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montesclaros.com - Ano 23 - sexta-feira, 9 de junho de 2023


Paulo Narciso    [email protected]
86253
Por Paulo Narciso - 14/5/2022 14:40:28

Despediu-se hoje, em Belo Horizonte, o desembargador lvares Cabral.

Fomos colegas na Faculdade de Direito da Universidade Catlica de Minas Gerais, o embrio, o ponto de partida da PUC de hoje, onde atuei como assessor de imprensa do reitor dom Serafim Fernandes, ainda universitrio. E nos tempos altos do jornal Estado de Minas (1970/1979), na poca o quinto maior dirio do Brasil.

Nossa turma, formada em 1975, teve como professores uma dezena de presidentes do Tribunal de Justia e um presidente do STF, o ministro Carlos Mrio da Silva Veloso, tambm paraninfo.

O lendrio advogado Herclito Fontoura Sobral Pinto esteve na formatura, para pessoalmente entregar ao no menos lendrio Tristo de Athayde a medalha com o seu nome, instituda por sugesto da turma para homenagear anualmente - em nome da Universidade - os mais notveis defensores ptrios dos Direitos Humanos daqueles dias, mas com conotao bem diversa da de agora.

Hoje, lvares Cabral despediu-se.

A sua turma deu ao Judicirio de Minas outro destacado juiz - Rogrio Fernal.

Assim como Cabral, que foi juiz em Espinosa, Fernal atuou no Norte de Minas - em Corao de Jesus.

Naqueles dias, repito, em que a atual PUC Minas comemorava os 25 anos de sua Faculdade de Direito, era nossa caloura uma aluna do ano imediatamente anterior, e que tambm chegou presidncia do STF - Crmen Lcia.
(Ela no sabe, mas um seu antepassado, bispo, inspirou o nome do meu pai, Lcio).

lvares Cabral, alto, forte, sempre presente, vinha do seio de uma famlia de desembargadores e estava desde sempre decidido a chegar ao tribunal.

Chegou, e pretendia l permanecer por mais tempo - at ser surpreendido por enfermidade que o internou desde o ano passado.

Hoje partiu.

Partiu, evolou-se na antevspera da Lua de iluminao de Buda, muito antes do que projetavam os seus sonhos caprichosamente esculpidos e acalentados, galgados enfim.

Ser sempre lembrado pela figura amena e atenciosa com os colegas, de nobre comportamento, prestativo, jovial e disposto, gentil numa palavra.

Far muita falta na fotografia que ora revejo, e guardo.

No a deixar jamais, e seu nome seguir na agenda, ao alcance, sempre.

Desembargador lvares Cabral da Silva. Universidade Catlica, BH, 1975.



85915
Por Paulo Narciso - 24/10/2021 06:46:11
Foi sepultado em Montes Claros, por volta das 15h deste sbado, o corpo do lder empresarial mineiro Lcio Benquerer.

Lcio, nascido em Gro Mogol, sempre foi extremamente ligado a Montes Claros.

Economista e lder empresarial em BH, onde foi presidente da Associao Comercial de Minas, esteve perto de disputar a prefeitura da capital, convidado por mais de um partido poltico - fato conhecido por poucos.

Ser lembrado como importante nome de Minas nos ltimos 50 anos, at se recolher sua cidade natal, onde notabilizou-se pela construo do prespio natural Mos de Deus.



Os ltimos quase 2 anos, passou-os internado na Santa Casa de Montes Claros, depois do diagnstico de problemas de fundo neurolgico.

Partiu aos 83 anos.


A par de ser destacado nome das montanhas mineiras, a Lcio ainda ser prestado o reconhecimento de ser - (de ser sempre) - o defensor perptuo dos interesses da regio norte, desde quando se tornou um dos primeiros filhos a formar-se em economia, pelos anos 60.

Por tempos, foi tambm o representante dos scios minoritrios da Petrobras.


Sua vida, exemplar, exibir para sempre o selo da correo, da gentileza incomum, e dos objetivos superiores - at os momentos finais e conclusivos.

De Lcio ainda se dir que o nosso destino comum transitou por suas mos, honradas e diligentes.

(Foi um dos 6 fundadores da primeira rdio FM de Montes Claros - a Rdio 98FM Montes Claros, j agora aos 40 anos).



Ontem, por fim, na singela e tocante cerimnia de despedida, no meio da tarde ps-tempestade, recordou-se frase de poeta persa, que nos adverte de que o tambor da morte nunca cessa.

Contudo, para Lcio Marcos Benquerer, o tambor tocou diferente.

Ouviram, os que puderam ouvir, na tarde calma e leve, depois do vendaval.


85457
Por Paulo Narciso - 19/1/2021 05:59:21

Sem que quase ningum saiba, M. Claros sepulta nesta tera-feira o corpo de um dos seus heris histricos na rea da imprensa, que teve dias de glria. Outros, diferentes dias.

Morreu ontem, por volta das 16h, Tio Camura, o clebre impressor de "O Jornal de Montes Claros", desde os anos 60 e at o seu fechamento, no final da dcada de 80.

Era comum, naqueles dias, na cidade de 30, 40 mil habitantes, a pessoa que passasse de madrugada pela rua Dr. Santos, sede do jornal, ouvir o rumor da velha impressora trabalhando ainda de madrugada.

Era Tio Camura, sozinho, imprimindo, folha por folha, a edio do jornal. 3 mil exemplares, h 50 anos.

Fato que se repetia nas madrugadas dos dias especiais, como Natal, Pscoa, etc., por dcadas seguidas, at que a velha mquina, que imprimia uma folha por vez, silenciasse para sempre, relegada a um canto, a mais de um canto.

Literalmente, a notcia que a pequena cidade consumia passava toda ela pelas mos corretas de Tio Camura, em longas e solitrias madrugadas, no velho, apagado casaro no centro da cidade, onde hoje ergue-se o prdio da Caixa Econmica Federal, algo insolente.

E Tio sempre desempenhou o seu papel com humildade e presteza, com a convico ntima do que lhe competia fazer em proveito de todos, sem nada pedir de volta.

Muito alm do folclrico Tio Camura das ruas, cantor de boleros, bomio, de enorme corao, intrprete de Noel Rosa, de Emilinha Borba, de Lupicnio Rodrigues, Adoniram Barbosa e Lamartine Babo.

Craque, como eles, annimo, quase sempre solitrio, mendigo de ateno. Um Lima Barreto de provncia, embora nunca fosse visto escrevendo nada, com as mos, sempre limpas.

No far mais falta do que j vinha fazendo, h tempos.

Um personagem da velha Montes Claros, que no passar.



Ainda, uma lembrana. Tio, desde sempre, adorava cantar a imortal msica de Nelson Cavaquinho:

Sei que amanh
Quando eu morrer
Os meus amigos vo dizer
Que eu tinha bom corao

Alguns at ho de chorar
E querer me homenagear
Fazendo de ouro um violo
Mas depois que o tempo passar
Sei que ningum vai se lembrar
Que eu fui embora
Por isso que eu penso assim
Se algum quiser fazer por mim
Que faa agora

Me d as flores em vida
O carinho, a mo amiga
Para aliviar meus ais
Depois que eu me chamar saudade
No preciso de vaidade
Quero preces e nada mais


85246
Por Paulo Narciso - 5/11/2020 17:26:25

Montes Claros perdeu nesta tarde um dos seus personagens recentes.
Aos 82 anos, partiu Mrio Rodrigues, conhecido por Marinho.
Nascido em Juramento, exatamente nas 7 Passagens, toda a vida esteve ligado ao setor rural ( associado dos mais antigos da Sociedade Rural) e foi representante das Raes Purina, da tambm ser chamado de Marinho Purina. Tinha todo o tempo, para todos.
De temperamento ameno, cordial e conciliador, colecionou milhares de amigos e era solicitado a toda hora.
Discreto, leal, elegante nos princpios, prestativo, eternamente gentil, foi testemunha de acontecimentos importantes na vida da cidade nos ltimos 70 anos, e conservou detalhes importantes de muito fatos.
Deixa um casal de filhos e o exemplo do cidado correto, escorreito, constante e fidalgo, imensamente humilde - no que a palavra incorpora de mais alto.
A simplicidade na conduta, a escolha pela vida suave, comedida e sbia, o elevam ao patamar dos que melhor souberam viver, entre ns.

O bom Marinho partiu como viveu - enorme tambm na hora de dizer adeus. Surpreeendido pela doena tenaz, fez a travessia em pouco mais de 1 ms, com a entrega e a solicitude que sempre foram a marca de vida to alta quanto leve.

(O sepultamento est marcado para as 14h desta sexta, com velrio a partir das 23h de hoje, na Avenida Joao Luiz de Almeida 354)

P.S.

1 - O bom Marinho que cito aqui sempre me levou ao Irmo Marinho, personagem da histria dos primeiros dias da era Crist, cujo corpo, soube recentemente, est depositado numa das centenas de igrejas de Veneza, que ainda pretendo visitar. Vale muito a pena conhecer. A histria pode ter inspirado o imenso Joo Guimares Rosa a construir o personagem principal de Grande Serto: Veredas, Diadorim. O autor jamais omitiu suas msticas convices, e o tempo as reforou.

2 - Quando nesta sexta fomos levar os despojos ao escrnio da terra, ficou tambm claro que o cantante Marinho mereceu sua campa a pleno luar, que ele cantou, e amou.
Mais: vimos, e ouvimos, que na primeira noite as diurnas cigarras de outubro - recuadas para novembro - deliberaram cantar. (Marinho segue ntimo da natureza, com quem tambm sempre dialogou).


84567
Por Paulo Narciso - 10/3/2020 14:05:22

A missa de Ressurreio de Zez Colares, ontem, na Catedral, foi de muita emoo.

O Banz cantou suas msicas, e tambm as msicas da Igreja.

Uma delas rodou por mais tempo por todo o templo, fixando a parte que dizia - "meu cansao... que a outros descanse..."

Contudo, o momento mais tocante foi quando - entre os filhos e netos de Zez que se pronunciaram - apresentou-se um, pouco conhecido da M. Claros recente.

Gregory, norte-americano na faixa dos 60 anos, deu depoimento emocionado, cortado por lgrimas.

Disse que, aos 17 anos, estava em M. Claros, a pelos anos quase 70, dando aulas na Cultura Inglesa, quando foi "adotado" como filho gringo do casal Zez e Joo Carlos.

Os laos da afeio profunda nunca se desfizeram. Intensificaram-se.

H poucos meses, ele mais uma vez veio visitar a me brasileira.

Chorou muito, ao v-la resignada a dormir.

Na segunda-feira 2, ao saber que Zez havia partido, depois da prolongada enfermidade, tomou o primeiro avio de Ohio, na regio gelada dos grandes lagos dos EUA, e veio correndo, juntar-se "aos meus irmos, cunhadas e sobrinhos".

- Graas a Deus que ela fez parte da minha vida, e continua, com meus irmos, cunhadas e sobrinhos - resumiu na fala tocante, interrompida pelas lgrimas, que ento eram de muitos.

Ao final, abraado e consolado, juntou:

- Vocs no sabem o que chorar num voo de 8 horas, chorar sem parar!



(Acima as anotaes de Gregory para driblar as lgrimas no plpito da Catedral, no ofcio de Ressurreio de Zez Colares, ontem, em Montes Claros)


84559
Por Paulo Narciso - 8/3/2020 11:38:25




Sexta-feira 16/8/2019 16:53:46


Uma vez mais, a Festa de Agosto - repetida ano a ano h quase ou mais de 200 anos pelas ruas centrais de Montes Claros - reserva surpresas.

Uma voltou a ocorrer, hoje.

Quando a banda da PM, implantada nos anos 50 pelo benemrito sargento Nadir, quando a banda passava pela Rua Camilo Prates, encerrando o cortejo do Reinado de So Benedito, seus membros receberam ordem de estacar, parar. O cortejo seguia.

A banda parou no meio do quarteiro. Os msicos voltaram-se todos para um baixo muro de pedras, escuras. E passaram a tocar, sem aviso, a msica que o Hino da Nao Montesclarina, felizmente hino no oficial, a modinha Amo-te Muito.

Poucos dispunham de informao para avaliar o momento, de emoo.

Na casa de muro baixo, de pedras escuras, vindas de Gro Mogol, ali h cerca de 5 anos sua moradora resiste aos sintomas da doena da idade - o Alzheimer.

Chama-se Zez Colares, tem 89 anos, 5 filhos. mecenas de Montes Claros. Migrou da agenda de socialite, das colunas sociais, para a benemerncia cultural.

A maior parte do tempo dorme, como uma bela adormecida. Serenamente, como nas histrias, estrias. Ontem, ainda ontem, foi levada para a varanda por onde passou o Reinado de Nossa Senhora, do Rosrio.

Nesta mesma festa, h mais de 80 anos, a menina Zez, aos 4 anos, foi a rainha, na dcada de 30.

Era to difcil conseguir a vaga de Rei ou de Rainha de um dos desfiles que a escolha s podia ser feita por sorteio, entre tantos pretendentes. E um tio materno dela, solteiro, havia sido o sorteado. Ento, Zez e seu irmo Dio Colares foram os soberanos, imperadores do Divino.

No comeo desta tarde, a banda da PM ento voltou-se para a casa de muro baixo e pedras escuras, e tocou o Amo-te Muito.

Por merecidos motivos, interpretando o sentimento da cidade.

Alm de despertada cedo para os valores e princpios da cultura do serto, Zez, como foi dito, avanou da agenda social para a benemerncia cultural, a pelos anos 70.

Fundou o Banz e, com ele, levou centenas e centenas de jovens a visitar o mundo, percorrendo festivais em pases da Europa e das Amricas, arrancando aplausos para a alegria incomum que aquele corpo de jovens exibia por toda parte.

Lembro-me bem: h 30 anos, numa cidade de altos penhascos sobre o mar da Normandia francesa, um produtor da TV despencou-se da torre de filmagem e aproximou-se de Zez, aflito:

- Senhora, por favor me explique: de onde esses seus jovens armazenam tanta alegria, impossvel de ser vista, neste nvel, no meu pas, a Frana?

Zez ainda trouxe grupos de muitos pases a visitar Montes Claros. E o intercmbio, jovens de l e de c, reunidos pela cultura, pela arte, pela msica, pela dana, produziu frutos.


Enquanto a banda hoje tocava o Amo-te Muito, esta histria de transmigrao passou como num filme, no muro baixo de pedras escuras, na tarde ensolarada dos catops.



***


Domingo 8/3/2020 11:38:25



PS. Devo acrescentar. Somos primos. A me de Zez Narciso Soares, irm do meu pai. Gente retirada, do arrebol, os 2: o do Levante e o Crepuscular.

Existimos desde sempre do outro lado da ponte da Vila Braslia, uma plantao de uvas, videiras, e de sonhos, e onde no princpio do sculo passado uma famlia vinda de Diamantina para a cidade de 3 mil habitantes produzia vinhos finos, para missas, com uvas pisadas em grandes tonis. Como nos filmes bblicos.

Eu ainda peguei o pisoteio, eu me lembro.

Zez teve vida de princesa, linda, educada nos melhores colgios, casamento com prncipe - o nunca igualado gentil homem chamado Joo Carlos Pena de Arajo Moreira, to de todos ns.

Por tempos, a vida social de M. Claros passava por ela. O Brasil tinha Carmen Mayrink Veiga. Ns, sempre teremos Zez.

Ela - com o empurro de dona Marina - migrou para o mecenato.

Foi pelo mundo cantar Montes Claros.

E a modinha Amo-te Muito falava por ns, mais que tudo. Tambm vi, ouvi.

Sua retirada agora, longamente cultivada numa cama de bela adormecida, a parte conclusiva deste filme.

Nos ltimos anos, onde passo a maior parte do tempo ensinado que o universo, de Uno, um s e nico giro, pois nada particular e prprio.

Tambm revelado, de boca a ouvido: quando o discpulo est pronto, o mestre aparece...

Rumi, poeta persa do sculo 13, o mesmo sculo de Francisco de Assis (e do Mestre Eckhart), o poeta Rumi nunca se cansou de ensinar, de repetir, de ciciar, como ainda agora:

"Na verdade, somos uma s alma, tu e eu.
Nos mostramos e nos escondemos tu em mim, eu em ti.
Eis aqui o sentido profundo de minha relao contigo,
Porque no existe, entre tu e eu, nem eu, nem tu."

Portanto, intil procurar por Zez onde depositamos o seu corpo na torrencial chuva de segunda-feira, na penumbra que s, e sempre ser, o comeo da eterna madrugada. Pois tudo gira.

Amanh (s 19, 30, na Catedral), cantaremos para Zez o ofcio da Ressurreio. Os albores, arrebis. Levantes e Crepsculos. Comeos, recomeos.


84179
Por Paulo Narciso - 30/8/2019 10:04:16

30 de agosto. Hoje, M. Claros tem novo encontro com o dever de gratido. Chega aos 90 anos, jovem, alegre, sempre disposta e alerta, a Irm Guido, do Colgio Imaculada Conceio, da Congregao do Sagrado Corao de Maria.

Embora Guido sugira nome brasileiro, a Irm Guido belga. Poucas pessoas em Montes Claros - pouqussimas - a superam em identificao com a cultura qual se entregou integralmente ainda por volta dos 20 anos.

Deixou a Belgica e veio para o Brasil a pelos anos 50, ou pouco antes.

Jamais teve sotaque, e qualquer interlocutor ter dificuldades em identificar na sua fala escorreita uma belga, algum que trocou um dos pases mais civilizados e atualizados do mundo por uma nao emergente, silvestre flor do serto ("Sempre Viva") das Amricas; ermo, remoto lugar perifrico do planeta.

Veio da Blgica, como padres e freiras, na dobra do sculo XX.

A ajuda franca que prestaram cidade - que poca tinha 20 mil habitantes, ou 3 mil, como nos dias das irms Odlia, Beata e Canuta - a ajuda que trouxeram sem nada pedir torna a Blgica nossa segunda irremovvel ptria.

Muitos de ns amamos a Blgica como nossa terra genuna, graas aos padres e freiras que a predicao crist enviou nesta direo.

Uma legio deles: Beata, Canuta, Odlia, Francisco Morreau, Amando, Estanislau, Pedro, Ciardo, Malvina, Chantal, Irene, Verla, tantos, tantas. (E sempre haver um nome a ser acrescentado aqui).

preciso lembrar que a alta cultura belga (que acumula 11 prmios Nobel, e que se ops vigorosamente a Hitler) junto com padres e freiras nos enviou o que temos de mais precioso e nobre.

Vale citar: a escola, o teatro, o jornal e, acima de tudo, princpios e valores; F - no que a palavra tem de superior, sem dogmatismos.

Pois bem.

Hoje, a gratido de Montes Claros vai se re-unir em torno de Irm Guido, para retribuio, plida, comovida, permanente.

E onde cabe um pedido: fica, segue conosco pelos prximos 90 anos. ("Senhor, j tarde. Fica conosco").

Ento, nosso olhar, agradecido, deve voar sobre o oceano e pousar em Berlaar, perto de Anturpia, no minsculo cemitrio cannico que guarda as relquias de abnegadas almas que se entregaram a ns, numa lista principiada pela Irm Malvina.

Se, como acreditamos, a Vida no cessa, h festa, hoje, no Cu e na Terra.


(Na foto, duas das primeiras freiras belgas que chegaram a M. Claros, pouco depois da estreia, do dealbar dos anos 1900)


84161
Por Paulo Narciso - 16/8/2019 16:53:46



Uma vez mais, a Festa de Agosto - repetida ano a ano h quase ou mais de 200 anos pelas ruas centrais de Montes Claros - reserva surpresas.

Uma voltou a ocorrer, hoje.

Quando a banda da PM, implantada nos anos 50 pelo benemrito sargento Nadir, quando a banda passava pela Rua Camilo Prates, encerrando o cortejo do Reinado de So Benedito, seus membros receberam ordem de estacar, parar. O cortejo seguia.

A banda parou no meio do quarteiro. Os msicos voltaram-se todos para um baixo muro de pedras, escuras. E passaram a tocar, sem aviso, a msica que o Hino da Nao Montesclarina, felizmente hino no oficial, a modinha Amo-te Muito.

Poucos dispunham de informao para avaliar o momento, de emoo.

Na casa de muro baixo, de pedras escuras, vindas de Gro Mogol, ali h cerca de 5 anos sua moradora resiste aos sintomas da doena da idade - o Alzheimer.

Chama-se Zez Colares, tem 89 anos, 5 filhos. mecenas de Montes Claros. Migrou da agenda de socialite, das colunas sociais, para a benemerncia cultural.

A maior parte do tempo dorme, como uma bela adormecida. Serenamente, como nas histrias, estrias. Ontem, ainda ontem, foi levada para a varanda por onde passou o Reinado de Nossa Senhora, do Rosrio.

Nesta mesma festa, h mais de 80 anos, a menina Zez, aos 4 anos, foi a rainha, na dcada de 30.

Era to difcil conseguir a vaga de Rei ou de Rainha de um dos desfiles que a escolha s podia ser feita por sorteio, entre tantos pretendentes. E um tio materno dela, solteiro, havia sido o sorteado. Ento, Zez e seu irmo Dio Colares foram os soberanos, imperadores do Divino.

No comeo desta tarde, a banda da PM ento voltou-se para a casa de muro baixo e pedras escuras, e tocou o Amo-te Muito.

Por merecidos motivos, interpretando o sentimento da cidade.

Alm de ter sido despertada cedo para os valores e princpios da cultura do serto, Zez, como foi dito, migrou da agenda social para a benemerncia cultural, a pelos anos 70.

Fundou o Banz e, com ele, levou centenas e centenas de jovens a visitar o mundo, percorrendo festivais em pases da Europa e das Amricas, extraindo aplausos para a alegria incomum que aquele corpo de jovens exibia por toda parte.

Lembro-me bem: h 30 anos, numa cidade de altos penhascos sobre o mar da Normandia francesa, um produtor da TV despencou-se da torre de filmagem e aproximou-se de Zez, aflito:

- Senhora, por favor me explique: de onde esses seus jovens armazenam tanta alegria, impossvel de ser vista, neste nvel, no meu pas, a Frana?

Posteriormente, Zez trouxe grupos de muitos pases a visitar Montes Claros. E, o intercmbio, jovens de l e de c, reunidos pela cultura, pela arte, pela msica, pela dana, trouxe mltiplos frutos.


Enquanto a banda hoje tocava o Amo-te Muito, esta histria de transmigrao passou como um filme, no muro baixo de pedras escuras, na tarde ensolarada dos catops.

***

Ainda o desfile de hoje. L estavam, uma vez mais, as sobrinhas de Dona Custodinha, o anjo da guarda de Marujos, Catops e Caboclinhos.

Anonimamente, ela segurou a festa pelas dcadas de 30, 40, 50. Era a sua famlia, na casa modesta nos fundos da Matriz, de onde o rumor dos catops vazava para a cidade alm.

O detalhe: as sobrinhas acompanharam o desfile hoje em cadeiras de rodas, no meio e entre alas dos adorados catops da tia, h muito cantando "quem fez foi o Rei da Glria" diretamente no Cu.

***

Ainda os Catops, apelido de um congado muito prprio de Montes Claros: com o crescimento das festas, comerciantes mais atualizados comearam a enfeitar suas lojas com as cores de Marujos, Caboclinhos e, claro, dos Catops.

Para o ano, estudam criar uma promoo em todo o comrcio, voltada para a data.

Querem contribuir com a festa, aumentando as vendas no perodo e fortalecendo a economia e o turismo, numa data que volta a ser a preferida dos montes-clarenses ausentes.

Nem Doutor Hermes, que impediu o desaparecimento da festa nos anos 60, sonhou to alto. Entre os catops deste ano estava o presidente do CDL.


83543
Por Paulo Narciso - 15/9/2018 20:16:33

Derrubaram hoje, a golpes de trator, a nica homenagem de M. Claros a um dos seus filhos mais venerados pela recente histria mineira.

O sbado foi usado para fazer desaparecer a construo que na Rua Hermenegildo Chaves, ao lado da Matriz, sustentava a placa colocada ali para celebrar - na modestssima viela que tem o seu nome - as comemoraes pelo centenrio deste excepcional jornalista. Irmo do poeta e seresteiro Joo Chaves, com ele co-autor de modinhas inapagveis.

No tiveram o cuidado de retirar a placa de honra, lanada e recolhida entre os escombros de uma construo centenria, sustentada por aroeiras, quase defronte velha Escola Normal.

E onde nasceu a cidade que Monzeca amou. Exatamente atrs da primeira casa do primordial ajuntamento, a do fundador.

Monzeca, era este o seu nome de alma.

A notcia instantneamente chegou a grandes amigos e admiradores na imprensa brasileira, que a receberam compungidos.

Um deles, para lembrar um, chamou-se Rubem Braga. O maior cronista do Brasil.

Numa de suas pginas, reverenciou Monzeca, ao ter notcias de que o velho mestre e amigo continuava frequentando a Rua Gois 36, sede do jornal Estado de Minas.

Onde, diariamente, tinha o costume de comer bolinhos de feijo.

Rubem Braga ento registrou em livro: se Monzeca continua l, Minas existe, e eu confio em Minas.

Monzeca, por tempos, asilou a velha alma de Minas.


til ainda lembrar, na tarde doda: j morto em 1968, foi de Monzeca o editorial de primeira pgina em toda a ento poderosa cadeia dos Dirios Associados que anunciou ao Brasil a morte de Assis Chatreaubriand.

O velho capito vinha doente. O editorial permanecia pronto para a emergncia do anncio.

O tempo foi passando. Monzeca morreu, Chateaubriand ainda demorou um ano ou mais, e quando o desenlace veio ningum se apresentou, altura, para substituir o panegrico j composto nas oficinas.

Tinha o ttulo "Um infortnio Nacional".

O infortnio de hoje, o golpe annimo, e por isso mais doloroso, contra a memria de Montes Claros em torno de um filho venerado na imprensa nacional, mais conhecido e mais celebrado do que na prpria terra, o golpe cava ferida.

Que di, desalenta mais do que revolta, e permanece.

Tristemente, ocorre no momento em que M. Claros, por conta de um atentado contra candidato a presidente da Repblica, frequenta desairosamente todas as bocas, num largo murmrio ptrio.

Monzeca o oposto desta pgina, melanclica tambm para ns. Dolorosa.

Sempre que se ouviu o seu nome, em qualquer parte, imediatamente a meno faz erguer clima de profundo respeito, e acatamento, em preito devido ao que h de mais alto no humanismo das Minas.

este o sentimento que hoje solua, contido.

Estamos de luto.

Monzeca, em vida, foi extremamente modesto, como o so os grandes homens. Certamente, no ligaria.

Porm, os que conhecem a expresso do que foi a sua conduta, humana e de sbio, tendo apenas o curso primrio, estes, estamos desolados.

(Vivo, Monzeca nos faria calar, e obedeceramos. Morto, ainda maior do que vivo. No desce a escombros).


83513
Por Paulo Narciso - 3/9/2018 16:35:40
A nove meses de alcanar os 100 anos, deixou-nos ontem a benemrita professora Rosita Aquino, de persistente famlia de abnegados educadores. Era viva do Sr. Aquino, da Rede Ferroviria Federal, e da extrao superior do movimento manico local, referncia segura em todas as horas.
Dona Rosita - foi lembrado hoje, ainda ali no campo santo -, alm de professora da antiga e respeitada Escola Normal, atuou como brao direito do educador Joo Luiz de Almeida, no Instituto Norte Mineiro da Educao. Ele mesmo um expoente da brilhante gerao de Cataguases.
Aos 90 anos, dona Rosita Aquino comemorou a data, cercada do aplauso geral.
E toda a cidade j se movimentava para comemorar o seu centenrio, em maio de 2019.
Iguala-se, no reconhecimento mais alto, a mestres como Ivonne Silveira, tambm centenria, Irm de Lourdes, professor Francolino Santos e a primeira leva de irmos Maristas que chegou a M. Claros, nos anos 60, como o espanhol Irmo Jaime Damio, alm de muitos, muitos outros. Mestres aos quais muito deve a nossa gratido.

A professora Rosita Aquino ascende ao panteo dos mestres eternos de uma cidade eternamente devedora.




83281
Por Paulo Narciso - 4/5/2018 19:49:48

Morreu Dcio Gonalves Queiroz, aos 87 anos.

Foi um dos pais da moderna imprensa de M. Claros.

Imprensa que nasceu em fins do sculo 19.

Resistiu nas pginas da Gazeta do Norte por toda a primeira metade do sculo 20. E deu floradas na metade seguinte.

O jornal de Oswaldo Antunes veio imediatamente nos anos 50, e chamava-se "O Jornal de Montes Claros".

"O Dirio de Montes Claros", de Dcio, desembarcou nos anos 60.

Foram editados corretamente numa cidade que ainda no tinha 100 mil habitantes, mas que consumia quase 7 mil exemplares dirios, vespertinos, em 3 edies semanais.

Era tiragem memorvel, para tempos hericos, no inferiores aos de hoje, e talvez muito mais brilhantes.

Tempos inolvidveis.

Alm de tima circulao para aldeia provinciana e doce, apesar da fama de brava, os 2 jornais ainda produziram uma dezenas de excelentes reprteres e tipgrafos, qualificados.

E quase que morreram juntos, fisicamente, materialmente, depois de dcadas de bons e continuados servios.

Isto , no morreram - deixaram de circular.

A histria de cada um perdurar por muito tempo, porque as produes do esprito no se inclinam lei da morte, e persistem, e prosseguem, e duram, porque destinados a uma instncia superior da vida evanescente.

Mas, esta outra histria, para outra hora.

Hoje, basta dizer que a cidade selou terra um seu benfeitor, novamente ao entardecer. Dcio Gonalves.

Sempre teve boa sade, at que o corao precisou ser reparado, h alguns anos. Depois, vieram as dificuldades da idade.

Ontem noite, noite da quinta-feira 3 de maio, deixou-nos.

Ainda h pouco, voltamos da cerimnia em que o devolvemos ao princpio, e recomeo.

Neste breve, atrasado, tosco, canhestro registro de um personagem que merece mais, preciso acrescentar:

Dcio Gonalves Queiroz ser lembrado.


(PS - Para lembrar. Dcio partiu no mesmo dia em que uma me, durante assalto diurno a clnica mdica, ajoelhou-se para proteger com o corpo a filha de colo.

Significa que a luta de tantos anos foi insuficiente para fazer recuar a barbrie. A tambm preciso recomear, e lutar outro tanto, e isto o faremos, debaixo do seu exemplo).


82898
Por Paulo Narciso - 23/11/2017 09:59:43

Uma triste notcia para M. Claros na manh nublada (mas ainda sem as muitas chuvas que esperamos todos): partiu nesta madrugada, aos 100 anos, o poeta, compositor, memorialista e industrial Luiz de Paula, tambm autor da msica que eternizou o centenrio de M. Claros. Em 27 de junho ltimo, ascendeu ao restrito grupo de centenrios e, ainda que acamado nos ltimos tempos, manteve-se alerta e laborioso. Muito se falar da sua carreira profissional e de lder rotariano, entre outras coisas. Muito. Seguir, em tantos outros, a lembrana do humanista reservado e cauteloso, prudente, que manteve olhar profundo para desventrar a natureza, e seus mistrios, e que preservou oculta ternura para penetrar o claro rebuado da vida. Ao morrer, Scrates concluiu que os cisnes eram caluniados. No cantam pela iminncia da morte. Cantam pelo rebroto da vida. (O velrio foi transferido da Santa Casa para o anexo da Cmara Municipal, a partir das 10h30m, com sepultamento s 17h).


82555
Por Paulo Narciso - 25/7/2017 16:55:22

Porcincula. Ou Santa Maria dos Anjos. Assim se chama a diminuta igreja que na mbria gelada (perto do Rubico transposto por Jlio Csar e suas legies) reuniu Francesco Bernardoni, Bernardo de Quintavalle, Leo, Rufino e ngelo. Sculo XII, 1182/1226.

Francesco se converteria, no milnio seguinte, no homem mais lembrado no Ocidente. Ento, j aclamado e reconhecido como Francisco de Assis.

A sua igrejinha, ao lado da qual morreu, cego e nu, cantando e ouvindo cantar o Cntico das Criaturas, rogando ser retirado do catre e depositado no cho, para entregar-se irm morte, a Porcincula me de todas as igrejinhas continua l, aos ps de Assis.

Abrigada sob monumental baslica, que re-une os peregrinos do mundo, a nave me deixa de existir quando se contempla, na miudinha Porcincula, o mistrio que l foi morar.

Isto tudo me lembrei, hoje pela manh, durante a chegada de imagem enviada de Santiago de Compostela, na Espanha, para empolgar a igreja do apstolo em M. Claros, erguida por Padre Henrique Munaiz. De Compostela - literalmente "campo de estrelas".

Por mais que tudo ali dissesse, e repetisse, que o homenageado discpulo direto de Jesus, encarregado de levar a boa nova ao finisterre, ao fim da terra, e por ela morrer; por mais que o piedoso Bispo Alberto e Padre Henrique detalhassem os motivos da homenagem, sa convencido de que a capelinha, mais uma levantada por Padre Henrique, em mim existir sempre como a Porcincula de M. Claros, tamanha a semelhana espiritual que a une original, no Monte Subsio, e pela histria do francesco local, que a anima, que a sua alma.

A rplica da imagem de Santiago est l, desde hoje entronizada, e sempre haveremos de voltar aos seus ps.

Sempre que for, direi intimamente, sem que Padre Henrique oua, que vou Porcincula dos Montes Claros. Sem que Santiago, filho de Zebedeu, irmo de Joo Evangelista, se zangue, pois a histria de um a histria repetida do outro, nas suas consequncias e resultados.

Montes Claros, de uma vez, ganha duas rotas universais de peregrinao: a da Porcincula e a do Campo de Estrelas.


(E que se credite logo nova igreja, pois assim entre ns chamamos os templos, um primeiro grande milagre, de consolao. Estava hoje na igreja, aos 91 anos, serena como sempre, bela como sempre, lcida como nunca, luminosa, Dona Terezinha Gomes Ribeiro. Primeira dama da cidade nos anos 60, esposa do prefeito Simeo Ribeiro Pires. Filha de Benedito Gomes e de Doxa, gente nossa de uma vida inteira. Veio dizer, sem trao de desesperana ou inquietude, mas de profunda e imperturbvel aceitao, que h uma semana perdeu o filho mais novo.
No templo tambm minsculo, no ofcio que certamente principiou no "campo de estrelas", na Galcia que gerou a nossa lngua portuguesa, ningum permaneceu mais tempo em p, e de p, do que ela, Terezinha de Simeo.
Ningum refletiu serenidade superior.
Santa Maria Angeli agiu, pensei. Santiago acolitou. Francesco, cego, cantando, trouxe o anjo da consolao que assistiu o prprio Cristo nos momentos finais da cena do Calvrio).

***

PS - 25 de Julho, Dia de Santiago de Compostela, no Ocidente. No Oriente, Dia de Babaji, o avatar que h milhares de anos dialoga com os vivos no corpo de um jovem de 18 anos. Mistrio.


82487
Por Paulo Narciso - 27/6/2017 08:33:59

No livro Efemrides Montesclarenses, o agrimensor/historiador Nelson Viana, curvelano que amou nossa cultura com um extremo que poucos filhos originais de Montes Claros conseguiram alcanar, Nelson Viana registrou, em 1962, na data reservada ao dia de hoje, 27 de junho:

"1917 - Nasce em Vrzea da Palma, Minas, o dr. Luiz de Paula Ferreira, filho de Joaquim de Paula Ferreira e dona Emlia Mendona de Paula. Fz o curso primrio em sua terra natal, em Montes Claros, e em Pirapora, o secundrio em Montes Claros, diplomando-se, como Contador, em 1942 e bacharelando-se em Direito, em 1957. Tem exercido os seguintes cargos: Secretrio, Diretor e Presidente do Rotary Clube de Montes Claros, Diretor da Companhia Telefnica, da Associao Comercial, do Penturea Clube e do Clube Montes Claros".

Hoje, distantes 55 anos do ano em que o livro foi lanado, Luiz de Paula completa 100 anos, com a descendncia reunida ao seu redor.

No livro, que examina com lupa 255 anos da histria local - de 1707, ano do comeo, a 1962, ano do livro - h muito o que acrescentar.

Que Luiz de Paula o autor, melodia e letra, da msica que celebra, como nenhuma outra, o centenrio de cidade, em 1957, e que toda a gente carinhosamente chama de "Montes Claros Vov Centenria". ("E os morrinhos, com a capelinha/Onde minha mezinha/Rezava oraes/ E onde noite os teus poetas cantores/Falavam de amores/Em ternas canes")

Que Luiz de Paula, entre milhares de alunos, foi o paradigma dos que passaram pelo Instituto Norte-Mineiro de Educao, no depoimento jubiloso do seu criador, o santanense Joo Luiz de Almeida, nascido na Cataguases de Humberto Mauro e do Movimento Verde.

Que passou pela poltica, pelos clubes de servio, pela seresta e pela poesia. Foi usineiro e industrial. Em 1967, deputado federal, levou a Seresta Joo Chaves a cantar no Palcio da Alvorada e l, cantando, arrancou a ordem para asfaltar o que restava de terra na poeirenta estrada entre M. Claros/BH.

Que sua iniciativa, no fim dos anos 60, est no embrio da universidade que hoje, por dobras e redobras, reitora o ensino superior em M. Claros e pelo Norte de Minas.

Ensino superior, que mais perto do que longe, absorver a "Universidade do Grande Serto", em homenagem a Guimares Rosa, no territrio dos seus sonhos e dos sonhos de Riobaldo e Diadorim. (Homenagem invertida, em que o homenageado confere prestgio e visibilidade ao homenageador).


Tudo tem muita importncia, muita, para ns e para a histria do que se reuniu aqui, e que teve em Luiz de Paula, nos ltimos 100 anos, uma referncia segura e preciosa.

Contudo, penso agora, nenhuma importncia, abaixo das nuvens, por superior que seja, excede o gosto de ler, reler, tresler, os textos de Luiz de Paula. Como os abaixo selecionados por sua filha Isabel, para festejar este 27 de Junho. Muitos publicados inicialmente aqui, neste raso montesclaros.com

Por fim: nas notcias que nos ltimos anos nos vm de Luiz de Paula, hoje centenrio, hoje morando no p dos montes claros, no sop da serra que a nossa atalaia, bom saber de sua alegria quando a chuva se aproxima e vai, enfim, cair sobre ns, o ser-to.

Suponho que no claro da chuva, que ilumina desde sempre sua msica e sua poesia, Luiz vem nos ver, visitar, em cada ponto da cidade que adotou, e que ama.

E que hoje, aqui pelas campinas de um junho frio, canta o seu centenrio.

***

Agora, Luiz de Paula, na seleao da filha Isabel:


Palavras a Isabel

"Antes, aqui,
Cantavam as siriemas ..."

Em nossa prxima visita minha terra, se quiseres caminhar comigo pelas velhas trilhas em que andei na infncia, me dars muita alegria.

Na caminhada, se a qualquer altura me sentires desatento, como se esquecido estivesse da tua companhia, por favor, se tal acontecer, ainda que por breve momento, no tomes isso como desapreo tua pessoa. s minha esposa. A terna e querida companheira que escolhi para toda minha vida. Muito do que rabisco nestes pobres cadernos para ti.

Poder acontecer que minha ateno seja momentaneamente desviada. que as velhas trilhas costumam, s vezes, falar-me de um menino que por elas andou, de bodoque e anzol, a pescar ariscas matrinxs e a caar passarinhos - ps descalos e braos nus, como disse o poeta. A compartilhar manhs de ouro e crepsculos inesquecveis com a velha Serra do Cabral, com os arroios, matas e campinas. A trilhar caminhos de graciosas curvas, cujas margens estavam quase sempre enfeitadas de cips e flores. Em um tempo em que o mundo era todo dele. E em que o futuro era uma promessa mgica e colorida de sucesso e venturas que jamais teriam fim. Num tempo em que havia em volta dele um universo humano do qual compartilhavam todas as pessoas do seu amor. Muitas das quais s existem hoje no altar de suas saudades.

Mas isso, se vier a ocorrer, no durar mais que um breve instante. E digo mais. Se andares comigo mais vezes, pelas velhas trilhas, estou certo de que elas sero capazes de um dia conversar tambm contigo.

***


A Poesia Necessria

A frase de Voltaire. Ele disse: a poesia necessria criatura
humana. Realmente, na vivncia do dia-a-dia, no trabalho dirio, muitas
vezes prosaico e no inspirativo, parece que vamos nos tornando carentes
da participao do belo. E a vontade de ouvir uma bela cano, de
visualizar uma cena inspiradora, de relembrar um poema ou de compor
uma frase sugestiva, faz-se presente a doer na alma.
At pessoas menos sensveis esttica da vida, menos vulnerveis
abordagem potica, at essas, pressionadas por emoes mais fortes,
movimentam as engrenagens de seus sensores cerebrais e se expressam,
bem ou mal, em linguagem no trivial.
Estou chegando aos 90 anos. Em minha caminhada a poesia visitoume
algumas vezes.

***


O Tempo


O tempo um estranho pssaro
que voa de asas leves,
as penas da cor do vento.
Quem viu o pssaro do tempo?
Dizem que olhos sofridos
vem o tempo conduzindo
o contedo do mundo
pela estrada do amanh.
L vai o tempo levando
o rosto moo que eu tinha
e o jeito descuidado
de rir das coisas da vida!
O tempo um pssaro de seda,
as asas da cor do momento...
Todo dia o tempo faz
e todo dia desfaz.
- Estranho pssaro o tempo..


***

A convidada da tarde


Tardes vividas em outros tempos, acontece, embora raramente, as
reencontrarmos. O mesmo sol, os pssaros, o cheiro e a leveza da
brisa, as nuvens respaldadas em luz. Tardes que um dia, quem sabe,
iluminaram nossa infncia. Talvez a prpria infncia do mundo.
Tinha a tarde quase tudo
que um mgico e inspirado abril
de belo pode ofertar.
Sol claro-ouro de sonho
campo em matiz perfumado
e a brisa a balouar
cachos floridos na estrada.
Rente relva um regato
feliz passava e no cu
de ouro claro e azul,
voavam pssaros festivos.
Tarde mgica de abril,
tarde de todas as eras,
sem idade, tarde eterna.
No sortilgio que havia,
pensamentos e lembranas
despiram o azul do tempo
e foram banhar-se nas guas
do regato que passava.
E aquela que trago comigo,
em meu peito enclausurada,
saltou lpida ao ar livre
e voluteou sobre a relva,
plena de graa e de encantos
na alegria do recreio.
A tarde ficou mais bela
na sinfonia das cores
e na brisa que passava
vinha um suave perfume
de artemsias e slvias.
Mas quando se decomps
o arco-ris do tempo
no esmaecer vespertino
desfez-se o painel de luz.
E a que viera com a tarde,
com a tarde se esfumou.

***

Montes Claros


De mim para voc,
Montes Claros,
h um respeito, um carinho,
um amor to grande
como se em cada letra de seu nome
houvesse um pedao de mim.
Em cada rua sua,
em cada pedra de seu cho
eu me sinto presente
desde os tempos mais distantes.
Incrustado.
Ontem e hoje.
Sempre.

***

O povoado

Antes
era a Serra do Cabral,
o Rio das Velhas
e os Campos Gerais
onde cantavam as seriemas.
Depois
veio o apito do trem.
E a rua. Sem nome.
Simplesmente a rua.
E a Venda.
Ao fundo
a velha Caraba,
teimosa testemunha que restou
do tempo em que cantavam as seriemas


***

Litgio

Meu corao em meu peito
vive um caso de direito
que convida ao raciocnio.
Eu tenho a posse, entretanto,
pra meu tormento e espanto
s tu que tens o domnio.


***


Um hbito salutar

Meus lbios, louvado Deus,
jamais tocaram em cachaa,
a meus pais devo essa graa
que norteia os passos meus.
Entre nobres ou plebeus,
diante de um trago dela
- da branquinha ou da amarela,
balano-a pra l e pra c
e com a prtica que o tempo d
jogo direto na goela.


***


Amanhecer na fazenda de Chico Tfani


de manh, o sol nasce,
o mundo muda sua face
l na Fazenda do Salto.
Tudo luz irradiante
e o orvalho diamante
nas folhas do capim alto.
Passarinho madrugueiro
faz silhueta brejeiro
no cu de ouro e cobalto.
Ua mulher numa choa
canta cantigas da roa
fazendo o lume bem cedo,
e quando sobe a fumaa
papagaio acha graa
no galho do arvoredo.
A casa grande desperta,
a porta j est aberta,
h labuta na cozinha.
Canta um galo no quintal,
muge o gado no curral,
roda a roda da farinha.
A ordem um desafio
- menino, espante este frio,
vai logo, abre o porto!
Moleque correndo vai,
a cala cai que no cai
das tiras do correo.
Sanhao comendo uvas,
garricha chamando chuvas,
canrio no visgo pego,
um casal de patos brancos
brinca de amor nos barrancos
e se despenca no rego.
Deixando o p de gonalo
e se escondendo do galo
gavio voa baixinho,
galinha velha esconjura,
cata ali uma tanajura
e volta a guardar o ninho.
Peixe frito? Est calado,
durante a noite, coitado,
cantou at ficar rouco.
Saracura na vazante,
oferece a cada instante
trs potes, trs potes, um coco...
L em cima, no espigo,
deixando rastros no cho,
carro de bois vem cantando...
Da porteira, Chico, olhando,
chama Zequinha Santana
e diz: vamos, vagabundo,
j pra roa todo mundo,
l vm as mudas de cana!
A turma sai para o eito,
Chico fica satisfeito,
olha o cu: hoje ainda chove!
Pe de lado a ferramenta,
vai pra varanda e se assenta
para ler o seu X-9.
O dia avana. L embaixo
canta a gua do riacho
sombra dos buritis...
Pssaro-preto a orquestra afina
para saudar a rotina
de mais um dia feliz...


82361
Por Paulo Narciso - 2/5/2017 09:37:18
"Seg 01/05/17 - 8h18 - Montes Claros perde Lgia Chaves, exmia letrista e intrprete. Filha do poeta e seresteiro Joo Chaves. Autora de Senhora de Guadalupe, primorosa cano de f"


Com a partida da segunda das quatro filhas do poeta insupervel de M. Claros, Joo Chaves, (a primeira foi Chavinha, ainda criana, em Bocaiva), algumas reflexes se tornam mais vivas:

1 - Nenhuma famlia exerceu tanta influncia intelectual sobre a civilizao estabelecida nos Montes Claros como a famlia Chaves. E tambm influncia na vida administrativa, ainda no Imprio. Com efeito, o Cnego Chaves, patriarca da famlia, logo depois de chegar de Minas Novas, atuou politicamente e foi administrador da cidade, por dcadas. Aqui, ningum exerceu o poder to demoradamente como ele.

2 - Era comum que padres tivessem famlias e muitas famlias de M. Claros tem a a sua origem fecunda. O cnego Chaves teve filhos e o cl se mostrou enormemente influente nas letras, na poltica e na administrao pblica, embora isto tenha ficado razoavelmente encoberto em funo de uma modstia exemplar que se vai fixando no tempo.

3 - O historiador Hermes de Paula nunca vacilou ao responder a pergunta - quem o maior de todos os montes-clarenses? Devolvia, no rastro: Antnio Gonalves Chaves. O mesmo Dr. Chaves da hoje aviltada Praa da Matriz. Foi governador de Santa Catarina, governador de Minas Gerais, juiz, promotor, e Ruy Barbosa o chamava de ""meu mestre". Foi responsvel pelo Direito de Famlia no Cdigo Civil de Clvis Bevilacqua, de 1917. Sua descendncia ilustre tambm no Rio Grande do Sul que orbitou os dias de Jlio de Castilho.

4 - Sobrinhos de Antnio Gonalves Chaves, os irmos Joo Chaves e Hermenegildo Chaves levaram o nome de M. Claros s alturas, nimbados sempre de uma modstia que comove. Joo, como jurista sem jamais ter frequentado faculdade, dos mais brilhantes, altssimo, alm de poeta e compositor de algumas das modinhas mais bonitas do Brasil. Suas msicas so cantadas h quase um sculo, por toda parte. Entre elas, Amo-te Muito, O Bardo e Eterna Lembrana. Hermenegildo, mais novo, mestre entre os mestres do jornalismo brasileiro e um dos nomes da cumeeira mais alta do humanismo mineiro, embora tambm s tivesse o ensino primrio, eternamente chamado pelo nome resumido de Monzeca - e nada mais.

5 - Ontem, na despedida da filha de Joo Chaves, na lousa simples que abriga as relquias do poeta, da sua exemplar mulher Mercs, dos filhos Chavinha, Henrique e Sidney Chaves, uma vez mais o cemitrio de M. Claros ouviu, ao anoitecer, as belas modinhas Amo-te Muito e To Longe, de Mim Distante, esta de Bittencourt Sampaio.

6 - Fechando a Cerimnia do Adeus, uma voz, acima de todas, ergueu-se na quase noite. A voz de Lgia Chaves, cantando numa gravao Senhora de Guadalupe, melodia dela, letra dela, e afinao dos anjos. Intil pensar que pessoas assim morrem. Apenas a forma se desfez, e nada mais - ensina, repete, convence e arrasta a tradio de f mais fecunda da histria, h milhares de anos. H festa no Cu.


82336
Por Paulo Narciso - 20/4/2017 09:47:04
Hoje, h exatos 50 anos, Montes Claros viveu uma noite de augrios. Palavra que vem do latim augurium e significa pressgio, anncio, indcio de algo futuro. J corrijo.

Era mais do que isto, uma noite de augrios. Era o aviso de excepcional tempo que se avizinhava, e veio, e foi vivido, trazido por velhos valores da msica, a modinha, de ns to ancestralmente entranhada.

Foi assim: o benemrito historiador Hermes de Paula, de improviso, organizou grupo de seresteiros de M. Claros e foi com eles cantar na antiga Vila Rica, bero de Minas, disputando um concurso de serestas, em que cidades de Minas exibiam suas melhores vozes e as canes mais belas.

A despretensiosa Montes Claros daqueles dias, catita, fez bonito. Cantou suas modinhas e arrebatou o primeiro lugar. No era pouca coisa.

Os olhares de Minas se voltaram para a boiadeira M. Claros. A terra distante, quente, poeirenta. s vezes, com justificada fama de brava, mas que exibiu tal beleza de corao, tal elevao de esprito.

Da para a frente, foram tempos mgicos.

A seresta, com o nome de Joo Chaves, passou a ser o grande abre-alas de Montes Claros. Abre-alas de todas as Minas. Cantava, por ns e por todos.

Convites e mais convites chegavam e a seresta abria portes de par em par para a msica e o sentimento descidos das montanhas, especialmente nas noites de plenilnio. Era saudada, acolhida com reverncia. Comovia.

Basta dizer que o asfalto M. Claros/Belo Horizonte, a mais antiga e aflitiva reivindicao do serto, o asfalto s saiu porque a serenata, ouvida no Palcio da Alvorada pelo presidente marechal Costa e Silva, o fez emocionar, a ponto de decidir ali, naquela hora, em cima do joelho, autorizar a concluso da estrada.

Mas, sabem muitos, a serenata superior ao tempo, mas no imune ao tempo, um feito do outro. A velha e bela seresta de M. Claros brilhava, desperta. Exuberou at a morte de Dr. Hermes, no incio dos anos 80. Brilhou depois dele. Mas,... o tempo.

Lentamente, o velho, inapagvel costume de M. Claros pelas noites de luar, o apreo pela serenata, o encanto enfim das noites do serto foi nova vez nimbado pelo tempo, que eleva, consagra, arrebata e...suprime.

Aos sentidos, passou a declinar. Desliza, busca rebuo em nichos de sabedoria, onde reverso da evanescncia aguardar por novos tempos de augrio. Encantamentos.

Valores do esprito no morrem, pois. Vigiam. Pacientemente, esperam que brumas e miasmas se desfaam. Aprendem com a eterna alvorada, que fruto e resultado da negra noite. Assim ser.

Nas veredas mais insuspeitas, nos coraes blandiciosos, na esperana que perene celeiro de geraes, a velha serenata de M. Claros e suas modinhas seguem vivas. Voltaro.

Plato, quando espichou os olhos para o trnsito das humanidades, examinando valores e princpios que se projetam no futuro recorrente, viu e anunciou: um povo pode ser conhecido, e reconhecido, pela msica que produz e ouve.

Sendo assim, M. Claros no se perder, ainda que isto s vezes parea provvel, iminente.

Quando ento cessar esta m quadra em que vivemos, cantaremos de novo:


dias de risonha primavera
noites de luar que eu tanto amei
tardes de vero, ditosa era
Em que junto de ti amor gozei



82190
Por Paulo Narciso - 16/2/2017 11:32:41
A quanto chegamos. Reportagem do jornal O Estado de S. Paulo, reproduzida pelo mineiro Estado de Minas, enfia no mesmo saco os bandidos do chamado Novo Cangao com o lirismo dos personagens do Grande Serto:Veredas, de Guimaraes Rosa.
Em termos, seria a mesma coisa de misturar ao pico mineiro, aclamado mundo afora, os desatinos de Lampio e seu bando, que aterrorizou o Nordeste brasileiro nos anos 30.
H, entre as duas correntes, um fosso imenso, intransponvel, imisturveis que so os valores e motivaes que impulsionam as campanhas de cada um, e isto no pode ser ignorado por nossos maiores jornais.
O lirismo de Guimares, as justificativas e concluses dos personagens to de ns conhecidos nem de longe podem ser cotejados com a delinquncia do crime pelo crime.

H valores e msticas e mistrios e profundidades e sortilgios a dividi-los e separ-los.

Guimares ps na boca dos seus personagens os preceitos do serto profundo, que vaga - segue cavalgando - pelos campos sem fim.
Poesia e crimes no andam juntos, pertencem a distintas naturezas, mas s vezes grosseiramente podem ser confundidos.
H de tudo, na vida.

Por fim, e portanto: os criminosos, entre eles os recentemente mortos pela polcia em Mato Verde, nada tm em comum com a estirpe de Riobaldos e Diadorins e Joca Ramiros, do Grande Serto - ou no entenderam nada. Dos Hermgenes, talvez - e no sou especialista.
Estes bandoleiros modernos quase sempre vm de outras regies que no pertencem ao pico Grande Serto, notadamente de S. Paulo - como se viu na refrega recente com a polcia mineira.
Os personagens de Guimares Rosa, muito ao contrrio, tm princpios, regras e valores, longamente ajuntados no meio hostil da vida. A Vida.
Nada tm do banditismo descrito, e no podem ser comparados.
No fogem por medida de covardia. Cumprem destino. Defendem-se, como regra. Do combate, na lisura de suas vidas. Resistem. Resistiro sempre num dos livros mais belos do Brasil, espera de releituras mais altas.
O Grande Serto, enfim compreendido, agradece, e humilde parte.
No, no banditismo.
a vida, por ela mesma, como foi servida. E cresceu tanto que virou poesia em prosa. Destino.
Poesia, o que temos. E no sangue da cobia abjeta.

Mundo imisturvel, concedam.

Bem diferente do que se extrai da reportagem (bem feita, mas equivocada em alguma parte) que transcrevo abaixo, por exerccio de remisso:


"Cangao agora explode caixas eletrnicos - O banditismo retratado no romance Grande Serto: Veredas se mantm com suas marcas histricas no norte mineiro e no oeste baiano: ostentao de poder de fogo, desafio polcia e encenaes espalhafatosas. Na madrugada do Dia de Reis, em 6 de janeiro, cinco homens fortemente armados explodiram o cofre de uma tonelada do Banco do Brasil que ficava dentro da agncia dos Correios de Josenpolis, a 145 km de Montes Claros (MG). A notcia varou o serto como prenncio de mais um ano de supremacia de bandos armados. No romance, Riobaldo descreve o jaguno como a "criatura paga para o crime, impondo o sofrer no quieto arruado dos outros, matando e roupilhando". Por hora, bandos atuais deixaram de lado sequestros, saques em comrcios e assassinatos de mando para priorizar roubos a banco. Em 16 de dezembro, 15 homens com metralhadoras e fuzis chegaram em dois carros a So Joo do Paraso do Norte (MG). Parte entrou com maarico na agncia da Caixa Econmica Federal para abrir o cofre. Outra parte foi para a frente do quartel da Polcia Militar, ali prximo, disparar, nas contas da prpria guarnio, 130 tiros de fuzil. Depois, com o dinheiro j nos carros, eles jogaram pontas cortantes de ao num trecho de 15 quilmetros da estrada que liga a cidade a Taiobeiras, para furar pneus de quem ousasse persegui-los. No dia 3 do mesmo ms, cinco homens com metralhadoras, revlveres e bombas haviam explodido, em poucas horas, caixas eletrnicos de agncias do Banco do Brasil em Francisco S e dos Correios em Caetit, tambm no norte de Minas.

A polcia ainda foi desafiada em Buritis (MG), onde na fico Riobaldo tinha fazenda. Na madrugada de 11 de outubro, dez homens dispararam rajadas de tiros contra o quartel da Polcia Militar e explodiram caixas eletrnicos do Banco do Brasil e da Caixa. A ao durou 40 minutos. O bando fugiu no rumo de Braslia. "O pessoal das agncias trabalha apreensivo", resume Nilton Silva Oliveira, dirigente do Sindicato dos Empregados em Estabelecimentos Bancrios de Montes Claros e Regio. Atuando em 72 cidades do norte mineiro, a entidade contabiliza 16 assaltos nos ltimos seis meses. "As cidades so pequenas, tm quatro ou cinco policiais apenas, um efetivo pequeno para enfrentar grandes grupos armados que chegam e explodem tudo."
Escudo humano.
Foi uma ao ousada que deixou em pnico a cidade baiana de Cocos, na divisa com Minas Gerais. Por volta das 11h30 de 10 de maro de 2014, dez homens com fuzis entraram nas agncias do Banco do Brasil e do Bradesco na praa principal de Cocos e anunciaram o assalto. Para sair dos bancos, eles montaram um escudo com bancrios e correntistas e, na fuga, levaram quatro funcionrios do Banco do Brasil e quatro clientes do Bradesco. Como no tempo de Antnio D, jaguno real descrito por Guimares Rosa, os bandidos desfilaram pelas ruas disparando para o alto. Nos meses seguintes, houve um debate acalorado na cidade sobre como impedir novos assaltos. Pressionada, a prefeitura tomou uma deciso drstica: fechou com correntes de ferro as ruas que circundam a praa principal no horrio bancrio. A medida, segundo a administrao, para evitar aproximao das agncias de veculos de criminosos. O trfego de carros-fortes para abastecer os bancos foi suspenso noite e de madrugada e foram proibidos saques no caixa eletrnico a partir das 16 horas. Comerciantes reclamam que a deciso afugentou clientes. "As medidas diminuram aes de bandidos, mas o comrcio acabou", afirma Edmar Miclos, dono de um pequeno hotel. "As pessoas chegam e no tm como tirar dinheiro. O sinal da mquina do carto no costuma funcionar. Com isso, vai todo mundo fazer negcios e se hospedar em Guanambi, a 250 km daqui." A Delegacia de Operaes Especiais da Polcia Civil em Montes Claros o principal centro de investigao dessas organizaes criminosas. Pelo modo de agir, a polcia acredita que exista mais de um grupo atuando no norte mineiro. "No ano passado, houve um incremento bem grande desse tipo de crime na regio", conta o delegado Herivelton Ruas Santana. A expresso "novo cangao", usada na regio para definir quadrilhas de assalto a banco, refere-se ao modo de agir dos bandidos, adeptos de grandes aes em pequenas cidades, onde h nmero reduzido de policiais. No h estimativa de valores, pois os bancos no informam s polcias as quantias levadas. "Os bandidos aproveitam a fragilidade do aparato. Em cidades maiores e capitais, h batalhes da Polcia Militar, departamentos da Polcia Civil. Eles tm atacado cidades com 20 mil, 10 mil habitantes." Santana aponta como obstculos ao combate do novo cangao o baixo efetivo de policiais, a grande extenso do norte mineiro e as dificuldades de deslocamento. Como a regio faz divisa com a Bahia, h ainda necessidade de intercmbio com o Estado vizinho. "Apesar de haver uma interao, sempre difcil fazer esse tipo de trabalho."
Urutu-Branco.
No romance, o jaguno Riobaldo conta que ele e os companheiros haviam desafiado a "soldadesca" do governo e entrado e sado da Bahia cinco vezes "sem render as armas". Foi justamente nesse enfrentamento dos militares que ele foi ungido chefe do bando e rebatizado de Urutu-Branco pelo antigo chefe, Z Bebelo, que deixou o comando aps desgaste com jagunos. Urutu o nome de uma das cobras mais venenosas do cerrado. A ficha corrida de Riobaldo era longa. O jaguno que conquistou o mundo com seu linguajar potico e sua paixo por Diadorim esconde uma vida de crimes. Ele autor confesso de alguns assassinatos e acusado de estar por trs de outros. A morte do inimigo Ricardo, que tinha sido rendido, ilustra seus momentos de frieza e violncia. O jornal O Estado de S. Paulo testemunhou o medo no Grande Serto. Em Pirapora e Trs Marias, a reportagem passou por revistas da polcia aps denncias de moradores preocupados com o veculo de So Paulo. No trafegar noite em estradas asfaltadas e evitar caminhos de terra mesmo de dia foram dicas dadas reportagem. As informaes so do jornal O Estado de S. Paulo."


82095
Por Paulo Narciso - 15/1/2017 10:59:49

"Se os governadores no construirem escolas, em 20 anos faltar dinheiro para construir presdios".

Esta frase do montes-clarense Darcy Ribeiro, dita em 1982, inunda o Brasil como profecia cumprida, neste incio de 2017, 35 anos depois de pronunciada.

No incio dos anos 80, Darcy, encerrado o amargo desterro, vinha muito a Montes Claros e seus contatos eram com a famlia e alguns amigos. Enquanto muitos evitavam demonstrar solidariedade, simpatia e admirao por um conterrneo reconhecido no mundo e perseguido em seu pas, pela ltima ditadura, uns poucos faziam questo de estar ao seu lado, arrostando os poderosos do momento.

Desse tempo, h muito o que contar.

Mas, o que quero dizer que o nosso Darcy, encantado em 1997, se hoje voltasse a M. Claros (onde nasceu em 1922, no miolo da cidade, atual Rua Lafet, entre Simeao Ribeiro e Altino de Freitas), Darcy teria duas grandes, enormes tristezas:

1 - Amputaram, mutilaram o conjunto arquitetnico da escola smbolo da cidade, a histrica Escola Normal, um projeto primoroso, de 1965. Mutilaram, para na sua esquina principal - defronte casa/museu do mestre Konstantin - fazer funcionar...um posto de policia.

Nada contra a honrada Policia e o seu trabalho em proveito geral, que merece aplausos. Mas, no custa admitir: recomenda-se converter presdios e assemelhados em escolas, e nunca, nunca, o contrrio.

Um erro histrico, descuido lamentvel por parte de quem autorizou e permitiu, falha que em algum momento precisa ser reparada, para que no seja repetida - e frutifique.

2 - Darcy tambm ficaria profundamente consternado por no poder ver trao, vestgio de sua escola secundria - e esta escola no a mutilada Escola Normal Oficial Plnio Ribeiro, nome do seu tio e mestre, e parte arrancada de ns, seus alunos.

Darcy estudou no Ginsio Municipal, antes que as amplas instalaes, com jardins, longos corredores, chals e ptios se convertessem em Seminrio Menor e, depois, em sede da Prefeitura.

Sbria construo na Avenida Coronel Prates. Ao lado da qual o sentimento da cidade, num belo gesto, quis e deliberou homenagear Reginaldo Ribeiro, dando rua o nome do pai de Darcy, que ele pouco conheceu. Rua Reginaldo Ribeiro.

Pois bem. Num tempo que merece ser esquecido, "se revogado no pode ser", numa manh sem avisos, veio a tocaia.

Derrubaram impiedosamente o extenso casaro que era parte do cerne da memria da cidade, um dos seus miradouros; almenara, digamos, pois a luz que dali partiu certamente vaga sem descanso, em perene reclamo de justa reparao. E era a escola de Darcy.

Caiu, sem um lamento. Nenhum ai foi ouvido, enquanto as mquinas batiam contra suas paredes brancas, nuas, que resistiram. Havia acontecido antes com a Igreja do Rosario. Que tambm no recuou. Foi preciso um trator de esteira. Contra a Igreja dos Catops - eu estava l, vi.

Sentiram muito, sentem muito, ho de sentir sempre, os que ali foram aprender.

Ou os que ouviram misereres e ladainhas e responsos e laudamus que de l partiam em cortejo de prelados nas alvoradas neblinosas de junho de um tempo que evanesceu. E que resiste - alm do Bojador, com a noite antiqussima do poeta.

Um caixote baixou no seu lugar e um silncio desceu aos alicerces profanados.

Se hoje voltasse, Darcy teria o comportamento que teve ao tornar aos Morrinhos, depois que a ditadura ltima permitiu que reentrasse no seu pas, doente, acreditando que vinha finar e, teimoso, no finou nem morreu.

Nos Morrinhos, com um amigo, Darcy destampou com horrenda suspensa caixa dgua de concreto afrontando a catita Igrejinha de Dona Germana e sua histria, que o ministro Francisco S, outro montes-clarense (do Brejo das Almas), chamou de "atalaia avanada dos povoados cristos ".

Ao se deparar com a ofensa em concreto Igrejinha indefesa, acuada na colina que sua, o afvel s vezes iracundo Darcy foi enftico:

- Vamos embora. No quero ver isto.

Fomos embora, debaixo de um mesmo silncio.


81337
Por Paulo Narciso - 4/3/2016 07:25:38

Pouco antes da meia-noite de ontem, faleceu em M. Claros, onde estava hospitalizado h dias, por problemas cardacos, o fazendeiro e lder de classe Afonso Celso Dias. A dois meses de completar 80 anos, em maio, Afonso foi um dos mais arrojados fazendeiros da cidade nos ltimos 60 anos, sucedendo seus pais em propriedades rurais localizadas em Francisco S e Janaba. Os que acompanharam de perto sua dedicao ao campo sabem que muito raramente Afonso no estava desperto antes de o sol nascer para pessoalmente desempenhar alguma tarefa junto aos rebanhos. Irmo do mais novo presidente da Assemblia de Minas, Antnio Dias, no fim dos anos 70, foi eficiente articulador poltico em nvel regional. Nos ltimos anos, acometido de problemas cardacos, tinha atividade mais limitada, mas ser lembrado, sempre, como um fazendeiro apaixonado e dedicado ao pastoreio desde os tempos de menino, trabalhador incansvel. O velrio j est sendo realizado na Santa Casa de M. Claros, com sepultamento marcado para as 17 horas. Assim, Montes Claros se despede de um dos seus mais tpicos fazendeiros nos ltimos 60 anos, autntico. Na gerao de Afonso Dias, a expresso (esquecida) "amanho da terra" encontrava significado, causa, e contemplao. Devotamento.


81302
Por Paulo Narciso - 21/2/2016 12:59:04
Montes Claros perdeu, tambm hoje, s 10h10m, a serena constncia do engenheiro ferrovirio Jos Helvcio Alcntara, de 74 anos. Irmo do craque Ninha, provavelmente o mais completo jogador de futebol da histria de M. Claros, Helvcio foi estudar engenharia em Belo Horizonte, nos anos 70. Pertencia clebre safra de universitrios montes-clarenses da Rua Guajajaras 720. Por anos, foi um dos diretores da Central do Brasil em M. Claros, responsvel pelo movimento de trens, ao lado dos engenheiros Bahia, Carlos Augusto, Pimenta e Luiz Brant. Destacou-se em toda a Rede Ferroviria como um dos maiores especialistas brasileiros em movimentao de cargas. Desde dezembro, tratava-se em Belo Horizonte de doena h pouco diagnosticada. Na semana passada, retornou a M. Claros, cidade dos seus filhos e de sua esposa Rose, complemento da sua natal e adorada Monte Azul. A "sentinela" est sendo feita na casa de velrios da Avenida Joo Luiz de Almeida, perto do prdio da Prefeitura. O enterro ser ainda hoje, s 17h30m. Jos Helvcio Alcntara, nome para sempre ser lembrado, pela serena firmeza e por incomum conduta de cidado, pai e amigo. Ocupava o lugar exato no espao, repetia seu amigo, o grande escritor mineiro Wander Pirolli, nas tardes da velha Rua Gois, em BH, onde por muitos anos era encontrado nas rodas jornalsticas do Estado de Minas e Dirio da Tarde. Deixa os filhos Gustavo, engenheiro, Maurcio, advogado, e Mariana, dentista oficial do Exrcito brasileiro.


81246
Por Paulo Narciso - 8/2/2016 12:04:50
Abaixo, excelente entrevista feita pelo jornal "O Nhesuano", da Cultura Guarani, editado no Rio Grande do Sul, na cidade de Roque Gonzale (regio missioneira), a 2271 km de Montes Claros, j na fronteira oeste, com a Argentina.

Nela, Nelson Hoffmann conta detalhes sobre o escritor montesclarense e jornalista, Manoel Hygino dos Santos, que no prximo ms de maro, dia 13, completar 86 anos, em plena, fecunda e respeitada atividade.

a maior voz ativa de M. Claros, e muitos dados revelados pelo jornal so desconhecidos at dos admiradores mais prximos do escritor, que, rapazote, deixou M. Claros antes dos anos 50 do sculo passado, mas a ela segue vinculado por laos irremovveis, devotados.

A publicao, voltada para a regio missioneira, uma das mais genunas do Brasil, tem uma dzia de pginas, de alto valor literrio e antropolgico, e na sua ltima folha rende homenagens a outro montesclarense - Darcy Ribeiro, citando ser ele o autor da denncia de que 70 milhes de ndios das Amricas sofreram holocausto.

necessrio acrescentar: a Regio das Misses, no Noroeste do Rio Grande do Sul, venerada por viajantes do Brasil e do mundo, notadamente da Argentina, do Paraguai, do Uruguai e da Europa, em funo das redues jesuticas dos Guarani, edificadas entre os sculos XVII e XVIII. No lado brasileiro, ficavam os Sete Povos das Misses. (Nunca esquecer que a poucos quilmetros de M. Claros, na Barra do Guaicu, hirtas, abandonadas, esquecidas, ultrajadas, fincam-se relquias deste mesmo tempo, do mesmssimo impulso civilizatrio).

Abaixo, a ntegra da entrevista de Manoel Higino aos Sete Povos das Misses, depoimento que merece ser percorrido com emoo e agradecimento:




"MANOEL HYGINO DOS SANTOS

Cronista lido, amado e respeitado, autor de dezenas de livros, personalidade marcante na trajetria do sculo XX/XXI, intelectual e Humanista acima de tudo, figura admirvel. possvel no reverenciar Manoel Hygino?

Membro da Academia Mineira de Letras, jornalista e escritor, Manoel Hygino dos Santos, mineiro de Montes Claros, nascido em 13 de maro de 1930, com mais de 20 livros publicados, em que predominam crnicas ou pesquisas histricas e literrias. Comeou nas letras muito cedo, aos 18 anos, publicando: Vozes da Terra, contos e crnicas, 1948; passou por jornais, em sua terra natal e ,j em Belo Horizonte, foi redator e editor de revistas e jornais de maior circulao no Brasil. Atualmente articulista do Jornal Hoje em Dia, editor do Jornal Santa Casa Notcias, da Revista da Academia Mineira de Letras, e Ouvidor da Santa Casa de Misericrdia de Belo Horizonte.
Em seus livros focalizou o homem em sua dvida (Consideraes sobre Hamlet), os movimentos de contestao (No rastro da subverso) a decadncia e queda do imprio russo (Rasputin, o ltimo ato da tragdia Romnov), a exploso da juventude na sexta dcada do sculo passado (Hippies, Protesto ou Modismo) e a vida de Pedro Nava, o grande memorialista brasileiro (Tu s Pedro Um crime que ficou sem castigo), dentre outros.
Inicialmente como assessor da Provedoria e assessor de imprensa. Fundou o rgo oficial de informao da instituio , do qual editor e decidiu escrever a histria da instituio , suas clnicas e personalidades, eternizando aspectos da assistncia mdica no Estado. Em 2005, escreveu: Santa Casa de Belo Horizonte Uma histria de amor vida, seguindo mais de uma dezena de obras relacionadas Santa Casa, propiciando a fixao da memria da instituio.
detentor de diversos prmios e ttulos, como Prmio Edmo Lutterback pelo conjunto de obras, Diploma de Personalidade Cultural da Unio Brasileira de Escritores, Medalha e Diploma do Sesquicentenrio de Montes Claros, Medalha da Inconfidncia do Governo de Minas Gerais, Comenda Eduardo Levindo Coelho, concedida pela Federassantas, em 2005, entre outros.

Manoel Hygino, a simpatia e admirao por sua pessoa, e a leitura de seus textos grande por estas nossas bandas. Todos querem saber quem Manoel Hygino dos Santos? Vamos por partes: Onde nasceu? Fale-nos de sua infncia? Famlia, amigos? Havia livros, leituras em seus tempos de menino?

muito agradvel saber que os amigos do Sul, da fronteira, da regio missioneira, me vem com simpatia. Os meus textos, pobres textos que a chegam, fazem parte de minha produo habitual, elaborados ao calor do cotidiano, em meio aos embates de mltipla natureza que os brasileiros enfrentam.
Nascido em Montes Claros, no norte de Minas Gerais, em maro de 1930, j no grande serto
referido por Rosa, sou parte de uma gente que trabalha, consciente da importncia de seu labor para o desenvolvimento do pas. gente continuamente esquecida pelos poderes pblicos e sofrida em desenganos e desencantos. Montes Claros uma cidade grande, das maiores do estado, populao difusa e brava.

Meus avs e pais se dedicaram ao comrcio e a pequena atividade agropecuria, sem luxos
e riquezas, sem faustos. Minha me, filha nica; amigos, poucos mas honestos, que no pude cultivar, eis que, na adolescncia, vim estudar em internato em Cachoeira do Campo,
municpio de Ouro Preto, para o curso mdio, concludo em Belo Horizonte. Meus professores foram amigos e com eles auferi ensinamentos em perodo to relevante da vida. Leitura, sim, desde cedo. No havia o desvio de ateno imposto pela televiso, rdio ainda chegava, o cinema era o divertimento maior, alvo de comentrios e discusses. Restava a leitura, e livros no faltavam. No mais, brincadeiras de jovens, andar a cavalo, visitar stios, ajudar o av e o pai no comrcio, assistir aos festejos regionais. Trabalhar comeou cedo, inclusive em chcara, abrindo covas e plantando.

E depois, nos ditos anos de formao, adolescncia-juventude, por onde andou? Que escolas, cursos? Graduaes, diplomas? So coisas que se perguntam, nosso leitor est curioso por saber. Pode contar?

Depois do internato em Cachoeira do Campo, com os salesianos, eis Belo Horizonte, para onde os pais se transferiram. poca de descobrimentos, busca de si mesmo, bons professores, Estado Novo, a Hora do Brasil. E mais cinema. Concludo o ginsio, fiz o clssico. Contato com a msica, aulas de teoria; consertos assistidos no Conservatrio Mineiro, freqncia a espetculos teatrais, pera, textos para jornais escolares, participao em entidades estudantis, fazendo promoes culturais no meio, vencendo a timidez. Aos 18 anos, a ousadia de escrever e ver publicado um artigo para Gazeta do Norte, jornal de Montes Claros, sobre o assassinato de Gandhi, que me conduziu permanente experincia de redao.

Sabemos, o que importa a obra e a sua obra vasta. Antes, porm, ainda precisamos perguntar, porque o leitor gosta de saber particularidades da personalidade focada: Dono de sua vida, praticou que atividades, por quais caminhos progrediu, onde se encontra e o que realiza hoje?

Em casa, achava-se que deveria fazer Medicina. Havia parentes formados.
Uma bela profisso, prestigiada, rendosa. Os cursos eram, contudo, disputadssimos. Mais
chances para aqueles que j tinham algum no ramo. Os vestibulares eram extremamente concorridos. Consegui uma bolsa de estudos em Montevidu, junto ao Ministrio da Educao do Brasil. Duzentos dlares mensais, o suficiente. Representava 600 pesos, mais ou menos. Depois de rpida passagem pelo Hotel Globo, na Ciudad Vieja - Baja, estacionei no modesto Hotel Machado, na Calle San Salvador, perto do parque Rod, bela regio, prxima da Playa Remirez e do Hotel Cassino. Estudava muito, aprendia, formei amizades com estudantes do pas, do Brasil,
da Espanha. Fiz a revlida, de todas as disciplinas do curso mdio, mas tambm me submeti
a sabatinas das disciplinas de geografia e histria do Uruguai, provas orais em espanhol,
assim como as escritas, a banca examinadora de olhos e ouvidos atentos. Aprovao honrosa, sem proteo. Dei aula particular de biologia, para um jovem, filho de alemes. Os cursos que fiz eram na Faculdade Nacional de Medicina, na General Flores, experimento riqussimo e inesquecvel, inclusive na dissecao de corpos. Ruben Romero Arenillas, funcionrio ali, culto, poeta, falava perfeitamente pelo menos trs ou quatro lnguas, me ajudou, comentrios sobre literatura, aprendi sobre Neruda e Gabriela Mistral, discutamos Ruben Dario, Lorca e comecei a interessar-me pelos escritores da Amrica Latina, seus pensadores, seus heris. Montevidu mltipla e rica. Seus monumentos, grandes e atraentes; seu povo, cosmopolita, fino, sabe das coisas. De l, seguia escrevendo para os jornais de Belo Horizonte. Adquiria cabedal, sem plano seguro.
No fim de 1953, voltei para frias. O pas estava em ebulio, o governo Vargas, torpedeado pela oposio, por Lacerda, um extraordinrio tribuno, corajoso e culto. O Brasil era palco nico e prprio para sua eloqncia. Belo Horizonte, centro opositor desde o Estado Novo, inviabilizava retorno ao pas sulino. Deixei Montevidu, meus amigos, os estudos, as aulas de Anatomia, Citologia e Histologia, e, que pontificavam os maiores nomes do magistrio universitrio: o viejo May, dos tempos de Testut na Frana, professor Buo, na Histologia. Comear tudo de novo. Em 1954, a era Vargas se tornou passado, os planos anteriores foram abandonados. Tentaria as Cincias Jurdicas.

Aprovado no vestibular na apelidada Escolinha do Bispo, que constitua um dos ncleos da hoje poderosa Universidade Catlica de Minas Gerais, a PUC-MG, comecei em Direito. Tampouco terminado, pelos novos rumos tomados na vida. O caminho era a imprensa, sobretudo em Belo Horizonte, mas tambm no Rio de Janeiro, na redao de jornais dirios, na "Folha do Rio", como secretrio de redao, a servio de grupos ligados
aos Vargas. Mais tarde, j de retorno capital mineira, alm de escrever para os veculos locais (inclusive tev), vinculei-me a Bloch editores, em seu corpo de redao e chefiando
a Sucursal de "Manchete" a maior revista do Brasil, por anos. Coube-me, por exemplo, dar
cobertura revoluo de 1964, desde a noite de 31 de maro.
Simultaneamente, escrevia para todos os jornais de Belo Horizonte. Em "O Dirio" maior jornal catlico da Amrica Latina, fui tambm redator, diretor de Redao e Presidente. Trabalhei como editor do "Dirio de Minas" e diretor do grupo Fora Nova de Comunicao, abrangendo jornal, televiso e rdios. Antes ousara lanar, aos vinte anos ou por a, editar a revista "Esfinge", que durou trs ou quatro nmeros.
Exerci cargos pblicos expressivos em mbito municipal e estadual. No final do governo militar, vi-me designado gerente para Minas da Agncia Nacional, da presidncia da
Repblica, cargo que ocupei por prazo no muito longo.

A obra o que importa e aquilo que fazemos fica. Impressiona-nos a quantidade
de livros publicados, mas um detalhe nos chama ateno especial: a precocidade de
seu primeiro trabalho, Vozes da Terra, contos e crnicas. Tinha, ento, ao que nos consta,
apenas 18 anos. Como foi isso? Nasceu escritor, viveu em cima de livros?

"Vozes da Terra" o livro de juventude, fruto da necessidade de os moos registrarem seus sentimentos e pensamentos, os fatos que lhes merecem ateno. a abertura, a
protofonia, com licena da imodstia.

Na sequncia desse primeiro livro, outro detalhe que chama mais a ateno: a demora para o lanamento do seu segundo livro, Consideraes sobre Hamlet, ensaio. Entre um e outro, h um interstcio de 17 anos. O que houve?
Depois, o princpio da maturidade com "Consideraes sobre Hamlet", que planejara durante pesquisas na antiga bibliotecada UFMG. Terminado o trabalho, a Imprensa Oficial do Estado, por deferncia de seu diretor Guimares Alves, intelectual de primeira em Minas, resolveu edit-lo, elaborando o prefcio. Um detalhe: bem antes da publicao, submeti o texto a um antigo diretor do SNT - quando eu morava no Rio - e o dito perdeu os originais. Bom, n?
Mudana na vida, de cidade, as transformaes polticas, levaram adiamentos na publicao de meus livros. Quem pode dedicar-se exclusivamente a eles no pas? No preciso identificar nomes e qualificaes.


Depois desse intervalo, vem uma avalanche de obras sem parar, at hoje. Cada livro melhor que outro. A grande predominncia a foram ensastica. Alguns, verdadeiras obras-primas. Destacam-se aqui, em nosso pequeno mundo missioneiro, livros como:
Tu s Pedro - Um crime que ficou sem castigo, Getlio: De So Borja a So Borja, Jesus, causa mortis... Todos ensaios, estudos claros e fundamentados, com vises novas sobre fatos e problemas j bem conhecidos, mas nunca bem esclarecidos. O que o levou ao gnero ensastico quando, l no comeo, se lanou como contista e cronista?

"Tu s Pedro" resultou do grande prestgio de Nava, mineiro de Juiz de Fora, memorialista de mo cheia. Seu suicdio, no Rio de janeiro, se deu quando eu estava no Dirio de Minas". Um fato inusitado. Um mdico e escritor consagrado, realizado, matar-se aos 80 anos? O fato me encabulou. Procurei aprofundar-me, conhecer melhor causas da tragdia, em que me fui enfronhando, investigando, principalmente por assumir a assessoria do provedor da Santa Casa de Belo Horizonte. Ele ali comeara a carreira desde universitrio. Deixou colegas, ento ainda vivos. No entanto, Tu s Pedro ainda livro inconcludo, pelos prprios meandros da vida do personagem, j investigados por Zuenir Ventura, agora na ABL.

De So Borja a So Borja uma nostlgica reconstituio de episdios da vida de Getlio, em suas muitas nuances. Atravessei o seu extenso perodo no Palcio do Catete, ouvi a seu respeito as expresses mais altas de respeito e afeio, que chegavam ao fanatismo. O objetivo do pequeno volume residiu em esclarecer aspectos de personalidade, de quem ele foi, sua liderana incontestvel, sua conduta pessoal e pblica, fatos de sua carreira.
A Histria me interessa acima de tudo, somente lamentando o pouco tempo dirio disponvel e a proximidade do adeus definitivo, que no me permitem muito mais.
Jesus, causa mortis auto-explicvel. Considerando o final de sua paixo, o que lhe teria efetivamente causado a morte fsica? Examinei inmeros autores, cientistas e religiosos. Um tema fascinante, envolvendo tambm o Sudrio, verses cinematogrficas, um painel infindo e impondervel. um resumo.
Outro detalhe de sua obra: a intensa publicao de livros sobre problemas de sade. S para exemplificar, o ltimo: O caranguejo Sinistro A luta sem trgua contra o cncer. O fato compreensvel porque exerce atividades na Santa Casa de Misericrdia de Belo Horizonte. Como isso de um homem de letras, artista da palavra, cronista querido e admirado, exercer e executar uma atividade to difcil, de contnua viso do sofrimento humano, suas limitaes e fins?

A vida nos ensina ser mais ou to importante quanto a fico. Com meu ingresso na Santa Casa de Belo Horizonte, uma das trs maiores organizaes de assistncia mdica filantrpica do Brasil, enveredei pelos nvios e rudes caminhos dos que sentem e sofrem, que tem a vida em risco e procuram solues nem sempre nas mos dos homens. um aprendizado incessante, doloroso, desgastante, abrangendo homens que se dedicam interminavelmente ao bem, dando provas de solidariedade e amor. Nos livros desta srie, focalizo as doenas, suas origens, os tratamentos,
os doentes, suas desditas e angstias; os profissionais da medicina e da enfermagem, dos laboratrios, enfim toda a mquina construda para minorar o padecimento. algo profundamente humano. Inicialmente ali criei a assessoria de comunicao, um jornal, os primeiros passos para um site; depois, institumos um programa artstico para os enfermos; finalmente, a Ouvidoria. preciso que pacientes, familiares, acompanhantes, sejam ouvidos em suas queixas e reclamaes. Ningum precisa tanto de ser auscultado...

Todo escritor tem uma boa bagagem de leituras e, no adianta fugir, alguma influncia ou admirao por livro ou autor anterior. Autores e livros preferidos? Alguma influncia? Algum destaque? Alm da Literatura, alguma outra Arte de seu encanto?

Todos os livros nos deixam marcas, desde os escolares. Depois deles, vieram o "Tesouro da Juventude", de meu av, que me aguou o interesse pela admirvel misso de viver e enfrentar situaes adversas, de pessoas que souberam cumprir o seu papel humano. Mais adiante, Dickens, Shakespeare, Hemingway, Cervantes, Dostoievsky, Dante, alm dos nossos autores, muitos dos quais de primeira grandeza: Machado, Castro Alves, Rosa, e inmeros na fico, na histria, na poesia. Enunciar todos os nomes ocuparia pginas. Mas no esqueo, nem poderia, por exemplo, rico Verssimo, que marcou meu perodo de adolescncia, despertando minha ateno e adorao pelo Sul, sua brava gente. Misso seguida por autores atuais, da capital e do interior gachos, que fazem literatura de primeira grandeza e at se fazem conhecidos em outros pases, antes de serem aqui reconhecidos. A literatura fascina, mas o Brasil precisa aprimorar-se mediante aproximao dos leitores mediante a melhor distribuio da produo.

E hoje? O que nos diz dos dias de hoje, em Literatura?

Continuamos tendo excelentes escritores, embora haja como no poderia deixar de ser os que escrevem simplesmente para agradar a determinados segmentos e angariar faturamento. Destes no me aproximo.
Ingressei na Academia Mineira de Letras, premido pelas circunstncias. O antigo presidente Vivaldi Moreira, um intelectual autntico (que poderia alcanar a Brasileira) insistia que eu me candidatasse. No tinha com ele liames mais estreitos, mas Vivaldi via minha presena na Academia como objetivo pessoal. Faleceu sem consegui-lo, mas deixou como herana ao sucessor que me fizesse "imortal"! Inclinei-me determinao de ambos e fui escolhido por unanimidade. Sou, tambm, diretor da entidade e editor de sua prestigiosa revista, com quase cem anos.
Alis, por realidade de juventude, fundei ao lado de outros escritores moos - a Academia
Mineira Juvenil de Letras, quando tinha em torno de 20 anos. Coisa de mocidade!

Por Nelson Hoffmann [email protected]

Bibliografia
Vozes da Terra, contos e crnicas, ed. do autor, 1948;
Consideraes sobre Hamlet, ensaio histrico, ed. Imprensa Oficial de Minas Gerais, 1965;
Rasputin, ltimo ato da tragdia Romnov, ensaio, ed. Jpiter, 1970;
Governo e Comunicao, monografia, ed. Imprensa Oficial, 1971;
Hippies, Protesto ou Modismo, ensaio, ed. Jpiter, 1978;
Sangue em Jonestown, uma tragdia na Guiana, ensaio, ed. Jpiter, 1979;
No Rastro da Subverso, ensaio, ed. Faria, 1991
Darcy Ribeiro, o ateu, biografia, ed. Fumarc, 1999;
Notcias Via Postal, correspondncia, 2002;
Tu s Pedro Um crime que ficou sem castigo, ensaio, grfica O Lutador, 2004;
Santa Casa de Belo Horizonte Uma Histria de Amor Vida, edio Conceito Comunicao e Cemig, 2005; segunda edii, 2010;
Clnica de Olhos 90 anos, Uma Histria de Pioneirismo em Minas Gerais; segunda edio, 2009.
Reverncia pela Vida. A pediatria em Minas Gerais;
Tempos de Nascer: A Obstetrcia em Minas Gerais;
Vargas: De So Borja a So Borja, 2009;
Memrias do Centro Precursor e Difusor da Especialidade em Minas Endocrinologia e Metabologia da Santa Casa, 2010;
Trabalhando com o Corao A cardiologia na Santa Casa, 2010;
Jesus, causa mortis, 2010;
Cem Anos das Servas do Esprito Santo na Santa Casa de Belo Horizonte, 2011;
A Dermatologia na Santa Casa, 2011;
A Peste Branca A Pneumologia e a Tisiologia Um relato, 2011;
Doutora Celina Cem Anos de vida e solidariedade, 2011.
Histria da Neurologia e Neurocirurgia da Santa Casa de Belo Horizonte, 2010
Mos que Afagam, Palavras Que Enternecem As Voluntrias da Avosc, 2011
Sociedade de Gastroenterologia e Nutrio de Minas Gerais Uma histria de servio sade e Medicina 1947-2012, Imprensa Oficial 2012
Lucas Machado Bom de bola e bisturi , Imprensa Oficial, 2012
Madrigal Renascentista; Ed. CBMM, 2012
Pelos Bosques da Memria FAPI Editora, 2013
O Caranguejo Sinistro A luta sem trgua contra o cncer. FAPI- Editora, 2013"


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Por Paulo Narciso - 24/10/2015 18:05:27
Aos 93 anos, muito lcido, morreu na madrugada de hoje em BH o jornalista Plnio Barreto. Trabalhou sete dcadas no Estado de Minas e l se tornou amigo da colnia montesclarense, a segunda maior da redao. Em 1998, fez questo de vir a M. Claros para a inaugurao da placa que deu o nome de Hermenegildo Chaves sucursal do Estado de Minas na sua terra natal. (Hermenegildo, o nosso to Monzeca, importante na sua formao, humana e de reprter). A sucursal funcionava ento ao lado do Automvel Clube e Plnio Barreto pediu a um amigo que o levasse a caminhar demoradamente pela Praa Dr. Joo Alves. Ali, sempre a passos lentos, o olhar perdido nas exploraes do tempo, contou como os episdios acontecidos naquela praa, no 6 de Fevereiro de 1930, tiveram enorme repercusso na vida do Brasil. Ele, jovem reprter, anos depois cobriu os desdobramentos da fuzilaria para toda a cadeia dos Dirios Associados, que tinha para o Brasil daquela poca importncia similar ao que hoje tem a Rede Globo. O assunto, para se ter ideia, foi manchete principal e diria nos jornais do Rio e S. Paulo, por um ms inteiro. O tiroteio em torno da adventcia caravana do vice-presidente da Repblica, Melo Viana, para muitos historiadores foi o dealbar da Revoluo de 30, que justamente no dia de hoje, h 85 anos, levou Getulio Vargas ao Palcio do Catete. Pois Plnio Barreto, 93 anos, partiu nesta madrugada, sem nunca permitir que o reprter que o habitou baixasse a guarda um s instante. Honrou a profisso. Como o fez na noite quente de Montes Claros, no ano de 1998, na praa que ela sabe mais histrica do que acreditam os moradores da prpria cidade dos montes claros. Ser lembrado, tambm e ainda, pela lhaneza de conduta e pela sbria elegncia de viver, a solicitude.


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Por Paulo Narciso - 10/7/2015 12:03:11
Aos 95 anos, dormindo em casa, morreu Britaldo Silveira, jornalista e advogado. No jornal Estado de Minas h 74 anos, diretor de importante rea, era muito ligado gerao de Montes Claros que povoou as redaes do Estado de Minas e do Dirio da Tarde nos anos 70. De face carrancuda, transportava um excelente corao.


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Por Paulo Narciso - 3/7/2015 00:09:41
Houve tempo em que a Exposio Agropecuria Regional de Montes Claros era aberta por presidentes da Repblica. Lembro-me de pelo menos trs - JK, Castelo Branco e Geisel. Parece que outros mais vieram. Quando no vinha o presidente da Repblica, vinha o governador. Depois, nem mais o governador. Aparecia o Ministro da Agricultura, ou o secretrio estadual da pasta. Hoje, ao declinar do dia, a Expomontes foi aberta sem presidente, sem governador, com um senador e dois - dois - representantes pessoais do governador, os deputados Tadeuzinho e Guedes, rivais na poltica local. Os dois se apresentaram enfaticamente como emissrios do ausente Pimentel. O governador no teria sido convidado oficialmente, por dificuldades com a classe rural, ao conferir a Medalha da Inconfidncia ao lder do MST. O vice-governador, do PMDB, este vindo de ligaes com o campo, natural da diamantfera Coromandel, estaria confirmado em lugar de Fernando Pimentel. Alguma coisa aconteceu, porm. Nem o vice apareceu. Teria sido intriga nas franjas palacianas - que decididamente no so franjas de altar, com insinuaes de possvel, e improvvel, hostilidade. Quem no veio perdeu. Poucas vezes o Parque Joo Atade se apresenta to arrumado, como para esta exposio, em que pese a crise econmica, generalizada e profunda. O campo, to maltratado, est carregando o Pas nas costas e a fala inaugural do presidente da Sociedade Rural, Osmany Barbosa, foi realista, elegante, sbria. Mas um mdico roubou a cena. Eduardo Alves do Amorim, nascido em Itabaiana, 52 anos, fez discurso alto, humano, breve, como recentemente no se costuma ouvir de poltico algum, eles que em certos momentos foram os maiores tribunos da fatigada ptria, e pela voz de quem ouvia-se a nao. Vide Aureliano Cndido de Tavares Bastos e Joaquim Nabuco, no Imprio, e Ruy Barbosa, Carlos Lacerda e Paulo Brossard, mais recentemente. Foi aplaudido, respeitosamente aplaudido, embora pouco conhecido aqui. Disse, e repetiu, que o pior da crise brasileira no est na economia, em frangalhos, sabemos todos. Reside, habita, na face moral, na ausncia dela, no seu estraalhamento. Foi aplaudido. Vem a ser senador por Sergipe, com ligaes familiares no Norte de Minas. Roubou a cena, repito. Supriu a ausncia dos que antes, em outros melhores tempos, reverenciavam o Norte de Minas e sua cidade lder. (Brava cidade, nos momentos em que a bravura o ltimo recurso). Vida que segue.


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Por Paulo Narciso - 31/5/2015 10:37:42
Morreu, na virada da noite, em Belo Horizonte, o jornalista dson Zenbio, de 84 anos. Ele sofreu uma queda em casa. Ficou hospitalizado por uma semana. Zenbio, diretor-geral do Estado de Minas, era ligado a M. Claros, por muitos motivos. Foi grande amigo do clebre reprter Fialho Pacheco, e veio com ele promover o Encontro do Boi em M. Claros, nos anos 70. Vinha sempre fazenda dos Dirios Associados, em Manga. Tambm nos anos 70, quando redator-chefe do Dirio da Tarde, hoje extinto, ligou-se fraternalmente, e afetivamente, colnia de montesclarenses no Estado de Minas, colnia que, na redao, em nmero, s perdia para a representao de Santa Luzia, da famlia Teixeira da Costa, que administrava os dois jornais. Afvel, paternal, Zenbio reservava especial deferncia aos montesclarenses, e sentia-se um deles, todos mais novos. Antes, havia sido discpulo e admirador de Monzeca, o mitolgico Hermenegildo Chaves, montesclarense por todos reconhecido como um dos pais da imemorial imprensa de Minas. dson Zenbio, jornalista, publicitrio, homem ntegro, correto. Sempre modesto nas altas funes que exerceu. Humanista da melhor fornada da Minas de todos os tempos. Seu corpo ser cremado hoje tarde. A lenda prosseguir. A saudao oriental, milenar, de juntar a palma das mos numa reverncia, preceito e simbolismo que talvez desconhecesse formalmente na sua formulao remota e profunda, esteve porm implcita em toda a sua conduta. Parecia repetir sempre, no olhar, inconsciente que seja - "minha alma e a tua alma so uma s".


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Por Paulo Narciso - 18/4/2015 19:39:15
A quieta tarde de abril, toda ela azul e gentil, presidiu as despedidas professora Yvonne Silveira. A mestra de muitas geraes no teve a conduzir seus despojos ao campo santo um carro solene dos Bombeiros, e ns atrs, em procisso, agradecidos. Nem o cortejo foi imenso, para honrar os demorados mritos da mestra, de 100 anos. Tudo dispensvel, para quem ajuntou mais nos planos superiores. Consolei-me, num raciocnio decerto diverso, menos nos deveres da gratido, ao lembrar-me que Afonso Henriques de Lima Barreto, aqui, e Fernando Antonio Nogueira Pessoa, em Portugal, no tiveram por ltimo ato, entre os homens, um imediato levante de reconhecimento. Um, o maior poeta da Lngua, alm mesmo de Cames; o outro, mulato carioca, de repetidas internaes por crises nervosas, batido pela vida e pela sfilis, gnio ao escrever, suburbano para viver. Portugal levou dcadas a buscar no Ba a genialidade de Fernando Pessoa e dos mais de 200 que o habitavam, numa gangorra de excelncias e de mistrios. Gastou 50 anos - "Quem quer passar alm do Bojador/Tem que passar alm da dor " - para, revirando a Arca, por fim decidir ir buscar as relquias do poeta morto aos 47 anos, do Cemitrio dos Prazeres para o Panteo Nacional, nos Jernimos. Onde a ptria lusitana peregrina hoje ao seu maior nome. Lima Barreto, e seus cambaios sapatos, tambm alteia-se para o lugar que indiscutivelmente seu; ele, que no teve dzia de acompanhantes no fretro quase annimo, enquanto no quarto ao lado gritava seu pai, louco. Portanto, consola ao corao que a dvida professora indistinta de geraes tenha sido paga hoje, em primeiro lugar, pelo Cu Azul de Abril da terra que amou, e pela qual viveu minuto a minuto. Seu nome seguir no corao de milhares, em especial dos alunos que, um dia, nas aulas de portugus da Velha Escola Normal, da sua voz em primeiro lugar ouviram, em latim - sic transit gloria mundi. Pois que, passageira a glria do mundo. No para o Cu de Abril.


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Por Paulo Narciso - 2/1/2015 10:03:54
De gravatinha borboleta preta e o rosto sereno de sempre, conduta lhana que foi a marca da sua vida. Assim se despede de ns, nesta manh, o mais completo intelectual da cidade, o humanista Haroldo Lvio, tambm escritor, cronista, jornalista, bancrio e oficial dos registros pblicos. Aplicado, devotado, talentoso, o menino/jovem Haroldo Lvio, logo que se mudou para Montes Claros, entrou numa biblioteca e no saiu de l enquanto no acabou de ler o ltimo volume. Tornou-se, claro, o maior sbio entre ns, uma enciclopdia permanente, para qualquer consulta, ornada de generosidade, comedimento e pacincia. O nosso Scrates, no Jardim de Academus que escolheu. Foi funcionrio do Banco do Brasil e renunciou carreira para seguir o ofcio do pai, escrivo do Poder Judicirio. Por concurso, assumiu o Cartrio de Imveis de Porteirinha e acrescentou quela cidade os traos de seu desprendimento e de sua cultura.
Haroldo Lvio paira sobre sua regio como o homem dos vos mais altos, embora encerrados numa disciplina de modstia e humildade que durou 76 anos, interrompidos ontem noite, por volta das 22h. Os acontecimento mais importantes da cidade nos ltimos 60 anos foram celebrados por sua escrita, ou relembrados. No jornalismo, ocupou-se, entre outras coisas, daquilo que mais difcil, mais delicado - o registro dos que partem, o chamado necrolgio, que tambm celebrizou Hermegildo Chaves, o Monzeca. Resumir sua vida de humanista pede muitas pginas, e elas ficaro incompletas.
O fato que Haroldo sentiu muito a partida do seu nico irmo homem, Fernando, h dez meses. Apenas os muito prximos puderam entrever, no silncio de sua conduta alta, o quanto lhe custou a separao. H dois meses, submeteu-se a uma cirrgia de bexiga, sem maiores complicaes. Um quadro de diabetes, despertada pela falta do irmo mais velho, se incumbiu de dificultar as coisas. Havia tambm a descompensaao da glicose. De qualquer modo, no tomou o lugar de ningum nos hospitais, trasbordantes e exaustos. Morreu ontem em casa, assistido pela esposa, Maria do Carmo, e pelas filhas. Serenamente.
O velrio comeou por volta das 2h da madrugada desta sexta-feira, numa bela noite de lua cheia, de cu infinitamente azul, onde sempre viveu sua alma. O sepultamento est marcado para as 14 horas. Mas, pessoas esplndidas como Haroldo Lvio no vo sepultura. Permanecem.


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Por Paulo Narciso - 16/11/2014 13:18:10
Daqui, de onde o homem partiu para as estrelas, tomo conhecimento de que Dona Ruth Tupinamba Graa ergueu-se para outros mundos, merecidamente promovida, com excelentes notas. Interrompo a visita e, de um canto ao p do foguete com seus impressionantes 110 metros, no caso o Saturno V, contemplo nos cus de M. Claros esta outra escalada, cingida e nimbada de qualidades humanas que no nos deixam devedores de ningum. O cu do serto incorporou uma estrela. Sua voz ficar, firme e sem medos, como foi sua vida. No choremos. Celebremos.


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Por Paulo Narciso - 4/1/2014 15:41:57
No entardecer de 6 de dezembro, no Tempo da Epifania, depois de muitas vezes, consegui que Raio atendesse o interfone da casa/museu do seu pai, onde pincis produziram quadros e horas inolvidveis, como Pavo gosta de repetir.
Atendeu, identificou prontamente a voz que o buscava, saiu porta e, milagre, aceitou alegremente deixar os seus domnios ltimos, e conversar. (Igor, seu irmo, ontem perguntou: "com que trator conseguiu arrast-lo?")

O fato que Raio veio, contente conversar.
Ali perto, de uma varanda para a cidade, por 3 horas conversamos, ou mais. Apenas os dois. Nossas vidas de 60 anos foram recuperadas, e revisitadas, em cada quadra. Pareceu-me muito com o gigante que foi seu pai. Lcido, raciocnio alto, controle da situao, despojamento, despreendimento.
Um sbio que se ancora na solido, para melhor falar com Deus, que a todos ouve no grande deserto. Inesquecveis 3 horas, de vasto sobrevo.

Apenas uma vez Raio desceu s vicissitudes humanas, quando se sentiu, e confessou "rodeado de buracos".

A imerso, rpida, s regies de dor sempre foram passageiras no fantstico mundo que sempre soube construir, um seguido sempre de muitos outros, infindveis.
Tomei a iniciativa, deliberada, de afast-lo dos "buracos", e provoquei para que voltasse aos planos costumeiros de sua lucidez, que a muitos pode parecer catica, e nunca, nunca foi. A solido dos altos vos, a espaos rarefeitos, um preo a ser pago, e ir l nada tem de egostico, de soberba ou superioridade.
Raio exibiu maioridade mental - leve, verdadeiro, autntico, e nosso dilogo, com a promessa de muitos outros, foi longinquo e privilegiado, at para a noite que de Epifania.

O homem tocando as suas cumeeiras, equilibrado e justo, no esplendor do pouco querer.
Lembrei-me de Taine, citado por Lima Barreto: "Tudo amar para tudo compreender, tudo compreender para tudo perdoar..."
Percorremos S. Joao da Cruz e Yogananda, e ele fluiu soberanamente, leitor voraz que sempre foi.

Fui entreg-lo de volta sua casa, a p, em funo de detalhe que me impressionou profundamente.
Raio, quando aceitou vir comigo, naquele entardecer (repetirei sempre: comeo de Epifania), a cada passo que se afastava da Casa do Pai, voltava-se com o olhar para ela.
Fez isto vrias vezes, no espao de 2 quarteires.
Talvez se perguntando: se saberia voltar, se era capaz de voltar.
Temia no voltar, esquecer o caminho, perder-se?

Voltou.
Voltar muitas vezes. Numa Noite, Feliz.

(Estas lembranas dito com um s dedo, que o que este mini-computador aceita, em trnsito, a caminho, para dizer "bravo" ao que deps seu primo Ucholino, sempre muito bem. Raio vive)


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Por Paulo Narciso - 15/8/2012 15:16:22
So memorveis estas novas pginas de Flvio Pinto, j consagrado por outras publicaes em jornal e livro. Ungido desde os tempos d O Jornal de Montes Claros, ainda na dcada de 60, rapazola.
As crnicas aqui ajuntadas eu as li em primeira mo, quando as recebi para publicar no nascente montesclaros.com, j agora com 12 anos. Tive o privilgio de l-las em primeiro lugar a primazia.
Quando Flvio decidiu coloc-las em fila, no livro, com o amorvel ttulo, mandou-me o rascunho.
Chegou-me em hora do almoo. Entre a refeio e a leitura, a emoo fez digitar no Ipad, com um s dedo, o bilhete que confessava a seduo em flagrante:

Com um olho no prato e o outro no livro, acabo de percorr-lo. O tempo est nublado em M. Claros, o que contrasta com a luminosa evocao que voc faz dos nossos dias eternas tardes ensolaradas que jamais se dissiparo. Chamadas para o livro, estas suas, nossas recordaes, crescem muito mais. Corra a public-las. Esperaremos pressurosos. Iluminaro outras tardes, clarearo outras vidas. Sugiro a colocao das datas, para ancorar os fatos num tempo que realmente existiu pois muitos duvidaro de que fomos to felizes, e de que houve tempo assim, to (ainda) perto de ns

Nas evocaes neste livro contidas, digo-o j, h um terno e singular lirismo, sem transbordamentos.Quando por exemplo o autor diz:

-... os poetas, sempre voltaro.
Principalmente os que falam com as estrelas.
Um dia o povo ainda haver de ouvi-los.
E se manifestar, nesta terra de eterna
Inconfidncia.
Que no seja nunca.
E nem tarde.

Ou, quando, mais frente, deixa escapulir:

O sargento vigiando os atiradores.
As freiras de olho nas moas.
O tocador, no olhar de certa.
Que atravessou toda a avenida e se perdeu
No tempo.

Para, adiante, perguntar:

E o Mural?
E responder, ele mesmo, autor:

o Cooper da atividade intelectual do montesclarense. Quantos poetas, quantos escritores, quantas idias estariam hoje dentro do vazio de uma gaveta, junto a mofo e seculares poeiras, se no fosse este mgico Mural para retir-los do buraco negro onde estavam e traz-los para c, cada um dando o recado de seu jeito, seja mais culto ou menos sabido e fazendo-nos ver e crer que existe realmente vida e corao alegres batendo nossa volta

Foi o que constatou em vsperas de Natal, o de 2006. No sem antes, ou depois, deixar vazar o gemido, quando tombaram, tocaiaram sordidamente o prdio do antigo Seminrio Diocesano, que foi sede do Ginsio Municipal e da Prefeitura, trespassado junto com a nossa avenida:

Ai vi a foto publicada nos jornais, do velho ginsio. Destelhado, as telhas na calada e a chuva molhando tudo. Como lgrimas. Que tristeza.

Por tudo que vai neste novo livro, creio que no ser muito pedir, por todos, que Flvio Pinto prossiga. Prossiga como cronista da nossa cidade. Pedir que lamba, sempre mais, a cria que capaz de extrair do seu corao, dos refolhos, das dobras e das redobras, para ensolarar as muitas tardes de uma quase miragem que no se perdeu, nem se perder. E que todos chamamos, e amamos, como os montes claros. Assim, seja.


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Por Paulo Narciso - 3/5/2012 17:42:52
Aconteceu perto de ns

Paulo Narciso - Jornal O Tempo (BH)

Guardo na sala de direo da Rdio Montes Claros 98 FM documento emoldurado que melhor ficaria depositado, e reverenciado, nos arquivos dos momentos mais altos da imprensa mineira e brasileira, se este cuidado fosse comum entre ns.
So as folhas originais do editorial de fechamento de um jornal de provncia. No caso, o O Jornal de Montes Claros, que circulou por 38 anos. Jornais, como pessoas, nascem, vivem e morrem, e assim do sequncia aos servios da natureza como resumiu lder espiritualista mineiro.
Uma coisa distingue este jornal e o seu editorial de fechamento de quantos so conhecidos.
Na dcada de 80, o diretor Oswaldo Antunes, da mesma turma e linhagem de Edgar da Matta Machado, Alphonsus de Guimaraens Filho, Otto Lara Resende, Jos Mendona, Hlio Pellegrino e Milton Amado, percebendo que no mais poderia sustentar o jornal com a altivez e correo de quatro dcadas preferiu, ele mesmo, sufoc-lo. Mat-lo.
Produziu um documento primoroso. Raro. Extraordinariamente belo e alto. E, no gesto solitrio, sereno, cortou o caminho que pudesse levar o jornal, como as pessoas, a sangrar em pblico e descer pela vida.
Oswaldo Antunes, assim como Wander Pirolli, Clius Aulicus, Fialho Pacheco, Hermenegildo (Monzeca) Chaves, Odair de Oliveira, Tedulo Pereira, Pedro Agnaldo Fulgncio e muitos outros, fez escola. Deixou discpulos. Faleceu em 11 de abril, aos 88 anos. Entre as homenagens que recebeu juntou-se o minuto de silncio que o Atltico Mineiro enviou-lhe na tarde ensolarada de domingo, ao saber que tinha em M. Claros, incgnito, um torcedor to discreto quanto fervoroso e honrado.
Por muito tempo se ler o editorial "Calar Antes do Fim, entre a contrio do sagrado e a venerao discipular. Ensinava o mestre:
... o rgo de imprensa, como os rgos da emoo e da inteligncia humana, no podem viver apenas para sobreviver. E quando essa sobrevivncia somente seria possvel com a mancha do dinheiro fcil, a ser conseguida no campo da corrupo e da submisso dos ideais, melhor parar antes de sujar as mos e a conscincia. (...)
Este jornal viver enquanto forem lembradas suas lutas, enquanto aqueles rapazes e moas que passaram pela redao continuarem, em outros rgos de imprensa, a exercer com bravura, independncia e inquietao social, tudo que aprenderam nesta casa, que souberam honrar e amar mais do que a pequena remunerao que recebiam. (...)
Um jornal acaba menos por se calar com honra e mais por submeter-se a interesses que no sejam os da comunidade. Por isso mesmo, resolvemos calar antes do fim!"

Na noite em que foi velado, enquanto a notcia se espalhava pela cidade de quem o pai da imprensa, refletiram todos na ausncia que impunha o corao que deixara de pulsar, mas no de viver. Inevitvel era revisitar o Calar Antes do Fim. Para concluir que o editorial, extrado das cumeeiras morais mais altas, doeu mais naqueles que o leram, de sbito na tarde inadvertida da mocidade, do que no Homem que serenamente o datou e assinou, to certo estava da convico que o compelia. So momentos raros na vida dos povos. Existem. Aconteceu perto de ns e faz pouco tempo.


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Por Paulo Narciso - 4/7/2011 09:19:48

Foi Alberto Sena fucutar de Belo Horizonte e Wander Pirolli reapareceu completo, genial, nesta segunda de infinito cu azul em M. Claros. Manh que guiar a tarde ensolarada de sempre no burgo que ele amou, e aonde veio muito, muito, nos ltimos anos de vida vida intensa.
Um dia, percorreremos juntos, novamente na companhia de Raquel, os caminhos cmplices que juntos fizemos por estas ruas e praas.
Agora ainda cedo.
Assim, eis que volta na bela manh este imenso Wander, to bem evocado por Alberto.
Em 2008, dois anos depois que passou imortalidade, a outra, Tio Martins editor do Estado de Minas, como Wander, como Alberto encomendou uns "recuerdos" para o livro em torno do mestre incomum, cone de uma gerao.
Di - por certo di, rechamar os amigos que j no podemos ver, mas que continuam a existir e cujo nome nunca ser apagado de nossas agendas, para ficar na imagem que do prprio Wander.
Mas Tio, sempre bom, encomendou e preparei umas linhas.
So as que seguem.
Se as republico agora, a culpa certamente de Alberto Sena, que no pode assim, brusco, invadir o cu azul de uma segunda-feira do serto. Cu infinitamente anil - reparem, por favor.
A s companhia de Wander, por alguns anos, j suficiente para justificar qualquer vida. Quando no se tem a alma pequena resmunga o poeta, do lado de l da montanha que querem desventrar.

A Wander:
26/8/2008 13:50:42
Desculpai todos, mas Wander foi o melhor

Paulo Narciso

Wander Pirolli, nome curto para um legado enorme.
Quando morreu Monzeca, tambm chamado de Hermengildo Chaves, Ayres da Mata Machado Filho pediu licena para ser enftico - desculpai, mas Monzeca entre ns foi o melhor.

O mesmo peo permisso para dizer.
Wander Pirolli, em tudo (editor, escritor, amigo, Homem) foi, de nossa gerao (a dele, um pouco antes), o melhor de todos.

J o conheci quando o autor da Me e o Filho da Me entrava nos 40 anos e eu, seu reprter na Editoria de Polcia do Estado de Minas, nos 20.

Foi Wilkie Rodrigues (por Wander batizado de embaixador senegals) quem me segredou, com cerimnia e cumplicidade: o genial Wander, escritor.

Nada sugeria o intelectual.

Sua simplicidade no cabia no molde do contista mineiro, classe que atingia o topo da glria naquela quadra.

Despojado, sem preocupao com o apuro em vestir, camisas eternamente queimadas por cinzas de cigarro, era o cidado comum, um operrio, origem da famlia italiana da qual se orgulhava, e cuja saga est no autobiogrfico A Me e o Filho da Me.

No time de futebol bissexto da redao, era o nico que jogava descalo, sem prejuzo de chutar forte com o dedo levantado. Perguntado se pretendia chegar Academia Brasileira de Letras, respondeu afirmativamente.

- Sim, quando estiver entrevado.

Nada, repito, nada at os ltimos dias indicava que o homem modesto era o escritor Wander Pirolli, admirado em toda parte, por tantos.

Foi o pai incontrastvel de uma legio de colegas que o tero para sempre como referncia absoluta.

A partir do primeiro encontro no jornal, acompanhei-o vida afora, de perto. Admirei-o como campeo da escrita enxuta, dos tipos mais humanos que vi, e como titulador (de notcias) sem igual.

No encontro que promovi entre os dois, o esfuziante Darcy Ribeiro o saudou, dizendo que seria o escritor nmero um do Brasil se tivesse a conciso de Wander.

Sem esforo, uma multido de manchetes feitas por Wander retorna de muito longe: Samurai da Vasp cai nos grotes de Maria Bonita, Frum fecha, ou toma jeito, A esperana muito passageira do Trem do Serto.

(Aqui, foroso lembrar que o ttulo do livro Os Rios Morrem de Sede deveria ter sido e fui voto vencido Bumba, Meu Rio. Mas, nem todos saberiam que Bumba o doce apelido do menino filho de Wander, que na pescaria com o pai viu o caudal minguar e quase morrer, de sede).

Quando retornei minha M. Claros da infncia, pelo fim dos anos 70, a distncia mais nos aproximou, anulada pela admirao que sua conduta incomum inspirava, de homem natural no convvio com os semelhantes-dessemelhantes.

Wander distinguia os amigos, e foi constante nas visitas ao serto para descansar na casa que era do seu gosto despojado.

Amava viver, tanto que nas raras visitas que fazia ao mdico pedia desculpas por no ter nada para se queixar, por no sentir doena alguma, nem dores, no corpo vigoroso e na mente privilegiada, apesar do cigarro e do exagero na bebida.

Foi na casa montesclarense, na companhia de Ricardo Eugnio, o Dindorim do Estado de Minas, que justamente sentiu o primeiro sinal do AVC progressivo que o levaria em 2006, com direito de usar bon no aceno derradeiro.

Nosso ltimo encontro, uma viagem, permanecer como cerimonial no previsto de uma despedida, de quem no partiu, nem partir.

Pedi sua companhia para visitar a casa em reconstruo de CDA em Itabira, assim como o museu do poeta prestes a ser inaugurado.

Wander aceitou viajar, com alegria.

Na sada de casa, ainda falava com dificuldade, seqela da doena que preservou sua mente, mas dificultou-lhe a fala e, progressivamente, a escrita, isolando-o em casa. O gigante j prisioneiro do prprio corpo.

Ao deixar-mos uma BH corrompida de favelas, no campo aberto do caminho, por algum prodgio Wander recuperou a integral capacidade de falar e expressar-se. Admirei a mudana, e chamei a sua ateno. Ele notou que falava de novo sem peias. Mistrio.

Viajamos mansamente numa descansada trilha do passado, onde nada deixou de ser lembrado, como se ali inventarissemos a vida, ainda muito cedo para balanos.

Falou, discorreu, avaliou, refletiu, fez de tudo - na ida e na volta, como nos velhos tempos. Apenas ao chegar cidade de Itabira, por razo que tambm desconheo, teve novamente passageira dificuldade para se expressar, limitao descartada na viagem de volta.

Ao deix-lo na porta de casa, ainda na Serra, quando seu corpo levemente pendeu, no sabia que ali nos despedamos.

Levava debaixo do brao um So Francisco de Assis, do primitivo Assuno, barbeiro centenrio, que visitamos.

Fisicamente nos despedimos, apenas.

Recebia dele originais de livros e, com freqncia, cartas e e-mails pois Wander quis driblar o isolamento com ajuda da internet.

Certa vez, me lembro, ao descrever Paulo Lott, ainda nas reunies informais da Editoria de Polcia do jornal (que o grande Fialho Pacheco chamava ironicamente de petit comit), Wander refletiu, referindo-se a Lott, tambm cria sua:

-Este Peclot (resumo de Paulo Emlio Coelho Lott) ocupa o lugar exato no espao.

Recomponho a frase, e revejo o elogio, sincero e preservado, que ela esconde.

O poder de sntese e de sabedoria para descrever o amigo que admirava talvez seja a melhor definio do prprio Wander, o tteme que conheci, o intelectual sem afetao, humanista sem placa, gnio cuja natural modstia dispersava aclamao e reverncia.

Desculpai todos, mas Wander foi o melhor.


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Por Paulo Narciso - 11/3/2010 11:47:51
O que o mestre Oswaldo Antunes abaixo mandou fazer d livros. Mas, hoje, no improviso, cabe numa linha: na vida, outra coisa no fiz, no fizemos todos ns seus discpulos, do que seguir o caminho que ele e Waldyr nos indicaram, tomando-nos pela mo. No meu caso, ainda menino. Menino antigo, sob os pressgios da inapagvel, amada presena de Nathrcio Frana. Agora, j de cabelo e barba brancos, que a implicncia e o filho mandam conservar para lembrar, recebi (ontem) aqui na redao conjunta da Rdio Montes Claros 98 FM, da Rdio So Francisco de Assis 93 FM e do montesclaros.com a visita sempre amena do honrado coronel Lzaro, ex-comandante da PM em Montes Claros. Entre abraos, evocaes e lembranas, revivemos os nossos tempos inaugurais. Ele, como jovem e brilhante oficial da PM, eu como o reprter quase menino. Por dever de ofcio, o tenente recebeu a incumbncia, difcil, de ser censor de jornal em dias tempestuosos, ingrata funo que cumpriu como soldado que segue ordens. Pois bem. O tenente foi a capito, o capito foi a major, a tenente coronel e a coronel, e como comandante do seu batalho aposentou-se merecidamente, j faz 20 anos. Eu, disse a ele, sigo fazendo as mesmas rasas coisas que aprendi na redao d "O Jornal de Montes Claros", sem nunca me dar conta de que de alguma forma possa ter crescido, promovido, sequer mudado, escorado na sentena - "gente grande j foi criana, s esqueceu". No, no esqueci. Nada retocaria na vida que seguiu, e em especial retornaria aos dias primeiros vividos numa redao de jornal, a minha casa definitiva - nunca provisria. Vida que jamais seria a mesma venturosa vida se numa tarde ensolarada - como no Cinema Paradiso - no houvesse passado o filme chamado "O Jornal de Montes Claros", em austero preto e branco. (Aos camaradas daqueles dias, chamo, e tambm aos que partiram, ouviu Lazinho? Sentem-se. Fechem os olhos. Revejam a pelcula. A nos convidar, est o mais genial dos escritores do Brasil, com a frase eterna que a memria recita - "Convosco recomponho, revenho ver" ).


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Por Paulo Narciso - 27/12/2009 11:07:11
(A Editora O Lutador acaba de publicar em Belo Horizonte o livro - "O Sonho Possvel", coordenado pelo jornalista Itamar de Oliveira. Rene depoimentos do cardeal Dom Serafim Fernandes e dos demais fundadores, reitores e professores da Pontifcia Universidade Catlica de Minas Gerais, que completou seu primeiro meio sculo. H, entre eles, o "recuerdo" abaixo, de um aluno da Universidade).

De Volta ao Cavaleiro de Preto

Paulo Narciso (*)


Itamar de Oliveira, o amigo com quem fiz dupla nas coberturas de imprensa nos anos 70 em Belo Horizonte (ele pelo Jornal do Brasil, eu pelo Estado de Minas), pede para assoprar o monturo de lembranas de nossa passagem pela Universidade Catlica.

O ano 1971.

Havia chegado do interior, onde entre os 15 e os 20 anos trabalhara como reprter em antolgico jornal - O Jornal de M. Claros -, que deliberadamente escolheu cerrar suas portas a prosseguir sem a independncia editorial que sustentou por 40 anos.

Contratado pelo Estado de Minas, j com registro de jornalista profissional aos 20 anos, pretendia estudar Direito, o curso de graduao preferido por quase todos os que escolheram o jornalismo como primeira profisso.

O assalto a um banco, de conotao subversivo-terrorista, como a censura impunha aos jornais dizer, fez-me trabalhar na cobertura at alta madrugada do dia da ltima prova da Universidade Federal, a que no pude comparecer. Acabei aprovado pela Universidade Catlica. Passei a freqentar as aulas pela manh, reservando as tardes e as noites ao jornal, na editoria de Wander Pirolli, o clebre autor da Me e o Filho da Me.

No ltimo ano da faculdade, migrei para o perodo noturno e assumi a assessoria de imprensa da universidade, a convite do vice-reitor Gamaliel Herval. A Faculdade de Direito chegava aos 25 anos, oito na frente da prpria Universidade, hoje PUC, que agora alcana os primeiros 50.

O reitor Dom Serafim, posteriormente cardeal, desejou comemorar com gala o jubileu da escolinha do bispo, assim chamada por ter sido criada por Dom Cabral. Como assessor e formando, apresentei sugesto de que se criasse medalha, de mbito nacional, com o nome de Sobral Pinto, para homenagear aquele que na atividade jurdica mais se destacasse na defesa dos Direitos Humanos, to prostrados e humilhados.

Os tempos eram sombrios, melanclicos. O regime de exceo, radicalizado pelo AI-5, impunha sua frrea vontade sobre tudo, da atividade parlamentar ao trabalho da imprensa e tambm sobre a universidade e os demais centros de difuso do saber. A censura mutilava os jornais, a ponto de no lugar das notcias vetadas sarem receitas de bolo e irnicas previses do tempo.

Prisioneiros polticos apareciam mortos sob a verso de atropelamento em fugas que jamais existiram. Outros, "suicidavam-se" na priso.

A resistncia ao arbtrio, fragmentada e sob cerco, rebrotava sempre, para sempre ser esmagada.

Neste triste cenrio, um homem eternamente vestido de preto, de luto permanente pela morte de uma filha, em 1956, de cncer, mas jovem nos seus mais de 70 anos, um homem impunha-se ao Pas pela solitria coragem. Mineiro, chamava-se Herclito Fontoura Sobral Pinto. No havia semana sem que sua autoridade, moral e jurdica, no disparasse carta aos generais-presidentes, em linguagem respeitosa, mas dura, exigindo o fim dos tempos de exceo e arbtrio. Numa delas, de que guardo o original, dizia:

" curioso que os nossos governantes militares no cessem de processar como subversivos aqueles que os acusam de estar suprimindo a liberdade em terras da Ptria. Entretanto, subversivos so eles, porque a disciplina militar cria para eles o dever de permanecerem dentro dos quartis, preparando-se para, obedientes ao Poder Civil, defenderem a ordem constitucional da Nao. Em vez de cumprirem esta misso fundamental, eles saem dos quartis, indisciplinadamente, e se apoderam do Poder, rasgando a Constituio, que deveriam defender e resguardar".

Era, o doutor Sobral, um veterano no enfrentamento das ditaduras. Arrostou a de Vargas e nela produziu a mais alta pgina da advocacia brasileira, ao invocar a Lei de Proteo aos Animais para salvar a vida de um cativo, Harry Berger.

O alemo companheiro de Prestes na Intentona Comunista era mantido prisioneiro num socavo de escada. Impedido de dormir e torturado com arame incandescente introduzido na uretra, aproximava-se do fim. Exausto de implorar por sua vida atravs da lei dos humanos, Sobral recorreu lei dos animais. Tambm no foi atendido.

(Berger s deixaria a priso no fim do Estado Novo, em 1945, para morrer na Alemanha, louco).

Antes, havia defendido tambm o escritor Graciliano Ramos, que nas "Memrias do Crcere" fixou sua coragem e irrepreensvel conduta.

Sobral Pinto era o nosso dolo, dos jovens, e de quantos conhecessem a sua histria. A admirao que por ele tnhamos enciumava Darcy Ribeiro, amigo e conterrneo.

A criao da medalha, com nome assim to alto, teria para ns o efeito, simblico, de uma vela levantada em tempo de trevas.

O reitor dom Serafim ouviu a proposta e na hora respondeu:

- Ser criada a medalha com o nome de Sobral Pinto, desde que os formandos de 1975 da Faculdade de Direito formalizem a idia.

Tinha uma pedra no caminho.

Sobral Pinto nunca soube, mas houve resistncia ao seu nome, por parte de alguns alunos, desinformados, vtimas da propaganda do regime, que o supunham comunista e defensor de comunistas.

Cabia dissipar o equvoco.

Procurei em carter particular o professor Alberto Deodato, muito querido nos meios acadmicos. Que aceitou alegremente a sugesto de repor o perfil do homenageado na coluna semanal que mantinha no Estado de Minas. Exultou a idia e por ela se bateu. O colunista mestre Midosa de S e Benevides, o Pricles que escrevia pelas mos de Thedulo Pereira, imediatamente se aliou em desfazer o engano, atravs de longa e respeitvel coluna.

Em poucos dias, todos os formandos, sem exceo, apresentaram o documento que propunha a criao da Medalha. Dom Serafim atribuiu ao professor Afonso Henriques Prates Correia a formulao do estatuto.

Um lpido Sobral Pinto, de 82 anos, sempre de preto, veio entregar a primeira medalha e todas as seguintes, enquanto viveu. Colocou-a no peito de Edgar da Mata Machado, de Hlio Bicudo e de Tristo Atayde. Apenas tempos depois, na campanha das diretas, o Brasil despertaria para aplaudir numa apoteose (que as TVs incansavelmente mostram at hoje) o homem mido, de preto, que exigia obedincia ao artigo primeiro da Constituio.

Ainda preciso lembrar:

Uma comisso dos bacharis de 1975 foi ao Rio fazer a comunicao oficial. Sobral residia em velha casa da Rua Pereira da Silva, perto do Palcio das Laranjeiras. Na manh chuvosa, nos recebeu. O ltimo a entrar, indagou:

- Doutor Sobral, para deixar a porta aberta ou devemos fech-la?

A resposta foi taxativa, para aqueles dias:

- Por mim, no h necessidade de fechar a porta. Mas, se vocs temem por alguma coisa, que a fechem!

Sim, havia medo por toda parte.

Ao Jornal do Brasil, aos demais jornais que maciamente cobriram as suas vindas a Belo Horizonte, Sobral repetiria:

-Parece que houve um certo exagero em transformarem minha atividade profissional numa lurea permanente para outros advogados que se esforam no Pas para que sejam respeitados os Direitos Humanos, to preteridos, to esquecidos, to desprezados. H uma desproporo entre a honraria e minha atividade. O que eu fiz muitos outros certamente tm feito. De qualquer modo, se esta deciso partiu de jovens, isso prova que minha vida no foi intil.

A Universidade Catlica ainda patrocinou Lies de Liberdade, o livro com suas peties que rapidamente escalou a lista dos mais lidos do Pas, ainda na ditadura.

At desaparecer, em 30 de novembro de 1991, Sobral manteve-se ligado PUC e a dom Serafim, a quem nas cartas reiteradas que escrevia invariavelmente comeava com um pedido assim:

- "Estou certo de que ser com prazer que me dar a sua beno episcopal, de que tanto careo; ela me reanimar, pondo-me no caminho da obedincia evanglica, solicitando que, quando oficiar a Santa Missa sem inteno particular, se digne de consagr-la a mim e aos meus..."


Trinta e trs anos depois de deixar a Universidade, quando a ela torno neste retrospecto, ao encontro do cavaleiro de preto que vou. Sinto a sua enrgica presena, sua autoridade moral incorruptvel, a nos encorajar, a nos dizer: no desistam, no desistam da esperana, no desistam da luz!

E ouo, ouo ainda, como naquela noite fria de maio de 1971, a doce, a pequenina voz de Aires da Mata Machado Filho elevar-se por entre as flores do campus, os olhos quase cegos erguendo-se para a luz, a luz do luar:

a ti flor do cu que me refiro
Neste trino de amor nesta cano
Vestal dos sonhos meus, por quem suspiro
E sinto palpitar meu corao

Oh! dias de risonha primaveras
Oh! noites de luar que tanto amei
Oh! tardes de vero ditosa era
Em que junto de ti amor gozei

No te esqueas de mim por piedade
Um s dia, um s instante, um s momento
No me lembro de ti sem ter saudades
Nem podes me fugir do pensamento

Quem me dera outra vez este passado
Esta quadra ditosa em que vivi
Quantas vezes eu na lira debruado
Cantando em teu colo adormeci.


Foram dias que vivi. De maro 1971 a 12 de dezembro de 1975


(*) Paulo Narciso jornalista. Em 1975 diplomou-se em Direito pela PUC.


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Por Paulo Narciso - 26/8/2008 13:50:42


Desculpai todos, mas Wander foi o melhor

Paulo Narciso

Wander Pirolli, nome curto para um legado enorme.

Quando morreu Monzeca, tambm chamado de Hermengildo Chaves, Ayres da Mata Machado Filho pediu licena para ser enftico - desculpai, mas Monzeca entre ns foi o melhor.

O mesmo peo permisso para dizer.

Wander Pirolli, em tudo (editor, escritor, amigo, Homem) foi, de nossa gerao (a dele, um pouco antes), o melhor de todos.

J o conheci quando o autor da Me e o Filho da Me entrava nos 40 anos e eu, seu reprter na Editoria de Polcia do Estado de Minas, nos 20.

Foi Wilkie Rodrigues (por Wander batizado de embaixador senegals) quem me segredou, com cerimnia e cumplicidade: o genial Wander, escritor.

Nada sugeria o intelectual.

Sua simplicidade no cabia no molde do contista mineiro, classe que atingia o topo da glria naquela quadra.

Despojado, sem preocupao com o apuro em vestir, camisas eternamente queimadas por cinzas de cigarro, era o cidado comum, um operrio, origem da famlia italiana da qual se orgulhava, e cuja saga est no autobiogrfico A Me e o Filho da Me.

No time de futebol bissexto da redao, era o nico que jogava descalo, sem prejuzo de chutar forte com o dedo levantado. Perguntado se pretendia chegar Academia Brasileira de Letras, respondeu afirmativamente.

- Sim, quando estiver entrevado.

Nada, repito, nada at os ltimos dias indicava que o homem modesto era o escritor Wander Pirolli, admirado em toda parte, por tantos.

Foi o pai incontrastvel de uma legio de colegas que o tero para sempre como referncia absoluta.

A partir do primeiro encontro no jornal, acompanhei-o vida afora, de perto. Admirei-o como campeo da escrita enxuta, dos tipos mais humanos que vi, e como titulador (de notcias) sem igual.

No encontro que promovi entre os dois, o esfuziante Darcy Ribeiro o saudou, dizendo que seria o escritor nmero um do Brasil se tivesse a conciso de Wander.

Sem esforo, uma multido de manchetes feitas por Wander retorna de muito longe: Samurai da Vasp cai nos grotes de Maria Bonita, Frum fecha, ou toma jeito, A esperana muito passageira do Trem do Serto.

(Aqui, foroso lembrar que o ttulo do livro Os Rios Morrem de Sede deveria ter sido e fui voto vencido Bumba, Meu Rio. Mas, nem todos saberiam que Bumba o doce apelido do menino filho de Wander, que na pescaria com o pai viu o caudal minguar e quase morrer, de sede).

Quando retornei minha M. Claros da infncia, pelo fim dos anos 70, a distncia mais nos aproximou, anulada pela admirao que sua conduta incomum inspirava, de homem natural no convvio com os semelhantes-dessemelhantes.

Wander distinguia os amigos, e foi constante nas visitas ao serto para descansar na casa que era do seu gosto despojado.

Amava viver, tanto que nas raras visitas que fazia ao mdico pedia desculpas por no ter nada para se queixar, por no sentir doena alguma, nem dores, no corpo vigoroso e na mente privilegiada, apesar do cigarro e do exagero na bebida.

Foi na casa montesclarense, na companhia de Ricardo Eugnio, o Dindorim do Estado de Minas, que justamente sentiu o primeiro sinal do AVC progressivo que o levaria em 2006, com direito de usar bon no aceno derradeiro.

Nosso ltimo encontro, uma viagem, permanecer como cerimonial no previsto de uma despedida, de quem no partiu, nem partir.

Pedi sua companhia para visitar a casa em reconstruo de CDA em Itabira, assim como o museu do poeta prestes a ser inaugurado.

Wander aceitou viajar, com alegria.

Na sada de casa, ainda falava com dificuldade, seqela da doena que preservou sua mente, mas dificultou-lhe a fala e, progressivamente, a escrita, isolando-o em casa. O gigante j prisioneiro do prprio corpo.

Ao deixar-mos uma BH corrompida de favelas, no campo aberto do caminho, por algum prodgio Wander recuperou a integral capacidade de falar e expressar-se. Admirei a mudana, e chamei a sua ateno. Ele notou que falava de novo sem peias. Mistrio.

Viajamos mansamente numa descansada trilha do passado, onde nada deixou de ser lembrado, como se ali inventarissemos a vida, ainda muito cedo para balanos.

Falou, discorreu, avaliou, refletiu, fez de tudo - na ida e na volta, como nos velhos tempos. Apenas ao chegar cidade de Itabira, por razo que tambm desconheo, teve novamente passageira dificuldade para se expressar, limitao descartada na viagem de volta.

Ao deix-lo na porta de casa, ainda na Serra, quando seu corpo levemente pendeu, no sabia que ali nos despedamos.

Levava debaixo do brao um So Francisco de Assis, do primitivo Assuno, barbeiro centenrio, que visitamos.

Fisicamente nos despedimos, apenas.

Recebia dele originais de livros e, com freqncia, cartas e e-mails pois Wander quis driblar o isolamento com ajuda da internet.

Certa vez, me lembro, ao descrever Paulo Lott, ainda nas reunies informais da Editoria de Polcia do jornal (que o grande Fialho Pacheco chamava ironicamente de petit comit), Wander refletiu, referindo-se a Lott, tambm cria sua:

-Este Peclot (resumo de Paulo Emlio Coelho Lott) ocupa o lugar exato no espao.

Recomponho a frase, e revejo o elogio, sincero e preservado, que ela esconde.

O poder de sntese e de sabedoria para descrever o amigo que admirava talvez seja a melhor definio do prprio Wander, o tteme que conheci, o intelectual sem afetao, humanista sem placa, gnio cuja natural modstia dispersava aclamao e reverncia.

Desculpai todos, mas Wander foi o melhor.


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Por Paulo Narciso - 25/8/2008 22:35:56


Na noite em que deveriam partir

Paulo Narciso *



No dia 4 de setembro de 1971, Judith Malina, teatrloga e militante anarquista, hoje com 81 anos, residente em Nova Iorque, escreveu no Dirio que recolhe os acontecimentos de sua vida desde os 20:

- 7h30m: Apertem os cintos. (...) Nossos passaportes nos foram devolvidos com um carimbo preto enorme EXPULSO

- Ah, Brasil no foi em vo que te amei

Publicado com exclusividade mundial pelo jornal Estado de Minas, em julho e agosto daquele ano, o jornal assim apresentou o Dirio, cuja exibio parcial fez rilhar os dentes da censura no auge do regime ditatorial:

Como pea literria, lembra a melhor corrente dos escritores americanos, uma literatura sem nfase, contando o que pretende contar, sem apelao, nem efeito demaggico. Um relato, entre Hemingway e Malamud, a nostalgia de uma situao perdida, a realidade de sua situao vivida.

Trinta e sete anos nos separam daqueles dias de abertura do Festival de Inverno de Ouro Preto.

Relembr-los, ir de regresso, doloroso exerccio.

Primeiro, porque a leitura deste livro, que catapulta para a histria pginas de jornal que serviram de trincheira resistncia, traz de volta amargas lembranas.

Dos dias do medo, ensombrecidos pelo estado policial instaurado para fazer valer a vontade e concepo nica das coisas, e da vida. A tirania.

Dodo recuo, de quatro dcadas, nos faz aceitar que vencida a noite da ditadura, a ltima, no foi muito o que conseguimos avanar em conquistas libertrias. Caminhamos, mas ainda pouco.

Sonhvamos na juventude com o Brasil do futuro, que vimos nossa frente, ao alcance das mos. Mas o Brasil do futuro no chegou, no chega, parece que no chegar; insiste em escapar de ns.

Medonhos dias e noites aqueles, escuros.

No entanto, o ai que vazasse das prises, e vazava apesar da represso e da censura, o ai podia ser recolhido e multiplicado como tambores dispersos de uma floresta.

O gemido passava pela porta dos crceres, vinha dos subterrneos e dos pores, e era recolhido, e era ouvido; e uma rede de compaixo se estendia, acima das ideologias.

Hoje, que no h restries nominais liberdade, que o clamor permitido e estimulado, j no h paradoxo - quem nos oua com conseqncia.

O insidioso rebuo do estado paira sobre a nao.

A inverso que desembarcou com as Caravelas em cinco sculos mudou de nome e de nuanas, mas prossegue sob variado disfarce.

O estado escancha sobre a nao, sufoca-a; dela servindo-se, quando servir o seu fundamento.

No tempo em que a liberdade entre ns foi proscrita, o choro do embate, do revs, o da luta mesmo em desvario, era percebido, transpunha o manto do silncio.

Hoje, quando falar livre, no h quem nos oua.

O estado fixa-se, rearruma-se novamente acima da nao, incontrastvel, confirmando o dito do Imprio de que nada mais se assemelha a um conservador do que um liberal no governo.



Mas, do Dirio de Judith Malina que devemos nos ocupar aqui. Voltemos a ele.

Era jovem reprter. Tinha 20 anos. Havia acabado de chegar da natal Montes Claros, j com cinco anos de reportagem. Era grande a fila de estudantes de jornalismo para serem contratados. Fui encaminhado cobertura policial em tempo recorde.

Ningum menos do que o genial escritor Wander Piroli era o nosso editor. O mais premiado entre os reprteres de Minas de todos os tempos sentava-se ao lado, ensinava, com o eterno cigarro fumegando nos lbios. Chamava-se Fialho Pacheco.

A Editoria de Polcia, historicamente destinada a ser a mais acocorada do jornal, pela genialidade do seu editor, pela inquietao dos seus liderados, invertia as posies, a ponto de atrair a ateno e certo pasmo das demais.

Foi ao anoitecer que chegou a notcia.

Os membros do Living Theatre haviam sido presos em Ouro Preto. ngelo Oswaldo, hoje curiosamente prefeito da outrora Vila Rica, era colega da Editoria Poltica e veio pressuroso lembro-me bem advertir de que aquela priso transpunha o ambiente policial.

Julien Beck e sua mulher Judith Malina e toda a troupe internacional reconhecida como o grupo de teatro de vanguarda mais importante do planeta acabavam de ser presos.

Vagas acusaes.

Eram cabeludos e mal-cheirosos; no gostavam de banhos. Seriam depravados, usariam drogas, mas nenhuma foi encontrada com eles, jovens artistas de variadas nacionalidades que depois de soltos, nos anos seguintes, ascenderiam ao topo da carreira em seus pases de origem.

Presos e soltos em questo de horas, foram novamente trancafiados.

Uma intrigante, vistosa seta (de tinta branca, recente) no poro da residncia apontava para o cho. A polcia disse que cavucou e encontrou maconha. Proviso denunciada por uma seta atribuda aos que tinham o mximo interesse em ocult-la...


Foi o que bastou. Os teletipos espalharam a notcia pelo mundo, da priso de um grupo que, acusado de ser mal-cheiroso, depravado, dado ao uso de drogas, tinha o costume de ler os clssicos da poesia grega e compndios de poltica.

Subversivos! - acrescentou denncia.

O Dirio de Judith Malina que este livro reproduz e conserva para a histria, tal qual foi publicado pelo jornal, conta a bizarrice deste folhetim.

Hoje at capaz de fazer rir; naqueles dias, causou espanto, calafrios, medo.

O tom da escrita sereno, meigo, potico. Gentil at com os carcereiros, os acusadores.

(Sempre admiti que Judith, por razes bvias, deliberadamente baixou o teor da narrativa para que mais no pesassem a mo sobre eles. Hoje, observo que no. Falou nela o sentimento que chamamos de cristo, mas Judith, nascida na Alemanha, judia).

O contedo do humanismo de filosofia anarquista que fez do Living Theatre o grupo teatral de vanguarda mais importante do mundo, mesmo aps a morte do seu fundador, Julian Beck, em 1985, nos Estados Unidos.

O Dops "Delegacia de Ordem Poltica e Social" - era a priso poltica de Minas mais temida, assim com os crceres de Juiz de Fora, onde ficava o comando militar.

Reler os fragmentos do Dirio de Judith Malina, como acabo de fazer, restaura o desalento que impregnou um perodo da nossa histria, no to distante quanto desejaramos.

Mas tem o poder de despertar a recordao de uma mulher pequenina, afvel, e de seu Julien, amoroso casal, e da filha de 4 anos, que dos pais com um aceno entre grades despediu-se, levada pela av paterna para os Estados Unidos.

A incansvel censura, s vezes dissimulada em cordialidade de ocasio, no reagiu publicao e a abafou porque a repercusso foi imediatamente escorada pela imprensa internacional.

E como o Dirio foi publicado, como submergiu dos pores?

Nas dezenas de entrevistas com o casal, especialmente na companhia escorreita do reprter do Jornal do Brasil, Itamar de Oliveira, soubemos que Judith mantinha no crcere o hbito de escrever o seu Dirio, tomado aos 20 anos.

Solcita, amorosa, encantadora, falei-lhe reservadamente da possibilidade de publicar os relatos ltimos, e ela assentiu, com olhares receosos.

As bases para que o documento deixasse a enxovia pelas mos do seu agente literrio, que acabava de chegar dos Estados Unidos, foram definidas numa manh de folga, no Hotel Normandy, onde o norte-americano se hospedara.

As folhas em ingls eram-me passadas pelo editor, no hotel, e o jornal encomendou a traduo.

Em srie, dia aps dia, ocupavam pgina inteira, com chamadas de capa, tudo reproduzido pelo O Jornal, do Rio, lder da cadeia associada, ento majoritria no Brasil.

A publicao do Dirio a cada nova manh, debaixo do visvel desconforto da censura, assegurava o seu prosseguimento no dia seguinte.

O jornal, visto frequentemente como conservador, ousava; no recuou, no se intimidou, e demarcou uma posio da qual retroceder seria impensvel.

- Amor. Caminhvamos nas ruas como leprosos. Estou com medo. Tenha coragem. Eu te amo. Ns venceremos. Horror. Deus. Pobres. Vmitos. Pulgas. Escuro. Romeu e Julieta na priso. Beijos de Adeus. Preces. Anoitece. Teatro. Brasil. Mezuz. Amanhecer. Eu e Tu. Melancolia. Saudades. Brandura.

So palavras recorrentes deste depoimento que a histria recolhe e novamente agita.

Em julho e agosto de 1971 dezenas de vezes fomos a Ouro Preto, para as audincias do processo.

Os presos viajavam num velho nibus, com batedores de motocicletas frente e policiais distribudos pelo nibus, com ajuda de ces, entre eles o clebre Dlar, o mais temido.

Sempre atrs do comboio policial seguamos no fusca azul do jornal, acreditando ingenuamente que podamos de alguma sorte representar uma garantia para os prisioneiros. Gente cujo crime, a rigor, foi abandonar a glamorosa Europa para bailar e cantar nas ruas com os pobres de Ouro Preto.

Judith registrou:

Em procisso, viajamos por entre as magnficas montanhas. Espantados, depois de um ms de cadeia, pela amplido do cu, pela magnificncia da terra de Deus, da qual a mo do homem nos isola. Julien e eu trazamos trabalho (os livros), mas o que podamos fazer era apenas fitar sonhadoramente o mundo imenso, as montanhas ridas, a glria do cu claro com nuvens acima de ns, o sol tpido de inverno da beleza subtropical.

O juiz belicoso, o rumor crescente da repercusso internacional, o exacerbamento do regime sob o comando do general Garrastazu Mdici, tudo indicava que o processo se arrastaria, prolongando idas e vindas a uma Ouro Preto invernal, apinhada de estudantes.

Estudantes que ora aplaudiam a passagem do nibus com os cativos, ora os contemplavam em silncio to profundo que os parecia libertar com os olhos, ali onde a cabea de Tiradentes, erguida numa gaiola, foi prvia e sombria advertncia aos que ousaram desafiar o estado.

Aconteceu que a Europa se mobilizou vigorosamente em torno do Comit Europen de Dfense du Living Theatre.

De l partiam manifestaes exigindo do governo brasileiro a imediata libertao da troupe.

A veemncia da condenao sempre enfatizando que este l unedes compagnies thtrales ls plus clbres et ls plus importantes du monde embaraava a diplomacia do Brasil em todos os pases.

Pediam la libration immdiate de tous ls menbres de la troupe nomes conhecidos como os de Jean-Paul Sartre, Pierpaolo Pasolini, Alberto Moravia, Jean-Luc Godard, Jean Genet, Michel Foucault, Umberto Eco, Jlio Cortazar, Bernardo Bertolucci e centenas de outros intelectuais de reconhecimento internacional, freneticamente mobilizados.

Tornara-se insuportvel para o governo brasileiro manter o Living preso, por falta de banho, por serem sujos e mal-cheirosos, quem sabe viciosos e at subversivos .

Foi no meio da audincia, na tarde azulada e fria de uma Ouro Preto envolvida pelo Festival de Inverno, que o cochicho percorreu o salo do frum, lotado como sempre.

Advogados, meirinhos, acusadores e defensores, todos de cenho franzido se reuniram diante do juiz.

Trocaram palavras apressadas, que logo revelaram o acontecido.

Acossado e para se ver livre das crticas, o governo militar acabava de assinar o decreto de expulso do Brasil de todo o grupo.

O ambiente de agitao e temor subitamente se desfez.

O pano desceu sobre a cena burlesca, de gazetilha. Nem tristeza, nem alegria; nenhuma comemorao. Estupefao talvez.

Pelo entardecer, seguimos o nibus de volta pela ltima vez, em silncio.

Ao descer no Dops, j de noite, Julien Beck e Judith Malina nos abraaram, com lgrimas. Ela pouco conseguiu falar.

Julien, no dia seguinte, com solenidade que reservou para o que ia dizer, fixou as palavras e as pronunciou duas vezes:

- Esta uma casa de horrores !

- Es-ta uma ca-sa de hor-ro-res ! escandiu bem as palavras.



Foi seu adeus.



No dia posterior, j deslocado para outra cobertura pelo jornal, pois o grupo seria embarcado para o Rio e, de l, expulso e deportado do Brasil, soube por Itamar de Oliveira que perdi o que talvez tenha sido o momento mais alto da histria que juntos vivemos, aos 20 anos de muita esperana neste Pas do futuro.

Julien Beck e Judith haviam sido mantidos no temido prdio do Dops, na avenida Afonso Pena, por todo o tempo. As mulheres foram encaminhadas penitenciria feminina e os homens dispersos por mais de um xadrez.

Na noite em que deveriam partir, reunidos todos num mesmo lugar, eles fizeram um circulo no ptio da priso. Ao luar, debaixo de respeitosa, muda e reverente assistncia dos policiais, que espontaneamente se afastaram, ergueram uma cano.

A celebrao comeou com um murmrio, que se foi alteando, como um cntico tribal que a noite invadiu e ocupou longamente.


Despediam-se da priso, despediam-se do Brasil.

O Brasil que mereceu de Judith Malina a incontida declarao de amor que abre as primeiras linhas destes dolorosos recuerdos.



(Anos depois, de volta a M. Claros, em doce auto-desterro na prpria terra, soube que Julien Beck morreu. Judith Malina uma vez voltou ao Brasil. Mantm-se ativa nos Estados Unidos, com o mesmo grupo. Ao morrer Sartre por sua vez, jornais e revistas destacaram que foi na priso do Living Theatre, em 1971, que o filsofo pai do existencialismo mais se ocupou de uma questo ligada ao Brasil)



***



(* Paulo Narciso o reprter que retirou da priso o Dirio de Judith Malina, publicado pelo Estado de Minas. Neste mesmo ano de 1971, a Comisso Julgadora do Prmio Esso de Jornalismo abriu exceo no regulamento para conferir-lhe "Citao Especial". Deixou o jornal em 1976, depois de receber no ano anterior o Prmio Esso de Jornalismo, categoria regional. Atualmente, dirige duas emissoras de rdio em Montes Claros e o jornal eletrnico "montesclaros.com").


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Por Paulo Narciso - 18/8/2008 10:06:05

Mestre Hygino:
Nunca se conhece bastante a prpria cidade.
Na tarde deste domingo, o Reinado de Nossa Senhora, o Reinado de So Benedito e o Imprio do Divino despediam-se da velha cidade, quando seguindo o cortejo, eu mesmo catop, de araque - olhei para cima.

Vi a placa no segundo andar, que jamais havia visto.
E a fotografei.
E envio.

So recuerdos profundos,
que apenas uma procisso de Catops pode revelar, numa tarde de domingo, de despedidas.
Abraos, pn


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Por Paulo Narciso - 18/6/2008 10:25:14
Com pesar e sentimento, M. Claros conta os dias em que perder a presena, apenas fsica, de uma de suas grandes benfeitoras nos ltimos 29 anos. Depois deste tempo, de exerccio dirio da Caridade, palavra que melhor e encantadoramente define o Amor, deixa-nos a irm Irene, nome brasileiro de extraordinria alma belga, que se ausentou do seu pas na mocidade para dedicar-se integralmente Santa Casa de M. Claros. Assim como Irm Malvina (que at hoje no recebeu do poder pblico o reconhecimento solene de todos ns), assim como Irm Chantal, outra santa que a Blgica nos enviou, Irm Irene parte para o merecido reencontro da famlia e da Ptria, e para merecido descanso. Deixa-nos fisicamente, pois ficar na eterna lembrana, assim como eternamente nos levar, e nos ter, por laos que nenhuma fora capaz de romper. A viagem de volta est marcada para o dia 27.
Na Blgica, j encontrar Irm Chantal, muitas vezes santa nossa, e poder visitar no colgio-me de Beerlar a lpide que cobre as relquias de Irm Malvina, sucessora de Irm Beata, herdeira moral de Irm Canuta e de tantas outras belgas que cruzaram o oceano para se doarem ao Brasil, deixando aqui a mocidade e os mais belos exemplos, coisa hoje vasqueira.
Um detalhe talvez seja possvel mencionar agora, neste abrao que no ser o final: quando, na sua exultante mocidade, Irm Irene escolheu vir para o exerccio da Caridade no Brasil, a freira - assim como outras religiosas de diversos outros pases - encontrou dificuldades para obter a permisso de entrada no Brasil. O regime autoritrio vigente, nos seus dias mais tempestuosos, temia que com elas viessem lies de uma alta dignidade que costuma incomodar e fazer tremer os poderosos, todos os poderosos do momento, de ontem e de hoje. No foram poucas as expedies de humanismo despachadas para remover o veto, no pessoal, entrada das religiosas. A Irm afinal veio e escreveu entre ns uma silenciosa e belssima Pgina de Amor. Imorredoura - como se dizia. E que, como todo exerccio do Amor, pede modstia, silncio, humildade, abnegao - palavras em desuso. assim que agora parte, sem nada esperar, sem coisa alguma pretender, sem o mais mnimo requesto de sinais de reconhecimento. Renncia to prpria da vida humana dos santos, e dos que lhes seguem os caminhos de luz, como os casos aqui lembrados.
Montes Claros, ainda que tarde, uma dia compreender o que significou na sua vida, o que significa, a Misso que no princpio do sculo passado, nas pegadas do Padre Francisco Morreau, veio dar nas terras do Norte de Minas.
A cidade belga de Beerlar , por todos os ttulos, a irm mais irm de M. Claros. E muita dificilmente poderemos pagar em qualquer tempo as contas deste tesouro que a mais alta Caridade nos enviou.


35936
Por Paulo Narciso - 9/6/2008 15:45:56

No dia 1 de dezembro de 1968, Juscelino escreveu: Aos caros amigos, Arinha e Pedro, o meu abrao. E assinou Juscelino Kubitscheck de Oliveira.

Eram dias tumultuosos da vida poltica do Brasil. Exatos doze dias depois, em 13 de dezembro de 1968, atnito, o Brasil veria desabar o Ato Institucional n. 5, o tristemente famoso AI-5, que aprofundou a nveis inditos o jugo ditatorial do estado sobre a nao, e que vigoraria por cerca de 20 anos.

Foi uma rude pancada de primitivismo poltico, muito mais ampla e de repercusses mais duras do que o prprio 31 de maro de 1964.

Mas, esta outra histria, da qual o Brasil ouve e ouvir falar por centenrios.

Nesta mensagem, que desejo curta, procuro apenas fixar o dia em que Arinha e Pedro Veloso dois dos mais altos personagens da histria de M. Claros receberam na Fazenda das Quebradas que escrevo em letras maisculas receberam o presidente da Repblica mais popular do Brasil, j proscrito e perseguido.

Era sempre assim. As visitas mais altas, mais ilustres, sempre recolheram da Fazenda das Quebradas a expresso da cordialidade e do apreo de M. Claros. Era a sua sala de visita, a traduo mor de nossa lhaneza.

O abrao de JK l est na parede, emoldurado por um vidro, que o preserva. Abaixo, a sua foto.

Esta Fazenda das Quebradas o dodi de M. Claros, e pertence sua histria.

Pesquisem os livros e vero. A casa grande foi erguida h quase 150 anos, do outro lado da serraria que d nome a civilizao que surgiu do lado de c do sop dos montes claros.

(E de onde, lamentavelmente, nos dias de carnamontes possvel ouvir o barulho que no deixa a cidade dormir por duas noites, som desrespeitoso que vaza a muralha de pedra e incomoda tambm do outro lado, territrio de passarinhos).

Pois bem.

Esta casa que tambm recebeu JK, horas antes de desabar o AI-5 e sua corte arbitrria, esta casa que era o caminho da roa de Darcy Ribeiro nas suas vindas e nas cheganas de todos os altos nomes que nos honraram, esta casa est prostrada, golpeada, humilhada, desfalecida.

De sopeto, urdido na burocracia fria e insensvel dos gabinetes, um decreto definiu que o patrimnio das gentes de M. Claros, a partir daquela data, deveria transformar-se em patrimnio do estado mineiro, distante, como sede de um Parque Florestal chamado, creio, de Lapa Grande.

Ignoraram a histria. Ignoraram o passado (que no passou). Ignoraram os que l moram, tendo por smbolo Dona Arinha Veloso, esposa de Pedro Veloso, irm de Lucy, j falecidos. Ignoraram tudo.

De uma s pancada, como um AI-5 de brutalidade municipal, o poder golpeou uma lenda, uma divisa.

Se o Parque realmente se tornasse realidade, honrando e premiando o trabalho de quem escreveu aquela histria, recompensando a casa por trabalho centenrio de preservao e de amor, no haveria de que lamentar. No estaramos a prantear. Estaramos aqui de p, para aplaudir.

Mas, o que se viu, foi bem diferente.

O decreto para a desapropriao humilhante tornou toda a rea inerte, hibernando-a na ociosidade e na mandrice, que fazem o casaro histrico ruir sobre si, escombro de uma legenda.

De desgosto, dona Arinha nunca mais abriu as janelas do vetusto casaro.

Coisa impensvel - depois de quase um sculo, em silncio ela deixou o local. Com disposio de no voltar, para no aprofundar a dor j muito cava.
Mora agora fisicamente na cidade.

E apenas em pensamento cruza a montanha e visita o campo de muitas vidas, cercado de lendas e de histrias.

Seus netos no foram, at agora, por justo valor, indenizados pela propriedade que agoniza, silenciando ecos laboriosos que transpunham as penhas e traziam notcias venturosas para o lado de c desta civilizao que se construiu pelo trabalho e pela honradez.

O processo de desapropriao injusto, desgastante, arrasta-se tambm para os demais proprietrios, vizinhos.

Do outro lado da nossa municipal cordilheira agoniza parte da histria de M. Claros. De maneira perversa, arrogante, injusta.

Em nome da natureza no contemplada, vimos, golpeou-se a histria. Mais grave: em nome dela, mutilam-se pessoas que de todos s merecem aplausos.

No ser sobre injustias que se construir, para agora e para adiante, no futuro, um parque de onde as geraes que a esta sucederem recolhero belas histrias.

No se faz o futuro desta forma, esmagando o passado de muitas lutas. No, no podemos concordar.


(Nas fotos, JK e sua assinatura na parede nua; os escombros do casaro e o casal benemrito de Montes Claros, Arinha e Pedro Veloso, nos melhores dias das Quebradas)


30649
Por Paulo Narciso - 6/1/2008 22:31:57
Na internet, ao acaso, desembarco no texto que vai abaixo. No h assinatura. Tento a certeza de saber quem o autor, assim no escuro. Conheo duas pessoas inexcedveis na admirao pblica por Monzeca -, Hermegildo Chaves em Montes Claros, sua amada terra. (Ele se apresentava, Ea de Queirs: "sou um pobre homem das barrancas do rio Verde...)"

Como o autor abre citando Rubem Braga, o cronista capixaba est fora; no pode ser ele, talvez enciumado com o elogio ao Mestre que primeiro o seu mestre.

O texto ento s pode ser de Mauro Santayana, amigo e colega dos tempos do Estado de Minas, jornal de Monzeca.

Para a esmagadora maioria da populao de M. Claros, Monzeca , talvez ainda, a esquecida doce viela de duzentos metros, se tanto, que separa a igreja da Matriz da rua Gonalves Figueira, antiga rua do Ocidente, perto da outrora Escola Normal, depois Fafil. Doce lembrana, compatvel com sua modstia, e simplicidade..

Para este Mauro Santayana - pois desconfio que o texto seu, s pode ser - Monzeca "O Grande Mestre".Pequenino, porm.

O discpulo, no caso, sabei todos, o autor dos mais belos escritos que a imprensa do Brasil publica nos ltimos 40 anos. Entre eles, tambm o discurso em que Tancredo Neves, de quem foi redator, repete que "Liberdade o outro nome de Minas".

Sobre Monzeca, que por acaso veio nesta noite, por Mauro Santayana:



"O grande mestre

Se Rubem Braga ainda estivesse vivo, concordaria com o meu juzo, porque ambos fomos seus alunos, com mais de duas dcadas de intervalo. Era baixo e magro, usava discreto bigode, bem aparado. Quando o conheci, o cabelo era ainda negro, com destacadas manchas grisalhas. Amava a noite, mas no bebia, a no ser caf, sempre acompanhado de bolinho de feijo, esse acaraj mineiro sem recheio. Gostava de jogar cartas, perdia com regularidade e parcimnia. Chamava-se Hermenegildo Chaves e detestava o apelido de Monzeca, que lhe haviam dado. Era, naquele tempo, o melhor redator de Minas e um dos melhores do Brasil.

Como era comum nas antigas redaes, havia sido tipgrafo; aprendera a escrever com o tato, conhecia o peso dos fonemas. Isso explicava a magreza de seu texto, que dispensava o suprfluo, economizava advrbios e adjetivos, s admitidos quando convocados pela clareza. Era emotivo, o que o fazia inexcedvel nos necrolgios. Quando os polticos importantes se aproximavam do fim, Monzeca iniciava as notas sobre o futuro morto. Ia costurando o texto como se bordasse a mortalha, e retocava, dia-a-dia, os adornos, com os recursos da memria. Escrevia s a lpis, em aparas de papel de jornal, com a letra fina, bem desenhada, a pontuao esmerada, os pargrafos definidos.

Como emotivo, mudava muitas vezes de opinio, e explicava que todos ns erramos e podemos, eventualmente, fazer juzo equivocado sobre os outros. S recorria s idias para explicar os homens. Quando se agravou a crise de agosto de 1954, Monzeca revelou seu lado conservador, quase reacionrio, reclamando, com elegncia que faltava a Lacerda, a limpeza do Palcio do Catete. Estava de acordo com seu passado, quando, em 1930, se somara, em Minas, Concentrao Conservadora, contra a Aliana Liberal, e fora amigo ntimo de Mello Viana. Mas, com o suicdio de Vargas, mudou de posio, e definiu a situao como tragdia shakespeariana.

No se curvou aos dolos da poca que se mantinham contra Vargas, depois da morte do presidente. Quando Alceu Amoroso Lima publicou, no Dirio de Noticias, seu famoso rodap com o ttulo de Sangue e Lama, Hermenegildo Chaves foi custico, terminando por dedicar ao pensador brasileiro o juzo de Jean Cocteau sobre Franois Mauriac: nele tanto mais se afirmava o catlico quanto dele se distanciava o cristo.

Os jornalistas so seres efmeros, sobretudo quando sua carreira se passa, toda ela, na provncia. Mesmo em Belo Horizonte, os jovens jornalistas no sabem mais quem foi Monzeca, senhor de texto impecvel e de inexcedvel modstia. Sou grato ao destino por ter com ele convivido. Se no pude, como pde Rubem Braga ter sido bom aluno, pelo menos aprendi com ele o exerccio da dvida."


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Por Paulo Narciso - 23/12/2007 17:18:53
Est na praa um autntico presente de Natal. De surpresa, o Grupo de Seresta Lola Chaves (nome que homenageia a filha de Joo Chaves) lanou o CD Cu de Montes Claros. Gravado aqui mesmo, uma coleo ecltica de msicas que foram apanhadas no fundo do ba da memria desta nossa civilizao. Emociona no CD a preciosidade das melodias buscadas numa Montes Claros lrica, pequenina, toscamente bela, bela e crente, de joelhos nos ofcios religiosos de outros dias, de outros tempos. So, entre outras, msicas de coroao, que jamais devem ser esquecidas, e h pelo menos uma grata revelao: a belssima voz de Lgia de Figueiredo Chaves e Oliveira, ningum menos que Tia Lgia, irm de Lola, tambm filha de Joo Chaves. Alm de encantar com uma voz absolutamente diferenciada de todas as demais, rara no timbre e pungente na interpretao, Ligia Chaves vem com composio prpria, letra e msica, em homenagem a Nossa Senhora de Guadalupe, um hino para cortar a respirao e fazer bonito em qualquer parte, ainda mais que criado e cantado pela filha do Grande Bardo, nascido em Montes Claros e consagrado pelo Brasil. H msicas quase inditas de Joo Chaves e seus irmos Hermegildo (Monzeca) e Joaquina Chaves. Esto l as clebres Vimos em Nome do Dia, da Noite, dos Passarinhos, Maio Veio e Adeus Maio, todas da famlia Chaves, criao de interpretao, que toda criana de ou em M. Claros - de antes, de agora, de depois e de sempre, ter de saber na ponta da lngua. Avanam na seleo o Vinde Cristos na voz tambm rara de Olga Santos, e msicas das pastorinhas e outras de Natal. um concerto belssimo, artesanal que seja, que situa a Montes Claros genuna num dos momentos em que delibera ressurgir para acordar a cidade que vige em seu lugar. Panis Angelicus encerra como 17 msica, introduzindo esta seleo entre as relquias que M. Claros guarda de sua mais autntica cultura. Nunca mudassem nunca estes caminhos repete a msica de coroao de Monzeca. Nunca mudassem nunca estes caminhos repetimos todos, neste Natal. admirvel ver que a Montes Claros profunda sempre capaz de varar a espessa camada que cobre os seus dias de agora para vir dizer que a tudo suporta e resiste com imaculada e doce poesia. o recado silencioso de que sobreviveu, e de que sobreviver a todo transe.


30088
Por Paulo Narciso - 7/12/2007 23:12:46

A msica mais que centenria de M. Claros levantou uma emocionada Curitiba, ainda h pouco, na apresentao de Natal no Castelo Encantado. a cantata de fim de ano no edifcio tricentenrio do extinto Banco Bamerindus, espetculo que todos os anos faz suspirar o Brasil. Centenas de crianas, entre elas rfos absolutos, outras rfos de pais vivos, entoaram msicas de Natal, por janelas que se abrem na venervel manso dos sonhos. No meio, inesperadamente, eis que surgiu, em ritmo natalino, o Deus Te Salve Casa Santa, a msica que os catops se ajoelham para cantar, de cabea baixa, j h quase duzentos anos, na humlima igrejinha do Rosrio. O pblico devolveu com palmas, demoradas. J havia aplaudido com igual fervor o Noite Feliz, Carinhoso de Pixinguinha, Panis Angelicus e, entre outras mais, a marcha Esto Voltando as Flores.

(Tambm adaptada para o carnaval, a msica de Paulinho Soledade irrompeu pelas janelas iluminadas do Palcio da Avenida, a construo mais cultuada da capital paranaense. Por dcadas, transferiu-se de boca a boca a lenda de que o autor, doente de tuberculose e j desenganado, no estertor dos ltimos dias, recebeu uma dose de penicilina, potente remdio que acabava de ser descoberto. Melhorou milagrosamente, fez a msica V, esto passando as nuvens V, esto voltando as flores V, h esperana ainda , com letra que explicaria sua sbita melhora, para morrer em seguida. Na verdade, a romntica histria no passaria de estria, bem adaptada para a emoo da letra e da melodia, pois que o autor Paulinho viveu at depois dos 80 anos e morreu de exausto natural da vida, no Rio de Janeiro. Foi um romntico piloto brasileiro, pioneiro da aviao, que migrou para os Estados Unidos e voou pela Fora Area de l. J depois dos 50 anos, retornou ao Brasil para compor novas msicas. Entre elas, se no me engano, o Pequenino Gro de Areia, que era um eterno sonhador).

Para ns, desta musical M. Claros, fica o engasgo de ouvir bem longe o Clix Bento pela boca das crianas cantoras que todos os anos suspendem a respirao do Brasil, pelo Natal. O arrebatado gesto de f, recolhido na tradio dos catops de M. Claros, provavelmente ser mostrado pelas redes de TV.

O certo que nesta noite a esperana cantou pela boca das crianas de Curitiba, em apresentao inesquecvel, quando tambm os fogos de artifcio iluminaram a mais civilizada das capitais do Brasil, bela, moderna, mas sabiamente de hbitos encantadoramente provincianos, certamente mais desenvolvida do que acometida de certo duvidoso progresso que golpeia a vida, antes de conserv-la e protege-la (como a ainda recente mutilao da avenida coronel Prates). M. Claros, l estava. Por sua msica, que sempre foi, e vai, na frente, abrindo os caminhos. (Lembrai-vos do "caminheiro, no h caminho, o caminho caminhar.) Memorvel noite de gala em plena Boca Maldita, celebrizada por Dalton Trevisan, o eterno "vampiro de Curitiba"


29458
Por Paulo Narciso - 8/11/2007 12:56:45

A histria da imprensa mineira como toda histria contempornea construda de milhares de fotos clebres, cada qual insubstituvel no que atesta.
H uma foto de 1944, esta a de cima em branco e preto, que fixou no tempo a presena em Belo Horizonte do escritor Mrio de Andrade, pai do modernismo. A visita, j foi dito aqui, resultou no no menos clebre poema A Visita, de Carlos Drummond de Andrade. Ao redor de Mrio, de sua Paulicia Desvairada, posaram alguns dos melhores nomes daquela gerao brilhante.
Da esquerda para a direita, o cinegrafista Alcyr Costa, o crtico literrio Roberto Frank, o jornalista Oswaldo Alves Antunes (de Braslia de Minas, a antiga Contendas), o psicanalista Hlio Pellegrino, o poeta Alphonsus de Guimares Filho (naturalmente filho do maior poeta simbolista do Brasil), o escritor e acadmico Otto Lara Resende, Alexandre Drummond e o jornalista Jos Mendona; sentados, o memorialista Edgar da Matta Machado (um dos maiores nomes do humanismo mineiro), Oscar Mendes Guimares, o escritor Joo Etienne Filho (do romance Encontro Marcado) e Milton Amado, autor da melhor traduo que se conhece em lngua ptria do no menos clebre Dom Quixote de La Mancha, de Cervantes.

Pois bem. Dois dos cones dessa gerao incomum da imprensa mineira reencontraram-se ontem em Montes Claros. Oswaldo Antunes, que lanou no Automvel Clube o livro A Tempo, recebeu a visita do seu colega de redao do antigo O Dirio (tambm chamado de Dirio Catlico), Jos Mendona. Lpido, feliz, memria privilegiada, alerta como nunca, Mendona obrigatria referncia do jornalismo nacional, onde atuou em todas as reas, desde a fundao da mais antiga escola de jornalismo de Minas at a direo das mais importantes sucursais dos grande jornais nacionais em BH.
Com brilho e espantosa memria, Mendona ainda ontem ensinou a montesclarenses da gema mincias de fatos acontecidos em Montes Claros. Foi tambm colega do cirurgio e artista plstico Konstantin Cristoff nos preparatrios em BH, e ontem estiverem, sem saber, reunidos no mesmo teto, sem que um desconfiasse da presena do outro. No se encontram h mais de 60 anos, desde a mocidade, e por pouco no se abraaram. Konstantin, ignorando a presena do amigo, saiu pouco antes. Hoje, provavelmente se abraaro.
Oswaldo Antunes revelou que aquele colega, depois amigo e compadre Mendona to saudvel e rijo como o escritor que lanou o livro foi quem revisou seu primeiro trabalho em jornal. (No precisa traduzir que o mestre festejado de uma gerao de jornalistas, emocionado, apresentava por sua vez o prprio mestre, de nenhuma forma menos conservado do que ele, do alto dos 83 anos).
O lanamento do livro A Tempo reacordou por instantes a M. Claros profunda, submergida na atual, inchada e ferida, como a recordar-lhe que pode sim voltar, e voltar-se sobre si, com cuidado e delicadeza, como algum que revisita, mediante senha, sagrado lugar de luzes.
Jos Mendona surpreendeu-se ao ser informado de que dali, daquele local onde centenas de pessoas colhiam o autgrafo do autor da noite, partiram os tiros inaugurais da Revoluo de 30, que levou Getlio Vargas ao poder. O historiador Hlio Silva no vacila em registrar que a Revoluo de Outubro de 1930 teve o seu primeiro tiro em M. Claros, disparado exatamente do casaro de Joo Alves, demolido para nascer o Automvel Clube. O episdio, sangrento, passou historia do Brasil como o 6 de Fevereiro, assim como o 11 de Setembro de 2001 em escala mundial.
Estas e outras histrias ontem passearam pelo Automvel Clube no lanamento de A Tempo, livro para cuja passagem j se abrem alas. E reverncias.


29414
Por Paulo Narciso - 6/11/2007 19:03:55

Montes Claros tem um encontro com a sua histria amanh, quarta-feira, dia 7 de novembro, s 20 horas, no Automvel Clube. O jornalista Oswaldo Antunes autografar o livro de memrias "A Tempo". Ao lado de Waldyr Senna Batista, dr. Oswaldo - como o chamamos com carinho - o decano e pai da moderna imprensa de M. Claros. Entre outras revelaes agora definitivamente lanadas consulta permanente da histria, est o relato de como encontrou, morto, minutos depois, o ex-prefeito Toninho Rebello, o maior prefeito de todos os tempos de M. Claros.

Eis o relato daquele 10 de novembro de 1992:

Dos amigos, o primeiro a chegar casa naquele dia foi o Diretor de O Jornal de Montes Claros, que viu Toninho como que dormindo, semblante sereno, a cabea apoiada no colo da filha Cristina, ela acariciando-o e chorando, as lgrimas a carem sobre seu ventre expandido onde pulsava uma vida nova. Era vida menina, prestes a sair da Plenitude para o mundo, enquanto o av se acabava no mundo fortuito e na Plenitude imergia. A cena revela mais esperana e futuridade do que tristeza e passamento. O homem pblico, pai, av, amigo no se fora completamente: a vida e seu brilho pareciam ter ficado onde estava o corpo quieto, e, como l fora a radiao da branca e diurna lua cheia, acariciavam a famlia despercebidamente, consolavam amigos, vigiavam a cidade amada. Seus cuidados pareciam flutuar no vento, como a resposta meldica na cano dos Beatles, farfalhando os galhos floridos da accia amarela que fora plantada pelo morto.

A cena que Dr. Oswaldo fixa, do momento em que Toninho transpe em mais de um sentido os limites desta vida, a suavidade do quadro, sua altivez humlima que arrasta e comove, provocam-me a necessidade de tambm mencionar o que talvez tenha sido a ultima conversa de Toninho fora do ambiente familiar no princpio da tarde em que, sem aviso, partiu.

Por volta do meio-dia daqueles 10 de novembro, finalizado o expediente da manh na Rdio Montes Claros 98 FM, vi-me paralisado diante do telefone. Um impulso, incomum, mandou-me que ligasse. Para quem ? perguntei-me, incomodado pela necessidade rara. Empunhei o telefone como que cumprindo uma ordem e liguei para.... Toninho, o que no era habitual.

(Jamais lhe incomodei nos tempos repetidos em que foi prefeito e eu jovem reprter, e publicamente confesso que sempre acerquei-me mais do cidado Toninho, fora e longe do poder, embora minha admirao pelo prefeito s faa crescer. Quando passou a ser alvo de perseguies as mais abjetas, que lhe pretendiam alcanar tambm a famlia, a ele me juntei instantaneamente, com que imantado ao que lhe poderia acontecer, e deste tempo tambm guardo recordaes do seu exemplo, e sempre o mais alto).

Toninho estava timo naquele comeo de tarde. Havia acabado de chegar do Parque de Exposies, e pelo telefone novamente o revi, manso, prudente, modesto, limpo no corpo e na alma, como sempre metido em camisa alva e bem passada por sobre a cala, como se ao alcance da mo existisse permanentemente um estoque de camisas, limpas como ele, sbrias como sempre foi.

Na conversa, de vinte minutos, mencionamos aspectos da vida da cidade, lanamos um olhar sobre o cotidiano e nos despedimos com afeto, nos prometendo novas conversas mais amides. Desci para o almoo com minha me, quando o telefone imediatamente tocou ao chegar.

Era o prefeito Mrio Ribeiro. Ele avisou que ia me dar uma notcia dura, e recomendou que me assentasse. Toninho Rebello acaba de morrer.
Contraditei imediatamente, com veemncia,dizendo que havia falado com ele quinze minutos antes, que era impossvel, que era engano, que no podia ser - relutei o mais que pude. Mrio Ribeiro no deixou dvidas, categrico, mas no convincente. Larguei do telefone, tomei o carro, corri para a casa de Toninho.

Ao entrar na reservada rua que desemboca na sua casa, onde menino estudei com o seu filho Jacinto nas amoreiras que l existiam, derramadas sobre o muro, ao entrar na rua o movimento na porta da casa fez-me convencer daquilo que no fora capaz o telefonema de Mrio Ribeiro. Estava mesmo morto, e apenas fisicamente, o maior prefeito da histria de M. Claros, paradigma do homem pblico que imaginei e conheci na vida, em profundo desacordo com o que viria depois e prossegue at hoje.

No rastro da emoo que o depoimento de Oswaldo Antunes desperta, contemplo seguidamente a cena de Toninho morto no colo da filha, que silenciosamente chora. Morto, parece ainda maior do que vivo, repete a lio do professor Pedro Santana, tambm saudade nossa. Eternas lembranas, s quais, preciso recorrer, e meditar.


29353
Por Paulo Narciso - 2/11/2007 19:40:45
Agora que Jos Aparecido de Oliveira morto, e a saudade cicia, bom saber um pouco mais sobre ele, Aparecido. Aqui vai um depoimento do maior analista poltico da histria recente do Brasil, Carlos Castelo Branco, o Castelinho, sobre este intrigante personagem que nos deixou h apenas duas semanas. O trecho abaixo extrado da entrevista que Castelinho deu a Adriana Zarvos, no muito distante de sua morte. Os dois - Castelinho e Z -tornaram-se amigos; um, o maior cronista poltico do Brasil; o outro, descrito pelo primeiro como o mais brilhante articulador poltico de sua gerao. Brilhantes, os dois, como craques de uma mesma e genial seleo:
Como comeou sua amizade com o Jos Aparecido?
O Z chegou no Rio em 1958 ou 59. Magalhes Pinto era Deputado, e ele era secretrio poltico do Magalhes. Na poca ele estava trabalhando Magalhes para presidente da UDN nacional e, evidentemente, Governador de Minas. Quando o Z chegou ao Rio, comeou a fazer uma grande movimentao poltica, para aproximar os jornalistas do Magalhes Pinto. O Magalhes era Deputado h 15 anos, mas no tinha importncia, s tinha como banqueiro. Quem deu importncia ao Magalhes foi o Z Aparecido, abrindo os canais com os jornais. Antigamente procurava-se o Magalhes pra se pedir dinheiro emprestado, s depois para pedir notcias. Eu conheci o Magalhes indo ao banco fazer um papagaio [emprstimo] l.
Mas vocs eram pessoas completamente diferentes, no?
O Z Aparecido era um homem muito competente politicamente, muito habilidoso, e o Magalhes era um homem tambm sagaz e inteligente, mas no tinha traquejo. A o Z pegou o Magalhes e deu um impulso a ele. Ento, fiquei conhecendo o Z Aparecido, sendo seduzido e muito envolvido por ele. Eu j estava por volta dos 40 anos, e estava sem f na imprensa e sem projeto de vida.
Bom, voltando ao Jos Aparecido...
Quando o Jnio Quadros foi eleito, o Jos Aparecido foi para a festa de posse, como convidado, e entrou na fila de cumprimentos ao Jnio. Quando o Jnio viu o Z, perguntou: "O que voc faz a?" "Vim cumpriment-lo." "No, senhor, seu lugar aqui do meu lado, como meu secretrio particular". Depois ele disse: "Amanh s sete horas no Palcio". No dia seguinte, o Z disse a ele que, para ficar, precisaria ao menos um Secretrio de Imprensa. Eu no estava interessado em ser, no queria. Estava aqui para fazer a cobertura da posse do Jnio para O Cruzeiro. Mas o Z Aparecido estava obstinado, o Jnio me chamou no Palcio e me convidou. Eu disse: "Olha, Presidente, eu no tenho nenhuma razo para vir trabalhar com o senhor, no sou poltico, estou com minha vida organizada no Rio, sou jornalista, trabalho no O Cruzeiro e no Dirio Carioca, minha mulher juza l no Rio, no tenho nem como vir pra c". Enquanto eu estava falando, ele tinha pedido uma ligao interurbana para o Rio, a foi atender o telefone, era Leo Godim, Diretor do O Cruzeiro. "Leo, eu quero que voc me empreste o Castello por seis meses, so s seis meses" A eu estava perdido, n? Ele disse: "O assunto est resolvido". Eu sa dali e fui conversar com o Quintanilha. "Fui compelido pela minha empresa a vir trabalhar aqui, emprestado, somente por seis meses. Mas no chego aqui s seis e meia da manh, no h hiptese, no acordo antes das nove em lugar nenhum, no chamo ningum de senhor nem de Vossa Excelncia e no peo a ningum licena pra fumar". Ele respondeu: " Castello isso pros outros, no pra ns no". Fui desarmado! Comecei a trabalhar. Ia ao Rio nos fins de semana, e segunda-feira de manh estava de volta.


27158
Por Paulo Narciso - 20/8/2007 17:26:02

Lembranas dos Catops de 2007.
O comeo pela msica de dona Dulce Sarmento. Os Ips Amarelos avisam que os Catops vo chegar. E roxos ficam j de saudades do Catop.

Lembro-me que mestre Expedito, do nico terno de So Benedito, o mais humilde, por isto mesmo o primeiro entre todos, desfaleceu duas vezes. Uma dentro da igrejinha do Rosrio; a outra, a caminho dela. Mestre Joaquim Pol, da Caboclada, o socorreu com o Buscopan que trazia para aliviar a dor do mal, tenaz, que o persegue, e do qual ser operado em breves dias (se receber a devida e merecida assistncia). Metade dos Caboclinhos ou de filhos, ou de netos, ou de parentes de Joaquim Pol, inclusive o menino que a "Cacicona", extraordinariamente simptico. Pol, mestre tambm de Pastorinhas e das Folias, no Natal. preciso segur-lo com fora, todos. Se partir, Montes Claros ficar dolorosamente mais pobre. (Ainda assim, d o Buscopan da sua dor para o Catop desfalecido pela dor menor).

Lembro-me da ltima apresentao, sbado, dos Marujos, agora chefiados pelo patro Tim, substituto do pai Nenzinho. J entraram na igreja chorando. Lgrimas s, sem rumor de escndalo. Quem chorou mais foi o filho de Tim, menino de oito ou nove anos, que no futuro substituir o pai, que substituiu o av, que substituiu o bisav... sempre assim, h quase duzentos anos. Na roupa do menino, estampados, a foto e um nome VOV!

Lembro-me que perdi a imperdvel cena dos Marujos cantando no cemitrio, ao sol do meio-dia. Na sepultura do mestre, que partiu h pouco.

Lembro-me de que, pelos caminhos, havia pessoas chorando; copiosamente, vendo passar um filme.

Lembro-me da me e do filho da me. Eram trs. O pai de Conceio do Serro, hoje Conceio do Mato Dentro, terra de Z aparecido conheceu a me na Bahia e, j os trs, vieram morar em Montes Claros. Na identidade, consta que ele, o filho, tem 54 anos, meu colega. Na vida real, mente de apenas quatro. A me o governa, plena. Vivem apenas os dois. Sair uma vez por ano com os Catops o sumo glorioso de suas vidas. A me diz levanta, e ele levanta; a me diz ajoelha ele ajoelha. A me est suficientemente velha e o veterano Catop, noutro mundo vivendo, sequer cogita do que ser dele o dia em que no puder dela ouvir as ordens, de rara doura e absurda cumplicidade. Moram no Renascena. Comove a histria dos trs, hoje dois, e o nico destino de Ser Catop. Eternamente Catop.

Lembro-me que o pombo Roy anunciou, urbi et orbi, que beberia no sbado pelo amigo que sem aviso partiu. Bebeu. Bebi com ele

Lembro-me, e como me lembrarei, de que os marujos estreitaram o Catop que a vaca fez despencar do viaduto. Cantaram, cantaram, cantaram -, e todos os outros os seguiram. Uns limpando as lgrimas dos outros. Em silncio de reclamao nenhuma. O catop "Senhor" paralisado nas mos e nas pernas sacudindo os braos para acompanhar a msica.

Lembro-me que a praa Dr. Joo Alves, a do tiroteio de dona Tiburtina, pgina da histria do Brasil, manchete de O Globo, do Rio, por 30 dias corridos, a praa estava repleta, apinhada, na manh de quinta, sexta e sbado. Todos falando com os catops. Tirando fotos l deles, abraando, rindo, infinita admirao e camaradagem. Montes Claros profunda, acordada. Reacordada.

Lembro-me dos Catops a caminho, acendendo fogo com velhos papis da estrada, para afinar o som. No caso, o som do despojado tambor, que chamam de tamborim, de caixa, de instrumento. Diminuto no tamanho, infinito para abrir a caixa de lembranas.

Lembro-me que, este ano, ningum superou a caboclada em beleza, no trinado tambm. Querem matar Joaquim Plo, de saudade quem sabe. Cantaram uma msica em que falam de um pica-pau, bateram as mos assim, olharam com a ponta dos olhos, riram da mame-vov bonita, de olhos verdes como os de Manoel Quatrocentos, professora de contar histria para os meninos, nascida na Lontra. Ficaram de cantar a Trana do Cip e, se cantaram, l eu no estava. Ouvi, assim mesmo.

Lembro-me, sem compreender, que todos partem quando os Catops, Marujos e Caboclinhos entram no ritual prprio deles. Se soubessem, no partiriam. Os tambores estrondam, e ainda assim soluam, quando o mestre Joo Faria e seu irmo Tono, no meio do cerimonial, ordenam que se ajoelhem todos. De cabea baixa, as penas de pavo fazendo 90 graus com o cho, eles repetem, de joelhos: Deus te Salve Casa Santa, onde Deus fez a Morada, onde mora o Clice Bento e a Hstia Consagrada. difcil agentar. Um filme surge na cabea de todos, particular. Momento solene. O mais alto.

(Muito poucos sabem o que significa. Quando quiseram enfim conhecer a alma infinita da festa, aguardem este momento. raro, contundente. Para os iniciados, apenas).

Lembro-me do Catopezinho, de chupeta.

Lembro-me da Carmelita Descala, de grande rigor na roupa, nela rebuada severamente, por completo, acompanhando os Catops, fugindo das fotos. De si, expunha apenas os olhos, mas os olhos revelavam o puro encanto de quem escapou da clausura e das laudes apenas para ver os Catops. No me atrevi, nada perguntei. Seus olhos falavam, tanto quanto a vontade de nada falar. Que venha, todos os anos. Esperaremos.

Lembro-me de Rubinho, cansado das meias-luas, doido para asilar-se no primeiro boteco. E de Ucho, explodindo de alegria e de calor, no frio, ensinando ao filho aquilo que os Catops autnticos ensinam aos seus, mas que tambm podemos aprender. Todos podem.

Lembro-me do carroceiro Tono. Aquele que, todo dia, com o suor da jornada, compra comida para a famlia e milho para o burro. Quando o ganhame escasseia, compra apenas o milho para o burro, de quem depende o sustento de todos. E todos compreendem porque o burro come, e eles no.

Lembro-me de Zanza, mestre geral, operado h oito dias. Ps mola no corao e foi chefiar sua festa.

Lembro-me de Zez Colares chegando igrejinha, ela que levou a toada dos Catops ao mundo inteiro, mundo que de p bateu palmas para os Catops.

De tudo me lembro.

Eu me lembrarei de tudo, eternamente, pois M. Claros volta no escasso espao de quatro dias quando retornam os Catops. Oua-os, cantar ao corao.

(O estoque suficiente para esperar a prxima florada, o rebroto dos Catops. Entre o Ip Amarelo e o Ip Roxo. O que chama, e o que deles se despede. Amm.)

***
Nas fotos, mestre Joaquim Pol - mesmo enfermo - ensina a caboclada a empunhar a Bandeira.


27068
Por Paulo Narciso - 16/8/2007 17:36:00

O mastro de ontem noite, de Nossa Senhora do Rosrio, e o desfile, na manh de hoje, do Reinado, confirmaram que as Festas de Agosto de Montes Claros, realizadas comprovadamente desde 1846, apresentam este ano um vio jamais visto, um degrau acima.

Todavia, muito provavelmente ficou para a parte menos visvel da festa, ou menos acompanhada, o lance de maior emoo.

Quem viu o desfile chegar praa Dr. Carlos, por volta das 11h de hoje, talvez no tenha percebido um homem de cabelos brancos encaracolados, com cerca de 60 anos, avanar determinado e arrebatar a bandeira dos caboclinhos, que este ano, mais do que em qualquer outro, apresentam-se de maneira esmerada.

O Homem chama-se Joaquim Pol, pedreiro de profisso.

H cerca de 40 dias, um rude diagnstico mdico apontou-lhe severa doena, para a qual ser operado nos prximos dias.

A notcia, somada enfermidade progressiva, tomou-lhe de imediato 12 quilos do corpo j franzino e longamente esgotado no trabalho.

Ele temeu pelo grupo de caboclinhos, sob seu comando h anos, o nico da cidade, e peregrinou por mdicos e hospitais, mas refez-se h trs dias para no deixar de comparecer festa chefiando os caboclinhos, meninos e meninas, e suas vozes de anjo.

Ontem noite, sob a ao de remdios para a dor, ele acompanhou o mastro de Nossa Senhora, da sede dos Catops, nos Morrinhos, at a igreja do Rosrio.

Sem abater-se e sem se cansar. Infatigvel, corrigindo, ensinando, o violino puxado ao peito analfabeto. Magro no corpo, ignorou a enfermidade e cumpriu a programao.

Hoje cedo, amanheceu ligeiro e renovado para o compromisso seguinte. Deixou a praa do Automvel Clube com a mesma disposio.

Pela tradio, marujos e caboclinhos, no desfile, deixam as evolues e o ritmo dos tambores quase sempre por conta dos trs ternos de Catops, que evoluem, cantam e cantam, chamando o povo aos exerccios de f.

Marujos, manda a tradio, vo em silncio, em fila indiana, com seus belos trajes. Caboclinhos assuntam, cheios de respeitoso olhar.

Quando entraram na antiga praa Dr. Carlos, na parte final do desfile, uma fora arrebatou Joaquim Pol.

Ele gesticulava, ensinando a evoluo aos porta-bandeiras, mas decidiu, num mpeto, assumir o posto e evolucionar, ele mesmo.

Os que sabem do seu delicado estado de sade, que ele no esconde de ningum, entreolharam-se diante da reserva de foras que conseguiu ajuntar e exibir, num bailado prprio que h tempos no fazia, nem era visto por ningum.

Foi a primeira grande emoo. O mistrio.

A seguinte, viria j dentro da igreja do Rosrio, quando os aplausos do caminho haviam cessado, quando Catops, Marujos e Caboclinhos danam quase sempre s para eles Catops, Marujos e Caboclinhos e para a sua ilimitada f.

O pblico mais grosso havia se retirado. Ficaram os de sempre.

Numa cadeira de rodas chegou o carpinteiro "Senhor", mestre de telhados e de catops.

Est privado do movimento dos ps e das mos, desde que, trabalhando na roa, despencou-se de um viaduto sobre a via frrea, fugindo do ataque de uma vaca.

Entrou chorando, silenciosamente, pela segunda vez nos ltimos anos.

Foi envolvido por todos, que o abraavam, e alguns com ele choraram.

Terminada a missa do padre-catop, Joo Batista Lopes, os marujos, chamados por sua vez ao rito particular, foram em busca do catop na cadeira de rodas, e a colocaram na frente do altar, diante de todos.

Ento, o novato mestre de marujos Tim, que assumiu no lugar do pai Nenzinho, morto h dias, tendo ao lado o seu filho menino, aprendiz do ofcio, discpulo dele, do av e do bisav, mestre Tim ordenou que comeasse a cantoria, na sua estria como mestre titular, por sucesso.

Os marujos obedeceram cerimoniosamente, e cantaram: - "L no cu tem um castelo, l no cu tem um castelo, quem fez foi o Rei da Glria..."

Senhor Catop, que j chorava, ainda tentou disciplinar a emoo.

Intil.

Um marujo, depois outro, todos o envolveram na msica, e cantaram, cantaram, enquanto o mestre, com o filho ao lado, na melhor tradio discipular, enxugava as lgrimas do catop.

Quem viu, viu tambm que naquele instante as paredes da pequenina igreja se desfizeram diante do gesto demorado, longo, cerimonioso, como se mesmo fosse uma embarcao navegando a cu aberto, marujos no convs cuidando do catop ferido.

(O ritual, improvisado, foi repetido por todos os demais ternos, at que o ltimo deixou a igreja do Rosrio, hoje por volta das 13h30m. Acontecido em M. Claros, nas Festas de Agosto, em 16 de agosto de 2007).


26099
Por Paulo Narciso - 5/7/2007 15:20:51
O Padre Henrique Muniz, espanhol da Galcia, regio que faz fronteira com Portugal, um dos mais queridos moradores de M. Claros.

Jesuta, ele est aqui h cerca de 40 anos, povoando nossas ruas com sua invarivel rota batina preta, trao visvel de sua modstia e de sua humildade.

um santo, dizem muitos, tratamento que recusa prontamente com uma sonora gargalhada.

Agora, nas comemoraes dos 150 anos da cidade de M. Claros, a escolha de seu nome para receber a medalha Civitas foi recebida debaixo de aplausos unnimes.

No h, nesta cidade, quem no se levante para aplaudir padre Henrique.

Humlimo, a ponto de distribuir tudo o que ganha - desde batina nova at carros, e o que mais vier, padre Henrique foi receber a medalha.

Estava "escoltado" por duas simpticas irms que vieram da natal Pontevedra, cidade da Espanha onde a famlia est localizada desde sempre; vieram especialmente para tambm aplaudir o irmo.

(Alguns dizem que a famlia descende de ramos da nobreza espanhola, o que o padre nunca confirma, esquivo que para assuntos de honra e honrarias prprias).

As duas irms, to afveis quanto o segundo irmo, demonstraram alegria com o merecido reconhecimento prestado ao padre.

Que, perguntado como anda, invariavelmente responde - "cada dia melhor".

A algum que disse a uma das irms para cuidarem bem de padre Henrique, ela retrucou com enorme preciso: "e ele se deixa cuidar?".

verdade.

Padre Henrique Muniz sempre cuidou muito dos outros, de todo mundo que lhe bata porta, a qualquer hora.

" Jesus quem bate", ele ensina.

Cuida de todos, menos, e pouco, de si mesmo.

Assim, natural que os caminhos se abram e as borboletas do caminho se levantam sua passagem, como se v.


25652
Por Paulo Narciso - 24/6/2007 20:27:23

Gerberas. Nas cores amarela e laranja, em ramagens de tangos. E alecrim.

(Gerbera, prima das margaridas, irm dos girassis.

Alecrim, que entre ns veda o mau olhado, e que para os mediterrneos, de onde veio, o smbolo mximo do amor - a "ros marinus", a "rosa do mar".

- Alecrim, alecrim dourado/ que nasceu no campo/ sem ser semeado/ foi meu amor,/ que me disse assim:"que a flor do campo, o alecrim".

O perfume do alecrim selando os guardanapos brancos).

E, sobre tudo, a tarde esfuziante.

Foi assim que a ensolarada tarde de sbado - o melhor presente - exultou os 90 anos de Luiz de Paula Ferreira.

(E que, a rigor, s fechar a conta das 9 dcadas nesta quarta-feira, dia 27 de junho).

, sem favor, entre os montesclarense nascidos na Vrzea da Palma o mais montesclarense de todos.

Aquele que o fundador do Instituto Norte Mineiro de Educao, o professor Joo Luiz de Almeida, ele integrante do clebre Grupo Verde", de Rosrio Fusco e Ascnio Lopes - da sua Cataguazes natal, apontou como o melhor aluno da escola.

O menino, estudioso e ensimesmado, como sugere a foto, deixou a venda do pai, de ps no cho, e transformou-se, por esforo de autodidata aplicado, em industrial, poeta e compositor.

E agora, aos 90 anos, d os passos iniciais para a travessia do centenrio, depois de publicar dois livros inaugurais: Na Venda do Meu Pai e Momentos, to bem recebidos.

o autor celebrado que h 50 anos pode colher, ver e ouvir, por onde vai, a emoo que desperta sua msica Montes Claros Centenria, hino de, e a M. Claros, e que divide com a modinha Amo-te Muito o topo da inspirao musical desta musical cidade.

De Braslia, veio o amigo e vice-presidente da Repblica Jos Alencar juntar-se aos 300 parentes e amigos reunidos para a data que pediu, e obteve, msica romntica, tango, bolero e saudades.

Mesmo o convite veio em poesia, ltimo refgio da mente operosa, e onde o nonagenrio, estalando de novo em prontido fsica e mental, reencontra-se repetidamente:

"Ao retornar ao passado/ trilhas da lembrana/ a alma se faz criana/ revendo um mundo encantado./ Cada novo passo dado a um outro passo convida /e nessa marcha invertida /eu vou encontrando a esmo /os pedaos de mim mesmo /deixados ao longo da vida.


Foi (mais uma) tarde montesclarense autntica.

(E que se vo tornando raras, medida que as cidades identificou um dia o poeta tangenciam a hora dolorosa em que querem ser diferentes de si mesmas).

Com a esposa Isabel (a jovem professora que de fato criou o ensino superior em M. Claros, homenagem que lhe devida), e ao lado dos filhos todos, da famlia, dos amigos do peito, Luiz de Paula colheu, quem sabe na retina por vezes cansada, mas vvida, recolheu o que auto-psicografou no verso-convite.

E debaixo de ruidosos aplausos. Ouamos todos.

Na tarde esplndida de M. Claros. Tarde de sbado.

Ensolarada alta tarde de gala.


***

(Nas fotos, Luiz de Paula, Isabel e o amigo Alencar, vice-presidente, em torno dos 90 anos. E as gerberas)


25398
Por Paulo Narciso - 19/6/2007 12:53:26
Havia, havia na Catedral, ontem, na missa de 7 Dia do menino Sidney Jnior mais mulheres do que homens.

E, talvez, at mais crianas do que homens, homens feitos, digo.
E a igreja estava plena, cheia.

H muito noto o que ontem pde ser visto, confirmado.

As mulheres, que so as mes dos homens, as mulheres esto tomando a frente, adiantando-se entre todos, principalmente nos momentos de grande dor, como este.

O exemplo o de Simone Pacheco, tia do garoto imolado pelo viciado em drogas que transitava livremente pela cidade, embora j carregasse nas costas no importa se dbil mental ou no pelo menos um outro homicdio, candidamente confessado: a morte da mulher que no lhe deu o dinheiro que exigiu.

Simone, de olhos claros, vivos, de intenso vigor, e fulgor, a inspirar deciso e autoridade, foi quem liderou as buscas ao menino.

Chefiou a famlia, distribuiu misses, tratou com a polcia e se ps ela mesma frente da procura desesperada, urgente.

Chorando.
Sempre chorando.

Chorou, chorou, chorou.
Chorou sem parar por estes dias todos.
Desfaleceu de tanto chorar no cemitrio.
Chorou muito na missa de ontem.

Contudo, esta Joana DArc do Serto d sinais de que no se entregar.

Nada sugere que venha a recuar, a ceder, a transigir, a desistir.

Ao contrrio.

Do seu verde, limpo e alto olhar h luzes que apontam para outras direes.

Tiraram-lhe o sobrinho amado, redobraram-lhe a coragem.

bom guardar o seu nome.

As mulheres podem nos salvar.

Talvez apenas elas.

E entre elas, as mes, nicas com autoridade e fora para iar do despenhadeiro moral um Brasil que d mostras de que desmaia - inerte, abobado, perdido, irreconhecvel, extraviado, amputado do seu passado e distante do futuro que lhe foi antevisto pelos sonhadores de todos os tempos.


Ningum pode tanto quanto as mes, e parece que elas no esto mais dispostas a ceder um milmetro em defesa da vida; elas que so o centro deste prodgio humano/divino - a prpria vida.

Ao preo que for.
Custe o que custar, elas nos salvaro.

Ontem, na Catedral, todos viram: era delas a ao e delas a determinao.

Tudo comandavam.

Com serenidade e firmeza, arrancadas no se sabe de onde; com doura ainda, e imensas doses de energia, atitudes que comovem tanto quanto o drama do menino que ali nos levou e re-uniu.

O garoto imolado - preciso repetir - na manh ensolarada do Corpus Christi, numa rea povoada, conhecida e freqentada da cidade, o seu Parque de Exposies.

Aonde, historicamente, Montes Claros juntou as suas maiores multides de 40, 50, 60 mil pessoas, 80 mil.

Voltemos missa.

No houve ali, ontem, um estalido, um movimento, um mnimo gesto no encerro profundo delas, as mes, nada que pudesse ocultar ou sugerir o levante iminente, j a caminho.

Nenhuma insinuao de rebeldia, de revolta, de ira.

Os Dias de Ira, o dies irae (Dies irae, dies illa/solvet saeclum in favilla:teste David cum Sibylla), mantra do sculo 13, no arrostou os bancos apinhados da Catedral, tomados ontem pelas Mes.

Na imobilidade gestual de quem fala livremente com Deus, sempre e a ss, as mes exibiam, era possvel ver, um fragor secreto, a fora desconhecida que pode e vai nos salvar em breve, quando, talvez daqui mais um pouco, permitirem que soltem da garganta o grito lancinante que move o mundo, e o faz recomear.

E no para a vingana.

Mas para a reconstruo urgente do que se decompe.

No permitiro que seus filhos mais sejam mortos nas ruas.

Que seus maridos no voltem.

Que a porta da sua casa deixe de ser o territrio risonho da infncia, para modelar-se como ltimo recuo do medo.

As mes desconhecem o sentimento de covardia.

E o que acontece quando as mulheres, elas tambm, se calam, abafam o prprio rumor?

Ontem, na Catedral, centenas delas, em ordem, procuravam abraar a me do menino, em silncio.

E choravam.

Mais de uma tirou uma carta, lacrada em envelope, e a depositou s pressas nas mos da mater dolorosa da noite.

O que pretendiam dizer? O que disseram?

Certamente no constar l o desagrado pelo Dia de Luto Oficial que a prefeitura no quis, ignorou, pequeno gesto implorado pela tia, mas que untaria simbolicamente as dores de todos ns que sangramos com o martrio deste menino Sidney.

Bandeiras a meio-pau, a meio-mastro, so sempre dolorosas, rumorejam, rugem sobre a prpria ferida -, mas falam profundamente para dentro de ns.

Talvez nem a lei permitisse que o prefeito assim o fizesse, mas ele precisava dizer publicamente alguma coisa. Perdeu uma rara oportunidade de levantar-se, e de levantar a cidade prostrada, cada junto do menino.

Quando as mes escrevem cartas e as vo entregar, com dispensa das palavras pronunciadas pela boca, numa missa de 7 Dia, talvez queiram dizer mais do que toda a fontica capaz de explorar.

possvel entrever:

As mulheres, as mes do Brasil, j se movem em nosso socorro.


25363
Por Paulo Narciso - 18/6/2007 22:15:59

Dezenas de crianas que estavam dispersas pela Catedral foram convidadas para se assentarem nos degraus que levam ao altar, quando comeou exatamente s 18h30m, a missa em memria do menino Sidney Jnior, morto por um estuprador-drogado no dia do Corpus Christi, em Montes Claros.
A Catedral, o maior templo de Montes Claros, esteve repleta e silenciosa durante todo o ofcio, e um telo foi colocado na praa da Catedral, para que as pessoas do lado de fora pudessem acompanhar as celebraes pelo 7 Dia de Morte.
O padre Alvimar, que concelebrou a missa, iniciou sua mensagem repetindo as reiteradas lies de perdo de Jesus Cristo. Em mais de um trecho de sua fala admitiu que acontecimentos como estes, que nos enlutam, decorrem da podrido que avana. Citou inclusive os 38 recentes assassinatos ocorridos em Montes Claros s neste ano.
O pai do menino Sidney, de 10 anos, sua me, seu irmo, de 7, assistiram o ofcio religioso nas proximidades do altar.
A Seresta Joo Chaves cantou vrias vezes e de maneira especial emocionou ao convidar:

"(Nossa Senhora)

Cubra-me com seu manto de amor
Guarda-me na paz desse olhar
Cura-me as feridas e a dor
Me faz suportar
Que as pedras do meu caminho
Meus ps suportem pisar
Mesmo ferido de espinhos
Me ajude a passar
Se ficaram mgoas de mim
Me, tira do meu corao
E aqueles que eu fiz sofrer
Peo perdo
Se eu curvar meu corpo na dor
Me alivia o peso da cruz
Interceda por mim, minha Me
Junto a Jesus
Nossa Senhora me d a mo, cuida do meu corao
Da minha vida, do meu destino
Nossa Senhora me d a mo, cuida do meu corao
Da minha vida, do meu destino, do meu caminho
Cuida de mim
Sempre que o meu pranto rolar
Ponha sobre mim suas mos
Aumenta minha f e acalma
O meu corao
Grande a procisso a pedir
A misericrdia, o perdo
A cura do corpo e pra alma
A salvao
Pobres pecadores, oh Me
To necessitados de vs
Santa Me de Deus
Tem piedade de ns
De joelhos aos vossos ps
Estendei a ns vossas mos
Rogai por todos ns, vossos filhos
Meus irmos
Nossa Senhora me d a mo, cuida do meu corao
Da minha vida, do meu destino
Nossa Senhora me d a mo, cuida do meu corao
Da minha vida, do meu destino, do meu caminho
Cuida de mim
Nossa Senhora me d a mo, cuida do meu corao
Da minha vida, do meu destino
Nossa Senhora me d a mo, cuida do meu corao
Da minha vida, do meu destino, do meu caminho
Cuida de mim
Nossa Senhora me d a mo, cuida do meu corao
Da minha vida, do meu destino"

s 20h em ponto, quando terminou a missa (que teve a presena do prefeito Athos Avelino e de polticos), centenas de pessoas subiram para as escadarias do altar e abraaram, annimas, a comovida me do menino desaparecido e assassinado.
A igreja dispersou-se em silncio.
No houve protestos ostensivos.
Apenas faixas colocadas na frente da Catedral, no gradil.

Crianas, velhos, homens e mulheres, muitos, deixaram a igreja com os olhos vermelhos, ainda de choro.

H uma passeata e um protesto marcados para o prximo sbado nas ruas de montes Claros.


23620
Por Paulo Narciso - 10/5/2007 10:29:39

Uma inesquecvel noite de M. Claros pede o tambor ancestral dos Catops, o violino por si triste dos Marujos e a alegre algazarra de Caboclinhos. Requer, precata, msicas seresteiras de Joo Chaves e os bailados do Banz, jovens puxando de volta o passado que no passou.
Ontem, noite inesquecvel, foram chamados todos praa da Catedral para abrir as comemoraes dos 150 anos da cidade de Montes Claros, que ao assim se deixar chamar em 1857, por decreto imperial e curiosa particularidade, j era vila autnoma, dona do seu nariz e de sua bravura, com governantes seus, prprios. Nada anotei, ou anotei at que a noite se perdesse nos cus, transferida para a foguetada cvica, digamos, maravilha de milhares de brilhos e vidrilhos.
Vou tentar lembrar. O prefeito Athos fez a abertura e logo vieram os catops - os carroceiros-irmos Tono e Joo Faria puxando a turma, sem o fardamento escorreito, s aos santos reservado nos seus dias de agosto e glria. O Banz de Zez Colares puxou os aplausos da platia quando levantou as canes de dona Dulce Sarmento, to nossa, e quando, como fez a seresta em seguida, interpretou Montes Claros Centenria, do mestre Luiz de Paula, ali todo integral nos seus prximos e quase 90 anos. A seresta, antecipei, veio com dona Fina de Paula, desnecessariamente apoiada num cajado, regendo tudo, cantando, cantando alto, por si e por Virglio, ensinando, mostrando como se faz cultura sem nada pedir em troca.
Passeei o olhar em volta e vi, sim, que muito da histria de M. Claros de alguma forma transita como por toda parte - entre os 47 vivos tidos como herdeiros de outros 103, estes sim pioneiros/patriarcas listados como mortos, mas mais vivos do que nunca. (A histria, diga-se, transfere responsabilidades e uns, depois de outros, deixam as sombras e assumem o seu papel maior ou menor, no importa. Fazem o que tm a fazer, e no esperam reconhecimento algum porque cumprem o que lhes impe a conscincia. No perseguem gratido, e de igual forma no esto ao alcance da ingratido). Mas no isto o que espero dizer.
Abri estas linhas, no impuslo que tudo devora, para contar que vi dona Ruth Tupinamb Graa (foto). Que revi dona Ivone Silveira e doutor Oswaldo Antunes e Waldir Senna, e que ruidosamente vivei Luiz de Paula quando a velha Catedral, ela tambm, inclinou suas torres austeras para ouvir mais de perto, em silncio como todos, o Montes Claros Centenria hino desta cidade do "Amo-te Muito". Que burgo este, meu Deus, capaz de ostentar - com serena modstia - hinos to altos, cantados por todos, mundo afora?
Dona Ruth, ouso dizer, quem com maior graa e ternura conta hoje a nossa histria. Desce dos seus 91 anos para, com emoo e limpo e alto romantismo, narrar de onde partimos, a longa histria e travessia - a nos tomar pelas mos e nos conduzir por dias e noites, esplendor de sonhos. (Disse 91 anos, mas ningum acreditar. No usa culos sequer para enfiar linha na agulha, mora s, por gosto de governar-se, e quando serve-se da caneta para conversar, ningum capaz de lhe seguir). Quando a virem, reparem nos seus olhos. Neles, por fora do sonho-sonhos, no h mudana que se possa atribuir ao tempo 9 dcadas. A vida, certo, no reside no que pode ser visto e contemplado, pois alm transps. E ela, menina-catita de 90 anos, a todos isto ensina, com leve, encantador sorriso. Uma eterna princesa, em particular do nosso Chimbica, to lembrado.
No faz menos dona Ivonne Silveira, professora, mestra, herona de rosto ameno, sempre disponvel, amvel smbolo das mulheres de M. Claros, embora nascida no Brejo das Almas belo nome que precisa voltar. Me de todos ns, seus filhos por amor, escolha e declarao. Que dizer de doutor Oswaldo Antunes, rijo preceptor da maior bancada de homenageados ali nomeada, representao do "O Jornal de Montes Claros", sem pedir, sem insinuar, sem pretender, sem jamais ousar. Bancada apenas menor, e talvez, do que os de sobrenome Chaves incontrastavelmente instalados no zimbrio intelectual mximo desta nossa breve civilizao. (Monzeca, para no inchar a lista com seu sobrenome, discretssimo preferiu no deixar a ruela sua na cidade velha). Zimbrio que a todos acolhe, re-une sempre, domo, jardim de Academus.
De Luiz de Paula Ferreira, de alto estofo intelectual, repetirei para concluir e encerrar que as torres da Catedral se inclinaram longamente para ontem ouvir a sua poesia.
Foi, sim, uma noite inesquecvel, debaixo do suave luar de Outono. Cu que hoje se deixou enfarruscar de saudades, j de ontem 9 de maio. Montes Claros.
(Foto: Rdio Montes Claros 98 FM)


23372
Por Paulo Narciso - 2/5/2007 16:25:54
Tambm me lembro do dia em que - cedo demais - partiu Lucy Veloso, irm de Arinha, agora herona da fazenda das Quebradas. Menino de 10 anos, relutei em ir escola, exibir a dor; na volta, duramente sentido, pus as razes numa s pergunta - que adianta ir aula se ao voltar j no me aguarda a madrinha?. Era seu afilhado, de batismo, vizinho tambm, vivendo o primeiro grande embate - logo com a morte, morte repentina, frontal, sem prenncio algum. O aoite percorreu a avenida Coronel Prates, engolfou a risonha cidade. (Quatro dcadas depois, voltaria o azorrague na garupa do sbado enfarruscado e triste. Para afligir, tambm de tocaia, de emboscada, a avenida em si, e mat-la, sem aviso nenhum, lentamente, cerimoniosamente, num pensado ritual de tortura e suplcio, com as garras de ao sacudindo no ar rvores e lembranas, como a da Grande Dama. Rebrotar a avenida, como ela a Grande Dama ressurge em ns?). Na cabea do menino, ciciando, ficou a frase ouvida ao p do caixo, nunca esquecida: - "Ali dentro, junto do corpo, vo as cartas, todas, de Eldan, o filho amado. Por que cartas, meu Deus, embarcam num atade? Haver quem as recolha no Cu?


22867
Por Paulo Narciso - 14/4/2007 20:57:56
Um caminho dos Bombeiros levou ao cemitrio, no crepsculo anilado de hoje, o corpo de Geraldo Machado.
Conduziu mais do que um ex-presidente da Cmara e vereador de muitos mandatos.
Conduziu os despojos, o que ficou do desprendimento daquele que talvez tenha sido, na sua gerao, o herdeiro preferencial do chamado jucapratismo, nome que assinala (entre todos) os que tm por M. Claros o ilimitado amor. Fervor por Montes Claros.
Na Belo Horizonte do incio dos anos 70, jovem estudante de l7, Geraldo - ele j era Geraldo - no fazia segredo de que as preocupaes com as coisas da amada cidade tinham o sentido urgente de uma vida, e retornar aps o aprendizado era a direo absoluta. ramos assim.
As cartas que recebia da me, toda semana, numa poca das comunicaes difceis, iluminavam as manhs e transportavam a essencial luz montesclarina para a repblica da rua Guajajaras 720, reduto festivo dos estudantes que daqui foram buscar o que pretendiam repartir com os que ficaram, com os que no puderam ir saber.
As cartas da me zelosa diziam assim: Meu filho: aqui, j comea o frio, e das gavetas retiramos os primeiros agasalhos.
Tinham, as cartas, alm de luz, cheiro, cheiro de M. Claros.
amos, todos, l-las, em procisso; sorver as notcias da me e da terra-me, cartas que por um momento transportavam nossa cultura para l; cartas com fora capaz de invadir a rua, o quarteiro, o bairro e a cidade l deles. Fora afetiva.
Era a rao semanal do nimo que retinha nossos ps na capital e o corao mais longe, depois de transposto o rio das Velhas, no rumo norte.
O resto da histria sabido.

Ao ser entregue ao jazigo, hoje, prematuramente aos 53 anos, Geraldo ps fim a uma galharda luta contra a doena que, se lhe cingiu o corpo a uma cadeira de rodas, jamais o circunscreveu e o abateu.
Conservou e reteve a alegria de viver, e o integral entusiasmo, desconhecida bela palavra grega que no seu mais cavo sentido s pode significar ter Deus dentro de si.
Que o sigam. Amem.
Amm


***
(Hoje, o casal Bil/dona Tas devolveu o quarto filho ao Criador. Foi comovente ve-los, hericos, sair do Campo Santo, de braos dados, conduzindo, ou conduzidos, por uma fora que no se sabe de onde veio. Ao p da sepultura do pai, o filho mais velho repetia, debaixo de lgrimas grossas: "Viva Geraldo! Viva Geraldo! Viva Geraldo!". Vivaram todos).


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Por Paulo Narciso - 25/3/2007 19:53:48

Foi bonita a festa, p
Fiquei contente
E inda guardo, renitente
Um velho cravo para mim

Canta a primavera, p
C estou carente
Manda novamente
Algum cheirinho de alecrim

Queria descrever a festa que fizeram, ontem, para dona Nininha Souto. Com atraso, eu sei, mas festa suave para os 100 anos de, nome inteiro disposto, Maria Isaura Veloso Souto, completados em 2004, comemorados agora, quando foi possvel, adrede.
Zonzo pela beleza do lugar, e por eflvios, zonzo pela capelinha que luziu e balouou no ar, na manh e no campo azul que o cu alm destes montes, o que dou conta de lembrar, para relembrar, so os versos de Chico Buarque, na Revoluo dos Cravos, lembram-se ?
Foi bonita a festa, p!
To montesclarina, montesclarense.
Golpeada seguidamente, vi que a cidade e sua lembrana so capazes de ressurgir, de levantar-se, refeitas, remoadas - completas. De ares leves, na manh, para evocar doce Nininha, nascida em Fortaleza de Minas, quem sabe nascida no Gro Mogol.
Filhos, netos, bisnetos, sobrinhos, amigos, admiradores, rechamados ao bero para celebrar meiga matriarca, de olhos azuis e bondade infinitos.
Refizeram-lhe, com quase igual sempre apuro, e amor, as comidas-delcias que s ela conhecia. E no livro em que deitaram suas receitas e lies, agora pblicas, para proveito geral, tascaram no ttulo o resumo do que a festa de ontem foi Doces Lembranas (copyright Rosalva Souto & Colaboradores).
assim que, de tempos em tempos, Montes Claros restaura-se.

Ala-se, com graa e com doura, para dizer que se refugiou, abrigou-se, na regio dos refolhos. De onde vir, sempre que chamada. "Ai, por quem s, desce do cu...."

***
(Na foto dos anos 20, dona Nininha, o marido Joo Souto e os primeiros dos muitos filhos do casal).


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Por Paulo Narciso - 6/8/2006 16:37:23
Jos Fialho Pacheco

Este o nome do mais brilhante reprter de Minas, um dos mais importantes do Brasil no sculo XX.

Conhecido e reconhecido como Fialho Pacheco, disparado o recordista do Prmio Esso de Jornalismo em Minas, com 5 lauris, apesar de ter chegado profisso aos 42 anos.

Tinha, e incompleto, o curso secundrio, mas ningum no seu tempo foi capaz, ou ousou, cobrir um acontecimento - especialmente na rea policial - como ele, um autodidata nascido em Manhuau, filho de juiz e que, na juventude, foi sargento do Exrcito na Amazonia.

Nos seus anos ltimos, ainda teve tempo, coragem e ousadia para ser prefeito da diminuta cidade de Juramento, muito prxima de Montes Claros, para onde o levou o amor.

Distante fisicamente das redaes, e nunca do ofcio de reprter, Fialho conservou entre os mais exigentes profissionais do seu tempo o elevado conceito de reprter imbatvel, infatigvel, vibrante, campeo de "furos" e da boa informao.

Partiu em 1 de fevereiro de 1989, dias depois de sofrer um derrame cerebral, ainda na primeira manh, quando tombou sobre a mquina de escrever - uma extenso de sua vida de reprter animoso.

Seu corpo repousa no cemitrio de Montes Claros, cemitrio palavra grega que significa lugar de dormir, dormitrio.

A frase exemplar na lpide resume a essncia daquele cujo corpo ali repousa: "A vida de um jornalista um varal ao sol . Jornalista sem vocao como o mdico que se formou porque atendeu aos apelos do pai. Um bisturi na mo de uma pessoa sem vocao o mesmo que uma caneta na mo de quem no gosta de ser reprter". Pura verdade.

A lenda sobre Fialho Pacheco, a legenda do homem e do reprter que amou e perseguiu a notcia como ningum, prossegue entre os que tiveram a ventura de conviver com ele na redao e ao longo de memorveis reportagens.

Na velha redao do jornal Estado de Minas, no distante 2 de dezembro de 1974, ele datilografava freneticamente um texto, usando apenas os dedos indicadores. Ao fim do trabalho, com o cigarro que eternamente pendia dos seus lbios (sem nunca tragar), Fialho se encaminhou para um jovem colega e entregou-lhe 8 laudas, datadas e assinadas.

Era o seu memorial, finalizado de surpresa 15 anos antes de tombar sobre a mquina de escrever, na casa de Juramento.

So as pginas que se vai ler a seguir.

Foram cerimoniosamente guardadas por 32 anos pelo menino que as recolheu do homem que tinha, naquela hora, lgrimas nos olhos. Por que ? Nunca soube.

Parecia apenas segredo de amigo para amigo.

Fialho - apesar da linguagem intimista, quase confessional - nunca revelou o que pretendia com o gesto. Tambm no lhe foi perguntado.

Restou a lembrana, vvida, de uma cerimnia muda, rpida, intensa, que dura por uma vida inteira. Restaram outras lembranas.

Os dois haviam se conhecido na redao do jornal, no comeo dos anos 70, e tornaram-se inseparveis amigos, atuando em dupla - at o fim.

Eis Fialho Pacheco, por ele mesmo:

Fialho Pacheco


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Selecione o Cronista abaixo:
Avay Miranda
Iara Tribuzi
Iara Tribuzzi
Ivana Ferrante Rebello
Manoel Hygino
Afonso Cludio
Alberto Sena
Augusto Vieira
Avay Miranda
Carmen Netto
Drio Cotrim
Drio Teixeira Cotrim
Davidson Caldeira
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