspirada, ao microfone canta afinadssima, dando a sustentabilidade do magno evento. Dona Yvonne Silveira, aos 96, acompanha e aplaude com prazer, irradiando alegria em seu sempre belo rosto.
Puro encantamento!
Terezinha Jardim canta como um rouxinol, sob o acordes do cavaquinho de Mafalda.
Na mesa central, a famlia Chaves, comandada pela divina Lola, participa da cantoria e das comemoraes.
H uma aura suave que cobre a noite trazendo s nossas almas sofridas pelos embates da urbanidade opressora, o doce alento que nos leva a sonhar acordados. Alguns casais danam embevecidos. O grupo canta, canta e encanta com as modinhas de ontem, revivendo sucessos e inesquecveis momentos dos tempos das vovs e dos vovs.
Cai sobre a turma uma onda mgica. Rasgando o peito, oferecem a performance unssima!
O scotch rola solto, nas verses on the rocks e cowboy, do buf requintado e farto muito bem servido pelo pessoal de Joozinho Prates.


68616
Por Raphael Reys - 24/8/2011 08:01:58
Nenn de Pain

Haroldo Santos, tambm chamado pelos ntimos de Nenm de Pain, ou Haroldo da Escola de Samba, era gerente do bar Destak na rua Melo Viana, aqui nos Montes Claros interior das Minas Gerais. Solteiro convicto e, fiel devoto de So Jorge Guerreiro.
Portava sempre na carteira ou no bolso do palet, um santinho do seu protetor, na sua imagem lunar, entre crateras e a chuchar o feroz drago com sua lana pontiaguda. Realizava as suas obrigaes com o santo, acendendo as suas velas, e executando os rituais no seu sanctorum domstico. Sarava! Meu santo Orix.
Como afro descendente, desde a tenra infncia esteve ligado aos mandingueiros, terreiros, candombls, amolcs, terecs e bocas de cabaa que abundam neste Norte de Minas. Recebeu o seu Ex em um terreiro de Umbanda de Manhinha de Biriba em Livramento, na Bahia.
L no se dava importncia deciso Papal em se deletar o santo guerreiro da hierarquia celestial, atitude tomada pelo Vaticano em represlia ao aumento de f nas razes afro, pelo Brasil de meu Deus!
Certa feita, juntamente com colegas de servio e seus respectivos familiares, fretaram a baixo custo um velho caminho Doge Cara Chata usado para carregar toros de madeira. O veculo os levaria morro acima. Iam para uma tradicional festa de santo na roa.
A dita elevao, s era vencida de Toyota com chassi modificado e caminho modelo toco com correntes de ao nas rodas dianteiras, isso dado ao aclive e respectivo declive ngreme e constante que se fazia at o plat e vice-versa, alem do solo arenoso e escorregadio. Era uma via dantesca!
s trs da tarde terminada as festanas de roa, retornaram as origens. Desciam morro abaixo no Cara Chata quando o motorista sentindo o frio provocado pelo leo do burrinho mestre do freio que escorria no seu p direito botou a cabea para fora da boleia e gritou a pleno pulmo: pula todo mundo que o caminho est sem freio!
Todos pularam menos o Nenm de Pain que permaneceu com os braos apoiados no Santo Antonio da carroceria. Entre os que saltaram para o cho, braos e pernas quebrados, pescoos torcidos, mortos e feridos.
O caminho tendo s o nosso Nenm de Pain como viajante se enganchou no primeiro barranco direita do morro, levantando poeira. Nosso heri desceu da carroceria sem qualquer arranho, e, ato seguinte, sacudiu o p da roupa.
Seguindo o dito de Shakespeare: cada terceiro pensamento passa a ser sobre nossa sepultura, um colega de viagem, irritado com o brao quebrado gritou para ele em represlia: voc no pulou por que sua lesma?No que ele retrucou: sou devoto de So Jorge Guerreiro! O outro rebateu: que F.D.P. de santo esse que seguro caminho Cara Chata sem freio, ladeira abaixo?.
Nenm de Pain tranquilamente tirou o santinho de papel do bolso do palet mostrando-o ao interlocutor, identificando, assim, So Jorge Guerreiro, o protetor da sua devoo.
Acontece que na gravura exibida estava s o pesado drago soltando fogo pela boca. O cavalo e o popular So Jorge, j haviam cado no bengo desde o grito de alerta do motorista, por via de dvidas...
A boca era por demais quente, at para santo guerreiro!


68568
Por Raphael Reys - 19/8/2011 08:14:57
S um 38

Nos bons anos 60, mestres no ofcio em mecnica de autos da nossa urbe formaram uma Santa Federao dos Bons de Gole. Todos eles gals de subrbio e namoradores de jardins e praas.
Da emrita trupe tupiniquim, dentre muitos figuravam Dim Lampio - o valente -, Z Augusto, Valdemar Pea Fina, Ivan Chul - o indefectvel -, Milton, Joo Isca e o notvel Marcha Lenta.
Essa galera prestava servios profissionais nas concessionrias da Ford do Seu Quinzim, Somar de Ubaldino Assis e na Willys Overland, do querido Geraldo Cursino. Ao longo das jornadas etlicas e de alcovas, outros diletantes apareciam, inclusive Pinga, chofer de praa com o seu bem cuidado Odsmobille.
Pululava preferencialmente na Praa da Matriz, footing das domsticas e suburbanas, onde encontravam farto repasto amoroso. Eram tempos romnticos, de namoro com mos dadas e beijinhos roubados...
Aquecidos os coraes masculinos e sempre por volta das 23 horas, Dim emitia um assovio convencionado e a galera da graxa partia para os finalmente na Boate Maracangalha, orculo de Anlia com suas damas da noite e perseguidas profissionais.
L, o bolero rolava solto. Pares desfilavam ao som do conjunto musical animado pelo acordeom de Osias, a bateria de Z Toco e a voz do rouxinol Din Canga.
Certa noite e ainda estando na Praa da Matriz, nossos pastores da noite se lembraram da festa de casamento dos irmos Lcio e Luciano, que comemoravam as bodas com suas esposas, tambm irms. As festividades ocorreriam logo mais na Malhada Santos Reis.
L, era uma comunidade conhecida pelos seus valentes e destemidos murres da roa, onde pontificavam Nego da Titia e muitos outros integrantes da fauna local.
Dim Lampio sugeriu, ento, que todos fossem s festas. Vai a o dilogo:
- Pea Linda! Vamos logo para a Malhada que hoje tem a festa dos casamentos dos irmos com as noivas irms!
- No d no, Dim! L lugar de gente valente e perigosa demais!
Dim, chegando ao p do ouvido do interlocutor, ponderou:
- Mas voc no est levando um revolver na cintura?!
- To, sim, moo! Mas s um 38!
Na Malhada de antanho, estranhos no ninho s eram respeitados se carregassem pra cima de uma Cintura Noventa e duas automticas 45!


68461
Por Raphael Reys - 10/8/2011 07:52:20
Balco do bar do Capa

Z Pra, emrito motorista de transportes coletivos toma todos os dias, religiosamente, umas e outras no Bar do Capa, confluncia das ruas Clemente Martins com General Carneiro, no bairro Morrinhos. Volta e meia d uma tirada digna de nota.
O mdico que o atendeu no PSF, recomendou-lhe, dado fragilidade temporria da sua sade, que parasse de tomar bebidas alcolicas. De volta ao bar, bateu no balco e fez o pedido: Me d uma cerveja sem lcool! Em seguida, complementou: E bota uma pinga para acompanhar!.
Um companheiro seu que l estava tomando umas branquinhas, ao v-lo pedir a pinga e sabedor das recomendaes mdicas, contou a sua prescrio: Pois, comigo, o homem mandou moderar. Tomar uma pinga antes do almoo e outra antes da janta. Mas, como eu no entendi direito, passei a tomar uma garrafa de pinga antes do almoo e outra antes do jantar....
Douta boca da noite, estando o salo do bar sempre cheio, um notvago bebia umas e outras quando viu o seu mdico parando o carro frente, numa mercearia. Como o doutor lhe prescrevera um regime, gritou todo siligristido: Doutor! Posso comer ovos? Que lhe respondeu, na bucha: Taca o pau!.
Outro freqentador que andava passando do limite no gole foi chegando e o Capa o advertiu: Voc est bebendo cachaa demais, companheiro! Resposta: Nem demais, nem de menos!.
Chega mais um companheiro de copo j bastante chumbado e para puxar conversa foi logo comentando o que fizera no dia: Gastei mais de cem reais! Paguei o IPVA do meu barraco!.
J o fregus da branquinha conhecido no trecho como Silicone, mui digno aposentado, de amores novos com uma morenaa que mora no pedao e objetivando dar conta da escrita na alcova, seguiu o conselho de outro notvago e, para aumentar a potncia, tomou indevidamente o medicamento Pramil.
Endureceu, mas foram as pernas!
Outro ilustre exemplar do trecho chegou cheio de paixo. Bebeu umas malditas e se ps a cantar sucessos antigos de Roberto Carlos: Estou amando locaumente a namoradinha de um amigo meu...


68411
Por Raphael Reys - 5/8/2011 08:03:26
Entardecer na Avenida

O segurana do Capo desce da caminhonete blindada portando uma pistola PT40 e dois pentes reservas nos coldres em ambas as axilas. O seu patro se prima na mxima romana Si vis pacem para bellum. O contato transfixa o vo da avenida pitando um cigarro paieiro com cheirosa raiz de carapi.
Em contrapartida, Maria Luiza Telles lavra em seu orculo uma crnica que fala do amor universal. Um bbado passa penducando o equilbrio e diz que o mundo composto. O criador em atividade no Nicho de Nodim, executa em essncia as bipolaridades que logo se manifestam em aspecto trino.
Os arcanjos da Unidade Estrela Candente, guerreiam com as hostes de Lusbel no nosso cobiado Sistema de Havona. O barraqueiro da esquina espia a saia cot da garota suburbana, que inicia o seu trotoir numa noite de surpresas crmicas.
O fluxo das guas do Euripo desgua na contramo do Aqueronte e balana perigosamente o barco de Caronte, que transporta almas em retificao.
O cheiro do po batizado com permanganato sai da chamin da padaria e irrita as narinas dos transeuntes incautos que circulam no entardecer deste friorento ms de julho. Aroldo Pereira declama O Corvo, de Baudelaire e a sua quase careca reflete as luzes de non da fachada do portal de eventos.
Estevim continua entocado estrategicamente e o inspirado poeta Georgino Junior sai finalmente do seu quarto de fundos, onde escreve um romance ertico leve. Wanderlino Arruda lavra a lauda da sua milsima palestra mantendo a sua mtrica virginiana. Contempla pela ensima vez a beleza dos olhos de sua Olmpia.
Miguel de Ducho passa exibindo o seu fisique du role de boxeador cucaracho. Fala sobre filosofia platnica e bate no couro esticado do bong um bolero antigo.
Montes Claros entardece. Acontece uma cena explcita no Trevo do Sion: um executivo trincado contrata uma garota da noite e juntos viajam para Laquesis.
Armando Cabeceira Mardem extrai da alma de metal do seu saxofone, com enlevo, nada mais nada menos que Summertime...


68259
Por Raphael Reys - 21/7/2011 15:01:40
Balco do bar da capa

Z Pra, emrito motorista de transportes coletivos toma todos os dias, religiosamente, umas e outras no Bar do Capa, confluncia das ruas Clemente Martins com General Carneiro, no bairro Morrinhos. Volta e meia d uma tirada digna de nota.
O mdico que o atendeu no PSF, recomendou-lhe, dado fragilidade temporria da sua sade, que parasse de tomar bebidas alcolicas. De volta ao bar, bateu no balco e fez o pedido: Me d uma cerveja sem lcool! Em seguida, complementou: E bota uma pinga para acompanhar!.
Um companheiro seu que l estava tomando umas branquinhas, ao v-lo pedir a pinga e sabedor das recomendaes mdicas, contou a sua prescrio: Pois, comigo, o homem mandou moderar. Tomar uma pinga antes do almoo e outra antes da janta. Mas, como eu no entendi direito, passei a tomar uma garrafa de pinga antes do almoo e outra antes do jantar....
Douta boca da noite, estando o salo do bar sempre cheio, um notvago bebia umas e outras quando viu o seu mdico parando o carro frente, numa mercearia. Como o doutor lhe prescrevera um regime, gritou todo siligristido: Doutor! Posso comer ovos? Que lhe respondeu, na bucha: Taca o pau!.
Outro freqentador que andava passando do limite no gole foi chegando e o Capa o advertiu: Voc est bebendo cachaa demais, companheiro! Resposta: Nem demais, nem de menos!.
Chega mais um companheiro de copo j bastante chumbado e para puxar conversa foi logo comentando o que fizera no dia: Gastei mais de cem reais! Paguei o IPVA do meu barraco!.
J o fregus da branquinha conhecido no trecho como Silicone, mui digno aposentado, de amores novos com uma morenaa que mora no pedao e objetivando dar conta da escrita na alcova, seguiu o conselho de outro notvago e, para aumentar a potncia, tomou indevidamente o medicamento Pramil.
Endureceu, mas foram as pernas!
Outro ilustre exemplar do trecho chegou cheio de paixo. Bebeu umas malditas e se ps a cantar sucessos antigos de Roberto Carlos: Estou amando locaumente a namoradinha de um amigo meu...
Raphael Reys


68126
Por Raphael Reys - 1/7/2011 15:12:37
A CIRANDA DOS IBEJS

No so histrias de fantasma no sentido verdadeiro, mas uma coletnea de fatos que nunca tiveram explicaes satisfatrias. R. Kipling.

Em 1904, quando se mudou para Burwash em Sussex, na Inglaterra, R. Kipling escreveu o conto Eles, O escritor indiano encontrava-se perdido com o seu carro em uma estrada e em busca de informaes deparou-se com o stio dos Howkin, que ficava em um morro na extremidade do distrito. L encontrou vrios fantasmas. Uma velha cega duas crianas brincalhonas e uma gorda chamada Madehurst.
Dizem que ele escreveu essa histria por ter lembrado-se do fantasma da sua filha Josephine, que falecera em 1899 e que volta e meia aparecia na sua casa. A nossa histria abaixo, acontecida aqui nos Montes Claros, fui testemunha dos fatos e da via de fato e como os mesmos no tiveram explicaes satisfatrias, assim como o escritor indiano os relata em crnica para a posteridade.
A coluna dos pequenos seres se formava sempre que a menina com a sua boneca de pano subiam trilha do Morro do Jason do Caldo de Cana, na sua pequena fazendinha na Vila Oliveira, aqui nos Montes Claros at alcanar, no alto de um pequeno descampado, uma plataforma. Em 1995, entrevistei-a, juntamente com o seu pai, encarregado da fazenda e um vaqueiro cambono (mdium masculino que no incorpora e exerce a funo de conversar com as entidades incorporadas em outro mdium presente) todos eles testemunhas dos fatos para-normais.
Ela tinha, ento, seis anos, olhos grandes e brilhantes, era uma capricorniana cheinha, morena, os cabelos cortados tipo pastinha. O seu semblante irradiava; parecia um pequeno anjo do Senhor!
Ela era a figura central dos fatos extra-sensoriais, que aconteciam no morro; tinha tambm insights nos quais prescrevia remdios de ervas naturais, para cura de males fsicos. Por uma tarde, acompanhado dos trs, escutei os relatos, e percorri os locais onde ocorriam os fenmenos. O pai, buscando descobrir para onde ia menina, passou a segui-la, e a viu subindo o morro, com a sua boneca de pano pendurada pelo brao, e os pequenos seres; todos vestidos de branco, almas de crianas (Ibejs), que iam engrossando a fila, medida que ela subia o morro, rumo plataforma.
Chegando ao alto, formavam roda, cantavam e danavam, brincavam de pega, de cabra-cega, a menina e os pequenos seres vindos do mundo espiritual imediato.
Ao terminar a brincadeira, iniciavam a descida e a coluna, de maneira inversa, ia-se desfazendo. Na fazenda, havia uma construo antiga que fora usado como senzala. Local de castigos de escravos, na era dos oito. Ora servia de depsito e havia sido usada tambm para trabalhos de mesa branca, onde o dono da casa, mdium de incorporao, assim como o encarregado, recebia as almas dos escravos mortos por l, e que voltavam para serem doutrinados pelo vaqueiro cambono, j que pai da menina ficava incorporado.
Feita a doutrinao e a desobsesso, as almas dos escravos eram levadas para as manses espirituais (Casas Transitrias). Todo o ambiente da fazenda emanava um ar de magia: a disposio dos acidentes geogrficos, o crrego cristalino e borbulhante, com guas curativas, a plantao de cana-de-acar. Ao trafegar pela propriedade, tinha-se a impresso de se estar sendo observado.
Aquelas crianas que apareciam no morro eram antigos moradores do local, da poca da escravido, e que haviam sido impedidos de brincadeiras e folguedos, pelos donos da terra, e agora voltavam para brincar; acompanhando a energia da menina da boneca de pano. Esta relatava que os cnticos das crianas eram feitos em dialeto Ioruba. Voltavam para cobrar o que lhes foi negado.
Um elo transcendental com o passado distante.
No conto Eles, descrito no incio da crnica, R. Kipling fez esses versos:

Vocs meninos, vocs meninas, venham brincar.
A lua brilha, que claro luar!
Larguem a ceia, larguem a cama,
Venha junto correr na grama!
Subir na escada, descer na parede-.


67994
Por Raphael Reys - 18/6/2011 15:43:53
O mundo composto!

Homero relata que os deuses tecem desventuras para que os homens, nas geraes vindouras, tenham o que contar. Arremata o corretor Geraldo Mundial que o mundo composto. Tem que ter de tudo um pouco.
Aqui em Montes Claros, terra do fruto amarelo e capital da recente Repblica do Pequisto, acontecem coisas que at Deus duvida!
O grupo musical Prego de Linha, nos bons anos 70 foi animar um evento na vizinha cidade de Glaucilndia. Durante a viagem, encheram o pand de cachaa branquinha. Chegaram ao destino campesino pela manh, vestidos moda hippie, recendendo a aroma de ba velho, cheios de babilaques e rumaram para uma escola pblica onde solicitaram na Secretaria uma sala para a turma de bebuns dar uma morgada antes do show. Como dizia o saudoso Z Amorim: roncavam e babavam feito porcos. Logo, chegaram escola algumas professoras que desconheciam a cesso da sala para servir de dormitrio aos msicos.
Ao se depararem com aquela corja de cabeludos roedores de pequi, bufando e empestilando de bodum o ar que respiravam os justos, chamaram um policial para botar ordem na casa e escorraar aquelas figuras xexelentas e indesejveis!
Chegou um policial militar, ajumentado no tamanho e nos gestos. Aproximou-se daquele que roncava mais alto e deu uma bicuda com o bate-bute na sola do p do infame, totalmente entregue aos braos de Morfeu.
Como dizia Shakespeare, o pesadelo tem nove potros. O agredido abriu os olhos supondo ser aquela uma fase dantesca e onrica do sono e foi logo indagando: Est dando um baculejo xar? T tendo uma viso, meu camarada!....
Tomando conscincia de que a via de fato era real e em cores, foi logo falando em cima do pedido: D uma olhada na minha brisa, cara! V se eu to dando alguma bobeira e saca direitinho, meu!.
A o militar perguntou o que eles estavam fazendo ali deitados, esparramados de todo jeito em uma escola pblica. O interpelado respondeu na bucha: Ns estamos na maior, Cear! Todo mundo cado de bolso!....
Em seguida, vendo o msico Tico Lopes deitado ao seu lado com os olhos esbugalhados de terror, falou no ato: Veja s, cara! Quando vi esse meganha ajumentado me chutando, pensei que estava fazendo a maior viagem a Katmand!.
E arrematou, finalizando: ... Parece que a morgada deu o maior bode!.


67951
Por Raphael Reys - 14/6/2011 09:46:58
VENTO QUENTE

O pastel, essa guloseima fantstica, nos foi trazido a este rinco tropical pelos nossos irmos portugueses, nos primrdios do sculo XVIII. Os espertos japoneses tomaram por conta mstica e se travestiram de chineses, criando, assim, um marketing para o produto.
Pastel tem de todo tipo, tamanho e sabor! Aqui nos Montes Claros, cidade plo do Norte de Minas na atualidade globalizada, o mais famoso o pastel curraleiro do Caf Galo, do empresrio e lobista Jadir Rodrigues.
O saudoso ex-alcide, Maro Ribeiro era um viciado em pastel curraleiro. Quando estava no point, saboreava para mais de vinte, tomando cafezinho com leite!
A iguaria servida com todos os tipos de recheio, tamanhos, feitos com diversas modalidades de leos e frituras. Tem aquele grando, especial para enganar gulosos seletivos. Esse, o pastel 171, s tem tamanho e nenhuma qualidade.
Na minha infncia, as famlias serviam o pastelo. Assado ao forno em uma grande forma de alumnio e recheado com a mais autntica galinha caipira. Adorvamos e comamos de dar tristeza...
Como o matuto tido como cabra esperto e cheio de treitas, conforme a sabedoria popular enquanto enrola o cigarro de palha, pensa em como enganar um otrio boteniqueiro, no antigo Mercado Municipal, onde hoje se situa o Shopping Popular. L, o capiau aplicava na clientela.
Um deles, colocou um cartaz na entrada do seu bar. O reclame dizia que encontrasse recheio no pastel, ganhava um prmio em dinheiro, na hora, de 200 duzentos cruzeiros!
Como a populao dos anos 50 era ordeira, a palavra de um homem tinha o seu valor e fio de bigode servia de aval. Os inocentes, futuros logrados, faziam fila para degustar a iguaria recheada de vento quente.
O esperto comerciante, cujo nome omitirei, pois os familiares ainda vivos apresentam problemas psiquitricos, encheu por muito tempo os bolsos de grana e a populao a pana de vento quente!
Como diz o dito popular que castigo pega malandro o pasteleiro passou a encher o pand de cachaa branquinha. E essa, no perdoa! Botou guenga por conta e passou a pagar rodadas de bebidas para amigos diletantes de copo e de cruz.
Morreu doido, bbado, asilado, pescoo descascando e ps inchados. Sozinho em uma cama nos fundos da sua espelunca!


67876
Por Raphael Reys - 8/6/2011 09:19:15
A FALTA QUE NOS FAZ.

Os sabores, coisas e sons dos Montes Claros dos ainda romnticos anos 50, seus caprichos e o seu comrcio com atendimento prprio de compadres e comadres.
A gerao moderna, comedores de carne de gado confinado encharcado de qumica e de petiscos industrializados no se deliciaro com o sabor da galinha caipira, na bacia de alumnio do bar do Calisto, o borbulhante guaran Antarctica acompanhado do pastel delicioso da Leiteria Celeste, de Z Priquitim, o caf da manh com o biscoito de farinha de Zim Bolo.
No jantaram o Baio de Dois de Miguelzinho, na Mineira, o fil A Parmegiana do Restaurante Palhoa, a feijoada do Baiano, a carne de sol de Joo no Bar do Toco e nem se deliciaram com a surpresa de comer o pastel recheado de vento quente do Bar do Tiano nem saborearam a Vaca Preta com canaps de Josias Loyola, na Cristal nem comeram o PF de Leopoldo Cozinheiro.
Triste morrer sem sentir o sabor do churrasco de Leon, o caldo de cana de Jason, a cachaa fubuia de Z Saru, o PF suculento de Pedro Granadeiro no mercado sem comerem como sobremesa de uma talhada de gelia do Artur. No ver a pacincia de Calisto Souza servindo cafezinho e nem vero Zezinha vendendo bilhetes, e cafezinho padro em cima de um caixote de madeira.
Mais triste ainda morrer sem no sbado tomarem o ertico caldo de mocot da Natlia, sem a farofa de jurubeba, de Jacinto Cozinheiro, o mexido de feijoada do Restaurante Intermezzo, tambm conhecido como Roupa Velha, que tinha at prego de tbua de chiqueiro misturada nos seus componentes, acrescido do torresmo crocrante de Juvenal. Deixaram de saborear a carne de sol no boteco de Pedro de Capito Enas, no comeram o PF da Zez porta do bar de Z Saru.
No ver a catrumama bicicleta sueca de Ado Padeiro, entregando o po alemo da Padaria Santo Antonio, no lusco-fusco das manhs. No comer da pizza, no restaurante do Mrio Torino, tomando usque Cavalo Branco. Sem provar os roletes de cana caiana na talisca de bambu, ou pirulito de rapadura na tbua furada.
No saber das aventuras da Agulha do Gera, o requebro de Nilsinho, o tango da meia noite na Papillon de Afrnio, nem ver a esplendorosa beleza de Etelvina, danando bolero na boate Maracangalha sob o prisma da luz vermelha e o efeito multicolorido das bandeirolas no teto. No conhecer os encantos de Kama-Sutra e as delcias de mil e uma noites, da alcova de Maria Bocaiva e os seus olhos de mistrio.
O cheiro do Rodoro de metal, no leno nem ouviro a voz de Dincanga embriagado cantando, Aurora de Flor nem apreciar O sex-appel de Boneca desfilando serelepe nas noites tupiniquins, a cachaa Subejo de dona Nieta, na casa Minas Gerais nem vero o seu efeito colateral fazendo Geraldo Tatu cantar o Hino Nacional de trs-pr-frente.
Uma caderneta de fiado, no Armazm Globo de Antonio Barreto e o picol de groselha e gua do Bar Sibria. Ja da Penso, falando dentro dos ouvidos dos burros carregados com bruacas de rapadura e amarrados porta do Mercado Municipal.
No ver o seu av amolando navalha Solinger na tira de couro e nem sentiro o perfume Nuit de Noel da sua av, o vestido tomara-que-caia, amarrado com arame no busto, o mai Catalina e as divinas coxas de Marta Rocha, nem ouvir Cauby Peixoto cantando...

Conceio/ eu me lembro muito bem/ vivia no morro a sonhar/ com coisas que o morro no tem/ foi ento/ que l em cima apareceu/ algum que lhe disse a sorrir/ que, descendo cidade, ela iria subir/ se subiu/ ningum sabe, ningum viu/ pois hoje o seu nome mudou/ e estranhos caminhos trilhando/ s eu sei/ que tentando a subida desceu/ e agora daria um milho/ para ser outra vez/ Conceio...


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Por Raphael Reys - 2/6/2011 17:16:09
Um olho fechado, outro aberto!

1957, Montes Claros aguardava ansiosa a comemorao do seu Centenrio. O historiador Hermes de Paula organizava tudo, com a preciosa e decisiva ajuda do jornalista Newton Prates, pai do nosso poeta, cronista e grande amigo Felippe Prates, enquanto o alcide Geraldo Atayde e o engenheiro Joaquim Costa tomavam as providncias necessrias para deixar nossa cidade nos trinques.
Dom Jos Alves, o saudoso bispo, andava de l para c arrumando as igrejas quando recebeu a visita de Monsenhor Gustavo, a servio. O mesmo relatou-lhe, assustadssimo, que o forro da Matriz estava dando uns estalos gigantescos e aterradores, como se fosse desabar, fazendo gelar os coraes!
Visando viabilizar a segurana do templo para as festividades prximas, o nosso bispo, em um momento de m inspirao, mandou chamar o mestre de obras Roberto Pimenta, cobra mais do que criada da Rua Melo Viana, para fazer o oramento do conserto do teto da igreja.
Roberto se encontrava na ocasio dependurado com um papagaio enorme no banco de Seu Calixto, o Banco Comrcio, j em vias de protesto. Sorrateiramente, como convinha a um mala sem ala, o citado mestre de obras, aps afetada, posuda e meticulosa verificao, condenou o telhado e apresentou um oramento bastante exagerado, visando forrar, de vez, os bolsos de grana e quitar o dbito bancrio.
Ato seguinte, aterrorizou o bispo com sua exagerada narrativa ficcional descrevendo um inevitvel e prximo acidente com o desmoronamento do telhado, se a obra no fosse realizada com toda urgncia, certo que o cu arriaria em cima das cabeas dos fieis em dia de missa com a igreja lotada! Como Kipling, narrou uma cena dantesca, cheia de dezenas de cadveres entre os escombros! Simplesmente aterrorizante!
Chegou mesmo a prever magotes de pobres almas desencarnadas ali vagando no post mortem pelas escarpas dos Hades, no barco de Caronte do Rio Letes e at alguns deles, dado vida pecaminosa, padecendo horrores na cmara de retificao da Judeca, mais conhecida como o terrvel Stimo Crculo do rebro!
Dom Jos, de imediato, contratou o servio. Ao iniciar a necessria e to urgente reforma, tudo j sob controle, o empreiteiro Roberto levou em sua equipe de trabalho, alguns amigos igualmente malas, todos especialistas em aplicao de vrios tipos de 171. Selecionou seis malacaus dos Morinhos: Chico, Z Mota, Z Pedro, o valente Arnaldo da Hora, o ferreiro Tonico e o farrista Aldair, esse ltimo o nico que ainda est vivo, mas j prestes a ser despachado aos zinfa...
Mantendo sua equipe cheia de gor, fartos tira-gostos de bucho e cigarros a vontade, incitava-os a subir e descer forro abaixo da igreja sempre arrastando pesos inteis, retirando picums, restos de telhas, jogando-os para cima e baixo com estardalhao, caindo mesmo sobre o altar pedaos de sarrafos, teras, caibros, pregos, caibral, etc. Ferramentas batiam no piso com grande barulho, dramatizando ainda mais o instalado clima de terror, o que era reforado pelos gritos de ordem emitidos pelo competente mestre de obras, numa autntica pantomima...
Terminada a obra, na hora do acerto, Dom Jos, bastante desconfiado de estar sendo vitima de um 171 urbano, quitou o pagamento do trabalho com o contedo de dois sacos de aniagem cheios de clulas mofadas, rasgadas, amareladas e remendadas com fita adesiva. Refugo de muitos anos de bolo oferecidos por caridosos e espertos fiis.
O empreiteiro Roberto livrou-se do pepino quitando a divida, ao forar o banco a receber aquela bagaceira como pagamento, sob a cnica alegao de se tratar de dinheiro bento e sagrado!
Os bancrios Bida e Luizo, coitados, emboramente inocentes nessa parada, que ficaram com a rabuda de contar, colar e etiquetar as mal cheirosas notas...


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Por Raphael Reys - 29/5/2011 12:02:50
MONTESCLAREADAS

Nos anos 50, meninos viviam soltando arara na Praa Coronel Ribeiro, ou tomando um Guaran Brotinho no bar de Nelson Vilas Boas. L, o notvel professor Pedro Santana bebia a sua cerveja casco verde e falava de filosofia platnica. Sempre bem vestido, sorriso comedido, gestos largos e teatrais.
Pela rua Doutor Santos, passava os blocos de carnaval de rua com Dona Afra Bichara fantasiada de baiana, estilo Carmem Miranda. Nos sales do Clube Montes Claros, a foliona Nice David desfilava como a Rainha do carnaval de Montes Claros. Lazinho Pimenta comandava o grito carnavalesco gritando: Evo folies!.
As festas de santo e de fogueira na casa de Malaquias Pimenta eram a bossa do momento. Mesa farta e uma pinguela feita de tronco de rvore servindo como ponte para a travessia at o Roxo Verde. Meninos e meninas liam o Almanaque Biotmico Fontoura, que ganhavam na farmcia de Cica Peres.
No bar do Tiano, no Mercado Municipal, escutvamos uma vitrola RCA VICTOR tocando em um bolacho de acetato Cauby Peixoto cantando... O amor uma prola rara/e tem a cor de um rubi... Comamos um pastel recheado s de vento quente e degustvamos o indefectvel picol gororoba de groselha (gua pura!) do Bar Sibria, enquanto Bi Mia e Carlcio Atade tomavam uma cerveja casco escuro.
Afonso Salgado bebia e o seu cavalo o vigiava pela janela, Dulce Sarmento tocava elegantemente em seu piano de cauda, Bigode de Arame passava arredio rumo ao seu quarto nos fundos do Cine Coronel Ribeiro.
Maria Babona pedia esmola pelas ruas carregando um filho no colo!
Tuia, o folclrico escravo ainda vivo, era visto chupando bico no seu quarto de madeira na redao do Jornal de Montes Claros. A elegncia de Benedito Gomes, Joo Atade, Joo Chaves e Pndaro Figueiredo vestindo ternos de linho S 120 branco. Joo Chaves de gravata borboleta e Pndaro com sapato bico fino duas cores, faziam sucesso.
Havia as bolachas tipo pastilha da padaria de Seu Tota, que grudavam no cu da boca, em frente ao estdio de Godofredo Guedes. Na poca, Pato era chamado P de Pato e Hlio Notinha j aplicava chaveta com figurinhas carimbadas.
Degustvamos os deliciosos salgados de Dona Zeny Priquitin, as caarolas italianas de Duca e Nazar. A laranjada queimadinha com bicarbonato ao lado da loja do russo, de Joel Stark.
As brincadeiras de Estrac Deixa, as brigas de rua com a turma de Odorico Mesquita no centro, de Z Doido e Capa Preta na Igrejinha, Gabilera no Alto So Joo e Tat Aquino na Rua Belo Horizonte. As guerras com caroo de mamona, estilingue feito de borracha de cmara de ar de bicicleta sueca.
Os roletes de cana caiana, as bicicletas novas na loja de Waldir Macedo, o lbum de fotografias com capa de madeira com a gravura de capa... Bem me quer, mal me quer...
A alegria das bolas G18 de capota e as peladas no campo de lama da rua Germano Gonalves, briga com o time do Alto So Joo, Cinzano tomado escondido s margens do rio do Melo. Canivete Corneta, isqueiro Ronson, alparcatas Roda, pente Flamengo, Gumex no cabelo, corte Prncipe Danilo, culos modelo Ronaldo, camisa Prist, botinha solado new life e o barulho sincronizado do motor do Simca Chambord. Um relgio Tissot Militar, meias Lupo, lana perfume Rodoro de metal, Aqua Velva no rosto, cheiro de sabonete Madeiras do Oriente. Camisas de gola bucl e banlon, garotas desfilando com modelos Bangu, picols Esquibon da caixinha, a marchinha de carnaval... Chiquita Bacana/l da Martinica/se veste com uma casca de banana nanica/no usa vestido/nem mesmo calo... E as balas de chocolate do bar de Adail Sarmento...


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Por Raphael Reys - 22/5/2011 15:30:02
O BODE DE CHICO PRETO

Desmamado em um catimb do Maranho, o citado caprino foi trazido como encomenda a nossa urbe, para servir aos ritos do Vodu da casa de santo do babalorix Chico Preto.
Criado a po de l e com todo dengo que compete o seu status, tem a cama em que dorme dentro de uma camarinha. Como j participou de muitos e tantos ritos de Eb, adquiriu a subjugao do ente chefe da casa.
Volta e meia e estando fora da funo ritualstica, apronta e faz bagunas na circunvizinhana do Bairro Doutor Joo Alves. Quando est na baixa veia libidinosa caprina, bota gente pr correr!
Certa feita, carente de mimos degustativos e melindres, o bode de Chico Preto, como tambm chamado, foi parar em uma frutaria localizada na Ponte Preta (sob a linha frrea). No sendo ente humano e como no carrega dinheiro de qualquer espcie, chegou na maior cara dura subiu na banca e devorou mas, peras e outras gostosuras.
O proprietrio, sabedor das artes da alm fronteira de onde o invasor originrio, tomou cuidado. Defendeu-se, colocando uma cesta de frutas em definitivo entrada. Nela afixou uma placa: Repasto do Zebedeu! Ficava assim posta e em definitivo, para quando bem o aprouvesse e a sua disposio, a refeio light do respeitado personagem de chifres citado...
O fato mais notrio, entretanto, se deu em uma boca de noite de um Sabatto na casa. O gong preparado para a funo, a hierarquia a postos, filhos e filhas de santo na roda quando entra um evanglico bramindo uma bblia e ameaando parar com tudo.
Desafiou o chefe do culto a lhe provar que aquelas almas invocadas existissem, produzindo uma manifestao. Uma via de fato!
O babalorix exigiu respeito casa, ao culto, ao livre arbtrio religioso, aos smbolos autorizados e registrados, o que eles representavam, aos presentes e convidados da noite.
O invasor, entretanto, estava possudo da macaca urbana, coceira no fiof e no deu bola para o que disse o xerife da casa.
Mestre Chico acabou aceitando o desafio. Mandou buscar o Bode Zebedeu na camarinha e o colocou em frente ao desafiante. Ato seguinte iniciou o dilogo:
- Se o bode conversar racionalmente, o senhor se d por satisfeito e vai embora, evitando at que eu perca a pacincia e lhe d uma vassourada na cabea?
O enfeitado invasor, fazendo boca de muxoxo e ar de mfa replicou, em resposta: Pr mim, est de bom tamanho!
Ato seguinte, o caprino, atuado pela entidade do Eb, ficou em p sobre as patas traseiras, tomou uma postura arrogante e disse rilhando os dentes: Se voc demorar mais um minuto aqui, vou comer o seu terno engomado como sobremesa, seu palhao enfeitado!
O mijo quente e cido, aliados a dejetos lquidos jorrou pernas abaixo do invasor, numa cena grotesca e laxativa!
Temido por uns, evitado por outros, quando circulava no bairro Doutor Joo Alves e adjacncias, capitaneando e desfilando com um seleto squito de quinze fmeas popusudas.
Como era cabeceira e posudo rompia na frente do squito, com seu grande e enrolado par de cifres. Abria caminho e provocava arrepios!
Certa feita resolveu bagunar o coreto. Entrou em um armarinho prximo ao terminal Rodovirio e para pirraar um comerciante, que era um tremendo chato de galocha, mastigou uma pea de roupa do mostrurio.
O homem estava num dia de co, com a blis a flor da pele e, enfurecido, apanhou o treisoito. Saiu porta afora e, espumando de dio, despejou a carga de balas no famoso caprino de Eb. Pois as seis pitombas de chumbo quente caram sem fora aos ps do bicho batizado no Vodu...
Dizem os iniciados nos ritos afro/catimbs que a grossa corda de sisal usada para amarrar o bode Zebedeu no peg, durante os rituais, fora confeccionada nos Hades. Isso mesmo que os senhores leram: nos Hades! O arteso que a tranou o mesmo que fez a corda que amarra o barco de Caronte s margens do Rio Letes.
Da d para ver que o bode no era pouca coisa!


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Por Raphael Reys - 17/5/2011 17:10:28
A Rua Melo Viana e suas atraes

O nome da rua teve origem em 1930, dado ao atentado, que teve como vtima, o ento vice-presidente da Repblica, Melo Viana, que aqui tombou baleado, batizando com sangue a via pblica.
Artria principal e smbolo do bairro Morrinhos, alma de capoeira, de samba, de malevolncia, de sobrevivncia e de malandragem.
O point era o bar Destak, ou bar de dona Linda, na confluncia com a Rua Corra Machado. sua porta reuniam-se a galera do morro, os capoeiras, os malandros e os sambistas, profissionais liberais, gente para dois dedos de prosa e mesmo a turma que rodava na pesada, tinha livre trnsito por aqui!
Considerando a via em sua extenso, de extremo a extremo, no comeo, o bar de Joo da Hora, local de valentes. A seguir, o carteado do Hotel de Pedro Nu, o Bandeira 2, bar diuturno, escola de malandragem, quartel general de 1.7.1. Damas da noite, gente do beco e cavaleiros das sombras.
Pano verde de fichas, de tacos, de caapas. Cobras, ags, otaclios e patos barrufados.
Transposta a via frrea, marco divisor do centro da cidade com o bairro Morrinhos, o Bardonato, com excelente tira-gosto e malandros escolados de planto e grana emprestada a juros.
O gelado Caldo de Cana do Jason, a serraria do construtor Levi Pimenta, o salo dos Macabas, onde Zezinho barbeiro aprendeu a aplicar agamenon de sofredor. O caf de Jorge, o taciturno, o homem que ganhou trs vezes o primeiro prmio da loteria federal e vende cafezinho requentado.
Na esquina, o bar do Amlio, onde o Nego Torresmo quebrava tudo, ele consertava, o Nego quebrava novamente. A galinha caipira no molho do bar do Ccero, o Destak de dona Linda, sede da Escola de Samba Destak. No balco, Haroldo, Betim, e Zeca.
O gong de dona Zefra, suas magias e a carpintaria de seu Ernesto Zangado, sempre pronto a dar uma bengalada em quem o importunasse. Tem a sapataria e estdio fotogrfico do Var.
O salo Ruas, da famlia do saudoso Tone Barbeiro, a serralheria do seu Bil, o armarinho de dona Olindina com o gabinete dentrio de Antonio Souza que anestesiava os pacientes com reza brava. O gong de Belmira Rezadeira com suas benzees e contra-mandingas e a bola de cristal de dona Lozinha.
O armarinho de dona Z, seus parceiros de carteado e no alto da rua o cabar de Pedrelina, os terrenos de Cizino o barraco de Manoel Quatrocentos, o homem da ferrada. A caixa dgua da cidade e a igrejinha colonial.
Resta esclarecer que as famlias tradicionais do morro, so ordeiras e esto por aqui a mais de setenta anos. A malandragem obra dos estranhos que migraram, notadamente aps o prefeito Toninho Rebello ter trazido nos anos 70, por fora dos seus ofcios, as casas de tolerncia do centro, para as nossas ruas.
Por aqui passaram blocos caricatos: o Feijo Maravilha, o Hong Kong do Nego Torresmo, a Escola Destak e a extica gangue do Desaba. Assim como os freqentadores das noites de luxria do Cabar de Z Coco.
Perto, a funerria da famlia Beiro, quartel general da Boneca de Leonel.
Em 1970, o alcaide Toninho Rebello construiu o Mercado Municipal Sul, em 1978 o empresrio Paulo Narciso instalou a Rdio So Francisco de Assis, 93 e 98 FM e logo veio a Intertv concessionria do canal 4.
O boom era o PF no bar do Haroldo, no Mercado Sul, o sortido do saudoso mestre Leopoldo j aos noventa anos de idade, o tira-gosto de Zeca, com o seu samba de mesa e serestas romnticas. Escutar a percusso de Roy e tomar uma cachaa curraleira.
Atualmente a moderna padaria Sabor Caseiro, com um sortimento de delcias ao seu paladar, o bares de Vinin e Joo com a cerveja gelada nos fins de semana e o estdio de Marquinho do Destak, sede da turma G4.


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Por Raphael Reys - 5/5/2011 18:13:17
CHAUFEUR DE PRAA

Em meados de 1950, falava-se em chaufeur de praa e a profisso conferia status j que o nmero de veculos em circulao pela urbe era reduzido, e os profissionais de praa, botavam banca!
O povo era pouco desenvolvido e andar de carro, considerada uma aventura!Da, alguns chaufeurs se tornaram verdadeiros don Juans. O fato se dava porque toda senhora casada que queria se vingar do marido procurava um chaufeur para faz-lo, dado mobilidade que o veculo conferia alm do natural e conveniente libi de tratar-se de uma passageira...
Predominavam os veculos importados, verdadeiras relquias do Romantismo. Packard, com Elpdio Dourado, Ford Sed, com David e Mrio, Oldsmobile com Geraldo Colares e Osvaldo Preto e Chevrolet, com Z Antonio.
Um Buick, com Jaime Estopa Suja e Jlio Antonio. O Ford Cup 46 de luxo com Leopoldo. Depois veio G Sanfoneiro com seu Ford Preto e a paixo por Asa Branca e Luiz Gonzaga.
Levando os nossos passageiros sempre bem vestidos para passeio, Joo Brejeiro com um Mercury, Lev Cheiroso com uma Sed Chevrolet Passeio, Marquinhos, Pedro Vieira, Hlio de Rocha, Z de Juca.
Havia tambm Jos Antonio, pai de Pedro Cantinflas, Zezinho Preto, Lev, Mrio Nortista, Ferreirinha com suas clicas de matar e Isuro, sempre muito alegre, que colecionava quarda-chuvas achados e cantava Ave Maria.
Alguns dirigiam caminhes como o L -16, o V- 8 e o Buldog.
Logo chegou a modernidade e Mariano era instrutor de direo, profisso que exerceram por cinqenta anos. A vieram os Aero Willys, as Rural Willys, Os Glaxies, o Simca Chambords, as Pic Ups, os Dauphines, apelidados de leite Glria, pois desmanchavam sem bater... Os Gordinis, e a populao j tinham acesso a financiamentos e os chaufeurs, passaram a ser chamados de motoristas de txis.
Dentre os instrutores de direo, destacavam-se ainda Alcebades e Moacir.
Quem conservava carro romntico era Jair Amintas e sua Baratinha Alem, Dominguinho Braga e o Impala, Oscar Gabriel e o Cadilac Rabo de Peixe, Lev Daltro e o Sinca, Romeu e o seu Itamaraty.
Muitos outros chaufeur que no citamos, por lapso temporrio de memria, ou por exigidade de espao, as nossas desculpas e o nosso respeito.


67196
Por Raphael Reys - 10/4/2011 16:25:27
SALVADOR II

Lembramo-nos, ainda, que o nosso Salvador (a grafia correta do seu nome era Yechu), descrito na crnica postada anteriormente, era um judeu fugido da Gestapo de Hitler, aqui chegado no incio da Segunda Grande Guerra, nos idos de 1939, era um mau jogador de damas e gamo. Quando perdia a partida se irritava e acabava desacatando o opositor. A galera levava isso na esportiva e jogava com ele era mesmo para irrit-lo e desafia-lo, homem frontal em tudo que fazia.
Gostava de tomar uma boa pinga da regio, que servia para seus convidados acompanhados de um bom tira-gosto de berinjela assada e gro de bico. Dos hbitos adquiridos na vivncia no deserto, sempre fervia a gua para o ch ou caf duas vezes.
Demonstrando a sua enorme resistncia e fora fsica, a fim de intimidar vizinhos inoportunos batia a cabea no poste de iluminao, naquela poca feito de madeira. Fazia isso repetidas vezes at que a lmpada afrouxasse e casse no cho, o que era festejado por ele e pela meninada que acompanhava a proeza.
Salvador era um alfaiate de mo cheia. Fabricava edredons, colchas, alm de palets e blazers. Costurava tudo mo, com agulha e linha, para ele uma terapia, pois gostava de ficar a ss com seus prprios pensamentos.
Freqentava o Bar Viena, de Willi, ponto de encontro dos estrangeiros residentes na nossa urbe. L, tinha uma mesa cativa que era chamada de ONU, local em que debatia com amigos inclusive poltica internacional, muitas vezes na companhia do judeu marroquino Willi, austraco, Jonhy Koravisky, polons, Jaroslav Rosulek, de nacionalidade russa, dentre outros.
Quando o assunto era a Segunda Grande Guerra, clamava por vingana e lamentava no ter tido a oportunidade de matar o carrasco Mengele com as suas prprias mos, exibindo-as crispadas e trmulas de emoo.
O advogado e escritor Leonardo Campos, neto de Sica Perez de quem Salvador era amigo ntimo, freqentava a casa do nosso heri africano e, habitualmente, comprava os seus Lps, verdadeiros bolaches de acetato que ali eram comercializados, resultado de acertos de alugueis atrasados com alguns inquilinos de seus prdios comerciais no centro da cidade. Comerciantes que vendiam discos e costumavam saldar os dbitos utilizando-os como moeda


67143
Por Raphael Reys - 5/4/2011 16:19:01
SALVADOR

O seu nome verdadeiro era Yoshua Rabib Perez, um judeu marroquino, vindo para o Brasil em 1939 durante a Segunda Grande Guerra, fugindo da Gestapo. Aqui chegou abarrufado de grana e se associou a outra famlia de semitas que tinham loja de mveis.
Foi morar na Rua Marechal Deodoro onde adquiriu um conjunto de 10 casas residenciais e uma grande propriedade urbana onde hoje est localizado o nosso Mercado Municipal e a rea comercial em volta do mesmo.
Dotado de temperamento explosivo, aguerrido e sincero, logo entrou em desacordo com muitos inquilinos. Acabou fechando as casas e ocupando, pessoalmente, a primeira delas. Por toda a vida manteve fechados os imveis.
Casou, constituiu famlia, desquitou, a famlia foi morar em Belo Horizonte e ele arranjou outra companheira. A sua moradia era simples, mveis toscos, apenas o essencial para viver. De hbitos frugais e disciplinados, habitualmente modestos.
Estatura mdia, caucasiano, careca, olhos esbugalhados, Salvador era ossudo e musculoso. Em Marrocos, onde nasceu e morou, foi de tudo: pastor de ovelhas, transportador de gua potvel pelo deserto. Dado a seu temperamento combativo, logo se alistou na Legio Estrangeira.
Personalidade explcita, no despachava para o bispo. A sua missa era de corpo presente. Falava o que tinha de falar, na bucha. Da ser evitado pela maioria das pessoas.
Como fora criado no deserto, aprendeu com bedunos a arte de fazer chs, infuses, remdios naturais, alm da aplicao de massagem e a prtica de ventosas. Tratava a todos, sem custos, a quem o procurasse.
Meninos, moradores na proximidade enchiam a sua casa para assistirem aplicao dos copos quentes no corpo dos pacientes. Era hilrio. Alguns gritavam, urravam e chegavam mesmo a verter urina pernas abaixo, sentindo uma dor imaginria...
Mestre cuca de mo cheia e bom de anzol, era requisitado por empresrios e polticos locais para tomar parte em grandes pescarias, quando, aps tomar umas cervejas se emocionava e tocado pela saudade do rinco natal cantava e declamava poemas de amor ao estilo campesino.
No quintal de sua casa, havia um pomar de frutas cercado apenas de arame farpado, sempre visitado pela meninada vizinha que surrupiava o produto para deleite da pana e a alegria em ter desafiado aquele pequeno, valente e irritado gigante do deserto...
Tico Lopes, ainda infante e aproveitando as sombras da tarde, um dia l subiu em um p para retirar duas mexericas. Salvador j estava de campana montada para surpreender os pequenos gatunos e com uma espingarda polveira municiada de sal grosso, num tiro certeiro acertou os fundilhos do nosso homem show e mestre benzefala.
Ao ver a queda do pirralho no solo e escutar a gritaria da vtima, Salvador vibrou de satisfao, incitando o seu co ao ataque:
- Acertei o F.D.P.! Pega Tup e acaba de matar!
Felizmente, a no ser o bom tempo em que Tico ficou sem poder sentar, no houve maiores conseqncias e nosso querido artista e show man, a est vivo e fagueiro, com mais esta boa histria para contar...


67091
Por Raphael Reys - 2/4/2011 06:55:52
MONTESCLAREADAS

Nos anos 50, meninos viviam soltando arara na Praa Coronel Ribeiro, ou tomando um Guaran Brotinho no bar de Nelson Vilas Boas. L, o notvel professor Pedro Santana bebia a sua cerveja casco verde e falava de filosofia platnica. Sempre bem vestido, sorriso comedido, gestos largos e teatrais.
Pela rua Doutor Santos, passava os blocos de carnaval de rua com Dona Afra Bichara fantasiada de baiana, estilo Carmem Miranda. Nos sales do Clube Montes Claros, a foliona Nice David desfilava como a Rainha do carnaval de Montes Claros. Lazinho Pimenta comandava o grito carnavalesco gritando: Evo folies!.
As festas de santo e de fogueira na casa de Malaquias Pimenta eram a bossa do momento. Mesa farta e uma pinguela feita de tronco de rvore servindo como ponte para a travessia at o Roxo Verde. Meninos e meninas liam o Almanaque Biotmico Fontoura, que ganhavam na farmcia de Cica Peres.
No bar do Tiano, no Mercado Municipal, escutvamos uma vitrola RCA VICTOR tocando em um bolacho de acetato Cauby Peixoto cantando... O amor uma prola rara/e tem a cor de um rubi... Comamos um pastel recheado s de vento quente e degustvamos o indefectvel picol gororoba de groselha (gua pura!) do Bar Sibria, enquanto Bi Mia e Carlcio Atade tomavam uma cerveja casco escuro.
Afonso Salgado bebia e o seu cavalo o vigiava pela janela, Dulce Sarmento tocava elegantemente em seu piano de cauda, Bigode de Arame passava arredio rumo ao seu quarto nos fundos do Cine Coronel Ribeiro.
Maria Babona pedia esmola pelas ruas carregando um filho no colo!
Tuia, o folclrico escravo ainda vivo, era visto chupando bico no seu quarto de madeira na redao do Jornal de Montes Claros. A elegncia de Benedito Gomes, Joo Atade, Joo Chaves e Pndaro Figueiredo vestindo ternos de linho S 120 branco. Joo Chaves de gravata borboleta e Pndaro com sapato bico fino duas cores, faziam sucesso.
Havia as bolachas tipo pastilha da padaria de Seu Tota, que grudavam no cu da boca, em frente ao estdio de Godofredo Guedes. Na poca, Pato era chamado P de Pato e Hlio Notinha j aplicava chaveta com figurinhas carimbadas.
Degustvamos os deliciosos salgados de Dona Zeny Priquitin, as caarolas italianas de Duca e Nazar. A laranjada queimadinha com bicarbonato ao lado da loja do russo, de Joel Stark.
As brincadeiras de Estrac Deixa, as brigas de rua com a turma de Odorico Mesquita no centro, de Z Doido e Capa Preta na Igrejinha, Gabilera no Alto So Joo e Tat Aquino na Rua Belo Horizonte. As guerras com caroo de mamona, estilingue feito de borracha de cmara de ar de bicicleta sueca.
Os roletes de cana caiana, as bicicletas novas na loja de Waldir Macedo, o lbum de fotografias com capa de madeira com a gravura de capa... Bem me quer, mal me quer...
A alegria das bolas G18 de capota e as peladas no campo de lama da rua Germano Gonalves, briga com o time do Alto So Joo, Cinzano tomado escondido s margens do rio do Melo. Canivete Corneta, isqueiro Ronson, alparcatas Roda, pente Flamengo, Gumex no cabelo, corte Prncipe Danilo, culos modelo Ronaldo, camisa Prist, botinha solado new life e o barulho sincronizado do motor do Simca Chambord. Um relgio Tissot Militar, meias Lupo, lana perfume Rodoro de metal, Aqua Velva no rosto, cheiro de sabonete Madeiras do Oriente. Camisas de gola bucl e banlon, garotas desfilando com modelos Bangu, picols Esquibon da caixinha, a marchinha de carnaval... Chiquita Bacana/l da Martinica/se veste com uma casca de banana nanica/no usa vestido/nem mesmo calo... E as balas de chocolate do bar de Adail Sarmento...
So tijolinhos que construram uma edificao de nome saudade!


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Por Raphael Reys - 24/3/2011 15:22:14
Outro final de tarde

Trafego "en passant" pela Avenida Sanitria e j ocorre o lusco-fusco do entardecer. A boca da noite tem uma atmosfera prpria de permeio ao clima abafado que a envolve. Acontece sem um significado maior quanto ao poder dissolvente do tempo.
Pela borda da esquina prxima aparece o crepsculo morno e sedutor como as mos de uma mulher. Nas caladas, estacionamentos, bares, restaurantes da moda j h uma suspeita de frenesi. Pelas ruas passam condutores apavorados, caronas tensas ora estticas ora se balanando como o boneco Joo Bobo.
Janelas esto abertas ao hiper-realismo que proporciona a noite. J circulam seres em busca de um calor e conforto etlico. Temporariamente reconfortante.
Atravs da transparncia da porta de vidro do salo de eventos vejo os pigmentos naturais em uma tela de Mrcia Prates. A arte sugere uma mstica mexicana de Frida e uma eventual magia de Somoza.
Sinto olhos atentos a observar a minha frgil alma plstica atravs da janela dos meus olhos com olheiras. Um sorriso de um quase afeto e um instante surreal. Doris Arajo traz na cabea uma tiara de flores artificiais e multicoloridas e canta uma rima potica.
Luis Carlos Per com sua bolsa de jaberrou e o boa praa Reinine Canela, assinam a noite com um sorriso de bem com a vida. Teo Azevedo musica e metrifica os poemas esquecidos do bardo Joo Chaves: Moreninha, Triste Recordao e Divino Mestre.
O sax Stein de Armando Cabeceira Marden Barros, chora lgrimas de metal e deixa ver e ouvir Stella by star ligth. Coloca a minha pobre alma plstica a navegar em blues...
Tininho Silva de cachecol e chapu malandro com seu sorriso mafioso escuta Astrud Gilberto cantar Doralice em um bolacho de acetato 38 rpms, sob o solo do saxofone de Stan Gets.
Pela avenida, ganidos de freios, reclames de camels e buzinas estridentes se misturam aos sorrisos afrescalhados e gestos leves de duas bibas que fazem trotoir na via quase expressa. Meus olhos acompanham o gingado de um bumbum que passa saracoteando sob a amplido das estrelas.
A noite tem mil olhos e as paredes mil ouvidos e o cncavo insiste em buscar o convexo!


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Por Raphael Reys - 16/3/2011 16:00:13
Rio Serraria

Transcorria o abastado ano de 1968 e no bairro So Jos onde morvamos vadivamos em turmas de adolescentes em incomensurveis festas as quais eram realizadas na maioria das vezes na laje da casa de Durval Dures e Margarida Barbosa. Os piqueniques nos fins de semana aconteciam em nossa fazenda no Rio de Peixe, s margens do So Lamberto.
As caadas e pescarias que fizeram histria eram sempre nos fins de semana e feriados prolongados tendo como palco a fazenda de Tio Souto e Onofre Esprito Santo, no municpio de Jaiba.
amos os casais de namorados e ramos recebidos por Onofre, nosso vizinho de bairro aqui nos Montes Claros e companheiro de trecho, aventuras e dois dedos de prosa beira das fogueiras.
Tempos de fartura, de Jovem Guarda, de Beatles.
As armas e a tralha de pescaria eram transportadas na caminhonete de Waltim Coutinho, um cabeceira sempre frente nas aventuras. Companheiro de toda hora, Walter estava presente e a disposio para o que desse e viesse.
Na viagem, passvamos pela fazenda de Mrio do Umbigo, irmo do prefeito de So Joo da Ponte, onde curtamos o dia com mesa farta boas cachaas, muita conversa jogada fora e exerccio de tiro ao alvo com revlveres, atividade que o Mrio adorava! Hoje o local o povoado de Marilndia, em sua homenagem.
porta da fazenda de Tio Souto, duas lagoas garantiam a fartura com marrecos, ariris e patos em abundncia. Muita mata fechada, pastagem de colonio para o gado de corte, um calor sufocante que propiciava at gestao de mula.
O Rio Serraria formado de trs cursos secundrios de guas e estando no alto do morro, dava para vislumbrar as margens do velho Chico, ao longe.
Rio de guas fortes com corredeiras, pescaria difcil usando redes e melhor ainda com o uso do anzol com caote para apanha dos dourados nas corredeiras. Grande quantidade de cobras venenosas descendo o rio fazia com que se tivesse um atirador de planto posicionado em uma elevao. Uma cartucheira Boito 16 mocha sempre pronta para o disparo certeiro de Onofre, exmio atirador.
Certa tarde, um fazendeiro vizinho mandou uma encomenda solicitando o abate de uma vaca. Queria o fgado inteiro e uma banda da criao, pois estava para receber a sua famlia que residia em Belo Horizonte naquele feriado longo.
O fgado e a banda dianteira foram postos em sacos de estopa e amarrados na garupa de um cavalo. O vaqueiro encarregado da entrega refugou a viagem j na boca da noite, alegando o perigo de se deparar com uma ona na campana, mas acabou indo, pois no havia outro peo disponvel no momento.
No deu outra! Em certo trecho beirando a cerca, com precauo, a pintada deu o pulo e arrancou os sacos com a carne, deixando o traseiro da montaria rasgado pelo sulco das suas garras afiadas.
O vaqueiro conhecedor do terreno saltou da montaria, pulou a cerca sob a luz da lua e se refugiou em uma pequena ilha, no centro do rio.
Tarde da noite samos montados a cavalo com uma patrulha organizada. Pela manh o localizamos e o avistamos todo enregelado nas folhagens da pequena ilha. Deu trabalho para tir-lo de l. O homem estava em pnico e recusava-se a dispensar a segurana do local.


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Por Raphael Reys - 10/3/2011 14:33:02
O mundo composto!

Homero relata que os deuses tecem desventuras para que os homens, nas geraes vindouras, tenham o que contar. Arremata o corretor Geraldo Mundial que o mundo composto. Tem que ter de tudo um pouco.
Aqui em Montes Claros, terra do fruto amarelo e capital da recente Repblica do Pequisto, acontecem coisas que at Deus duvida!
O grupo musical Prego de Linha, nos bons anos 70 foi animar um evento na vizinha cidade de Glaucilndia. Durante a viagem, encheram o pand de cachaa branquinha. Chegaram ao destino campesino pela manh, vestidos moda hippie, recendendo a aroma de ba velho, cheios de babilaques e rumaram para uma escola pblica onde solicitaram na Secretaria uma sala para a turma de bebuns dar uma morgada antes do show. Como dizia o saudoso Z Amorim: roncavam e babavam feito porcos. Logo, chegaram escola algumas professoras que desconheciam a cesso da sala para servir de dormitrio aos msicos.
Ao se depararem com aquela corja de cabeludos roedores de pequi, bufando e empestilando de bodum o ar que respiravam os justos, chamaram um policial para botar ordem na casa e escorraar aquelas figuras xexelentas e indesejveis!
Chegou um policial militar, ajumentado no tamanho e nos gestos. Aproximou-se daquele que roncava mais alto e deu uma bicuda com o bate-bute na sola do p do infame, totalmente entregue aos braos de Morfeu.
Como dizia Shakespeare, o pesadelo tem nove potros. O agredido abriu os olhos supondo ser aquela uma fase dantesca e onrica do sono e foi logo indagando: Est dando um baculejo xar? T tendo uma viso, meu camarada!....
Tomando conscincia de que a via de fato era real e em cores, foi logo falando em cima do pedido: D uma olhada na minha brisa, cara! V se eu to dando alguma bobeira e saca direitinho, meu!.
A o militar perguntou o que eles estavam fazendo ali deitados, esparramados de todo jeito em uma escola pblica. O interpelado respondeu na bucha: Ns estamos na maior, Cear! Todo mundo cado de bolso!....
Em seguida, vendo o msico Tico Lopes deitado ao seu lado com os olhos esbugalhados de terror, falou no ato: Veja s, cara! Quando vi esse meganha ajumentado me chutando, pensei que estava fazendo a maior viagem a Katmand!.
E arrematou, finalizando: ... Parece que a morgada deu o maior bode!.


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Por Raphael Reys - 8/2/2011 07:51:44
NO QUINTAL!

L pelo meio dos anos 80, Ricardo Pop assumiu a direo do Restaurante Quintal, sucedendo ao restauranteur nio.
Uma nova fase no etlico espao diuturno de Moc City. Com o novo dono, veio junto s armas e bagagens a cachorrinha Pretinha, guardi do pedao. Mostrando servio, ela no deixava estranhos adentrarem no recinto.
Nessa fase da noite montes-clarense que comeou a formao das chamadas mesas de diretoria, que agrupavam turmas de amigos. Costume que se estendeu at os dias atuais. Outra moda da poca eram as chamadas listas dos nibus dos chatos de galocha, uma inveno do saudoso Afonsinho.
Nelas, os nomes dos freqentadores da casa, em uma projetada viagem, dispunham apenasmente de passagem de ida. O destino e parada final, sempre era tenebroso: Biafra, Guin Bissau, interior do Piau ou a cidade de Andirobal dos Crentes, no Maranho. Chegavam ao requinte de colar foto dos participantes em uma maquete!
Dentre muitas mesas de diretoria, havia a de Maro, nosso querido prefeito. Nela, figuravam Odorico Mesquita, Cludio Athayde, Cabeludo, Antonio Abreu, Geraldo Ren, Vicente Pozim, Waltin, Pancho, Tico Lopes e muitos outros.
Da funa que circulava entre as mesas, tinha um jornaleiro mudo e Maarico Santiago, vendendo suas rifas ilustradas e bilhetes de loteria.
O notvel esculpio, poeta e escritor Joo Vale Maurcio, um freqentador, l tomava o seu uisquinho. Enxaguava o peritnio e, relaxado, dizia: Mais t numa tranqilidade!...
Como os tempos ainda eram romnticos, um final de tarde adentrou ao recinto um estranho. Pediu licena para subir no p de carambola. Arrancou dois frutos maduros, sentou-se sombra da rvore e os degustou chorando.
Indagado pelos presentes sobre o motivo daquelas lgrimas, relatou que ali, naquele local e em outros tempos, ocorreu o primeiro encontro com a sua mulher amada. E justo ali, naquela mesa, comeram carambolas e juraram amor eterno!...
Veio a mo do destino e a musa o abandonou ao Deus dar! Aquele momento de recordao era muito importante para ele...


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Por Raphael Reys - 2/2/2011 09:50:40
MONTESCLAREADAS

Nos bons 1960 vivamos na larga e ainda no tnhamos a dita dura a endurecer nossas vidas. Leonel Beiro, empresrio no ramo de funerria e reclames, cabo eleitoral e lobista poltico do PSD, a agitar pela cidade, notadamente onde houvesse aglomerao falando de poltica. Seu universo!
Ai, ele encontrava repasto grosso, entrava na briga por votos para o seu candidato e quase sempre o embate terminava em ameaas ou em via de fato. Acontece que Leonel no despachava para o bispo. A sua missa era de corpo presente!
Cabo eleitoral era propagandista dos reclames com sua famosa Boneca de Leonel. Era tambm garoto propaganda de uma cervejaria que promovia a venda de casco verde. Convidava os populares a beber de graa com ele e o botequineiro recebia de paga do fabricante duas garrafas por cada garrafa consumida na mesa, ou no balco do estabelecimento.
Quando embriagado, falava aos gritos e chamava a ateno de todos pela sua boca porca. Como a sua funerria atendia a todos os convnios em voga, muita gente morria de inveja em v-lo com os bolsos cheios de grana. Resultado do seu trabalho honesto!
Os invejosos e inimigos polticos, conhecedores do seu estopim curto e temperamento irritadio, para aporrinh-lo aplicavam trotes telefnicos s altas horas da noite, o acordando e o aulando, ao descobrir o mico.
Ligavam e quando ele atendia perguntavam: defunto sente frio? A resposta era sempre um improprio, seguido de um repertorio de palavras no publicveis. Doutas feitas, perguntavam: defunto na janela molha a rua? Ai, ele dizia o que o defunto molhava na me do interlocutor...
Numa noite, o co estava solto e aps uns dez trotes Leonel atendeu a mais um telefonema e j enraivecido respondeu: do Corpo de Bombeiros! Um instante de silncio, e do outro lado, em espirais metlicas: aqui que do corpo de bombeiro! Quem fala aqui o Tenente Felix! Deu qiproqu com as resposta de Leonel.
Logo Leonel nomeou Dim Lampio para atender noite evitando o estresse e a insnia provocados pelo desgaste dos trotes. Houve um telefonema a meia noite e Dim negociava um caixo de luxo com um suposto comprador que a pedido do mesmo, acordou Leonel para dar o desconto final. Do outro lado do fio a voz aplicou um trote.
Leonel arrebentou o telefone e foi para a cama j com insnia. Na manh seguinte, ao abrir as portas da funerria, uma senhora do povo o esperava e foi logo falando: Vim aqui pedir um enterro de graa, para um menino de uma vizinha que no tem condies de custear as despesas.
Leonel, coando a cabea respondeu: na hora de fazer o menino vocs no me chamam. Na hora que morre Leonel que enterra de graa!


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Por Raphael Reys - 26/1/2011 15:31:47
Apenas um final de tarde

Num final de tarde, circulo como um cronista voyeur pelos fundos da Cooperativa e vejo sentado num banquinho no janelo do Bar Sibria o boa Praa Joo Jos, tomando uma gelada e degustando como tira-gosto um morango curtido na cachaa branquinha. O agrnomo Reinaldinho, que dos Viriato e o arquiteto Casco, que dos Mota, comem espetinhos feitos no capricho.
Mais adiante, Arnaldo Brant, srio como sempre, fala de gado nelore e Wanderley Lopes conta o causo de Joo de Quirino, quando encontra Sinval Amorim depois de longo tempo sem se verem: Uai compadre! Pensei que oc j tinha queimado o fuzil...
Wilsinho, sentado porta do hotel, dialoga com o pecuarista Manoel do Bandeira 2. Gesticula, rilha os dentes e fala mal do atual sistema poltico. Uma discusso sem fim e tudo fica como dantes no quartel de Abrantes...
O empresrio cash and hand Antonio Barreto, passa miudinho, no alto dos seus noventa anos, dirigindo um carro zero sem placas. Onofre Burarama trafega sempre com seu sorriso conciliador e de paz. Gerinha Portugus, uma lenda viva, vocifera improprios, fala de Schmidt and Wesson e de bala dundum.
Mostra o seu brao costurado como uma colcha de retalhos e o trax, cheio de pitombadas. Linco Mesquita, quase no circula mais pela city. Deixou a barba (j grisalha) crescer ao estilo profeta do milnio e agora navega no Facebook escrevendo reflexes e saudades.
Patrcia de Paula, morando nas Alterosas com os seus olhos lindos e de puro encantamento, agradece o abrao que mandei. Geraldim Alcntara (completadas 73 bem vividas primaveras), cabelo pintado na cor prata, avisa que s 7 horas da noite j estar dormindo. Gosta da companhia de Morfeu, o deus do sono e dos cansados.
Voltou dos States trazendo uma cmara digital para Arnaldo Maravilha e ainda toma caf com beiju e pita um cigarro de palha industrializado.
Chico Lopes, o conhecido cirurgio plstico, cheio de energias, fala das suas esculturas em cermica e apresenta uma tela em art naife com um gato estilizado. Aroldo Pereira, calvo como um personagem mgico de uma histria infantil, circula apressado preparando o seu Psiu Potico.
Luiz Carlos Novaes, o Per, recm chegado das frias, um pouco mais gordo e todo queimado de praia, mantm o sorriso e j toma uma branquinha de leve.
Jerry Alfaiate continua se recuperando em casa e o tititi da galeria esquenta com Zezo Relojoeiro e Juninho de Salvador (esse dose)
(Tm o sorriso torto de gato que comeu o canrio do vizinho). Z Mariani (j recebida a herana to esperada) circula com os seus olhos esbugalhados procurando algum, como agulha em palheiro, para conversar miolo de pote.
Zizi Rocha anda pelo Quarteiro do Povo com o manequim em postura dextro-convexa, lanando interjeies com a sua voz taquara rachada. Z Romualdo, vestindo uma boa camisa de seda, passa com os seus 85 anos e s alegria de viver.


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Por Raphael Reys - 25/1/2011 13:18:18
MARIANA

Somente agora, neste janeiro quase imprevisvel de sol claro e guas esparsas que fiquei conhecendo, bem de perto, os doces olhos de Mariana! Ela bem poderia se chamar Maria Clara, em contraposio sua irm Ana Clara, mas ficou bem assim como Maria Ana...
Rostinho redondo de lua, bem parecida com o pai, Tico Lopes.
Mediana, alva, cabelos negros azeviche, olhar atento e contemplativo, tem uma voz agradvel, levemente rouca, sonora, quase introspectiva.
A vibrao da sua fala se estende e penetra nos nossos coraes. Veterinria por formao profissional militante protetora dos animais. Lida com um abrigo para os nossos irmos ces e gatos e para no dizer que no falei de flores... Mariana devota do povorelo Francisco de Assis.
Assim, poderia ter o nome de Maria Clara, homenageando Santa Clara, irm de Francisco, o santo protetor dos animais.
Vim conhec-la melhor pela rede facebook, onde fala de emoes e dos nossos irmos ces e gatos... Prope, mesmo, junes de amor entre estes seres.
No p esquerdo, mostra orgulhosa uma tatuagem de trs estrelas com as leras MEL, como se fora uma retribuio de tanto amor que recebe. Dorme com Mel enrolada na sua perna, por cima da tatuagem com seu nome.
Levei Mariana para conhecer os ritos iniciticos no Vale do Amanhecer, sob as bnos de Francisco de Assis o Povorelo. Sem o querer, agora ela prata da casa.
Ao chegar ao templo, foi recebida pela energia da lua cheia, manipulada no ritual de Alab. Ficou tonta ao sentir tanto alento e ver pela primeira vez as Ninfas missionrias Ciganas e Nitiamas com suas indumentrias multicoloridas.
Pensou se tratar de ternos de catops e acabou recebendo as bnos do povo oriental. L, reviu vrios amigos e fez novas amizades. Assustada, no bebeu das guas da cachoeira de Iemanj.
beno Mariana, filha de meu amigo Tico Lopes, Maria Ana, to clara como Clara de Jesus.



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Por Raphael Reys - 21/1/2011 05:58:36
PELO TELEFONE!

Com o advento da famigerada represso de 1964, vrios cidados montes-clarenses, embora inocentes, foram denunciados por dedos duros locais. Uma parte se refugiou em locais distantes e no sabidos. Dentre eles, o notvel comerciante Rui Pinto.
Na toca da Quinta Coluna e saudoso do arroz com pequi, cachaa Viriatinha e dos amigos de copo e de cruz, deu um interurbano para o Bar do Zimbolo, point no centro comercial, pedindo notcias. Vai a o dilogo esclarecedor:
- Al! o Zim Bolo? Sim! Quem fala aqui o Rui Pinto. Fale baixo a viu! Certo! Pensei que voc tinha morrido caro amigo! No, t vivo! Como vo todos por a? E a turma? - T tudo sem novidades. Mas, onde que voc est mesmo? Rui, desligando o telefone: Sai fora!!!!
Belm, garom do restaurante Intermezzo, atende ao telefone:
- Restaurante Intermezzo! Bom-dia, senhor! Aqui da Fbrica de Cimento! Ben, respondendo sem entender: Aqui do Intremezzo, mesmo!... E desligou. Era a secretria da empresa, objetivando contratar, para o staff, um almoo comemorativo do aumento de produo da indstria cimenteira.
O empresrio e deputado estadual Lezinho Lafet, atendendo ao telefone entrada do seu Cine Teatro Ftima: Al! Donde fala? do Cine Ftima! - Quem ta falando? Lezinho. Qual o filme de hoje, seu Lezinho? A Ponte do Rio Que Cai!...
Doutra feita, no dia da inaugurao do seu cinema, lia num cartaz exposto entrada do salo o nome do filme e o nome da companhia produtora do mesmo, medida que informava aos espectadores que telefonavam: - Al. do Cine Ftima. Quem fala Lezinho! Qual o nome do filme de hoje, seu Lezinho? O Cristo de Bronze! E bom mesmo? bom, demais! da Vinte Tag Centri F Xis!...
Sabedor de que o empresrio do ramo de funerria, Leonel Beiro de Jesus, era irritadio e tinha o estopim curto, a galera batia um fio: Alo! da Funerria Leonel Beiro? ! Quem fala? Leonel! - Me diga, seu Leonel: defunto sente frio? Quem sente frio a P.Q.P. seu F.D.P!
Filomeno Bida, saudoso corretor de imveis, que havia viajado at de disco voador, passando pelo Quarteiro do Povo, atende um telefone-orelho que chama insistentemente. Era uma pessoa de So Paulo, que ligava aleatoriamente, buscando contatar o prprio Filomeno Bida para negcios.
- Al! Esse telefone no centro de Montes Claros? ! Aqui de So Paulo. Estou precisando urgente entrar em contato com um corretor de imveis conhecido como Filomeno Bida. O Senhor o conhece? Est falando com o prprio!


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Por Raphael Reys - 15/1/2011 05:35:02
MOMENTOS CAMPESINOS

Os fazendeiros, coronis e manda-chuvas do Brejo das Almas, vez por outra promoviam uma festana para a populao.
O ponto alto do evento popular era a uma missa celebrada pelo Padre Augusto. Gente local em uma grande fila com mes e rebentos para receberem o sacramento do batismo. Os coronis e fazendeiros quase sempre eram os padrinhos. Muitos dos quais o prprio e omisso pai da criana a ser ungida...
Chegou a vez de certa menino e o proco que checava a lista e fazia a chamada para a pia bastimal, perguntou: Qual o nome do moleque? Fulano! E o nome do pai ? A me vacilou, pois o gerador legtimo era o padrinho que se encontrava ao lado.
O sacerdote irritado com a demora da resposta aula a me: Qual o nome do pai do menino? O fazendeiro/pai/enrustido, que atento assistia ao dilogo apertou o brao do oficiante e rilhou entre dentes: A sua misso batizar e no ficar perguntando coisas indiscretas! Batiza logo, si!
O seguinte da fila era um menino de cor. Racista e estando irritado com a interferncia do coronel, o padre perguntou me: Qual o nome do negrinho? Primo! - Qual ... Nome de negro Ambrsio! Em seguida, anotou no batistrio: Ambrsio.
O menino, personagem do primeiro batizado ficou conhecido como Antonio Branquinho. J adulto e dono de terras, consta que foi pressionado por conhecido fazendeiro e grileiro de propriedades rurais. Num bate boca acirrado com o invasor, partiram para a via de fato e Antonio lhe meteu uma cadeirada.
Dizem os comentrios boca pequena, que o nosso Antonio, em razo do acontecido, foi vtima de uma emboscada, tendo sido assassinado pelo pistoleiro Chico de Bela.
J o Z Braga, sacristo de Aparecida e estando a igreja abandonada aps quatro anos de inatividade, organizou uma festa religiosa com celebrao de missa. Ao acender as velas do altar, o calor gerado ps para correr os escorpies que infestavam a madeira oca e um bitelo lacrau, fugindo do calor, subiu pela sacristia. Assustado, Padre Gangana gritou: Mata o bicho, Z! Supondo tratar-se do habitual, na hora Z apanhou o clice de vinho da sacristia e entornou...
Douta feita, o dito sacerdote no compareceu para celebrar uma missa encomendada por Capito Enas. Padre Silvrio o substituiu. O capito mandou assar uma pequena leitoa para presentear o zangado Gangana.
Visando a entrega do petisco suno, o Capito chamou Z da Serra, sapateiro por disfarce e pistoleiro por direito e que se encontrava mais prximo. Vai a o dilogo dos dois: Z, voc conhece o Padre Gangana? No, mas j t com raiva dele!


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Por Raphael Reys - 10/1/2011 07:12:46
ROQUE BRAVO

Roque tinha a aparncia de um guerreiro mongol, corpulento, barriga grande e dura, bigode assustador ao estilo mexicano, braos grossos, e andava e gingava como um lutador de sum. A sua cara fechada impunha respeito. Dava medo primeira vista.
Trabalhava na expedio da Fbrica de Cimento, onde circulava impune, sem ser cobrado. Na fila marcando o ponto, passava sozinho, ningum ousava esbarrar no gigante. Dele contavam-se histrias de valentia e brabeza, de coragem suposta.
Citava-se ter ele em certa ocasio, amarrado a sua famlia na cerca de arame que circundava o seu barraco, tendo ainda os espancado, a golpes de pirata.
Um exerccio de sobrevivncia de um bruto, que com isto mantinha os seus vizinhos afastados, todos o temiam.
No ptio da expedio, s fazia o que queria; dormia aps o almoo sem ser incomodado pelos chatos de planto: Entretanto, a carreira do cavalo curta! Joo Bosco o escolheu para ser o primeiro carregador de vages no ptio de manobras e embarque, recm-inaugurado.
Treinaram bastante o movimento de apanha dos sacos na esteira rolante e o empilhamento dos mesmos nos vages, que tarde, esquentavam a mais de quarenta graus. S foram escolhidos os fisicamente fortes. O servio exigia.
Roque, entretanto, era um frouxo disfarado! Aquela cara era para afastar os possveis agressores, pois o homem era um frouxo que havia construdo uma torre de marfim, em que se escondia de possveis e imaginveis situaes embaraosas. Ao ser convocado, sentiu o drama e tentou sair fora, mas no conseguiu. Havia sido escolhido para servir de exemplo para a peozada. A sua sorte estava lanada.
Nos primeiros vinte minutos de ensaio carregando sacos de cimento sados da bica ainda quente a quarenta e cinco graus ambiente, Roque ficou tonto em vez de voltar aps o empilhamento saiu pela porta lateral do vago, que era usada para ventilao tombando, a grande altura no vazio e no ptio o seu corpanzil. Arrebentou-se todo. O homem no era nada do que se mostrava!
Desmoralizada a aura de valente, no dia seguinte, ao entrar na fila para marcar o ponto, o Willian da cantina, que vinha logo atrs, passou a mo no traseiro do Roque e ele, para surpresa de todos, que aguardavam uma reao violenta, disse: queta com isso moo! - deixa de passar a mo no meu traseiro - no brinca que eu no gosto!
Estava destruda a torre de marfim! Da para frente gozao foi tanta que no respeitavam nem mesmo a sua marmita de comida. O Roque no teve sada! Pediu demisso e se mandou da cidade.


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Por Raphael Reys - 3/1/2011 14:50:23
A VERVE DO Z AMORIM

1970. Um bando de meninos pestinhas dos ps rachados, oriundos da favela que se formava nas olarias do bairro Interlagos, praticava danaes nas imediaes do trevo da Cowan. Dentre as traquinagens prediletas estava a de quebrar o vidro do medidor de energia da Cermica Cowan.
Z Amorim, ento diretor comercial da empresa, irritado com o constante repeteco do fato, quebra, conserta, quebra, conserta, desabafou com Diu Colares: Se eu pegar um menino desses, vou cortar de gilete e botar de molho na gua com sal! Pura valentia inofensiva de um timo corao...
Quando era proprietrio do restaurante Espeto de Ouro, Z observava o notvago Dao Cabeludo saborear uma lauta refeio. Terminado o repasto, Z chama o garom Belm e solicita limpar a mesa. Logo ao verificar que no haviam sido deixadas sobras de comida, rilha os dentes, dizendo: O fdp no deixou nada nem para o risoto!...
At o incio dos anos 60, o nosso heri no conhecia nenhuma estrada asfaltada. Viajando com o empresrio Moacir para Salvador e j prximo capital baiana, se deparou com uma pista pavimentada. Z pediu parada, desceu, agachou, tateou com a mo a beira do capeamento asfltico e disse jocoso: ita fita isolante de primeira!....
Nos idos dos anos 70, o agrimensor Paulo Moreno estava por cima da carne seca e guardava dinheiro na gaveta do seu escritrio. Sabedor do fato, o Z foi acompanhado de Quintiliano Maia para verificarem a veracidade da informao. L chegando, sacaram os pacurs de notas enquanto ouvia o Paulo relatar o seu sucesso profissional e uma projetada viagem de frias ao exterior.
Para homenagear as presenas, o agrimensor pediu sua secretria que servisse caf capuchino aos visitantes. A, o Z Amorim chamou Quintiliano parte e falou a baixa voz: Quem diria hein Maia! Um fdp desses, um medidozinho de lotes botando banca de rico!....
Internado para uma cirurgia no Hospital Santa Terezinha e j estando devidamente raspado e higienizado para o ato, recebe a visita de I Higino. sua maneira particular, teatral e tragicmica, o nosso Amorim faz uma descrio da sua impresso a se ver nu, em p e todo depilado na genitlia: Fiquei parecendo uma garrafa em p!
Recm casados, dois pombinhos tomavam sorvete na Cristal. Ao ver a cena romntica o Z os abraou por trs e falou no ouvido do marido: Se voc falhar, nego veio, eu mando te castrar!.
Convidado para passar o fim de semana em uma manso do megaempresrio Walduck Wanderley, Z, sentado confortavelmente em uma sala, observava pelo janelo de vidro vrias modelos contratadas que se divertiam nuas na piscina. Walduck chega porta e fala: Vamos almoar Z! Agora no, chefe! S daqui a pouco, pois na situao que eu estou no d para descruzar as pernas!...


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Por Raphael Reys - 31/12/2010 13:35:03
O NARIZ DE MADEIRA

Dentre as inmeras serventias do nariz, uma delas est a de cheirar o fruto do cerrado, o pequi. Aqui em Montes Claros, certamente o lugar onde o notrio nasal se faz mais atuante. A nossa marca registrada, a boalidade campesina, nos induz a viver na lei do simulacro.
Na porta do extinto Bar do Edson Barro, no centro comercial da cidade tinha rico que dizia criar 5000 cabeas de gado, entretanto, no tinha grana para pagar a conta do aougue na esquina de sua casa e nem o cafezinho que bebia no balco do bar.
Outro bazofista desfilava com cala de veludo, botas Agab cano longo, chapu de massa aba larga, canivete na cintura, tales de cheques (sem fundos, ou sem folhas) sobressaindo no bolso da camisa e, vez em quando sumia do mapa! Internava-se em hospital psiquitrico na grande BH. Endoidava por no ter como pagar o que consumia.
A o caso famoso de um notrio tocador de saxofone, que em 1962, partiu de mudana definitiva para o USA, onde participaria do circuito internacional do jazz, Saint Luiz, Nova Orleans. Foi tocar com Gato Barbiere, a bossa nova de Stan Gaets, e para acompanhar Ray Charles, na montagem de Eleanor Rigby.
Pensvamos nele a navegar in blues ao longo das margens do Rio Mississipi.
Mandava notcias de supostos festivais na Europa, consertos do seu Jazz-band na animada Chicago. Na verdade a quarenta e quatro anos tocou como msico de intervalo em botecos, restaurantes, e quebradas noturnas da grande BH. Donde nunca saiu mais gordo! Deixou a nossa usina de sonhos, a fabricar e ver navios!
Casais programavam e projetavam a vista de todos, e em lugares da moda, frias na Europa, e passavam em fazendas de conhecidos ainda no Norte de Minas. Voltavam queimados do sol tropical de um pas grande e doido, e falavam nas praias da Grcia, quando estavam na roa em Miralta, na Ermidinha...
Relatavam terem estado na buclica Jerez de La Frontera, na Espanha. Na verdade, trocavam Paris por Pats, Londres por Lontra, Japo por Japonvar.
Estes hbitos de falsos coloridos pavnicos ainda imperam na nossa city curraleira, Capital Internacional do Pequi. A maioria aqui vive de roupagens fabricadas para vestir o ego. Sofismo e prtica da erstica (A arte de vestir e conduzir inverdades).
Alguns dizem ter mudado para BH, onde compraram a vista um grande e luxuoso dplex (que se encontra sempre em reforma) em bairro nobre. Outro dia descobriu-se um desses por uma manobra do acaso. Localizado com a famlia no final do Bairro Cu Azul, morando em barraco de fundos, onde ensina violo para suburbanos. Quando esto por aqui, vestindo ainda as roupas que guardaram dos tempos das vacas gordas, deitam falao de dinheiro e mais dinheiro.
Quando esto de passagem e perguntados onde esto os seus veculos importados, respondem que os deixaram na reviso nas concessionrias especializadas em Curvelo.
So os Narizes de Madeira dos Montes Claros! De frias, para votarem, festas de Agosto, rapidamente acompanhando algum velrio familiar; cressem o nariz de madeira e contam vantagens extradas de suas imaginaes. (saram do mato, mas o mato ainda no saiu deles). Como a maioria hoje em dia vive de simulao, h uma tolerncia recproca entre os que praticam o exerccio de alongar o nariz, e os que esto aprendendo ou se adequando arte.
Alguns so to bons, que tomam at dinheiro emprestado em agncias de bancos locais, e os coitados dos avalistas pagam conta nas ultimas, com terra desvalorizada, as quais foram recebidas como herana. Quase sempre produtos de esprio.
Viva a curraleiragem!


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Por Raphael Reys - 26/12/2010 09:19:08
A ARTRIA

Nos anos 50, Montes Claros era uma mistura de romantismo da roa, personagens do coronelismo, poltica de currais, medo, preconceito e subservincia religiosa. A Rua Doutor Santos, o centro nervoso da rea comercial, destacava-se como a principal via de circulao da cidade, por aonde todos iam e vinham.
Pavimentada em parte com paraleleppedos, que permitiam o estrepitar dos cascos das cavalgaduras rumo ao Mercado Central, por ela trafegavam deselegantes Ford Bigode e suas buzinas fon-fon, Virgnio Preto montado em algum alazo, Neco Santa Maria e os seus culos modelo Ronaldo, Joo Athayde, sempre apressado, elegantemente vestido com terno de linho branco S-120, Deba de Freitas, destemido e temido coronel poltico, dono de muitas terras e currais. Muitas pessoas, ao v-lo na rua, por respeito e temor mudavam de passeio. A qualquer hora, no se sabe vindo de onde, podia irromper um tiroteio entre componentes de partidos rivais ou pistoleiros a servio dos mesmos.
Vei da Lil e Ezupero ferrador, o famoso Bigode de Arame, eram os representantes da fauna campesina, quando as crianas ainda beijavam a mo dos coronis em sinal de respeito!
Pela via circulava o hoteleiro Juca de Chichico, com panca de artista de Roliude, alegre, brincalho. A garotada, ao v-lo, gritava: como vai, seu Juca! Com gestos engraados, ele respondia: que aperta e no machuca! Tambm Manoel Quatrocentos, com sua caminhada curta, gestos rpidos, raciocnio preciso, sempre vestindo roupas de muitas cores, meninos com suspensrios e meninas de boina nas suas bicicletas suecas.
Quando chovia, caminhes atolavam no lamaal da Praa Coronel Ribeiro, um pouco acima. Aos domingos, desfilavam elegantes senhoras com xale preto no ombro, portando teros de prata e missais, nos seus longos e elegantes vestidos confeccionados em tecido estampado da Bangu, no atelier de Mercs Prates, o must da poca, dona da Imperial Lojas.
Elas usavam grandes brincos balangands, broches e pulseiras em cco e ouro, num contraste com a rapaziada do Bairro Sess, hoje Santo Expedito, passando descalos e com os ps rachados.
Teresinha Bom Bril, bonitinha e espalhafatosamente trajada moda dos grandes sales das metrpoles, na verso tupiniquim, caminhava por toda a extenso da rua, distribuindo simpatia e atraindo clientes para o seu lupanar de luxo.
Em cada esquina, grupos de conhecidos trocavam dois dedos de prosa. Apreciavam os pastis da Leiteria Celeste e bebiam cerveja casco verde no bar do Nelson Vilas Boas.
Viam-se caboclas com seus cabelos espichados base do pente de ferro, esquentado com um aparelho de solda conectado energia eltrica, ou mesmo no braseiro. Sem contar Leonel Beiro, com sua charanga e a grande boneca, fazendo reclame, que assustava a meninada.
Duas vezes ao ano, um ringue de madeira era armado na Praa Coronel Ribeiro para o festival de lutas de boxe. Na refrega principal, brilhava nosso Lenidas Halterofilista, enfrentando Lero Reis, o Gigante Branco, vindo do Rio de Janeiro. Nas preliminares, apresentavam-se lutadores novatos que criavam o clima e ajudavam a esquentar o nimo da platia.
No bar de Tiano, na esquina do Mercado Municipal com a Praa Doutor Carlos, uma velha eletrola RCAVictor de corda, movida manica (manivela), tocava canes de Chico Viola, Dalva de Oliveira, Emilinha Borba e tangos de Gardel, enquanto cabos eleitorais do PSD e do PR tentavam conquistar novos eleitores.


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Por Raphael Reys - 21/12/2010 11:30:23
DOIS CES DA ROA

Diz o dito popular, que o co o melhor amigo do homem. O poetinha Vinicius de Morais, emrito notvago e apreciador de um bom scotch, fazendo uma analogia entre o co e o usque afirmava que o usque um co engarrafado... J Jack London, o famoso escritor norte americano do incio do sculo passado, escreveu O Apelo da Selva, uma homenagem a um co de nome Bruck.
Conto aqui um causo de um co nascido na Tiririca e que era a prpria malandragem canina. Criado em porta de boteco da roa, conhecia as treitas e suas adaptabilidades. De nome Xexu, era branco e preto, orelhas murchas, mestio. Meio pedra, meio tijolo! De to sabido que era, dormia como coelho, com um olho aberto, outro fechado.
Cachorro gluto, sendo o seu dono sovina, se mantinha de barriga cheia surripiando ovos caipiras no quintal da casa. Dava o maior prej para o roceiro, que andava atrs de soluo para acabar com a mania do Xexu em comer ovos.
Certa feita, um amigo de copo e de cruz lhe ensinou uma maldade para ser feita com o co que levaria soluo do problema. Consistia ela em manter o animal trancafiado por um dia e uma noite sem alimentao. Findos os quais, se ferveria um ovo inteiro que seria servido ao animal, em seguida, ainda soltando fumaa.
O dono sovina, seguindo instrues do amigo malvado, ofertou o ovo em ebulio ao seu co que o abocanhou. Ato seguinte segurou-lhe as mandbulas forando, assim, o Xexu a queimar a goela.
Esperava, com essa rude lio, que o bicho viesse a partir de ento, a ter medo de ovos, cessando, portanto o seu prejuzo financeiro. Um ledo engano, pois mais dia menos dia e os ovos continuavam sumindo!
O roceiro montou uma campana prxima aos ninhos das suas penosas e logo que escureceu, viu o Xexu se aproximando de fininho. Chegou ao pedao, cubou a redondeza e como tudo parecia sob controle, agachou-se e passou a soprar o ovo mais prximo de sua grande boca faminta...
Na outra amostragem, o Antnio da veia Pul foi visitar o seu amigo Ambrsio, a quem no via h muito tempo. Chegou cancela de entrada da propriedade e bateu palmas. Logo o co Fedegoso acordou de sua madorna e correu ao seu encalo na maior velocidade e cheio de valentia.
Prudentemente, o Antnio subiu em cima da cerca. O Ambrsio veio correndo e vendo o compadre naquela situao vexatria, iniciou o dilogo:
- Pode descer da, compadre, que o Fedegoso capo!
- Eu no estou com medo dele me comer no, compadre Ambrsio! Estou com medo de ele me morder!
Ns somos da roa, mas somos chiques!


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Por Raphael Reys - 14/12/2010 16:04:16
ITA, CABOCLO!

Volta e meia vem baila histrias e causos do saudoso cavaleiro da verve, o sempre bem lembrado Z Amorim. Autntico filho dos nossos Montes Claros, capital da recm criada Repblica do Pequisto.
Desta feita, a lembrana do querido empresrio Armando Barros, cidado porreta e emrito, da nobre estirpe dos Barros e filho desta terra de Figueira. Relata-nos ele que Samir, para no viajar sozinho at a casa do seu irmo em Ilhus (BA) e objetivando que a jornada fosse prazerosa, convidou e levou junto s armas e bagagens o nosso saudoso Z Amorim.
L chegando, para bem receber o alegre convidado, foi preparada no capricho uma pituzada baiana. Z, como era caboclo de hbitos chapadeiros, ficou enfunada mesa, contemplando aquela iguaria estranha sua interpretao visual, paladar e olfato.
Notando a catopezada do nosso Z e para potencializar o apetite do mesmo, Samir incitava o convidado a devorar o prato. Z, emburrado, e o anfitrio logo aulou: No vai comer no, capiau de Montes Claros? Deixa de ser besta e come logo! Vmo jac! Deixa de ser juro! Um prato beleza desses e voc com xibungagem!
Ferido nos brios montes-clarenses, o Z retrucou em cima do pedido: Isso aqui no prato t parecendo plstico, seu ariri! Macho da minha terra come arroz com pequi, carne de sol e andu. De sobremesa, doce de cagaita! O resto, bestagem!
Quando era gerente da Cowan, o Z, vez por outra se dirigia ao Palcio da Borracha, do empresrio portugus Armando Barros, seu amigo, para dois de prosa. Ia comprar correias e demais artigos necessrios sua indstria cermica.
Desta feita, em pleno ms de junho, um frio chapadeiro de rachar o cano e o Z se queixando da inclemncia do clima. Armando, como fora criado nas intempries climticas da Europa, alegava que, independente do tempo, por hbito, tomava diariamente banho frio.
Ao saber da extravagncia, Z retrucou:
- ita, caboclo! Pois l em casa ns tomamos banho com a gua fervendo! Sai tanto vapor que, tem dia, que o poste de luz em frente chega curvar!


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Por Raphael Reys - 7/12/2010 08:58:08
Joo Doido

O personagem era contnuo da agncia do Banco do Brasil na nossa urbe. Tipo bastante popular, cheio de vontades prprias, emrito pescador. bem da verdade a pescaria era o seu universo.
Dono de um nariz arrebitado, posudo, andava de peito estufado, pisando alto e dava pouca ou nenhuma ateno ao mundo sua volta. Julgava-se absoluto! Volta e meia tomava umas e outras e aprontava com borra. Era a sua marca registrada.
Certa feita arrumou uma pescaria e levou amigos de copo e de cruz para uma lagoa na fazenda de Crispim da Rocha. Entrou cerca adentro sem pedir licena, a cachaa correu solta e, no demorou, o bando de notvagos pescava e avacalhava o ambiente se postando nus.
Como a lagoa era de guas lmpidas e sendo a fonte de abastecimento da propriedade veio um servial apanhar gua. Ao se deparar com a cena daqueles homens nus e temeroso de sofrer alguma agresso, retornou sem encher o carote de madeira.
Sabedor dos fatos, Crispim apanhou uma carabina e botou ordem na corja de pelados. Mandou que eles se escafedessem de suas terras. Acontece que a lagoa fazia divisa com uma fazenda vizinha, de outro proprietrio. Sabedor dos fatos, Joo, desaforado como era, pulou a cerca com os companheiros.
Para irritar o fazendeiro e j que no mais estavam em suas terras, continuaram a esculhambao. Danavam despidos e pulavam como em uma farndola de diabretes.
Como o destino irnico, na segunda-feira seguinte, Crispim da Rocha procurou o Jos Alves, gerente do Banco do Brasil, visando obter um grande emprstimo rural.
Sendo o gerente novo no pedao e sabedor do conhecimento do Joo Doido sobre as fazendas da regio, o chamou para prestar informaes pertinentes propriedade do cliente solicitador.
Ainda injuriado pela suposta desfeita na lagoa, Joo baixou a sola na avaliao e desclassificou a fazenda e o cliente. Revelado o fato, Crispim o procurou na agncia exigindo explicaes, j que as suas terras e pastagens eram das melhores na regio.
Indagado, Joo Doido como era irnico e debochado riu do fazendeiro e falou: Voc manda na sua fazenda. Aqui no banco mandamos ns! Deu o maior quiproqu!
Noutra pescaria, tendo como companheiro de aventuras Carlcio Atayde, chegando prximo ao barranco do rio, viu um pequeno jacar que dormia ao sol. Joo preparou a Kodak e posicionou Carlcio para clicar o instante. Ato seguinte montou nas costas do bicho. O jacar, assustado, desceu barranco abaixo e jogou o Joo em uma moita de espinho agulha.
Ficou mais furado do que tbua de pirulito...


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Por Raphael Reys - 2/12/2010 14:19:32
SEGURA ESSA!

Nos bons 1965, o valente Lenidas, um destemido comerciante de peles de animais silvestres reinava como valento na terra de Figueira! Um metro e 80 de msculos adquiridos na fisiocultura com halteres. Prtica essa que lhe rendeu a lenda de modelo msculo, de ento.
Cala apertada, camisa preta comprida, empunhadeiras de couro cravejadas com metal alpaca nos pulsos, botinha importada, olhar desafiador e impune. Metia medo nos passantes do Mercado Municipal, onde tinha o seu comrcio clandestino de peles e animais.
Como era um fanfarro protegido de uma autoridade pblica e no exerccio de sua bazfia botava todo mundo para correr. Era s tomar umas e o bicho pegava! Certa feita foi contratado por um empresrio proprietrio do imvel onde se encontrava instalado o restaurante da rodoviria.
Severino, um nordestino o inquilino, que explorava o ponto mediante contrato estava ficando rico de tanto movimento. O dono do imvel queria dobrar o aluguel na marra, mas o contrato o impedia. Mandou o valento dar um susto no comerciante, prevendo que o mesmo ficaria com medo e entregaria o imvel.
Munido de uma metralhadora Ina, enrolada em um saco de estopa e posto na bagageira da bicicleta sueca, o valento parou porta do restaurante, desembrulhou a metralhadora e chamou o comerciante pelo nome. Como as paredes eram de espelho, o homem viu a arma apontada, abaixou-se e gramou o beco.
O valento para completar a histria ao bom estilo hollyhwoodiano deu uma rajada de balas nos espelhos. Ato seguinte, quando viu a besteira que havia cometido, se refugiou na sua casa rua Belo Horizonte 413, confluncia com a rua Coronel Antonio do Anjos.
Um efetivo policial militar deu cerco ao imvel e um sargento ao megafone pediu a rendio do acusado e a entrega da arma de uso exclusivo da PM. O homem cercado, alm de valente era esperto. Apanhou uma ona viva que estava em cativeiro em uma jaula no quintal da sua casa e levou-a para prximo da porta de entrada, j entreaberta.
Anunciou a sua rendio, mas exigiu que os policiais abaixassem os fuzis. Abriu a portinhola da jaula e cutucou o traseiro da pintada com o cabo de uma vassoura.
A bicha feroz pulou para fora, deu uns altssimos esturros e afugentou o efetivo que bateu em retirada em decorrncia do inusitado da ao!
A rua ficou forrada de fuzis e capacetes e a meninada que aplaudia da esquina correu com mijando de medo, pernas abaixo! Foi um festival grotesco e laxativo!
O animal assustado foi se esconder em uma mata que ficava nos fundos da sede do DER, no Bairro So Jos prximo. Chamado, o comerciante Waldir Macedo, caador profissional, preparou a sua matilha de ces de caa, e ajuntou amigos caadores. Deram o cerco pintada, os cachorros uivando, acuando e quando o animal moveu-se recebeu uma saraivada de tiros de espingardas Boito 16 e carabinas do papo amarelo, morrendo, sem chance.
Ns somos da roas, mas somos chiques!


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Por Raphael Reys - 27/11/2010 14:24:09
PELOS MUITOS CAMINHOS DAS ALTEROSAS

Dia17 de novembro de 2010. Percorremos as vias de BH para exames cardiolgicos no Laboratrio de Marcapasso do HC. Monitoramento sob a batuta da simptica doutora Licia Valadares e equipe nota dez do referencial consultrio. Alberto Sena e Slvia me receberam no seu ap no Santo Antonio.
Quarta braba, tardinha, a chuva deu uma trgua e saboreamos um caf ligth com pes integrais e outros mimos. Esquecemos o fator tempo e o dois dedo de prosa correu at altas horas. Anos 60, as praas rococs, o footing com suas beldades e gals.
Causos da nossa infncia mgica o encanto dos Montes Claros de antanho e sorramos s bandeiras despregadas. Falamos da mdia escrita da terra de Figueira, o Jornal Montes Claros e o mestre Osvaldo Antunes que formou uma esplndida gerao de jornalistas: Robson Costa, Lindenberg, Paulinho Narciso, Alberto Sena entre muitos.
Alberto falou sobre os anos 80 e suas matrias que entusiasmaram a muitos, levando-os, com sucesso, campanha da lei de preservao do pequizeiro. Na divulgao e sustentao do tema, Luiz de Paula, Teo Azevedo, Darcy Ribeiro, Cndido Canela, Hermes de Paula e a palavra final de Antonio Gonalves do IBDF.
Falamos da literatura de Joo do Rio em sua obra Dentro da Noite e Histrias de Amor, de Rubem Fonseca. Alberto lembrou sua ltima entrevista com Darcy Ribeiro, cheia de calor humano e da verve escrachada do ilustre escritor.
Na quinta, saboreamos um delicioso almoo preparado no capricho por dona Slvia. Comentamos o novo lbum Match, de Mateus Duarte, filho de Alberto que reside em Curitiba.
Viajamos no tempo e nos recordamos dos personagens populares que pululavam e coloriam as ruas da nossa urbe, os segredos da Terra de Figueira e as reportagens de ento, incluindo as que no foram escritas ou publicadas.
Falamos da farsa da Revoluo de 64, um engodo dos nossos generais aculturados pelo servio militar Norte Americano e pela CIA.
Cutuquei a biblioteca do anfitrio e entre tantas e selecionadas obras deparei-me com uma edio antiga do Livro de Areia, do portenho Borges. Uma viagem fantstica ao universo da fico e da metafsica.
Embora houvssemos programado voltar de carona com o escritor Augusto Vieira Neto, um imprevisto de ltima hora nos privou da presena do Bala Doce nas comemoraes dos cem anos de Amo-te Muito.


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Por Raphael Reys - 23/11/2010 19:27:51
NA ROCINHA...

Dentre as muitas atividades que produzem felicidade nesses Montes Claros, est a de passar uma tarde trocando dois dedos de prosa com o notvel jornalista/empresrio, Amrico Martins Filho, em seu den tropical, a agradvel Fazenda Rocinha.
Ambiente de pura magia, entre rvores, plantas, pssaros que a todo o momento emitem mirades de trinados, valorizado pelo frescor da fonte e a incrvel matilha de ces, os melhores amigos do homem. Dentre eles a cadela Branquinha, o carinho em quatro patas.
Mesa de reunio posta sobre a tenda da amplido!
Fomos acompanhados do lendrio reprter policial Z Maria e tendo como guia nos caminhos da vida o escritor Petrnio Braz. Uma empreitada etlico/literria, regada a um bom usque Passport e frios. O anfitrio, impecvel, companheiro, alma aberta e corao incomensurvel!
Ao servir o usque, disse: Sou vegetariano, mas bebo um bom usque porque a bebida vegetal! Falou sobre as grandes frases e mximas e seus efeitos nas almas das pessoas. Logo uma guinada e surgem vrias opinies e debates sobre filosofias, crenas e mitos. Amrico narrou a inquietude de sua alma e a busca filosfica.
Petrnio discursou sobre o conceito Deus, o Big Bang, a entropia do macrocosmo, enquanto desenhava grficos elucidativos. Pura kabala! Debatemos o agnstico, o uso da razo e descrevi uma tese de Konstantin Kristoff sobre a origem do universo. Descambamos mesmo para a metafsica judaica, enquanto Z Maria, atento ao dilogo, dava o seu sorriso de gato que comeu o bicudo do vizinho.
Ameriquinho, como carinhosamente chamado o extraordinrio jornalista, descreveu as suas viagens culturais ao EUA e comentou o uso da prece como comunho. Petrnio discorreu sobre o mito Jeov e a adorao do Bezerro de Ouro. Amrico salientou a importncia da apario de Ftima e debatemos as bases do Cristianismo e as cartas do apstolo Paulo nos anos 70 da nossa era. A importncia da Bblia (O Livro), como fonte de revelao e histria. Aventamos sobre o efeito das crenas religiosas na mente humana. Tudo isso, enquanto a cadela Branquinha pulava de colo em colo e distribua o seu carinho. Na pauta, comentou-se a falta que faz o escritor Georgino Junior nos meios culturais da terra de Figueira.
Entre filosofias, metafsica e mitos, o jornalista Z Maria, como reprter investigativo, passou a maior parte do tempo de olhos fechados ou fazendo disfaradamente a leitura corporal dos filsofos da mesa. Pura tcnica de campana policial. Usando o seu sexto sentido adquirido no campo profissional, acertava a toda hora o nome de quem chamava nos nossos telefones celulares.
Uma manh/tarde memorvel na aprazvel Fazenda Rocinha, sorvendo a verve do homem/alma Amrico Martins Filho. Marcamos outras reunies de servio.
Quem viver, ver!


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Por Raphael Reys - 19/11/2010 13:38:26
Jurozada

Campesino aonde vai leva o mato junto. Ele pode at sair do mato, mas o mato no sai dele. Sempre apronta uma quando vai a Belo Horizonte. Andando em dupla ou mesmo participando de bando em algum buzu fretado. Quando chega metrpole logo notado, pois um estranho no ninho.
Quase todo capiau dos nossos Montes Claros bistunta assistir um Cruzeiro e Atltico no Mineiro. L, acaba cometendo sempre uma presepada.
Carlo Alcntara, saudoso corretor de imveis dessa terra de Figueira, bolsos abarrufados, levou o mestre de obras Roberto Lopes, cobra criada da Melo Viana, para assistirem o clssico. Terminada a partida, se desencontraram em meio multido deixando o estdio...
Capiau quando vai a Bel, tem que estar amarrado ao guia por uma embira! Perdido, Roberto saiu indagando de raimunda a joo, a tudo mundo: Voc viu o Carlo por a? Aquele que freqenta o bar do Zimbolo!.
Por sorte, encontrou um montes-clarense j urbanizado. Pelo servio de alto-falantes do estdio, Carlo foi localizado e o nosso Roberto pode retornar habitual fuleiragem e ao 171 dos Morrinhos.
Noutra jurozada, um trio de cruzeirenses: os saudosos Wanderley Fagundes e Lazinho Pimenta, acompanhados do novo carioca Odorico Mesquita. O mesmo Mineiro como cenrio, o estigma da roa e o veculo estacionado do lado contrrio torcida cruzeirense. Destino projetado.
Ao encontrarem a galera azul encheram o pand de cerveja e esgoelaram durante o jogo. Cruzeiro... Cruzeiro! Terminada a peleja, cad achar o lugar onde deixaram estacionado o fusquinha!
Ficaram na murrinha at as quatro da matina e como s restou o carro deles no estacionamento, s ento deu para retornar Moc City, capital do Pequisto...
J o desportista Xerife, integrava a comitiva do nosso querido Ateneu de Dona Albertina, que cedo chegou ao Mineiro e foram todos conduzidos para tomarem o desjejum.
Como havia duas filas distintas, uma para pessoas ditas normais, e outra para portadores de diabetes, chegando a vez do nosso Xerife na fila, o recepcionista fez a natural pergunta: O senhor diabtico?.
Imaginando tratar-se de uma gozao preconceituosa, tpica das crias suburbanas da Capital de todos os mineiros, o nosso homem gol estrilou: Qual cara! Que chave magra essa! Eu sou Ateneu!....
Gente, ns no somos fcil! S nos enfrenta quem agenta...


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Por Raphael Reys - 12/11/2010 13:34:23
OS GUERREIROS DE AGAMENON

Nos nossos Montes Claros tem de tudo, no mnimo uma verso diferenciada dos fatos. Cidade plo, com populao constituda na sua maioria de gente oriunda de outras cidades do Norte de Minas, muitos vieram para construir o futuro, estudar em nossas escolas, faculdades.
Como o mudo composto, tambm aqui chegaram alguns para fazer guerra. Falo de dois cidados que se apresentavam como ex-combatentes.
Um dele, movido pela alma da cachaa ingerida, pinta de artista da roa, topete de gal. O outro, por puro exerccio de bazfia, medroso e sensvel, construiu uma torre de marfim para nela se abrigar, defendendo-se dos males da vida.
O primeiro, no incio dos anos 80 a pinga curraleira levou para os quintos; o segundo, mui digno profissional liberal, j aos 90 anos, balanando na sua rede de varanda no Bairro So Jos vive contando as suas notveis faanhas na Segunda Grande Guerra Mundial.
O ex-combatente com pinta de artista, j saudoso, nos anos 70 era freqentador do meu restaurante na Praa da Catedral. Quando chegava, a galera que bebia, fazia uma rodinha em volta, para sugar sua verve. Ele abria a caixa de ferramentas e tome bala, tome baionetada em traseiro de comedor de chucrute!...
Caa dentro da bocada das trincheiras e matava adoidado os Hans e os Fritz do Fhrer!
Como j havia adquirido habilidade na arte da narrativa, imitava teatralmente o som do matraquear das metralhadoras, o pipoco dos obuses e o ricochete das balas. Os aficionados faziam perguntas pertinentes para potencializar a ao. Dava gosto v-lo narrando.
Um dia chegou um chato de galocha, invejoso com o sucesso do narrador e o ameaou de processo por se apresentar, falsamente, como um herico ex-combatente. Sumiu do mapa.
O outro, from Pedra Azul, ainda vivo e ainda zangado, relatava que, como ardoroso combatente, mudava rumos de batalhas. No curso da guerra, foi incorporado a um submarino da Marinha, como operador de periscpio e, posteriormente, artilheiro de torpedos. Os seus disparos foram to certeiros que fez um enorme estrago na armada de Hitler. Segundo ele, a Gestapo, a terrvel polcia alem, seletivamente negociou atravs da Cruz Vermelha a libertao de duzentos prisioneiros aliados em troca dele, o porreta artilheiro montes-clarense, para que, simplesmente fosse mandado de volta terra do pequi!
Complementada a negociao, equilibrou-se a ao da Marinha do Eixo e a dos Aliados no palco das operaes martimas, e s assim a guerra no mar ficou pau a pau...
Ele ainda est por aqui, tranquilamente lubrificando o seu fuzil de estimao, afiando a baioneta matadeira de alemo, contando os buracos de bala no seu capacete de ao e mostrando a lista de baixas produzidas graas a sua incrvel pontaria, alm dos nomes dos navios abatidos pelos torpedos por ele lanados. Por conta da sua competncia incomum, sempre acerta na mosca e, at hoje, estando no quintal da sua casa, para manter a forma, vez por outra abate um gavio que ousa fazer um rasante nos cus...


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Por Raphael Reys - 8/11/2010 18:23:24
GOL!
Fazendeiro, campesino, bitipo mdio, amorenado, cabelo liso. Vestia sempre um terno de brim Triunfador amarelo, Chapu Ramenzoni na cabea, bota cano longo. Encoberto pelo palet, um Smith and Wesson 38, cabo de madreprola. Montado em seu cavalo alazo, esse era Simo Campos. O manda chuva de So Joo da Ponte nos anos 40, 50 e 60.
Criador de gado nelore de boa cepa, dono de grande fortuna e um sortido armazm tem tudo. Pai do ilustre poltico Olmpio Campos.
Na sua casa, na cidade, estrategicamente disfarada no quarto, sala e escritrio, uma boa carabina Winchester, Papo Amarelo, sempre municiada. Em cada cmodo restante, um treisoito no ponto!
Certa tarde, no campo da cidade, os locais jogavam futebol tendo como adversrio contumaz o time do Varselndia. Eternos rivais. Jogo empatado, final do segundo tempo e o ponta de lana do Varzelndia faz um tremendo gol. A torcida local invadiu o campo, cercou os adversrios, ameaaram o juiz.
Exigiam a anulao do gol.
Atrado pelo alarido, vem chegando trote Simo Campos. Vai a o dilogo travado entre ele e um torcedor prximo cerca divisria do campo:
- O que que est havendo a, menino?
a torcida nossa que est querendo anular o gol na marra!
E o que que esse tal de gol?
E quando uma bola de couro passa entre dois paus fincados no campo.
E a tal bola passou mesmo entre esses dois paus?
Passou, sim senhor e ento gol!
O jogo terminou e o Varzelndia ganhou o campeonato!
Doutra feita, acompanhando o seu filho Olmpio em uma reunio para tentativa de coligao poltica com a oposio, visando um objetivo, a situao, com o ego inchado e em cima do sapato alto, no fechou acordo.
J retornando, Olmpio diz:
- Mas que coisa, pai! Os nossos no aceitaram o acordo que era benfico para as partes.
Simo, no alto da sua sapincia de vida sentencia:
- Eu bem que te disse que eles tinham supice!


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Por Raphael Reys - 1/11/2010 14:25:28
NOSSOS LOUCOS!


Diz a sabedoria popular que de palhao, de rei, de mdico e de louco, todos ns temos um pouco. Isto indica que a vida tem duas faces diversas.
Muitos so os autores falaram do tema da loucura ao longo da histria. Guerra dos ratos e das rs, o Mosquito, Ulisses e Grilo. E um ilustre desconhecido que escreveu o dilogo de um porco chamado Grnio Corocotta.
Os loucos, ou tants, como eram chamados e ainda o so, povoaram a nossa infncia. Barulhentos, apalermados ou agressivos, circulando no centro comercial, na Rodoviria e na Estao Frrea dos Montes Claros de antanho. Maria Babona, Requeijo, Galinheiro, Joo Doido, Geraldo Tatu, Sete Capangas, Beto Bruto, Requeijo, Alala, Mila, Maria P de Po, Beto, Ariranha, Brucutu, Tio Cad Meu Carneiro e tantos outros que me falha a memria.
Vieram trazidos de outras cidades, donde foram expulsos sem direitos e lanados nas nossas ruas. Sem piedade, como um lixo humano.
Muitos deles construram, e mesmo fizeram parte da nossa histria, alguns foram at eleitos para cargos pblicos, de palet e gravata. Povoaram de medos e temores a nossa infncia. Pude compreend-los ao ler o Elogio Loucura, de Erasmo de Roterd. Dei-me conta de que a insanidade mental pode ser sinal de genialidade, de coerncia, e mesmo de sabedoria. Relata-nos Fromm: As vtimas de doenas mentais realmente arruinadas encontram-se entre os que parecem normais.
Os loucos vo da terra para a lua ao sabor das suas imaginaes.
As janelas do meu inconsciente foram abertas ao ler as histrias fantsticas de Poe, e o poema pico dos tibetanos; As Estncias de Dziam, em que consta a loucura do Criador, ao fazer manifestar e nos legar este planeta globalizado e insano, no qual habitamos em nome da evoluo.
Eles, os chamados lels da cuca, ficavam nas entradas das fazendas dos Montes Claros de antigamente enquanto transcorria a era do romantismo e eram considerados patrimnio da casa onde moravam. Podamos v-los desfibrando a tenra palha do milho para pitar o cigarro paieiro. Tomando caf com rapadura no interior das cozinhas, onde escutavam, sem entender no racional das suas mentes, os relatos da vida ntima dos donos da casa, com suas loucuras e as mscaras de falsidade dos que se diziam normais.
Na reflexo dos Esticos, entretanto, ser louco deixar-se levar pelas emoes.
Pela doideira da vida, tentando dominar temores e medos, aprendi a decodificar as loucuras alheias, observando o semblante das pessoas. Erasmo diz que; tudo que o louco trs na alma est escrito no rosto.
J adulto observo um mundo de loucos buscando um panegrico milagroso, Um planeta onde pululam dependentes exgenos, que carregam dentro de si a Bela e a Fera.
Uma gerao entorpecida pela pedra e pelo p, inebriada pelo lcool, sob o estupefaciente dos alcalides, entupida de ansiolticos e barbitricos, construindo verdades falsas, aparncias, e sob o calor das emoes efmeras e das roupagens multicoloridas do Ego-Cambaleante.
Dormimos, enquanto a qumica dos medicamentos hipnticos ingeridos nos conduz a portais dantescos, a realidades oprimidas pelo pensamento seletivo, a mundos construdos de bolhas coloridas. Bem razo tinha Calderon de La Barca, ao se perguntar: a vida, sonhos so?
A loucura o boom de nossa civilizao moderna e atormentada.
Encerro a crnica com a observao de Erasmo: A loucura que governa a seu bel-prazer o universo.


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Por Raphael Reys - 26/10/2010 15:44:47
A BALADA DE GAU

Estatura alta, tez mulata, corpulento, musculoso, carrancudo e generoso, um galalau. De nome, Olegrio Maciel, este era Gau. Amigo do peito e empregado da fazenda Lagoinha de propriedade de Bi Maia. Derrubava uma rs no muque!
Alpercatas de couro, canivete Corneta, palha macia e fumo de rolo goiano, um boque com acendedor de pedra e ferro, calas de Triunfador amarelo, camisas de riscadinho. Vestia-se sem cuidado, igual aos lrios do campo. Na bainha uma lambedeira 12.
No peito um patu dependurado em um cordo de algodo com sete ns. Coisas de sua origem campesina e ligadas a ritos afros. Presente que recebeu quando menino de sua av Belmira cadomblezeira.
Meio desligado das coisas deste mundo bobo, meio desatento. Seu esprito passeava no etreo e ele caminhava na realidade opressora desse mundo doido. Empregado da Fazenda Lagoinha, Sancho Pana do Dom Quixote Bi (Gabriel da Silva Maia), proprietrio das terras, assim era Gau.
Nos bons 1950 ele vinha cidade buscar a menina Quita Maia (irm mais nova de Bi) para passar uns dias na fazenda Lagoinha no Cedro. Imitando Ford Bigode, ele botava a cunh pendurada na sua costa e saia com as mos suspensas segurando um guidom imaginrio e guiando feito carro pelas trilhas da Malhada, at a propriedade. Pisava to macio que a menina chegava dormindo no destino.
Em 1965 com a venda das terras, seu nico rinco, veio com o seu amigo e patro, morar no apartamento de Quita Maia, j adulta e casada, na Rua Dom Pedro II, no centro de Montes Claros. No ficou embora tivesse cama, mesa e banho. Detestava modernidades, no misturava o seu barro humano ao barro das gentes da cidade.
Chegou a comprar uma alpercata Roda para passear a noite com Bi no footing da Praa Coronel Ribeiro. Assustou-se com a mistura de aromas dos perfumes usados pelas meninas moas. Nuit de Noel, Lorigan, Chashemere Bouquet. Estava acostumado ao cheiro de suor e da brilhantina Glostora!
Na morada nova havia escadas e os botes do elevador para apertar. Ele no sabia mexer em botes! A solido da urbe agregou sua alma o peso da saudade. Quando se botava a beber a cachaa, sorvida na meiota, aliviava. s vezes, duas meiotas. Era difcil subir todos aqueles degraus variando o guengo com os parietais pegando fogo e as pernas bambas.
O bom mesmo era morar no plano, no cho de Meu Deus, l na Lagoinha, onde tinha canrio cantador sob a amplido dos cus, as lagartixas comendo inseto nas palhas.
A modernidade trouxe a telefonia automtica e, com ela, o aparelho de baquelita preta da Siemens. Chamado para receber um comunicado do patro, vindo em espirais metlicas pelo telefone e como o bero no lhe embalara a retrica, exclamou no dialeto p-quebrado, estando espavorecido!
U! Como que cabe seu Bi aqui dentro desse trem preto! Ato seguinte arrancou os tentculos e artrias daquele monstro grudado na parede. E com sua violncia em nome do pudor, quebrou tudo visando libertar o patro, possivelmente espremido ali na barriga daquela instrumenga.
Voltou para a Fazenda Lagoinha e foi morar numa palhoa de taipa, um pau-a-pique com telhado de sap e cho de barro batido no p do morro Dois Irmos, figura smbolo da cidade de Montes Claros. Debaixo da ramada, uma rede feita de palha de tucum, um toco servindo de banco um pilo velho e umas cabaas ocas. Morada de pequenos viventes da chapada!
Dizem que criou uma pendenga com o novo dono das terras!
No tinha mais Bi para dois dedos de prosa, agora conversava com os duendes, com o esprito da serra e com o caipora das florestas. Assoviava para os fogo-pag que pulavam no capim nativo e usando um apito de madeira imitava canrio-pardo, sabi, bicudo, e galo de campina, esse foragido da gaiola do vizinho. Pssaro trazido de Campo Maior no Piau.
A noite se botava no sereno a escutar o choro da mata no anoitecer e o chiado do chocalho da cascavel marcando presena. Nos serrotes de pedra, uma lapa, morada de um gato maracaj que urrava imitando ona. Pura tcnica de sobrevivncia!
Assistia o sol nascer, via as sombras do lusco-fusco e as assombraes da chapada. Dizem que chegou a ver um Saci-Perer de gorro vermelho pitando um cachimbo cot.
Vento de agosto, o ms do desgosto. Uma lufada de ar atiou uma fasca do fogo de barro e a Salamandra do p da serra ps fogo na palha do casebre.
Naquela noite, Gau, tinha tombado no cho de terra batida, vencido pela cachaa branquinha, sada da cabea do alambique e ingerida sob a gide da tristeza. H controvrsias!
E a, foi fogo no lombo de Gau! Ficou que nem tio! Virou cinza. Retornou s cinzas de que viera e como uma Fnix, sua alma alou vo com as asas de Pteros.
Gigantes, efebos e homens-menino, quando morrem vo para o Olimpo.


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Por Raphael Reys - 23/10/2010 16:38:50
OS CULOS DE ALARICO

Nos dourados anos de 1964, fim do Romantismo e incio da Dita Dura, falecia no Brejo das Almas o abastado fazendeiro da regio Prata, Chico Lima.
Alarico, emrito carcereiro local estava naquela fase de dar uma de autoridade e tomar todas as cachaas do mundo. Vivia rosnando que nem bicho felino. Inchava o trax, andava de pernas abertas e por qualquer motivo fofava o Schmidt and Wesson 38.
A galera local evitava o confronto com a suposta ortoridade municipal. Coisa de campesinos...
Na hora do enterro do Chico Lima e porta do campo santo, Alarico chegou cheio de gor e de razo. Postou-se exibidamente frente do cortejo apoderando-se da ala da cabeceira do caixo, tomando o lugar que cabia aos parentes e aderentes do de cujus.
Metido valente e parrudo, foi puxando o squito rumo morada final, destino projetado de todos ns. Na hora de baixar o fretro nos sete palmos cavados na terra bruta, ele tomou a frente para cumprimento da tarefa final. Passou uma corda em volta do caixo, apoiando os ps um em cada borda da cova e foi curvando o corpo e, conseqentemente, o atade rumo aos finalmente. Rosnou, gemeu,fungou, babou e chiou que nem lenha verde, face ao esforo despendido.
Cumprida a tarefa ttrica e descomunal, endireitou o corpo e logo passou a emitir palavras de ordem: bafejos, interjeies e improprios. Eis o falatrio:
- Tava mesmo na hora de voc ir! Tambm j estava todo esculhambado e de pernas abertas! No servia mesmo nem para enxergar direito! Vai para o fundo do poo, que melhor!
Os presentes estavam estupefatos e temerosos de se desencadear uma briga de socos e pontaps ali, naquele campo santo. A, um gaiato, que tambm estava com o pand cheio de cachaa, chamou o carcereiro razo. E disse:
- C ta ficando doido, Alarico! Onde j se viu esculhambar com um defunto desse jeito? Vmo respeitar a memria de quem merece!
Alarico esfregou os olhos e respondeu, em cima do pedido:
Eu estava esculhambando era com os meus velhos culos aro de tartaruga, que caiu no fundo da cova na hora que me abaixei para descer o finado! Aquela porqura deve estar todo quebrado por baixo do esquife do compadre Chico Lima!


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Por Raphael Reys - 18/10/2010 15:23:16
DIN BOLERO (atendendo a pedidos)

Batizado Waldir Alves, era conhecido na noite como Din Canga. Walduck Wanderley, companheiro de serestas e de noitadas, foi seu f nmero um, o chamava de Din Bolero. Sempre generoso, ajudou-o e o protegeu de todas as formas, tendo custeado seu enterro. Morava com sua me, dona Joana Pedro, na penso da famlia na rua Altino de Freitas, centro da cidade de Montes Claros.
Mestre do tango na pista sintecada da boate Maracangalha, de boleros e rtmos tropicais, crooner com ou sem acompanhamento, possua uma bela voz e foi uma atrao da noite, vivendo em dolce far niente nos Montes Claros dos anos quarenta a oitenta.
Bom de bola na adolescncia, jogou como centro avante no juvenil do Ateneu nos anos cinqenta, sob o comando de Milton Ramos.
Era conhecido como O Rei do Rdio no programa de Alceu Queirs, da Rdio Sociedade Nortemineira-ZYD7, levado ao ar no Cine Ypiranga.
Nos anos 50, Din teve uma paixo platnica por Cec, uma profissional do pecado e mestra da luxria, a mais linda mulher que desfilava e trabalhava no Cassino Minas Gerais. Sob a permisso de Joo Pena, que assumiu a direo da casa depois de Sinval Amorim, Din Canga varou noites cantando Aurora em Flor..., homenageando a amada, mas no conseguiu amolecer seu corao. Dizia ela que no o queria como amante, namorado e nem mesmo com fregus! Imitava Cauby Peixoto, interpretando clidas canes, enquanto sorvia doses generosas de scotch. Tudo em vo.
Abraado aos amigos e habitus das rodadas no mstico pano verde, curtia embriagado sua paixo, num atroz sofrimento por tanto desprezo. Nesse tempo, fins dos anos 50, o cassino j tomara uma caracterstica de lupanar, perdendo o status de casa de jogo, criada por Sinval.
Tipo caucasiano, barriga proeminente, cabelo acaboclado, rosto de lua cheia, com papadas, vermelho pimento, gestos largos e calculados, voz forte e persuasiva, Din jogava nas dez e batia com pau de dois bicos! Foi um autntico bomio.
Um mestre da sugesta, do contra-ag. Era bem recebido em qualquer ambiente, inclusive casas de famlia e sempre se dava bem. Chegava liso e voltava com grana no bolso.
Na sua caixa de ferramentas, tinha boa disposio para circular diuturnamente, alma escrava da luxria, boca de gluto, verve inspirada, gargalhada sonora, garganta sempre pronta para cantar Maria Helena, pensando em Ceci. Mos hbeis, para jogar sinuca e rodadas de baralho no cassino com amigos diletantes.
Deus Pai o mandou para o nosso meio e o prprio Deus Pai o levou, quando quis! Afinal, cada alma que aqui vem, o faz em misso, cada qual com o seu cada qual!...
Adotou como filosofia de vida, a frase escrita em letras garrafais na parede do salo da sinuca do Augusto: A vida s vivida, depois que voc se envolve na vida de uma mulher da vida!
E estamos conversados!
Nos mundos mgicos de meu Deus, onde ora Din Canga certamente habita, com sua alma alegre e vivaz, um dia nos receber cantando: Maria Helena s tu/ A minha inspirao/ Maria Helena vem ouvir meu corao/ Na minha melodia eu ouo a tua voz/ A mesma lua cheia h de brilhar por ns/ Maria Helena lembra do tempo que passou/ Maria Helena o meu amor no se acabou/ Das flores que guardei uma secou/ Maria Helena s a verbena que murchou ...


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Por Raphael Reys - 13/10/2010 13:46:43
O TECO-TECO INGLS

Agosto de 1960. Houve uma ventania de dar gosto nas chapadas de Corao de Jesus, terra do emrito Pedrim de Araujo e um Teco Teco transportando empresrios ingleses faz um pouso mais ou menos forado em uma estrada prxima cidade.
O piloto deixara o seu mapa e plano de vo na cidade de Barreiras- Bahia e pousara para viabilizar a sua projetada viagem. Estavam urrando de fome e sede, j s 3 da tarde e necessitavam encontrar algum que falasse a lngua da Rainha, tomar umas e beber vrias cervejas casco verde. Afinal, ingleses so chegados e apreciam...
Se precavendo contra as intempries da natureza, amarraram a leve aeronave com uma corda a um p de mulungu. Rodaram a cidade toda sem encontrar um intrprete e foram parar na mesa de uma birosca do Mercado Pblico.
Enquanto tomavam umas e degustavam a contragosto o arroz com ovo servido na espelunca, espalhou-se pela cidade o boato de que aqueles estrangeiros eram compradores de fazendas e carregavam uma fortuna em dinheiro vivo, oculta, certamente, no estofamento ou em algum lugar do avio.
Logo logo algum localizou um advogado que falava ingls, oriundo da Capital em viagem de negcios e o encaminhou at os filhos da Rainha, para entret-los numa conversa bem demorada.
Com o boato da grana fcil, formou-se em pouco tempo uma corja de garotos pestinhas na praa central, prontos a executar uma ao retaliadora. Dentre eles, Walfrido, Nenego, Dma Boca, Din Surubim, Raimundo Sete Voltas, Noca, Murilo, Bi e muitos outros.
Desamarram a aeronave, a empurraram e esconderam em um matagal prximo. Munidos de canivetes e facas rasgaram todo o estofamento e desmontaram o que foi possvel em busca da cobiada fortuna. Fuaram tudo, no maior arregao e nada encontraram.
Os ingleses, atnitos, aps localizarem o Teco-Teco seqestrado, registraram o boletim de ocorrncia na Polcia, com o delegado Camilo Lelis, que partiu para as investigaes. Localizou a farndola de diabretes e solicitou a presena dos seus pais e responsveis na delegacia.
O pai do nosso Walfrido o encontrou jogando no campo de pelada e deu-lhe uma dura: Ngo, venha c cabra safado! Agarrou-o pelos cabelos e o conduziu at a presena da autoridade, entregando-o nas garras da lei.
Foi aplicada uma multa de trezentos contos em cada um dos participantes, mas, no frigir dos ovos, somente o pai do Walfrido (um pernambucano duro) pagou!
O delegado requisitou todo o estoque de esparadrapo do Posto de Sade da cidade, utilizado para quebrar o galho, fazendo uma gambiarra no interior da aeronave. Os sditos de sua majestade, de cabelos arrepiados, voaram em direo a Moc City, Capital da Republica do Pequisto, onde aplacaram o estresse tomando uma providencial Viriatinha...


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Por Raphael Reys - 1/10/2010 18:16:07
GENTIL, QUINCAS E CASSIANO

Gentil Queiros, emrito fazendeiro e criador de gado de boa cepa no Rebento das Veredas, tinha uma verve prpria. Andava sempre bem vestido, com terno em cor clara, chapu Panam e uma boa botina Testa de Touro. No bolso trazeiro da cala, um amarrado de palha tenra, um naco de fumo de rolo e, na algibeira, um canivete Corneta amolado.
Abordado na rua por pesquisadores que perguntavam o que o entrevistado levaria na bagagem numa viagem para a lua, respondeu: se desse para levar trs pacotes de cigarro Roliude, trs garrafas de pinga e trs rameiras boa de cama, seria bom demais!
Doutra feita, saiu para beber usque Cavalo Branco com o amigo puritano Carlcio Atade. Encheram o guengo em um bar do Alto So Joo. Dormiram escornados na mesa do bar e ao acordarem na plena atividade noturna do lupanar, se depararam com o vai e vem de damas da noite circulando pelo salo em trajes menores.
Carlcio, assustado, pergunta: Gentil do cu! Onde que ns estamos? Gentil retruca, na bucha: Onde ns estamos eu no sei, mas vou saber logo! S sei que aqui t bom de mais!
J Quincas Queiros foi convidado por Joo Galo para servir de companheiro em uma viagem a Gro Mogol. Abastecido o veculo no posto do Armando Portugus, Quincas indaga: De que vamos falar nessa viagem, Joo? Joo sintetiza: Da vida alheia, que a melhor coisa do mundo compadre! E durante o percurso tacaram o bambu em quem merecia!
Na volta, j entrando em Moc City e passando prximo ao mesmo posto de combustvel, Quincas fala de sbito: Virge, Joo! Ns falamos de todo mundo e nos esquecemos de falar do Darcy! Joo manobra o veculo e entra no posto. Em seguida, pede para completar o tanque.
Surpreso com a manobra sbita Quincas indaga: U, Joo! Pr que abastecer se acabamos de chegar de viagem! Joo Galo responde, em cima do pedido: para fazer nova viagem inteirinha falando s dele!
J Cassiano, grande criador de gado e ex-prefeito de Braslia de Minas, estava em uma roda de prosa com fazendeiros falando sobre o nascimento predominante de fmeas nos rebanhos, diminuindo assim o lucro, que seria maior com novos machos.
Chegando sua vez de falar na rodinha, Cassiano afirmou: Pois l em casa o ano que nasce macho s macho. O ano que nasce fmea s fmea! Um curioso, indagou: E como que voc controla isso? Cassiano retorna: fcil. Eu s tenho uma vaca no plantel...


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Por Raphael Reys - 28/9/2010 15:32:40
BOCA DE MENTIRA

Segundo o poeta Ferreira Gullar, no se devem desmentir histrias inventadas, pois a fantasia excita bem mais do que a realidade. E o que a verdade? Neste mundo grande e bobo de iluses efmeras a prpria realidade um engodo. Um jogo de fractais!
No prtico da pirmide de Guiz encontra-se gravado em baixo relevo o axioma: Decifra-me, ou devoro-te! E o escritor espanhol Calderon de La Barca pergunta: a vida, sonhos so? A vida , portanto, um enigma. A mente humana atrada pelo mgico, pelo transcendente e as nossas emoes so um joguete do nosso atvico e do que foi indevidamente codificado no subconsciente.
Sidney Miller relata que: metade de minha vida eu vivo, a outra metade me contam! A mentira e a fantasia produzem uma ao to intensa que chega a criar e destruir mitos. Tenrio Cavalcanti, notvel poltico da baixada Fluminense de antanho, conta em suas memrias que: tudo o que fez para construir a sua aura de valento e destemido foi projetado por ele mesmo, por antecipao, com intencionalidade.
Carregava o seu revlver com balas reais e de festim, alternadamente. Para dar o seu show e dizer que tinha corpo fechado na Bahia, apontava para um obstculo e disparava acertando-o. Ato seguinte apontava e disparava com a bala de festim para a sua prpria mo. Todo mundo acreditava! Gente bicho besta. Diz um estudo que em cada 10 mil pessoas, uma s tem inteligncia emocional e capacidade de pleno discernimento.
Dentre os boca de mentira da nossa terra, comeando pelo cronista que escreve este texto tem de todo tipo. Alguns ouvindo de outro saem falando, outros dizem terem ouvido contar e vendem pelo mesmo preo que compraram, uns dizem terem ouvido e visto e por isso contam. H os que ouviram no Caf Galo no Kentura Kente ou na sauna do AC e s por isso saem contando.
Aqui na terra de Figueira tem local que s d boca de mentira. A barraca do Cear, na Praa da Matriz freqentada pelos mentirosos que tm a testa enfeitada. Na porta do Shoping Popular, encontramos pacientes geritricos que tomam comprimido azul, sem efeito, e mostram os pacotes de preservativos. So os falsos roedores de pequi!
O antigo ptio da REFFESA tinha um Pedro que era campeo. De tanto mentir os seus lbios engrossaram e a sua boca ficou levemente torta. Os freqentadores da porta da galeria gay no quarteiro fechado da rua Simeo Ribeiro, ouvem Jerry Alfaiate contar uma mentira e Zezo Relojoeiro desmentir e contar outra, ao mesmo tempo em que falam da vida de Paulinho Relojoeiro. Enquanto isso, Nenga Ourives rola de tanto rir.
Quase nos esquecemos de citar o prprio Paulinho Relojoeiro. Esse j desceu rio nas costas de jacar, pilotou avio em parafuso e conversou com extra-terrestes no alto dos Morrinhos. O maior de todos, entretanto, um moto taxista vendedor de lanches, da cabea branca que tem apelido de fruta tropical e mora na Vila Guilhermina. Ele viaja de helicptero com o governador, assessor de Lula no Norte de Minas e supervisor do SINDACTA 1!
Ns temos histria, somos da roa, mas, somos chiques!


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Por Raphael Reys - 23/9/2010 18:05:03
A LISTA

Em crnica recentemente publicada, citei alguns nomes dos montes-clarenses que sero convidados a integrarem a populao da Banda Fofa, gente finssima, aps a esperada separao do planeta Terra em duas partes, conseqente ao novo Big Bang, a formidvel e fantstica exploso csmica que, pelos registros de profetas, adivinhos e intelectuais, brevemente voltaro a acontecer.
A outra metade ser a Banda Dura (contrrio de Fofa).
Assim como fez o heri Tartaran no seu Tarascon, foram selecionados apenasmente os bons, os puros, fils e cabeceiras, a critrio e ad referendum de uma Comisso de Notveis.
Dom Denlson De Arruda e Cuba, naturalmente ir para alegrar a todos com o seu alto astral e a gargalhada sonora.
No bojo da nave transportadora, para cuidar da nossa TV, seguir Fel Tupinamb, com a sua presena suave e o seu sorriso dcil. As charmosas artistas plsticas Conceio Melo e Mrcia Prates, sagitariana e capricorniana, respectivamente, levaro cores, finesse e beleza para a nova Escola de Artes Andrey Kristoff.
Zezo Relojoeiro tambm vai, para comer mexido de feijoada e torcer pelo Atltico. Carneirinho e sua treita leve torcer pelo Cruzeiro. Jerry Alfaiate e seus auxiliares frufrus, lanaro a moda de cala masculina sem pregas. Estevim ser o editor de um jornal underground e far oposio besteirol do tipo Tem governo? Sou contra!
A socialite Rita Maluf integrar o gerenciamento da iniciativa com sua elegncia discreta, educao refinada e o sorriso angelical.
Haver um Jardim Suspenso de rara beleza, onde se poder conversar com as poetisas Dris Araujo, Amelina Chaves, Karla Celene e muitas outras encantadoras intelectuais.
Ouviremos na Rdio Fofa AM/FM, as vozes dos Eduardos, Lima e Brasil, com comentrios do velho GD. Z Vicente far o programa Gente Fofa da Gente e a escritora Maria Luiza Teles ser a nossa conselheira para assuntos espiritualistas.
O poeta maior, Georgino George, ser devidamente exorcizado e afastaremos da sua cola o esprito da moita, que h muito o persegue. Fernandinho Boca de Louvor, o nico cabo eleitoral que ir s para botar fogo em toucinho na barroca.
O jornalista e gentleman Magnus Medeiros, coordenar a nossa embaixada, enlevando coraes ao interpretar boleros e bossas dos anos dourados. Felipe Gabrich far parte do rol.
Para cuidar bem da nossa sade, levaremos de porteira fechada a equipe nota 10 de profissionais mdicos, enfermeiros, auxiliares, tcnicos, pessoal de servio, preceptores, todo o staff do Hospital Universitrio Clemente de Faria. L continuaro, com a mesma eficincia, a prestar os timos servios de sempre.
Aroldo Pereira viajar aps fazer implante de fios capilares, junto com o Mega Psiu Potico. Mirinha Maciel, como boa discpula de Whitman, cuidar da nossa sustentao ecolgica. Levaremos os Grupos de Serestas Joo Chaves e Lola Chaves, para, como de hbito, nos encantarem com as canes e modinhas da nossa Terra.
Das Alterosas, viajaro os escritores Augusto Bala Doce Vieira, Mary Alckmin, Carmem Neto, Iara Tribuzzi, Tinin, Alberto Sena e para cantar as lindas composies de God, os Guedes Beto, Gabriel e Ian. Do Rio de Janeiro, levaremos Felippe Prates, Carlos Alberto Prates Correia e Paulo Henrique Souto.
Dentre muitos e muitos que certamente estaro a bordo em companhia dos selecionadssimos passageiros da nave dos cabeceiras rumo Banda Fofa, contaremos com a presena certa do jornalista Haroldo Cabaret, para, juntos, compormos a balada desses novos heris.
Aviso aos navegantes: J comeou o peditrio. Tenho sido procurado por pistoles buscando incluir pessoas no habilitadas a viverem na Banda Fofa. Em vo, sem a mnima chance, pois o critrio seletivo baseia-se apenas e to somente no alto merecimento das pessoas.
Portanto, como diria o saudoso coleguinha Ibrahim Sued: Sorry, periferia! A Banda Dura os aguarda. De leve...


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Por Raphael Reys - 20/9/2010 08:20:48
BOBEIRA...

Estimados leitores: Essas histrias a seguir, nos foram relatadas, confidencialmente, pelo boa praa Wilson do Destak. Notrio mestre de baterias e carnavalesco. Segundo ele, George, emrito e dorminhoco comerciante, dono de uma bodega na Rua Melo Viana, conhecido no trecho por vender caf requentado, po de doce, biscoito fofo e outros gueguus. Expediente que mantm h 50 anos, ininterruptamente. Carrega em suas costas um estigma e um enigma. George j ganhou duas vezes o primeiro prmio da Loteria Federal. Mesmo assim, volta e meia comete uma vacilao e cai do cavalo. A malandragem local sabe do lance do sono e no perdoa. Mais dia, menos dia e esto fazendo (operando) em cima dele, novamente. A bufunfa que ganhou na loteria sumiu! Ele no sabe para onde foi como foi e no sentiu nadinha. S sabe que a grana sumiu. Escafedeu-se! Algum aplicou nele to bem aplicado que George nada notou durante o ato. S deu conta do prespio, quando zerou o caixa forte. J entregou tudo para Deus que nosso Pai, tomar de conta! Dia desses, pescando uma piaba no balco, na hora da sexta, j bambo de sono e para no dormir, ligou o rdio porttil, sintonizando no programa Gente da Gente do radialista Z Vicente. Chegou um fregus, uma mala do pedao, cado de bolso, sacou o vacilo, agachou na frente do balco, no sem antes zerar o volume do papagaio eltrico e, ento, imitando a voz de Z Vicente, falou: Prezados ouvintes da gente! Em virtude da falta de energia programada, pedimos apagar o rdio por cinco minutinhos. Findos os quais, solicitamos novamente a ateno dos amigos da gente! George caiu no golpe do Malandro Morfeu. Aproveitou a pausa programada e tirou mais um cochilo longo. No deu outra: o rdio mudou de proprietrio e virou grana na receptao de planto... Doutra feita, no mesmo horrio da sexta tropical, chegou um vizinho, tambm vigarista e aplicador. Deu uma de abrir a boca bocejando. Sentou-se mesa da birosca e fez um ag que estava morrendo de soneira quela hora. George comeu a sugesta de Induo e Empatia por Modorra. Pescou uma enorme piaba no rio do letargo e quando acordou, havia desaparecido de dentro do balco um saco de biscoito fofo, que abasteceria a espelunca por uma semana. J Zeca do Destak, nascido e criado no meio da vadiao do Bairro Morrinhos, cobra mais do que criada no Butant da rua Melo Viana, carnavalesco e atleticano doente, viajou para Bom Jesus da Lapa (BA). Objetivo: Cumprir promessa, visando com isso, lavar da alma os pecados cometidos no p do morro. Reciclar o lado espiritual do barato dessa vida doida e globalizada. Caiu na mo dos malandros baianos, filhos de santo e crias do ax. Na hora de subir aquela via crucis que leva ao Morro da Cruz, apareceu um cidado o incentivando a andar ligeiro. Empurrava-o pelo traseiro o impulsionando rampa acima. O sujeito era um punguista do pedao e bateu a carteira do Z, barrufada de dinheiro, deixando-o na maior mo de calango! Olho vivo! A malandragem est monitorando tudo e a todos, em busca de bobeiras. Vacilou, ngo velho, danou...


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Por Raphael Reys - 15/9/2010 07:59:20
A BANDA FFA

Notcias recentes, alarmantes e oriundas do noticirio internacional, nos do conta de aterrorizador vulco, localizado ao norte dos States. O dito, um verdadeiro big bam terrestre, morada do Romozinho, um Cracatoa ampliado. O bicho papo vem apresentando constantes e super elevadas presses internas.
Dizem os sismlogos, especialista em vulces, que essa fera se manifesta, ou entra em erupo, expelindo tetra quintilhes de litros de lava incandescente num ciclo com intervalos de 600 a 800 anos. Atualmente, tem 670 anos que ele se mantm aparentemente em repouso. pura chaveta. Olho vivo!
Quando explode, o mega gigante to terrvel e planificador, que em uma das suas erupes na pr histria o calor foi tanto que mudou a temperatura do solo terrestre! Em razo disso, os dinossauros e outros monstros congneres gerados aps o fenmeno, nasceram todos fmeas. Da, alm daquela gerao s nasceu mais uma, a seguinte, e no havendo machos para a cobertura e fertilizao das fmeas, extinguiu-se a espcie.
Na atual modernidade, estamos entrando em um estigma semelhante. Uma grande maioria dos machos atuais est deixando de ser espadas. Nada de culpar algum vulco, pois pura frescura!
Domingo ltimo, na tradicional reunio dos Poetas Quase Mortos, que acontece todos os domingos pela manh na Praa da Matriz, em frente ao Centro Cultural, o professor Sebastio, marido da poetiza Dris relatou-nos que aps a prxima e esperada erupo do gigante, o mundo vai partir-se em duas bandas distintas. Ser o maior papoco da histria!
Como se prev que o globo se fragmentar em duas partes, uma delas j est sendo chamada de Banda Podre. Para l, pretendemos enviar depois de caprichada seleo local, os chatos de galocha, os sofistas, cabos eleitorais, xexelentos, a galera do bas fond, posudos, marristas, botadores de banca. Adeptos do American Way Of Life, viciados em Internet, vendedores da palavra do Senhor, fusos e demais membros das galeras dos Hades aqui representadas.
Estou preparando a lista dos montes-clarenses que iro para a outra banda, para a Banda Boa, ou Banda dos Fofos, para onde s iro cabeceiras. O rol ser afixado previamente na parede do Caf Galo, do meu amigo Jadir Rodrigues (que s ir para a Banda Boa, por deferncia especial de Geraldim Alcntara. Mas, precisa levar um verniz na cara de pau).
Nela, (a Banda Fofa), os utpicos, cabeceiras, gente do bem. Mrcia Yellow ir com sua teleobjetiva digital. O arquiteto Casco, l estar para comer galinha caipira e para enriquecer o projeto arquitetnico Obelisco, em homenagem ao campeo dos espadas montes-clarenses, o muito saudoso Walduck Wanderley. Que Deus o tenha!
Dentre os muitos e muitos que l certamente estaro, inclui o escritor Augusto Bala Doce, capitaneando os poetas, escritores e os puros de alma. Levaremos o cardiologista Noasses Diamantino, para cuidar dos nossos coraes.
Tico Lopes e Virgnia de Paula iro para nos falarem de folclore e de modinhas, na companhia de Rui Queiroz a bater caixa e bong. A acadmica Yvonne Silveira ir para nos encantar a todos, com a sua presena, seu elevado estado de esprito e a sua nata e inata graa.
Traremos o querido escritor e poeta Felippe Prates do Rio de Janeiro, e ele, alm de valorizar e compor nossa patota com sua verve e muito talento, tomar scotch on the rocks, declamando, a pedidos, seus maravilhosos sonetos. Levaremos os cabeceiras nota 10, Eustquio Reprter, Nilo Pinto, Miguel de Ducho, Paulinho Relojoeiro, Per e os seus sapos, Hermano Konstantino para tomar fubuia e Haroldo Cabaret, para nos ajudar a escrever as crnicas do novo Shangril. Poretinha no ir, nem pintado de ouro!
Pancho Silveira ir representando o Brejo das Almas e os machos que tomam cachaa, jogam baralho e tm quengas por conta.
Na frente, seguiro incomensurveis frotas de transatlnticos carregados at na tampa de cachaa Viriatinha, Santa Rosa na rolha e Havana, farinha Morro Alto, pequi e carne de sol de Mirabela.
Ser a maior e a melhor curraleiragem da Histria!


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Por Raphael Reys - 9/9/2010 14:23:28
CURRALEIRAGEM II

Nos bons 1954, o Hotel So Jos, do figuraa Juca de Chichico, hospedava Juscelino Kubistchek, ento governador do Estado. A propsito, de certa feita, em campanha para Presidente da Repblica, por no ter cumprido antigas promessas eleitoreiras, JK foi vaiado por estudantes locais, capitaneados pelo saudoso jornalista Lazinho Pimenta.
Ducho Mendes, o barbeiro/livreiro tinha o seu salo de luxo montado no interior do hotel. Seu Juca criava pssaros de todas as espcies e matizes, em um grande viveiro montado prximo entrada lateral. Fazia a alegria dos visitantes e da garotada.
Era a maior felicidade as mes nos levarem para ver de perto o viveiro e para dar risadas com as brincadeiras de seu Juca. Oi, seu Juca! Que aperta e no machuca...
Na ocasio nos contava histrias de uma viagem que fez a Israel, durante a Segunda Grande Guerra Mundial, numa poca em que Israel ainda no existia, conduzindo um tubo contendo documentos secretos de Getlio Vargas para serem entregues ao Servio de Inteligncia Britnica.
Em outra ocasio, seu Juca notou que alguns pssaros haviam sumido de dentro do alfobre. No encontrando a causa e estando a estrutura preservada, ficou grilado. Prximo, havia a oficina de conserto de rdios, dos tcnicos Chico Ornellas e Manuel Borba. Manuel era tido como muito inteligente e esperto para descobrir as coisas.
Esse ltimo foi chamado e chegando ao local rondou o viveiro e matou a charada na hora. Apontando para o alto do criadouro disse: Veja, compadre Juca! L est o motivo do sumio dos pssaros! Um enorme gavio todo gorducho!
Juca de Chichico, vendo a mancada que dera, relatou que comprara aquela ave grandona na mo de um capiau treiteiro. O mesmo afianara que se tratava de uma espcie extica, inofensiva, oriunda da fauna do Amazonas, uma moda recente, entre os criadores da Capital. Como seu Juca era de boa f, fora passado para trs.
O esperto Manuel Borba era pai do nosso apreciado cronista e escritor Afonso Prates Borba e nessa ida para resolver o mistrio do sumio dos pssaros o rdio tcnico levou o seu filho adolescente Marco Antnio, o Alemo, que era o gal da cidade e fazia as meninas de ento suspirar e sonhar. L no hotel estavam hospedadas duas morenaas retratistas vindas das Alterosas e a ocasio propiciou o incio de mais um grande e curraleiro romance de amor do rebento de Manuel Borba, o arrasador de coraes.
E aqui fica relatada e registrada para a histria de nossa urbe, mais uma romanceada curraleiragem montesclarense!


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Por Raphael Reys - 4/9/2010 10:16:34
FICES... E UM RESTO DE NOITE...

Encostado parede do restaurante de luxo, marco com o p, o ritmo quente e assovio Greem With Envy Blues. Recebo a ltima rstia de luz da tarde na Avenida Sanitria que j entra no lusco-fusco. Assume o cu, um tom cinzento.
Uma excitao quase mrbida, e no dizer do poeta um frenesi de dar bananas. O Garden-Party retoca o seu smoking. A dama de azul turquesa toma o rumo do ao Automvel Clube. E o garom, usa um Summer de S 120 branco.
Um fascnio, um desencanto, um aroma de perfume. E no dizer portenho: um resto de tango e um assovio.
Ela comprou um pequeno e famigerado vidro de perfume Francs/Paraguai. Agora passa pela avenida pisando a trilha dos seus prprios pensamentos. Na via da sua imaginao, buscando fugir do momento objetivo da realidade presente. Concreto, e determinante. Apanha um txi!
Ernesto Van transita lentamente assoviando Doralice, Virgnia de Paula copia do seu livro de bruxa irlandesa, uma receita com infuso de folhas e ervas e a poetiza Dris Araujo faz mais uma composio, cheia de amor para dar. A escritora Maria Luiza se encanta com o meu Alento e sublima a poesia da sua alma em comunho.
A acadmica Karle Celene e a sua alma gmea Roberto tomam um scoth, under the rocs no restaurante Quintal. Um galo de Campina canta numa gaiola de arame. So milhes de trinados! Uma vitrine isolada e desgastada reflete os lumens da luminria,e o espelho francs mostra a beleza clssica do rosto de Conceio Melo.
No banco da frente, um manequim de plstico, esttico. Surrealista! No trax est escrito em letras grifais Sou do Tico Lopes. No banco de trs, Amiguinho, com seu sorriso amarelo e gelado, a Boneca de Leonel, vestida de chita, a pirata cabo de prata, de Virgnio Preto, e os culos modelo Ronaldo de Neco Santa Maria.
Ruas transversais e, por toda noite a luz brilhante de lmpadas de non. Vejo as linhas da palma de minha mo. Nelas esto registradas as rotas do meu destino carmico! Boquiaberto, peco um caf espumoso na birosca moderna.
H um incesto, uma tentativa de homicdio e um streeking, na orla fluvial do Rio Vieira. Uma cama giratria com Baco e Vnus. Um triunvirato, trivial simples. Uma velha senhora pede uma fubuia no boteco. O menino degusta um picol saia curta.
A dama de azul passa por mim, discreta, entretanto, o seu decote mostra um par de seios siliconados. Os seus olhos so de Vaca Pidona. Na esquina prxima, uma cena de Felline. Coraes juvenis cheiram cola de sapateiro e vagam pelos tortuosos caminhos do inconsciente pavloviano peditrico.
O mundo gira e a lusitana roda. H um ncubus no quarto daquela viva macumbeira. Felippe Prates declama Fromm Glicose aps a sexta dose de Jack Daniels no Restaurante do Armand`os.
Elthomar Santoro solfejando Rapariga do Bonfim e rescendendo oroma de curraleira!
H um To be or not to be, numa esquina prxima. Um compositor conclui que os instrumentos da felicidade so: uma escalera grande, otra chiquita. Um literato sentado janela rococ do sobrado colonial; l ramos Felizes e Sabamos e me acena. Uma dama da noite passa gingado sensualidade e cheirando a mistrio e Madeiras do Oriente.
Ela veste uma calca jeans cocote, j formando um culote, anda balanando o seu Bumbum Pratibumbum Burugundum. Um veculo moderno circula pela via e atravs da janela sai um bolero de Benvenido Granda. Um pederasta ativo e passivo arranja uma briga com um cften na esquina! Um sapato branco e marrom fica no meio fio. Um filete vermelho interliga o calado, o piso do passeio, o meio fio e a pista de asfalto.
H um sofrer sem compreender, e um dar de si, sem conta.


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Por Raphael Reys - 1/9/2010 08:03:06
CATOPEZADAS

Rolim, que era rolinha s no apelido, um danante de catop de antanho, motorista de caminho Dodge caixa seca, morador da baixada, tomador de fubuia no bar de Tiano e habitual prevaricador nos anos 50, foi curtir uma tarde de alcova tropical com uma mariposa do Beco do Marimbondo.
No dizer do escudeiro Z Paraso: ele, o Rolim, tem a torneira muito grande! A, satisfeito terminado a funo gensica o nosso heri tirou da algibeira uma boa nota de um cruzeiro estvamos no tempo da Tabela Price e pagou a dama da noite.
A filha de Eros e Afrodite, indignada, retrucou em cima da fatura: servio de cama para ferramenta do tamanho da sua negcio para cinco cruzeiros, no mnimo, seu Rolim!
J Maneco de Dona Gregria, antigo danante dos Caboclinhos, andava variado pelo centro da urbe. Foi parado por Tico Lopes, que lhe perguntou: C t andando variado, Maneco? O interlocutor responde: T aqui pensando no tempo antigo em que tudo era bom! Na poca atual, t tudo de cabea para baixo! Moo, t que nem arara sem cordo...
J Rui Queiroz, conhecido no trecho musical como Z Rui, ou mesmo Rui do Bong, foi ao Shopping e levou como seu acompanhante, para assuntos aleatrios, o tambm mestre do tambor Tico Lopes, que no dizer de Eduardo Lima, o Goiabo, s anda como um dndi.
Foram comprar um supimpa vaso de plstico para um arranjo com plantas artificiais. Escolhida a pea, Rui pede atendente que preencha o vazio do interior do vaso com aquelas aparas prprias. Bota uma, tira. Bota areia, palha, tira. Bota pedrinhas e isopor, tira. Bota arranjos vegetais, tira. Bota o escambal, tira!
Extenuada, com expresso cansada, a moa lembrou o dito do escritor Lampedusa: desenha-lhe no rosto emaciado uma melancolia metafsica... Pergunta, ento, ao Rui: por que o senhor no gostou de nenhuma das arrumaes que fiz? Rui do Bong responde, no ato: Porque est tudo catopezado!
A balconista que era de outra regio do estado, desconhecedora da nossa linguagem, pergunta: E o que que catopezado? Rui apontando para o Tico diz: Ele entende mais do que eu de folclore! Tico d as solicitadas explicaes e a balconista, meneando a cabea, fala: Bestage, moo. Ele quer que eu d um tcham no vaso!
Como um cidado cheio de detalhes, mincias e quizongas, prprios de artistas e de msicos, Rui conclui o dilogo com uma pergunta bastante pertinente, endereada ao companheiro: E voc sabe o que que tcham, chefe?
Esclarecimento aos meus caros leitores: o montesclarino um ser com alma e estigma prprios. Um capiau diferenciado, pois bota panca de rico viajado, mas, a bem da verdade, nada mais seno um chapadeiro fiduna. Domina-lhe a semntica libidinosa do pequi, o rusar da cachaa, a subservincia religiosa. Ns andamos com um tero no bolso, mas, para garantir, tambm com uma fita benta de catop na carteira de notas e, ainda, por via das dvidas, um patu de macumba na algibeira...
Para ns, o gado mija pra trs, mas nos pe para frente.
Na avaliao do saudoso Deca Rocha, ns somos caboclos curraleiros, cheios de truques e alguma falsidade...


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Por Raphael Reys - 26/8/2010 16:03:37
NOITE QUENTE NO KENTURA KENTE

Sbado 21 ltimos, rea reservada do Restaurante Kentura Kente, point da noite e orculo dos tomadores de loura gelada. Chego s 19: hs e encontro, j instalado no trio o jornalista Paulo Narciso, paramentado de discpulo do mestre Zanza e acompanhado de sua alma gmea, a escritora Raquel Souto.
Logo, Nenzo Maurcio adentrou a nave de Baco com sua alegre Patrcia. Trazia armas e bagagens e os exemplares do nosso livro ramos Felizes e Sabamos. Joselito, o secretrio executivo de Virgnia de Paula comandou a venda.
Um a um foram chegando os componentes da galera de escritores tupiniquins, filhos diretos ou adotados de Figueira, com seus familiares e convidados. Nilo Pinto e Amlia Drumond felizes com a organizao nos trinques.
Virgnia de Paula com um penteado chique arrasou com seu charme, vestida de preto para matar. Segundo o cabeceira tupiniquim Eduardo Lima, ela parecia uma debutante.
A noite era de acadmicos, jornalistas, msicos, escritores, convidados.
Yvonne Silveira, a presidenta da Academia Montesclarense de Letras foi ovacionado ao chegar. Presentes os escritores Petrnio Braz, presidente da Aclesia (Academia de Cincia e Artes do So Francisco) e Drio Cotrin, presidente do IHGMC (Instituo Histrico e Geogrfico de Montes Claros).
A imprensa marcou comparecimento em massa, atendendo ao nosso apelo e engrandecendo o evento. Luiz Carlos Novaes, editor do Jornal de Notcias e sua esposa, Hermano Konstantino, editor do Gazeta do Norte de Minas, Paulo Narciso e Raquel, da rdios 98 AM e FM e do site www.montesclaros.com, Angelina Antunes, editora do Caderno Mulher, do Jornal de Notcias, Mrcia Yellow fazendo a cobertura fotogrfica para o seu Dzai, Felicidade Tupinamb, coordenando a equipe da TV Canal 20 e muitos outros que logo se misturaram a alegria da festa.
Ambiente naturalmente descontrado de almas afins.
Amlia Drumond abriu a solenidade e foi seguido pelo socilogo e lder da trupe, Geraldo Maurcio que discursou sobre a obra e saudou a todos. A acadmica Yvonne Silveira falou de improviso e como sempre abrilhantou o evento. Efusivamente aplaudida.
Velhos amigos, velhos amores, conhecidos que se reencontraram entre muitas lgrimas, amplexos e sculos.
Ucho Ribeiro, o pai da idia literria, leu uma recente crnica publicada com a alma cheia de contentamento. Seu irmo Fred e familiares eram s alegria e animao. Presena macia das famlias: Deusdar, Narciso, a acadmica Milene Coutinho, capitaneando os Maurcio.
Juquita Queiroz e seu Grupo de Chorinho Geraldo Paulista (Tio, Wanderdayk, Raphael, Jonathan e Kollek) com um repertrio de bossa nova e balano violaram nossos coraes com recordaes do puro som do Beco das Garrafadas. Instrumentistas, cantores, performances se sucederam, solo, dupla e trio. Pura magia curraleira!
Haroldo Cabaret com Tiupas, lembrando Os Brucutus, Nenzo, Geraldo Carne Preta, um show popular e luxuriento mostrou panca de artista. Cantaram bossa nova, Valria Mascarenhas e Juliana Peres. O msico Yuri Popoff fechou a noite com chave de ouro.
A animao tomou conta dos coraes e Antonieta Fernandes que alem de cantar em dupla com Nenzo Maurcio, danou um p de deux tropical com Ademir Fialho (sempre de fogo e penducando o equilbrio). Outros casais animaram a pista.
Numa mesa s de capa de revista, o reflexo da luz dos spots nos cabelos louros de quatro beldades de fechar quarteiro. A charmosa jornalista Angelina Antunes, a beleza grega da artista plstica Conceio Melo, o charme quase fatal de Mrcia Yellow e a graa da socialite Mirian.
Em virtude das festas de agosto e com a cidade cheia de turistas, visitas e parentes vindos de fora, muitos telefonaram e passaram e-mail comunicando a impossibilidade de estarem presentes fisicamente.
Aviso aos navegantes. O livro ser lanado brevemente no Rio de Janeiro, sob a coordenao do cineasta Paulo Henrique Souto. Logo estaremos editando o segundo livro da turma. Vem coisa por a!


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Por Raphael Reys - 24/8/2010 07:52:54
CADEADO

Os cronistas escrevem o carter oculto da sociedade.

Conhecido comerciante do centro, bitipo mignone, alegre, divertido, embora do tipo tampa de binga tirado a conquistador de suburbanas. Sua carreira de abatedor de lebres sempre termina em fechadura e cadeado. Quando ele nasceu era to pequeno que os pais s o registraram aos dez anos esperando que o mesmo tomasse corpo. Da ele j ter sessenta e cinco, mas aparenta ter s quarenta anos. Como ele tem muitos amigos de papo, copo e cruz, volta e meia enche o quengo de gole, fica estabanado e sai para paquerar na noite. Dia desses, levou uma gatssima para o motel e como tem a ferramenta pequena, costuma compensar a arte de alcova com um bom e ertico papo ao p do ouvido da parceira. Como po duro, estava em um quarto de motel de pssima qualidade e baixo preo. Ao lado da janela, um pequeno matagal, do qual, sem que eles vissem, saiu uma pequena jaracuu que entrou pela janela e atrada pelo calor dos corpos dos amantes foi parar no meio do ato libidinoso. Certa altura da via de fato, a parceira levou a mo para engarguelar e acabou pegando mesmo na cabea da cobra verdadeira, ou seja, o ofdio intruso. Assustada, acesa a luz para checar de quem era aquela coisa grande rolia e cabeuda a suburbana deu o maior pit. O bafaf foi tamanho, que teve at que ser chamado os bombeiros para aparar o cavaco.
Como costume nos Montes Claros, os amigos correram e abafaram o caso, evitando que a matriz, cobra de outro gnero, cortasse a cabea dele enquanto dormia, conforme j prometido. Outra noite ele saiu novamente. Na ocasio telefonou para a Zinha e a encomendou arrumar uma profissional do seu tamanho, pois queria curtir uma tarde de similaridades, alm de fazer uma juno de cncavos e convexos compatveis (ele cheio de detalhes...)
Estava na alcova tropical na maior aplicao de Kama Sutra, quando a gatinha mignone deu o maior estrimilique. Se contorceu toda, revirou os olhos e ficou babando. Convencido como ele s, ficou pensando ter provocado aquele suposto apogeu gensico com efeito neurolgico!
Ledo engano. A profissional estava tendo mesmo era um ataque epiltico!
Como ele no sabia identificar o distrbio, ficou grilado temendo que a profissional batesse a caoleta e ele fosse acusado de homicdio por induo de apogeu gensico mltiplo sem inteno de matar!
Deu Samu na parada e os amigos, todos comerciantes e profissionais liberais barrufados, mais uma vez acorreram, aparando o novo pepino. Quem tem amigo, no morre pago!
Um conhecido profissional liberal que lida com escrita na nossa city, deu conselho a ele de agora em diante para acertar a escrita com a patroa em casa, que mais seguro. Afinal, est provado que o bicho no nasceu para prevaricar...
Esse mesmo bem sucedido profissional chegou a filosofar, citando: Se um carroceiro, estando perto da carroa, ler a histria da vida desse frustrado mini Dom Juan, dinmico e alegre comerciante, o burro cai no choro...
Haja cadeado e tranca.


60702
Por Raphael Reys - 20/8/2010 08:27:41
MONTESCLAREADAS XVII

Cidade plo da regio Norte de Minas, Montes Claros conta entre seus tipos folclricos com os banqueiros informais, tambm conhecidos popularmente como agiotas. A sabedoria popular relata de forma hilria a atuao dos mesmos no exerccio da profisso. Chamam os mesmos de corao de pedra, carrascos, unha de fome, fuinhas, medonhos e outros adjetivos desagradveis.
Um deles ia diariamente casa de um devedor para cobrar os juros, em pequenas parcelas, j que o principal houvera sido resgatado. O devedor se desfizera de todos os mveis e utenslios da casa para fazer jus a esse ressarcimento dirio. Como chegou ao auge da penria, a sua cachorrinha de estimao era s o couro e o osso, de pura inanio!
O cash man chegou, como de costume, para a cobrantina, dessa vez exigindo o pagamento total do atrasado. O devedor abriu as portas da casa para mostrar que s havia sobrado a cachorrinha amarrada no quintal do barraco. Ofereceu a mesma como pagamento do dbito.
O agiota entrou e constatou a veracidade dos argumentos e ao ver a cadela magrrima, recusou-a e exigiu outros bens quaisquer, como paga. O devedor argumentou que s tinha a sua mulher, que estava deitada numa esteira, no cho do quarto. O banqueiro popular foi at o quarto, verificou a oferta e voltou cabisbaixo com o que viu.
E para concluir em definitivo o ressarcimento, sentenciou: vou levar a cachorra mesmo!
Douta feita, o homem estava no Bar do Edson, na Praa Doutor Carlos, no centro. Um invejoso o vendo como sempre mal vestido e com roupas rasgadas, falou: Voc, um homem milionrio e vestindo roupa rasgada! Tome jeito e compre roupas novas! Os seus filhos andam todos no maior luxo!
O financista tupiniquim, todo relax, respondeu sem mudar a inflexo da voz: eles andam bem vestidos porque tm pai rico! No o meu caso, pois nasci pobre, de pai e me pobres e no tenho privilgios.
Abordado certa feita na Galeria Ciosa, por um devedor executado e do qual tomara a casa, o mesmo estando descontrolado, pois fora abandonado pela mulher aps o infausto acontecimento, aos gritos avanou sobre o agiota, agredindo-o e rasgando a sua camisa. Foi contido por populares.
O irado executado gritava a todos os pulmes: rasguei a camisa dele! Tranqilo, numa nice, respondeu a vtima: rasgou minha camisa, mas perdeu a sua casa de morada...
Outro agiota, em 1962, com atuao em bairros pobres, buscava receber vinte cruzeiros de um seu compadre tambm morador e vizinho, nos ermos dos matos entre a Vila Braslia e o bairro Santos Reis. O devedor vivia de pequenas criaes e da cata de mangas e pequis.
Como estava sem arranjar servio, sabedor que o compadre credor era cado por sua mulher, uma bela morena rolia, props d-la em pagamento, com aquiescncia da mesma, para saldar o dbito. O negcio foi feito por acordo das partes e o devedor ficou com a mulher do credor, na catira batida.
Recebeu ainda, como volta, cinqenta cruzeiros, uma porca parida e um canivete Corneta na bainha, dado plena satisfao do credor com a dupla transao: no bolso e na cama...... O delegado Miguel Abdo tomou conhecimento da catira batida, por denncia de um vizinho das partes, que ficara invejoso.
Infelizmente, uma negociao to original deu para trs, pois, em diligncia, a autoridade foi at o local e anulou tudo, alegando moralidade pblica...


60547
Por Raphael Reys - 12/8/2010 08:11:16
MONTESCLAREADAS XVI

essa crnica dedicada a nossa leitora a Dra.Fabla Vasconcelos,
Filha do nosso grande amigo Gerinha Portugus

Refletindo o dito de L Carr, em fazer excurses acadmicas pelo ministrio do conhecimento humano, veio minha memria algumas curraleiragens prprias de montes-clarenses saudosos.
Z Amorim no bar de Edson Barro conversava com o prprio quando viu dele se aproximar um conhecido fazendeiro todo posudo. Vestido nos trinques, sapato de pelica, relgio e pulseira de ouro, anel de brilhante no dedo. Z aponta para o recm chegado e diz maliciosamente: A tem coisa!.
O Z conversava com o delegado Guedes quando passa um conhecido. Esse, bastante plido e apresentando sinais de decrepitude. O homem das Amorincianas fala, na bucha: Nesse ponto em que o traseiro murcha sinal seguro que logo vai dar cemitrio.
O arquiteto Casco, por telefone, solicita um encontro com o Z no Caf Galo. O motivo pedir autorizao para preparar um livro contando os causos e verve do Z. Casco chega, um gigante de tamanho e dado fria aragem de junho vestido com uma camisa de l, manga comprida, listras ao estilo rural americano.
Do outro lado da rua o Z vendo o candidato a escritor fala: "pode atravessar a rua lenhador canadense F.D.P. O livro sobre minha vida, s depois de morto. J imaginou a patroa lendo histrias das minhas estripulias.
Logo chega o Dcio Cabeludo e o nosso heri, vendo o ex-bancrio Joo Lima ao longe pergunta ao Dcio: Voc conhece esse sujeito barrigudo com a sacolinha de frutas? Cabeludo retruca: Esse fiduma me fez passar a maior vergonha recentemente! Acontece que fui ao Banco da Lavoura pagar uma conta com urgncia! Como a fila estava dobrando o quarteiro e ao ver o Joo chegando boca do caixa, fui de mansinho e falei aos seus ouvidos: Paga esse pepino para mim que uma urgncia. O ltimo prazo s quinze horas de hoje!.
Prosseguiu relatando: O homem deu o maior esparro! Gesticulou, como um louco e disse: Voc est doido! O pessoal da fila vai me crucificar! Entregou-me de bandeja!
Em uma crnica publicada em jornal local, o saudoso mdico, seresteiro e poeta Joo Vale Maurcio fala de um dilogo que teve com algum sobre o vetor do Mal de Chagas. No dilogo, o popular disse: Fui picado por um barbeiro! Maurcio, esclarecendo, responde: Barbeiro no pica. Barbeiro chupa! Foi o bastante para que os oficiais barbeiros da cidade dessem o maior chilique!


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Por Raphael Reys - 2/8/2010 08:30:31
A Turma do Gibi
Nos bons anos 60 e 70, o bar do Haroldo, fincado na esquina das ruas Corra Machado e Melo Viana era o point da rapaziada. Muita cachaa curraleira, cerveja casco verde e os famosos PFs e tira gostos de galinha caipira. Alm do caprichado tempero, o molho e as mandingas do mestre cuca, sempre atraram muitos clientes.
L no bar, a galera pulava e se assanhava como uma farndola de diabretes, quando havia jogo de futebol entre Cruzeiro e Atltico. As turmas de torcedores rivais se peiteavam, mostrando faixas e cartazes com slogans alusivos contenda, cantando refres provocativos. Era o maior au!
Dentre os personagens mais animados, se destacava o Tipuka. Tipo extico, conversa arrastada, mos tortas, corpo torto, parecendo cavalo de umbanda incorporado na "Escora". A bem da verdade, era cobra criada, um servente de pedreiro da turma do mestre de obras Roberto Pimenta, o maior 171 do pedao. Esse criou fama como o mais esperto de Moc City. Dava uma de menino de creche para poder sobreviver.
Bem prximo dali e no passeio em frente ao Cine Ypiranga, trabalhava uma grande turma de engraxates com suas caixas caractersticas. Dentre muitos, Geraldo dos Beios, Nego T, Luiz Pinguelo, Joo Finin, Artur Cego, Carlai, e o memorvel Nau Faquir, morto tragicamente no mundo do crime.
Como ferramentas de trabalho, pastas Nugett, escovas, flanelas e a tinta Fenomenal, usada para mudar a cor dos sapatos.
Por qualquer alegria ou fraco motivo baixava o santo na galera. A todos enchiam a cara, engrossando a turma dos torcedores do Atltico, no Bar Destak da carnavalesca Dona Linda e dos cruzeirenses, no Bar do Haroldo.
A galera daqui sempre foi muito criativa, unida, e como a alfabetizao no chegou para todos os moradores da comunidade, apesar do progresso da nossa urbe, nasceu entre os freqentadores dos bares e do cinema, uma escola sui gneris.
A alfabetizao era feita atravs do manuseio de revistas em quadrinhos e pela leitura dos que eram alfabetizados, com a memorizao das falas dos personagens, textos e imagens pelos demais, surgindo, ento, entre os aficionados por revistas em quadrinhos, a Turma do Gibi.
Clubes idnticos funcionavam tambm porta dos cines Ftima, Lafet e Coronel Ribeiro.
Como a didtica ministrada porta do cinema se dava com os participantes em p na calada, desenvolveu-se somente a leitura e no a escrita. Nessa galera, figuravam alfaiates, aprendizes, serventes de pedreiro, operrios, mestres de obra e servio, arteses.
Nessa fase a bela professora Estelita Cardoso moradora da rua Melo Viana, matriculou uma boa parte da galera na distante Escola Vila Telma. Funcionava numa tapera com paredes de adobe, coberta de folhas de coqueiro a luz de gs e o sacrifcio era irem a p noite com quase uma hora de percurso. Conseguiu alfabetizar centenas de jovens do Bairro Morrinhos e adjacncias. A diretora do educandrio coberto de palha era Maria da Glria Xavier.
Todo sacrifcio em prol da educao dos jovens!
Dentre muitos, Pacu, Pipiu, Lika Alfaiate, Cludio, Aroldin, Liano, Marquinho Kiko, Z Maria, Eustquio Perneta, Padea, Hildebrando de Zefira, Zeca de Dona Linda, carregando o botijo na bicicleta cargueira. L estavam, alm de muitos outros no citados, trados pela memria e a nossa lembrana.


60405
Por Raphael Reys - 31/7/2010 09:24:32
Pradinho da Serra

Mirinha Maciel, essa adorvel filha de Figueira, ariana acelerada e de uma figa. Pura energia cabea, intelecto e memria privilegiados, corao universal e solto. Platnica, por aderncia filosfica e a Simone de Boveauoir, por opo doutrinria.
Inovadora como ela s, construiu a sua Pasrgada tropical e a chamou de Pradinho da Serra. Logo se chamar Agrovila Uka Uka.
Montou esse orculo na Chapada da Lagoinha, onde, surgindo do acaso, abelhas arapus que iro se enrolar nos fios do cabelo, silvestres e embriagadoras cagaitas, oromas de pans maduros, marmelada de cachorro enramado nas cercas, colnias de carrapatos ruduleros, grudados nas folhas do ara e que se alimentaro do sangue de um pequeno ginete cor de burro fugido, que servir para dar voltas em torno de um eixo.
L se acorda com o sopro do vento frio vindo da Chapada dos Pimenta, escutando mirades de trinados dos canrios da terra, umas notas como as de um preldio de valsa, outras to altas com tons na escala acima do d central. Aqui, nesse den porreta e curraleiro, ela e os amigos, curtiro, numa boa, a sua merecida aposentadoria. E como a vida bipolar, h de ser do jeito que Deus pediu e da maneira que o diabo gosta. Ser um viver de rdeas soltas nesse mundo doido e sem cancelas...
Dividiu a sua terra em algumas chcaras e chamou os melhores amigos para fazerem parte da egrgora tropical. Alexandre e Maria, Miguel e Tnia, Buteco e Danusa, Virgnia de Paula e Tico Lopes, o artista benzefala da terra do pequi, entre os privilegiados. Virgnia j teve uma revelao mstica no local e a sua parte vai se chamar Por (ou Esplendor) do Sol. Tico batizou a sua de Chcara do Tico Tico e foi justo e frouxo ali que recentemente caiu um meteorito!
O objeto csmico veio com um rasto de fogo do Canad at Moc City. A NASA diz que o fragmento oriundo do planeta Capela, da Constelao do Cocheiro.
A galera da Nova Era j pintou no pedao e j taxou o lance da transao de Altas Energias.
A dita Agncia Nacional de Aviao em sua sapincia e malandragem ofertou (para quando for desenterrado o meteorito) ao Tico Lopes a bagatela de 200 mil dlares pelo barato estrelar. O nobre Tico e para desencargo de conscincia, pensa em passar 20 por cento da bufunfa para sua protetora Mirinha Maciel, a matriarca do pedao.
Com o restante da grana que veio na maior moleza ir montar uma trupe de msicos, tocadores, cantores, sapateadores de lundu. Ser a Tico Tico Lundu Company. Faro uma turn pelas cidades similares do mundo. Entre armas levaro na bagagem vrias caixas de cachaa Viritatinha, requeijo de Salinas, farinha do Morro Alto, carne de sol dois pelos de Mirabela, pequi de Corao de Jesus e de Bocaiva, levaro raiz de carapi para dar cheiro no cigarro de palha.
Como proteo astral levaro patus de Oxossi pendurados em cordo feito na Roda de Aruanda.
Comearo a excurso pelas cidades similares: de Pars - Pats. Londres - Lontras. New York - Nova Iorque. Japon - Japonvar.
Farei parte da trupe como cronista, conselheiro, consultor e como sou pedlatra (admirador de ps femininos), farei um estudo libidinoso comparando os ps alvos e delicados das filhas da Rainha com os ps rachados e escolados das "tomadeiras" de gua do rio de Lontras.
No repertrio musical da companhia e como atrao maior, a msica Rapariga do Bonfim, do excntrico roqueiro Eltomar Santoro, o nico artista montes-clarense que j foi abduzido (e devolvido) por extraterrestres!
Motivo: Eles no agentaram a fubuia que o homem toma!


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Por Raphael Reys - 18/7/2010 09:46:50
Dois Ursos

Aqui na nossa romntica e preconceituosa Montes Claros, acontecem coisas de que at a Divindade duvida. Luiz Carlos Novaes, o Per, editor do competente Jornal de Notcias, em sua sapincia jornalstica afirma que fao parte da turma da Mocmenia. Ou seja, dos apaixonados pela histria da nossa aldeia.
Joo Montes Claros, um fiel leitor, envia por e-mail a lembrana de um causo de Z Mrio, ou Z Amaro e que era contado pelo gordo bancrio Quit Rosa.
Certa feita, em 1955, chegou a nossa urbe, uma parte desmembrada do internacional Circo Burney, o mesmo em que fora filmado O Maior Espetculo da Terra, tendo Burt Lancaster como ator. Trazia como atrao principal um dcil urso pardo de terceira gerao circense. Ficou instalado na Praa Coronel Ribeiro, na poca um descampado sem urbanizao.
Fez a alegria da garotada e da populao em geral, pois eram tiradas como lembrana, fotos de conterrneos abraados ao gigante bpede. Virou o chamego da ordeira populao local e passou a ser chamado de Papa Mel. A chapa fotogrfica, obtida como lembrana, era batida pelo nosso fotgrafo Coriolano Guedes.
Z Amaro, como era "entro" e prprio do seu feitio, rompante e agitado, furou a fila.
O momento nico, clicado por uma Kodak visor plano, captava o cidado abraado enorme barriga do colossal urso. Z era tampa de binga, igualmente panudo, extremamente agitado, falava gesticulando, gritando com voz metlica, gutural e cheio de interjeies e grunhidos. Acabou que o animal o confundiu com uma possvel fmea na verso tupiniquim e lhe sapecou um abrao acochado, dando-lhe um bafo quente no cangote...
Ficando a boca escura, o nosso barulhento heri comerciante de secos e molhados pulou fora. O urso, preso por uma enorme corrente de ao, fez um sinal com a mo chamando o Z de volta aos seus braos peludos... Z respondeu com os braos num gesto de banana descascada e pronunciou a frase que acabou virando moda na poca:
Beb! Mamar na gata voc no quer, no ?...
J o internacional artista, nosso querido globetroter Tico Lopes, conta que o comerciante corjesuense Pedrim de Araujo, estava participando de uma pescaria s margens do rio Pacu e comia uma feijoada original, daquelas que tem at prego de tbua de chiqueiro dentro, enquanto o seu folclrico cavalo Fenomenal pastava um bom colonio.
Pedrim tomava como guia uma boa cachaa......, quando surge em cena um enorme urso guarado, solto na larga da chapada. Corajoso e resoluto, Pedrim orelhou o gigante e falou grosso no seu p de ouvido:
Aqui no sua regio, seu bicho besta! Portanto d o fora antes que eu te pele o saco e encha essa bocona de chumbo quente!...




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Por Raphael Reys - 14/7/2010 13:27:44
Z SARU

Notrio dono de boteco desta terra de Figueira nos anos 50 e 60. Construiu a sua histria e fama em uma espelunca fincada no antigo prdio rococ do Mercado Municipal, onde hoje se encontra instalado o Shopping Popular. Tipo caucasiano, barriga proeminente, nariz de turco, andar apressado, afobado, galegado, gluto, destemido, olhar de gavio. Esperto que nem coelho, dormia com um olho fechado e outro aberto. No despachava para o bispo e a sua filosofia de vida era trabalho, dinheiro no bolso e estamos conversados...
A casa era, ao mesmo tempo, bar, restaurante popular, guarda volumes, ponto de jogo do bicho, catira de objetos e jias e no estrado de madeira posto acima do piso, como mezanino, um depsito, alm de um quarto de aluguel para casais inflamados pela semntica libidinosa da roa. Ele jogava nas dez e batia com pau de dois bicos!
O PF servido em suas mesas era famoso pela suculncia em gordura e temperos. Pimenta malagueta vontade. Como o fogo era de lenha, sempre caia algum picum do teto nas panelas. O que potencializava a rusticidade do prato!
Na rea havia sempre uma morena popozuda por perto para fazer companhia a fregus nas mesas de bebidas e distrair o passante que sorvia uma cerveja Teutnia ou mesmo uma Pilsem casco verde. A cachaa, servida na garrafa arrolhada, era curraleira e deixava o usurio com as parietais pegando fogo. Quase sempre algum desavisado estando chumbado pelo lcool ingerido, caia ao solo quando descia os quatro degraus ngremes da porta de entrada. O Z carregava o bebum para dentro, molhava sua cabea com gua fria, dava um copo de consom e o botava para descansar em um canto. Ele era despachado. O negcio era prestar servios, ganhar dinheiro e pronto. No tinha cor cor!
Era comum ter em estoque e para vender, balas de todos os calibres, uma boa carabina Papo Amarelo, uma espingarda polveira para matar mateiro ou mesmo um treisoito que o cliente comprava para pipocar algum desafeto por perto. Tinha uma viso apurada do futuro e como sabia das coisas da vida e conhecia o mundo e o submundo, tornou-se um conselheiro nato. Arranjava, sob encomenda, um advogado dos bons, um macumbeiro supimpa e mesmo um parrudo guarda costas...
Num sbado de sorte em 1965, joguei na sua banca do bicho e acertei a milhar 2376 na cabea. Me ingrupiu no papo e como o montante ganho era bastante expressivo, alegou pouco capital de giro e levou quinze dias me pagando em parcelas at completar o total do prmio.
Z Saru, a bem da verdade, aproveitou a minha grana e ganhou juros em cima, trocando cheques de pequenos valores e prazo curto dos comerciantes do logradouro.
Tudo o que caia na rede, para ele, era peixe, pois no dava murro em ponta de faca!


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Por Raphael Reys - 10/7/2010 11:17:55
A BANDA ROL

No nosso Morrinhos tem de tudo! No mnino uma verso diferenciada de quase tudo. Tem coisas por aqui que at o prprio Criador duvida! Embora eu tenha o meu imvel residencial a trinta e seis anos por aqui, s neste dezembro que fiquei sabendo que aqui rola a Banda Rol!
Para o cidado afeito ao seu cotidiano de trabalho, vendo novelas na TV, falando mal do vizinho, tomando fubia desdobrada e gritando Galo e Cruzeiro, a tal banda um estigma. Um verdadeiro estado de esprito da galera local. Para fazer parte da banda o cidado tem que fazer de tudo, ou quase tudo em matria de conjuno carnal. Tem que traar o que aparecer (como um condenado) tem que comer homem, mulher, fruta e s vezes at trocar. Esse a temtica dominante dos participantes. Afora a banda rol e sua fuleiragem tropical, tem os personagens que vivem criando situaes exticas e aprontando presepadas. O notvel Gasta Bala dava uma de lutador Shaolin na esquina da Melo Viana e encarava o saudoso percursionista C Baixim. Vacilou e levou uma porrada to doida que veio a perder todos os dentes! A galera do Destak Bar se cotizou e pagou um par de dentaduras para ele. A o Gasta Bala de boca nova encheu o "toba" de fubuia, comemorando um gol do Atltico e gritava na porta de dona Linda: Galo... galo...! As prteses caram no cho e um cachorro vadio abocanhou as mesmas e gramou o beco pela rua Melo Viana abaixo!
Doutra feita, o mesmo Gasta Bala indo para uma pescaria com a turma e estando liso, leso e louco surrupiou uma garrafada da sua vizinha. A toda hora mostrava a garrafa para a turma e dizia: essa minha, vou beber sozinho! No deu outra! Pegou uma disenteria braba acompanhada de expurgo de lombrigas tnia que saiam pelo nariz, boca, canal da urina e pelo ans! A garrafada era um abortivo!
Zeca do Destak cozinhava uma panela de presso de bucho e joelho de porco no seu bar, atendendo a sugesta de um jerico palpiteiro fechou a vlvula da dita panela com cadeado para apressar o tempo de cozimento. Estourou tudo e os tira-gostos ficaram pregados no teto da espelunca! A a galera chegava pedia uma desdobrada e ficava olhando para cima esperando cair um naco de bucho...
C Baixim, que era flor que no se cheira, aplicou o 171 no capil da Raimunda Paraibana com quem namorava. Alisou a valentona e caiu na gandaia gastando a bufunfa! A paraibana botou um revolver de brinquedo dentro da blusa para fazer o ag e cercou o C, no Beco dos Carijs. Batia no peito e gritava: sou mulher paraibana... Sou mulher macho.. Devolve-me o meu dinheiro... De tanto bater no peito intimidando, cabo do revolver saiu para fora e C sacando a sugesta aplicou na mesma um telefonema internacional nas orelhas!
A o Zeca foi para o desfile de carnaval na avenida com o quengo cheio de gor. O reprter que fazia a cobertura do evento televisivo o entrevistou: Zeca! Qual o tema da Escola Destak para esse ano? Zeca em cima do pedido respondeu: O teimoso aqui o Marquinho! Como esse ano ele no desfila est tudo calmo! J o Vivi Peixe pirulitava na esquina da Melo Viana com Correia Machado altas horas bagunando com um grupo e cheio de m. Uma patrulha policial chegou e desmanchou a rodinha mandando todos irem para suas casas. Vivi fez que foi, entrou no Bar do Paixo, tomou outra e mostrando o dedo em riste para os policiais falou: aqui pr cs, ia! O comandante da patrulha bateu o coturno com fora no cho gritando: pega ele!
Vivi ficou uma semana desaparecido! Gramou o beco e se escondeu no Alto Severo!


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Por Raphael Reys - 4/7/2010 15:49:13
O VALENTE E O CANRIO CHAPINHA

Nos anos 50, Montes Claros era uma urbe dominada pelo preconceito, boalidade, subservincia religiosa e o coronelismo. A mtrica dominante na psicologia dos habitantes era o critrio subjetivo. Qualquer roupagem ou padro desconhecido era imediatamente condenado.
Numa manh, o lendrio investigador de polcia Z Idlio, fazia campana de rotina no ptio da Rede Ferroviria Federal. Passava a vista em possveis passageiros desconhecidos que desembarcavam no terminal. Logo viu um cidado bem vestido, sapato de pelica, chapu de feltro e vestindo um colete de veludo sobre a camisa de linho.
Como essa pea de vesturio no era habitual por aqui, o chegante foi interceptado. Preso e conduzido Delegacia de Polcia, que poca situava-se na rua Camilo Prates onde hoje se ergue o Frum de Pequenas Causas. O cidado ficou uma semana trancafiado com marginais. O motivo da deteno era o indefectvel colete.
Viera de So Paulo para regularizar os documentos de um veculo adquirido inicialmente em nossa cidade.
Em 1955, o ento governador de Minas JK veio nossa cidade para campanha poltica. Hospedou-se no Hotel So Jos de Juca de Chichico. Logo irrompeu na praa Coronel Ribeiro uma passeata de estudantes do Instituto Norte Mineiro de Educao, fazendo o enterro simblico do governador em represlia pelo mesmo no ter cumprido anteriores promessas de campanha. Reivindicavam a instalao de geradores mveis para fornecimento de energia eltrica a nossa urbe. Ameaavam entrar com a urna funerria simblica porta adentro do hotel.
A passeata era capitaneada por Lazinho Pimenta, Joo Luiz de Almeida Filho e tendo como porta voz de desaforadas palavras de ordem o gordo bancrio Quit Rosa. O cabo Z Idlio, valente e destemido como sempre, peitou a turba, manobrou o fuzil Mauser e fez disparos por cima da cabea da galera, impedindo a invaso do hotel.
O capito Coelho, comandante do Destacamento Policial local, em seguida e como complemento, efetuou uma rajada de metralhadora In 45 contra a parede de adobe do imvel dos Pereira, numa demonstrao de fora, assustando o jovem poltico Edgar Pereira o mais agitado e empolgado da turma.
Em pnico, na correria que houve, Quit Rosa gramou o beco e foi se esconder dentro de um grande forno de assar biscoitos. Como era gordo, ficou entalado e com o traseiro de fora e s a muito custo o livraram da incmoda situao, puxado pelo cabo Z Idlio e mais quatro soldados. Uma cena digna de Fellini!
O lendrio policial, hoje com seus 88 anos, firme que nem aroeira preta na queimada morador da rua Melo Viana e meu vizinho aqui no bairro Morrinhos. Volta e meia sentamos sua porta para relembrar histrias e causos dos nossos Montes Claros. Ele um arquivo vivo, pois participou da maioria das tragdias de antanho acompanhando tudo como chefe de investigao.
No seu currculo policial consta ter feito papel, entre outros, de delegado de polcia e chegou mesmo a chefiar equipe de investigao da Polcia Federal em Belo Horizonte, dado sua competncia e destemor como profissional.
Certa feita, o meu ex cunhado o jornalista Leonardo Campos ofertou dez mil pratas por um conhecido e cobiado canrio chapinha do criatrio do Z. O dito pssaro brigador e campeo era originrio da Bolvia. Fora adquirido em Araua onde tinha status de cabeceira e cantador.
O Z no vendeu o espcime ao jornalista, emboramente a vultosa oferta, alegando que estando a gaiola do canrio colocada no corredor ao lado do seu quarto de dormir, nas clidas manhs era acordado por mirades de decibis do trinado. O maravilhoso som entrava casa adentro, repercutia pelas paredes, fazendo elevar a alma e o esprito, num enlevo de pura poesia... Portanto, no o vendeu, pois o exemplar que inspirava e propiciava tanto encantamento no tinha preo, alegou, com toda razo!
Comentou, em seguida, que nenhum dinheiro do mundo compraria aquela pssaro que ensejava, diriamente, um momento nico de puro romantismo em contato com a natureza...
No vale a pena deixarmos pelo caminho pedaos de ns mesmos. Afinal, o dinheiro paga mas no apaga a enorme falta que nos faz, alm da angustiante saudade que nos deixa, tantas coisas simples, partes da nossa vida e que, eternas, so infinitamente mais importantes do que alguns trocados a mais...


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Por Raphael Reys - 30/6/2010 07:53:26
MONTESCLAREADAS XV

Montes Claros, terra de Figueira, cidade plo, com seu centro comercial, educacional e referncia em atendimento mdico hospitalar. Por aqui se encontram representados e refletidos, ao vivo, todos os tipos humanos caractersticos da regio Norte Mineira.
Nesta nossa semi-urbanidade, o campesino que chega veste as primeiras roupagens psicolgicas no seu ego da roa.
Ao garimp-los e retrat-los eles se tornam universais, pois, por aqui, no dizer do saudoso Deca Rocha, encontram o murro da roa e a nossa curraleiragem.
Este nosso universo em microcosmo, tem desde o juro at o capiau com cara (somente a cara) de besta. Do Loqui de chapu, ao malandro vendedor de relgio micha. O fumador de cigarro de palha, que nada mais faz do que ficar imaginado um golpe no vizinho.
E como relata o atleticano doente Evandro Canzil, tem contra-ag e ag-do-contra-ag!
Tem at um clube de Pedlatras, ou seja, admiradores, aficionados e apaixonados por ps femininos, do qual tenho a honra de participar como hors concours.
Seguindo, pois, o dito de Gabriel Garcia Marques: procuro na escurido daquele ba sem fundo suas miudezas dispersas, num garimpo dos tipos todos eles imprescindveis que por aqui afluem.
Informa-nos o indefectvel gal e conquistador do Quarteiro do Povo, Paulinho Relojoeiro (que recentemente retornou a Moc City vindo do Maranho onde est montando empresa), que nas cercanias da sua terra natal, Mato Verde, tem um poltico folclrico.
Discpulo da Escola Georgiana Curraleira e sendo candidato a um cargo eletivo, foi fazer um comcio politiqueiro no povoado de nome Bonito. L chegando, no encontrou como era de se esperar o palanque armado, pois a oposio sabotara.
Seguindo linhas traadas que levam ao uso do alheio, uma praxe na classe, apanhou na moral dois tambores metal de 200 litros que se encontravam em uma carroa de carregar gua e sob a guarda de um filiado da Santa Federao dos Carroceiros Mato-verdenses.
Armou o seu palanque atravessando sobre os tambores uma tbua de bom tamanho servindo como piso e iniciou o seu discurso sofstico, cheio de Agamenon e picaretagem tropical. No deu outra! A galera curiosa que havia chegado foi saindo de fininho. francesa.
Ao terminar o seu papo furado coletivo, a platia estava reduzida a uma s pessoa. Chateado com o ocorrido, o discpulo de Grgias comentou com esse paciente e nico assistente que aquele povo no sabia prestigiar quem merecia.
Ato seguinte, agradeceu a vtima pela presena. Para sua surpresa, o recm elogiado ouvinte respondeu, calmamente: eu estava era esperando terminar o seu papo furado para levar de volta os meus tambores de apanhar gua que o senhor apanhou e usou sem pedir permisso.
E temos dito!


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Por Raphael Reys - 22/6/2010 07:59:15
MONTESCLAREADAS XIV

Depois de escrita a histria, vale pelo que parece e no pelo que foi... - Rachel de Queiroz.

Falando ainda de mandingas, ebs e macumbarias, me vem recordao certo sargento de milcias aposentado da nossa urbe, meu amigo. Filho de santo mal resolvido aproveita o que aprendeu de magia para aplicar o 171.
Ele faz as suas rezas bravas e engana de Raimunda a todo mundo, principalmente os comerciantes locais. Como sou conhecedor da malandragem no trecho e para provoc-lo, perguntei se ele ainda estava na ativa com as foras escusas do alm.
Fingindo no ter me escutado convidou-me a lhe fazer companhia at um aougue prximo Praa de Esportes. L chegando, instruiu-me a prestar ateno enquanto ele entrava e com rezas iria sumir da vista. Cegaria o aougueiro e daria o cano na casa. Abri bem os olhos e pude ver quando ele desaparecia como se houvera entrado por trs de uma porta invisvel.
Levei o maior susto e me arrependi em ter feito a brincadeira de mau gosto. Suei frio pelo impacto em mim produzido. Passaram-se cinco longos minutos e ele, da mesma maneira como desapareceu, voltou ao meu campo visual dando uma risada de ironia e mfa!
Trazia nas mos duas sacolas contendo carne bovina e algum dinheiro em espcie. Ato seguinte, falou: Voc duvidou de minhas rezas. A est uma sacola com cinco quilos de carne para voc. De quebra, tomei do aougueiro zuretado cem reais. Vou te dar cinqenta.
Fiquei perplexo e constrangido ao mesmo tempo e pedi desculpas por minha ironia. Devolvi a carne e o dinheiro, j que aquilo contrariava os meus princpios cristos. Em seguida, perguntou-me se estava de bom tamanho.
O Romozinho tem os seus protegidos e afilhados. No se pode confiar em nenhum marmanjo hoje em dia
No demorou tempo e nos encontramos, dessa vez na Praa Doutor Carlos, quando ele me apresentou outro seu igual, que com ele andava. Um baiano que est sempre por aqui fazendo mandingas e sustentando demandas para polticos.
O dito para se divertir faz filtros de encantamento, ou filtros de amor como so chamados para conquistar e levar para a alcova beldades suburbanas da nossa cidade.
Da o meu aviso de advertncia aos maridos, namorados e amantes, vtimas dos Ricardes amigos do alm. Antes de culpar a sua amada pela triangulao, procure averiguar se ela no mais uma das vtimas dos encantamentos e filtros de amor do p de pano macumbeiro.
Para encerrar a crnica com chave de ouro, vai a o meu conselho de conhecedor e iniciado, pois sou mestre em cincias ocultas e letras mal traadas: Sei de um feiticeiro que atende nas proximidades da Rocinha e que vende Flamalial a quem interessar possa.
Os pequenos e diminsculos entes, usados para fazer magia, so fornecidos aos compradores acondicionados dentro de um pequeno vidrinho com tampa de borracha. Daqueles encontrados antigamente em farmcias contendo penicilina. Lembram-se deles?
Aviso aos meus fieis leitores: Se algum chiar na rampa e botar em dvidas a minha informao e dicas s me falar que abrirei a caixa de segredos e darei nome aos bois, ou seja, os seus habituais compradores. A misso do cronista ver e relatar.
Para se livrar da ao desses mandingueiros tupiniquins, faa preces de esconjuro e se apegue ao seu santo de estimao. Cruze os dedos e diga: Signo de So Salomo trs vezes me livre dos catimbozeiros!




Selecione o Cronista abaixo:
Avay Miranda
Iara Tribuzi
Iara Tribuzzi
Ivana Ferrante Rebello
Manoel Hygino
Afonso Cludio
Alberto Sena
Augusto Vieira
Avay Miranda
Carmen Netto
Drio Cotrim
Drio Teixeira Cotrim
Davidson Caldeira
Edes Barbosa
Efemrides - Nelson Vianna
Enoque Alves
Flavio Pinto
Genival Tourinho
Gustavo Mameluque
Haroldo Lvio
Haroldo Santos
Haroldo Tourinho Filho
Hoje em Dia
Iara Tribuzzi
Isaas
Isaias Caldeira
Isaas Caldeira Brant
Isaas Caldeira Veloso
Ivana Rebello
Joo Carlos Sobreira
Jorge Silveira
Jos Ponciano Neto
Jos Prates
Luiz Cunha Ortiga
Luiz de Paula
Manoel Hygino
Marcelo Eduardo Freitas
Marden Carvalho
Maria Luiza Silveira Teles
Maria Ribeiro Pires
Mrio Genival Tourinho
Oswaldo Antunes
Paulo Braga
Paulo Narciso
Petronio Braz
Raphael Reys
Raquel Chaves
Roberto Elsio
Ruth Tupinamb
Saulo
Ucho Ribeiro
Virginia de Paula
Waldyr Senna
Walter Abreu
Wanderlino Arruda
Web - Chorografia
Web Outros
Yvonne Silveira